Futuro da Amazônia sobre grave risco

Artigo no “New York Times” alerta sobre os impactos da vitória de Jair Bolsonaro sobre florestas e povos tradicionais

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O jornal estadunidense “The New York Times” publicou hoje um artigo assinado pela jornalista especializada sobre questões relacionadas ao clima da Terra, Somini Sengupta, onde é assinalado que o futuro da floresta Amazônica deverá ser uma das principais vítimas da vitória de Jair Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais de 2018 [1].

times sengupta

Somini Sengupta lembrou aos leitores do “New York Times” que Bolsonaro que durante a atual campanha, Bolsonaro prometeu patrocinar o poderoso setor de agronegócio de seu país, que busca abrir mais florestas para produzir a carne bovina e soja que o mundo exige.  Ela lembrou ainda que Bolsonaro já aventou  a possibilidade de sair do Acordo Climático de Paris.  Sengupta aponta que mesmo que Bolsonaro não cumpra esta meta, suas promessas de campanha podem ter conseqüências terríveis para a Amazônia e, portanto, para o resto do planeta.  É que estendendo-se por dois milhões de quilômetros quadrados, a maior parte no Brasil, a Amazônia atua como um gigantesco sumidouro para as emissões de dióxido de carbono que o mundo como um todo produz.

Além disso, o artigo lembra que Bolsonaro disse que vai descartar o Ministério do Meio Ambiente, que tem o mandato de proteger o meio ambiente, e, ao invés disso,  colocar as questões ambientais sob a autoridade  do Ministério da Agricultura,  uma opção que tende a favorecer os interesses daqueles que convertem florestas em terras agrícolas.

Segunda lembra Segunpta, ainda que  Bolsonaro rejeita a ideia de separar as terras cobertas por florestas para os povos indígenas que  há séculos vivem na Amazônia, prometendo que “não haverá um centímetro quadrado demarcado como uma reserva indígena” se ele for eleito.

A jornalista lembra que estudos recentes mostram que as reservas florestais controladas por povos indígenas em muitos países fornecem algumas das melhores defesas contra o desmatamento.  Mas ela aponta que Bolsonaro vê outros usos da floresta. “Onde há terra indígena”, ele disse, “há riqueza debaixo dela”. Segunda aponta que, de fato, muito antes de Bolsonaro declarar sua candidatura à presidência, o Brasil estava recuando em suas políticas ambientais.  Políticos de esquerda têm tido cada vez menos voz  para reivindicar recursos em terras indígenas, por exemplo,  mas que a demarcação de reservas diminuiu com a ex-presidente Dilma Rousseff, enquanto as taxas de desmatamento começaram a subir paulatinamente. Além disso, uma recessão incapacitante também causou danos, resultando na redução drástica do financiamento para o Ministério do Meio Ambiente. 

Em conclusão, Sengupta lembrou ainda que uma análise feita por cientistas brasileiros descobriu que se as atuais tendências ambientais continuarem no país, o Brasil não cumprirá suas metas de redução de emissões sob o Acordo de Paris. E a Global Witness, em colaboração com o jornal The Guardian, considerou o Brasil o lugar mais letal para os defensores dos direitos ambientais.

De minha parte, lembro que em 2003 escrevi um artigo logo após uma visita do ex-presidente Lula onde ele fez uma série de considerações sobre o que seria depois chamado de “Neodesenvolvimentismo” e de suas repercussões para a floresta amazônica. Disse naquele artigo que nas declarações de Lula estava antecipada mais uma morte anunciada da Amazônia em função do que poderia ser a retomada de uma visão desenvolvimentista na década de 1950. 

Quinze anos depois me vejo defrontado não com a possibilidade de retorno a 1950, mas ao início do Século XVI quando os portugueses chegaram inicialmente às costas da Bahia. É que a visão não apenas de Bolsonaro mas também dos generais que o assessoram assemelha-se ao que o pesquisador estadunidense denominou de paradigma da “Economia de Fronteira” [2].  Com base nesse paradigma não estarão ameaçadas as florestas amazônicas, mas principalmente os povos indígenas e comunidades tradicionais que vivem no seu interior e margens. Esses serão vítimas inevitáveis do avanço de madeireiros, garimpeiros e latifundiários que se sentirão livres para pilhar tudo o que for possível, antes que qualquer medida possa ser tomada para contê-los.

Meus quase 20 anos de experiência com trabalhos de campo em diferentes partes da Amazônia brasileira não deixam dúvidas que teremos um avanço inédito nas mortes de membros dos povos tradicionais e de lideranças ambientais. E, claro, um aumento explosivo nas taxas de desmatamento e degradação nas florestas amazônicas. Os custos sociais, econômicos e ambientais dessa aplicação da “Economia de fronteiras”  serão altíssimos. Não tenho dúvidas ainda de que caso esse cenário seja confirmado, o Brasil passará a ser tratado com um pária pela maior parte dos países com que hoje comercializa suas commodities agrícolas e minerais. É que, a despeito da economia demandar os produtos brasileiros, a geopolítica ditada pelas mudanças climáticas que estão em curso tornarão inevitáveis a aplicação de medidas punitivas contra o Brasil.


[1] https://www.nytimes.com/2018/10/17/climate/brazil-election-amazon-environment.html?action=click&module=Discovery&pgtype=

[2]  https://pdfs.semanticscholar.org/a009/5c7512bef739455a6980a73ca52d458a7d6c.pdf

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