The Guardian revela que erro de projeto poderá levar a desastre devastador em Belo Monte

Projeto de Belo Monte tem erro de design e ‘representa séria ameaça à vida’

A Norte Energia enfrenta a escolha de enfraquecer a barreira de 14 km ou potencialmente devastar um hotspot de biodiversidade

Por Jonathan Watts de Belo Monte 

O maior projeto hidrelétrico construído na Amazônia brasileira tem uma falha de design que representa uma ameaça “muito séria” à vida humana e a ecossistemas de importância global, de acordo com documentos e testemunhos de especialistas recebidos pelo jornal “The Guardian”.

Os estudos sugerem que os engenheiros não conseguiram antecipar o impacto da escassez de água na barragem de Pimental, em Belo Monte, que foi fechada e transformada em barreira. Isso está forçando os operadores a escolher entre um enfraquecimento estrutural da barreira de terra compactada de 14 km de largura e uma realocação de água no reservatório ou no Rio Xingu, que abriga comunidades indígenas, aldeias de pescadores e algumas das mais ameaçadas do mundo. espécies.

Um analista disse que havia risco de ruptura e, mesmo antes da publicação do relatório, os promotores federais estavam se preparando para pedir a suspensão do projeto. Eles também pretendem apelar ao governo brasileiro por ajuda humanitária de emergência para apoiar populações ribeirinhas que sofreram um declínio devastador da população de peixes dos quais dependem para nutrição e renda.

Após décadas de resistênciae R$ 40 bilhões  (8 bilhões de dólares) em investimentos, a quarta maior usina hidrelétrica do mundo deve ter a última de suas 18 turbinas instaladas este mês, mas os níveis de água abaixo do previsto nos reservatórios da barragem criaram um imprevisto problema estrutural, além de preocupações ambientais, sociais e econômicas de longa data.

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O “The Guardian” e o El País  tiveram acesso a um relatório recente da Norte Energia alertando que a queda nos níveis de água nas últimas semanas expôs uma seção vulnerável da parede da barragem de Pimental, separada da barreira que abriga a maioria das turbinas, a ondas que às vezes se formam durante tempestades tropicais ou ventos fortes soprando através do reservatório.

O documento de 11 de outubro – ação urgente para controlar o nível do reservatório da UHE Belo Monte Xingu – é assinado pelo CEO da Norte Energia e endereçado ao chefe da agência nacional de água. Ele afirma que o nível da água caiu no dia anterior para 95,2 metros críticos, o que representa um risco de que as ondas “atinjam áreas da barragem não protegida por rochas”. Ele pede permissão para mais água do reservatório intermediário, um movimento que colocaria mais pressão em uma hidrologia já tensa.

Após dois desastres mortais de barragens de rejeitos nos últimos anos em Brumadinho e Mariana, a situação incerta levou os especialistas a convidar as autoridades brasileiras a aumentar o monitoramento da barragem, tomar medidas corretivas e esclarecer a magnitude do risco para o público.

André Oliveira Sawakuchi, do Departamento de Geologia Sedimentar e Ambiental da Universidade de São Paulo, disse que não está claro se os danos estruturais podem ocorrer dentro de semanas, meses ou anos, mas o pedido de ação imediata do relatório sugeriu que a ameaça era muito séria.

Suas preocupações foram ecoadas por Francisco del Moral Hernandez, especialista em ciências da energia que coordenou um painel de especialistas em Belo Monte em 2009. “Sempre soubemos que esse projeto é ineficiente do ponto de vista da geração de energia. O que não imaginamos é a fraqueza da engenharia civil ”, afirmou. “Se eu estivesse morando a jusante da barragem, me mudaria para o rio … É absurdo que isso não estivesse previsto.”

belo 1Partes do rio Xingu já são praticamente inavegáveis. Foto: Fábio Erdos / The Guardian

O relatório diz que o problema surgiu como resultado de fluxos de água incomumente baixos no reservatório, com vários dias no início de outubro quando caiu para 750 metros cúbicos por segundo. Isso está substancialmente abaixo do mínimo de 1.000 metros cúbicos por segundo que os documentos de planejamento dizem ser necessário para garantir a qualidade da água nos reservatórios e descarga a jusante suficiente para garantir um ecossistema saudável, inclusive para um refúgio de tartarugas, e navegação de comunidades indígenas e ribeirinhas.

Hernandez e Sawakuchi disseram que os planejadores estavam otimistas demais, porque dados históricos mostraram que o rio Xingu estava mais baixo em pelo menos quatro ocasiões durante os 50 anos anteriores ao início da construção. Prevê-se que as mudanças climáticas cortem os fluxos de água em cerca de 30% até 2050. “É muito estranho que esses problemas não estivessem previstos”, disse Sawakuchi. “Os riscos estruturais são uma surpresa.”

O projeto de Belo Monte tem sido afetado por problemas desde o seu início, durante a era da ditadura militar brasileira. Comunidades indígenas e ribeirinhas se aliaram ao sistema de barragens, que bloqueia um dos maiores afluentes da Amazônia com 2,1 milhões de toneladas de concreto e 79,2 milhões de metros cúbicos de terra.

belo 2Um pescador local guarda peixes mortos que encontrou nas margens do rio Xingu, no estado do Pará, Brasil. 5 de novembro de 2019. Fotografia: Fábio Erdos / The Guardian

Ambientalistas e cientistas alertam que isso iria devastar um dos hotspots de biodiversidade mais exclusivos do mundo. Os economistas questionaram a viabilidade de um esquema pago com fundos de pensão e receita tributária, mas projetado para funcionar com apenas 40% de sua capacidade de 11.200 MW. Os promotores envolvidos na investigação de corrupção conhecida como “Lava Jato” descobriram que os empreiteiros de Belo Monte recebiam taxas inflacionadas em troca de propinas a partidos políticos.

 

Ativistas disseram que as autoridades ambientais emitiram uma licença para a barragem, apesar dos avisos científicos e das preocupações de sua própria equipe técnica. “À medida que os detalhes do escândalo de corrupção se desdobram, as motivações subjacentes a essas decisões imprudentes se tornaram abundantemente claras, bem como suas conseqüências trágicas”, disse Brent Millikan, da International Rivers.

belo 3Os níveis de água no rio Xingu já estão tão baixos que os habitantes locais precisam arrastar os barcos por algumas das áreas mais rasas. Foto: Fábio Erdos / The Guardian

Em uma pequena ilha no rio, mais de 50 moradores chegaram de barco na semana passada para testemunhar os problemas causados pela barragem. Além de aumentar a fome e diminuir a renda, vários disseram que sofreram depressão como resultado do súbito colapso da paisagem ribeirinha com a qual cresceram. “Tudo está piorando”, disse Sarah Rodrigues de Lima. “Eu pesco aqui há 35 anos, mas todos os peixes fugiram. O rio está secando.

Outros descreveram como costumavam capturar o Filhote, uma das espécies mais apreciadas do rio, pesando mais de 100 kg antes da barragem, mas agora raramente capturam um dos 20 kg. O próximo ano será ainda pior. Este será o início de um novo sistema de gestão da água que priorizará a barragem e o ecossistema em anos alternados. Mesmo no seu melhor cenário, a volta grande terá menos água de pico das chuvas do que durante a seca severa de 2016, que matou tantos peixes que os habitantes locais chamam de “ano do fim do mundo”.

O novo sistema “transformará o rio em cemitério”, disse Cristiane Costa, bióloga que trabalha no escritório do promotor público. “Eles estão gerando energia às custas do ecossistema e das pessoas.”

O aquecimento global aumentará a luta pela água. O governo, no entanto, quer mais exploração dos recursos da Amazônia. O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, que planeja participar da cerimônia de conclusão de Belo Monte, enfraqueceu as proteções ao meio ambiente e às comunidades indígenas. Os políticos locais o instarão a avançar com outro megaprojeto na volta grande, uma nova mina de ouro gigante chamada Belo Sun, que seria movida pela barragem.

A Norte Energia afirmou em comunicado que “cumpre rigorosamente” as condições de sua licença ambiental. A agência nacional de água e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis não responderam ao pedido de comentário do  “The Guardian”.

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Este artigo foi publicado originalmente em inglês pelo jornal britânico “The Guardian” [Aqui!].

Desmatamento aumenta em quantidade recorde na Amazônia brasileira

Ambientalistas temem que 2019 seja um dos piores anos para o desmatamento na memória recente

desmatamentoInspetores ambientais percorrem uma área afetada pela mineração ilegal no estado do Pará, na bacia amazônica do Brasil. A floresta tropical perdeu 739 km² durante os 31 dias de maio Foto: Vinicius Mendonça / AP

Por Jonathan Watts para o “The Guardian”

O desmatamento da Amazônia brasileira subiu no mês passado para o nível mais alto de um mês de maio desde o início do atual método de monitoramento, gerando preocupações de que o presidente Jair Bolsonaro esteja dando um passe livre para extração ilegal de madeira, e para a ampliação da agricultura e da mineração.

A maior floresta tropical do mundo – que é um fornecedor vital de oxigênio e sequestro de carbono – perdeu 739 km2 durante os 31 dias de maio de 2019, o equivalente a dois campos de futebol a cada minuto, de acordo com dados da agência de monitoramento por satélite do governo, o INPE.

Embora um único mês seja curto demais para confirmar as tendências de longo prazo, o mês de maio é considerado um guia importante porque marca o início da estação seca, que é quando a maior parte das queimadas e outras formas de desmatamento são realizadas.

A menos que o governo envie um sinal claro de que não tolerará uma nova aceleração, os ambientalistas temem que nos próximos meses haverá um aumento que poderia tornar 2019 um dos piores anos de desmatamento na memória recente.

“O governo não pode negar esses números de sua própria agência. A questão agora é o que eles farão a respeito ”, disse Carlos Souza, do grupo de monitoramento independente Imazon. “Até o final de julho, teremos uma ideia clara do impacto dos recentes movimentos para desmantelar as políticas ambientais. ”

Desde que o político de extrema direita Jair Bolsonaro assumiu a presidência do Brasil em janeiro, ele enfraqueceu o Ministério do Meio Ambiente, afrouxou os controles sobre a exploração econômica da Amazônia, interrompeu a demarcação da terra indígena e incentivou os interesses da mineração e da agricultura a se expandir na região.

Como o presidente Jair Bolsonaro criticou o IBAMA, a principal agência de monitoramento do governo como uma “indústria de multas”, este órgão emitiu menos penalidades do que em qualquer momento em 11 anos e o número de operações de inspeção caiu 70% em relação ao ano passado.

O ministro do Meio Ambiente do governo Bolsonaro, Ricardo Salles, que foi condenado por fraude ambiental e nunca visitou a região amazônica antes deste ano, minou ainda mais o moral dos servidores do IBAMA ao não nomear chefes regionais e demitir inspetores veteranos. No início desta semana, o jornal Folha de São Paulo informou que ele estava se movendo para privatizar o monitoramento por satélite da floresta amazônica.

Ricardo Salles também tem irritado os governos da Noruega e da Alemanha, ao propor que a voz da sociedade civil seja enfraquecida ao decidir como o Fundo Amazônia, que possui fundos de US $ 1,3 bilhão, será gasto.

No congresso, o dominante lobby agrícola está pressionando por mais relaxamentos, incluindo o desmantelamento do sistema de áreas protegidas.

O filho mais velho de Bolsonaro, Flavio, que é senador, recentemente propôs uma reforma do Código Florestal que eliminaria a obrigação dos agricultores na Amazônia de manter a cobertura florestal em 50-80% de sua propriedade. Esta medida abriria uma área maior do que o Irã para as indústrias extrativas. Uma onda crescente de reclamações de terras especulativas está sendo registrada dentro das reservas, o que está colocando mais pressão sobre as fronteiras.

“O aumento do desmatamento é deprimente, mas não é surpreendente: você tem um governo no Brasil que está desmantelando quase todas as políticas ambientais implementadas desde 1992, e que está perseguindo agentes ambientais federais, fortalecendo os criminosos ambientais”, disse Carlos Rittl, executivo secretário do Observatório do Clima, uma ONG formada por uma coalizão de grupos ambientalistas. “No entanto, devemos esperar e ver como vai se comportar em junho.”

Outros fatores podem ter contribuído para o aumento. Os primeiros meses deste ano foram nublados e chuvosos, o que dificultou o monitoramento por satélite, então algumas áreas podem ter sido perdidas por varreduras anteriores. O mau tempo também pode ter levado os madeireiros e fazendeiros a adiar o desmatamento até maio. A economia, que muitas vezes é uma propulsora do desmatamento durante os períodos de alta nos preços da carne bovina e da soja, também está em crise, embora Bolsonaro tenha indicado que o agronegócio pode ajudar a elevar o Brasil em direção ao crescimento positivo.

A esse respeito, ele está ecoando e ampliando a mensagem de seus predecessores como presidente, Dilma Rousseff e Michel Temer, ambos presidindo períodos de desmatamento acelerado, à medida que se tornaram dependentes do lobby rural e das exportações de commodities para a China e a Europa.

Outro fator é a expansão de projetos de infraestrutura, incluindo estradas e usinas hidrelétricas. O estado brasileiro que sofreu o maior desmatamento no mês passado foi o Pará, que abriga a rodovia BR-163 através da Amazônia e a barragem de Belo Monte.

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Mudanças climáticas: estudo diz que riscos do ‘efeito dominó’ dos pontos de inflexão são maiores do que tradicionalmente se acredita

Cientistas alertam os políticos para não ignorar os links, e enfatizam que “toda ação conta”

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Quando o gelo ártico derrete, menos luz solar é refletida, o que aumenta a temperatura global e aumenta o risco de incêndios florestais. Foto: Mario Tama /Getty Images

Por Jonathan Watts para o jornal “The Guardian” [1]

Os formuladores de políticas subestimaram severamente os riscos dos pontos de inflexão ecológicos, de acordo com um estudo que mostra que 45% de todos os possíveis colapsos ambientais estão interrelacionados e podem se ampliar mutuamente.

Os autores disseram que seu artigo, publicado na revista Science, destaca como os sistemas naturais sobrecarregados e sobrepostos se combinam para gerar um número crescente de surpresas indesejáveis.

“Os riscos são maiores do que o suposto porque as interações são mais dinâmicas”, disse Juan Rocha, do Centro de Resiliência de Estocolmo. “A mensagem importante é reconhecer a gravidade do problema que a humanidade enfrenta.”

O estudo reuniu pesquisas existentes sobre transições de ecossistemas que podem irreversivelmente virar para outro estado, como o branqueamento de corais e a invasão de algas, as florestas se transformando em savanas e camadas de gelo derretendo nos oceanos. Em seguida, ele cruzou os 30 tipos de mudanças para examinar os impactos que elas poderiam ter um sobre o outro e sobre a sociedade humana.

Apenas 19% das mudanças verificadas foram totalmente isoladas. Outros 36% compartilharam uma causa comum, mas provavelmente não interagiram. Os 45% restantes tinham o potencial de criar um efeito dominó unidirecional ou feedbacks reforçados mutuamente.

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A destruição de recifes de corais pode enfraquecer as defesas costeiras e expor as florestas de mangue a danos. Foto: Greg Torda / Centro de Excelência ARC para Estudos de Recifes de Coral

Entre os últimos casos de combinação entre efeitos das mudanças climáticas estão os lençóis de gelo do Ártico e as florestas boreais. Quando o primeiro derrete, há menos gelo para refletir o calor do sol, de modo que a temperatura do planeta aumenta. Isso aumenta os riscos de incêndios florestais, que descarregam carbono no ar que aumenta o efeito estufa, que derrete mais gelo. Embora geograficamente distantes, cada um amplifica o outro.

Por outro lado, um impacto unidirecional do tipo dominó é aquele entre recifes de corais e florestas de mangue. Quando os primeiros são destruídos, enfraquece as defesas costeiras e expõe mangues a tempestades e ondas oceânicas.

O desmatamento da Amazônia é responsável por múltiplos “efeitos em cascata” – enfraquecendo os sistemas de chuva, as florestas tornando-se savanas e reduzindo o suprimento de água para cidades como São Paulo e culturas no sopé dos Andes. Isso, por sua vez, aumenta a pressão por mais desmatamento.

Até recentemente, o estudo dos pontos de inflexão era controverso, mas é cada vez mais aceito como uma explicação para as mudanças climáticas que estão acontecendo com mais velocidade e ferocidade do que os modelos computacionais anteriores previam. A perda de recifes de corais e o gelo marinho do Ártico já pode estar além do ponto de não retorno. Há sinais de que a Antártica está seguindo o mesmo caminho mais rápido do que se pensava.

O co-autor Garry Peterson disse que o depósito de gelo na Antártica ocidental não estava no radar de muitos cientistas 10 anos atrás, mas agora havia provas contundentes dos riscos – incluindo perdas de pedaços de gelo do tamanho de Nova York – e alguns estudos agora sugerem que o ponto de inflexão já pode ter sido passado pelo manto de gelo do sul, que pode agora liberar carbono na atmosfera.

“Estamos surpresos com a taxa de mudança no sistema da Terra. Tanta coisa está acontecendo ao mesmo tempo e em uma velocidade maior do que poderíamos pensar 20 anos atrás. Isso é uma preocupação real”, disse Peterson. “Estamos indo cada vez mais rápido para a beira de um precipício.”

A quarta pesquisa acadêmica mais baixada de 2018 foi o artigo Hothouse Earth, que considerou como os pontos de inflexão poderiam se combinar para levar o clima global a um estado inabitável [2].

Os autores do novo artigo dizem que seu trabalho vai além dos estudos climáticos, mapeando uma ampla gama de pontos de estresse ecológico, como a perda de biodiversidade, a expansão agrícola, a urbanização e a erosão do solo. Também se concentra mais no que está acontecendo no nível local agora, ao invés de projetar tendências geo-planetárias no futuro.

“Estamos vendo coisas que afetam as pessoas em suas vidas diárias. São coisas que estão acontecendo hoje”, disse Peterson. “Há uma mensagem positiva, pois amplia o leque de opções de ação. Não é apenas a nível internacional. Os prefeitos também podem fazer a diferença, abordando a erosão do solo, ou implementando políticas sociais que causem menos estresse ao meio ambiente ou construindo defesas costeiras naturais”.

Rocha passou 10 anos construindo um banco de dados de pontos de inflexão, ou “mudanças de regime”, como ele os chama. Ele insta os formuladores de políticas a adotarem uma abordagem interdisciplinar semelhante para que possam entender melhor o que está acontecendo.

“Estamos tentando conectar os pontos entre diferentes comunidades de pesquisa”, disse Rocha. “Os governos também precisam olhar mais para as interações. Eles devem parar de compartimentar os ministérios como a agricultura, a pesca e as relações internacionais e tentar administrar os problemas ambientais abraçando a diversidade de causas e mecanismos subjacentes a eles. As políticas precisam corresponder à escala do problema.

“É um pouco deprimente saber que não estamos em uma trajetória para manter nosso ecossistema em um estado funcional, mas essas conexões também são motivo de esperança; uma boa gestão em um só lugar pode prevenir a degradação ambiental grave em outros lugares. Cada ação conta.

Este artigo foi originalmente publicado em inglês pelo jornal “The Guardian” [1]


[2] https://www.pnas.org/content/115/33/8252

Sob a liderança de Bolsonaro, Brasil “renega” organizar conferência climática da ONU

E ruma para se tornar pária ambiental mundial.

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O fato era mais do que previsível, mas mesmo assim não deixa de demonstrar os riscos que o Brasil está correndo de se tornar um pária ambiental no planeta. Falo aqui do abandono do pleito de organizar a 25a. Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (a COP 25) que deverá ocorrer em 2019, agora em lugar ignorado.

É que com o presidente eleito e seu ministro das relações exteriores se alinhando ao presidente estadunidense Donald Trump na negação das mudanças climáticas iria ser mesmo estranho vê-los participando dos trabalhos da C0P25 e, ainda por cima, em solo brasileiro.

Apesar da coerência, essa decisão terá econômicos e políticos para o Brasil mesmo antes de Jair Bolsonaro assumir o poder. O jornal “The Guardian” foi rápido no gatilho e já publicou um artigo na madrugada desta 4a. feira (28/11) sob o título ” Brasil renega em hospedar as negociações climáticas da ONU sob a presidência de Bolsonaro” [1]. A matéria assinada por Jonathan Watts acrescenta, entre outras coisas, que  “a reversão vem dois meses depois que o país concordou em sediar a conferência COP25 em 2019 – e um mês depois que o cético climático de extrema direita ganhou a eleição presidencial brasileira“. 

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O problema para a já combalida brasileira é que esse abandono da COP25 sinalizará para muitos de nossos parceiros comerciais preocupados com as mudanças climáticas que vem mais desmatamento e outras formas de degradação ambiental sob a batuta de Jair Bolsonaro. E, isto, queiram, ou não, Bolsonaro ou seu ministro de Relações Exteriores que optaram por seguir o rumo negacionista do governo Trump, deverá impactar decisões em curso sobre novos investimentos proodutivos no Brasil. É que ao contrário dos EUA, o Brasil não tem nem musculatura econômica nem militar para impor as teses negacionistas sobre as mudanças climáticas.

Aliás, importante nesse caso é ler a nota emitida pelo “Observatório do Clima” que é uma das organizações mais influente nos debates sobre as mudanças climáticas no Brasil [2] . A nota vai na mesma linha de constatar que a opção ideológica de negar as evidências científicas acerca do processo em curso de mudanças climáticas que, no caso do Brasil, deverá atingir a base produtiva agrícola e as populações mais social e economicamente frágeis.

Como bem afirma a nota do “Observatório do Clima”,  o futuro governo federal ao “ignorar a agenda climática, o governo federal também deixa de proteger a população, atingida por um número crescente de eventos climáticos extremos. Estes, infelizmente, não deixam de ocorrer só porque alguns duvidam de suas causas.

Ao latifúndio agro-exportador que tanto depende do comércio exterior, eu sugiro “já ir se acostumando” com a falta de mercados para seus produtos por causa das decisões tresloucados de quem o setor ajudou a colocar no poder.  A ver!


[1] https://www.theguardian.com/world/2018/nov/28/brazil-reneges-on-hosting-un-climate-talks-under-bolsonaro-presidency

[2] http://www.observatoriodoclima.eco.br/nota-oc-sobre-desistencia-brasil-de-sediar-cop25-da-conferencia-clima-da-onu/

 

 

Cientista revela projeto para salvar abelhas e enriquecer agricultores

Especialista informará ONU que o plantio urgente de flores silvestres atrai polinizadores e estimula as plantações de alimentos dos agricultores 

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Populações de abelhas despencaram em todo o mundo. A conferência da ONU debaterá formas de reduzir o uso de pesticidas nocivos. Foto: Michael Kooren / Reuters

Por Jonathan Watts para o “The Guardian” [1]

O colapso das populações de abelhas pode ser revertido se os países adotarem uma nova estratégia favorável aos agricultores, disse o arquiteto de um novo masterplan para polinizadores na conferência da biodiversidade da ONU nesta semana.

Stefanie Christmann, do Centro Internacional de Pesquisa Agrícola em Áreas Secas, apresentará os resultados de um novo estudo que mostra ganhos substanciais em renda e biodiversidade, desde a colheita de um quarto de terra cultivável até o florescimento de culturas econômicas, como especiarias, sementes oleaginosas, plantas medicinais e forrageiras.

A Conferência das Partes no âmbito do Convenção sobre a Diversidade Biológica da ONU já está debatendo novas diretrizes sobre polinizadores que recomendarão a redução gradual do uso de pesticidas existentes, mas a pesquisa de Christmann sugere que isso pode ser feito sem dor financeira ou perda de produção.

A necessidade de uma mudança é cada vez mais evidente. Mais de 80% das culturas alimentares requerem polinização, mas as populações de insetos que fazem a maior parte deste trabalho entraram em colapso. Na Alemanha, esta queda é de até 75% nos últimos 25 anos. Porto Rico tem visto um declínio ainda mais acentuado. Os números não estão disponíveis na maioria dos países, mas quase todos relatam um declínio alarmante.

As respostas dos governos nacionais variaram muito. No início deste ano, o Brasil, um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, retrocedeu quando congressistas pró-agronegócio votaram pelo levantamento das restrições aos pesticidas proibidos em outros países.

Em contraste, a União Européia proibiu os inseticidas mais amplamente usados no mundo – conhecidos como neonicotinóides, e muitos países europeus estão plantando flores silvestres para atrair insetos.

Mas essa política é cara e traz pouca ou nenhuma renda para os agricultores. Christmann passou os últimos cinco anos trabalhando em uma abordagem diferente, que ela chama de “agricultura com polinizadores alternativos”, com testes de campo no Uzbequistão e no Marrocos. 

A essência da técnica é dedicar uma em cada quatro faixas de cultivo a cultivos de flores, como sementes oleaginosas e especiarias. Além disso, ela fornece aos polinizadores apoio aninhado barato, como madeira velha e solo batido que as abelhas que nidificam no solo podem se enterrar. Girassóis também foram plantados nas proximidades como abrigos de vento. 

“Há uma barreira muito baixa para que qualquer um, mesmo no país mais pobre, possa fazer isso. Não há equipamentos, nem tecnologia e apenas um pequeno investimento em sementes. Isso é muito fácil. Você pode demonstrar como fazer isso com fotos enviadas em um celular ”. Comparado com os campos de controle de monoculturas puras, foram encontrados benefícios “surpreendentes” para os agricultores e um aumento na abundância e diversidade de polinizadores. As culturas foram polinizadas de forma mais eficiente, houve menos pragas, como pulgões e pulgões, e os rendimentos aumentaram em quantidade e qualidade.

5018Girassóis foram plantados para atuar como um pára-brisa para áreas de apoio de nidificação de abelhas. Fotografia: Alamy

Em todas as quatro regiões climáticas diferentes que ela estudou, a renda total dos agricultores aumentou, embora os benefícios tenham sido mais marcantes em terras degradadas e fazendas sem abelhas. Os maiores ganhos foram em climas semi-áridos, onde a produção de abóbora subiu 561%, beringela 364%, favas 177% e melões 56%. Em áreas com chuva adequada, as colheitas de tomate duplicaram e a beringela subiu 250%. Nos campos de montanha, a produção de courgette triplicou e as abóboras duplicaram. 

Em outro estudo, financiado pelo Ministério do Meio Ambiente da Alemanha, Christmann testará um plano de cinco anos para passar do trabalho com pequenos projetos pilotos para produtores em grande escala, inserindo tiras floridas de canola e outras culturas comercializáveis para desmembrar as monoculturas.

Ela também espera ver mudanças nas políticas nacionais de paisagem. Trabalhando com os ministérios de turismo, agricultura e comunicação, ela visa aumentar a conscientização sobre os benefícios econômicos dos polinizadores silvestres e incentivar mais o plantio de flores silvestres, arbustos de bagas e árvores floridas.

“Todo o ambiente seria mais rico, mais bonito e mais resiliente às mudanças climáticas”, disse o evangelista de abelhas. “Teríamos muito mais insetos, flores e pássaros. E seria muito mais auto-sustentável. Até mesmo os países mais pobres do mundo poderiam fazer isso”.  

À medida que mais países apreciam as vantagens, ela espera que eles estejam dispostos a se unir à coalizão de países comprometidos em reverter o declínio dos polinizadores. Atualmente, existem apenas 24 países nesta “coalizão de vontade”, principalmente da Europa. Eventualmente, ela espera que haja apoio suficiente ao acordo ambiental multilateral sobre polinizadores, semelhante à convenção internacional sobre o comércio de espécies ameaçadas de extinção. “Espero que a conferência desta semana seja o primeiro passo para criar um acordo multilateral porque é disso que precisamos”, diz ela.  

Ela espera resistência de empresas agroquímicas. “Acho que a Monsanto não vai gostar disso porque quer vender seus pesticidas e essa abordagem reduz as pragas naturalmente”, diz ela.  

Christmann está acostumada com a adversidade. Quando ela sugeriu pela primeira vez um foco em polinizadores na conferência agrícola mundial em 2010, os delegados riram dela. Por muitos anos, ela lutou para obter fundos e por dois anos ela teve que usar suas economias para financiar seu trabalho em programas de polinização.  

Agora ela tem o apoio do governo alemão e uma voz no palco mundial, o único obstáculo é o tempo. “Isso não pode esperar. As abelhas, moscas e borboletas precisam de ação urgente. Tenho agora 59 anos e quero protegê-los globalmente antes de me aposentar, por isso tenho que me apressar”, diz ela.  

O declínio dos polinizadores será destacado em um novo relatório global sobre recursos genéticos para alimentos que será lançado no próximo ano. Com base em relatórios de governos de todo o mundo, o esboço mostrará que até os ministérios da agricultura – que há muito tempo resistem à ação de conservação – estão cientes da necessidade de mudança.  

“Os países estão dizendo que estamos usando muitos pesticidas e que o número de pássaros e abelhas está diminuindo. Precisamos fazer algo sobre isso ou nossos sistemas agrícolas não vão funcionar”, disse Irene Hoffmann, que lidera o estudo da Organização para Agricultura e Alimentação (FAO). “É frustrante e, às vezes, é assustador. A situação é terrível, mas há maneiras de resolvê-la”.


Texto publicado originalmente em inglês pelo jornal “The Guardian” [1]

Estudo afirma que políticas climáticas da China, Rússia e Canadá ameaçam uma mudança de 5°C

O ranking das metas dos países mostra que até mesmo a UE está em curso por mais que o dobro do nível seguro de aquecimento

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Vendedores perto de uma usina movida a carvão na China. Foto: Kevin Frayer / Getty Images

Por Jonathan Watts, editor de questões do Clima Global do “The Guardian”, [1]
As atuais políticas climáticas de China,  Rússia e  Canadá poderão levar o mundo a um catastrófico aquecimento de 5°C até o final do século XXI, de acordo com um estudo que classifica as metas climáticas de diferentes países.

Os Estados Unidos ea Austrália estão apenas um pouco atrasados, com o aumento da temperatura global perigosamente acima dos 4°C acima dos níveis pré-industriais, diz o jornal, enquanto a União Europeia, que normalmente é vista como líder climática, está a caminho de mais que dobrar o 1,5 °C que os cientistas dizem que é um nível moderadamente seguro de aquecimento.

O estudo, publicado na sexta-feira na revista Nature Communications, avalia a relação entre a ambição de cada nação de reduzir as emissões e o aumento de temperatura que resultaria se o mundo seguisse seu exemplo.

O objetivo do artigo é informar os negociadores climáticos ao iniciarem um processo de dois anos de aumento dos compromissos climáticos, que atualmente estão muito aquém da meta de 1,5 a 2 anos estabelecida na França há três anos.

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O site relacionado também serve como um guia de como as nações estão compartilhando o fardo de responder à maior ameaça ambiental que a humanidade já enfrentou.

Entre as principais economias, o estudo mostra que a Índia está liderando o caminho com uma meta que está apenas ligeiramente fora do curso para a 2 °C. Os países menos desenvolvidos são geralmente mais ambiciosos, em parte porque têm menos fábricas, usinas e carros, o que significa que eles têm menos emissões para controlar. 

No lado oposto do espectro estão a potência industrial chinesa e os principais exportadores de energia que não estão fazendo quase nada para limitar as emissões de dióxido de carbono. Estes incluem a Arábia Saudita (petróleo), a Rússia (gás) e o Canadá, que está atraindo grandes quantidades de óleo sujo das areias betuminosas. Os lobbies de combustíveis fósseis nesses países são tão poderosos que as promessas climáticas do governo são muito fracas, colocando o mundo em rota para mais de 5  ºC de aquecimento até o final do século. 

Apenas um pouco melhor é o grupo de países que está empurrando o planeta para além do 4°C. Entre eles estão os EUA, que têm enormes emissões de energia, indústria e agricultura, um pouco compensadas por promessas de cortes modestos e mais renováveis. A Austrália, que continua fortemente dependente das exportações de carvão, também está nessa categoria. 

As ricas sociedades de compras da Europa se saem ligeiramente melhor – em grande parte porque as emissões dos produtos são calculadas na fonte de manufatura e não no ponto de consumo – mas os autores do artigo dizem que suas ações estão aquém de suas promessas de dar um exemplo positivo.

O estudo provavelmente será controverso. Sob o acordo de Paris, não há um consenso de cima para baixo sobre o que é uma parcela justa de responsabilidade. Em vez disso, cada nação estabelece suas próprias metas de baixo para cima de acordo com vários fatores diferentes, incluindo vontade política, nível de industrialização, capacidade de pagamento, tamanho da população, responsabilidade histórica pelas emissões. Quase todos os governos, dizem os autores, selecionam uma interpretação da equidade que serve a seus próprios interesses e permite que eles obtenham um ganho relativo em outras nações. 

Para contornar esses conceitos diferentes de justiça, o jornal avalia cada nação pelos padrões menos rigorosos que eles mesmos definem e, em seguida, extrapola isso para o mundo. Ao fazê-lo, os autores dizem que podem “operacionalizar discordâncias”. 

Levando em conta as diferentes interpretações, eles dizem que o mundo precisa se comprometer com uma meta virtual de 1.4°C para atingir uma meta de 2°C. Eles esperam que sua métrica de patrimônio possa ser usada nas negociações climáticas da ONU no mês que vem, em Katowice, e em casos de litígio climático. 

Os autores disseram que o estudo poderia no futuro ser estendido para o nível subnacional, como estados individuais dos EUA. Eles também observam que alguns setores-chave estão atualmente omitidos, incluindo a mudança no uso da terra (que é fundamental em nações com rápido desmatamento, como Brasil, Argentina e Indonésia), transporte marítimo internacional e aviação.

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O Brasil está perdendo grandes extensões de florestas naturais para atividades como mineração, extração de madeira e agricultura. Foto: Carl de Souza / AFP / Getty Images

Embora o estudo ressalte a enorme lacuna entre a vontade política e o alarme científico, Robiou du Pont disse que isso deve inspirar e não desestimular as pessoas. “O resultado positivo deste estudo é que temos uma métrica para avaliar o aumento da ambição. A sociedade civil, especialistas e tomadores de decisão podem usar isso para responsabilizar seus governos e, possivelmente, realizar casos de litígio climático, como aconteceu recentemente na Holanda ”, disse ele.

“Esta métrica traduz a falta de ambição em escala global em escala nacional. Se olharmos para o objetivo de tentar evitar danos à Terra, então estou pessimista, pois isso já está acontecendo. Mas isso deve ser uma motivação para aumentar a ambição e evitar o aquecimento global o mais rápido possível. Cada fração de um grau terá um grande impacto ”.

Comentando sobre o estudo, outros acadêmicos disseram que ele poderia ser usado por qualquer um para mostrar como a ação climática pode ser navegada em um mundo em que cada país se classifica baseado no que eles consideram justo.

“Este documento fornece um meio para os países verificarem como sua contribuição pode ser percebida por outros países e, assim, julgar se eles são percebidos como líderes climáticos ou retardatários”, disse Joeri Rogelj, do Imperial College London.


Artigo publicado originalmente em inglês [1]

The Guardian: Novo ministro das Relações Exteriores do Brasil acredita que mudança climática é uma trama marxista

Ernesto Araújo chamou o dogma da ciência do clima e lamentou a “criminalização” da carne vermelha, do petróleo e do sexo heterossexual

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Ernesto Araújo, à direita, foi indicado pelo presidente eleito Jair Bolsonaro, à esquerda, para ser o principal diplomata do Brasil. Sua nomeação poderia minar o papel de liderança do Brasil na mudança climática. Foto: Sergio Lima / AFP /

Por Jonathan Watts, editor do Ambiente Global do “The Guardian” [1]

O presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, escolheu um novo ministro das Relações Exteriores que acredita que as mudança climáticas são parte de uma trama de “marxistas culturais” para sufocar as economias ocidentais e promover o crescimento da China.

Ernesto Araújo – até agora um funcionário de nível médio que escreve sobre a “criminalização” da carne vermelha, petróleo e sexo heterossexual – se tornará o principal diplomata do maior país da América do Sul, representando 200 milhões de pessoas e a maior e mais biodiversa floresta da Terra. , a Amazônia.

A nomeação de Araújo, confirmada por Bolsonaro na quarta-feira, deve causar um arrepio no movimento climático global.

O Brasil foi onde a comunidade internacional se reuniu pela primeira vez em 1992 para discutir reduções nas emissões de gases de efeito estufa.  Os diplomatas brasileiros têm desempenhado um papel crucial na redução do fosso entre nações ricas e pobres, particularmente durante a construção do Acordo Climático de Paris em 2015.

Mas quando o novo governo tomar o poder em janeiro, o Ministério das Relações Exteriores que lidera esse trabalho será encabeçado por um homem que afirma que a ciência do clima é meramente um “dogma”.

Em seu blog, Araújo afirma que seu objetivo é “ajudar o Brasil e o mundo a se libertarem da ideologia globalista”, que ele considera anti-cristã.

O diplomata de 51 anos de idade – que nunca serviu como embaixador no exterior – afirma que políticos esquerdistas não identificados sequestraram o ambientalismo para servir como uma ferramenta para o domínio global.

“Este dogma tem sido usado para justificar o aumento do poder regulatório dos estados sobre a economia e o poder das instituições internacionais sobre os estados-nação e suas populações, assim como para sufocar o crescimento econômico nos países capitalistas democráticos e promover o crescimento da China. ”Ele escreveu em um post no mês passado.

Em outro post, Araújo afirmou que o Partido dos Trabalhadores, de centro-esquerda, estava “criminalizando o sexo e a reprodução, dizendo que todo sexo heterossexual é estupro e todo bebê é um risco para o planeta, pois aumentará as emissões de carbono”. Ele então passou a acusar o partido de criminalizar carne vermelha, óleo, ar condicionado e filmes da Disney. 

A retórica incendiária ecoa a de Bolsonaro, que venceu a eleição presidencial do mês passado com cerca de 57,7 milhões de votos. O ex-capitão do exército, desde então, mudou-se para colocar em prática uma das administrações de extrema-direita do mundo e prometeu alinhar o Brasil mais estreitamente com Trump e os EUA. 

Especialistas em negociações climáticas disseram que a nomeação foi triste para o Brasil e para o mundo – embora eles tenham esperança de que o novo ministro das Relações Exteriores seja mais pragmático quando ele representar seu país. 

“O Brasil desempenhou um papel muito significativo no acordo de Paris. Seria muito ruim para a imagem do país se ele trouxesse sua ideologia ”, disse Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório do Clima Brasileiro.  Rittl afirma que o clima é a única área em que o Brasil pode se orgulhar de ser um líder global, e pediu ao novo ministro e presidente do exterior que não isole o país neste campo. 

“Bolsonaro não é Trump. O Brasil não é dos Estados Unidos. Nós não temos os mesmos cartões”, disse ele. “Se o Brasil se tornar um pária na agenda climática global seria extremamente ruim para nossos negócios, especialmente o agronegócio. Quando eles vão para a Europa para negociar um acordo, as salvaguardas climáticas estarão sobre a mesa.”

Acredita-se que o risco de perder as vê Acordo de Paris e fundir os ministérios da agricultura e do meio ambiente.

Mas ele continua decidido a abrir a Amazônia aos agricultores, garimpeiros e construtoras que apoiaram sua campanha. Sua escolha como ministro da agricultura é o chefe do lobby agrícola, Tereza Cristina Dias, que os conservacionistas apelidaram de “Musa do Veneno” devido ao seu apoio entusiasta ao relaxamento no controle de agrotóxicos.

Ela e seus colegas supostamente estão destruindo as responsabilidades do ministério do meio ambiente antes que seu novo chefe seja nomeado. A instituição do meio ambiente provavelmente será tão subserviente que os insiders brincam que em breve haverá dois ministérios da agricultura no Brasil.

A magra esperança agora para os defensores do clima é que o poderoso lobby do agronegócio venha a perceber que a chuva para suas plantações depende de uma Amazônia saudável e de um ambiente global estável. Mais de 80% dos municípios brasileiros sofreram secas nos últimos cinco anos, que os cientistas associaram ao desmatamento.

Mas os madeireiros não estão esperando. Os últimos números do desmatamento mostraram um forte aumento no desmatamento durante a campanha eleitoral, sugerindo que as proteções para a natureza e a terra indígena já estão enfraquecendo.


Artigo publicado originalmente em inglês [1]