A COVID-19 escancara a natureza desigual (de classe) da sociedade brasileira

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Centenas de covas rasas no Cemitério de Vila Formosa esperam pelas vítimas pobres da COVID-19.
Uma das características fundamentais da pandemia da COVID-19 no Brasil é que ela foi trazida para o nosso país pelas elites políticas e econômicas que controlam os destinos de uma das sociedades mais desiguais que já existiram ao longo da história humana. Não bastasse, esse “pecado original” de serem as fontes originárias da chegada do coronavírus, várias figurinhas carimbadas da elite brasileira já deram demonstrações objetivas de que o destino da maioria pobre dos brasileiras lhes é insignificante.
Uma dessas figuras é, com certeza, o CEO da hamburgueria Madero, o Sr.Junior Durski que se revoltou com as medidas de isolamento social adotadas por governadores e brasileiros, pois, segundo ele, a COVID-19 deveria matar “apenas” entre 5.000 e 7.000 pessoas. Agora que o Brasil já ultrapassou a marca de 8.000 mortos oficiais, nada se ouve de Durski que deve ter ido se refugiar em uma das suas fazendas no aprazível município de Prudentópolis na região dos Campos Gerais do Paraná.
Mas aproveitando o vácuo deixado pela submersão de Durski, ontem o fundador e presidente da XP Investimentos (que se encontra com problemas nos EUA por supostamente mentir para seus clientes), Guilherme Benchimol, decidiu, digamos, abrir o seu coração para dizer que vê com bons olhos a forma de gestão da pandemia no Brasil. Entre os motivos alegados para sustentar esta posição parece contrariar os fatos, Benchimol apontou para a diminuição dos casos de COVID-19 entre os mais ricos, não sem antes lamentar a existência de tantas favelas, razões pelas quais a pandemia ainda continuaria a ser um problema no Brasil.


Pode-se dizer o que quiser de Benchimol, mas menos que ele não foi sincero em sua avaliação. É que, de fato, para os membros das elites, a COVID-19 não é o risco mortal que ela representa para os cerca de 105 milhões de brasileiros que sub (vivem) com menos de R$ 15 por dia para satisfazer todas as suas necessidades básicas, segundo dados do IBGE. É que os ricos podem ser dar ao luxo de usar suas fortunas para chegarem até as unidades mais estruturadas, como estão fazendo membros da elite econômica de Belém que estão usando UTIs aéreas para escapar do colapso que está ocorrendo na capital paraense.

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Paciente com coronavírus é colocado em uma UTI aeromédica, que deixou Belém do Pará com destino a hospital de São Paulo Foto: Reprodução
O fato é que a agressividade do vírus se mostrará com mais clareza entre essa porção da população, enquanto que o extrato do 1% mais rico terá não apenas estruturas hospitalares melhores para usar, como algo ainda mais essencial que é um sistema imunológico mais preparado.

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Funeral na vala comum: dado o crescente número de infecções por coronavírus, o sistema de saúde em Manaus está no limite. (aliança de imagens / Chico Batata / dpa)
Dito isto, não há como se estranhar as cenas dantescas que estão emergindo em cemitérios onde são enterrados os pobres que, desprovidos de uma rede hospitalar apropriada para a COVID-19, acabam morrendo e sendo colocados empilhados em valas comuns, como suas vidas não tivessem um mínimo de valor. Por isso, não sejamos ingênuos a ponto de pensar que o coronavírus nos oferece um momento de democracia em uma sociedade profundamente anti-democrática como é a do Brasil.

obitos em são paulo
Mapa de óbitos na cidade de São Paulo mostra que índices mais altos estão ocorrendo em distritos com maiores concentrações de conjuntos habitacionais, cortiços, favelas e núcleos habitacionais
Na verdade, o que a pandemia da COVID-19 faz reviver com vigor é que no Capitalismo o que efetivamente controla o destino dos indivíduos é a sua condição de classe. Essa ligação entre um vírus e a condição de classe dos infectados certamente ainda merecerá análises mais robustas dos que as aqui postas. Mas, desde já, há que se agradecer ao presidente da XP Investimentos, a sua contribuição para que retornemos aos debates sobre as estruturas que realmente importam em uma sociedade capitalista. E, pensar que ontem se completaram 202 anos do nascimento de Karl Marx. Esse mesmo Marx que insiste em nos oferecer as ferramentas que nos permite entender a natureza dos processos sociais até em um momento de pandemia.

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