Quanto custa um câncer? Bayer faz ‘conta de padaria’: lucro com glifosato compensa custo de processos por danos à saúde

Empresa gasta US$ 12 bilhões em indenizações, mas continua fabricando – e vendendo muito – o agrotóxico. “É a prova cabal de que não existe, nem de longe, possibilidade de qualquer tipo de ética no sistema capitalista”, afirma analista

Manifestação de mulheres camponesas em frente à sede nacional da Bayer, em São Paulo
Por Cida de Oliveira, da RBA

São Paulo – A Bayer não fala em lucros com a venda do herbicida glifosato, o mais vendido do mundo. Mas certamente é gigantesco, já que é suficiente para cobrir, com sobra, os acordos bilionários que tem proposto à Justiça nos Estados Unidos para pagar milhares de indenizações a doentes de câncer expostos ao RoundUp, produto a base de glifosato.

A companhia alemã que comprou a Monsanto – desenvolvedora do glifosato –, desembolsou em 2020 US$ 10 bilhões (cerca de R$ 54 bilhões) para liquidar 95 mil processos por efeitos danosos do agrotóxico. Restaram ainda 30 mil ações. Na semana passada propôs outro acordo, no valor de US$ 2 bilhões (R$ 10,8 bilhões), para cobrir futuros pedidos de indenização de pessoas que, por exposição ao glifosato, desenvolveram linfoma não Hodgkin, um tipo de câncer que atinge o sistema imunológico. O teto de indenização e cobertura de assistência à saúde será de até US$ 200 mil. A homologação da oferta depende de decisão do juiz Vince Chabbria, da Corte Distrital de São Francisco.

“Os acordos de US$ 10 bilhões do ano passado, somado aos U$2 bi de agora, superam o faturamento total da indústria de agrotóxicos no Brasil no ano passado. São cifras, portanto, astronômicas, mesmo para transnacionais do porte da Bayer”, diz o engenheiro Alan Tygel, coordenador da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida.

Segundo ele, quando a Bayer concluiu a compra da Monsanto em 2018, por US$ 63 bilhões, já sabia que herdaria milhares de processos e teria de desembolsar bilhões de dólares em pedidos de indenização contra o RoundUp. Mesmo assim a empresa decidiu comprar a Monsanto e seguirá vendendo o produto.

Bayer e câncer

“É a prova cabal de que não existe, nem de longe, possibilidade de qualquer tipo de ética no sistema capitalista. Fizeram a conta de padaria: quanto temos de receita, quanto custa cada câncer causado pelo produto, e chegaram à conclusão de que mesmo assim dá lucro”, disse Tygel.

Para ele, os acordos já firmados e o agora proposto não terão influência no cenário brasileiro. Apesar da gravidade dos danos, a agenda em favor da indústria de agrotóxicos por parte da Anvisa e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) seguirão. “Esperamos, porém, que pelo menos processos judiciais semelhantes possam prosperar e reparar, ainda que de forma meramente financeira, a dor e o sofrimento das famílias vitimadas pelas intoxicações por agrotóxicos.

Embora a proposta possa sugerir que a Bayer esteja finalmente admitindo o potencial carcinogênico da substância que produz, a empresa está protegendo seu caixa. É o que acredita o professor e pesquisador da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) Marcos Pedlowski. “A Bayer não está reconhecendo que o glifosato faz mal, mas implicitamente está se protegendo ao propor limite de dois bilhões de dólares para futuros casos. Ou seja, para pessoas que ainda não constituíram advogado para entrar com ação.”

Ruralistas na contramão

Estudioso dos agrotóxicos, Pedlowski concorda com Tygel. O “hiper domínio da bancada ruralista” está atrasando o Brasil no debate sobre o glifosato. E o latifúndio e a economia brasileira podem tomar prejuízo em médio prazo.

“A Nestlé barrou o café do Espírito Santo pelo excesso de glifosato. No início de 2019, a Rússia sinalizou que faria o mesmo com a soja, caso o Brasil não reduzisse o uso de agrotóxico. A Europa já não compra soja para uso humano, só para alimentar animais. E há um grande movimento nos países escandinavos e na Alemanha contra a soja brasileira. Cedo ou tarde, o Brasil pode tomar uma moratória sanitária. Os ruralistas contam com a dependência mundial da soja nacional. Mas esquecem de que chineses e latifundiários brasileiros estão plantando soja em Moçambique”, alertou.

Em dezembro, a Anvisa concluiu a reavaliação toxicológica do glifosato. Manteve a permissão do uso, mas com restrições. Entre elas, adoção de tecnologia para reduzir a deriva (espalhamento das gotículas para além da área pulverizada. No mesmo mês, o governo de López Obrador determinou que até o final de 2024 o produto será banido no México.

Argentina, Uruguai e Costa Rica aprovaram medidas de redução de uso. A Alemanha quer banir até 2023. Em julho, a Áustria decidiu proibir o uso do produto por considerar cada vez mais robustas as evidências do potencial carcinogênico da substância. A França está em vias de aprovar nova legislação para redução seguida de banimento até 2023. Outros países, como Itália, Holanda e República Tcheca também têm restrições ao uso de herbicidas com o glifosato como princípio ativo.

Sinal verde

O produto tem sinal verde também do Ministério da Agricultura. Em janeiro, quando o governo de Jair Bolsonaro completou dois anos, sob seu mandato já haviam sido liberados 1.033 novos agrotóxicos, segundo levantamento de Pedlowski. Desse total, foram autorizados 22 pedidos para fabricação de novos produtos à base de glifosato. O princípio ativo só ficou atrás do fungicida Mancozebe, com 24 pedidos.

O agrotóxico mais usado no Brasil tende a ganhar ainda mais espaço. No último dia 5, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança atendeu pedido do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) para fazer experiências em campo com uma cana de açúcar desenvolvida geneticamente para resistir a pulverizações intensas de glifosato. Os testes serão feitos nos municípios paulistas de Piracicaba, Barrinha e Valparaiso. A cana é hoje a terceira cultura em termos de consumo de pesticidas (11%), ficando atrás da soja (48%) e do milho (13%).   

Hipocrisia da Bayer

Professor de Ecotoxicologia, Agroecologia e Cooperativismo no campus Viamão do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), o agrônomo Cláudio Fioreze considera “hipócrita” a oferta de tais acordos pela Bayer. “Pelo valor que eles pagaram na Monsanto (US$ 63 bilhões) o pelo que lucram com a venda do agrotóxico mais vendido no mundo, é uma hipocrisia fazer esse tipo de acordo, em que se reconhece haver o dano, quando se trata de um dano incalculável a longo prazo, um dano ecossistêmico”.

Entretanto, enxerga disputas com a justiça dos Estados Unidos um ponto de partida para mudanças. “Foram longas batalhas judiciais que levaram a legislações bastante restritivas aos cigarros. Antes se fumava dentro de todo lugar, na sala de aula, no taxi, no hotel. E hoje há propagandas expondo os males do tabagismo”, comparou.

Nesse sentido, defende, deveria ser adotada uma espécie de certificação negativa da produção de alimentos. “Hoje em dia, o ônus da certificação é de quem produz alimento ecológico, orgânico, limpo. Então os alimentos produzidos no modelo de agronegócio convencional, muitas vezes com uso de substâncias proibidas em outros países, teriam de trazer aviso na embalagem. Algo como esse produto foi produzido com agrotóxico X, que pode causar câncer, danos ao sistema nervoso”.

Edição: Fábio M Michel

fecho

Este texto foi originalmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Bayer aceita pagar 10,9 bilhões de dólares às vítimas do herbicida Roundup

Gigante alemã encerra definitivamente dezenas de milhares de processos pelo pesticida da Monsanto, após passar anos negando que ele cause câncer

round upO herbicida Roundup em um supermercado da Califórnia, em 2017.MIKE BLAKE / REUTERS

Por Pablo Ximénez de Sandoval, de Los Angeles, para o El País

Bayer, gigante alemão do setor químico, aceitou um acordo para pagar 10,9 bilhões de dólares (58 bilhões de reais) para arquivar dezenas de milhares de ações judiciais relativas a casos de câncer supostamente provocados por um de seus pesticidas. A empresa calcula que o acordo afeta 75% dos atuais queixosos, estimados em 125.000, e 95% dos casos que chegariam a julgamento. Em apenas dois anos, as ações contra o herbicida Roundup deixaram de ser uma mera curiosidade em um tribunal de San Francisco para se tornar uma confusão jurídica que ameaçava derrubar o valor de mercado da Bayer.

Nesse período, foram se acumulando precedentes que indicavam um risco importante para a Bayer caso ela insistisse em continuar lutando para defender a segurança de seus pesticidas. No centro do caso se encontra o glifosato, o princípio ativo dos pesticidas Roundup e Ranger Pro. O primeiro é o pesticida de uso comum mais vendido do mundo.

O glifosato foi desenvolvido pela Monsanto na década de 1970. Não existem provas definitivas de que esse herbicida provoque câncer ―autoridades reguladoras dos EUA e Europa consideram que o produto é seguro, tal como está etiquetado. Entretanto, em 2015 a Organização Mundial da Saúde concluiu que era “provavelmente cancerígeno”. Os júris que já condenaram a Monsanto têm acatado a premissa de que a empresa ocultou os riscos do produto, embora não esteja totalmente provada sua relação direta com o câncer.

O acordo se divide em duas partes. Entre 8,8 e 9,6 bilhões de dólares servirão para indenizar a casos que estão em aberto, e outros 1,25 bilhão para potenciais novos casos. Em um comunicado citado pela Reuters, a empresa afirma que o acordo não inclui nenhuma exigência de rotular o Roundup como cancerígeno. O mediador judicial Kenneth Feinberg afirmou à Reuters que 25.000 casos ficaram de fora do acordo, mas que espera que se incorporem nos próximos meses. Segundo Feinberg, o pacto assegura que não haverá novos julgamentos e que todos os principais advogados envolvidos assinaram o pacto.

A primeira sentença a favor de um demandante foi a de Dewayne Johnson, um jardineiro que utilizou durante anos o herbicida em seu trabalho no subúrbio de San Francisco. Johnson foi diagnosticado com um linfoma não-Hodgkins, e em 10 de agosto de 2018 uma juíza condenou a Monsanto a lhe pagar 289 milhões de dólares, uma quantidade descomunal para esse tipo de ação. O júri considerou que a relação entre o glifosato e o câncer estava provada e que, além disso, a empresa tinha conspirado para ocultá-la. Aquela indenização foi depois reduzida a 78 milhões, mas abriu a porta a dezenas de processos, que depois se tornaram milhares.

Em março do ano passado, um segundo júri chegou à mesma conclusão no caso de Edwin Hardeman, de 70 anos, outro morador de San Francisco com linfoma não-Hodgkins, que atribuía ao uso contínuo do Roundup. Àquela altura, havia 11.000 ações em todo o país. Em maio, outro júri voltou a pôr a Monsanto contra as cordas ao ditar uma indenização de dois bilhões de dólares para um casal que utilizou o Roundup durante décadas em seu jardim e, aos 70 anos, ambos padeciam de linfoma não-Hodgkins. A empresa continuou mantendo que seu produto estava corretamente etiquetado, mas nesse momento já era evidente que os júris estavam dispostos a acreditar nos autores das ações, e que o glifosato era um problema jurídico muito maior do que a Bayer havia previsto.

A empresa alemã herdou o problema quando absorveu a Monsanto, em meados de 2018, por 63 bilhões de dólares. A firma argumentava que o Roundup era seguro e que as ações apresentadas até então não representavam qualquer risco. Pouco depois, decidiu eliminar a marca Monsanto porque o nome estava tão desprestigiado que se tornara comercialmente prejudicial. 

fecho

Este artigo foi publicado originalmente pelo jornal El País [Aqui].

Intacta 2, a soja sob medida para suprir a China e para garantir os lucros fabulosos da Bayer

bayer intacta 2A multinacional alemã Bayer anuncia a aprovação pela China da soja Intacta 2 que é geneticamente modificada para tolerar os herbicidas Glifosato e Dicamba

A multinacional alemã Bayer (aquela vende desde veneno até remédio) acaba de anunciar que o “Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais da China (MARA) concedeu certificado de segurança para importação de soja Intacta 2 para uso em alimentos/ração”.  A Bayer acrescentou ainda que “a Intacta 2 passou por um longo processo de revisão e aprovação conduzido pelo governo Chinês e obter essa aprovação é muito importante para o lançamento da Plataforma Intacta 2 Xtend® no Brasil, previsto para a safra 2021/22″.

Pois bem, o que o anúncio da Bayer não trouxe foi a informação que a semente da soja Intacta 2 é tolerante aos herbicidas Glifosato e Dicamba, que obviamente a empresa produz em larga escala, e que estão passando por um processo de ampla restrição em outros países por seus efeitos danosos à saúde humana e ao meio ambiente.  Há que se lembrar que o Glifosato tem sido associado ao aparecimento do Linfoma Non-Hogdkin, enquanto que o Dicamba teve sua venda suspensa nos EUA por causa dos danos causados em outras culturas que estejam próximas dos cultivos de soja.

Com esse anúncio da Bayer também fica mais claro porque apenas em 2020, o Ministério da Agricultura comandado pela “Musa do Veneno”, Tereza Cristina (DEM/MS), aprovou quatro novos produtos contendo o Dicamba para serem vendidos no mercado brasileiro, sendo três deles fabricados primariamente por empresas sediadas na China. O interessante é que tudo isso acaba mostrando que a enxurrada de aprovação de agrotóxicos altamente perigosos que está sendo promovida pelo governo Bolsonaro visa garantir os lucros fabulosos de multinacionais como a Bayer do que uma suposta preocupação com a redução no nível de toxicidade e do custo dos agrotóxicos vendidos no Brasil.

Trocando em miúdos, com essa aprovação da Intacta 2, a China ganha dos dois lados: por um lado garante o suprimento de soja barata produzida no Brasil e, por outro lado, continua como a principal fonte de agrotóxicos altamente perigosos para abastecer o latifúndio agro-exportador brasileiro.  Já Bayer garante a manutenção de suas altíssimas taxas de lucro combinando a venda de uma semenda geneticamente modificada da qual detém os direitos de propriedade com o despejo no Brasil de agrotóxicos cuja venda está sendo restringida em outros países.

Enquanto isso no Brasil, o que teremos é o avanço do processo de envenenamento ambiental e da população brasileiro, bem como a expansão da franja de desmatamento em todos os nossos biomas florestais, especialmente na Amazônia e no Cerrado. Isto sem falar de produtores agrícolas que tenham o azar de cultivar outros tipos de semente de soja que sejam sensíveis ao Dicamba.

A síntese desse processo em que o Brasil internaliza todos os ônus sociais e ambientais já se tornou conhecida pela máxima de “passar a boiada”.

Acionista processa Bayer por aquisição desastrosa da Monsanto

ceo bauerO CEO da gigante alemã de produtos químicos Bayer, Werner Baumann, fala durante a coletiva de imprensa anual da empresa em Leverkusen, oeste da Alemanha, em 27 de fevereiro. INA FASSBENDER / AFP / Getty Images

Por Carey Gillam

Uma acionista californiano da Bayer AG nesta sexta-feira (06/03) entrou com uma ação contra os principais executivos das empresas, alegando que violaram seu dever de “prudência” e “lealdade” à empresa e aos investidores ao comprar a Monsanto Co. em 2018, uma aquisição que a ação alega ter ” infligiu bilhões de dólares em danos “à empresa.

A autora Rebecca R. Haussmann, curadora do Konstantin S. Haussmann Trust, é a única autora nomeada na ação, que deu entrada no Supremo Tribunal do Condado de Nova York. Entre os réus citados estão o CEO da Bayer, Werner Baumann, que orquestrou a compra da Monsanto por US$ 63 bilhões, e o presidente da Bayer, Werner Wenning, que anunciou no mês passado que deixaria a empresa mais cedo do que o planejado. O processo alega que a decisão de Wenning foi tomada depois que a Bayer obteve indevidamente uma cópia do então projeto de ação acionária dos acionistas “por espionagem corporativa”.

O processo também alega que o recente anúncio da Bayer de uma auditoria de suas ações de aquisição é “falso” e “parte do encobrimento em andamento e pretende criar uma barreira legal para este caso para proteger os Réus de sua responsabilidade …”

A ação é uma reclamação derivada do acionista, o que significa que é movida em nome da empresa contra insiders da empresa. Ele busca indenizações compensatórias para os acionistas e o desprezo de “toda a remuneração paga aos gerentes e supervisores da Bayer que participaram da realização desta aquisição …”. O processo também busca o retorno dos fundos pagos aos bancos e escritórios de advocacia envolvidos na aquisição.

Os réus incluem não apenas Baumann e Wenning, mas também alguns atuais e ex-diretores e altos executivos da Bayer, além da BOFA Securities, Inc., Bank of America, Credit Suisse Group AG e os escritórios de advocacia da Sullivan & Cromwell LLP e Linklaters LLP. .

Um porta-voz da Bayer não respondeu a um pedido de comentário.

O processo ocorre pouco mais de um mês antes da assembléia geral ordinária da Bayer, em 28 de abril, em Bonn, na Alemanha. Na reunião anual do ano passado, 55% dos acionistas registraram sua insatisfação com Baumann e outros gerentes pelo acordo com a Monsanto e a subsequente perda de aproximadamente US$ 40 bilhões em valor de mercado.

A compra da Monsanto pela Bayer foi obscurecida por dezenas de milhares de ações judiciais que alegam que os herbicidas à base de glifosato da Monsanto causam Linfoma não-Hodgkin, e que a empresa enganou os clientes sobre os riscos. A Bayer prosseguiu com a aquisição mesmo depois que a Agência Internacional de Pesquisa do Câncer (AIRC), em 2015, classificou o glifosato como um provável cancerígeno humano, com uma associação positiva ao linfoma não-Hodgkin, e apesar do conhecimento das reivindicações legais espalhadas.

A Bayer concluiu a compra da Monsanto apenas dois meses antes do término do primeiro julgamento contra o Roundup, com um veredicto de US$ 289 milhões contra a empresa. Desde então, mais dois julgamentos terminaram em resultados semelhantes contra a empresa, com veredictos totalizando mais de US $ 2 bilhões, embora os juízes de julgamento em cada caso tenham reduzido os veredictos. Todos estão agora em apelo.

A Bayer disse que há mais de 45.000 demandantes atualmente fazendo reivindicações semelhantes. A empresa tem trabalhado para resolver as ações judiciais para um valor amplamente divulgado em torno de US$ 10 bilhões, mas até agora não obteve êxito em pôr um fim ao litígio.

O processo movido contra a Bayer alega que durante 2017 e 2018, à medida que os processos judiciais contra o câncer Roundup estavam aumentando, a capacidade da administração da empresa de realizar a devida diligência na Monsanto e os riscos de litígios foram “severamente restringidos”. Como resultado, “a Bayer não pôde conduzir o tipo de diligência intrusiva e completa nos negócios e assuntos jurídicos da Monsanto exigidos nessas circunstâncias”.

O processo alega ainda que a Monsanto não divulgou um risco material da Roundup e falhou em quantificar qualquer possível impacto financeiro. Os executivos da Monsanto “tiveram todo o incentivo para minimizar o risco do Roundup para fazer com que a Bayer fechasse o acordo”, afirma a ação.

A ação dos acionistas alega que “esses tipos de casos de delito em massa … podem destruir uma empresa”.

O processo aponta para o fato de que os herbicidas de glifosato da Monsanto agora estão sendo restritos e / ou proibidos em muitas partes do mundo, inclusive na Alemanha.

“A aquisição da Monsanto é um desastre. O Roundup está condenado como um produto comercial”, afirma o processo.

_____________________________

Este artigo foi publicado originalmente em inglÊs pela U.S. Right to Know e posteriormente republicado pela EcoWatch Environmental News for a Healthier Planet and Life [Aqui!].

Monsanto é atingida por veredito de US$ 2 bilhões por causa do Glifosato

round up

Recipientes de Roundup, um herbicida feito pela Monsanto, em uma prateleira de uma loja de ferragens em Los Angeles.

Por Bob Egelko para o “San Francisco Chronicle”

Um júri de Oakland concedeu uma vultosa indenização de US $ 2 bilhões nesta segunda-feira (13/05) a um casal da área da Baía de São Francisco em função de ambos sofrerem de câncer depois de pulverizar o herbicida Roundup da Monsanto em suas propriedades por mais de 30 anos.

É o terceiro veredito contra a Monsanto, todos em ações na Bay Area e, de longe, o maior julgamento contra a empresa.

Alva Pilliod, 76, de Livermore foi diagnosticado com linfoma não-Hodgkin em 2011, e sua esposa, Alberta Pilliod, 74, foi diagnosticada em 2015. Eles usaram o Roundup para matar ervas daninhas em razão de três propriedades que possuíam na área. O advogado deles estimou que pulverizou 1.500 galões do herbicida em 30 anos.

Os médicos dizem que ambos os cânceres estão em remissão, mas podem ocorrer novamente.

Após menos de dois dias de deliberações, um júri do Tribunal Superior da Comarca de Alameda concedeu a cada um deles US $ 1 bilhão em indenizações punitivas contra a Monsanto, com danos adicionais de US $ 37 milhões para Alberta Pilliod e US $ 18 milhões para seu marido por dor e sofrimento e perdas econômicas.

O processo do casal foi um dos primeiros de mais de 13.000 casos em todo o país a ir a julgamento contra o gigante agroquímico. A Monsanto, agora uma subsidiária da Bayer AG, nega que o Roundup seja perigoso e observa que ele foi repetidamente considerado seguro pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA).

Em agosto, um júri do Tribunal Superior de San Francisco concedeu US $ 289 milhões em danos ao ex-zelador da escola Dewayne “Lee” Johnson, de Vallejo, cujos médicos dizem que ele pode ter menos de um ano de vida por causa do linfoma não-Hodgkin. Um juiz mais tarde reduziu o prêmio para US $ 78,5 milhões. E em março, um júri federal concedeu mais de US $ 80 milhões a Edwin Hardeman, do condado de Sonoma, que foi diagnosticado com o mesmo câncer de linfonodo frequentemente letal após pulverizar o herbicida em sua propriedade em Forestville por mais de 26 anos.

Em uma declaração segunda-feira, Bayer disse que o último veredito conflita com “o consenso entre os principais reguladores de saúde em todo o mundo de que produtos à base de glifosato podem ser usados ​​com segurança e que o glifosato não é carcinogênico”. O glifosato é o ingrediente ativo do Roundup herbicida.

A empresa está apelando dos outros dois casos e disse que vai apelar do veredito de hoje. No mínimo, é quase certo que os US $ 2 bilhões em indenizações punitivas serão substancialmente reduzidos, já que a Suprema Corte dos EUA determinou que os danos para punir um acusado por conduta maliciosa geralmente não devem ser mais do que 10 vezes os danos concedidos para compensar os demandantes por suas perdas.

A Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), um braço da Organização Mundial de Saúde, classificou o glifosato como uma provável causa de câncer humano em 2015, mas permanece legal nos Estados Unidos e na Europa.

“Os júris informados pela ciência independente rejeitaram repetidamente o mito promovido pela Monsanto de que o glifosato não apresenta riscos de câncer”, disse Nathan Donley, cientista do Centro de Diversidade Biológica, na segunda-feira.

Advogados do Pilliods e outros demandantes ofereceram evidências de que a Monsanto estava em contato próximo com a EPA, enquanto o governo estudava o glifosato. Eles acusaram a empresa de ser responsável por estudos científicos de “escrita fantasma” apresentados à agência federal e de ter trabalhado junto com a EPA para minar as críticas da IARC.

Ao pedir ao júri US $ 1 bilhão em indenizações punitivas na semana passada, o advogado Brent Wisner disse que a Monsanto fatura US $ 892 milhões por ano, e que uma quantia enorme é necessária para “punir a empresa por 45 anos mentindo para o público”.

A empresa negou as irregularidades e disse ao júri que o câncer do Pilliod´s tinha outras causas prováveis: os dois haviam sofrido anteriormente outros tipos de câncer que os tornavam mais vulneráveis, e Alberta Pilliod era uma fumante de longa data.

_____________________________

Este artigo foi originalmente publicado em inglês pelo “San Francisco Chronicle” [Aqui!].

“Menos amor, mais glifosato” derruba o mito da dominação marxista nas universidades brasileiras

11_07_glifosato_foto_reproducao_twitter_emater

Menos amor, mais glifosato, a mensagem “engraçada” de estudantes de Agronomia da Universidade Federal de Goiás.

Encontrei a notícia abaixo circulando pela minha linha do tempo na rede social Facebook e, apesar, de ser quase 2 anos velha, a mesma me parece muito útil para o necessário debate acerca de uma suposta dominação do “Marxismo Cultural” nas universidades brasileiras, especialmente as públicas.  Essa fotografia que foi retirada da página oficial da EMATER de Goiás mostra um grupo de estudantes do curso de Agronomia da Universidade Federal de Goiás fazendo uma estranha apologia do herbicida mais vendido no mundo, o Glifosato, que hoje se encontra sob profundo escrutínio por suas supostas relações causais com o Linfoma de Non-Hodgkin, uma forma bastante agressiva de câncer que atinge células sanguíneas.

glifosato amor

Pois bem, mesmo que a relação causal do glifosato com o Linfoma de Non-Hodgkin seja motivo de controvérsia, o que de fato ela segue sendo, o que pode levar a um grtupo de jovens estudantes e futuros engenheiros agronômos, que estão sendo formados por uma universidade pública, a exporem uma mensagem tão acientífica como esta? E, pior, ainda lucrarem com isso já que cada camiseta era vendida a R$ 35,00!

Afora a questão imediata do que significa espalhar que venenos agrícolas são mais importantes que o amor, o problema mais de fundo se refere à própria formação curricular que está sendo dada a esses estudantes. É que não há como simplesmente aparecer a ideologia do “veneno vencendo o amor” do nada. Há que haver firmada uma profunda convicção de que agrotóxicos não só são “seguros”, mas como podem ser motivo de piadas e formas de profundo de renda até com camisetas vestidas por estudantes.

E voltando à questão inicial da suposta invasão do “Marxismo Cultural” nas universidades públicas, o que este caso escancara é que o problema que nos aflige é de natureza bem diversa, e começa pela aceitação de que temos de naturalizar os inevitáveis riscos trazidos por um modelo produtivo que reconhecidamente é viciado em venenos agrícolas. Essa aceitação tem tudo a ver com uma lógica que não tem como estar associada a qualquer variante (real ou imaginada) do Marxismo.

Finalmente, eu fico curioso para saber se a coordenação do curso de Agronomia da Universidade Federal de Goiás adotou algum tipo de medida pedagógica para aumentar o grau de consciência dos estudantes e futuros profissionais  sobre as implicações sociais, ambientais e econômicos do alto uso de venenos agrícolas pela agricultura brasileira. E quando falo de pedagógica, isto falando no sentido literal da palavra. É que a suposta piada contida na camiseta dos estudantes goianos revela, acima de tudo, que eles não entendendo a gravidade do problema com que terão de se defrontar na sua vida profissional.