Noruega é o primeiro país do mundo a adotar o desmatamento zero. Enquanto isso no Brasil, o clima é de liberar geral

A imagem abaixo é uma reprodução parcial de uma matéria publicada pelo jornal inglês “The Independent” sobre a decisão do governo da Noruega de adotar a política do desmatamento Zero (Aqui!).

zero deforestation

Essa decisão vai além das fronteiras da Noruega, já que a decisão do governo daquele país inclui a determinação se estende ao conjunto da cadeia de suprimentos dos produtos que são adquiridos pelo país. Em outras palavras, a Noruega não deverá mais comprar produtos originados de áreas de desmatamento novo.

O impacto da decisão norueguesa deverá ser inicialmente ignorado pelos países onde o desmatamento está ocorrendo de forma intensiva como é o caso dos países tropicais. Entretanto,  a possibilidade de que outros países industrializados sigam o caminho iniciado da Noruega não deve ser ignorada, já que o país possui uma liderança razoável em projetos de conservação florestal em todo o mundo.

Por outro lado, o Brasil fica numa posição ainda mais delicada em sua recusa de adotar a política do desmatamento zero, já que detém a maior área de floresta tropical do mundo. Além disso, como mostrou recentemente o jornalista Maurício Tuffani  do “Direto da Ciência”,  o ritmo de desmatamento na Amazônia, apesar de apresentar oscilações, vem apresentando tendência de aumento (Aqui!). Se somarmos esse quadro à decisão norueguesa,  é provável que aumentem as pressões internacionais contra a compra de produtos agrícolas e minerais gerados em áreas recentemente desmatadas.

Municipios-Mais-Desmatados_Imazon_30-01-2016

O problema é que neste exato momento, apesar da postura pró-controle que o ministro Zequinha Sarney possa estar tendo, o clima em outros ministérios e até no congresso é de “um liberar geral” para o desmatamento. Se este clima prevalecer é bem provável que as restrições comecem pela compra de carne e cheguem na soja.  A ver!

Do Direto da Ciência: físico do CBPF critica as posições da ABC e da SBPC frente ao golpe

Carta da ABC e da SBPC ao governo Temer sobre fusão de ministérios deixa a desejar

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Por MARIO NOVELLO, Especial para o Direto da Ciência*

Li com atenção o documento Em defesa de uma política de Estado para a ciência, a tecnologia e a inovação, de 6 de maio de 2016, tornado público pelos responsáveis pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) e pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Para ler, o resto do artigo de Mário Novello, basta clicar Aqui!

Marketing blogueiro: lançamento do “Direto da Ciência”

direto da ciencia

Em tempos de crise generalizada existem diferentes posturas para enfrentá-las. O jornalista Maurício Tuffani,  que é especializado em ciência, ensino superior e meio ambiente, adotou o caminho da “highway” e não da “downway”.  É que ele acaba de lançar um arrojado projeto editorial na forma de um blog que tratará dos diferentes aspectos que cercam a ciência e sua produção.  Estou falando do lançamento do “Direto da Ciência” que ele acaba de iniciar com um artigo sobre o envolvimento de professores da Universidade Estadual de Campinas numa situação pouco clara na reprodução do que eu venho chamando de “trash science” (Aqui!).

Dado o silêncio que normalmente cerca determinados imbróglios envolvendo pesquisadores, brasileiros ou não, o lançamento de um veículo como o “Direto da Ciência” me parece fundamental para que não continuemos desinformados sobre os caminhos e descaminhos pelos quais a comunidade científica vem trilhando em tempos de comodificação da ciência.

E a experiência acumulada pelo jornalista Maurício Tuffani o credencia a transformar este projeto em um instrumento sólido de disseminação de informação e debate de ideias sobre a ciência brasileira. Afinal como editor de ciência, blogueiro e repórter da Folha de S.Paulo, e editor-chefe das revistas Scientific American Brasil e Galileu (Editora Globo). e ainda como diretor editorial da revista Unesp Ciência,  ele demonstrou ter o necessário rigor e expertise para tratar de assuntos espinhosos que a maioria dos pesquisadores brasileiros prefere não se pronunciar publicamente.

Por isso, tudo é que recomendo que os leitores deste blog passem a também a acessar o “Direto da Ciência”.

Segunda geração de “revistas trash” amplia risco de vulgarização da ciência

predatory

O professor da University of Colorado-Denver, Jeffrey Beall publicou em seu site há poucos dias a ocorrência de uma segunda onda de editores de revistas de “trash science” (Aqui!). Esses editores nada mais seriam do que indivíduos que tendo trabalhado nas primeiras editoras “trash” decidiram criar seus próprios veículos para angariar recursos com autores incautos ou não. 

Eis que na manhã deste sábado (05/03) as minhas caixas de correio eletrônico amanheceram repletas de convites de revistas científicas obscuras, mas que estranhamente conseguiram me achar.

E, como não sou o único que deve ter sido “premiado”,  isto me leva a pensar que se há oferta, há demanda. Em outras palavras, se o número de revistas está proliferando é porque a competição permite que isto ocorra. Mas ainda há que se considerar que a relação custo/benefício deve estar ao lado dos editores destas revistas predatórias, já que só é preciso enviar um arquivo e depois pagar para que um pseudo-artigo possa ser citado como tendo sido publicado.

No caso brasileiro onde a adaptação a este tipo de oferta vem se dando sem nenhum tipo de amarra mais consistente, é bem provável que quem se serviu da primeira geração de editores “trash”, agora parta para abraçar sem nenhum remorso essa segunda onda de editores predatórios.

O pior é que naqueles poucos casos onde há algum tipo de cobrança de transparência como foi o caso do evento noticiado pelo jornalista Maurício Tuffani no seu blog (Aqui!) envolvendo a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o que se vê é a procrastinação em oferecer as respostas devidas.

O problema é que ao não se ignorar e rechaçar (em vez de abraçar) as revistas que proliferam lixo científico, corremos o risco de que em algum tempo não possamos mais separar o que é ciência real e o que simplesmente lixo científico. No caso de países como o Brasil, os custos desta complacência com os editores “trash” compromete o avanço científico que conseguimos com tanta dificuldade

Sequestro de nomes de revisas científicas: a nova tática do “trash science” para garantir freguesia

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Em seu blog, Prof. Jeffrey da Colorado University-Denver abordou recentemente mais um caso de sequestro de nome de revista científica tradicional por um editor predatório (Aqui!). A estratégia aparentemente básica de sequestrar nomes de revistas é mais uma das muitas que estão sendo adotadas por editores de “trash science” para atrair cientistas incautos (ou não) para continuar garantindo os lucros de um mercado em visível expansão.  Como o próprio professor Jeffrey Beall já identificou, e o jornalista Maurício Tuffani repercutiu em seu blog, a lista de editoras predatórias cresceu 33% apenas em 2015 (Aqui!) sem que haja qualquer indicação de que o fenômeno vá começar a regredir num futuro imediato.

A questão da expansão mundial do “trash science” é particularmente aguda para países com sistemas científicos em desenvolvimento, como é o caso do Brasil, por causa da ênfase na quantificação da produção que, muitas vezes, acaba permitindo que muito lixo científico seja produzido e, pior, que os seus produtores sejam generosamente irrigados com um pool de verbas que está bastante curto por causa da crise econômica mundial.

Como em tantas outras empreitadas, há que se perguntar como pesquisadores que se pretendem sérios se permitem atrair por revistas que se valem de esquemas como o do sequestro de títulos para oferecerem seus préstimos.  A questão é que se as agências de fomento, como o CNPq e a Capes não se dão ao trabalho o joio do trigo (ou melhor, ciência de verdade de lixo científico de baixíssima qualidade ), o que está se fazendo de forma prática é a autorizar a abertura de uma temporada interminável de produções que não merecem nem um pingo da tinta que é usada para passá-las dos ambientes virtuais das revistas “trash” para a condição de cópias impressas. A pouca disposição das agências de fomento de identificar e punir quem se vale de “trash science” paraa acessar recursos públicos escassos não isenta os pesquisadores que se valem das editoras predatórias para engordar de forma fictícia os seus currículos. Mas a combinação desses dois aspectos parecem explicar o crescimento da oferta de editoras predatórias que estão pelo mundo afora (principalmente na África e na Ásia) dispostas a colocar online qualquer coisa que alguém se habilite a pagar pela publicação.

O interessante nisto tudo é que a simples menção de que estamos metidos num momento delicado da ciência por causa da ação desenvolta das editoras predatórias cria o mesmo ambiente de silêncio sepulcral que se observa nos filmes sobre a máfia. Aliás, manifestações recentes contra o trabalho do Prof. Jeffrey Beall beiram a reação histérica que vimos em outros casos de personagens que aparecem em público para nos mostrar facetas indesejáveis do nosso cotidiano. Mas pensando bem, motivos para isso devem existir, já que a movimentação de recursos em direção às editoras predatórias nem sempre advém dos recursos privados dos pesquisadores que se dispõe a colocar seus nomes nessas “obras”. Dai que atirar no mensageiro é sempre mais fácil do que reconhecer que a mensagem que ele traz.

O crescimento acelerado do “trash science”. Um caso clássico de oferta e demanda?

Ao longo de 2015 tratei aqui neste blog do problema do crescimento e validação do “trash science” e de seus efeitos perversos sobre o processo de disseminação de conhecimento científico, bem como da distribuição de verbas estatais para pesquisadores.

Para minha pouca surpresa, a reação inicial que obtive de muitos pesquisadores foi de rejeição à publicização até da existência deste problema. Apesar de não concordar, acho até compreensível que muitos não queiram nem ouvir falar sobre qualquer esforço de separar “o trigo do joio”. Afinal, além de se manterem num Olimpo com pés de barros, esses pesquisadores estão sendo beneficiados pela concessão de verbas pelas principais agências de fomento brasileiras.

O pior é que ao longo do ano passado tive ainda que presenciar a tentativa de linchamento do Professor Jeffrey Beall por causa de uma postagem em seu blog acerca da eficiência da plataforma Scielo em disseminar artigos e revistas ali hospedados.  O ultraje que acometeu dezenas de editores de revistas brasileiras só tem paralelo no imenso silêncio que existe acerca do problema e das consequências do “trash science” para a ciência, e especificamente a brasileira.

Agora, já nos primeiros dias de 2016 estou sendo novamente procurado para publicar em revistas predatórias, como mostra a imagem abaixo.

trash science

Além de deixar curioso sobre como meu endereço eletrônico institucional foi “fisgado” pelos editores do “International Journal of Environmental and Agriculture Research“, não posso deixar de pensar que se eles estão me alcançando, o mesmo estará ocorrendo com centenas de outros docentes de universidades brasileiras. É que dentro das leis estritas de mercado, raramente há oferta se não houver um mínimo de demanda. Em outras palavras, tem gente que está respondendo positivamente a este pedido de convite.

Mas será por falta de ignorância e excesso de boa fé, combinadas com a necessidade de engordar o CV Lattes, que isto ocorre? A minha resposta é… dificilmente. É que, apesar do incômodo gerado pela “black list” do Professor Beall, quase todo mundo já sabe da sua existência e das formas de acessá-la.

No caso do convite acima, bastou identificar a editora do “International Journal of Environmental and Agriculture Research“, a AD Publications (ver cabeçalho da sua página na internet) e depois acessar a lista do Professor Jeffrey Beall (Aqui!) para saber a resposta.

trash science 1

E não deve ser surpresa que a AD Publications está na Beall´s List of Predatory Publishers.  Mas isto também deixar claro que estar listado não é um fator de inibição para os editores que o próprio professor Beall continuam a se reproduzir como cogumelos em pastagens após dias de chuva intensa.

trash science 2

Entretanto, a pergunta que me parece mais relevante é a seguinte: quantos pesquisadores se sentem na obrigação de verificar listas como a formulada pelo Professor Beall? E mais importante ainda: será que o trabalho iniciado pela CAPES para remover jornais “trash” do Qualis Capes vai continuar sem a pressão de jornalistas como Maurício Tuffani que é um dos poucos a tratar do problema de forma aberta na mídia corporativa (Aqui!)?

Eu diria que em tempos de forte restrição financeira e das imensas pressões pela validação meritocrática do trabalho das universidades, deixar de atacar o problema do “trash science” será um tremendo tiro no pé.  É que nada melhor para quem justificar cortes orçamentários do que fisgar publicações “trash” para desvalorizar toda a comunidade científica brasileira. 

E, sim, continuo esperando uma posição coletiva dos editores de revistas científicas brasileiras sobre o problema, de preferência no mesmo tom de ultraje com que procuraram demonizar o trabalho do Professor Jeffrey Beall. Caso contrário, o ultraje não terá passado de uma tentativa de se assumir responsabilidades.

Pesquisadores brasileiros pedem debate sobre transgênicos

POR MAURÍCIO TUFFANI

Placa indica cultivo de transgênicos no Centro de Tecnologia Canavieira, em Piracicaba, no interior de São Paulo. Imagem: Rodrigo Capote/Folhapress

Placa indica cultivo de transgênicos no Centro de Tecnologia Canavieira, em Piracicaba, no interior de São Paulo. Imagem: Rodrigo Capote/Folhapress

Não há verdadeiro debate entre os adeptos e os críticos do uso de transgênicos”, afirmam pesquisadores ligados ao IEA (Instituto de Estudos Avançados) da USP em sua “Carta aberta à Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e à Academia Brasileira de Ciências” (ver texto em PDF).

Publicada na internet na terça-feira (10.nov), a carta pede à SBPC e à ABC a organização de “um amplo diálogo” sobre a segurança dos alimentos geneticamente modificados e o envolvimento da ciência no desenvolvimento de práticas alternativas para a agricultura baseada nesses produtos.

A carta propõe ainda que seja debatida a alegação frequente —por parte de autoridades governamentais, agricultores e também de pesquisadores— de que os transgênicos seriam “imprescindíveis para satisfazer as necessidades alimentares da humanidade”.

POLARIZAÇÃO

Felizmente a reivindicação deixa clara desde o início a polarização estéril que ainda existe nesse tema:

“Vem ficando cada vez mais claro nos últimos tempos que deixa muito a desejar a maneira como se desenvolvem as controvérsias sobre os transgênicos. Elas parecem opor dois fundamentalismos: há falta de entendimento mútuo, as mesmas firmes convicções são repetidas vezes sem conta; diferenças relevantes não são identificadas e discutidas criticamente, e as pesquisas científicas que poderiam decidir pontos-chave de desacordo não são realizadas. Não há verdadeiro debate entre os adeptos e os críticos do uso de transgênicos.”

Os signatários da carta e integram o  Grupo de Pesquisa em Filosofia, História e Sociologia da Ciência e da Tecnologia do IEA-USP. São os professores de filosofia da ciência Pablo Rubén Mariconda (Departamento de Filosofia da USP), Marcos Barbosa de Oliveira (Faculdade de Educação da USP), José Corrêa Leite (FAAP), pesquisadora em política científica Márcia Tait Lima (Ipea) e o epistemólogo Hugh Lacey, professor do Swarthmore College, na Pensilvânia, nos Estados Unidos.

Em abril deste ano, os presidentes da SBPC, a bioquímica Helena Nader, e da ABC, o matemático Jacob Palis, publicaram na Folha, em coautoria com o presidente da CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança), o artigo “Ciência, sociedade e a invasão da CTNBio”.

GUERRA

Sobre questões polêmicas em torno da aprovação de organismos geneticamente modificados no Brasil, recomendo a leitura de uma análise muito boa e independente feita por meu colega Marcelo Leite, colunista da Folha, em seu artigo Eucalipto transgênico.

Essa polêmica não é novidade no mundo nem aqui no Brasil. E ela persiste porque, na verdade, é muito mais que uma polarização de ideias. Ela já se transformou há um bom tempo em uma guerra de desinformação, como eu disse já em 2003, em um artigo na revista “Galileu”.

Enfim, não evoluímos praticamente nada no plano do conhecimento público sobre esse tema. Mas as indústrias de alimentos transgênicos têm conseguido não só aprovar seus produtos, mas também escapar de serem obrigados a rotulá-los para que as pessoas possam escolher o que consumir.

FONTE: http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/11/12/pesquisadores-brasileiros-pedem-debate-sobre-transgenicos/

O difícil trabalho de desvendar os (des) caminhos da produção de “trash science”

Percorrer e desvendar os caminhos do que eu rotulo de “trash science” pode parecer fácil, mas não é.  Um procedimento normal dos editores predatórios é enviar uma mensagem como a que aparece na imagem abaixo para vender a participação numa conferência ou a rápida publicação numa revista que esteja associada aos seus organizadores.

Online conference

Até ai, tudo bem. O primeiro problema é identificar quem é o organizador da conferência e como e a quem estão ligadas as revistas que são indicadas para publicação dos “artigos selecionados” da conferência.  Tive que gastar uns bons minutos para identificar que as três revistas indicadas pelos organizadores da conferência (cujo endereço de correspondência é localizado na cidade de Nova York).  Mas não consegui identificar com a mesma facilidade onde as revistas são “editadas” (ver a figura abaixo para uma delas).

IJNTSE

Uma pista é dada no site da International Journal of New Technologies in Science and Engineering que informa que 80% dos recursos arrecadados na cobrança de taxas de publicação serão doados para uma organização não governamental voltada para o atendimento de idosos na Índia ((Aqui!)   (Aqui!) )

IJNTSE 2

Mais fácil foi identificar que as revistas estão listadas na “black list” organizada pelo Prof. Jeffrey Beall (Aqui). Além disso, a medida de fator de impacto pelo qual as revistas estaria sendo avaliadas, o “Technical Impact Factor“)  também já foi denunciado pelo Prof. Beall como sendo um dos muitos fatores de impacto piratas que circulam no mercado das revistas predatórias (Aqui!).

Decifrados este percurso sinuoso, volto a me deter no qual denuncia tanto a conferência (que é acima anunciada como ocorrendo apenas via online, ou seja, de forma virtual) como as revistas a ele ligadas como predatórias (ou “trash science” no meu linguajar)  são as datas extremamente próximas entre o prazo limite de envio e a ocorrência da conferência. Outro sintoma são os preços que são oferecidos para os diferentes tipos de participantes. É que apesar das atuais taxas de câmbio, os preços são, digamos, bem camaradas, especialmente para pesquisadores com poucos recursos e desesperados para turbinar seus currículos.

O problema é que, como já foi apontado pelo jornalista Maurício Tuffani em seu blog, este processo acaba criando uma situação em que se fortalece e valida a existência de revistas predatórias. E isso ficou bem demonstrado quando 235 revistas predatórias (ou seja produtoras de “trash science“) foram detectadas no chamado Qualis Capes (Aqui!). E como o próprio Maurício Tuffani notou a recente tentativa dos comitês assessores da Capes de fazerem uma limpeza no Qualis Capes não representou mais do que um arranhão na armadura dos “trash science” que estão ali ranqueados (Aqui!).

E o problema é que enquanto convites como o que foi dissecado nesta postagem continuam chegando de forma volumosa, a reação da maioria da comunidade científica brasileira, e também internacional, é de minimizar os impactos mais amplos da disseminação de revistas e conferências predatórias sobre a forma pela qual se produz e avalia a produção científica. Isto já gerou e continuará gerando sérias distorções na formação das futuras gerações de pesquisadores. No caso brasileiro, a coisa é ainda pior, visto que nem uma valorização real se dá ao desenvolvimento científico, como ficou recentemente demonstrado pela nomeação do Sr. Celso Pansera para dirigir o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

Maurício Tuffani disseca o crescimento exponencial do “trash science”. E eu pergunto: por que tanto silêncio em torno do problema?

monkeys

O jornalista Maurício Tuffani aborda novamente em seu blog hospedado na Folha de São Paulo a questão da produção de “trash science“, onde mostra que o número de revistas “trash” vem tendo um crescimento exponencial nos últimos anos. Essa produção de ciência “trash” é provavelmente um sinal perverso dos efeitos da transformação da ciência em mais uma “commodity”. 

Além disso, no caso brasileiro, a produção de “trash science” tem tido um papel ainda mais danoso, já que não apenas o sistema de ranqueamento dos programas de pós-graduação tem sido afetado pelo engordamento da produção científica por artigos publicados em revistas “predatórias”.  E de forma adicional, o trânsito livre que foi dado para que pesquisadores sejam premiados por engordar seus CVs com “trash science” resultou numa espécie  de “vale tudo” ,cujo resultado final tem sido o crescimento também exponencial de ruído científico.

Um aspecto que julgo especialmente importante na postagem que vai abaixo é o quase absoluto silêncio que reinava na comunidade científica brasileira acerca da contaminação causada pelas publicações “trash” no desenvolvimento da ciência brasileira. E também considero que as medidas recentes tomadas pela Capes para rebaixar ou até excluir publicações do chamado Qualis Capes são claramente insuficientes.

É que enquanto ficarmos no paliativo, os que mais se beneficiam com o engordamento de CVs por artigos produzidos via “trash science” vão continuar fingindo que continua tudo como dantes no quartel de Abrantes. Para isso, há que se ter a coragem de mexer nos mecanismos de concessão de premiações, seja no plano dos programas de pós-graduação, mas também no plano individual dos pesquisadores.

Eu apontaria que se toda a gritaria que ocorreu em relação à postagem do Prof. Jeffrey Beall se repetisse em relação ao núcleo duro da sua contribuição ao debate em relação aos problemas que cercam a disseminação de revistas predatórias, talvez não estivéssemos tendo que nos defrontar com os impactos do “trash science” em tantas áreas chaves da ciência brasileira. Mas, lamentavelmente, a gritaria parece ter sido apenas contra o mensageiro da má notícia que a maioria prefere ignorar.

Mas uma coisa positiva que está acontecendo é que mais pessoas estão começando a falar abertamente sobre os problemas causados pelo “trash science”, e da necessidade de combater as deformações que estão ocorrendo na produção científica brasileira por causa da permissividade com que essa questão foi tratada até recentemente. Pode não parecer pouco, mas já é muita coisa.

Abaixo segue a postagem do Maurício Tuffani que merece ser lida de forma cuidadosa por todos os que querem produzir ciência de qualidade no Brasil. Boa leitura!

 

Produção de periódicos predatórios aumentou 7 vezes em 4 anos

POR MAURÍCIO TUFFANI

Enquanto as autoridades das universidades, instituições de pesquisa e agências de fomento no Brasil evitam a todo custo tratar publicamente da praga que são as chamadas editoras acadêmicas predatórias e as revistas científicas por elas publicadas na base do “pagou, publicou”, no exterior o problema se torna cada vez mais escancarado.

Desta vez não foi mais uma novidade do biblioteconomista Jeffrey Beall, dos EUA, com sua lista dos  “publishers predatórios”. Um estudo publicado hoje pela revista “BMC Medicine” revela que cresceu de cerca de 53 mil em 2010 para 420 mil em 2014 o número de artigos dos periódicos despejados na literatura científica por essas editoras que exploram sem rigor acadêmico o modelo de publicação em acesso aberto na internet, baseado na cobrança de taxas de autores.

PREVISÕES

Esse crescimento corresponde a 692% em apenas quatro anos, ou seja, a cerca de 7 vezes. A partir da lista de Beall, os pesquisadores da área de ciência da informação Cenyu Shen e Bo-Christer Björk, da Escola Hanken de Economia, na Finlândia, identificaram cerca de 8 mil periódicos ativos responsáveis por esse aumento. Segundo os autores, cerca de 75% dessas revistas estão na África e Ásia.

Shen e Björk, no entanto, afirmaram que os problemas provocados ​​por essas revistas são muito limitados e regionais. A acrescentaram que acreditam que o número de artigos publicados por elas “vai parar de crescer em um futuro próximo”.

CONTESTAÇÃO

Em entrevista ao blog “Retraction Watch”, dos EUA, Beall discordou dos dois autores, afirmando que os dados por eles apresentados não dão suporte a essa previsão. E acrescentou:

“Além disso, é enganosa sua tentativa de minimizar os problemas causados ​​pelos publishers predatórios como ‘regionais’. A Índia tem 1,2 bilhões de pessoas, e a China tem 1,3 bilhão. Há dezenas de milhões de pesquisadores na região.”

Beall foi alvo no Brasil de moções de repúdio por parte de lideranças na área de publicações acadêmicas por ter publicado em julho em seu blog o post “O SciELO é uma favela de publicações?, afirmando que essa plataforma on-line brasileira de periódicos mantida por meio de recursos públicos não consegue dar visibilidade aos trabalhos científicos.

NO BRASIL

Critiquei esse texto de Beall, não só por equívocos em suas afirmações, mas também por ele ter dado razões de sobra às acusações contra ele de preconceito ideológico contra o modelo do acesso aberto e de ele ter uma visão de mundo capitalista na qual só se justifica o modelo de publicação acadêmica baseado no mercado da cobrança pelo acesso aos conteúdos dos periódicos (“Um alívio para os periódicos predatórios”, 6.ago).

O efeito desse problema em nosso país já teve amostras suficientes, desde o impacto na produção acadêmica (“Sobe para 235 a lista de predatórios da pós-graduação brasileira”, ) ao comprometimento de conferências científicas ( “Eventos científicos ‘caça-níqueis” preocupam cientistas brasileiros”, 3.mar, e “Promotoria questiona Unicamp por evento com editora ‘predatória’”, 15.ago).

Felizmente, já existe uma pequena reação contra esse quadro (“Capes rebaixa revistas científicas de má qualidade”, 23.set). Mas ainda é pouco. Por mais que tenham razão algumas das suas críticas a Beall, torna-se cada vez mais imoral e indecente a atitude de indiferença de muitas autoridades e lideranças acadêmicas brasileiras com o problema dos periódicos predatórios.

FONTE: http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/10/01/producao-de-periodicos-predatorios-aumentou-7-vezes-em-4-anos/

Maurício Tuffani analisa o rebaixamento do “trash science” no Qualis Capes

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O jornalista Maurício Tuffani que vem há algum  tempo noticiando a contaminação da produção científica brasileira por revistas predatórias e reprodutoras de lixo científico agora nos dá as novas em seu blog hospedado na Folha de São Paulo sobre o início da limpeza que a Capes no seu ranking de publicações científicas.

Apesar de considerar que este início é ainda tímido, já que muitas revistas sequer deveriam ser incluídas em qualquer ranking que se pretenda sério, alguma coisa é melhor do que nada. Principalmente porque sinaliza a intenção de acabar com o faroeste caboclo em que estávamos envolvidos por causa do apoio explícito de aumentar a quantidade de publicações sem que se olhasse para a qualidade. Com isso, uma série de  de docentes terão que repensar seus caminhos.

Uma coisa que me preocupa é sobre se essa primeira limpeza vai ficar por ai ou se começaremos uma verdadeira discussão das causas da incapacidade da ciência brasileira de produzir com qualidade e na quantidade em que o Brasil requer.  

De toda forma, agora que o gato foi colocado para fora do saco, vamos ver se mais pesquisadores ousam falar do problema. É que foi a indisposição da maioria de confrontar, ou sequer reconhecer, a existência do problema é que chegamos à situação vergonhosa de rotular de ciência o que não passa de lixo científico.

Capes rebaixa revistas científicas de má qualidade

POR MAURÍCIO TUFFANI

Má notícia para professores universitários, pesquisadores e pós-graduandos brasileiros que andaram publicando nos chamados periódicos predatórios, aquelas revistas acadêmicas que aceitam artigos sem os submeter previamente a uma rigorosa avaliação conforme os padrões tradicionais da comunidade científica, mas também sem deixar de lucrar cobrando taxas de autores.

Nada indica que parece ser a grande limpeza que precisa ser feita. Mas muitas publicações desse tipo começaram a ser rebaixadas e até mesmo eliminadas da classificação que tiveram na avaliação trienal de 2010 a 2012 feita pela Capes (Coodenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), órgão do Ministério da Educação.

A classificação de revistas científicas pela Capes tem sete níveis —A1, A2, B1, B2, B3, B4, B5 e C, em ordem decrescente. Acessível pela base de dados on-line Qualis Periódicos, ela tem sido amplamente usada em processos seletivos para contratações e promoções de docentes e pesquisadores e também em avaliações individuais para concessões de bolsas e auxílios à pesquisa.

PREJUÍZO

Os periódicos predatórios são desprestigiados por cientistas mais conceituados e também por instituições de pesquisa de destaque. O motivo disso é que essas revistas não só facilitam a publicação de trabalhos de baixa qualidade, mas também porque sua má reputação prejudica os bons estudos que elas possam veicular. E pesquisas exigem tempo e investimentos em equipamentos, materiais e salários, que são quase totalmente custeados por recursos públicos no Brasil.

Com a ajuda de alguns pesquisadores, este blog revelou em março deste ano uma primeira relação dessas publicações e a ampliou no mês seguinte (“Sobe para 235 a lista de predatórios da pós-graduação brasileira”).

As novas avaliações, que são relativas a 2013 e 2014, estão acessíveis desde segunda-feira (21.set) em outra base de dados da Capes, a Plataforma Sucupira, que passou a integrar informações de vários programas da agência.

LIMPEZA COMPLETA

Casos típicos de periódicos predatórios que foram eliminados nas novas avaliações da Capes foram “Transactions on Biology and Biomedicine“, “Transactions on Computers”“Transactions on Environment and Development” e “Transactions on Power Systems”. Os quatro são publicados pela editora chinesa WSEAS (World Science and Engineering Academy Society), famosa na internet por promover conferências científicas caça-níqueis.

Também não houve chance nas novas avaliações da Capes para o “Trends in Applied Sciences Research”, que havia sido classificado nas áreas de Geociências (B4), Interdisciplinar (B4), Biotecnologia (B5) e Biodiversidade (C). O periódico é editado pela Academic Journals Inc., que tem 57 revistas com códigos ISSN registrados nos EUA e indica endereço nesse mesmo país. No entanto, seu domínio de internet é de Faisalabad, no Paquistão, onde, de fato, estão suas operações editoriais.

DUROS DE MATAR

Mas ainda não dá para comemorar. Apesar de não terem mais registro em algumas da áreas em que foram pontuadas anteriormente, muitas revistas de publishers acadêmicos de má reputação ainda sobrevivem no Qualis Periódicos. Isso acontece pelo simples fato de elas continuarem com algumas classificações, por mais baixas que sejam, em vez de serem definitivamente descartadas.

Embora não tenham sido eliminadas como as quatro revistas da WSEAS apontadas acima, pelo menos foram rebaixadas em suas classificações todas as outras 13 revistas dessa editora que também haviam sido pontuadas na avaliação de 2010-2012 da agência do Ministério da Educação.

É o caso também do “African Journal of Agricultural Research”, publicado pela editora nigeriana Academic Journals (não confundir com a do parágrafo anterior, embora sejam ambas predatórias), que tem 13 revistas classificadas no Qualis. Enquanto isso, na Malásia o Ministério da Educação Superior não reconhece e também não dá apoio para artigos publicados por esse publisher, como já mostrou este blog ( “Na ciência, o ruim para a Malásia é bom para o Brasil”, 7.mar).

Esse periódico nigeriano não só deixou de constar com a elevada —e absurda— classificação A2 que havia obtido no grupo Administração, Ciências Contábeis e Turismo, mas também nem sequer foi incluído nessa área nas avaliações de 2013 e 2014. A não inclusão também aconteceu no segmento Interdisciplinar, no qual a revista havia sido classificada como B1, como mostra a tabela a seguir.

African-Journa-of-Agricultural-Research

VAI LONGE

Além das duas não inclusões acima indicadas, o “African Journal of Agricultural Research” teve também dois rebaixamentos (de B2 para B3 em Biodiversidade, e de B2 para B5 em Engenharias III). Apesar de sua péssima reputação internacional, bastaria manter essas duas classificações para ele permanecer no Qualis como alternativa para professores, pesquisadores e pós-graduandos que não conseguem coisa melhor.

Essa revista também teve estabilização em seis outras áreas e uma única “promoção” (de B4 para B3 em Ciência de Alimentos). Sem falar na inclusão em Arquitetura e Urbanismo (B4), Ciências Ambientais (B2), Ciência da Computação (B5), Economia (B4) e até mesmo nas mais exigentes Ciências Biológicas III (C)  e Química (C) , que pelo menos aplicaram a classificação mais baixa, mas mainda assim permitem espaço para artigos que merecidamente podem ser considerados lixo acadêmico.

Houve também desclassificações e rebaixamentos de outros periódicos “famosos” que pretendo comentar nos próximos dias. Ainda é cedo para saber se eles serão excluídos na próxima avaliação, que será quadrienal (2013-2016).

LIXO ACADÊMICO

Concluída em 2013, a avaliação trienal de 2010-2012 do Qualis Periódicos envolveu cerca de 2 mil especialistas, distribuídos por 48 comitês assessores da Capes, cada um deles com um coordenador e dois coordenadores adjuntos —eleitos por comissões de pós-graduação de todo o país—, com o apoio de, em média, 20 consultores.

Apesar de não ser ainda a limpeza que tem de ser feita e de a avaliação quadrienal 2013-2016 ainda estar em curso, as informações parciais de 2013 e 2014 indicam que a divulgação sobre o chamado “lixo acadêmico” começou a fazer efeito.

O que importa é que agora, com a atualização do Qualis na Plataforma Sucupira, será possível para a comunidade acadêmica monitorar o processo antes da conclusão da avaliação quadrienal. E, quem sabe, teremos melhores condições para compreendermos se esse tipo de avaliação de periódicos realmente funciona.

FONTE: http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/09/23/capes-rebaixa/