Sequestro de nomes de revisas científicas: a nova tática do “trash science” para garantir freguesia

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Em seu blog, Prof. Jeffrey da Colorado University-Denver abordou recentemente mais um caso de sequestro de nome de revista científica tradicional por um editor predatório (Aqui!). A estratégia aparentemente básica de sequestrar nomes de revistas é mais uma das muitas que estão sendo adotadas por editores de “trash science” para atrair cientistas incautos (ou não) para continuar garantindo os lucros de um mercado em visível expansão.  Como o próprio professor Jeffrey Beall já identificou, e o jornalista Maurício Tuffani repercutiu em seu blog, a lista de editoras predatórias cresceu 33% apenas em 2015 (Aqui!) sem que haja qualquer indicação de que o fenômeno vá começar a regredir num futuro imediato.

A questão da expansão mundial do “trash science” é particularmente aguda para países com sistemas científicos em desenvolvimento, como é o caso do Brasil, por causa da ênfase na quantificação da produção que, muitas vezes, acaba permitindo que muito lixo científico seja produzido e, pior, que os seus produtores sejam generosamente irrigados com um pool de verbas que está bastante curto por causa da crise econômica mundial.

Como em tantas outras empreitadas, há que se perguntar como pesquisadores que se pretendem sérios se permitem atrair por revistas que se valem de esquemas como o do sequestro de títulos para oferecerem seus préstimos.  A questão é que se as agências de fomento, como o CNPq e a Capes não se dão ao trabalho o joio do trigo (ou melhor, ciência de verdade de lixo científico de baixíssima qualidade ), o que está se fazendo de forma prática é a autorizar a abertura de uma temporada interminável de produções que não merecem nem um pingo da tinta que é usada para passá-las dos ambientes virtuais das revistas “trash” para a condição de cópias impressas. A pouca disposição das agências de fomento de identificar e punir quem se vale de “trash science” paraa acessar recursos públicos escassos não isenta os pesquisadores que se valem das editoras predatórias para engordar de forma fictícia os seus currículos. Mas a combinação desses dois aspectos parecem explicar o crescimento da oferta de editoras predatórias que estão pelo mundo afora (principalmente na África e na Ásia) dispostas a colocar online qualquer coisa que alguém se habilite a pagar pela publicação.

O interessante nisto tudo é que a simples menção de que estamos metidos num momento delicado da ciência por causa da ação desenvolta das editoras predatórias cria o mesmo ambiente de silêncio sepulcral que se observa nos filmes sobre a máfia. Aliás, manifestações recentes contra o trabalho do Prof. Jeffrey Beall beiram a reação histérica que vimos em outros casos de personagens que aparecem em público para nos mostrar facetas indesejáveis do nosso cotidiano. Mas pensando bem, motivos para isso devem existir, já que a movimentação de recursos em direção às editoras predatórias nem sempre advém dos recursos privados dos pesquisadores que se dispõe a colocar seus nomes nessas “obras”. Dai que atirar no mensageiro é sempre mais fácil do que reconhecer que a mensagem que ele traz.

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