Choque neoliberal repetido: pelo segundo ano seguido, governo Lula passa motosserra no orçamento das universidades federais

Em meio às viagens do presidente Lula, o segundo governo editou o Decreto  No.12.448/2025 que na tirou R$ 2,5 bilhões do Ministério da Educação (MEC) e reduziu o orçamento anual das universidades federais em pelo menos 61%. Esse é o segundo ano seguido que a medida adotada, impondo um contigenciamento de verbas que impede a realização de reformas e afeta serviços terceirizados como é o caso da limpeza.

O impacto desse corte, no entanto, vai muito além. É que em muitas universidades, essa medida impedirá o pagamento de serviços básicos como os de eletricidade e água, coisas que são fundamentais para viabilizar o funcionamento mínimo das instituições. Mas a coisa não para aí, pois unidades de pesquisa que utilizam equipamentos que dependem do oferecimento sustentado desses serviços poderão se tornar inviáveis.

O interessante é que de tempos em tempos, o presidente Lula ensaia o discurso surrado de que seu mandato é comprometido com o ensino público e com as universidades. No entanto, quando se trata de fazer cortes orçamentários para assegurar o fluxo de dinheiro para abastecer o sistema financeiro via o pagamento de juros,  as universidades são atacadas sem dó nem piedade.

O problema é que estamos diante de um governo que estimula a condição dependente da nossa economia, ancorando o pesado dos investimentos públicos em projetos que favorecem o aprofundamento da reprimarização. Isso fica explícito em todos os recursos alocados para a produção de commodities agrícolas e para a produção de óleo e gás. 

Nesse contexto,  cortar o orçamento das universidades e institutos federais faz completo sentido, pois não há interesse de fato na produção de conhecimento científico que diminua a dependência no setor primário. 

A verdade é que inexiste no governo Lula um compromisso real com a diminuição do caráter dependente da economia brasileira. Com isso, não se pode levar os discursos pró-universidades do presidente Lula como sendo sérios. No máximo, eles representam aquela máxima de se levantar bandeiras corretas em dias de festa para esquecê-las no momento em que se sai do palanque.

Por essas e outras é que precisamos as universidades precisam se mobilizar urgentemente para pressionar e impedir que esse corte de quase 40% seja executado.  O risco de se ficar inerte em face dessa ataque é grave demais.

Se é ruim para o setor privado, é excelente para a educação brasileira

O que está em jogo não é a defesa de educação acessível, mas sim a manutenção de um modelo de negócios 

Por Thiago Esteves para o “Le Monde Diplomatique” 

Nas últimas semanas, temos acompanhado uma verdadeira campanha tanto na mídia tradicional quanto na imprensa alternativa, incluindo alguns veículos progressistas, contra uma proposta recente do Ministério da Educação, que sequer foi formalmente apresentada, para regulamentar minimamente a modalidade de educação superior a distância no Brasil. 

A proposta do Ministério da Educação para regulamentar a educação a distância representa um avanço necessário e urgente para garantir a qualidade do ensino superior ofertado, principalmente pelas instituições privadas de ensino, que hoje concentram 95,9% das matrículas nessa modalidade. Ao propor medidas como a limitação do número de alunos por turma nas aulas síncronas (aulas que ocorrem em tempo real, mas com professores e estudantes em locais diferentes), a obrigatoriedade das avaliações presenciais e a implementação de atividades presenciais e semipresenciais, o governo federal sinaliza que não é mais admissível tratar a educação a distância como um atalho para diplomas baratos e formação deficiente — que vendem, parcelado, a ilusão, principalmente para a classe trabalhadora, de empregos mais qualificados e com maiores salários, o que dificilmente acontecerá com a conclusão desses cursos. 

Para entender a forte reação do setor privado contra qualquer tipo de regulação do ensino a distância, é preciso estar atento a alguns números desse setor. Segundo levantamentos realizados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), autarquia vinculada ao Ministério da Educação, e disponibilizados no Censo da Educação Superior de 2023, neste ano ingressaram no ensino superior no Brasil 4.993.992 estudantes. Desses, 4.424.903 — ou 88,6% — matricularam-se na rede privada, e 569.089 — ou 11,4% — ingressaram em instituições públicas de ensino. 

Crédito: Agência Senado/Flickr

Das 4.424.903 novas matrículas na rede privada, 3.226.891 — ou 73% — foram na modalidade de educação a distância, enquanto 1.198.012 — ou 27% — foram em cursos presenciais. Já ao analisarmos os dados referentes às novas matrículas nas instituições públicas de ensino superior, observamos um cenário diametralmente oposto ao da rede privada: 481.578 — ou 85% — dos novos estudantes optaram por cursos presenciais, enquanto 87.511 — ou 15% — matricularam-se em cursos a distância. 

Considerando o total das 4.993.992 novas matrículas no ensino superior em 2023, 3.314.402 — ou 66,4% — foram realizadas na educação a distância, e 1.679.590 — ou 33,6% — em cursos presenciais. 

Um dado em particular, publicado pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), chama a atenção e ajuda a entender a motivação por trás da tentativa de impedir o Ministério da Educação de regular os cursos superiores a distância: a receita de R$ 41,98 bilhões obtida pelas instituições privadas em 2023. No entanto, em vez de celebrarem os lucros obtidos com a exploração da educação privada no país, os mantenedores das instituições de ensino superior chamaram atenção para a queda de 36,6% nas matrículas, o que, segundo eles, estaria “apertando as margens de lucratividade”. 

Esses números nos permitem entender por que é praticamente impossível andar por uma cidade brasileira sem nos depararmos com propagandas de cursos de ensino superior a distância ou com um dos cerca de 50 mil polos instalados nos mais inusitados espaços, como lojas comerciais de tamanho diminuto, lojas de conveniência em postos de combustíveis, garagens ou até dividindo espaço com outras atividades comerciais, como, por exemplo, escritórios de contabilidade, advocacia, estúdios de pilates ou lojas de roupas. 

Também é possível compreender a mobilização por meio de artigos, colunas, manifestos e discursos em “defesa do acesso ao ensino superior”, quando a real preocupação das grandes corporações educacionais é a ameaça à rentabilidade de um modelo de negócio baseado na precarização do trabalho docente e na oferta de educação de baixíssima qualidade. 

A verdade é que a explosão da educação a distância no Brasil, a partir da flexibilização das regras de regulação em 2017, permitiu a multiplicação de cursos online ofertados principalmente por instituições privadas de ensino superior, com pouquíssima exigência pedagógica, mínima interação docente e uso excessivo de conteúdos prontos e automatizados. 

Segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), os cursos presenciais obtêm, em média, os melhores resultados nas avaliações do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade). De acordo com os resultados mais recentes, referentes ao ano de 2022; 28,5% dos cursos presenciais alcançaram os conceitos mais altos (22,4% obtiveram conceito 4 e 6,1% conceito 5). Já entre os cursos ofertados na modalidade a distância, apenas 16,6% atingiram esses mesmos níveis de excelência (14,2% com conceito 4 e 2,4% com conceito 5). 

Esses dados demonstram que, apesar do discurso de democratização do acesso, a educação a distância praticada majoritariamente por instituições privadas de ensino superior tem, na média, oferecido uma formação de qualidade significativamente inferior àquela oferecida pelos cursos presenciais. 

A regulação que ainda está em fase de gestação pelo Ministério da Educação já enfrenta justamente esse quadro. E a reação dos empresários do setor e dos seus sócios espalhados em diferentes áreas, que afirmam que as novas normas “quebram os pilares da educação a distância”, como capilaridade e preço acessível, revela a confusão proposital entre inclusão educacional e precarização, tanto do trabalho docente, como do ensino ofertado. O que está em jogo não é a defesa de educação acessível, mas sim a manutenção de um modelo de negócios baseado em turmas enormes, professores mal remunerados, tutores subcontratados, pouca ou nenhuma aula ao vivo e provas feitas remotamente, sem fiscalização adequada. 

 Thiago de Jesus Esteves é Presidente da Associação Brasileira de Ensino de Ciências Sociais (Abecs), professor Titular de Sociologia do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET-RJ), do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) e do Mestrado Profissional em Sociologia (ProfSocio) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). 


Fonte: Le Monde Diplomatique

EAD: depois da porta arrombada, a tramela

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Enquanto assiste às ações no congresso nacional de piorar o já horroroso “Novo Ensino Médio”, o governo Lula decidiu colocar “uma tramela” na situação dos chamados curso de “Ensino à Distância” (EAD) que proliferaram tal qual cogumelos em pastagens após chuvas intensas.  A primeira medida foi suspender o credenciamento de uma lista de cursos por um período de 90 dias, de modo a permitir elaboração de proposta de regulamentação de oferta de cursos de graduação na modalidade EAD.

A coisa estava tão fora de controle que se estava permitindo até a promulgação da Portaria 2.041 o credenciamento de cursos de Enfermagem, Psicologia e Medicina na forma de 100% EAD. Com isso, o risco de formação de profissionais com baixíssima competência prática para áreas em que qualquer erro pode resultar em graves consequências para os indivíduos por eles assistidos.

Mas a luz vermelha que acendeu no governo Lula também se estende aos cursos de licenciatura já que a proliferação de cursos EAD tem possibilitado a entrada de professores sem qualquer experiência em sala de aula e formados dentro de critérios extremamente baixos de qualidade. O que parece ter aumentado o senso de urgência de mudanças drásticas nas regras de autorização de cursos de licenciatura EAD foram os resultados obtidos pelo Brasil no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2022 que mostrou que menos de 50% dos alunos brasileiros sabem o básico em matemática e ciências.

Agora, o Ministério da Educação, segundo o próprio ministro Camilo Santana, estuda não permitir mais cursos 100% EAD, e a dúvida seria se o percentual de ensino presencial será de 50%, 30% [da carga horária total].

Camilo Santana comenta impactos dos ensinos EAD na formação e qualidade de  professores - YouTube

Mudanças deverão ter forte impacto na Uenf

Se concretizadas, estas possíveis mudanças na oferta de cursos EAD deverão ser uma fonte de dor de cabeça garantida para todas as instituições de ensino superior que participar do Consórcio Cederj. É que apesar dos cursos EAD deste consórcio serem apresentados como semipresenciais, na prática a coisa é diferente. Assim, se efetivamente a oferta de conteúdos tiver que passar a ser 30% ou 50% na forma presencial, o aumento da carga de trabalho será inevitável, principalmente para os professores.

No caso da Uenf, o problema poderá tomar proporções ainda mais graves, na medida em que atualmente o estoque total de estudantes de três cursos  de licenciatura na modalidade EAD  (Ciências Biológicas, Pedagogia e Química) já supera o existente para os 17 cursos na modalidade presencial.

O maior problema será garantir não apenas o espaço de sala de aula e de laboratórios de ensino, mas também o de professores doutores que atuem em regime de dedicação exclusiva.

Nomeação no MEC mostra que o governo Lula pode significar continuidade e não ruptura com Jair Bolsonaro

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O ministro Camilo Santana, que ficou tão impressionado com o desmonte do governo Bolsonaro em sua pasta, decidiu renomear técnico que operou a implementação do NEM

Nos primeiros dias de 2023 marcou o início do terceiro mandato do presidente Luís Inácio Lula da Silva e junto vieram as expectativas de que os quadros técnicos que executaram as políticas do governo Bolsonaro seriam removidos, sendo substituídos com outros que trariam mudanças longamente antecipadas em áreas chaves como saúde e educação.

Passados pouco mais de três meses, aquelas expectativas estão rapidamente se dissipando em face da manutenção de quadro técnicos que definiram e executaram as políticas que deram materialidade aos discursos do presidente Jair Bolsnaro. Um exemplo disso foi a renomeação, via a Portaria No. 603 de 30 de março de 2023, de Fernando Wirthmann Ferreira para o cargo de coordenador-geral de Ensino Médio da Diretoria de Políticas de Educação Integral Básica da Secretaria de Educação Básica do Ministério da Educação e Cultura (MEC) (ver figura abaixo).

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Antes que alguém se pergunta como um técnico que serviu no governo Bolsonaro está sendo recolocado para executar as mesmas funções no governo Lula, eu indico que se olhe no CV Lattes de Fernando Withmann. É que lá está declarado que ele foi um dos responsáveis por “subsidiar a implementação da política nacional do ensino médio, contemplando o Novo Ensino Médio (NEM) e o Programa de Fomento ao Ensino Médio em Tempo Integral”. Em outras palavras, Fernando Wirthmann é um dos técnicos que levou à frente do NEM durante o governo Bolsonaro, e está retornando ao posto que ocupava para muito provavelmente continuar levando à frente esse monstrengo (vídeo abaixo mostra bem o que coordenador-geral de Ensino Médio pensa sobre o NEM).

Desta forma, a nomeação de um técnico que serviu ao governo de Jair Bolsonaro para servir no governo Lula mostra uma coisa óbvia: ao menos no que se refere ao NEM, o governo Lula será uma continuidade do governo Bolsonaro.  Curiosamente, em sua fala ao Grupo Lide/Ceará, o Ministro Camilo Santana afirmou que a revogação do NEM seria uma volta ao passado. Na verdade, como se vê nessa nomeação, manter o NEM é o manter o governo passado, no caso o de Jair Bolsonaro.

Desta forma, que não se tenha nenhuma ilusão de que o NEM será revogado apenas com conversas com Camilo Santana e sua equipe no MEC, Fernando Wirthmann incluso. Para que esse projeto de pasteurização da educação pública seja derrubado, o caminha será o da mobilização social.

O medo real de Jair Bolsonaro não é perder as eleições, mas sair preso do Palácio do Planalto

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As recentes revelações acerca do “presságio” do presidente Jair Bolsonaro de que o ex-ministro da Educação, o pastor presbiteriano e ex-reitor da Universidade Mackenzie, Milton Ribeiro seria alvo de uma ação da Policia Federal causaram um desespero evidente não apenas do chefe do executivo federal, mas em seus assessores mais graduados. O motivo para isso é simples: ao aparentemente antecipar uma operação policial, o presidente da república cometeu o que se denomina de obstrução de justiça“.

Aliás, como as evidências dessa eventual obstrução de justiça estão bem documentadas a partir da intercepção telefônica entre Milton Ribeiro e sua filha, alguém já disse que o caso não se trata de “um batom na cueca, mas de uma cueca no batom”, tão graves são as implicações que a interferência de Jair Bolsonaro e provavelmente também do ministro da Justiça Anderson Torres que é quem tem o comando final sobre a Polícia Federal.

Como os escândalos de corrupção dentro do Ministério da Educação e Cultura (MEC) estão aparecendo aos borbotões e com indicações de que o presidente da república tem envolvimento direto na indicação de seus autores, no caso explicito dos dois pastores da Igreja Assembleia de Deus que foram presos junto com Milton Ribeiro, não é de surpreender que seu comportamento em relação aos resultados das eleições presidenciais esteja se tornando ameaçador. É que certamente cresce em Jair Bolsonaro a preocupação do que o futuro pode lhe reservar, mesmo porque seu governo afundou o país em uma profunda crise econômica, política e social. 

Em suma, o maior medo de Jair Bolsonaro não é mais perder as eleições até no primeiro turno, mas ter que sentir o peso da lei após ser removido pelo voto do cargo que ocupa. Aliás, não estivessem os ricos brasileiros tão felizes com os frutos do governo impopular e antinacional de Jair Bolsonaro, o mais provável é que ele estivesse sentindo repercussões das revelações que se seguiram à prisão do ex-ministro Milton Ribeiro.

A degradação da educação, da ciência e do meio ambiente no Brasil

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(crédito: Caio Gomez)

Por Mercedes Bustamante- Professor titular do Departamento de Ecologia da Universidade de Brasília, membro da Academia Brasileira de Ciências

“Cupinização silenciosa e invisível.” Assim descreveu a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, o processo de degradação sistemática dos órgãos de fiscalização e controle do meio ambiente. A destruição por dentro, conduzida nos meandros das instituições, está claramente expressa nas taxas crescentes de desmatamento e conversão agrícola em vários biomas, na violação da legislação ambiental e de direitos territoriais de povos indígenas e comunidades tradicionais e comprometimento de recursos naturais e da estabilidade climática.

A cupinização também é aparente no Ministério da Educação e seus órgãos associados, como Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior Capes, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), afetando um componente crucial para a redução das desigualdades sociais e econômicas ainda tão agudas no Brasil e que foi extremamente prejudicado durante a pandemia de covid-19. Escolas e universidades públicas atravessaram dois anos sem uma condução efetiva do Ministério da Educação (MEC) para lidar com os desafios impostos por esse choque global. Tal realidade, aparentemente, passou desapercebida no balcão (ou púlpito) de negócios que se instalou nas entranhas no ministério.

Igualmente crucial, a área de ciência e tecnologia é vítima de outra estratégia — a destruição por inanição. A redução drástica de recursos de custeio, bolsas e investimentos mina décadas de políticas que determinaram avanços científicos importantes e a formação de recursos com competências para abrir os caminhos do país diante dos significativos desafios que nos aguardam.

Tais desafios estão, precisamente, na convergência das políticas de educação, ciência e meio ambiente. Em 4 abril, foi lançada a terceira parte do 6o ciclo de avaliação do Painel Intergovernamental para Mudança do Clima (IPCC). Para nos recolocar na rota de atingir a meta de manter o aquecimento global em 1,5oC, estabelecida globalmente pelo Acordo de Paris, precisaremos reduzir pela metade as emissões de gases de efeito estufa até 2030.

Enquanto o mundo como um todo reduziu as emissões em 2020 em função da pandemia de covid-19, o Brasil aumentava suas emissões impulsionadas pelo desmatamento que seguiu impunemente mesmo diante de grave crise sanitária. Em 2021, o Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (Inpe) registrou a maior taxa de desmatamento da Amazônia desde 2006. A conservação de ecossistemas naturais e sua restauração ecológica são precisamente alternativas com grande potencial de mitigação das emissões, custos acessíveis de implementação e inúmeros benefícios como conservação da biodiversidade, segurança hídrica e alimentar.

Igualmente, a mensagem clara sobre a necessidade de abandonar combustíveis fósseis, em especial o carvão, não encontrou eco no governo federal. Recentemente, foi sancionada uma lei que obriga a compra de eletricidade gerada por termelétricas a carvão mineral, localizadas em Santa Catarina. A lei determina a contratação da energia produzida a partir de fonte extremamente poluente até 2040, uma década após o prazo em que deveríamos estar contribuindo para o esforço global de redução das emissões.

O relatório destaca como ciência e tecnologia foram fundamentais para reduzir o custo de energias renováveis como solar e eólica e de baterias, e traz ainda um novo capítulo sobre inovação, desenvolvimento e transferência de tecnologia. Um sistema de inovação bem estabelecido, orientado por políticas bem projetadas, pode contribuir para a mitigação, adaptação e alcance das metas de desenvolvimento sustentável e, ao mesmo tempo, evitar consequências indesejadas. No entanto, mais uma vez, caminhamos na direção contrária. Vamos a um futuro incerto, menos preparados e mais dependentes de alternativas desenvolvidas por outros países em função do estrangulamento de nossa ciência.

A transição para economias de baixo carbono implica em profundas mudanças na estrutura econômica e consequências distributivas dentro e entre países. A equidade e justiça social continuam sendo elementos centrais para a solução da crise climática. Transições justas devem abrir oportunidades de empregos adequados a essa nova realidade, mas demandam novas habilidades e a capacitação de recursos humanos e instituições. A educação em um mundo sob aquecimento global deve contribuir para o debate da sustentabilidade e a justiça ambiental. A antecipação de novas necessidades demanda a identificação das questões certas, bons dados e estatísticas e uma visão de política pública educacional que preconize a construção desse futuro e não as cartilhas do passado.

Entre as lições da pandemia que o IPCC elencou para a mudança climática estão: o valor do gerenciamento de risco prospectivo, o papel da avaliação científica, ações preparatórias e a importância de instituições. Exatamente o oposto que os três últimos anos trouxeram para a educação, ciência e meio ambiente no Brasil.

(Artigo endossado pela Coalizão Ciência e Sociedade que reúne pesquisadores de todas as regiões brasileira)


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Este artigo foi inicialmente publicado pelo Correio Braziliense [Aqui!].

Cobrança de propina no MEC: em depoimento no Senado Federal, prefeitos dão detalhes do esquema

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Em audiência pública que ocorreu nesta 3a. feira (05/04) na Comissão de Educação do Senado, prefeitos de três municípios confirmaram aos senadores que foram abordados por pastores que pediam o pagamento de propina em troca da liberação de verbas do Ministério da Educação (MEC). A intermediação, segundo eles, teria sido feita pelos pastores Arilton Moura e Gilmar Santos, ligados à Igreja Ministério Cristo para Todos, de Goiânia (GO) (ver vídeo abaixo).

A questão fica óbvia é que o esquema instalado no Ministério da Educação e Cultura (MEC) era bem organizado e vinha drenando recursos públicos que deveriam estar chegando nas escolas brasileiras que vivem um período particularmente delicado em face dos efeitos da pandemia da COVID-19.

A coisa é tão escrachada que qualquer alegação de que o governo Bolsonaro não possui mecanismos de apropriação ilegal de recursos para fins privados (ainda que sob a capa de beneficiar igrejas evangélicas) não passa de propaganda enganosa.

 

 

Contra corte no orçamento da UFRJ, alunos protocolam petição com quase 240 mil assinaturas no Ministério da Educação

Abaixo-assinado engajou apoiadores por meio da plataforma Change.org; estudantes protocolaram documento no MEC, nesta quinta-feira (16)

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O protocolo foi feito por estudantes da APG (Foto: Arquivo pessoal)

Alunos da Associação de Pós-Graduandos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (APG-UFRJ) protocolaram no Ministério da Educação (MEC) um abaixo-assinado com quase 240 mil assinaturas em defesa do orçamento da universidade. O protocolo foi feito, na tarde desta quinta-feira (16), por Marcelo Acácio, diretor de políticas institucionais da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), e Emerson Oliveira, diretor da APG-UFRJ e mestrando em Linguística e Línguas Indígenas (PROFLLIND).

O abaixo-assinado foi lançado em maio como forma de protesto ao corte no orçamento da universidade. Segundo artigo da reitora Denise Pires e do vice-reitor Frederico Leão, publicado naquele mês, o orçamento discricionário aprovado pela Lei Orçamentária para a UFRJ em 2021 é 38% do empenhado em 2012. De acordo com a APG, somando-se isso ao bloqueio de 18,4% do orçamento aprovado, o funcionamento da UFRJ ficaria inviabilizado.

“Os vetos presidenciais à Lei Orçamentária Anual (LOA) e o bloqueio de créditos do orçamento em 2021 inviabilizam a educação pública, universal e de qualidade no país. O maior bloqueio de verbas ocorreu no Ministério da Educação, com R$ 2,7 bilhões (19,7% das despesas aprovadas)”, destaca a Associação de Pós-Graduandos da UFRJ no texto da petição. Os alunos também apontam que o orçamento das universidades vem sendo “radicalmente reduzido há tempos” e que, no atual governo, a situação se agravou criticamente. 

A petição, que segue aberta na plataforma Change.org, aponta que a educação brasileira pública, gratuita e de qualidade enfrenta ataques e um processo de desmonte. Segundo o manifesto, isso faz com que toda a sociedade saia perdendo e seus efeitos sobre a educação superior aprofundem as desigualdades educacionais e sociais, ameaçando a democratização do ensino e distanciando a juventude do direito inalienável à educação.

Mobilização foi lançada em defesa da universidade (Foto: Arquivo pessoal)

“Um país sem educação, pesquisa e investimentos básicos e fundantes para o seu desenvolvimento, tende a reproduzir um projeto estarrecedor de estagnação que o levará ao eterno subdesenvolvimento social, aprofundando desigualdades seculares e estratificando repulsantes violências”, enfatiza o abaixo-assinado. No texto, os estudantes ainda ressaltam que em meio à crise sanitária global, a Ciência e as Universidades se mostram fundamentais. 

A APG chama o ataque ao orçamento de “golpe do governo Bolsonaro” à universidade e à educação como um todo e, diante disso, manifesta repúdio por meio do abaixo-assinado. “Nós nos posicionamos contra o desmonte da educação, da democracia e da liberdade de ensino, pautas concretas que vêm sido colocadas em prática e ameaçam cada vez mais a construção de uma sociedade crítica, justa e igualitária no país”, declaram os estudantes. 

Faculdade em SP teria usado professores de fachada em curso de pós-graduação

Metade dos professores que aparecem em certificado com suspeita de fraude afirmou à Pública que não ministrou o curso

Faculdade em SP teria usado professores de fachada em curso de pós-graduação  - Agência Pública

  • Campos Salles foi denunciada ao MPF
  • Situação pode levar à responsabilização civil, administrativa e até criminal
  • Em nota, instituição diz que abriu procedimento administrativo

Por Rute Pina e Thiago Domenici para a agência Pública

Amanda* se espantou quando viu seu nome listado ao lado de outros nove professores em um diploma da pós-graduação das Faculdades Integradas Campos Salles (Fics). O nome da professora estava registrado em um certificado do curso de especialização em educação infantil, ministrado de outubro de 2018 a outubro de 2019 na instituição, localizada em São Paulo.

“Eu levei um baita susto porque eu nunca dei aula na pós-graduação. Eu não tinha nem conhecimento daquele curso”, diz a professora, que tem titulação de mestre na área de educação. Ela conta que trabalhou por quatro anos na faculdade, mas, por mais da metade do período do curso em que teria lecionado, já estava fora da instituição.

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A reportagem da Pública teve acesso ao certificado que atribuiu aulas que não foram ministradas pelos professores

A Agência Pública entrou em contato com os dez professores que aparecem no diploma sob suspeita de fraude na Fics. Metade confirmou à reportagem que nunca deu aula no curso mencionado – alguns, como Amanda, nem sequer haviam lecionado na pós-graduação. “Fomos usados como laranjas porque eles precisam de mestres e doutores”, avalia a docente.

Também o nome da professora Cimara Apóstolico é um dos que aparecem no corpo docente do curso de educação infantil. Segundo o certificado, ela teria dado a disciplina “Leitura e palavra: a criança como sujeito de educação no ensino infantil”, com duração total de 50 horas. Mas a professora negou à Pública ter ministrado tais aulas. “Eu não lecionei em momento algum na pós-graduação da Campos Salles. Só lecionei na graduação, em vários cursos. Mas, em 2018 e 2019, eu nem tinha horário para lecionar em mais nada. Então, com certeza, não fui eu. Usaram a titulação por alguma razão”, diz.

“Eu levei um baita susto porque eu nunca dei aula na pós-graduação”, afirmou uma professora à reportagem
A professora Silvia*, no entanto, afirmou que deu aula em todos os cursos da pós-graduação, mas não especificou se também no curso suspeito de fraude.

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Eu levei um baita susto porque eu nunca dei aula na pós-graduação”, afirmou uma professora à reportagem

A professora Silvia*, no entanto, afirmou que deu aula em todos os cursos da pós-graduação, mas não especificou se também no curso suspeito de fraude.

O curso teria sido oferecido pela universidade na modalidade EAD, ainda que o diploma obtido pela Pública, validado pelo Ministério da Educação (MEC), não especifique a modalidade. De acordo com um ex-aluno que prefere não se identificar, todo o curso de pós-graduação teria ocorrido sem a presença de professores, com uso de apostilas virtuais acessíveis por uma plataforma on-line – situação que não condiz com os critérios estabelecidos pelo MEC para o funcionamento de pós-graduações lato sensu.

A Resolução CNE/CES nº 1, que regula o setor, determina que metade do corpo docente dos cursos de especialização seja constituído de professores portadores de título de mestre ou de doutor, “obtido em programa de pós-graduação stricto sensu reconhecido”. Sem considerar condições extraordinárias, como a pandemia, outra exigência estabelecida pela norma é que “os cursos a distância deverão incluir, necessariamente, provas presenciais e defesa presencial de monografia ou trabalho de conclusão de curso”, o que, segundo o estudante procurado pela reportagem, não ocorreu.

Denúncia no MPF

Em julho de 2020, foi aberto um processo administrativo na Prefeitura de São Paulo para apurar irregularidades no curso oferecido pela Campos Salles, após uma notificação da Diretoria Regional de Educação. O procedimento, no entanto, foi arquivado por fugir à competência do município.

Mas, em março deste ano, suspeitas de fraude na instituição foram denunciadas ao Ministério Público Federal (MPF) em São Paulo, pelo gabinete do deputado estadual Carlos Gianazzi (Psol) e pela Rede de Educadores do Ensino Superior em Luta.

De acordo com o ofício entregue à Procuradoria, os indícios “sugerem um manuseio intencional, por parte da mantenedora, da atribuição de disciplinas e/ou cursos aos seus profissionais docentes, com o intuito de maximizar as notas de avaliação dos seus cursos, cujos critérios de pontuação passam também pela análise de títulos de todos os docentes vinculados à instituição e aos cursos oferecidos”.

A advogada Beatriz Branco, assessora jurídica do mandato de Giannazi, explica que, no caso de comprovada a utilização de professores de fachada, a instituição pode ser responsabilizada nas esferas civil, administrativa e até criminal.

“No âmbito civil, os professores que tiveram seus nomes utilizados indevidamente podem pleitear danos morais e exigir a retirada de seus nomes dos diplomas já emitidos. Caso ainda possuam vínculo trabalhista, a demanda pode também ir para a Justiça do Trabalho”, diz a advogada. O uso de informações falsas poderia acarretar também suspensão da oferta de cursos na instituição e, no âmbito penal, em investigação criminal na Polícia Federal ou no Ministério Público.

Procurado, o MPF não respondeu até a publicação sobre o andamento da denúncia.

fcs 3José Cícero da Silva/Agência Pública

Coordenação de cursos

A denúncia entregue ao MPF que cita “Falsificação de documento público” apontou também irregularidades na coordenação dos cursos de pós-graduação da universidade e no regime de contratação dos professores.

As Faculdades Integradas Campos Salles têm 127 cursos de especialização cadastrados no MEC, entre presenciais e EaD. A Pública constatou que 31 cursos são oferecidos com regularidade e, antes da pandemia, presencialmente. Destes, oito são coordenados por Luci Ana Santos da Cunha e 17 por Fabio Cristiano de Moraes – ou seja, dois professores são responsáveis pela coordenação de 80% dos cursos de pós-graduação oferecidos pela instituição. Luci, também funcionária pública, ainda acumula a coordenação dos cursos de pós-graduação com as atividades de jornada integral no ensino superior, como ministrar disciplinas em cursos regulares da instituição. Seus nomes também constam no certificado suspeito e denunciado ao MPF. Procurados, eles não retornaram até a publicação.

Profissionais do setor educacional consultados pela reportagem avaliam que coordenar tantos cursos seria uma tarefa sobre-humana. “O máximo que já vi na vida foram três cursos coordenados pelo mesmo profissional, e já era uma situação atípica”, avalia um professor que atua como coordenador numa universidade privada de São Paulo e prefere não se identificar. Apesar de não ser uma situação irregular, o coordenador vê com estranheza um único profissional coordenar 17 cursos.

Demissões e sucateamento

Em 2015, o grupo Campos Salles foi assumido por uma nova gestão. Para oferecer cursos a distância, a instituição teria comprado, em 2019, a plataforma e o material didático da multinacional britânica Pearson, que oferece em seu catálogo “soluções digitais” para mais de 300 disciplinas no ensino superior. Segundo relato de professores, a faculdade começou a aplicar o conteúdo externo da empresa para alunos em recuperação, mas teria expandido a utilização do material para os cursos regulares.

Amanda lembra que, no mesmo ano, a universidade iniciou um processo de demissões de professores. “A faculdade como um todo tinha um sistema bem precarizado de trabalho. Eu cheguei a dar aula para uma turma com quase 120 alunos presencialmente”, relata. Com a demissão de professores com vínculo CLT, a faculdade teria começado a contratação de professores como pessoas jurídicas.

“Eles não pagaram a gente por nada disso porque compraram essa apostila. Passam essa apostila para o aluno ler e um formulário do Google para responder, e ele está em conteúdo de especialização. Sem ter aula nenhuma, sem ter professor nenhum”, diz a professora. Mas, segundo ela, nem tudo pode ser automatizado: “Fomos usados porque eles precisam dos nomes de mestres e doutores para o MEC, né?”.

Segundo os relatos, outro problema que seria de conhecimento da instituição é um suposto histórico de calotes e atrasos de pagamento de salários dos professores. Cimara Apostólico, que está afastada da instituição há quase dois anos, conta que os professores ficaram sem receber por seis meses em 2014.

“Eles não tinham condições de pagar. As instituições de maneira geral passaram por vários ajustes. Aí, a gente vê lá o preço do curso, R$ 100. Alguma coisa está acontecendo, né? E o que está acontecendo, na verdade, é um sucateamento do salário do professor, uma desvalorização. Eles mandaram embora muitos professores, ficaram poucos na casa, recebendo um salário que não é um salário de professor universitário”, diz a professora. “A gente tem a responsabilidade na formação de um indivíduo que também vai formar outros.”

Desde 2015, o Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, que abrange a cidade de São Paulo e as regiões de Guarulhos, Osasco, ABC paulista e Baixada Santista, já recebeu 73 novos processos trabalhistas contra a Associação Educativa Campos Salles, mantenedora da instituição de ensino. Só neste ano, 11 novos casos chegaram à Justiça do Trabalho.

Em setembro do ano passado, a Pública já havia relatado casos de outras universidades privadas que, em meio à pandemia, davam aulas on-line com 300 alunos e demitiram milhares de docentes, muitos por pop-up.

Outro lado

Em nota enviada à Pública, as Faculdades Integradas Campos Salles informaram a instauração de um procedimento administrativo para averiguar a existência de vícios formais ou materiais, “não apenas em relação à expedição do referido Certificado, mas também em relação à situação acadêmica e administrativa de toda a atuação discente e docente no curso”.

“Em toda a história da Fics, essa é a primeira vez que recebemos uma denúncia nestes termos, onde, havendo irregularidades, serão aplicadas as sanções previstas em nosso regimento e também na legislação pertinente”, diz nota enviada à reportagem. Sobre os “supostos indícios de manuseio intencional para maximização de notas em nossos cursos”, a instituição informou que os programas de pós-graduação lato sensu não possuem indicadores de qualidade vinculados à titulação.

“No desenvolvimento de nossos cursos, empregamos diversos tipos de conteúdos síncronos e assíncronos, com materiais próprios e de terceiros, constando em nossos certificados os professores que lecionaram aulas síncronas e assíncronas, presenciais ou à distância, professores responsáveis por seu desenvolvimento ou professores que atuam na construção conceitual das disciplinas de suas cátedras dos eixos de formação dos cursos participantes dos Núcleos de Desenvolvimento Estruturantes (NDE), Colegiados de Curso (CONCUR) e do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CONSEPE)”, afirma a nota da faculdade.

Procurado, o MEC não respondeu até a publicação

fecho

Este texto foi inicialmente publicado pela agência Pública [Aqui!].

O MEC sob o império de Provérbios 23:13-14

milton2O pastor Milton Ribeiro, o novo indicado para ocupar o cargo de ministro da Educação (Foto: Divulgação)

Falo pouco sobre o assunto, mas sou descendente de uma linhagem de educadores que teve início com minha avó materna que passou mais de três décadas em uma escola rural oferecendo o que tinha de melhor para ensinar desde o filho dos meeiros até os dos fazendeiros.  Tendo iniciado sua labuta lá pelos meados da década de 1930, a minha avó fez uso de um instrumento que aterrorizou crianças por muito tempo nas escolas brasileiras, a palmatória (ver imagem abaixo no momento em que uma criança era castigada em uma escola da Bahia no século XIX).

palmatória

Dita uma lenda familiar que a palmatória que minha avó usou acabou tendo um destino inglório após a sua morte junto com outros documentos que ela guardou por mais de três décadas. No momento da morte da minha avó, a palmatória não era mais do que uma relíquia histórica, e se me lembro bem o instrumento de punição era guardado apenas como um a lembrança e nada mais.

Eis que agora, em pleno século XXI, o governo Bolsonaro vai ter no comando do Ministério da Educação e Cultura, um pastor presbiteriano que parece acreditar na “Lei da Vara”, tal como aparece em Provérbios 23:13-14  (ver vídeo abaixo).

A quem estiver surpreso com a escolha, e com a rápida aprovação pela bancada evangélica e pela chamada “ala ideológica” do governo Bolsonaro, eu diria que o pastor (é assim que ele se apresenta no vídeo acima) Milton Ribeiro está à altura do que se pode esperar do presidente Jair Bolsonaro e sua suposta cruzada (que é só suposta mesmo) em nome dos valores da família.

Mas mais do que um acordo doutrinário, basta olhar o currículo Lattes de Milton Ribeiro, que não possui nenhuma indicação de que ele é capaz de pensar fora da caixa (usando um termos em voga no chamado “empreendedorismo”) religiosa à qual ele pertence.  Uma coisa incrível é que Milton Ribeiro, tendo atuado como reitor e vice reitor da Universidade Mackenzie consegue ter uma produção acadêmico aquém daquela apresentada por todos os que ocuparam até aqui o cargo de ministro da Educação no governo Bolsonaro (notem que os anteriores não era nenhum primor acadêmico, a começar por Vélez Rodrigues, passando por Abraham Weintraub, e desembocando em Carlos Alberto Decotelli!). Em outras palavras, Milton Ribeiro não apenas mantém um padrão acadêmico medíocre, mas como deverá manter a postura de guerra cultural que Abraham Weintraub cumpriu até fugir espetacularmente para os EUA.

Aos que defendem a educação pública de qualidade fica a lição de que sob este governo não há o que esperar de melhor, mas que sempre é possível cumprir a Lei de Murphy que estipula que “nada está tão ruim que não possa piorar”.  Desta lição deve decorrer a realização de que não haverá tempo fácil para conter o desmantelamento de nossas escolas e universidades públicas enquanto o governo Bolsonaro perdurar. 

Para fazer essa defesa haverá a clara necessidade de não temer a vara que está sendo posta sobre as costas dos educadores brasileiros.  É que o custo de qualquer vacilação vai ser alto, especialmente para as crianças pobres que são obrigadas a frequentar um sistema público de ensino cada vez mais sucateado.  Aliás, como em tantas outras esferas dentro do governo Bolsonaro onde o discurso pela família se mistura com a busca de lucros privados a partir do público, árvores recém-derrubadas na Amazônia já devem estar sendo serradas para garantir a volta triunfal da palmatória. A ver!