Garimpo de ouro na Bacia do Rio Paraíba do Sul: até quando?

“É urgente sintetizar o conhecimento gerado até o momento sobre a contaminação pelo mercúrio no Brasil, avaliar o risco real de exposição humana, à saúde pública e à segurança alimentar, além de implementar programas de monitoramento de longo prazo nas principais áreas afetadas”

Garimpo RIO PARAIBA

Por Carlos E de Rezende, Marcelo Gomes de Almeida,  Inácio Abreu Pestana,;  Philipe Ribeiro Gomes, Wanderley Rodrigues Bastos,  &  Luiz Drude de Lacerda*

Anualmente, cerca de 2.200 toneladas de mercúrio (Hg) são liberadas no ambiente, com cerca de 75% provenientes de diretamente de fontes antropogênicas e da reemissão do Hg emitido e depositados na superfície do planeta por essas fontes, o restante de fontes naturais como vulcões, por exemplo. A principal fonte antrópica de Hg é o garimpo de ouro que contribui globalmente com 37,7%, seguida pela queima de combustíveis fósseis, produção de metais não-ferrosos, produção de cimento e da disposição inadequada de resíduos1. Este elemento é reconhecido como um poluente global, atraindo grande atenção devido às suas características toxicológicas, mutagênicas e teratogênicas.

No Brasil, desde a década de 1980, a atividade de garimpo de ouro tem sido especialmente proeminente na região Amazônica2, no Pantanal e em algumas áreas da região Sudeste. Estudos realizados em diversos garimpos na Amazônia quantificaram que, para cada 1 kg de ouro produzido, são liberados para o meio ambiente entre 1,3 e 1,7 kg de Hg, resultando em emissões anuais para a Bacia Amazônia variando nos últimos 40 anos de 10 a 200 toneladas de mercúrio3.

Recentemente, a imprensa4 notificou a ocorrência de garimpo ilegal de ouro nos rios Paraíba do Sul e Muriaé5. No entanto, cientistas vêm reportando essa atividade desde a década de 1980. Aliás, nos últimos três anos, a imprensa tem reportado frequentemente aumentos de casos de garimpo6-10 na região. Estudos já demostraram aumento das concentrações do Hg nos compartimentos ambientais desses corpos hídricos5. Possivelmente, é uma consequência da valorização do ouro, seguido da diminuição da fiscalização ambiental no país como um todo, que ocorreu devido a mudanças de prioridades da gestão federal passada e intensificada pela pandemia do COVID-19. Um fato é que essa atividade não é algo recente, cientistas vêm reportando essa atividade desde a década de 198011. Além disso, a Bacia do Rio Paraíba do Sul possui um histórico de uso de fungicidas mercuriais desde a década de 198012, diretamente nas plantações de cana-de-açúcar. Agravando os impactos dessa atividade, a bacia do Rio Paraíba do Sul vem sofrendo há décadas, uma drástica mudança no seu regime de vazão por mudança dos fluxos fluviais e barramentos, além de inúmeros incidentes ambientais, tais como derrames de rejeitos de mineradoras e efluentes indústrias, esgotos domésticos e de emissões de atividades agrícolas, que têm gerado problemas de ordem sanitária e desequilíbrio ecológico, que potencializam a mobilização e aumentam a biodisponibilidade do Hg ao longo de seu curso até o oceano.

No que tange os problemas ecológicos, a transformação do Hg em sua espécie mais tóxica, o metilmercúrio (MeHg) é um ponto crítico na contaminação da cadeia alimentar aquática e conseguinte exposição humana. Essa transformação ocorre em condições ambientais específicas: anoxia, alta disponibilidade de matéria orgânica e baixo potencial redox. Na bacia do Rio Paraíba do Sul essas condições existem tanto em ecossistemas artificiais presentes na sua calha (ex.: hidrelétricas) quanto em ecossistemas naturais na sua região costeira (ex.: manguezais)9, o que deveria trazer ainda mais atenção dos órgãos de fiscalização ambiental para essa questão.

Um estudo recente na bacia do Rio Paraíba do Sul avaliou dados de monitoramento do Hg produzidos ao longo de três décadas14. Como consequência, observou-se um acentuado processo de biomagnificação do Hg na bacia e na sua região costeira de influência, o que impacta diretamente na exposição humana ao elemento. Esses resultados reforçam o forte impacto sofrido pela bacia e podem ser utilizados para avaliar a eficácia da implementação da Convenção de Minamata na região.

A Convenção de Minamata, que trata do uso do Hg e seu controle, foi aprovada por 140 países em 2013, incluindo o Brasil. No entanto, somente em 2018, a República Federativa do Brasil promulgou o documento final com a publicação do Decreto número 9.470 em 14 de agosto. Somente em 2020, entretanto, o Ministério da Saúde publicou o “Plano Setorial de Implementação da Convenção de Minamata sobre Mercúrio”13, em resumo o Plano trata de seis eixos principais envolvendo ações acordadas pelos países signatários, com ênfase na área de saúde, a saber: 1 – fortalecimento do arcabouço normativo e da capacidade institucional para implementação da Convenção; 2 – gestão dos estoques de equipamentos e insumos e atividades que contêm ou utilizam Hg; 3 – disseminação da informação e conscientização do público; 4 – atenção, vigilância e promoção à saúde das populações expostas e potencialmente expostas ao Hg; 5 – desenvolvimento de cooperação internacional para implementação da Convenção; 6 – desenvolvimento de pesquisas relacionadas aos efeitos do Hg na saúde e no ambiente. Cada ação possui indicadores para monitoramento, prazo e instituições responsáveis pela sua execução. Esse intervalo de cinco anos entre a conclusão da reunião, que envolveu o compromisso firmado pelas nações em cinco rodadas de negociações, destaca as dificuldades enfrentadas pelos países em retomar as negociações e estabelecer leis. Esse problema não é exclusivo do Brasil; muitos outros exemplos, como os acordos climáticos, que corroboram essa dificuldade. Um dos muitos temas tratados na convenção visou reduzir as emissões antropogênicas de mercúrio e, principalmente, desenvolver mecanismos para conscientização da população sobre os impactos e riscos de exposição ao mercúrio, causado pela ingestão de peixes com concentrações, muitas vezes, acima do permitido pela legislação. Este tratado também exigiu que os países signatários aumentassem o monitoramento do Hg no ambiente para reduzir a exposição humana e avaliar a eficácia do tratado ao longo do tempo.

Com o objetivo de conhecer os grupos de pesquisa que trabalham com Hg no Brasil, realizamos uma busca no Diretório dos Grupos de Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, utilizando apenas a palavra “Mercúrio”. Através desse levantamento, identificamos 41 grupos em diferentes áreas do conhecimento, com a seguinte distribuição: Norte – 34%; Nordeste – 12%; Centro-Oeste – 22%; Sudeste – 15%; e Sul – 17%.

Concluímos e ponderamos que, considerando cerca de 42.852 grupos de pesquisa, apenas 0,1% destes trabalham nos diversos aspectos do conhecimento da dinâmica do Hg no ambiente e seus aspectos de saúde. Portanto, é evidente a necessidade urgente de ampliar a capacidade de geração de conhecimento e de formação de recursos humanos em todas as áreas do conhecimento científico aderentes ao tema. É urgente sintetizar o conhecimento gerado até o momento sobre a contaminação pelo Hg no Brasil; avaliar o risco real de exposição humana e a saúde pública e a segurança alimentar ao Hg; implementar programas de monitoramento de longo prazo nas principais áreas afetadas; como na bacia do Rio Paraíba do Sul; aumentar a compreensão da interação de diferentes vetores de impacto ambiental sobre a dinâmica do Hg como a liberação simultânea de efluentes agrícolas e industriais na região sudeste, o desmatamento e as alterações dos usos da terra nas bacias amazônicas e a alteração da qualidade de águas e eutrofização de regiões costeiras que recebem cargas crescentes de Hg.

1EPA https://www.epa.gov/international-cooperation/inquire-about-visiting-epa-through-international-visitors- program. Acesso em : 05 abr. 2024.

2LACERDA, Luiz Drude et al. 2024. DOI : https://doi.org/10.3390/toxics12020144

3FRITZ, Benjamin et al. 2024. DOI : https://doi.org/10.1038/s41893-023-01242-1

4BARROS, Letícia. https://doisestados.com.br/bals-ilegal-de-ouro-e-encontrada-as-margens-do-rio-muriae-em- itaperuna/>. Acesso em : 01 abr. 2024

5GOMES, Philipe Ribeiro et al 2022.. DOI : https://doi.org/10.1007/s10661-022-10477-y

6JORNAL TERCEIRA VIA. 2021. https://www.jornalterceiravia.com.br/2021/12/06/uenf-investiga-presenca-de- mercurio-em-amostras-dos-rios-paraiba-do-sul-e-muriae/>. Acesso em : 05 abr. 2024.

7FOLHA DE ITALVA. 2021. https://folhadeitalva.com.br/2021/11/11/pf-realiza-operacao-paraiba-dourado-contra- extracao-de-ouro-em-cambuci-e-sao-fidelis/>. Acesso em : 05 abr. 2024.

8TRINDADE, Ocinei. https://www.jornalterceiravia.com.br/2021/11/28/extracao-ilegal-de-ouro-no-rio-paraiba- do-sul-chama-atencao/>. Acesso em : 05 abr. 2024.

9JORNAL TERCEIRA VIA. 2023. https://j3news.com/2023/03/31/orgaos-ambientais-desmobilizam-exploracao- ilegal-de-ouro-no-norte-e-noroeste/. Acesso em : 05 abr. 2024.

10JORNAL    TERCEIRA     VIA.     2023.    https://j3news.com/2023/08/03/secretaria-de-estado-do-ambiente-faz- operacao-contra-extracao-ilegal-de-ouro-no-rio-paraiba-do-sul/. Acesso em : 05 abr. 2024.

11LACERDA, Luiz Drude et al. DOI : https://doi.org/10.1016/0025-326X(93)90626-U

12CÂMARA, Volney de M. et al. DOI : https://www.scielosp.org/article/csp/1986.v2n3/359-372/

13MINISTÉRIO               DA                SAÚDE.                2023.               https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de- conteudo/publicacoes/svsa/vigilancia-ambiental/plano_convencao_minamata_mercurio_2020.pdf/view>.

Acesso em : 05 abr. 2024.

14Gomes, Philipe Ribeiro et al. DOI : https://doi.org/10.1016/j.jhazmat.2023.132442

Sobre os autores:

Dr. Carlos E de Rezende,  professor titular da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF);

Dr. Marcelo Gomes de Almeida,  técnico de Nível Superior da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF);   

Dr. Inácio Abreu Pestana, professor adjunto da Universidade Federal Fluminense (UFF);

Dr. Philipe Ribeiro Gomes, professor ubstituto do Instituto Federal Fluminense (UFF);

Dr. Wanderley Rodrigues Bastos, professor titular da Universidade Federal de Rondônia (Unir);

Dr. Luiz Drude de Lacerda, professor titular da Universidade Federal do Ceará (UFC).

*O artigo expressa exclusivamente a opinião dos autores


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Fonte: Jornal da Ciência 

Para evitar exposição ao mercúrio, estudo sugere restrições no consumo de peixes como corvina e pescada amarela

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Contato de humanos com mercúrio, elemento tóxico, ocorre principalmente por meio de alimentos contaminados

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O consumo de peixes como pescada amarela e corvina em grande quantidade e de forma frequente pode aumentar o risco de contaminação humana por mercúrio. O alerta está em estudo publicado nesta segunda (15) na revista científica “Anais da Academia Brasileira de Ciências” por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC), em colaboração com o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (IFMA) e a Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

Para avaliar os riscos da exposição dos seres humanos ao mercúrio pelo consumo de peixes, os cientistas coletaram e analisaram os níveis de mercúrio de 125 peixes de nove principais espécies comercializadas no mercado de peixes de São Luís, no Maranhão. Os pesquisadores também coletaram dados de 574 moradores da região, entre 2017 e 2019, registrando seus hábitos alimentares e peso corporal.

mercúrio é um poluente tóxico para o meio ambiente e para a saúde humana, liberado como resíduo de atividades industriais. Nos seres humanos, o contato com esse elemento ocorre principalmente por meio da ingestão de animais contaminados e pode gerar problemas neurológicos.

Nos peixes analisados, a concentração média de mercúrio não excedeu os limites de segurança, de 0,5 miligrama para cada quilo do alimento. Mesmo assim, o artigo frisa que o consumo contínuo aumenta a exposição ao elemento, o que pode representar riscos à saúde.

O estudo aponta que as espécies carnívoras, como a pescada amarela e a corvina, apresentaram os maiores níveis de mercúrio – 0,296 e 0,263 miligramas para cada quilo, respectivamente. “Peixes carnívoros podem se alimentar de outros peixes e, portanto, ingerem maiores concentrações de mercúrio, comparados com peixes herbívoros, que consomem plantas com níveis mais baixos desse elemento”, explica o pesquisador e engenheiro de pesca Moisés Bezerra, um dos autores do estudo.

Os limites de segurança para consumo aumentam conforme o peso corporal da pessoa. Quatro das nove espécies de peixe analisadas necessitam de restrições de consumo para adultos, e sete para crianças. Por exemplo, a margem de segurança para o consumo mensal da pescada amarela, para uma pessoa que pesa 65 quilos, é de 667 gramas desse peixe. Isso significa que adultos podem consumir esses peixes em cerca de quatro refeições por mês, enquanto crianças, em uma refeição por mês. Já a corvina pode ser consumida de forma segura por adultos em até cinco refeições por mês. ”Acreditamos que esse tipo de recomendação deve ser disponibilizada para os consumidores de forma simples e clara, como forma de promover o consumo seguro de pescado”, diz Bezerra.

Para o pesquisador, é preciso que o poder público invista na educação alimentar para garantir o consumo apropriado dos pescados, que são importantes fontes de nutrientes e estão associados à cultura e à economia da região Norte. “O estudo contribui e serve de subsídio para a implementação de políticas públicas que visem informar e promover o consumo de pescado de forma segura”, observa Bezerra. “Os consumidores podem selecionar os tipos de pescado com menores concentrações ou consumir as espécies que mais preferem numa frequência adequada para não se expor ao mercúrio de forma excessiva” complementa.


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Fonte: Agência Bori

Pecuária na Amazônia pode ser responsável por 3 milhões de hectares de desmatamento até 2025

Estudo publicado nesta quarta calculou risco de destruição da floresta em áreas de compra de frigoríficos instalados no bioma. JBS é a empresa com maior risco

Gado na região de Marapá, sudeste da Amazônia paraense 

Se não adotar práticas mais eficientes de controle da cadeia, como a rastreabilidade individual, a pecuária na Amazônia pode ser responsável pela destruição de 3 milhões de hectares de floresta nos próximos dois anos, uma área equivalente ao território da Bélgica. Os dados são de um estudo realizado pelo Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), publicado nesta quarta-feira (22).

Para chegar a esse número, o Imazon calculou o grau de exposição ao desmatamento dentro das áreas de compra dos frigoríficos, considerando diferentes critérios.

O que encontraram foi que a exposição dos frigoríficos à destruição da floresta passou de 6,8 milhões de hectares em 2016, para 14,2 milhões de hectares em 2022. Isto é, a quantidade de áreas expostas ao desmatamento cresceu 108% em seis anos, mesmo sob forte pressão para o setor desvincular-se do problema.

Destes 14,2 milhões de hectares, 8,7 milhões de hectares já foram de fato desmatados em alguma medida, de forma legal ou ilegalmente. Outros 2,3 milhões são áreas embargadas pelo Ibama. 

Os 3,2 milhões de hectares restantes são justamente as porções de floresta em pé existentes nas áreas de compra dos frigoríficos que correm o risco de virem ao chão.

Segundo a pesquisa, a ameaça de destruição futura foi estimada levando em conta variáveis importantes para o desmatamento, como a inclinação do terreno, distância para rios, estradas e frigoríficos, classe territorial (terras indígenas, unidades de conservação, etc) e proximidade de derrubadas recentes e antigas.

“Já temos literatura científica e projetos de campo suficientes para mostrar que não precisamos mais desmatar nenhum hectare na Amazônia para aumentar a produção de carne. O que precisamos é melhorar a produtividade, que pode passar de um a pelo menos três bois por hectare com as tecnologias e as ofertas de crédito existentes”, defende a pesquisadora do Imazon Ritaumaria Pereira, uma das responsáveis pelo relatório.

Gigantes expostasO estudo também ranqueou os frigoríficos em relação à exposição deles às ameaças de destruição da floresta. A empresa mais crítica é a JBS, com quase 10 milhões de hectares desmatados, embargados ou sob risco de derrubada em suas zonas de compras. Em seguida está a Vale Grande, com pouco mais de 4 milhões de hectares. Masterboi, Minerva e Mercúrio completam o top 5, todas com mais de 2 milhões de hectares. 

O trabalho chama atenção para o fato de que nem as empresas que firmaram compromissos com Ministério Público Federal para controle da cadeia conseguem garantir que seus produtos estejam isentos da devastação ilegal.

Isso acontece porque os fornecedores indiretos ainda estão fora da equação. Ou seja: os frigoríficos prestam contas ao MPF apenas dos fornecedores diretos, que, apesar de estarem legalizados, podem ter adquirido animais de fazendas irregulares. 

A prática, conhecida como “lavagem de gado”, poderia ser resolvida com a exigência da rastreabilidade de todos os bovinos desde o nascimento, defende o Imazon. Algumas empresas têm anunciado medidas nesse sentido, mas apenas para depois de 2025.

“É inviável aceitar esse prazo para um problema que se arrasta há décadas, ainda mais quando ele pode representar o desmatamento de uma área do tamanho de Alagoas. Isso aumentará significativamente as emissões brasileiras de gases de efeito estufa em um momento de emergência climática que traz consequências como as secas no Norte e as chuvaradas no Sul. Se forem tomadas medidas urgentes focadas nas principais zonas de compra, já será possível evitar grande parte da derrubada prevista”, explica o pesquisador do Imazon Paulo Barreto, que também assina o trabalho.


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Este texto foi inicialmente publicado pelo OECO [Aqui!].

Por que precisamos urgentemente de uma Política Nacional de Prevenção da Exposição ao Mercúrio no Brasil?

MERCÚRIO

Por Gabriela de Paula Arrifano, Maria Elena Crespo Lopez, Linara Oeiras Assunção, Helena Cristina Guimarães Queiroz Simões, Cristina Figueiredo Terezo Ribeiro, Maria da Conceição Cosmo Soares, Sílvia Maria da Silveira Loureiro

Antes da pandemia, o Brasil já era o quinto país do mundo que mais emitia mercúrio, metal extremamente tóxico para os seres humanos, mas muito usado no dia a dia (em lâmpadas fluorescentes, pilhas, baterias, restaurações dentárias, etc.). Estima-se que a emissão dessa substância, também conhecida como “azougue”, tenha aumentado mais ainda nos últimos anos devido à expansão da atividade mineradora e das queimadas e desmatamento.

Somado a isso, atualmente vivemos à sombra do “mercúrio herdado”, um termo utilizado por muitos cientistas para caracterizar o enriquecimento de mercúrio encontrado presentemente nos solos, rios/oceanos e atmosfera, resultantes de vários milênios de liberações antropogênicas deste metal. Isto porque o mercúrio não desaparece do ambiente, ele entra em um ciclo contínuo sendo depositado e removido entre o solo, os rios/oceanos e a atmosfera. É um fato tão grave, que se hoje eliminássemos todas as fontes emissoras de mercúrio do planeta, as pessoas continuariam expostas por muitos séculos até que os níveis do metal fossem fixados no solo significativamente.

Em 2013 foi aprovada a Convenção de Minamata, o mais recente tratado internacional em ambiente e saúde, atualmente integrado por 141 países. Esse acordo global visa reduzir as emissões de mercúrio e proteger o ambiente e a saúde humana. O Brasil é parte deste tratado, que passou a fazer parte da legislação brasileira pelo Decreto nº 9.470 de 2018, obrigando nosso país a estabelecer estratégias para reduzir os riscos.

Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), todas as pessoas no mundo inteiro estão expostas a alguma quantidade de mercúrio. Este metal foi – e ainda é – responsável por inúmeros casos de contaminação humana. Uma vez dentro do corpo humano, o mercúrio afeta diversos órgãos, incluindo o cérebro e o coração, levando à perda de memória e da coordenação motora, dores de cabeça, hipertensão, entre outros, inclusive à morte. Mulheres grávidas e crianças são particularmente sensíveis ao efeito do metal, podendo levar à má formação fetal e a problemas de aprendizagem, além de danos à saúde. Infelizmente, uma vez instalados os sintomas, os danos são irreversíveis, mesmo eliminando o metal do corpo. Por isso, a prevenção é o melhor remédio. Assim, elaboramos uma proposta legislativa que institui a Política Nacional de Prevenção da Exposição ao Mercúrio, ou seja, uma ação permanente do poder público para monitorar a toxicidade do metal.

Esse Projeto de Lei (1011/2023), atualmente em tramitação no Senado Federal e em fase de consulta pública, apresenta três eixos principais: (1) Implementação de uma plataforma de registro e controle (Sistema de Controle da Exposição ao Mercúrio – SICEM), que permita o monitoramento da população brasileira para o direcionamento adequado das políticas públicas; (2) Campanha nacional permanente de conscientização da exposição humana ao mercúrio, incluindo ações como o Dia Nacional do Mercúrio; (3) Estratégias para melhorar a detecção e prevenção da exposição humana ao mercúrio, como a capacitação obrigatória dos profissionais de saúde sobre o tema.

Para combatermos os riscos sanitários e ambientais associados ao mercúrio e garantirmos a proteção de todos e todas, é importante que a população demonstre seu apoio ao Projeto de Lei. Um das formas mais simples e efetivas é votando SIM na consulta pública do Senado. Os cidadãos podem se manifestar durante o período de tramitação do texto, que hoje aguarda parecer do relator.

Sobre as autoras

Gabriela de Paula Arrifano é pesquisadora do Laboratório de Farmacologia Molecular do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Pará
Maria Elena Crespo Lopez é coordenadora do Laboratório de Farmacologia Molecular do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Pará
Linara Oeiras Assunção é coordenadora da Clínica de Direitos Humanos da Universidade Federal do Amapá
Helena Cristina Guimarães Queiroz Simões é professora da Clínica de Direitos Humanos da Universidade Federal do Amapá
Cristina Figueiredo Terezo Ribeiro é professora da Clínica de Direitos Humanos da Universidade Federal do Pará
Maria da Conceição Cosmo Soares é professora da Clínica de Direitos Humanos da Universidade Federal do Oeste do Pará
Sílvia Maria da Silveira Loureiro é coordenadora da Clínica de Direitos Humanos e Direito Ambiental da Escola de Direito da Universidade do Estado do Amazonas


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Superexploração e assassinatos: a população indígena do Brasil sofre com a invasão de garimpeiros ilegais

garimpeiros paGarimpeiros ilegais no trabalho (no estado do Pará, 04/09/2021)
Por Norbert Suchanek para o JungeWelt

Forças de segurança mataram quatro garimpeiros durante um despejo no último domingo em conjunto com funcionários do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Ibama). Segundo o Ibama, pelo menos uma das vítimas era integrante de uma organização criminosa. No dia anterior, segundo a Associação Hutukara Yanomami (HAY), um grupo de garimpeiros de barcos atacou os Yanomami da comunidade Uxiu durante um rito fúnebre no rio Mucajaí, matando um indígena a tiros e ferindo dois.

Agora a polícia descobriu os corpos de oito supostos garimpeiros no rio Mucajaí. As autoridades acreditam que eles foram mortos por Yanomami da Aldeia de Uxiu em retaliação ao ataque ao funeral. A fim de evitar uma nova escalada, o governo já despachou uma força policial federal de elite para a área.

Segundo o governo de Brasília, as ações policiais na reserva Yanomami têm sido bem-sucedidas até o momento. Cerca de 70 a 80% dos garimpeiros já deixaram a área de proteção indígena. Segundo o Ibama, as forças de segurança destruíram um total de 327 acampamentos, 18 aviões, dois helicópteros e dezenas de jangadas, barcos e tratores pertencentes aos garimpeiros até o momento.

À primeira vista, o presidente do Brasil, Fernando Collor de Mello, e seu secretário de Estado do Meio Ambiente, José Lutzenberger, tiveram mais sucesso do que o governo de Lula da Silva. Em 1992, a Reserva Yanomami sofria então com uma invasão de mais de 40.000 garimpeiros ilegais, que ganhou as manchetes em todo o mundo. As forças aéreas bombardearam as pistas dos acampamentos de garimpeiros com aviões de combate e helicópteros, após o que os invasores fugiram. Naquela época, a maioria dos garimpeiros fugiu para o território vizinho dos Yanomami, na Venezuela, enquanto o restante fugiu para as cidades brasileiras fora da reserva. Mas foi apenas uma vitória de Pirro. Logo após a conferência ambiental, milhares retornaram à reserva e continuaram com suas ocupações habituais:  desmatamento e garimpo de ouro.

Os garimpeiros não são apenas responsáveis ​​pelos assassinatos e estupros dos Yanomami e de outros povos indígenas na Amazônia. Eles também carregam doenças infecciosas e sexualmente transmissíveis, como malária, sífilis e AIDS para as áreas indígenas protegidas. Além disso, deixam verdadeiras paisagens lunares envenenadas com mercúrio em busca do metal precioso. O metal pesado líquido e brilhante é usado por garimpeiros ilegais e legais no Brasil para separar o pó de ouro fino da lama. Em toda a Amazônia, vários rios já estão fortemente contaminados com mercúrio, que se acumula na cadeia alimentar, principalmente nos peixes, e leva a problemas de saúde.

Uma medida necessária há décadas para evitar a extração de ouro na floresta tropical, também por razões ambientais, seria, portanto, a proibição do uso de mercúrio na mineração de ouro e a regulamentação estrita da venda de mercúrio. Mas até agora nenhum governo de Brasíl fez isso.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!]. 

Pesquisadoras do Centro de Tecnologia Mineral analisam exposição ao mercúrio na Terra Indígena Yanomami

Vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, Cetem enviou equipe para coletar amostras e analisar exposição ao mercúrio

unnamed (18)Foto: Fernando Frazão (Agência Brasil)

Uma equipe formada por quatro pesquisadoras do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), instituto de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), está na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, para avaliar a exposição da população ao mercúrio, poluente usado no garimpo e de alta periculosidade para a saúde.

As pesquisadoras, que integram o Laboratório de Especiação de Mercúrio Ambiental, estão coletando amostras de cabelo da população indígena para analisar a quantidade de mercúrio presente. O trabalho faz parte das ações emergenciais de saúde e meio ambiente promovidas pelo governo federal.

Segundo a pesquisadora Zuleica Castilhos, a principal forma de contaminação humana por mercúrio é pelo consumo de peixe. As gestantes, ela acrescenta, formam o grupo mais vulnerável já que o metilmercúrio pode atravessar a placenta e causar efeitos neurológicos irreversíveis ao feto.

“As equipes do Ministério de Saúde estão produzindo material explicativo e documentos técnicos para o entendimento detalhado de todo o processo de coleta e de análise por parte das lideranças indígenas, visando a ativa participação das comunidades e o seu consentimento para a coleta de dados epidemiológicos e de cabelo para as análises de mercúrio dentro do território indígena”, explicou a pesquisadora.

Zuleica Castilho afirmou que o trabalho seguirá até o fim do mês de março, podendo ser prorrogado. “Os laudos individuais serão disponibilizados para o Ministério da Saúde, que fará o encaminhamento para o desenvolvimento de ações de vigilância e assistência à saúde.”

Também participam do trabalho as pesquisadoras Líllian Maria Borges Domingos, Jéssica Zickwolf Ramos e Thainá Farinchón.

A guerra que a sociedade não vê: a força brasileira expulsando gangues de garimpeiros de terras indígenas

Uma unidade de elite tem a missão de expulsar os garimpeiros que devastaram o território Yanomami durante a presidência de Bolsonaro

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Por Tom Phillips na Terra Indígena Yanomami para o “The Guardian”

Durante os últimos quatro anos as florestas tropicais do Brasil sangraram. “Eles sangraram como nunca antes”, disse Felipe Finger enquanto se preparava para se aventurar na selva com seu rifle de assalto para estancar a carnificina ambiental infligida na Amazônia pelo ex-presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro .

Momentos depois, Finger, um corajoso comandante das forças especiais do Ibama, estava no ar em um helicóptero monomotor, voando sobre o dossel da floresta em direção à linha de frente de uma guerra feroz contra a natureza e os povos indígenas que viveram aqui muito antes dos portugueses . exploradores chegaram há mais de 500 anos.


Felipe Finger, comandante das forças especiais do Ibama, órgão de proteção ambiental do Brasil, lidera suas tropas em uma missão para destruir minas ilegais no território indígena Yanomami na última sexta-feira
Felipe Finger, comandante das forças especiais do Ibama, órgão de proteção ambiental do Brasil, lidera suas tropas em uma missão para destruir minas ilegais no território indígena Yanomami. Fotografia: The Guardian
Felipe Finger incendeia motor usado por garimpeiros ilegais

Felipe Finger incendeia um motor usado por garimpeiros ilegais. Fotografia: Tom Phillips/The Guardian

Os motores que alimentavam sua operação clandestina de mineração de cassiterita ainda estavam roncando quando membros de sua unidade de seis homens saltaram de seus helicópteros e se espalharam por uma paisagem apocalíptica de crateras encharcadas e árvores caídas.

“A mineração ilegal nas terras Yanomami acabou”, declarou Finger, um engenheiro florestal camuflado que se tornou guerreiro da floresta tropical, cuja equipe lidera os esforços para expulsar os garimpeiros desde o início de fevereiro. 

Forças especiais ambientais incendeiam acampamento de garimpo no território indígena YanomamiForças especiais ambientais incendeiam acampamento de garimpo na Terra Indígena Yanomami. Fotografia: Tom Phillips/The Guardian

A incursão em Xitei fez parte do que foi saudado pelo governo como uma campanha histórica para expulsar garimpeiros das terras Yanomami e resgatar a Amazônia após quatro anos de caos, criminalidade e derramamento de sangue como o que viu o jornalista britânico Dom Phillips e os indígenas o especialista Bruno Pereira assassinado em junho passado.

O The Guardian foi uma das primeiras organizações de mídia a ter acesso a esses esforços, viajando profundamente no território Yanomami para acompanhar o esquadrão de elite de Finger, o Grupo Especial de Fiscalização (GEF).

Agentes do grupo se reuniram na madrugada da última sexta-feira em um acampamento no rio Uraricoera – uma das principais artérias utilizadas pelos garimpeiros para invadir o território, que tem o tamanho de Portugal e onde vivem cerca de 30 mil Yanomami em mais de 300 aldeias.

Vinte e quatro horas antes, um bando de garimpeiros ilegais – que o governo ordenou que deixassem o território até 6 de abril – havia trocado tiros com tropas que bloquearam a hidrovia para cortar o abastecimento. Um mineiro foi baleado no rosto.

Pouco antes das 11h, os agentes decolaram em dois helicópteros Squirrel e dirigiram-se para sudoeste em direção a Xitei, onde haviam avistado uma série de minas durante um voo de vigilância no dia anterior.

“Esta região foi absolutamente devastada… existem aldeias que agora estão completamente cercadas pelas minas”, disse Finger, 43.

Vista aérea de garimpos no território Yanomami

Os mineiros haviam fugido, abandonando seu equipamento em um poço lamacento onde outrora corria um pequeno riacho. “Eles partiram com pressa – apenas alguns dias atrás”, disse Finger enquanto sua tripulação se arrastava pelo acampamento deserto.

Roupas, maços vazios de cigarros e analgésicos e cartuchos de espingarda calibre 12 usados ​​espalhados pelo chão perto de uma comporta de madeira usada para separar o ouro do cascalho e da sujeira. 

Tropas de Finger invadem garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami.Tropas de Finger invadem garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami. Fotografia: Tom Phillips/The Guardian

Depois de incendiar a eclusa e os motores que acionavam as mangueiras usadas para remover o solo, o grupo de Finger voltou a embarcar em seus helicópteros e correu em direção ao segundo alvo: um aglomerado maior de minas perto da fronteira venezuelana.

Quando o  The Guardian visitou a região de Xitei pela última vez em 2007, era um mar de floresta tropical em grande parte intocada pontilhada com cabanas comunais tradicionais e pistas de pouso clandestinas desativadas que foram dinamitadas durante a última grande operação para expulsar mineiros, no início dos anos 1990.

Quinze anos depois, a selva ao redor de Xitei foi destruída. Imensas lacerações cor de areia substituíram florestas verde-escuras. Acampamentos de mineração em ruínas ficam onde antes antas e veados vagavam. Quantidades desconhecidas de mercúrio poluíram os rios, envenenando os peixes dos quais os Yanomami dependem. 

Aldeões Yanomami levam suprimentos de um garimpo ilegal invadido por tropas ambientais perto da aldeia de Xitei.Aldeões Yanomami levam suprimentos de um garimpo ilegal invadido por tropas ambientais perto da aldeia de Xitei. Fotografia: Tom Phillips/The Guardian

Dário Kopenawa, um proeminente líder Yanomami, comparou a profanação ambiental à leishmaniose, uma doença transmitida por flebotomíneos que causa lesões e úlceras horríveis na pele.

“Eu chamaria de onokãe ”, disse Kopenawa. “Significa um genocídio que mata pessoas, derrama sangue e acaba com vidas.”

Quando a equipe do Ibama desembarcou na jazida de cassiterita, seus operadores se dispersaram. Dezenas de aldeões Yanomami emergiram da selva, curiosos com a chegada do esquadrão voador de Finger.

As mulheres usavam tangas vermelhas tradicionais e tinham contas amarelas e brancas sobre o peito nu. Os homens usavam colares de dentes de onça e empunhavam flechas enfeitadas com penas negras de mutuns semelhantes a faisões. As crianças usavam chinelos e camisas de futebol, presenteadas pelos garimpeiros.

Aldeões Yanomami observam a chegada das tropas de FingerAldeões Yanomami observam a chegada das tropas de Finger. Fotografia: The Guardian

Os homens balançaram a cabeça quando solicitados a nomear os atuais e ex-presidentes do Brasil. Mas as consequências da incitação de Bolsonaro ao crime ambiental eram visíveis por toda parte: a floresta destruída, os sacos cheios de minerais extraídos ilegalmente e o acampamento imundo onde latas de cerveja e latas de sardinha estavam espalhadas pelo chão.

Aldeões Yanomami observam tropas ambientais pousar em uma mina ilegal perto de sua comunidade durante uma grande operação para expulsar gangues de garimpeiros

Aldeões Yanomami observam o desembarque de tropas ambientais em uma mina ilegal perto de sua comunidade. Fotografia: Tom Phillips/The Guardian

Perto dali, a equipe de Finger perseguiu um garimpeiro fugitivo, um ex-açougueiro chamado Edmilson Dias, do estado de Goiás, no centro-oeste.

Dias, um homem de 39 anos castigado pelo tempo, cujos oito anos trabalhando nas minas lhe deram a aparência de um homem muito mais velho, votou em Lula nas eleições decisivas de outubro passado. Mas a mineradora criticou a repressão do novo presidente e insistiu que ela fracassaria.

“A mineração é uma febre”, disse o mineiro abatido enquanto se sentava em um tronco de árvore flanqueado pelas tropas fortemente armadas de Finger. “Se você me expulsar desta mina… eu irei para outro lugar porque a mineração ilegal nunca vai acabar.”

Desafiação semelhante pôde ser ouvida em volta da piscina do melhor hotel de Boa Vista, a cidade mais próxima do enclave Yanomami. Em uma tarde recente, um corpulento chefe de mineração estava sentado lá, bebendo cerveja e se gabando de como sua equipe havia enterrado seu equipamento na selva para evitar que as tropas o destruíssem. Os mineiros jogaram gasolina na terra sobre os objetos escondidos para ajudá-los a realocar seus equipamentos, impedindo que a floresta voltasse a crescer.

Agentes ambientais revistam supostos garimpeiros em bloqueio ao longo do rio Uraricoera

Agentes ambientais revistam supostos garimpeiros em um bloqueio ao longo do rio Uraricoera. Fotografia: Tom Phillips/The Guardian

O chefe previu que a repressão de Lula desapareceria depois de seis meses, permitindo que os mineradores retomassem suas atividades multimilionárias em mais de 200 poços. Mas os aliados de Lula insistem que vieram para o território Yanomami para ficar.

“Esta é a promessa de Lula e estamos todos trabalhando… para que essa promessa se torne realidade. Estamos determinados a fazer isso dar certo”, disse a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, que promete defender outros territórios indígenas devastados pelo garimpo ilegal, como os dos povos Munduruku e Kayapó.

Um homem Yanomami senta-se ao lado de uma operação ilegal de mineração de cassiterita no interior do território indígenaUm homem Yanomami senta-se ao lado de uma operação ilegal de mineração de cassiterita nas profundezas do território indígena. Fotografia: Tom Phillips/The Guardian

“Isso é um crime. Não há outro nome para isso – uma tentativa de genocídio”, disse Silva, denunciando as condições “ética, política, moral e espiritualmente degradantes” que ela acreditava que os Yanomami foram deliberadamente submetidos sob Bolsonaro.

André Siqueira, um especialista em malária que visitou recentemente o território Yanomami para avaliar a emergência de saúde, descreveu cenas horríveis de desnutrição e abandono. “Vi crianças de cinco anos que pesavam menos que meu filho de dois anos. Mesmo em viagens à África, nunca tinha visto tais níveis de desnutrição. Eu só tinha visto isso em livros”, disse ele.

Bruce Albert, um antropólogo que trabalha com os Yanomami desde os anos 70, quando os garimpeiros invadiram seu território pela primeira vez, acusou Bolsonaro de tentar “aniquilar totalmente” os Yanomami sabotando os esforços para proteger as terras que se acredita terem habitado por milhares de anos .

“O plano de Bolsonaro foi uma espécie de genocídio por meio de negligência intencional”, disse Albert sobre o político, que ele acreditava estar obcecado com as teorias da conspiração da época da ditadura militar de que potências estrangeiras hostis queriam anexar a região de fronteira incitando um movimento separatista indígena. “E se Bolsonaro tivesse mais quatro anos [no poder], seu plano teria dado certo.”

O ex-presidente do Brasil chamou tais acusações de “farsa” esquerdista. Dias também rejeitou as alegações de que os garimpeiros estavam destruindo os Yanomami.

“Quando nossas máquinas estão todas funcionando, eles comem bem e vivem bem”, disse ele, citando os nomes de três supostos colaboradores Yanomami. “Os mineradores não são bandidos e o que eles estão fazendo conosco é uma desgraça total.”

Dias também negou que os garimpeiros estivessem coletando ouro com o uso de mercúrio, que pode causar defeitos congênitos, danos aos rins e até a morte. Momentos depois, porém, Finger saiu do barraco de Dias brandindo um frasco de plástico cheio do metal pesado tóxico. “Não é apenas perigoso, é letal – para eles [os garimpeiros] e para os indígenas”, ele se irritou.


O agente do Ibama Rafael Sant'Ana desmonta uma comporta de madeira usada para separar o ouro da sujeira

Depois que os suprimentos de Dias foram distribuídos aos moradores Yanomami, seu casebre foi incendiado. Ele foi multado e deixado na floresta para encontrar o caminho de casa.

As tropas de Finger voltaram à base para limpar suas armas e se preparar para a missão do dia seguinte na vanguarda da campanha de Lula para escrever um novo capítulo para o meio ambiente, os Yanomami e a luta global contra a mudança climática.

“Estamos travando uma guerra de fato”, disse Finger enquanto agentes do Ibama revistavam um grupo de garimpeiros que fugiam ao longo do rio atrás dele. “É uma guerra silenciosa que a sociedade não vê – mas aqueles de nós que lutam sabem que ela existe.”


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Garimpo Ilegal acontece em todo território da Amazônia

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A Amazônia nunca esteve tão no centro das discussões como agora. De acordo com levantamento feito pelo Instituto Socioambiental (ISA), com base em dados do Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (Inpe/Prodes), o desmatamento em terras indígenas aumentou em 157% durante o governo do ex-presidente Bolsonaro.

Garimpo, invasões e roubo de madeira continuam assolando terras indígenas e unidades de conservação. Áreas da floresta estão sendo vendidas via leilão para empresas explorarem petróleo e gás natural.

Boa parte deste desmatamento está associada à expansão das áreas do garimpo nos territórios, mas também pela ação de madeireiros – atividades que andam lado a lado quando o assunto é invasão de terras indígenas. Entre 2010 e 2021, aponta o MapBiomas, o garimpo em terras indígenas cresceu cerca de 625%. O aumento mais expressivo ao longo dos últimos dez anos foi registrado justamente entre 2019 e 2021 e ele não está limitado às cinco terras indígenas citadas pelo relatório.

A Igreja, sempre atenta às necessidades da comunidade, desenvolve ações e cuidados especiais com os indígenas. De acordo com o assessor da Rede Eclesial Pan-Amazônica, a REPAM-Brasil e também da Comissão Ecologia Integral e Mineração da CNBB, padre Dário Bossi, a Igreja se aproxima desses povos em defesa da vida. “Amazônia sempre foi considerada uma terra de conquista, é pautada pelo viés do extrativismo predatório”. 

“O garimpo, na verdade, é como se fosse a primeira etapa de uma invasão, que possui ciclos, onde o primeiro ciclo é a desflorestação, que depois deixa espaço ao latifúndio da soja, do boi e das siderúrgicas, como um modelo que vem avançando. Assim o garimpo entra ocupando e contaminando pequenas áreas para depois deixar abertura para outros modelos de mineração mais consistentes e impactantes e, aos poucos, ir tomando posse dos territórios, por isso, não dá para medir ou para controlar a entrada no território. Há regiões na Amazônia onde precisamos dizer não à mineração. São territórios sagrados, santuários, que precisam ser preservados”, destacou o padre.  

De acordo com o MapBiomas, em relatório publicado há cinco meses, o Pará concentra o maior número de invasões em terras indígenas. Das cinco terras listadas pelo estudo, que utilizou dados de 2021, a TI Kayapó é a mais invadida, com 11.542 hectares de área de garimpo; em segundo lugar, a TI Munduruku, com 4.743 hectares de destruição. Somadas, as duas TIs concentram 16.285 hectares de áreas com lavra ilegal de ouro, o equivalente a 17 mil campos de futebol aproximadamente. Os Yanomami vêm em terceiro. 

A Igreja, sempre atenta às necessidades da comunidade, desenvolve ações e cuidados especiais com os indígenas. De acordo com o assessor da Rede Eclesial Pan-Amazônica, a REPAM-Brasil e também da Comissão Ecologia Integral e Mineração da CNBB, padre Dário Bossi, a Igreja se aproxima desses povos em defesa da vida. “Amazônia sempre foi considerada uma terra de conquista, é pautada pelo viés do extrativismo predatório”. 

Padre Dário fala sobre a importância da atuação da Igreja na região,“Há uma sensibilidade cada vez mais forte do mundo religioso sobre a importância de repensar o modelo, como dizíamos, não pode ser mais um modelo de saque e sim um modelo de reciclagem, reuso, limites e de controle dessa sania extrativa. Essa é a única maneira para permitir uma convivência equilibrada das comunidades em seus territórios”. 

“A opção pelo extrativismo predatório, infelizmente, continua sendo a prioridade de muitos países na América Latina, naturalmente, empurrada por interesses de fora, ainda mais agora, neste tempo de crise, num tempo em que supostamente por necessidade de transição energética, se fazem necessários os famosos minerais estratégicos, portanto, a fronteira de busca desses minerais e de expansão do extrativismo vem ameaçando cada vez mais comunidades que não sabem como se defender. As comunidades indígenas e a Amazônia são como a última fronteira de resistência. O que deve mudar, com certeza, é o ritmo e a intensidade desse sistema extrativo, que não vai se sustentar por muito tempo, por isso, temos que aprender com os povos indígenas uma nova maneira de conviver com o meio ambiente que não seja tão vorazmente predadora dos nossos territórios”. 

Para a professora Márcia Oliveira, da Universidade Federal de Roraima e assessora da REPAM-Brasil, é necessário determinar a retirada dos garimpeiros que oferecem grande risco e grande contaminação ao meio ambiente, destruição da floresta, dos rios, e dos povos que necessitam viver em paz em seus territórios e viver de forma autônoma com a soberania alimentar que eles fazem subliminarmente.

 “São diversas tentativas de invasões em TI desde 2016, quando os governos Temer e após o governo Bolsonaro abriram espaços para o garimpo. São trabalhadores que são agenciados a grandes empresas ligadas ao mercado do ouro e promovem uma grande exploração do trabalho análogo ao escravo, são pessoas muito pobres entrando na região, contaminando todo território os rios com mercúrio e também contaminando com a verminose. São de 20 a 30 mil pessoas no mesmo espaço, as águas levam toda a espécie de contaminação e isso tem resultado em um surto muito grande de verminose entre os povos indígenas”, declara a professora Márcia Oliveira, assessora da REPAM-Brasil. 

São muitos os religiosos e padres que atuam e moram em aldeias. A Igreja sempre se manifestou em relação ao garimpo. E grupos fizeram denúncias na Organização das Nações Unidas (ONU).

Academia Brasileira de Ciências apresenta propostas para reduzir contaminação por mercúrio, desafio nacional

Academia defende que garimpo ilegal seja banido no Brasil

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Garimpo ilegal faz subir a níveis perigosos os índices de mercúrio em peixes da Amazônia

A Academia Brasileira de Ciências (ABC) define a contaminação por mercúrio como um desafio nacional que deve mobilizar todos os níveis governamentais, o setor privado e as organizações sociais, em documento publicado nesta terça-feira (11). O estudo faz um diagnóstico das emissões do metal no país e lista oito recomendações para lidar com esse desafio, iniciando um debate sobre a gestão do metal no Brasil.

“A contaminação por Mercúrio representa uma grave ameaça a todo o ecossistema do nosso País, de Norte a Sul e de Leste a Oeste”, alerta o professor Jailson Bittencourt de Andrade, vice-presidente da ABC e coordenador do estudo.

O documento Contaminação por mercúrio – Por que precisamos de um plano de ação? explica que o mercúrio é tóxico por conta de sua alta afinidade com compostos de enxofre presentes em proteínas e em muitas enzimas essenciais para o metabolismo das células humanas. Quando o metal se liga a enzimas e outras proteínas, elas são inativadas de forma irreversível, o que pode gerar graves complicações clínicas, como vertigens, tremores e danos aos pulmões e ao cérebro.

Extração de ouro é atividade que mais contribui para emissões de mercúrio no Brasil

O Grupo de Trabalho que realizou o estudo aponta que, apesar de várias localidades brasileiras serem afetadas pela contaminação, o mercúrio está fortemente associado ao garimpo ilegal e ao uso do metal para extração do ouro. É a atividade que mais contribui para as emissões de mercúrio no país. A técnica usada particularmente na extração ilegal faz com que o ouro e o mercúrio se fundam em um amálgama, para que o metal precioso possa ser extraído de rochas e areia. Depois, o amálgama é aquecido, fazendo o mercúrio evaporar e passar a circular na atmosfera.

A ABC expressa, no documento, sua preocupação com o garimpo realizado em terras indígenas, o que é proibido pela Constituição. Entretanto, a invasão a esses territórios segue acontecendo de maneira sistemática. Isso impacta diretamente as populações indígenas, inviabilizando a continuidade de seus modos de vida e de suas culturas. A entidade aponta a necessidade da proibição irrestrita do garimpo ilegal no país.

“O mercúrio é um legado da irresponsabilidade no trato do meio ambiente que vai ainda assombrar a humanidade por gerações”, ressalta Luiz Drude de Lacerda, Membro Titular da ABC e integrante do Grupo de Trabalho.

Exposição humana se dá principalmente por pescado contaminado

O grupo observa, no entanto, que muitos problemas de contaminação ambiental por mercúrio são devidos não apenas ao aumento das emissões, mas também à tendência de maior concentração do metal em peixes, humanos e outros organismos, observada ao longo dos últimos 20 anos. O fenômeno é atribuído à alteração do uso do solo, particularmente na conversão de florestas para extração de madeira e para a agropecuária.

A exposição humana ao mercúrio se dá principalmente pela ingestão de pescados. Assim, os riscos à saúde são ainda maiores em populações ribeirinhas da Amazônia e em pescadores artesanais do litoral brasileiro. O Grupo de Trabalho da ABC recomenda que sejam subsidiadas medidas para melhorar a segurança alimentar dessas populações, com um esforço continuado de monitoramento da contaminação de peixes e outros produtos da aquicultura.

O grupo defende que o Brasil volte a ser participante ativo na Convenção de Minamata, que traz uma série de medidas de controle sobre o uso do mercúrio em todo o mundo. O tratado internacional foi firmado em 2013 e tem por objetivo proteger o meio ambiente dos efeitos adversos do metal. O texto ressalta que o Brasil chegou a sediar a Conferência sobre Mercúrio como Contaminante Global, em 1999, mas que as iniciativas do país no âmbito multilateral vêm se reduzindo drasticamente nos últimos anos.

Outras sugestões presentes no documento são a atualização dos inventários de emissões de mercúrio, a substituição de produtos que contêm o metal por alternativas e ainda o desenvolvimento e a implementação de tecnologias voltadas à redução de emissões de fontes incidentais de mercúrio. Por fim, a ABC se compromete a realizar reuniões regionais, nacionais e internacionais, identificando gargalos e propondo mais soluções.

Balsas de garimpo ilegal voltam a bloquear o rio Madeira

A atividade predatória ocorre na altura da comunidade de Fortaleza do Bom Intento, município de Manicoré, estado do Amazonas

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Imagem de satélite PLANETº da comunidade de Fortaleza do Bom Intento (AM) analisada pelo Greenpeace Brasil na segunda-feira (26)

São Paulo, 28 de setembro de 2021 Imagens de satélite analisadas pelo Greenpeace Brasil na última segunda-feira (26) mostram uma nova concentração de balsas de garimpo ao longo do Rio Madeira, e confirmam as denúncias encaminhadas por moradores da região. Pelas imagens é possível identificar pelo menos 100 balsas ancoradas e minerando na região da comunidade de Fortaleza do Bom Intento, que em linha reta, fica a menos de 100 km da cidade de Manicoré.

A movimentação dessas balsas, há menos de uma semana das eleições no Brasil, comprovam que o garimpo ilegal segue avançando na região amazônica. Para o porta-voz de Amazônia do Greenpeace Brasil, Danicley de Aguiar: “mais uma vez a realidade se impõe e escancara a urgência de que o Estado brasileiro proponha uma estratégia de desenvolvimento regional capaz de superar o garimpo e garantir renda digna para as milhares de famílias que vivem em estado de vulnerabilidade social nas cidades e florestas da Amazônia”.

É preciso que sejamos capazes de construir arranjos produtivos que consigam conviver com a floresta e suprir mais do que as necessidades básicas dessas populações. Do contrário, só testemunharemos mais e mais amazônidas se lançando ao garimpo como estratégia de sobrevivência”, disse Aguiar.

Em dezembro de 2021, o Greenpeace Brasil alertou para a presença de centenas de balsas de garimpo ilegal na região de Autazes, também no Rio Madeira. Diante da enorme repercussão nacional do caso, a Polícia Federal foi mobilizada e acabou por dispersar o bloqueio produzido pelas balsas, inutilizando 131 balsas em duas operações realizadas em parceria com o Ibama.