Manchete síntese do LeMonde: no Brasil, o reino da impunidade

O jornal Le Monde publicou no dia 28/02 uma matéria assinada pela jornalista Claire Gatinois sobre a situação política no Brasil e a condição deplorável do governo “de facto” que merece entronizada pela sua capacidade de síntese da nossa realidade política, começando pelo título “Au Brésil, le règne de l’impunité“, o que em português equivale a algo como “No Brasil, o reino da impunidade” (Aqui!).

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A matéria aborda a crise que engolfa o (des) governo Temer por causa da sua implicação no em casos de corrupção e também pela táticas consideradas ambíguas para responder ao processo de desgaste popular que isto implica, e sobra ainda uma menção para a indicação do tucano Alexandre de Moraes para ocupar a vaga  aberta pela morte de Teori Zavasck no Supremo Tribunal Federal.

Esta matéria e outras que estão circulando na imptensa internacional representam um duro golpe na capacidade de sobrevivência do (des) governo Temer menos pelo aspecto político interno, onde as panelas dos coxinhas continuam guardadas, mas mais pelo desgaste que isto causa na confiabilidade que o Btasil possui para atrair os tão necessários investimentos internacionais que poderiam alavancar um processo de retomada econômica. É que a não ser por aqueles setores que se aproveitam da exploração de commodities agrícolas e minerais e internalizam os riscos políticos na forma de taxas grandiosas que acarretam degração ambiental e regressão de direitos sociais, poucos se interessam em estar num país com um governo tão impopular e desacreditado como é o liderado pelo presidente “de facto” Michel Temer.

 

ASIBAMA/RJ denuncia desmantelamento das estruturas de licenciamento ambiental do IBAMA

Enquanto ficamos sendo distraídos pela mídia corporativa por lampejos de informação que nos dão pequenas entradas nas entranhas do governo “de facto” de Michel Temer (o caso das denúncias do agora licenciado ministro Eliseu Padilha é um belo exemplo), os seus ministros e representantes parlamentares estão agindo na surdina para desmantelar todos os poucos instrumentos de contenção da barbárie social e ecológica no Brasil.

Um caso típico deste desmantelamento está ocorrendo no Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (IBAMA), e mais especificamente na sua área de licenciamento ambiental. Isso é o que podemos inferir da leitura do manifesto da Associação de Servidores do IBAMA do Rio de Janeiro (ASIBAMA/RJ), o  qual foi  aprovado na Assembleia Extraordinária de 15/02/2017, contra a proposta de reestruturação da Diretoria de Licenciamento Ambiental do IBAMA (DILIC) (ver abaixo).

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Neste  manifesto, a ASIBAMA/RJ denuncia a chamada “reestruturação” da DILIC como uma clara tentativa de  enfraquecer o licenciamento ambiental federal. O documento também chama atenção para a relação entre este processo e os constantes ataques nos campos legislativo e executivo que visam fragilizar a política nacional de meio ambiente. Em meio a tudo isso, o ASIBAMA/RJ denuncia ainda as perseguições que estariam ocorrendo contra os servidores do IBAMA que estão resistindo à inúmeras pressões para que não conduzam suas obrigações de forma correta.

Há que se pontuar que esse desmantelamento dos mecanismos de proteção ambiental no Brasil está diretamente associado a um processo de completa submissão do nosso país aos interesses das grandes corporações, especialmente as do setor mineral e do agrobusiness, que querem aqui operar com custos mínimos e com toda a capacidade de manter os prejuízos sociais e ambientais das suas atividades poluidoras e degradadoras como “externalidades” que serão colocadas sobre as costas dos brasileiros, especialmente aqueles segmentos mais frágeis e marginalizados como é o caso das comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhos.

No ritmo que vai esse desmantelamento, não é nem um pouco exagerado apontar que o governo “de facto” de Michel Temer está deixando um legado desastrosa na parte ambiental, o qual poderá tornar o TsuLama da Samarco apenas um dos muitos incidentes ambientais deste período histórico. 

A condução de Alexandre de Moraes ao STF como símbolo mór do fim do governo de conciliação de classes

A inevitável aprovação do nome de Alexandre de Moraes (com direito a piscadela para o senador Edison Lobão no simulacro que sabatina que ocorreu ontem na Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal) representa mais do que a condução de mais um ministro ligado ao PSDB para o Supremo Tribunal Federal (STF).

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Para mim, Alexandre de Moraes do alto da sua incapacidade de proferir corretamente o plural de “cidadão” é uma prova cabal de que estamos assistindo um adeus claro à disposição da burguesia nacional de tolerar um governo de conciliação de classes como o que foi executado pelo ex-presidente Lula.  Espremida pela ampliação da crise sistêmica que abala o Capitalismo, a burguesia brasileira partiu para uma espécie de “tudo ou nada” para erradicar quaisquer insinuações de que podemos construir um sociedade menos absurdamente desigual. 

Assim, enquanto se entroniza Alexandre de Moraes, o que vemos é a privatização de empresas públicas, o esfacelamento das políticas de mitigação das desigualdades sociais, e a plena entrega do Brasil à sanha das corporações multinacionais, inclusive com a abertura do mercado de terras aos capitalistas estrangeiros. Isto sem falar no avanço do desmantelamento de quaisquer veleidades em termos de mutilar e regredir a nossa legislação ambiental, cujas repercussões já podem ser vistas no total de desmatamento que está avançando a passos largos na Amazônia brasileira.

Em outras palavras, a burguesia brasileira tirou todas as luvas e partiu para o ataque frontal contra a maioria pobre do nosso povo. A maior prova disso é que em enquetes eleitorais que estão sendo realizadas o proto fascista Jair Bolsonaro está conseguindo se elevar como candidato viável a partir das intenções declaradas dos mais ricos e educados.  Assim, o que parece evidente que a aposta dos ricos é pelo conflito aberto e sem mediações de mediadores do tipo representado por Lula.

No meio desse caldo regressivo assistimos ao próprio Lula atuar como bombeiro da luta de classes em prol de uma elusiva candidatura que ele pretende lançar para voltar à presidência da República em 2018.  Considero essa postura de Lula, do PT e dos movimentos sociais e sindicatos que estão atrelados ao messianismo lulista um completo desserviço aos pobres brasileiros e, em última instância, a qualquer possibilidade de que o Brasil não retorne aos piores momentos da ordem social vigente desde o Século XVI.  É que na eventualidade de vencerem a eleição de 2018, me parece mais do que evidente que não pretendem desfazer o que o presidente “de facto” Michel Temer está fazendo. Essa minha certeza decorre não apenas dos pedidos públicos de Lula para que se “supere” o debate do “golpe”, mas para que também se evitem posturas conflitivas. Além disso, tivemos comportamentos explícitos de colaboração nas eleições que ocorreram para as mesas da Câmara de Deputados e do Senado Federal, e também em múltiplas prefeituras controladas pelas forças que derrubaram Dilma Rousseff. 

Ora, quem não aposta no confronto necessário enquanto é oposição, vai se comportar como quando puder a voltar a ser governo?

Por ter esta avaliação é que indico que precisamos definitivamente ultrapassar a fase em que se debate se Lula e o PT merecem que percamos tempo com eles. Em vez disso,  considero que os que querem ruptura com a armadilha do governo de conciliação de classes precisam sair a campo para explicar didaticamente a gravidade do retrocesso que está em curso no Brasil, apontando ainda saídas pela esquerda para esse caldo de iniquidades que está sendo gestado pelas políticas ultraneoliberais da dupla Temer/Meirelles. E quanto mais cedo se fizer isto, melhor.

A prática plágio acadêmico alcançará o Nirvana? O péssimo exemplo e os riscos da candidatura de Alexandre de Moraes ao STF

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No dia 06 de Fevereiro abordei neste blog a nomeação do agora ex-ministro da Justiça Alexandre  de Moraes para ocupar a vaga deixada no Supremo Tribunal Federal (STF) pela morte de Teori Zavascki. Naquela postagem disse que as credenciais acadêmicas não eram o maior problema assombrando sua candidatura ao STF (Aqui!)

Pois bem, a partir das várias reportagens publicadas sobre possíveis plágios que Alexandre de Moraes cometeu em sua produção bibliográfica, sou obrigado a reconhecer que errei, e feio (Aqui!Aqui!, Aqui! e Aqui!).

Mas se plágio não fosse suficiente, as informações acadêmicas colocadas por Alexandre de Moraes em seu Curriculum Vitae (CV) trazem não apenas inconsistências, mas como também impossibilidades temporais  quanto à obtenção de títulos( Aqui!).

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As discrepâncias e plágios que pululam na vida acadêmica de Alexandre de Moraes são tão óbvias que a Rede de Pesquisa Empírica em Direito (REED), associação civil que reúne pesquisadores brasileiros que atuam na área do Direito, se viu obrigada a lançar uma nota à comunidade científica condenando o óbvio, qual seja, a realização de plágios na confecção de obras acadêmicas (Aqui!).

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Não é preciso dizer que se estivéssemos num país minimamente sério, a candidatura de Alexandre de Moraes já teria sido retirada de circulação por ele próprio. Aliás, se vivessemos na Coréia do Sul ou no Japão, é bem provável que as telas de TV já estivessem estampando um corpo estatelado ou pendurado de alguém que não quis prolongar o seu próprio vexame pessoal ou de sua família.

Mas aqui é Brasil e vivemos sob o governo “de facto” de Michel Temer, e Alexandre de Moraes continua firme e forte como candidato a uma vaga que uma queda de avião lhe colocou no colo. E, sinceramente, como professor de Metodologia de Pesquisa e como cidadão, o que realmente me preocupa em primeiro lugar são as consequências nefastas que teremos na produção científica brasileira a partir do péssimo exemplo que seria conduzir um jurista cercado de acusações, que ele nem se dá ao trabalho de negar, de ter plagiado o trabalho alheio. É que até o mais novato dos calouros sabe que se for pego plagiando o destino será sombrio, o que dirá de uma autoridade com formação acadêmica numa das melhores universidades brasileiras, a Universidade de São Paulo (USP)?

E o pior é que dada a expectativa de vida de Alexandre Moraes é possível que o tenhamos o ocupando uma vaga no STF por várias décadas, o que certamente levantará uma nuvem de dúvidas sobre a integridade ética das decisões que ele vier a produzir. Afinal, o que implede a quem plagia livros e adultera o seu próprio CV de passar ao largo de questões éticas no momento de proferir decisões? 

Por essas e outras é que a comunidade científica brasileira, a começar pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) e pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) precisam seguir o exemplo da REED e repudiar a prática do plágio acadêmico e, de preferência, dando nomes, no caso o de Alexandre de Moraes. Qualquer coisa fora disso será um ato de cumplicidade que somente contribuirá para comprometer a já debilitada saúde da democracia brasileira.

Michel Temer e Pezão vão colocar as Forças Armadas nas ruas para “ajudar na segurança” ou para viabilizar a privatização da CEDAE?

A mídia corporativa está informando que o presidente “de facto” Michel Temer acaba de autorizar, a pedido do (des) governador Luiz Fernando Pezão, o uso das forças armadas brasileiras para “garantir a segurança” no estado do Rio de Janeiro, inclusive na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Aqui!Aqui!, Aqui!Aqui!).

Cá entre nós, esse uso das forças armadas para garantir a segurança pública é uma bela desculpa para usar contingentes militares para sufocar pela força os inevitáveis protestos que irão ocorrer quando a base do (des) governo na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro tiver um mínimo de coesão para aprovar a privatização a lucrativa Companhia Estadual de Águas e Esgotos (CEDAE). Entretanto, essa é uma jogada que traz graves perigos não apenas para o Rio de Janeiro, mas para todo o Brasil.

Não custa lembrar que um dos episódios mais trágicos do início da chamada “Nova República se deu exatamente no estado do Rio de Janeiro em 1988, quando tropas do Exército foram enviadas pelo presidente José Sarney para reprimir uma greve que ocorria na então estatal Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e acabaram promovendo um verdadeiro massacre que ainda é lembrado de forma viva pelos habitantes da cidade de Volta Redonda  (Aqui!).

O risco que se corra com essa operação de uso de contingentes militares para garantir a privatização de uma empresa pública é justamente produzir um cadáver ou mais cadáveres que certamente faria eclodir uma grave convulsão social. É que está mais do que evidente que o (des) governador Luiz Fernando Pezão perdeu completamente a condição política de continuar à frente do executivo fluminese. E usar as Forças Armadas para garantir uma sobrevida momantânea ao seu (des) governo morimbundo trará inevitavelmente os riscos que estou apontando.

Mas como estamos diante de um (des) governo que se encontra numa encruzilhada encrencada, não me parece que devamos esperar qualquer grau de razoabilidade da parte dos seus componentes. Por outro lado, é possível que a repetição do uso de forças militares para resolver um problema que deveria ficar na esfera das decisões políticas possa apressar o final da agonizante Nova República, o que seria uma grande ironia histórica.

O atual ciclo histórico e seu papel na rasgação de todas as fantasias

Há quem olhe para o cenário político, econômico e social instalado neste momento no Brasil e caia num misto de descrença com estupor. E, convenhamos, não é para se culpar para quem se afoge neste estado emocional. Afinal, a carga de fatos e situações que nos obrigam a sair da crença de que o próximo dia será melhor.

Mas vamos e convenhamos, quem esperaria que Alexandre Moraes saísse de suas operações especiais como secretário de justiça do governo tucano de Geraldo Alckmin para o Supremo Tribunal Federal (STF) na vaga de um ministro que iria chancelar delações que pegam em cheio justamente tucanos de alta plumagem? É muita vida imitando a arte para  o cidadão comum e também para o não tão comum.

E a tal da reforma da previdência que está sendo gestada para tornar quase impossível que 90% dos trabalhadores possam usufruir de aposentadorias integrais. Isto sem falar na consequência prática de que muitos irão morrer antes de poderem pleitear seus vencimentos após décadas de contribuição porque a idade mínima que se pretende fixar é superior à idade média dos brasileiros nas regiões mais pobres do nosso país?

Ora, podem me chamar de um eterno otimista, mas essa sucessão de ações impetradas pelo governo “de facto” de Michel Temer e pelos seus satélites nos governos de estados como Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Paraná me dá a certeza que as elites brasileiras resolveram rasgar totalmente a fantasia de que o Brasil já chegou em algum tipo de Modernidade política, e o que impera mesmo é uma estrutura anacrônica que parece se recusar a sair do Século XIX.

Ao rasgar a fantasia de que justiça social se faz por meio do acesso ao consumo como quiseram parecer Lula e Dilma Rousseff, o que as elites fazem é nos dar a chance de refletir de forma apurada sobre a sociedade em que vivemos, o que nos dá uma oportunidade de ouro para decidir se queremos continuar a viver nesse estado de coisas.

Alguém mais preocupado com as regressões nos direitos que o governo “de facto” poderá fazer com um aliado altamente alinhado no STF, eu responderia que essa indicação de que podemos estar chegando num daqueles momentos dialéticos onde a quantidade (de ataques) nos fará passar por uma mudança na qualidade (da reação).

Então que se rasguem logo todas as fantasias.

Por que a indicação de Alexandre Moraes deveria ser considerada escandalosa e não está sendo?

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A indicação do ministro da justiça Alexandre Moraes (PSDB/SP) pelo presidente “de facto” Michel Temer para ocupar a vaga que a morte de Teori Zavascki criou no Supremo Tribunal Federal (STF) é um daqueles escândalos que deveria abalar a república brasileira, mas não irá.

E pelo que pude depreender das matérias quase adulatórias preparadas pela mídia corporativa sobre a indicação de Moraes para substituir Zavascki o escândalo não se dá por falta de credenciais acadêmicas ou de prática jurídica. É que nesses quesitos, Alexandre Moraes supera bem algumas das indicações medíocres que foram feitas pelos presidentes Lula e Dilma Rousseff, sendo que o caso do ministro José Antonio Dias Toffoli é o mais emblemático.

Parte do escândalo existente nessa indicação se dá pelo fato de que Alexandre Moraes ocupa neste momento um papel de destaque na sustentação jurídica de uma série de medidas que visam conter, nas palavras do senador Romero Jucá, a “sangria” criada pela operação Lava Jato.

Mas o verdadeiro escândalo é o silêncio que está sendo aplicado para que se esqueça que Alexandre Moraes será mais um ministro do STF que possui laços explícitos com o PSDB, partido este que, “coincidentemente, possui vários medalhões pendurados nas denúncias que estão para explodir a partir das 77 delações assinadas por ex-dirigentes da Odebrecht.

Tenho absoluta certeza que nas atuais circustâncias fosse ainda Dilma Rousseff presidente do Brasil e indicação seu ministro da Justiça para o STF, estaríamos todos a ouvir as panelas zunindo das áreas mais ricas e elitistas das grandes brasileiras. Mas como agora é um tucano que certamente irá para o STF cuidar dos interesses de tucanos já seriamente encrencados nas delações da Odebrecht, não há panela nem gritos contra supostas tentativas de emperras a operação Lava Jato e os paladinos curitibanos.  

E como sei disse? É que já me acostumei à moral altamente seletiva das elites brasileiras e daqueles setores que lhes oferecem massa para que as manobras contra a maioria dos brasileiros siga tendo negada uma sociedade mais justa e não tão segregada como que em que vivemos hoje.

Mas como essa maioria de pobres continua assistindo a tudo isso de maneira majoritariamente solitária, a impressão que muitos podem ter é que mais esta manobra de Michel Temer contra o senso comum vai passar batida. Eu me arriscaria a dizer que a possibilidade é de que esta seja apenas uma gota num imenso balde que está a ponto de transbordar. Os primeiros sinais disso estão vindo do Espírito Santo que hoje vive um cenário que beira a convulsão social, o qual poderá se espalhar pelo Brasil inteiro caso os planos de desmanche da legislação trabalhista e previdênciária se consumem.

Daí, se isto acontecer, não ter Alexandre Moraes e suas histrionices autoritárias (o caso da inverossímil política de erradicação da maconha na América do Sul é a primeira que me vem à cabeça) que salve o sistema político brasileiro. A ver!

Fuga de cérebros, outra consequência do receituário ultraneoliberal de Temer e Meirelles

A leitura do artigo do jornalista Herton Escobar para revista Science sobre a possibilidade de uma grande onda de fuga de cérebros que estaria sendo gestada pelo sucateamento de universidades e centros de pesquisa nacionais (Aqui!) deveria estar soando um forte alarme no Brasil. Entretanto, a não ser no próprio meio acadêmico, e ainda assim timidamente, outras coisas parecem estar tendo mais atenção, a começar pela revolta que está devorando vários presídios brasileiros.

Mas a questão desta potencial fuga de cérebros é sim algo grave, pois sinaliza para um espiral de descenso que atrasará por décadas a evolução da ciência brasileira, justamente num momento em que a ciência está sendo colocada como um dos elementos de diferenciação na acirrada competição econômica e financeira que está se construindo nos mercados mundiais. 

E quem pode condenar se uma geração inteira de jovens pesquisadores decidir abandonar o Brasil, dada a inexistência de qualquer garantia de que terão empregos após a aprovação da famigerada PEC do Tetos de Gastos que implicou num congelamento tácito na abertura de novas vagas para docentes?

E também é importante notar que diferente dos EUA onde o setor privado assimila quase 40% dos novos doutores (Aqui!), no Brasil são as universidades e centros de pesquisas públicos que assimilam a maioria deles. E mesmo quando uma empresa, normalmente uma multinacional, contrata um doutor, o destino dado é fora do território brasileiro.

Nesse cenário sombrio, posso compartilhar minha própria experiência pessoal. Tendo terminado o mestrado em 1990, justamente no ano de ascensão do governo neoliberal de Fernando Collor, fui recrutado para trabalhar no Oak Ridge National Laboratory num grupo de pesquisas que tinha como objeto as mudanças na cobertura vegetal na Amazônia brasileira. Após 1,5 ano fui aprovado para cursar o Doutorado na Virginia Polytechnic Institute and State University (Virginia Tech) onde tive a possibilidade de ter uma bolsa, a qual foi recusada em prol de uma bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Tivesse eu optado pelo financiamento oferecido pela Virginia Tech jamais teria retornado ao Brasil para trabalhar na Uenf onde estou desde 1998.

Olhando em retrospectiva, eu posso afirmar sem medo de errar que teria tido uma carreira científica mais sólida e estável se tivesse permanecido nos EUA. É que as habilidades científicas que foram fornecidas na minha graduação e mestrado na UFRJ somadas ao que aprendi no doutorado teriam me garantido emprego e financiamento. Entretanto, voltei para o Brasil para fazer algum tipo de diferença no desenvolvimento do nosso sistema científico, o que, apesar de todos os pesares, creio ter ocorrido.

Apesar de acreditar que tomei uma decisão correta ao voltar para o Brasil há quase 20 anos, e de não estar disposto a retomar o caminho do exílio, não posso obrigar que outros optem como eu por aguentar este momento de crise dentro de instituições que sequer possuem condições de pagar suas contas de serviços básicos como água e eletricidade.

Como não acredito em coincidências ou desatenções por parte dos formuladores das políticas ultraneoliberais que estão grassando de Brasília para todos os estados da federação, o corte de financiamento do sistema nacional de ciência é parte intrínseca da desconstrução do que construído a partir de meados do Século XX, principalmente a partir da criação da Universidade de São Paulo (USP) em 1934, fato que considero chave no   esforço descomunal que foi realizado para vencer o nosso atraso científico e tecnológico. 

Desta forma, não há como esperar sentado para que este vagalhão de medidas regressivas passe por cima de nós para depois juntar os cacos que eventualmente sobrarem. A comunidade cientifica brasileira tem a obrigação de reagir a esse processo de desmanche e impedir que sejamos atropelados por uma massiva fuga de cérebros. É que os riscos são altos demais para ficarmos apenas contemplando o caos que virá se nada for feito.

Mãos à obra contra Michel Temer, Gilberto Kassab, Henrique Meirelles, Luiz Fernando Pezão, Geraldo Alckmin, José Ivo Sartori,  Beto Richa, e todos os outros executores deste projeto de destruição da ciência brasileira.

Ciência sob ataque no Brasil da pós-verdade de Temer e Kassab

FRENTE / PREFEITOS

Dois elementos sobre profundo ataque no mundo da “pós verdade” são a ciência e a Natureza. Essa condição é peculiar de um tipo de resposta que as grandes corporações e seus vassalos dentro de governos nacionais vêm tratando um novo ciclo de crise profunda no sistema capitalista. Não é que não existam outros elementos de regressão, mas me parece haver um ódio especial contra a ciência.

E evidências de que o ódio vem sendo transformado em política de (des) governo aparecem em vários planos. Um exemplo disso é a verdadeira tunga que foi promovida nos orçamentos das fundações estaduais de amparo à pesquisa pelo Brasil afora, incluindo a joia da coroa que é Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). No caso específico da Fapesp, o jornalista Maurício Tuffani mostra hoje no seu “Direto da Ciência” que o corte orçamentário promovido pela Assembleia Legislativa de São Paulo e aplicada sem cerimônia alguma por Geraldo Alckmin foi totalmente inconstitucional (Aqui!).  E, pior, totalmente improducente, já que ataque diretamente a capacidade de produção científica do estado de São Paulo, jogando assim contra os interesses públicos e privados.

Mas São Paulo ainda está razoavelmente bem servido em termos de financiamento, já que outros estados igualmente importantes como Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Rio Grande do Sul praticamente seus investimentos em desenvolvimento científico e tecnológico, sob a desculpa rala de que atravessam graves crises financeiras. Entretanto, nesses estados ainda há dinheiro de sobra para entregar às corporações privadas sob a forma de isenções fiscais.

Entretanto, eu diria que o corte orçamentário é apenas a faceta de algo mais complexo que é a tentativa de desqualificar a importância da ciência no processo de desenvolvimento nacional. Daí é que não são raras as manifestações de que se gasta e vê pouco retorno em ciência no Brasil, quando, na verdade, já vivíamos um período de seca orçamentária mesmo antes do golpe light que levou Michel Temer à condição de presidente “de facto“.  Um exemplo maior desta desqualificação foi a dissolução do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e sua substituição pelo esdrúxulo Ministério da Ciência Tecnologia Inovação e Comunicações (MCTIC) que foi colocado sob o comando de Gilberto Kassab, o que já diz muito sobre o lugar que a ciência tem nas prioridades de Michel Temer.

Apenas para comparar a situação incoerente em que a ciência brasileira está sendo colocado, repito o exemplo já dado anteriormente neste blog sobre o forte investimento que está sendo realizado pela China no seu Ministério da Ciência que recebeu um acréscimo orçamentário notável como forma de incentivar a produção científica voltada para, entre outras coisas, o desenvolvimento de tecnologias de ponta  (Aqui!).  Enquanto isso no Brasil, estamos sob o risco de ver extintos grupos de pesquisa e até de universidades muito bem ranqueadas em nível internacional, como são os casos da Uenf e da Uerj que estão sendo literalmente destroçadas pelas mãos do (des) governador Luiz Fernando Pezão e do seu inepto (des) secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação, Gustavo Tutuca.

O incrível é que este ataque à nossa capacidade  de ampliar o desenvolvimento científico nacional está apenas agora sendo objeto de algum tipo de resposta mais organizada por parte das principais sociedades científicas. E apesar deste atraso é fundamental que se saia da defensiva e se organize uma política de defesa da ciência nacional. Afinal, não há futuro algum para um país que se contente em ser exportador de commodities agrícolas e minerais ou, como a China já decidiu que não será, um mero exportador de manufaturas.

E para mim, a coisa é muito simples: ou defendemos a ciência nacional ou seremos eternamente um país atolado no atraso e na desigualdade abissal entre ricos e pobres.

A delação do marqueteiro pode explicar pressa do (des) governo Pezão

O jornalista Lauro Jardim traz hoje a informação de que o marqueteiro Renato Pereira, responsável pelas campanhas eleitorias de Sérgio Cabral, Eduardo Paes, e Luiz Fernando Pezão está em processo de negociação de sua delação premiada com a chamada Operação Lava Jato (Aqui!).

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Essa informação pode explicar toda a pressa com que o (des) governador Luiz Fernando Pezão vinha tratando o fechamento de um acordo de arrocho fiscal com o presidente “de facto” Michel Temer e seu ministro/banqueiro Henrique Meirelles.

É que se essa delação realmente ocorrer é bem provável que os dias do (des) governador Pezão no Palácio Guanbara estarão irremediavelmente contados. É que segundo o site “Btasil 247”, Renato Pereira iria entregar o número da conta usada pelo (des) governador Pezão no exterior (Aqui!).

De qualquer maneira, o simples vazamento desse suposto acordo já criará dificuldades para Luiz Fernando Pezão na Assmbleia Legislativa do Rio de Janeiro, na medida em que os deputados de sua própria base poderão adotar a posição pragmática de cortar laços políticos para minimizar as eventuais consequências dessa delação.

Agora, com a divulgação desta nota de Lauro Jardim, é provável que a pressa seja ainda maior. É que se não conseguir impor o arrocho nos servidores e a privatização da CEDAE, a utilidade do (des) governo Pezão será mínima. Dai que…..