Fuga de cérebros, outra consequência do receituário ultraneoliberal de Temer e Meirelles

A leitura do artigo do jornalista Herton Escobar para revista Science sobre a possibilidade de uma grande onda de fuga de cérebros que estaria sendo gestada pelo sucateamento de universidades e centros de pesquisa nacionais (Aqui!) deveria estar soando um forte alarme no Brasil. Entretanto, a não ser no próprio meio acadêmico, e ainda assim timidamente, outras coisas parecem estar tendo mais atenção, a começar pela revolta que está devorando vários presídios brasileiros.

Mas a questão desta potencial fuga de cérebros é sim algo grave, pois sinaliza para um espiral de descenso que atrasará por décadas a evolução da ciência brasileira, justamente num momento em que a ciência está sendo colocada como um dos elementos de diferenciação na acirrada competição econômica e financeira que está se construindo nos mercados mundiais. 

E quem pode condenar se uma geração inteira de jovens pesquisadores decidir abandonar o Brasil, dada a inexistência de qualquer garantia de que terão empregos após a aprovação da famigerada PEC do Tetos de Gastos que implicou num congelamento tácito na abertura de novas vagas para docentes?

E também é importante notar que diferente dos EUA onde o setor privado assimila quase 40% dos novos doutores (Aqui!), no Brasil são as universidades e centros de pesquisas públicos que assimilam a maioria deles. E mesmo quando uma empresa, normalmente uma multinacional, contrata um doutor, o destino dado é fora do território brasileiro.

Nesse cenário sombrio, posso compartilhar minha própria experiência pessoal. Tendo terminado o mestrado em 1990, justamente no ano de ascensão do governo neoliberal de Fernando Collor, fui recrutado para trabalhar no Oak Ridge National Laboratory num grupo de pesquisas que tinha como objeto as mudanças na cobertura vegetal na Amazônia brasileira. Após 1,5 ano fui aprovado para cursar o Doutorado na Virginia Polytechnic Institute and State University (Virginia Tech) onde tive a possibilidade de ter uma bolsa, a qual foi recusada em prol de uma bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Tivesse eu optado pelo financiamento oferecido pela Virginia Tech jamais teria retornado ao Brasil para trabalhar na Uenf onde estou desde 1998.

Olhando em retrospectiva, eu posso afirmar sem medo de errar que teria tido uma carreira científica mais sólida e estável se tivesse permanecido nos EUA. É que as habilidades científicas que foram fornecidas na minha graduação e mestrado na UFRJ somadas ao que aprendi no doutorado teriam me garantido emprego e financiamento. Entretanto, voltei para o Brasil para fazer algum tipo de diferença no desenvolvimento do nosso sistema científico, o que, apesar de todos os pesares, creio ter ocorrido.

Apesar de acreditar que tomei uma decisão correta ao voltar para o Brasil há quase 20 anos, e de não estar disposto a retomar o caminho do exílio, não posso obrigar que outros optem como eu por aguentar este momento de crise dentro de instituições que sequer possuem condições de pagar suas contas de serviços básicos como água e eletricidade.

Como não acredito em coincidências ou desatenções por parte dos formuladores das políticas ultraneoliberais que estão grassando de Brasília para todos os estados da federação, o corte de financiamento do sistema nacional de ciência é parte intrínseca da desconstrução do que construído a partir de meados do Século XX, principalmente a partir da criação da Universidade de São Paulo (USP) em 1934, fato que considero chave no   esforço descomunal que foi realizado para vencer o nosso atraso científico e tecnológico. 

Desta forma, não há como esperar sentado para que este vagalhão de medidas regressivas passe por cima de nós para depois juntar os cacos que eventualmente sobrarem. A comunidade cientifica brasileira tem a obrigação de reagir a esse processo de desmanche e impedir que sejamos atropelados por uma massiva fuga de cérebros. É que os riscos são altos demais para ficarmos apenas contemplando o caos que virá se nada for feito.

Mãos à obra contra Michel Temer, Gilberto Kassab, Henrique Meirelles, Luiz Fernando Pezão, Geraldo Alckmin, José Ivo Sartori,  Beto Richa, e todos os outros executores deste projeto de destruição da ciência brasileira.

Um pensamento sobre “Fuga de cérebros, outra consequência do receituário ultraneoliberal de Temer e Meirelles

  1. […] da revista Science. A leitura do texto é imperdível, e vale a pena complementá-la com a do post “Fuga de cérebros, outra consequência do receituário ultraneoliberal de Temer e Meirelles&#…, do geógrafo Marcos Pedlowski, em seu […]

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