Amazônia em alerta: Como as mudanças climáticas e as enchentes ameaçam a vida na floresta

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A Amazônia brasileira tem enfrentado cada vez mais as consequências das mudanças climáticas, como enchentes e secas prolongadas, que têm impactos diretos na população e no meio ambiente. Em uma entrevista exclusiva à REPAM-Brasil, o professor Alexandre Costa, doutor em Ciências Atmosféricas e pesquisador há mais de 20 anos das questões climáticas, destacou a relação entre o aquecimento global e as alterações no sistema climático.

“A atmosfera aquece devido a uma relação física bastante simples que existe entre temperatura e pressão de vapor de saturação do vapor d´água, ou seja, a quantidade de vapor d’água que existe no planeta. Quando o planeta aquece, a atmosfera se torna capaz de armazenar mais vapor d´água, e aí a gente passa a ter um binômio de eventos extremos associados com essa mudança de comportamento”, explica o professor.

Essa relação tem gerado secas mais intensas e duradouras em algumas regiões, enquanto outras sofrem com chuvas muito intensas e concentradas, além de tempestades severas. “Esse binômio de eventos extremos, de seca de um lado e do outro chuvas muito intensas, tempestades severas, esses fenômenos vão se intensificando com uma causa comum, que é justamente o aquecimento global e o consequente aumento da quantidade de vapor d´água”, alerta Costa.

A situação na Amazônia é ainda mais preocupante, já que a região abriga um dos principais biomas do planeta e é responsável por serviços ecossistêmicos fundamentais para a vida humana. A preservação da floresta amazônica é crucial para a manutenção de estoques de carbono e de biodiversidade, além de ser uma fonte de água e uma das principais responsáveis pela reciclagem do ciclo hidrológico no Brasil.

Para o professor, é fundamental dar voz aos povos da floresta, que são como guardiões e têm atuado para a sua preservação. “As terras indígenas são as mais bem preservadas, porque elas atuam, de fato, como guardiões das florestas. Esse é um aspecto fundamental”, ressalta.

Além disso, é preciso conscientizar a opinião pública sobre a importância da preservação da Amazônia e do cuidado com os povos que tradicionalmente cuidam do bioma. “Mostrar como a manutenção da floresta de pé é crucial para inúmeras questões, como a segurança energética, a manutenção dos reservatórios de hidroeletricidade, é fundamental”, destaca Costa.

Diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas na Amazônia, é necessário um esforço conjunto de governos, empresas, organizações e sociedade civil para buscar soluções sustentáveis e preservar um dos mais importantes ecossistemas do planeta.

Para Alexandre Costa, não há dúvida de que o Papa Francisco é um aliado importante para o cuidado da Casa Comum. Como defensor da ecologia, o pontífice promoveu o Sínodo para a Amazônia e enfatiza a necessidade de jogar o aspecto ecológico sob a perspectiva dos fatos reais, a fim de encontrar soluções justas e inclusivas para a crise ecológica. 

Segundo Alexandre Costa é crucial que os protagonistas das principais lutas – como os povos originários, indígenas e comunidades tradicionais, e a juventude – reconheçam o papel relevante que o Papa Francisco desempenha e o tratem como aliado nessa busca pelo cuidado da Casa Comum.

Eventos climáticos

As mudanças climáticas têm afetado a Amazônia de diversas formas, e uma das mais preocupantes é o aumento das enchentes na região. Nos últimos dias, diversos municípios da Amazônia Legal foram afetados pelas fortes chuvas e enchentes, causando prejuízos materiais e colocando em risco a vida de milhares de pessoas. Os estados do Acre, Maranhão, Tocantins, Mato Grosso, Amazonas, Pará e Rondônia estão entre os mais afetados pela cheia dos rios.

De acordo com dados divulgados pelo portal Metrópoles, cerca de 1.500 municípios brasileiros estão em situação de emergência devido às chuvas e enchentes. A situação é especialmente grave na região norte do país, onde a população tem sofrido com deslizamentos de terra, desabamentos de casas e interrupção de serviços básicos, como água e energia elétrica.

O estado do Acre é um dos mais afetados pela cheia dos rios, com mais de 32 mil pessoas afetadas pelas enchentes, de acordo com informações divulgadas pelo G1. Na capital, Rio Branco, diversas áreas foram alagadas, e a população tem enfrentado dificuldades para se locomover e acessar serviços de saúde e educação.

A situação é ainda mais preocupante para as populações que vivem na floresta, que dependem dos recursos naturais da região para sobreviver. A REPAM-Brasil divulgou uma nota em solidariedade às famílias afetadas pelas enchentes, destacando a importância de se garantir o direito à vida e à dignidade das populações amazônicas. Confira [Aqui!]. 

De fato, a Amazônia está em alerta. As mudanças climáticas têm sido um dos principais desafios enfrentados pelos povos que habitam a floresta e, agora, as enchentes intensificam ainda mais a preocupação com a segurança das comunidades locais e do meio ambiente. 

A solidariedade e a ação são urgentes nesse momento de crise, e é fundamental que o poder público, a sociedade civil e as organizações internacionais se unam em prol do auxílio às famílias atingidas e da prevenção de futuros desastres. É preciso reconhecer a importância da Amazônia e sua biodiversidade, bem como a necessidade de preservá-la para as futuras gerações. A Amazônia é uma riqueza do Brasil e do mundo, e é nosso dever protegê-la e cuidar dela com responsabilidade e comprometimento.

Manguezais do Sudeste brasileiro são mais vulneráveis às mudanças climáticas

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Áreas de mangue no Sudeste e Sul estão mais vulneráveis às consequências das mudanças climáticas em comparação a manguezais de outras regiões do Brasil. É o que indica estudo publicado nesta quarta (29) em capítulo de livro da editora científica “Springer Nature” por pesquisadores do Instituto Tecnológico Vale (ITV), da Universidade Federal do Pará (UFPA), da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade de São Paulo (USP). Segundo o trabalho, as características geomorfológicas dos ecossistemas de mangue do Brasil influenciam na sua capacidade de adaptação ao aumento do nível do mar.

“A ideia do trabalho era entender como os mangues se comportam frente a essa tendência e quais serão as diferentes reações em cada setor da costa brasileira, que são bem distintos um dos outros”, comenta Pedro Walfir Souza Filho, geólogo, professor da UFPA e do ITV e autor principal do trabalho. Para tal, a pesquisa usou características geológicas, geomorfológicas, oceanográficas e climáticas e identificou quatro grandes setores costeiros em quais vegetação de mangue ocorrem no Brasil: Norte, Nordeste, Leste e Sudeste. O trabalho constatou que o nível de vulnerabilidade à subida do mar é maior nos ecossistemas do setor Sudeste.

“O principal fator que controla essa vulnerabilidade é a morfologia costeira”, explica Souza Filho. Na região Norte, cujas áreas de costa são formadas por extensas planícies, os manguezais podem se expandir e colonizar novos habitats rio acima, em direção ao continente a partir do aumento do nível do mar e, consequentemente, da salinidade do solo. Já no Sudeste, cujo litoral tem proximidade com regiões de até mil metros de altitude, com destaque para as Serras do Mar e da Mantiqueira, há menos perspectiva para expansão do ecossistema. O pesquisador menciona rodovias, estradas e barragens construídas por ação humana como outros fatores capazes de ameaçar a sobrevivência dos mangues à medida que o nível do mar sobe.

Além da geomorfologia costeira, Souza Filho também destaca a variação da maré como outro fator que influencia na capacidade de adaptação dos mangues. “A maré na região Norte chega a variar até seis metros, o que gera extensas planícies alagáveis propícias para o desenvolvimento de mangues, cujas franjas litorâneas chegam a ter 30 quilômetros de largura”, relata o pesquisador. Em comparação, as marés na região Sudeste variam alguns centímetros apenas, o que também limita a capacidade de ocupação de habitat, e qualquer variação no nível do mar coloca em risco a sobrevivência futura dos manguezais.

Segundo o pesquisador, já é possível notar como os manguezais estão respondendo às mudanças climáticas e como isso está afetando as pessoas que dependem do ecossistema para o sustento. Por exemplo, consequências do aumento do nível do mar ou de ações humanas, como assoreamento de rios, salinização de estuários ou soterramento de manguezais afetam a disponibilidade de várias espécies que servem de sustento às comunidades próximas. “Do mangue, os locais tiram o caranguejo e a ostra, por exemplo”, diz Souza Filho.

A pesquisa, no entanto, alerta que a variabilidade biogeográfica dos manguezais e condições ambientais ao longo da costa brasileira fazem com que prever com exatidão o efeito da elevação do nível do mar nos mangues ainda seja um desafio. “Se depender apenas do nível do mar, estamos falando de alterações progressivas, que não são um alarme para a próxima década, mas sim de uma escala de tempo histórica de dezenas de anos à geológica de centenas a milhares de anos para frente”, afirma o autor.  Por isso, o trabalho indica que mais pesquisas são necessárias para distinguir fatores multidimensionais que podem afetar os manguezais.


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Greenpeace Brasil se manifesta sobre fortes chuvas que atingiram seis estados do Norte e Nordeste

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Sobre as fortes chuvas que atingiram seis Estados da região norte e nordeste do país no último final de semana, Rodrigo Jesus, porta-voz de Clima e Justiça do Greenpeace Brasil, afirma:

“Não podemos simplesmente isolar os impactos das fortes chuvas que têm acontecido neste final de semana nos Estados do Acre, Amazonas, Pará, Rondônia, Tocantins e Maranhão com os que aconteceram em outras cidades brasileiras ao longo dos últimos meses. Estamos vivenciando um aumento de eventos extremos em nosso país! É urgente que o poder público enfrente a discussão de adaptação e prevenção a catástrofes com muita seriedade. Não podemos agir somente nas ações de resposta, o problema é estrutural e a saída está em acabar com as desigualdades sociais que produzem vulnerabilidades. De acordo com o sistema S2iD de informações a desastres do Governo Federal, foram registradas mais de 3.427 mortes de dezembro de 2022 a março de 2023 devido a desastres de enchentes, inundações e deslizamentos. Basta de tragédias quando as chuvas chegam!”

O Greenpeace Brasil lançou um abaixo-assinado cobrando do Governo Federal a revisão e implementação do Plano Nacional de Adaptação (PNA), junto com o Plano Nacional de Gestão de Riscos e Resposta a Desastres. Implementado em 2016 pelo Ministério do Meio Ambiente, o PNA tem como objetivo criar metas e estratégias governamentais para a gestão e redução de riscos que crescem devido à crise climática:

“É necessária a revisão do PNA para que se implementem ações em áreas de riscos que já foram mapeadas no Brasil em diversas regiões. São essas pessoas que foram atingidas direta ou indiretamente, que estão fora de suas casas, que perderam seus bens materiais e seus familiares que precisam participar do processo de elaboração, execução, monitoramento e avaliação do plano de adaptação, de forma a atualizar as metas e estratégias previstas a partir dos conhecimentos locais. Com isso, esperamos que cenas trágicas como a deste final de semana não se repitam ”, finaliza Rodrigo.

Saiba mais sobre o abaixo-assinado aqui.

Mudança climática mata “15 vezes mais” os mais vulneráveis

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Os países mais pobres e vulneráveis, como o Haiti nesta foto, são os mais afetados pelo aquecimento global. Crédito da imagem: Jethro J. Sérémé/Comitê Internacional da Cruz Vermelha , sob licença Creative Commons (CC BY-NC-ND 2.0)

É o relatório mais abrangente publicado até hoje sobre os impactos do aquecimento global em nosso planeta.

“Muestra que los impactos climáticos están socavando nuestros medios de subsistencia, están dañando la economía mundial y amenazan nuestro sistema de soporte vital: la propia naturaleza”, declaró el presidente del IPCC, Hoesung Lee durante la conferencia de prensa de presentación en Suiza (20 de março).

“O risco de perda da biodiversidade nos sistemas naturais e humanos pode variar, dependendo do aumento da temperatura, passando despercebido ou, ao contrário, afetando até 40% das espécies, principalmente na América Central e no Caribe”.

Matilde Rusticucci, Pesquisadora Sênior do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas, Argentina

O Relatório revela que como consequência das alterações climáticas já se verificam secas mais frequentes e intensas, ameaças aalimentos e água, doenças e perda de vidas , com pandemias e conflitos que dificultam a sua gestão.

Quase metade da população mundial vive em regiões vulneráveis ​​às mudanças climáticas, de acordo com o resumo de 36 páginas para formuladores de políticas. Ele lembra que as mortes por enchentes, secas e temporais aumentaram 15 vezes nessas regiões na última década.

Mas, assim como cada aumento no aquecimento causa uma rápida escalada de perigos, Lee também observou que “várias opções viáveis ​​e eficazes já estão disponíveis” para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e se adaptar às mudanças climáticas. “A questão é se podemos implementá-los de forma rápida e eficaz”, enfatizou.

Acelerar a Agenda

O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, propôs acelerar a agenda “em direção a um Pacto de Solidariedade Climática em que grandes emissores reduzam ainda mais suas emissões e apoiem as economias emergentes a fazerem o mesmo”.

“O limite de 1,5 graus é alcançável”, declarou ele na coletiva de imprensa. Ele acrescentou: “Mas será necessário um salto quântico na ação climática”.

Para manter o aquecimento global em 1,5 grau Celsius acima dos níveis pré-industriais, o relatório diz que são necessários cortes profundos, rápidos e sustentados nas emissões de gases de efeito estufa em todos os setores, deixando claro que o ritmo e a escala das taxas de câmbio atuais não são suficientes.

O objetivo é reduzir as emissões quase pela metade até 2030 se o aquecimento for limitado a 1,5 grau, conforme recomendado pelo IPCC.

“Os governos não têm desculpas para ignorar o forte alerta para esta década crítica”, disse Harjeet Singh, chefe de estratégia de política global da Climate Action Network International , uma rede de mais de 1.900 organizações da sociedade civil em mais de 130 países.

“Eles devem agir rapidamente para rejeitar os combustíveis fósseis e impedir qualquer expansão de petróleo, gás e carvão”, acrescentou.

No entanto, o anúncio ocorre apenas sete dias depois que os Estados Unidos aprovaram a perfuração no campo de petróleo Willow Project , no norte do Alasca, apelidado de “bomba de carbono” por ativistas que dizem que vai bombear o equivalente ao CO2 emitido por 66 usinas de carvão.

Singh acrescentou que o relatório – que inclui contribuições de mais de 700 cientistas de todo o mundo – não é sem soluções ou esperança, mas o aumento do financiamento seria crucial .

“Os governos devem redobrar seus esforços para proteger as comunidades dos efeitos climáticos cada vez mais adversos e irreversíveis, como o aumento do nível do mar e o derretimento das geleiras , que representam uma ameaça existencial para muitas comunidades”, afirmou.

“As pessoas vão passar fome”

Aditi Mukherji, um dos 93 autores do relatório, disse que a ênfase na implementação de soluções diferencia este documento dos anteriores.

“Embora a mudança climática tenha reduzido a segurança alimentar, o AR6 mostra que existem várias opções de adaptação que podem ser eficazes na redução de seus efeitos, como o uso de culturas mais resistentes ao clima, melhor gerenciamento e armazenamento de água”, apontou.

Mukherji apontou que os pequenos agricultores são os mais afetados pelas mudanças climáticas, mas recebem menos de dois por cento do financiamento climático.

“Se não aumentarmos o financiamento climático para os sistemas alimentares, mais pessoas passarão fome”, alertou.

Chamada de atenção

O embaixador de Samoa na ONU, Fatumanava-o-Upolu III Pa’olelei Luteru, presidente da Aliança dos Pequenos Estados Insulares (AOSIS), disse que as conclusões devem ser um alerta para a comunidade internacional.

Ele afirmou que os ilhéus do Pacífico e do Caribe estão sendo deslocados de suas casas enquanto a indústria de combustíveis fósseis colhe bilhões de dólares em lucros.

Matilde Rusticucci, pesquisadora principal do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (CONICET), da Argentina, destaca que o relatório mostra quais serão os impactos na região conforme a temperatura média global aumente um grau e meio ou dois graus .

“Por exemplo, o risco de perda de biodiversidade em sistemas naturais e humanos pode variar, dependendo do aumento da temperatura, passando despercebido ou, pelo contrário, afetando até 40% das espécies, principalmente na América Central e no Caribe”, ele explica.

Outro impacto muito significativo que Rusticucci destaca no relatório é o impacto na saúde humana . “Dependendo da região, com um aumento de 2°C, a população estará em risco devido ao aumento da temperatura e umidade, entre 100 e 300 dias por ano. É assim que a diminuição do rendimento do milho , ou a diminuição da pesca, será mais afetada, principalmente na zona do Caribe, América Central e costa norte da América do Sul, quando a temperatura ultrapassar os dois graus”, destaca O especialista.

Este artigo foi produzido pela  SciDev.Net Global Edition, com reportagens adicionais da América Latina e Caribe .


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Este texto escrito originalmente em Espanhol foi publicado pela SciDev [Aqui!]

ONU divulga relatório sobre mudanças climáticas. Brasil está exposto a vários riscos climáticos e poderá ter muitas perdas financeiras

Mudanças climaticas e seus riscos

São Paulo, 17 de março de 2023 – Na próxima segunda-feira (20), o Painel da ONU sobre Mudança do Clima (IPCC) vai lançar o sexto relatório de síntese, que avalia a base científica da mudança do clima, seus impactos e riscos, e opções para adaptação e mitigação e também trará subsídios para o Balanço Global (Global Stocktake) de 2023, componente do Acordo de Paris em que os países avaliam o progresso para alcançar as metas do acordo.

Para Guarany Osório, coordenador do Programa Política e Economia Ambiental do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGVces), o clima do planeta já aumentou 1.2 °C Celsius e não estamos em uma trajetória para manter o aquecimento global abaixo dos níveis considerados como mais seguros pela ciência.

“O Brasil está exposto a vários riscos climáticos e sofrendo seus impactos tal como o ocorrido em São Sebastião. Se não estivermos preparados para adaptação à mudança do clima, o país continuará negligenciando o risco de novas tragédias, impactos que afetam especialmente as mais vulneráveis e grandes perdas econômicas futuras. Aspirações políticas e metas climáticas são importantes e só se sustentam com arranjos e instrumentos de implementação bem desenhados, cronogramas, fontes de financiamento, mecanismos de monitoramento e cumprimento robustos”, explica Osório.

Guarany Osório

Doutor em Administração Pública e Governo pela FGV EAESP. Mestre em Direito, na área de Ciências Jurídico-Ambientais, pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Coordenador do Programa Política e Economia Ambiental do Centro de Estudos em Sustentabilidade (FGVces) da FGV EAESP. Professor do Mestrado Profissional em Gestão para Competitividade. Coordenou estudos e projetos em parceria, por exemplo, com Banco Mundial, empresas, Embaixada Britânica, ONGs, governos subnacionais, ministérios e órgãos do Governo Federal com o objetivo geral de apoiar o processo de desenvolvimento de políticas e estratégias de mitigação e de adaptação à mudança do clima.

Cientistas mapeiam ponto em que ecossistemas serão afetados de forma irreversível por mudanças climáticas

geloFOTO: MELISSA BRADLEY / UNSPLASH

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Ecossistemas importantes à vida na Terra, como as camadas de gelo, recifes de corais ou a floresta amazônica podem atingir pontos de ruptura nas próximas décadas, com alterações irreversíveis e catastróficas caso as mudanças climáticas não sejam atenuadas nos próximos anos. É o que observam doze pesquisadores do Brasil, Canadá, China, Estados Unidos e Reino Unido que mapearam as evidências científicas atuais acerca de pontos de não retorno para dez elementos, descrevendo mecanismos, riscos humanos e ecossistêmicos. Ao atingir o ponto de ruptura, tais elementos passam por mudanças drásticas em relação ao seu estado original, que podem iniciar um efeito cascata sobre outros sistemas terrestres, como aponta o estudo publicado na revista internacional “Reviews of Geophysics”.

O artigo de revisão considerou dez elementos com risco de ruptura, incluindo mudanças em correntes oceânicas, liberação de metano do assoalho marinho, perda de grandes camadas de gelo, liberação de carbono de camadas congeladas do solo, mudanças na floresta boreal, alterações em ventos de monções, dispersão de nuvens estrato cumulus, perda do gelo do Ártico no verão, transformações na floresta amazônica e o branqueamento de corais de águas rasas. Tais aspectos permitem prever riscos atuais e futuros, direcionando as ações da sociedade para o combate às alterações climáticas.

“Sobre a perda do recife de coral das águas rasas tropicais, por exemplo, temos nível de entendimento científico muito alto, com uma condição muito boa de prevê-los. Este limiar mostra que se a temperatura aumentar mais que 1.5ºC, os impactos serão dramáticos e severos em uma escala de décadas”, exemplifica Liana Anderson, coautora e pesquisadora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

A Amazônia também enfrentará mudanças severas em décadas caso não haja mitigação das mudanças climáticas. Ameaçada pelo estresse climático e pela ação humana, secas extremas, desmatamento, corte seletivo e queimadas levariam à falta da umidade necessária para sua manutenção, em um ciclo de menos chuvas e maior mortalidade de espécies. “A floresta teria esse ponto de não retorno, em que fica pequena o suficiente para não conseguir sustentar sua umidade e vai se transformando em outro tipo de floresta, tendo uma degradação climática, porque não consegue se manter, e não haveria uma forma de voltar ao estado original, ao menos na escala de séculos”, afirma Liana.

Por sua vez, a degradação da floresta amazônica influencia os padrões climáticos ao redor do mundo, mas Liana Anderson acrescenta que ainda há um baixo conhecimento científico sobre o efeito cascata provocado pelas conexões entre estes processos. Porém, sabe-se que seus impactos podem ser duradouros, perdurando por séculos ou milênios, e que ainda é possível minimizar o risco da ruptura, como através de atitudes e políticas públicas para reduzir tanto a pressão por degradação que impactam localmente e na escala regional a floresta quanto as emissões de combustíveis fósseis, que atuam em extremos climáticos e colocam ainda mais pressão nesse ecossistema.

“Essas mudanças podem passar de um determinado limiar em que não vão voltar, e isso vai impactar de modos sem precedentes talvez a nossa geração, mas seguramente  a de nossos filhos e netos. Então é uma responsabilidade muito grande que a gente precisa incorporar como sociedade e como prática diária, de repensar nossas ações, nossas decisões, e isso inclui em quem vamos votar, porque são os representantes políticos em última instância que realmente movimentam e direcionam em grande escala as decisões nacionais”, conclui a especialista.


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Este foi originalmente publicado pela Agência Bori  [Aqui!].

Gelo do mar antártico atinge mínimo recorde

Desde 2016, o gelo marinho da Antártica vem recuando durante os meses de verão. As razões para isso ainda não estão claras

gelo marO navio de pesquisa »Polarstern« em janeiro de 2023 no Mar de Bellingshausen sem gelo. Foto: dpa

Por Ingrid Wenzl para o Neues Deutschland

Já se passaram 125 anos desde que o navio de pesquisa belga “Belgica” congelou no início do inverno antártico, em 3 de março de 1898, ao sul do 71º grau de latitude. Por um ano inteiro, o navio e sua tripulação flutuaram involuntariamente no gelo do mar de Bellinghausen. Hoje o cenário é diferente: quando o navio de pesquisa alemão “Polarstern” passou pelo mesmo local em fevereiro deste ano, os cientistas encontraram grandes partes da água completamente livres de gelo. Isso vale sobretudo para a plataforma continental, a parte do mar acima da plataforma continental, com uma área do tamanho da Alemanha.

Em geral, a cobertura de gelo marinho na Antártida em fevereiro é a mais baixa desde que as gravações de satélite começaram há 44 anos. De acordo com dados do portal de gelo marinho, um projeto conjunto do Alfred Wegener Institute Helmholtz Center for Polar and Marine Research (AWI) e da Universidade de Bremen, em 21 de fevereiro era de 2,01 milhões de quilômetros quadrados, um décimo abaixo do recorde anterior de baixa do ano anterior. Desde 2016, a extensão do gelo marinho no verão antártico diminuiu cerca de um terço. “Essa rápida diminuição é muito surpreendente, porque a cobertura de gelo quase não mudou nos 35 anos anteriores”, comenta o pesquisador de gelo do AWI, Christian Haas, sobre a observação. Ainda não está claro se o gelo marinho do verão está prestes a desaparecer completamente ou se um novo equilíbrio estável se estabilizará em menor extensão.

O gelo do mar antártico está sujeito a grandes flutuações sazonais. Nos meses de setembro e outubro atinge sua espessura máxima e se espalha com uma área total de cerca de 18 milhões de quilômetros quadrados. Ele registra seu mínimo em fevereiro de cada ano. Em alguns lugares até desaparece completamente no verão, embora não em áreas tão grandes como este ano. Independentemente da tendência atual do verão, a cobertura de gelo marinho no inverno ainda está aumentando um pouco.

Existem grandes diferenças regionais, particularmente entre a Antártida Ocidental e Oriental. “Resta muito pouco gelo na Antártica Oriental no verão”, relata Haas. Suas costas estão mais ao norte e, portanto, mais próximas da Corrente Circumpolar , que carrega consigo massas de água mais quentes. “O gelo está sendo afastado da costa muito rapidamente pela corrente, então não pode ficar muito espesso mesmo no inverno”, diz o geofísico. Em contraste, a maior parte do gelo marinho sobrevive no verão no Mar de Weddell, a parte mais ao sul do Atlântico, a leste da Península Antártica. Um vórtice no sentido horário garante que ele seja empurrado para a costa e, portanto, se torne mais espesso do que em outros lugares. O gelo marinho plurianual também ocorre lá.

Perguntas abertas

Os cientistas do AWI ainda não conseguem responder por que seis anos atrás houve uma queda tão acentuada no volume de gelo marinho no verão e por que ele encolheu ainda mais desde então. Eles citam as altas temperaturas do ar a oeste e leste da Península Antártica como uma explicação para o baixo recorde registrado este ano. Com uma média mensal de 1,5 graus, estes ficaram acima da média de longo prazo. O chamado Modo Anular Sul (SAM) também vive uma forte fase positiva há vários anos. Isso significa que a diferença entre a pressão do ar sobre a Antártida e as latitudes médias é extraordinariamente grande. Um alto índice de SAM fortalece os ventos de oeste ao redor da Antártica e leva a um aumento crescente das águas profundas circumpolares na plataforma continental.

Mas essas são apenas duas explicações possíveis entre muitas, diz Haas: “A temperatura e a pressão do ar são os parâmetros que podem ser melhor medidos usando estações meteorológicas e satélites”. estes estão longe das áreas onde ainda há gelo marinho. Em geral, ainda não é bem compreendido como exatamente eles funcionam.

Tanto a Antártica quanto o Oceano Antártico são áreas enormes com uma grande variedade de influências. Do ponto de vista do cientista, o clima quente do ano passado na Península Antártica pode, na melhor das hipóteses, explicar as mudanças na cobertura de gelo marinho ali, mas não na Antártica Oriental. Os ventos regionais, que transportam o gelo marinho e assim determinam onde ele está, também podem desempenhar um papel, assim como a cobertura de nuvens. Isso influencia a intensidade da radiação solar no gelo marinho e no oceano no verão e, portanto, quanto calor ele armazena.

No entanto, o declínio acentuado da superfície do mar coberta por gelo também levanta várias outras questões. “A água congela menos no inverno e é por isso que o gelo do mar é mais fino no início do verão ou derrete mais rápido no verão do que costumava? É importante saber isso para entender as causas”, diz Haas. Mas ainda faltam boas medições de como a espessura do gelo muda ao longo do ano e de um ano para o outro, bem como melhores observações e modelos.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

A fome e os lucros fabulosos da Bayer

Crise alimentar faz com que os lucros do Grupo Bayer quadrupliquem, o glifosato mais vendido também é o principal assassino do clima

drone glifoDesenvolvimento de negócios extraordinariamente forte: Drone  faz aspersão de glifosato sobre plantação de soja no Brasil

Por Jan Pehrke para o JungeWelt

“O ano  de 2022 foi um ano de muito sucesso para a Bayer, apesar das condições adversas”, afirmou na terça-feira o CEO cessante Werner Baumann na conferência de imprensa de contas da multinacional baseada em Leverkusen. As vendas aumentaram 8,7% para 50,7 mil milhões de euros e o resultado consolidado ainda passou de mil milhões para 4,15 bilhões de euros. Em grande medida, estes números surgiram precisamente devido às “condições de enquadramento adversas”, uma vez que todo o setor agrícola se beneficia da escassez de alimentos como consequência da guerra na Ucrânia. Isso leva a uma demanda maior e, consequentemente, a preços mais altos. Portanto, há mais dinheiro envolvido, o que beneficia comerciantes globais de commodities agrícolas, como a Cargill, e também fabricantes de maquinário agrícola, como John Deere e Bayer, porque os agricultores estão comprando mais agrotóxicos e sementes.

Enquanto as vendas na divisão farmacêutica “apenas” cresceram  1,12% para 19,2 bilhões de euros, as da divisão agrícola aumentaram 15,6%, para 25,2 bilhões de euros. Um “desenvolvimento de negócios extraordinariamente forte na ‘Crop Science'”, relatou o player global: “Aumentos de preços em todas as regiões mais do que compensaram a menor área plantada na América do Norte e a menor receita de licenças”. Mercado”.

“Numa época em que a população da Alemanha geme sob uma inflação imensa, o Sul Global sofre com uma crise alimentar e cada vez mais países enfrentam a insolvência, o Grupo Bayer quer aumentar o dividendo em 20% porque fez enormes lucros. Isso fede aos céus”, disse a coordenação contra os perigos do Bayer (CBG). Como consequência, a rede crítica do grupo exige um imposto sobre o lucro excedente.

Por melhor que seja o equilíbrio comercial, o equilíbrio ecológico é ruim, e há uma conexão entre eles: o glifosato, o mais vendido, é, entre muitas outras coisas, um dos principais assassinos do clima. Todo o processo de fabricação consome muita energia e, dessa forma, garante altas emissões de CO2. A fornalha da unidade norte-americana de Soda Springs, por exemplo, precisa atingir uma temperatura operacional de 1.500 graus Celsius para extrair o fósforo, precursor do glifosato, da fosforita. Como resultado, o herbicida é responsável por uma parcela significativa das emissões de carbono da Bayer de 3,03 milhões de toneladas métricas no ano passado. “Nossa extração de matéria-prima, incluindo preparação e processamento adicional para a produção de precursores de produtos de proteção de cultivos da ‘Crop Science’, é particularmente intensiva em energia”,

E estes 3,03 milhões de toneladas provavelmente não é tudo, porque há grandes dúvidas sobre as 450 mil toneladas de CO2 que a empresa pública afirma ter neutralizado com o financiamento de projetos de reflorestação e proteção florestal. Para algumas dessas transações de compensação, adquiriu certificados da empresa Verra, que, segundo pesquisa do Die Zeit e outros meios de comunicação, não foram cobertos pela economia de dióxido de carbono, mas eram “um monte de lixo”.

Outros parâmetros ambientais não são melhores. A gigante do agro lançou mais substâncias destruidoras de ozônio, compostos orgânicos voláteis e poeira no ar. Ele introduziu mais fósforo e mais metais pesados ​​na água. E os resíduos perigosos também foram produzidos em maiores quantidades. Por tudo isso e muito mais, o CBG quer enfrentar o grupo na Assembleia Geral Ordinária no próximo dia 28 de abril, conforme anunciado em nota.


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Este texto originalmente escrito em alemão foi publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].

Editora Moderna lança “Terra sob Pressão”, de Sergio Tulio Caldas

Livro aborda os impactos da crise climática e traz dados atualizados sobre os efeitos da pandemia da covid-19 no meio ambiente em todo o mundo

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Queimadas e desmatamentos, poluição de rios e mares, invasão de áreas florestais, aumento contínuo da temperatura global ao mesmo tempo em que catástrofes naturais provocam tragédias como a que vemos agora no litoral norte de São Paulo e em outras regiões do planeta. As mudanças climáticas são o foco do novo livro de Sergio Tulio Caldas, que esteve presente no evento climático extremo ocorrido na costa paulista, durante o carnaval. A obra “Terra sob Pressão: A vida e a saúde humana na era do aquecimento global”, publicada pela editora Moderna, será lançada em 2 de março, na Livraria da Vila, em Pinheiros, São Paulo.

O autor, que também é jornalista e roteirista, tem especialidade em escrever sobre temáticas de ciências ambientais. Em seu novo livro, o terceiro pela Moderna (pela editora é de sua autoria “Água – Precisamos falar sobre isso” e “Com os pés na África”, ganhador do Prêmio Jabuti), Sergio Tulio utiliza linguagem descomplicada e textos informativos para alertar sobre o avanço do aquecimento global em todo o mundo. Destaca que as mudanças têm adoecido o planeta e podem comprometer, em pouco tempo, a sobrevivência humana e de outras espécies. O livro também relata o drama dos índios Yanomami pressionados pelo garimpo ilegal, já denunciado pelo líder indígena Davi Kopenawa muito antes da grave situação desse povo vir à tona em 2023.

A obra, produzida durante a pandemia, traz dados atualizados e um importante olhar sobre os impactos do isolamento social na natureza. Por quase dois anos, diversos países restringiram o contato social e a circulação de suas populações como método de barreira para a propagação da covid-19. Durante esse período, o planeta deu respostas otimistas, como a queda da emissão de poluentes no ar em todo o mundo.

Com ilustrações e fotos atuais dos problemas climáticos, Sergio Tulio busca alertar o leitor para a urgência de medidas de proteção ao meio ambiente e povos originários. Mas o autor também traz esperança na obra, ao apontar caminhos possíveis para mudanças reais. A ideia é que o leitor, munido de informações atualizadas, possa também se tornar um agente de proteção ao ambiente e de mudança no mundo.

Sobre o autor

 Sergio Tulio Caldas é jornalista, escritor, roteirista e diretor de TV. Vencedor do Prêmio Jabuti, principal premiação da literatura brasileira, com o livro Com os pés na África (Moderna, 2017), Sergio Tulio tem como principal fonte de trabalho suas observações mundo afora. Seu interesse pela diversidade cultural e meio ambiente resultam em livros, reportagens e documentários. Para o canal National Geographic, entre outros, escreveu e dirigiu séries como Nos caminhos de Che e Parques de São Paulo. Trabalhou para importantes veículos de comunicação do País, como o jornal O Estado de S.Paulo, revistas Veja e Os Caminhos da Terra, TVs Gazeta, SBT e Record. Na África, onde morou, dirigiu um programa jornalístico exibido na TV Pública de Angola (TPA).

 Serviço:

Lançamento “Terra sob Pressão: A vida e a saúde humana na era do aquecimento global”

Data: 2 de março de 2023, quinta-feira, às 19h

Local: Livraria da Vila – R. Fradique Coutinho, 915 – Pinheiros – São Paulo/SP

Ficha técnica:

Terra sob Pressão: A vida e a saúde humana na era do aquecimento global

AutorSérgio Túlio Caldas

IlustraçõesThiago Lopes
Capa: Patrícia d’Utra

Páginas: 184

São as mudanças climáticas, estúpido!

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A reedição da combinação de chuvas muito intensas e a ocupação por populações de pobres das áreas desprezadas pela especulação imobiliária está causando mais tragédias neste início de 2023.  Desta vez são os moradores do litoral norte do estado de São Paulo que estão sofrendo os impactos mais devastadores de mais uma demonstração de que o enfrentamento dos desafios postos pelas mudanças climáticas deveria ser prioridade se os governantes tivessem um mínimo de responsabilidade com seus eleitores.

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Como vimos no sul fluminense e na região serrana no mesmo mesmo período de 2022, as chuvas de intensidade acima dos padrões de normalidade castigam a todos, mas os piores impactos ficam sempre sobre os mais pobres. Aliás, em um detalhe curiosamente mórbido, o município de Paraty que foi devastado em 2022 agora está sendo poupado, apesar de ficar distante apenas 70 km de Ubatuba, um dos municípios mais atingidos pelas chuvas de 2023.  Esse detalhe revela mais um vez a confirmação do que os cientistas já previram sobre os padrões espaciais dessas chuvas intensas, qual seja, o lugar inundado de hoje pode ser o poupado de amanhã e vice-versa.

Assim, não adianta que os governantes, como o fez explicitamente o prefeito de São Sebastião, culpem a natureza pelos que estamos vendo neste momento no litoral paulista. É que apesar das chuvas serem um elemento fora do controle da sociedade humana, os componentes sociais e de governança não o são. A verdade é que toda essas catástrofes estão mais do que anunciadas, mas apesar disso, não há nada no Brasil que se assemelhe ao processo de ajuste que o novo padrão climático requer. Passadas as chuvas e enterrados os mortos, o que vemos é a volta das mesmas ações que priorizam padrões tradicionais de fazer política e de governar. Tudo como se o caos de hoje não se repetirá amanhã.

culpa de quem

Por outro lado, há que se mencionar que o governo Lula possui agora um ministério que deverá tratar do ajuste às mudanças climáticas. Até se criou uma Secretaria Nacional do Clima e se indicou um embaixador para a mudança do clima dentro do Ministério das Relações Exteriores.  Essas medidas são importantes, mas de nada adiantarão se tudo continuar no quartel de Abrantes, a começar pela inexistência de orçamentos realistas para o tamanho da tarefa que se apresenta para os desafios colocados pelas mudanças climáticas.