Não faz muito tempo toda a discussão sobre as mudanças climáticas causadas pelo funcionamento da sociedade capitalista era um item intangível para a maioria das pessoas comuns que possuem questões mais básicas para se preocupar. Entretanto, as chuvas recordes que derrubaram em torno de 1 metro de água em poucas horas sobre a região da Costa Verde e a Baixada Fluminense mostram que a questão da adaptação climática é algo para ser colocado como prioritário em função do alto nível de destruição que estamos presenciando (ver vídeo abaixo da BR-101 na região da Costa Verde).
O problema é que no atual estado de coisas que predominam no Brasil, não há como esperar de governos que continuam práticas que desprezam o conhecimento científico e optam por manter nossas cidades com fortes padrões de segregação socioespacial, deixando para os pobres ocuparam aquelas áreas nas quais os efeitos da mudança climática são mais perversos.
Desta forma, os esforços pela adaptação climática será acima de tudo uma luta pela justiça social e pelo estabelecimento de mecanismos de distribuição da riqueza e, por que não, de uma ampla reforma da propriedade da terra urbana.
Após um breve hiato desde que se viu as cenas dramáticas na cidade de Petrópolis, estes últimos dias foram marcados por tragédias semelhantes na Baixada Fluminense e na chamada Costa Verde (principalmente em Angra dos Reis e Paraty) onde chuvas torrenciais causaram a morte de dezenas de habitantes de áreas pobres. A receita que se vê é a mesma de Petrópolis: chuvas fora do normal, características do atual período de mudanças climáticas, causam desmoronamentos e inundações instantâneas de áreas habitadas por pessoas pobres.
O problema é que tais cenas vão se tornar cada vez mais corriqueiras em um país afetado por mudanças climáticas causadas pelo funcionamento do sistema capitalista que, por um lado, gera altos níveis de poluição atmosférica e, por outro, empurra milhões de seus cidadãos para ocuparem áreas ecologicamente frágeis e desprovidas de infraestrutura compatível para enfrentar a situação que se abre.
De forma objetiva é forçoso reconhecer que os efeitos das mudanças climáticas tenderão a recair sobre os ombros daqueles segmentos que são politica e economicamente mais frágeis, já que os ricos não só evitam se instalar em locais propensos à quedas de encostas e serem inundados, mas quando o fazem possuem toda a condição de se retirar para outros lugares mais seguros, seja temporária ou definitivamente.
O fato é que não se pode separar os efeitos das mudanças climáticas do padrão de urbanização segregado que predomina no Brasil. Quem tenta separar essa conexão está claramente a serviço da perpetuação de um modelo de urbanização que aposta na perpetuação de um forma muito específica de apartheid social, o qual foi construído no período colonial e cuidadosamente mantido desde que se deu a independência em 1822.
Por isso é que no caso de países como o Brasil o chamado processo de adaptação climática das cidades terá que ser antecedido (ou pelo menos ocorrer simultaneamente) pelo desmantelamento do apartheid social que predomina na maioria das nossas cidades.
Ato simbólico com 233 sinalizadores e coroas de flores simbolizam a urgência de ações para o enfrentamento da crise climática
Ativistas do Greenpeace Brasil homenageiam as vítimas de Petrópolis no Palácio Guanabara, na cidade do Rio de Janeiro, e pressionam para que seja decretado emergência climática | Foto: Gabrielle Souza / Greenpeace
Rio de Janeiro, 15 de março de 2022 – Hoje (15) completa um mês das chuvas intensas que culminaram em uma grande tragédia na cidade de Petrópolis (RJ). Nesta manhã, o Greenpeace Brasil levou para a frente do Palácio Guanabara, sede do governo do Rio de Janeiro, 233 sinalizadores e coroas de flores representando as 233 vidas perdidas e contabilizadas até o momento. A ação teve como objetivo prestar homenagem às vítimas das enchentes e deslizamentos que atingiram o município no mês passado, além de pressionar o governador Cláudio Castro para que decrete Emergência Climática e execute imediatamente oplano de adaptação.
Apesar do Rio de Janeiro possuir este plano, não existem estratégias de implementação, prazos ou etapas de execução, e tampouco orçamento. Aliás, o governo do estado não usou nem metade do orçamento previsto para o ano passado do Programa de Prevenção de Catástrofes do Rio de Janeiro. Em 2021, foram utilizados R$165 milhões dos R$402 milhões disponíveis – dinheiro que poderia ter sido destinado a obras de infraestrutura.
Para o porta-voz de Clima e Justiça do Greenpeace Brasil, Rodrigo Jesus, a ação da organização em frente ao Palácio Guanabara é uma forma de pressionar o poder público para que mais tragédias como essa não ocorram: “As fortes chuvas no mês de fevereiro levaram 233 vidas em Petrópolis, mas o que ocorreu na região é um exemplo da falta de implementação de direitos básicos e execução de um plano de adaptação climática no Estado. O Rio de Janeiro precisa decretar Emergência Climática e implementar efetivamente o seu plano de adaptação, elaborando-o junto às populações mais impactadas. Essas são ações fundamentais para que o Estado se antecipe às próximas catástrofes”.
Além de ações como essa em frente ao Palácio Guanabara, o Greenpeace Brasil também tem trabalhado para fortalecer iniciativas que já estão sendo desenvolvidas nos territórios. No caso de Petrópolis, a organização destinou recursos por meio de parceiros locais para a compra de mantimentos, roupas e necessidades urgentes para as famílias atingidas pela catástrofe, além de iniciar uma petição para que os estados decretem Emergência Climática e executem planos de adaptação, evitando que novas tragédias ocorram e que mais vidas sejam perdidas.
Manaus, 11 de março de 2022 – Dados do sistema Deter, do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados hoje, reafirmam que o desmatamento na maior floresta tropical do planeta segue fora de controle. Entre os dias 1º e 28 de fevereiro, os alertas apontam para um total de 199 km² desmatados. Isso representa um aumento de 62% em relação ao mesmo mês de 2021. É a maior área com alertas para o mês desde 2016, quando foram iniciadas as medições do Deter-B. Os alertas de desmatamento se concentram principalmente nos estados de Mato Grosso, Pará e Amazonas.
Área dos alertas de desmatamento do programa DETER-B do mês de fevereiro | Fonte: INPE
“Os dois primeiros meses deste ano tiveram áreas recordes da série histórica, no acumulado já são 629 km² mais do que o triplo do que foi observado no ano passado, 206 km² desmatados . Isso tudo em um período no qual o desmatamento costuma ser mais baixo por conta do período chuvoso na região. Este aumento absurdo demonstra os resultados da falta de uma política de combate ao desmatamento e dos crimes ambientais na Amazônia, impulsionados pelo atual governo. A destruição não para”, afirma o porta-voz de Amazônia do Greenpeace Brasil, Rômulo Batista.
Publicado na última segunda-feira (7), um estudo da Universidade de Exeterrevelou que a floresta amazônica está perdendo sua capacidade de manutenção, chegando em um “ponto de não retorno”. De acordo com o estudo, três quartos da floresta estão apresentando uma resiliência cada vez menor contra secas e outros eventos climáticos adversos e, portanto, estão menos capazes de se recuperar. Assim, a previsão é de que grandes áreas irão começar a se transformar em um bioma mais parecido com uma área de floresta degradada e mais seca, gerando riscos para a biodiversidade e para o clima em escala global e intensificando a ocorrência de eventos climáticos extremos.
“Na mesma semana em que milhares de pessoas se reuniram em Brasília, no Ato pela Terra, para exigir que o governo e o Congresso parem com o Pacote da Destruição, esse estudo publicado, a aprovação de urgência do PL da mineração em terras indígenas e os recordes dos alertas de desmatamento nos levam a refletir sobre o destino da Amazônia e seus povos. Além disso, quanto mais desmatamento, maior é a contribuição do país com a emissão de gases do efeito estufa, agravando ainda mais a crise climática e acelerando os eventos extremos como as chuvas torrenciais que vimos esse ano no Brasil. Os dados de fevereiro apontam para mais um ano em que o Brasil caminha na contramão do combate à destruição ambiental e dos direitos dos povos indígenas”, complementa Batista.
A integridade ambiental das terras indígenas, áreas cruciais para a estabilidade climática do país, está em risco caso a Câmara dos Deputados aprove, sem discussões mais aprofundadas e melhoras substanciais, o Projeto de Lei (PL) 191/2020, que permite a lavra de recursos minerais e o aproveitamento de energia elétrica naqueles territórios. A avaliação é da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, movimento formado por mais de 300 representantes do agronegócio, sociedade civil, setor financeiro e academia.
A possível votação do PL em regime de urgência está sendo justificada com o equivocado argumento de que a mineração em terras indígenas resolveria a escassez de fertilizantes, em especial potássio, vindos da Rússia, na esteira da guerra entre aquele país e a Ucrânia.
A Coalizão Brasil conclui que o PL não resolve o problema no fornecimento de fertilizantes para o agronegócio, ao analisar dados da Agência Nacional de Mineração (ANM) e do Serviço Geológico Brasileiro coletados pela Universidade Federal de Minas Gerais:
dois terços das reservas brasileiras de potássio – matéria-prima da qual o Brasil é muito dependente da Rússia – estão fora da Amazônia;
somente 11% das reservas brasileiras de potássio na Amazônia estão sobrepostas a terras indígenas;
a ANM conta com mais de 500 processos ativos de exploração de potássio em andamento e que poderiam ser viabilizados sem agressão aos territórios dos povos originários.
A Coalizão defende que o Congresso volte sua atenção para outra discussão urgente: os diversos obstáculos encontrados no país para a produção de fertilizantes, como a insegurança jurídica, o sistema tributário e outros problemas regulatórios, que fazem com que produtos importados sejam mais competitivos do que os nacionais.
O posicionamento da Coalizão Brasil declara que: “A guerra entre Rússia e Ucrânia, portanto, não deve ser um pretexto para a aprovação de um PL que ainda não foi adequadamente debatido pela sociedade e, sobretudo, não foi consultado com as organizações representativas dos povos indígenas, os maiores interessados no assunto.“
Confira a íntegra do texto a seguir:
Mineração em terras indígenas não resolve problema dos fertilizantes
A integridade ambiental das terras indígenas, áreas importantíssimas para a estabilidade climática e proteção da diversidade cultural do país, pode estar em risco se a Câmara dos Deputados aprovar, sem discussões mais aprofundadas e melhorias substanciais, o Projeto de Lei (PL) 191/2020, que permite a lavra de recursos minerais, a construção de hidrelétricas e a agricultura industrial naqueles territórios.
O PL voltou à baila na última semana e pode ter um requerimento de urgência para sua votação aprovado a qualquer momento, sem passar pelas devidas análises de comissões competentes. A possível votação em regime de urgência está sendo justificada com o equivocado argumento de que a mineração em terras indígenas resolveria a escassez de fertilizantes, em especial potássio, vindos da Rússia, na esteira da guerra entre aquele país e a Ucrânia.
O garimpo em terras indígenas não resolve o problema dos fertilizantes. De acordo com um levantamento da Universidade Federal de Minas Gerais, realizado a partir de dados da Agência Nacional de Mineração (ANM) e do Serviço Geológico Brasileiro, dois terços das reservas brasileiras estão fora da Amazônia. E, mesmo naquelas localizadas no bioma, somente 11% estão sobrepostas a terras indígenas. A ausência de sobreposição significativa de reservas de potássio e terras indígenas foi também confirmada por um estudo independente realizado pela Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa Mineral e Mineração.
Ainda de acordo com a pesquisa da UFMG, caso sejam feitos investimentos para a extração de potássio contido nos diferentes tipos de sais e rochas potássicas, as reservas existentes no país poderiam nos conferir autonomia para além de 2100.
Além disso, a ANM conta com mais de 500 processos ativos de exploração de potássio em andamento e que poderiam ser viabilizados sem agressão aos territórios dos povos originários.
A guerra entre Rússia e Ucrânia, portanto, não deve ser um pretexto para a aprovação de um PL que ainda não foi adequadamente debatido pela sociedade e, sobretudo, não foi consultado com as organizações representativas dos povos indígenas, os maiores interessados no assunto.
A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, movimento formado por mais de 300 representantes do agronegócio, sociedade civil, setor financeiro e academia, defende que o Congresso volte sua atenção para outra discussão urgente — os diversos obstáculos encontrados no país para a produção de fertilizantes, como a insegurança jurídica, o sistema tributário e outros problemas regulatórios, que fazem com que produtos importados sejam mais competitivos do que os nacionais.
São Paulo, 9 de março de 2022 – Enquanto o Brasil segue colecionando recordes de destruição do meio ambiente, a grilagem se destaca como um dos carros-chefes de uma disputa de terras que gera violência, aumenta a devastação florestal em escalas sem precedentes e, consequentemente, contribui para a intensificação dos eventos climáticos extremos que têm assolado diversas regiões do Brasil e do mundo. Ao mesmo tempo, tramita no Congresso o PL da Grilagem (PL 2.633/2020 e PL 510/21) que, se aprovado, irá legalizar um crime que já é responsável por um terço do desmatamento da Amazônia.
Ao longo dos séculos, a prática da grilagem se caracterizou especialmente pela fabricação de documentos falsos a fim de dar ares de legalidade ao roubo de terras públicas. Hoje, porém, vem se modernizando e mudando de tática com o apoio do governo: se antes os falsários eram os protagonistas, hoje o lobby ruralista se destaca ao atuar na construção de maioria legislativa nas Assembleias Legislativas e no Congresso Nacional. Com isso, buscam viabilizar a adaptação de leis aos interesses do mercado de terras no Brasil.
“Nos últimos 20 anos, há um claro processo de adaptação da legislação fundiária aos interesses do mercado de terras alimentado pela grilagem das terras públicas; e é esse processo que se tornou o combustível principal para o avanço de tratores e motosserras sobre extensas áreas de floresta nos mais 50 milhões de hectares de terras públicas não destinadas na Amazônia; colaborando para consolidar a economia da destruição que já consumiu 17% do bioma”, declara Danicley de Aguiar, porta-voz do Greenpeace Brasil.
As consequências do aumento da grilagem são devastadoras. Responsável por ⅓ do desmatamento da Amazônia, segundo dados do IPAM, a prática ilegal tem relação direta com a emergência climática que o Brasil e o mundo já experenciam de maneira intensa. Os eventos extremos, como chuvas torrenciais, ondas de calor e secas, aumentam proporcionalmente à medida que aumentam o desmatamento e a destruição do meio ambiente. Além de prejudicar e colocar em risco os povos indígenas e as comunidades tradicionais, as consequências da grilagem já podem ser sentidas nas cidades.
A grilagem na prática
Para demonstrar o risco que a aprovação deste projeto representa, o Greenpeace Brasil analisou uma vasta área na região de Lábrea, no sul do Amazonas, que traz um raio-x de como o lobby da grilagem no Congresso Nacional produz reflexos diretos no chão da floresta, promovendo mais desmatamento e reduzindo a cinzas as florestas que recobrem as terras públicas da Amazônia.
Glebas são áreas não loteadas e geralmente gigantescas, como a Gleba João Bento, que tem 295 mil hectares – o que equivale a cerca de duas vezes o tamanho do município de São Paulo. Alvo de grilagem desde a década de 70, em 2011 a área foi arrecadada e matriculada pela União, mas isso não impediu que um novo processo de grilagem explodisse por lá como resultado direto das discussões de alterações na legislação fundiária debatidas em Brasília, no centro do poder.
Desde 2009, a lei que trata do assunto vem sendo adequada de acordo com os interesses do mercado de terras. Ao traçar uma linha histórica do desmatamento no interior da gleba, é possível perceber sua relação direta com as discussões sobre as propostas de mudanças na lei de regularização fundiária promovidas no Congresso Nacional. Conforme gráfico abaixo, um novo pico significativo acontece entre 2015 e 2017 – período no qual o lobby da grilagem pressionava por uma revisão da lei no Congresso.
Fonte: Prodes/INPE analisado pelo Greenpeace Brasil
Dos 295 mil hectares de floresta que recobria a área total de floresta local, 93 mil foram derrubados e queimados, dando lugar a imensas áreas de pasto para a criação de bois. Cerca de 57% dessa destruição se deu entre 2019 e 2021, durante o governo Bolsonaro
Atualmente, o lobby da grilagem segue com força na tentativa de aprovação do PL da Grilagem, com o claro interesse de anistiar os grileiros de terras públicas e, sobretudo, garantir a transferência destas para o patrimônio privado. Na prática, o projeto de lei irá permitir a regularização de áreas griladas entre 2008 e 2017 sem que estas sejam submetidas a processo licitatório, além de cobrar um valor abaixo do valor real de mercado. A proposta também pretende garantir que grandes áreas griladas após 2017 possam ser privatizadas, desde que com processo de licitação pública.
A pressão pela sua aprovação em 2022 é imensa e a votação está prevista para ocorrer ainda no começo do ano sem o amplo debate com a sociedade e em um momento em que o foco do Legislativo deveria ser combater a crise generalizada do país.
O Grupo de Trabalho II para o Sexto Relatório de Avaliação do IPCC lançou hoje um novo relatório onde são avaliados os impactos das mudanças climáticas, analisando os ecossistemas, a biodiversidade e as comunidades humanas nos níveis global e regional. O relatório também analisa as vulnerabilidades e as capacidades e limites do mundo natural e das sociedades humanas para se adaptar às mudanças climáticas.
Abaixo são listados os principais pontos abordados neste relatório.
Impactos e riscos observados e projetados
Impactos e riscos observados e projetados As mudanças climáticas induzidas pelo homem, incluindo eventos extremos mais frequentes e intensos, causaram impactos adversos generalizados e perdas e danos relacionados à natureza e às pessoas, além da variabilidade climática natural. Alguns esforços de desenvolvimento e adaptação reduziram a vulnerabilidade. Em todos os setores e regiões, observa-se que as pessoas e sistemas mais vulneráveis são afetados desproporcionalmente. O aumento do clima e dos extremos climáticos levou a alguns impactos irreversíveis, pois os sistemas naturais e humanos são levados além de sua capacidade de adaptação (alta confiança).
A vulnerabilidade dos ecossistemas e das pessoas às mudanças climáticas difere substancialmente entre e dentro das regiões (confiança muito alta), impulsionada por padrões de interseção de desenvolvimento socioeconômico, uso insustentável do oceano e da terra, desigualdade, marginalização, padrões históricos e contínuos de desigualdade, como colonialismo, e governança (alta confiança). Aproximadamente 3,3 a 3,6 bilhões de pessoas vivem em contextos altamente vulneráveis às mudanças climáticas (alta confiança). Uma alta proporção de espécies é vulnerável às mudanças climáticas (alta confiança). A vulnerabilidade humana e do ecossistema são interdependentes (alta confiança). Os atuais padrões de desenvolvimento insustentável estão aumentando a exposição de ecossistemas e pessoas aos riscos climáticos (alta confiança).
O aquecimento global, atingindo 1,5°C no curto prazo, causaria aumentos inevitáveis em vários perigos climáticos e apresentaria múltiplos riscos para os ecossistemas e os seres humanos (confiança muito alta). O nível de risco dependerá de tendências concorrentes de curto prazo em vulnerabilidade, exposição, nível de desenvolvimento socioeconômico e adaptação (alta confiança). Ações de curto prazo que limitam o aquecimento global a cerca de 1,5°C reduziriam substancialmente as perdas e danos projetados relacionados às mudanças climáticas em sistemas e ecossistemas humanos, em comparação com níveis mais altos de aquecimento, mas não podem eliminá-los todos (confiança muito alta).
Além de 2040 e dependendo do nível de aquecimento global, as mudanças climáticas levarão a inúmeros riscos para os sistemas naturais e humanos (alta confiança). Para 127 riscos-chave identificados, os impactos avaliados de médio e longo prazo são até várias vezes maiores do que os observados atualmente (alta confiança). A magnitude e a taxa de mudança climática e os riscos associados dependem fortemente de ações de mitigação e adaptação de curto prazo, e os impactos adversos projetados e as perdas e danos relacionados aumentam a cada incremento do aquecimento global (confiança muito alta).
Os impactos e riscos das mudanças climáticas estão se tornando cada vez mais complexos e mais difíceis de gerenciar. Múltiplos perigos climáticos ocorrerão simultaneamente e vários riscos climáticos e não climáticos irão interagir, resultando na composição do risco geral e dos riscos em cascata entre setores e regiões. Algumas respostas às mudanças climáticas resultam em novos impactos e riscos (alta confiança).
Se o aquecimento global exceder transitoriamente 1,5°C nas próximas décadas ou mais tarde (overshoot), muitos sistemas humanos e naturais enfrentarão riscos graves adicionais, em comparação com permanecer abaixo de 1,5°C (alta confiança). Dependendo da magnitude e duração do overshoot, alguns impactos causarão liberação de gases de efeito estufa adicionais (confiança média) e alguns serão irreversíveis, mesmo que o aquecimento global seja reduzido (confiança alta).
Adaptação atual e seus benefícios
O progresso no planejamento e implementação da adaptação foi observado em todos os setores e regiões, gerando múltiplos benefícios (confiança muito alta). No entanto, o progresso da adaptação é distribuído de forma desigual com lacunas de adaptação observadas (alta confiança). Muitas iniciativas priorizam a redução imediata e de curto prazo dos riscos climáticos, o que reduz a oportunidade de adaptação transformacional (alta confiança).
Existem opções de adaptação viáveis e eficazes que podem reduzir os riscos para as pessoas e a natureza. A viabilidade de implementar opções de adaptação no curto prazo difere entre setores e regiões (confiança muito alta). A eficácia da adaptação para reduzir o risco climático é documentada para contextos, setores e regiões específicos (alta confiança) e diminuirá com o aumento do aquecimento (alta confiança). Soluções integradas e multissetoriais que abordam as desigualdades sociais, diferenciam as respostas com base no risco climático e atravessam os sistemas, aumentam a viabilidade e a eficácia da adaptação em vários setores (alta confiança).
Limites flexíveis para algumas adaptações humanas foram alcançados, mas podem ser superados abordando uma série de restrições, principalmente financeiras, de governança, institucionais e políticas (alta confiança). Limites rígidos para adaptação foram alcançados em alguns ecossistemas (alta confiança). Com o aumento do aquecimento global, as perdas e danos aumentarão e os sistemas humanos e naturais adicionais atingirão os limites de adaptação (alta confiança).
Há evidências crescentes de má adaptação em muitos setores e regiões desde o AR5. Respostas mal adaptadas às mudanças climáticas podem criar bloqueios de vulnerabilidade, exposição e riscos que são difíceis e caros de mudar e exacerbar as desigualdades existentes. A má adaptação pode ser evitada por meio de planejamento flexível, multissetorial, inclusivo e de longo prazo e implementação de ações de adaptação com benefícios para muitos setores e sistemas (alta confiança).
As condições favoráveis são fundamentais para implementar, acelerar e sustentar a adaptação em sistemas e ecossistemas humanos. Estes incluem compromisso político e acompanhamento, estruturas institucionais, políticas e instrumentos com metas e prioridades claras, conhecimento aprimorado sobre impactos e soluções, mobilização e acesso a recursos financeiros adequados, monitoramento e avaliação e processos de governança inclusivos (alta confiança).
Desenvolvimento resiliente ao clima
Evidências de impactos observados, riscos projetados, níveis e tendências de vulnerabilidade e limites de adaptação demonstram que a ação mundial de desenvolvimento resiliente ao clima é mais urgente do que previamente avaliada no AR5. Respostas abrangentes, eficazes e inovadoras podem aproveitar as sinergias e reduzir os compromissos entre adaptação e mitigação para promover o desenvolvimento sustentável (confiança muito alta).
O desenvolvimento resiliente ao clima é viabilizado quando os governos, a sociedade civil e o setor privado fazem escolhas de desenvolvimento inclusivas que priorizam a redução de riscos, a equidade e a justiça, e quando os processos de tomada de decisão, finanças e ações são integrados em todos os níveis de governança, setores e prazos (confiança muito alta ). O desenvolvimento resiliente ao clima é facilitado pela cooperação internacional e por governos em todos os níveis que trabalham com comunidades, sociedade civil, órgãos educacionais, instituições científicas e outras, mídia, investidores e empresas; e desenvolvendo parcerias com grupos tradicionalmente marginalizados, incluindo mulheres, jovens, Povos Indígenas, comunidades locais e minorias étnicas (alta confiança). Essas parcerias são mais eficazes quando apoiadas por liderança política, instituições, recursos, incluindo finanças, bem como serviços climáticos, informações e ferramentas de apoio à decisão (alta confiança).
As interações entre a mudança da forma urbana, exposição e vulnerabilidade podem criar riscos e perdas induzidas pelas mudanças climáticas para cidades e assentamentos. No entanto, a tendência global de urbanização também oferece uma oportunidade crítica no curto prazo, para promover o desenvolvimento resiliente ao clima (alta confiança). O planejamento integrado e inclusivo e o investimento na tomada de decisões cotidianas sobre infraestrutura urbana, incluindo infraestruturas sociais, ecológicas e cinzas/físicas, podem aumentar significativamente a capacidade de adaptação dos assentamentos urbanos e rurais. Resultados equitativos contribuem para múltiplos benefícios para a saúde e bem-estar e serviços ecossistêmicos, inclusive para Povos Indígenas, comunidades marginalizadas e vulneráveis (alta confiança). O desenvolvimento resiliente ao clima em áreas urbanas também apoia a capacidade de adaptação em mais locais rurais através da manutenção de cadeias de abastecimento periurbanas de bens e serviços e fluxos financeiros (confiança média). As cidades e assentamentos costeiros desempenham um papel especialmente importante no avanço do desenvolvimento resiliente ao clima (alta confiança).
A salvaguarda da biodiversidade e dos ecossistemas é fundamental para o desenvolvimento resiliente ao clima, à luz das ameaças que as alterações climáticas representam para eles e seus papéis na adaptação e mitigação (confiança muito alta). Análises recentes, com base em uma série de evidências, sugerem que a manutenção da resiliência da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos em escala global depende da conservação efetiva e equitativa de aproximadamente 30% a 50% das áreas terrestres, de água doce e oceânicas da Terra, incluindo atualmente ecossistemas quase naturais (alta confiança).
É inequívoco que as mudanças climáticas já perturbaram os sistemas humanos e naturais. As tendências de desenvolvimento passadas e atuais (emissões passadas, desenvolvimento e mudanças climáticas) não promoveram o desenvolvimento global resiliente ao clima (confiança muito alta). As escolhas e ações da sociedade implementadas na próxima década determinam até que ponto os caminhos de médio e longo prazo proporcionarão um desenvolvimento mais ou menos resiliente ao clima (alta confiança). É importante ressaltar que as perspectivas de desenvolvimento resiliente ao clima são cada vez mais limitadas se as emissões atuais de gases de efeito estufa não diminuirem rapidamente, especialmente se o aquecimento global de 1,5°C for excedido no curto prazo (alta confiança). Essas perspectivas são limitadas pelo desenvolvimento passado, emissões e mudanças climáticas, e possibilitadas por governança inclusiva, recursos humanos e tecnológicos adequados e apropriados, informações, capacidades e finanças (alta confiança).
São Paulo, 28 de fevereiro de 2022 – A segunda parte do 6º Relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC – sigla em inglês) foi apresentada hoje aos governos mundiais. Com foco em impactos, adaptação e vulnerabilidade, o relatório apresenta quão graves já são os impactos das mudanças climáticas, especialmente para as populações que vivem em situação de vulnerabilidade.
Desde a divulgação do último relatório, os riscos climáticos estão aparecendo mais rápido e se tornarão mais graves mais cedo.
“O relatório do IPCC mostra que os impactos da crise do clima são irreversíveis. A população em situação de vulnerabilidade, que já sofre com o descaso de nossos governantes, será a mais impactada. É urgente que haja uma mudança rápida nas políticas públicas de adaptação no Brasil e no mundo, com orçamento adequado para perdas e danos das populações atingidas”, alerta Fabiana Alves, porta-voz de Clima e Justiça do Greenpeace Brasil.
Cientistas do mundo todo alertam:
Os efeitos do aquecimento nos ecossistemas acontecerão mais rápido, são mais difundidos e com consequências de maior alcance do que o previsto;
Não estamos preparados sequer para os impactos atuais, e isso está custando vidas.
Mais aquecimento traz mais problemas. Limitar o aquecimento a 1,5°C reduziria substancialmente as perdas e danos projetados, mas as perdas já se tornaram irreversíveis.
Devemos restaurar a natureza e proteger pelo menos 30% da Terra para que ela nos proteja.
Esta é a década crítica para garantir um futuro habitável, equitativo e sustentável. É necessário que a mudança seja sistêmica e inclusiva.
Brasil e América Latina
Os principais riscos à crise climática no Brasil e na América Latina incluem segurança hídrica; saúde devido a epidemias crescentes; degradação dos ecossistemas dos recifes de corais; riscos para a segurança alimentar devido a secas frequentes ou extremas; e danos à vida e à infraestrutura devido a inundações, deslizamentos de terra, elevação do nível do mar, tempestades e erosão costeira. Para a Amazônia, o risco de uma transição gradual de floresta tropical para savana (savanização) começa a aumentar em um nível entre 1,5°C e 3°C com um valor médio em 2°C.
Os eventos de chuvas fortes, que resultam em inundações, deslizamentos de terra e secas, devem se intensificar bastante em magnitude e frequência. Estima-se que o aquecimento de apenas 1,5°C resulte em um aumento de 100-200% no número da população afetada por inundações na Colômbia, Brasil e Argentina; 300% no Equador e 400% no Peru.
Em abril, será divulgada a terceira parte do 6° relatório do IPCC, que avaliará formas de mitigar as mudanças climáticas. O relatório completo será divulgado em outubro.
Bombeiros trabalham no local do incêndio florestal perto da vila de Kyuyorelyakh, na área de Gorny Ulus, a oeste de Yakutsk, na Rússia, quinta-feira, 5 de agosto de 2021. – Copyright AP Photo/Ivan Nikiforov, File
Um planeta em aquecimento e mudanças nos padrões de uso da terra significam que mais incêndios florestais queimarão grandes partes do globo nas próximas décadas, causando picos de poluição por fumaça insalubre e outros problemas que os governos estão mal preparados para enfrentar, de acordo com um relatório da ONU divulgado na última quarta-feira .
O oeste dos EUA, o norte da Sibéria, o centro da Índia e o leste da Austrália já estão vendo mais incêndios, e a probabilidade de incêndios catastróficos em todo o mundo pode aumentar em um terço até 2050 e mais de 50% na virada do século, segundo o relatório. do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.
Áreas antes consideradas seguras contra grandes incêndios não estarão imunes, incluindo o Ártico, que o relatório disse que “provavelmente sofrerá um aumento significativo nas queimadas”.
As florestas tropicais na Indonésia e no sul da Amazônia da América do Sul também devem aumentar os incêndios florestais, concluiu o relatório.
“Os incêndios florestais incontroláveis e devastadores estão se tornando uma parte esperada dos calendários sazonais em muitas partes do mundo”, disse Andrew Sullivan, da Commonwealth Scientific and Industrial Research Organization na Austrália, um dos autores do relatório.
‘Um ciclo de agravamento’
O relatório descreve um ciclo de piora: a mudança climática traz mais seca e temperaturas mais altas que facilitam o início e a propagação de incêndios e, por sua vez, essas chamas liberam mais carbono na atmosfera à medida que queimam florestas e turfeiras.
Algumas áreas, incluindo partes da África, estão vendo a diminuição dos incêndios florestais, em parte porque mais terras estão sendo dedicadas à agricultura, disse o coautor do relatório Glynis Humphrey, da Universidade da Cidade do Cabo.
Mas pesquisadores da ONU disseram que muitas nações continuam gastando muito tempo e dinheiro no combate a incêndios e não o suficiente para evitá-los.
As mudanças no uso da terra podem piorar os incêndios, como a extração de madeira que deixa para trás detritos que podem queimar facilmente e florestas que são incendiadas intencionalmente para limpar a terra para a agricultura, disse o relatório.
As comunidades pobres são muitas vezes as mais atingidas pelos incêndios, que podem degradar a qualidade da água, destruir colheitas e reduzir a terra disponível para o cultivo de alimentos.
“Isso afeta os empregos das pessoas e a situação econômica em que as pessoas se encontram”, disse Humphrey. “É essencial que o fogo esteja na mesma categoria de gerenciamento de desastres que enchentes e secas. É absolutamente essencial.”
Nos Estados Unidos, as autoridades divulgaram recentemente um esforço de US$ 50 bilhões para reduzir os riscos de incêndio na próxima década, desbastando mais agressivamente as florestas em torno de “pontos quentes” onde a natureza e os bairros colidem. Apenas parte desse trabalho tem financiamento até agora – cerca de US$ 3 bilhões ao longo de cinco anos sob a lei federal de infraestrutura recentemente aprovada, de acordo com funcionários do governo do presidente Joe Biden.
Os críticos do plano do governo dizem que ele continua a enfatizar demais o combate a alguns incêndios que podem ser úteis para limpar a vegetação rasteira quando as chamas permanecem relativamente pequenas e não ameaçam casas.
Os pesquisadores da ONU também pediram mais conscientização sobre os perigos da inalação de fumaça de incêndios florestais, que podem afetar dezenas de milhões de pessoas anualmente, à medida que as plumas dos grandes incêndios florestais percorrem milhares de quilômetros através das fronteiras internacionais.
Este foi originalmente escrito em inglês e publicado pela euronews.green [Aqui!].
O trabalho da Elsevier com empresas de combustíveis fósseis ‘nos arrasta para o desastre’, diz pesquisador climático
A Elsevier é uma das poucas empresas que publicam pesquisas climáticas revisadas por pares, mas também consulta a indústria para encontrar reservas de petróleo e gás. Fotografia: Kristoffer Tripplaar/Alamy
Por Amy Westervelt para o “The Guardian”
Cientistas que trabalham com uma das maiores editoras de pesquisa climática do mundo dizem que estão cada vez mais alarmados com o fato de a empresa trabalhar com a indústria de combustíveis fósseis para ajudar a aumentar a perfuração de petróleo e gás, pode revelar o Guardian.
A Elsevier, uma empresa holandesa por trás de muitas revistas científicas de renome, revisadas por pares, incluindo Lancet e Global Environmental Change, também é uma dasprincipais editorasde livros destinados a expandir a produção de combustíveis fósseis.
Por mais de uma década, a empresa apoiou os esforços do setor de energia para otimizar a extração de petróleo e gás. Ele contrata autores, editores e membros do conselho consultivo de periódicos que são funcionários das principais empresas petrolíferas. A Elsevier também comercializa alguns de seus portais de pesquisa e serviços de dados diretamente para a indústria de petróleo e gás para ajudar a “aumentar as chances de sucesso na exploração” .
Vários ex-funcionários e atuais funcionários dizem que, no ano passado, dezenas de trabalhadores se manifestaram internamente e nas prefeituras de toda a empresa para instar a Elsevier a reconsiderar seu relacionamento com a indústria de combustíveis fósseis .
“Quando comecei, ouvi muito sobre os compromissos climáticos da empresa”, disse um ex-editor da revista Elsevier que concordou em falar sob condição de anonimato. “Eventualmente, percebi que era tudo marketing, o que é realmente perturbador porque a Elsevier publicou todas as pesquisas necessárias para saber exatamente o que fazer se quiser fazer uma diferença significativa.”
O que torna os laços da Elsevier com a indústria de combustíveis fósseis particularmente alarmantes para seus críticos é que ela é uma das poucas empresas que publicam pesquisas climáticas revisadas por pares. Cientistas e acadêmicos dizem estar preocupados que os interesses comerciais conflitantes da Elsevier arrisquem prejudicar seu trabalho.
Julia Steinberger, ecologista social e economista ecológica da Université de Lausanne, que publicou estudos em várias revistas da Elsevier, disse que ficou chocada ao saber que a empresa teve um papel ativo na expansão da extração de combustíveis fósseis.
“A Elsevier é a editora de alguns dos periódicos mais importantes na área ambiental”, disse ela. “Eles não podem alegar ignorância dos fatos da mudança climática e da necessidade urgente de se afastar dos combustíveis fósseis.”
Ela acrescentou: “O modelo de negócios deles parece lucrar com a publicação de ciência climática e energética, ignorando o fato mais básico da ação climática: a necessidade urgente de se afastar dos combustíveis fósseis”.
A Elsevier e sua controladora, RELX, dizem que estão comprometidas em apoiar a indústria de combustíveis fósseis à medida que ela transita para a energia limpa. E embora a Elsevier tenha emergido como líder do setor com suas próprias promessas climáticas, um porta-voz da empresa disse que eles não estão preparados para traçar uma linha entre a transição dos combustíveis fósseis e a expansão da extração de petróleo e gás. Ela expressou preocupação com editores boicotando ou “cancelando” empresas de petróleo e gás.
“Reconhecemos que somos imperfeitos e temos que fazer mais, mas isso não deve negar todo o trabalho incrível que fizemos nos últimos 15 anos”, disse Márcia Balisciano, chefe global de responsabilidade corporativa da RELX, ao Guardian. .
Das mais de 2.000 revistas acadêmicas que a Elsevier publica, apenas sete são específicas para extração de combustíveis fósseis (14 se você contar publicações especiais e subsidiárias). Esses periódicos incluem Upstream Oil and Gas Technology, cujo editor-chefe trabalha para a Shell, e Unconventional Resources, que é editado por um pesquisador da Chevron. Também administra uma editora de livros subsidiária, a Gulf Publishing, que inclui títulos comoThe Shale Oil and Gas Handbook eStrategies for Optimizing Petroleum Exploration .
Dois livros publicados pela subsidiária da Elsevier, Gulf Publishing, totalmente focada na indústria de combustíveis fósseis. Composto: Elsevier
A Elsevier também presta serviços de consultoria para clientes corporativos. Nos últimos 12 anos, tem comercializadouma ferramenta chamada Geofacetspara empresas de combustíveis fósseis. O Geofacets combina milhares de mapas e estudos para facilitar a localização e o acesso às reservas de petróleo e gás, além de locais para parques eólicos ou instalações de armazenamento de carbono.
A empresa afirma que a ferramenta reduz o tempo de pesquisa em 50% e ajuda a identificar “áreas mais arriscadas e remotasque antes eram inacessíveis”.
Os principais cientistas climáticos, incluindo aqueles publicados nos próprios periódicos da Elsevier, no entanto, dizem que exatamente o oposto deve acontecer para evitar uma catástrofe climática. Limitar o aquecimento a 1,5°C ou menos requer umadiminuição mundial na produção de combustíveis fósseiscom mais de 80% de todas as reservas comprovadas deixadas no solo.
“Não comentaremos as práticas de empresas individuais, mas quaisquer ações que apoiem ativamente a expansão do desenvolvimento de combustíveis fósseis são de fato inconsistentes” com as metas de desenvolvimento sustentável das Nações Unidas, disse Sherri Aldis, vice-diretora interina do departamento de comunicações globais da ONU. .
A RELX é umaempresa surpreendentemente lucrativa, com receitas anuaisde US$ 9,8 bilhões, cerca de um terço dos quais são trazidos pela Elsevier. Balisciano enfatiza que o conteúdo de combustível fóssil representa menos de 1% da receita editorial da Elsevier e menos da metade da receita da Geofacets, que por si só representa apenas cerca de 2% dos ganhos da Elsevier.
A RELX e a Elsevier dizem que a maior parte de seu trabalho apoia e permite uma transição energética por meio de publicações centradas em energia limpa. “Não queremos desenhar um binário e não achamos que você possa simplesmente apertar um botão, mas estamos reduzindo nosso envolvimento com atividades de combustíveis fósseis enquanto aumentamos a quantidade de pesquisas que publicamos sobre clima e energia limpa”, disse Esra Erkal, vice-presidente executiva de comunicações da Elsevier.
A Elsevier não está sozinha no relacionamento com pesquisadores climáticos e executivos de combustíveis fósseis. Vários outros editores de pesquisas climáticas revisadas por pares assinaram o Pacto de Editores de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, ao mesmo tempo em que fazem parceria com a indústria de petróleo e gás de várias maneiras.
The Lancet, um dos principais periódicos da Elsevier, publica um relatório anual sobre como o aquecimento climático afeta a saúde humana. Fotografia: The Lancet
A editora com sede no Reino Unido Taylor & Francis, por exemplo, assinou o compromisso da ONU e divulgou seus próprioscompromissos de zero líquido, ao mesmo tempo em que divulga sua parceria de publicação com a “líder da indústria” ExxonMobil, a empresa petrolíferamais ligadaao obstrucionismo climático na consciência pública. . Outra importante editora climática, a Wiley, também assinou o pacto de sustentabilidade ao publicarvários livros e periódicos destinados a ajudar a indústria a encontrar e perfurar mais petróleo e gás.
“É problemático”, disse Kimberly Nicholas, professora associada de ciência da sustentabilidade na Universidade de Lund, na Suécia, observando que, embora a lavagem verde corporativa seja desenfreada em vários setores, os editores de pesquisas climáticas revisadas por pares têm uma responsabilidade única.
“Se a mesma editora que publica os artigos que mostram definitivamente que não podemos queimar mais combustíveis fósseis e permanecer dentro desse orçamento de carbono também está ajudando a indústria de combustíveis fósseis a fazer exatamente isso, o que isso faz com toda a premissa de validade em torno do pesquisa de clima? Isso é o que é profundamente preocupante nesses conflitos”, disse ela.
Ben Franta, pesquisador da Universidade de Stanford que também publicou estudos em periódicos da Elsevier, observa que o relacionamento da editora com as empresas petrolíferas é indicativo de quão entrelaçada essa indústria está com tantos outros aspectos da sociedade.
“Tudo isso acontece sem que o público em geral saiba e opera para consolidar a indústria”, disse ele. “Para efetuar uma rápida substituição dos combustíveis fósseis, acredito que esses emaranhados precisarão ser expostos e reformados”.
A Elsevier, por sua vez, enfatiza o papel da independência editorial. “Nós não gostaríamos de dizer aos editores de periódicos o que eles podem e não podem publicar”, disse Balisciano. No entanto, esses conflitos geralmente colocam os pesquisadores em uma posição difícil de navegar.
James Dyke, diretor assistente do Global Systems Institute da Universidade de Exeter, ficou surpreso com o fato de a Elsevier estar trabalhando para contradizer os pesquisadores climáticos dessa maneira.
“É difícil acreditar que uma empresa que publica pesquisas sobre os perigos das crises climáticas e ecológicas seja a mesma empresa que trabalha ativamente com empresas de petróleo e gás para extrair mais combustíveis fósseis, o que nos arrasta para o desastre”, disse ele.
Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!]