Grandes empresas de relações públicas são peça central na desinformação climática, diz estudo

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Um novo estudo revisado por pares argumenta que as empresas de relações públicas (RP) são uma força importante na obstrução da comunicação sobre mudanças climáticas nos EUA, influenciando a percepção pública sobre os desafios e soluções para enfrentar o problema.

O artigo “The Role of Public Relations Firms in Climate Change Politics” , publicado na revista Climatic Change, oferece a análise mais detalhada até hoje sobre como as empresas de relações públicas e publicidade têm auxiliado as indústrias de carvão, aço, ferrovia, petróleo e gás, bem como a indústria de energia renovável e grupos ambientais.

Um resumo da pesquisa em andamento do Brown Climate and Development Lab, “Beyond Climate Denial”, também lançado nesta semana, dá detalhes sobre algumas das campanhas e agências – muitas das principais empresas de relações públicas do mundo.

Analisando o período de 1988 a 2020, a pesquisa revela que as campanhas de RP foram bem sucedidas na criação de narrativas que moldaram o discurso das grandes empresas poluidoras sobre as mudanças climáticas. Termos como “carvão limpo”, “gás natural renovável”, “país do carvão”, “pegada de carbono” e “Hora do Planeta” são diretamente atribuíveis às campanhas.

“Nossa análise contínua mostra que as indústrias de combustíveis fósseis dependem das empresas de relações públicas para melhorar sua marca e atingir objetivos legislativos”, disse Cartie Werthman, co-autora do artigo sobre Mudança Climática e principal autora da análise Brown. “Desde a criação de grupos de liderança que levantam apoio de base falso para uma determinada indústria até a realização de campanhas publicitárias contra políticas climáticas, algumas das maiores agências de relações públicas do país ajudaram as empresas de combustíveis fósseis a avançar sua agenda”.

“A obstrução da indústria de combustíveis fósseis à ação climática vai além da desinformação e da negação do clima“, diz Robert Brulle, professor visitante da Universidade de Brown e co-autor do artigo. “Uma parte importante do esforço para obstruir a ação climática envolve o aumento da reputação pública positiva das empresas de combustíveis fósseis e enfatizar os benefícios do uso contínuo de combustíveis fósseis.”

Segundo Brulle, as empresas de RP são uma grande parte do mecanismo que orienta a maneira como a população dos Estados Unidos pensa o tema da mudança climática, da severidade dos impactos climáticos às políticas para enfrentar o problema.

Jogo duplo

A pesquisa revela que muitas das maiores empresas de relações públicas promoveram os interesses dos combustíveis fósseis e, em alguns casos, ao mesmo tempo apoiaram grupos ambientais. As empresas desenvolveram campanhas que frequentemente contavam com grupos de terceiros para se engajar com o público, criticar oponentes e servir como a cara de uma campanha publicitária.

O material suplementar do artigo apresenta perfis detalhados das empresas e das campanhas com as quais elas estiveram envolvidas, desde os primeiros esforços para desacreditar a ciência climática até as campanhas contrárias ao Green New Deal proposto por Joe Biden enquanto candidato à presidência dos EUA.

Aumento do desmatamento na Amazônia coloca em dúvida a capacidade do Brasil de cumprir acordos assinados na COP-26

Brasil assumiu compromisso de zerar o desmatamento até 2030, mas 13,2 km² de florestas foram derrubadas em um ano, aumento de quase 22% em relação aos 12 meses anteriores

desmatamento 2021

Entre 1º de agosto de 2020 e 31 de julho deste ano, o desmatamento na Amazônia atingiu a marca de 13.235 quilômetros quadrados, um aumento de 21,97% em comparação aos 12 meses anteriores. Os dados que constam no monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) vieram a público menos de uma semana após o encerramento da 26ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP-26).

Pesquisadores da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) mostram preocupação em relação à capacidade de cumprir a meta de zerar o desmatamento até 2030. O levantamento do Inpe aponta que a área desmatada na Amazônia é a maior dos últimos 15 anos, quando a série teve início. Mesmo compreendendo a importância de acordos de longo prazo, como as metas assumidas pelo Brasil na COP26, Philip Fearnside, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) e do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa) chama a atenção para a urgência do problema. “É mais fácil prometer algo para 2030 ou 2050, mas precisamos acompanhar recortes mais curtos para avaliar o que vem sendo feito agora. E nesse sentido, o que vemos é uma tendência contrária às promessas feitas pelo governo de reduzir as emissões de gases de efeito estufa e zerar o desmatamento”, avalia. 

Fearnside relaciona o aumento do desmatamento nos últimos anos ao enfraquecimento dos órgãos ambientais e do sistema de fiscalização. “Infelizmente, é evidente que o atual Governo não tem a intenção de combater com rigor os crimes ambientais”. Para o pesquisador, resta saber o que farão os outros países que assinaram o acordo ao lado do Brasil. “As pressões internacionais tendem a aumentar sobre produtos que têm origem em áreas desmatadas. Isso volta-se contra os próprios interesses do país”, frisa Fearnside. 

No Brasil, a maior parte do desmatamento tem relação com ações criminosas, associadas à grilagem de terra. Diante desse cenário, especialistas acreditam que o Brasil tem uma enorme vantagem competitiva em relação aos demais países no potencial de reduzir emissões de gases de efeito estufa no curto prazo. Basta o País fazer com que a lei seja cumprida para reduzir quase a metade das emissões, sem afetar a economia. Isso teria potencial para gerar maior atratividade e agregar valor aos produtos agropecuários.

Para André Ferretti, também membro da RECN e gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário, os acordos assinados pelo Brasil na COP26 foram positivos, tanto em relação ao compromisso de preservar as florestas e zerar o desmatamento, quanto reduzir a emissão do metano na atmosfera, que no Brasil é causado especialmente pelo sistema digestivo dos bovinos. “O desafio agora é fazer valer esses compromissos no dia a dia. Todos os níveis de governo, as empresas, a sociedade civil organizada e todos os cidadãos devem exercer suas responsabilidades de acompanhar e cobrar para que os acordos sejam cumpridos. A conservação da natureza e da nossa biodiversidade precisa ser colocada, de uma vez por todas, como condição essencial para o nosso futuro”, afirma Ferretti.

As decisões sobre a Amazônia são cruciais para o equilíbrio climático e um ponto de não retorno está próximo. “Temos uma enorme quantidade de florestas que pode ou não ser convertida em gases de efeito estufa. Esse risco de desequilibrar ainda mais o clima pode ser concretizado tanto propositalmente, por causa do desmatamento para expansão de áreas agropecuárias, por exemplo, quanto por incêndios florestais causados pelas próprias mudanças climáticas”, alerta Fearnside.

Segundo Fearnside, eliminar o desmatamento seria a forma mais econômica de enfrentar o aquecimento global. “Diferentemente de outros países que têm suas emissões concentradas na energia, nos transportes e em atividades industriais, nossa maior fonte de emissão de gases é o desmatamento e as mudanças no uso do solo. Embora todas as medidas para a adaptação da economia e recuperação de áreas verdes sejam válidas, como ainda temos muita floresta em pé, seria muito mais barato manter o que existe hoje do que gastar fortunas para restaurar áreas ou adaptar toda a nossa economia”, reflete.

Ferretti ressalta que é necessário olhar com muita atenção também para os outros biomas brasileiros. “A situação é muito delicada no Cerrado e na Mata Atlântica, por exemplo, respectivamente os biomas com maior taxa anual de desmatamento e o que foi mais devastado até agora. Precisamos planejar o nosso desenvolvimento socioeconômico em sintonia com a conservação da nossa rica biodiversidade em todo o território, inclusive pensando em mecanismos de adaptação e mitigação às mudanças do clima, especialmente nas cidades, que concentram mais de 80% da população do país”, pontua o gerente da Fundação Grupo Boticário, que participou da COP26, em Glasgow, na Escócia.

Sobre a Rede de Especialistas em Conservação da Natureza

A Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) reúne cerca de 80 profissionais de todas as regiões do Brasil e alguns do exterior que trazem ao trabalho que desenvolvem a importância da conservação da natureza e da proteção da biodiversidade. São juristas, urbanistas, biólogos, engenheiros, ambientalistas, cientistas, professores universitários – de referência nacional e internacional – que se voluntariaram para serem porta-vozes da natureza, dando entrevistas, trazendo novas perspectivas, gerando conteúdo e enriquecendo informações de reportagens das mais diversas editorias. Criada em 2014, a Rede é uma iniciativa da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. Os pronunciamentos e artigos dos membros da Rede refletem exclusivamente a opinião dos respectivos autores. Acesse o Guia de Fontes em www.fundacaogrupoboticario.org.br

Carga perigosa: o degelo de solos permafrost na região do Himalaia intensifica os processos de erosão

himalaiaÁgua derretida e remanescentes da geleira Gangjiaquba aterrissam no Yangtze. Foto: Yinjun Zhou

Por Thomas Berger para o Neues Deutschland 

O sistema duplo de rios do Ganges e Brahmaputra, que serpenteia pelo Nepal e norte da Índia até Bangladesh, o poderoso Mekong com seus inúmeros países que fazem fronteira com a China no sudeste da Ásia ao sul do Vietnã, dentro da China o rio Amarelo (Huang He) e o Yangtze e o Tarim é o maior rio da Ásia Central, mais o Indo, no oeste – há vários cursos de água poderosos que se originam do extenso Himalaia. Por centenas, até milhares de anos, as pessoas se adaptaram à quantidade de água que esses rios transportam, muitas vezes com estações diferentes. Mas não se trata apenas de água pura: sedimentos dos mais variados tipos também seguem seu caminho – alguns deles apenas do tamanho de partículas de poeira (a chamada carga suspensa) até pequenos seixos, outros podem ser descritos como escombros. Às vezes, eles cobrem vários milhares de quilômetros: a Baía de Bengala, para a qual fluem os deltas do Ganges e do Brahmaputra, é considerada o maior depósito de sedimentos do mundo. Este material tem como ponto de partida o “teto do mundo”. E embora a carga original nas terras altas do Tibete seja relativamente idêntica em tamanho de grão,

Um estudo que foi publicado na revista científica “Science” (DOI: 10.1126 / science.abi9649) tem como alvo o aumento notável do escoamento de sedimentos. Estes já estão aumentando consideravelmente na meta de 1,5 grau, que também está sendo definida como o nível mais alto na conferência climática mundial COP-26 que ocorreu em Glasgow, Escócia. Pode ser ainda mais perigoso se o aumento da temperatura no final do século estiver próximo de 3 graus. Os cientistas da Universidade Nacional de Cingapura, da Universidade de Colorado Boulder, da Universidade de Potsdam e do Instituto de Pesquisa Científica do Rio Changjiang estão soando o alarme com as descobertas coletadas.  

Atualmente, de acordo com os dados do estudo, são transportados cerca de 1,94 gigatoneladas de sedimentos por ano para jusante. A faixa de flutuação relativamente alta deste valor (± 0,8 gigatoneladas) ilustra como é difícil resumir o fenômeno em números razoavelmente sólidos. No entanto, a tendência ameaçadora é clara: no cenário de 3 graus, as previsões chegam a um aumento para 5,18 gigatoneladas por ano, ou seja, mais de duas vezes e meia. Mesmo os leigos podem entender que isso não pode ficar sem consequências graves.

Descongelamentos mais frequentes devido às mudanças climáticas causa o aumento de distúrbios no solo permafrost e aumento da erosão. Resultado: as massas de água lavam cada vez mais sedimentos das regiões montanhosas. Depois de avaliar os dados dos últimos 60 anos, a equipe chegou à conclusão de que um aquecimento de 1 grau Celsius resulta em um escoamento de sedimentos 32 % maior (± 10%). Por outro lado, porém, quanto mais intacta a cobertura glaciar de uma área de origem, menor será sua suscetibilidade aos processos de erosão. Além disso, não é de forma alguma apenas material inofensivo que está cada vez mais sendo lavado da área central das altas montanhas: Fósforo e metais pesados ​​como cromo, arsênico ou chumbo podem colocar em risco a qualidade da água mais a jusante – um risco para humanos, bem como a agricultura e os ecossistemas aquáticos, é avisado.

Embora dependa da composição específica, em outros casos, o principal problema é  o aumento da massa dos sedimentos. Eles são depositados em reservatórios, por exemplo, reduzindo sua capacidade de armazenamento. Como o fundo devido aos depósitos sobe muito mais rápido do que o normal e planejado durante a construção, a quantidade de água armazenada diminui ao contrário. “O potencial hidrelétrico no Nepal e no Butão atualmente excede seu consumo de eletricidade”, diz o estudo – que pode mudar rapidamente com os depósitos. Isso já pode ser observado com mais clareza do que no sul do Himalaia, no rio Yangtze, a região mais importante da China para o uso de energia hidrelétrica. »O aumento do escoamento de sedimentos terá um efeito negativo nos projetos hidrelétricos existentes e planejados,

Até agora pouco explorado e, portanto, um tópico importante para pesquisas futuras, é o aumento da liberação de carbono orgânico dos solos permafrost nas altas montanhas. Supondo uma parcela de um a três por cento carregada na água, essa quantidade de material poderia somar 50 a 150 megatons por ano em 2050 abaixo do aquecimento máximo observado. E com a deposição de cada vez mais sedimentos nos vales dos rios, havia a ameaça de mais quebra de margens e, mais a jusante, inundações muito mais incalculáveis, segundo outro sinal de alarme.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

COP-26: O Brasil no contexto das mudanças climáticas

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Por Ivan Carneiro Castanheiro*
Combater as mudanças climáticas constitui-se em um dos principais desafios da humanidade neste século. Há reconhecida relevância da comunidade política e científica internacional quanto à importância em se efetuar o planejamento e a gestão ambiental em nível global, continental, por países, estados, municípios, bem como pelas empresas privadas, em especial as corporações de grande porte e as multinacionais (Políticas de ESG). Deve-se buscar a inovação e o desenvolvimento de novas tecnologias e serviços, com vistas a redução e adequação das várias atividades antrópicas, as quais vêm degradando a qualidade do ar, elevando temperatura e ameaça à biodiversidade e à vida e saúde humana no planeta.

Essas atividades intensificaram-se após a segunda guerra mundial, com a revolução industrial e a explosão demográfica, sendo urgente buscar um equilíbrio entre crescimento econômico desordenado, que difere de desenvolvimento econômico sustentável, e a necessidade de expansão de renda, emprego e alimentação, visando atender às necessidades humanas e da economia.

As atividades econômicas e as ações diárias das pessoas, de forma direta ou indireta, geram emissão de gases do efeito estufa (GEE), devendo elas serem adaptadas segundo a melhor tecnologia disponível e em alguns casos reduzidas, visando diminuir a concentração de gases do efeito estufa (GEE) na atmosfera. Este aquecimento global tem impactos profundos no planeta, contribuindo para o fenômeno da inversão térmica (camadas da atmosfera sofre inversão, ficando as mais frias próximas ao solo, com elevação das camadas mais quentes, gerando dificuldades na circulação do ar e maior concentração de poluentes).

Neste diapasão, de se consignar que a variação climática experimentada não é natural, extrapolando os parâmetros históricos. Segundo anotado pelos autores da cartilha produzida pela ABRAMPA (Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público), com base em informações do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais): “as consequências do aumento de temperatura são graves para todos os seres vivos, incluindo o homem. Vale elencar alguns efeitos do aquecimento global: extinção de espécies animais e vegetais, alteração na frequência e intensidade de chuvas (interferindo, por exemplo, na agricultura e na saúde), elevação do nível do mar e intensificação de fenômenos meteorológicos (por exemplo: tempestades severas, inundações, vendavais, ondas de calor, secas prolongadas), entre outros.”

Para tentar evitar este cenário catastrófico que se avizinha, por meio das ações da COP-26 (Conferência do Clima), instância máxima da Organização das Nações Unidas (ONU), vinham sendo negociadas ações efetivas de combate à elevação da temperatura da terra em no máximo 1,5 °C. Entendem muitos cientistas que este é o último momento que temos para agir, de forma eficaz, visando evitar os eventos climáticos extremos e seus devastadores efeitos sobre o planeta ou porções dele.

Entretanto, a COP-26, realizada em Glasgow, na Escócia, encerrada no último dia 13 de novembro, ainda que tenha reconhecido a importância de combater as causas das mudanças climáticas, obtido o consenso científico em torno da necessidade de redução dos gases de efeito estufa, bem como a redução ilegal dos desmatamento e as queimadas florestais, o que ocorre especialmente em função das atividades agropecuárias em extensas áreas florestais, como no Bioma Amazônico, deixou muito a desejar quanto aos acordos formalmente assumidos pelas nações desenvolvidas.

Os aportes financeiros anuais que se destinariam a combater os efeitos deletérios nos ecossistemas ainda preservados ou que necessitem de recuperação, nos 134 países do denominado G-77, não viera como era esperado. Assim, é de se concluir que as promessas e declarações favoráveis dos grandes líderes mundiais na defesa do Meio Ambiente ficaram mais nas intenções do que nas ações, nada obstante os positivos efeitos de manifestações da sociedade civil, incluindo os jovens.

Fazia-se necessário um efetivo comprometimento com a redução dos gases do efeito estufa, decorrentes do uso de combustíveis fósseis (carvão e petróleo). É bem verdade que a precificação do carbono, via crédito de carbono, alivia um pouco o balanço das emissões, mas por outro lado acaba se constituindo em uma espécie de salvaguarda para justificar as atividades poluentes, distorcendo o princípio do poluidor-pagador.

Países altamente poluentes, como a China (emissão de 5 bilhões de toneladas de carvão por ano), Índia e Estados Unidos (onde estão as grandes companhias de petróleo), os três principais emissores de combustíveis fósseis em ordem decrescente, pouco se comprometeram, até porque a China nem mesmo compareceu à conferência.

Por outro lado os conhecimentos científicos acabaram sendo relegados, adiando-se os compromissos com os direitos fundamentais e com a democracia participativa na área ambiental, promovendo-se uma injustiça climática contra a humanidade, que não foi ouvida nas tomadas de decisões, em nome de uma disputa pela hegemonia econômica entre China e EUA.

Perde-se, assim, a oportunidade de mitigar e adaptar as atividades econômicas aos efeitos das mudanças climáticas, bem como se estabelecer um modelo de governanças internacional quanto às políticas públicas ambientais. Entretanto, a poluição ambiental e seus efeitos deletérios à humanidade e à biodiversidade não respeita fronteiras geopolíticas e nem fica na dependência de posicionamentos ideológicos de governos, devendo ser política de cada um dos países.

No tocante ao Brasil, seu chefe maior nem mesmo compareceu pessoalmente à COP-26, preferindo outras agendas internacionais, perdendo uma oportunidade de demonstrar que o Brasil quer se habilitar a receber recursos financeiros de outros países e da atividade privada. Perde-se a oportunidade de se dar efetivo passo rumo à economia verde e mudar os paradigmas do agronegócio, em especial aos olhos do mundo. Prejudica-se, o mercado para exportação. Não se pode perder de vista que o Brasil é exportador de commodities e altamente vulnerável a boicotes internacionais, decorrente de sua política antiambiental praticada nos últimos tempos.

Em resumo, observamos que os resultados da COP-26 constituíram-se em pequenos avanços, como por exemplo a substituição da eliminação dos combustíveis fósseis por mera menção à redução dos níveis de sua emissão, o que não atende às necessidades do estado de emergências climáticas em que já entramos, segundo renomados cientistas.

Urgente que alteremos as matrizes energéticas do país, substituindo a energia hidrelétricas por energia solar e energia eólica, com incentivos fiscais e financiamentos subsidiado por órgãos governamentais. Importante a implantação de equipamentos veiculares redutores de emissão de gás carbônico, bem como de veículos elétricos, hoje 10% da frota europeia.

Apesar da conjuntura geopolítica não favorável, bem como dos prejuízos decorrentes da retomada econômica no pós-COVID, este ainda não encerrado e que continua a ameaçar a economia mundial, urge que as medidas ambientais sejam retomadas em prol da garantia do futuro da humidade e dos ecossistemas, pois a natureza não pode esperar e a Terra não é resiliente o suficiente, já estando no limite de sua capacidade ecológica.

Passa do momento de substituirmos as palavras por ações, com as adaptações nas atividades econômicas, visando minimizar os efeitos deletérios das emissões de GEE no aquecimento global, adaptando-se as atividades econômicas poluentes, com absorção das externalidades negativas ao preço dos produtos e serviços oferecidos no mercado.

Deve-se construir um consenso internacional para apoio financeiro dos países desenvolvidos aos países pobres e em desenvolvimento, e não apenas haver transferência de tecnologia.

Necessário que o governo brasileiro efetivamente aja para demonstrar à comunidade internacional que mudou seus parâmetros de política ambiental. Do contrário, não haverá disposição de líderes mundiais das grandes potências e nem dos conglomerados internacionais, em investirem em um país que não zela pela proteção de seus bens naturais, considerados o celeiro do mundo, constituindo-se em um risco ao planeta e para a economia, graças ao passivo ambiental que vem gerando ao longo do tempo, inclusive com riscos às instituições financeiras.

O Brasil é reconhecido como um país-chave no equilíbrio climático do planeta, mas precisa se comportar como tal na mesa de negociações, construindo, de maneira madura, consensos e não produzindo dissensos. Antes de fazermos exigências por investimentos a fundo perdido no país, precisamos transformar promessas vagas em planos detalhados de ações, com cronogramas factíveis e cumpri-los. Só assim poderemos passar a gozar de credibilidade internacional e termos condições de impor nossos legítimos anseios e objetivos de contarmos com ajuda internacional para nos auxiliar na proteção ambiental do planeta, sem sacrificarmos a população e nosso produto interno bruto.

O Brasil, alheio aos anseios mundiais por um meio ambiente provedor de dignidade humana, e na contramão da história, perde mais uma oportunidade de compatibilizar economia e desenvolvimento econômico sustentável, tal qual previsto no artigo 170, inciso VI e art. 225 da Constituição Federal. A defesa do meio ambiente na legislação brasileira está na Carta Magna, não se tratando de ideologia de ambientalista, como alguns querem fazer parecer. Até porque meio ambiente faz parte do sistema de direitos humanos, por se tratar de direito fundamental, com proteção garantida em tratados internacionais, dos quais o país é signatário.

Ivan Carneiro Castanheiro é promotor de Justiça (GAEMA – MPSP), mestre em Direito pela PUC-SP, membro do MPD, Prof. da ESMP-SP e da UNIP e vice-diretor ABRAMPA – Região Sudeste.
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Este texto foi originalmente publicado pelo jornal “O Estado de São Paulo” [Aqui!].

COP-26: Não apenas absurdo, mas criminoso

As conferências do clima da ONU fazem parte do sistema imperialista mundial como a OMC, G20 ou G7. Uma entrevista com Christian Zeller, geógrafo da Universidade de Salzburg

net zeroProtestos paralelos por mais proteção climática durante a realização da COP 26 em Glasgow (6 de novembro de 2021)

Por Jakob Reimann para o JungeWelt

A 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática em Glasgow terminou na semana passada. A COP 26 se tornou uma cúpula histórica conforme anunciado?

Qualquer pessoa bem-humorada e talvez um pouco ingênua enfatiza os seguintes pontos na declaração final: Os governos estão comprometidos com o objetivo de limitar o aquecimento a 1,5 grau em comparação com 1850. Uma lenta eliminação do carvão deve ser iniciada. Espera-se que as emissões de gases de efeito estufa caiam 45% nesta década, em comparação com 1990. Os governos devem melhorar seus compromissos de redução de emissões e apresentar relatórios anuais. Mas, em última análise, tudo isso permanece muito geral e não vinculativo. Não custa nada alardear objetivos para o mundo.

A retórica do zero líquido em 2050 revela que os governos estão apostando em uma solução tecnológica. Isso é irreal e repleto de riscos enormes. O chamado “Zero líquido” desenvolve justificativas para que as empresas e seus governos continuem em seu curso anterior. Em algum momento, você será capaz de extrair quantidades gigantescas de CO2 da atmosfera e armazená-lo em algum lugar. Isso não é apenas um absurdo, mas também uma perspectiva criminosa. Falando de forma realista: a COP 26 é mais uma demonstração dos governos de que eles estão conscientemente mantendo a Terra em um caminho de aquecimento, e que estão sobrecarregando a sociedade global, especialmente os pobres, com consequências amargas.

Alok Sharma, presidente da conferência , descreve o chamado Pacto Climático de Glasgow como ” sem precedentes e realmente significativo ” .

Sim, a COP 26 foi significativa porque mostrou ao movimento climático e ao mundo todo mais claramente do que nunca que não se trata de falta de coragem por parte dos governantes, mas das limitações do modo de produção capitalista. Glasgow deixou claro que os governos continuam no curso que escolheram. A COP 27 acontecerá em Sharm El Sheikh, no Egito, sob a supervisão do ditador Al-Sisi, a COP 28 dos Emirados Árabes Unidos, cuja riqueza é em grande parte baseada no petróleo. O movimento climático deve parar de seguir as decisões dessas conferências. A COP pertence ao sistema imperialista mundial, tal como a OMC, o G20 ou o G7.

Em 2015, na COP 21 em Paris, decidiu-se limitar o aumento da temperatura global em comparação com a era pré-industrial a 1,5 grau, se possível. Atualmente, estamos cerca de 1,2 grau acima do ano de 1850. O que esses números significam?

Se os governos implementassem seus compromissos nacionais de redução dos gases de efeito estufa, o mundo provavelmente teria se aquecido em uma média de 2,7 graus até o final do século. Agora sabemos por experiência própria que os governos nem mesmo honram seus compromissos inadequados. Em outras palavras, é muito provável que o desenvolvimento real resulte em um aquecimento de pelo menos três graus até o final deste século. No entanto, as áreas de terra estão aquecendo cerca de uma vez e meia mais. O Ártico provavelmente aqueceria duas vezes mais rápido em comparação com a média. O sistema de aterramento ultrapassará os pontos de inflexão, o que significa que o processo de aquecimento assumirá uma dinâmica própria incontrolável.

Em breve, os semáforos compostos por SPD, Verdes e FDP presumivelmente governarão em Berlim, todos os três partidos estão mais ou menos apegados à abordagem do chamado crescimento verde. O capitalismo verde é uma contradição em termos?

O semáforo foca na modernização verde e nas medidas tecnológicas. O crescimento verde é uma contradição em termos. O modo de produção capitalista é baseado na acumulação de capital. Se gaguejar, escorregamos para uma crise com todas as consequências associadas como desemprego, empobrecimento, etc. O processo de acumulação de capital é sempre ao mesmo tempo um processo de conversão de material biológico, físico e químico, que por sua vez converte energia. Não podemos escapar desse contexto. A modernização verde baseia-se na construção de uma infraestrutura para energias renováveis ​​com matérias-primas baratas, que por sua vez se baseia na pressão dos países imperialistas para baixo dos preços das matérias-primas. Condições neocoloniais acenam. Estou com medo,

As variedades de esquerda de um New Deal Verde, como aquelas representadas nos EUA por Alexandria Ocasio-Cortez e Bernhard Sanders, farão justiça à urgência da crise?

Eu concordo com as variantes de esquerda de um New Deal Verde, na medida em que as preocupações econômicas, sociais e culturais das classes trabalhadoras devem igualmente ser derramadas em um programa alternativo sob as condições de natureza limitada. Mas as propostas do New Deal Verde são, em certa medida, a variante de esquerda da modernização capitalista. Eles não questionam o poder do capital e a compulsão de acumular e crescer. Mesmo os New Deal verdes de esquerda não abalam a propriedade privada de instalações de produção estratégicas. Eles acham que o capitalismo pode ser domado socialmente e organizado de uma forma mais amiga do ambiente. É uma ilusão. Não existe margem de manobra econômica e material-energética para isso. Novos negócios verdes não são uma política real, eles são irreais.

Em sua pesquisa, você fala do capitalismo antropoceno. O que significa o termo?

Com a industrialização capitalista e o início da dinâmica de crescimento, as sociedades intervieram cada vez mais drasticamente no sistema terrestre. Tão forte que, com a grande aceleração após a Segunda Guerra Mundial, finalmente entramos em uma nova época geológica. O Holoceno estável e habitável dos últimos 12.000 anos é história, e estamos na era do Antropoceno dominado pelo homem. O sistema terrestre está se tornando cada vez mais instável e mudando rapidamente. Qualquer estratégia política que dependa de mudanças incrementais é construída sobre a areia nesta situação altamente instável.

Você literalmente representa posições radicais e clama por uma revolução eco-socialista. Com o que se parece?

A meta de 1,5 grau requer uma reconstrução e desmontagem historicamente únicas de grandes partes de todo o aparato produtivo de nossas sociedades. Isso só é possível se rompermos com a compulsão de acumular mais e mais capital e maximizar o lucro e superar o modo de produção capitalista – não apenas teórica e abstratamente, mas muito especificamente em nossas demandas cotidianas.

Precisamos de uma sociedade que produza menos e de forma diferente, transporte menos, cuide mais das pessoas e da natureza, compartilhe riquezas de forma justa e tome decisões em conjunto. Uma convulsão eco-socialista na sociedade visa a apropriação social democrática da produção, do setor financeiro e da infraestrutura de transporte e requer uma expansão massiva da infraestrutura pública, em grande parte gratuita. Só assim a sociedade pode ser organizada de forma democrática, socialmente justa e ecologicamente compatível. O objetivo central de uma alternativa eco-socialista é a divisão justa das horas de trabalho socialmente necessárias. Que significa,

Que papel os movimentos, especialmente os jovens, como Fridays for Future ou Extinction Rebellion, desempenham em seus conceitos?

O movimento climático internacional deve consistentemente e, em princípio, em todos os lugares, tomar o lado dos oprimidos. Movimentos como sexta-feira para o futuro são cruciais. Eles ajudam a mudar o equilíbrio social de poder. Nós, nos países ricos, devemos lutar junto com os movimentos sociais de outras partes do mundo para garantir que os países imperialistas, isto é, os grandes grupos de capital, paguem sua dívida ecológica. Isso significa que eles têm que apoiar financeiramente a reestruturação ecológica dos países pobres. Em primeiro lugar, isso significa que o movimento climático deve atender à demanda de alívio da dívida dos países pobres. Ao mesmo tempo, é importante aprendermos a pensar estrategicamente nesses e com esses movimentos. Temos que desenvolver abordagens de poder de contrapeso social concreto. Em casa no trabalho na escola, na universidade, em todos os lugares. É importante construir suas próprias estruturas estáveis. Um movimento eco-socialista defende que essas abordagens de contrapoder combinam e, em última análise, levam a um processo que fundamental e praticamente supera as estruturas de poder e propriedade existentes. Esse é o processo revolucionário.

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Este texto foi inicialmente escrito em alemão e publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].

Seminário Internacional de Mudanças Climáticas discutirá resultados da COP26 e impactos no Brasil

Evento, que será realizado online nos dias 06 e 07 de dezembro, conta com especialistas como Filipe Duarte Santos, presidente do CNADS – Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável de Portugal; Thelma Krug, vice-presidente do IPCC – Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas; Carlos Nobre, pesquisador sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP e presidente do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas. As inscrições estão abertas. 

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A ABES – Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental vai realizar o Seminário Internacional de Mudanças Climáticas nos dias 06 e 07 de dezembro. O evento será online e as inscrições já estão abertas. As inscrições podem ser feitas no site https://mudancasclimaticas.xtage.com.br/pt/usuario/index

O evento discutirá, na esteira da realização da COP26 (em novembro, na Escócia), as resoluções da conferência internacional e os impactos das alterações climáticas em todo o planeta, apresentando dados e ideias de modo preciso, transparente e qualificado e contribuindo com o avanço das discussões e soluções para esse cenário climático tão desafiador.

O seminário reunirá especialistas e organizações do Brasil e de outros países em torno de aspectos relevantes das mudanças climáticas, abordando temas como impactos setoriais, efeitos sociais e econômicos, estratégias de enfrentamento e soluções. Os participantes também vão abordar eventos extremos no mundo e no Brasil, além de falar sobre crise hídrica. 

Entre os palestrantes confirmados estão Filipe Duarte Santos, presidente do CNADS – Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável de Portugal; Thelma Krug, vice-presidente do IPCC – Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas; Carlos Nobre, pesquisador sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP e presidente do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas; José Marengo, climatologista, meteorologista e coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais do Cemaden – Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais; Ricardo Daruiz Borsari, diretor Metropolitano da Sabesp; o consultor Jerson Kelman, Miguel Ivan Lacerda de Oliveira, diretor do Instituto Nacional de Meteorologia, e Josilene Ferrer, assessora da Presidência da CETESB – Companhia Ambiental do Estado de São Paulo. 

Participam também Miguel Ivan Lacerda de Oliveira, diretor do INMET – Instituto Nacional de Meteorologia; Marcella Ungaretti, head da LatAm Business Development da XP Investimentos; Sérgio Barroso, do CEDRU – Centro de Estudos e Desenvolvimento Regional e Urban​o, e Luis Fuente Arruga​, International Finance Corporation – Banco Mundial.

O seminário é uma realização das Câmaras Temáticas da ABES de Meio Ambiente e de Gestão Recursos Hídricos e das Câmaras Técnicas da ABES Seção São Paulo de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas e de Recursos Hídricos.

Acesse o site para conferir a programação na íntegra: https://abes-dn.org.br/abeseventos/mudancasclimaticas21/resumo-paineis/.  

Sobre a ABES 

Com 55 anos de atuação, a Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental – ABES é uma associação com fins não econômicos, que reúne no seu corpo associativo cerca de 10.000 profissionais do setor. 

A força da ABES está em seus associados. 

A ABES tem como missão ser propulsora de atividades técnico-científicas, político-institucionais e de gestão que contribuam para o desenvolvimento do saneamento ambiental, visando à melhoria da saúde, do meio ambiente e da qualidade de vida das pessoas.  

É a associação brasileira que reúne a diversidade de profissionais e organizações do setor: empresas públicas e privadas, governos, prestadores de serviços, fornecedores, universidades e profissionais de diversas faixas etárias e várias áreas relacionadas ao saneamento, além da engenharia. 

ABES, há 55 anos trabalhando pelo saneamento e pela qualidade de vida dos brasileiros. www.abes-dn.org.br

Serviço:

Seminário Internacional de Mudanças Climáticas 

Quando:  6 e 7 de dezembro – online

Mais informações e inscrições: https://mudancasclimaticas.xtage.com.br/pt/usuario/index

Lançamento da Editora Blucher explica a falta de ação frente às mudanças climáticas

“A psicologia das mudanças climáticas” mostra o contraste entre evidências crescentes do caos climático e a preocupação decrescente por parte da população

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A ciência vê as mudanças climáticas como caóticas para a humanidade. Então por que há pessoas pouco preocupadas com isso, apesar de o assunto estar na pauta do dia com a COP26? O livro A psicologia das mudanças climáticas , recentemente publicado pela Editora Blucher, reúne as principais conclusões da Psicologia em resposta a esta questão.

Originalmente publicada em inglês (Routledge, 2018), a obra faz parte da coleção A psicologia das coisas, que apresenta ao leitor conhecimentos cientificamente consolidados sobre temas diversos em linguagem clara e acessível.

Em A psicologia das mudanças climáticas, o professor Geoffrey Beattie e a pesquisadora Laura McGuire evidenciam uma contradição eminente: com catástrofes naturais aumentando em frequência e intensidade, cada vez mais pessoas sentem na pele o impacto do caos climático. Ainda assim, poucos se engajam para evitar que a situação se agrave.

Aos olhos da ciência, as mudanças climáticas são alvo de consenso ímpar, assim como o principal contribuinte a seu agravamento: o ser humano. O uso da energia e da terra, o crescimento populacional e os padrões de consumo cotidianos são responsáveis por emissões crescentes de gás carbônico, um dos principais gases responsáveis pelo efeito estufa.

Ações simples, como comer menos carne e reciclar, teriam grande impacto se adotadas. Além disso, a conscientização e a pressão da sociedade sobre governos são importantes para a adoção de medidas e tecnologias que ajudem a diminuir as emissões de gases de efeito estufa. Mas a Psicologia evidencia que a falta de ação envolve crenças culturais, políticas e religiosas fortemente arraigadas, associadas a uma série de vieses presentes em nossas formas de agir no cotidiano.

Questão de viés
A Psicologia distingue dois sistemas cognitivos, distintos e complementares. Um é racional, lógico. O outro, irracional, não costuma ponderar sobre as coisas. Automaticamente, associa ideias diversas, resultando em impressões e sentimentos com grande influência sobre nosso julgamento.

Os autores destacam que muitas campanhas de conscientização falham por depositar sua confiança na racionalidade do ser humano. O problema é que nosso sistema lógico costuma defender as emoções e impressões do sistema irracional. Sem examiná-las, busca argumentos e informações coerentes com as crenças dele originadas, adotando o chamado viés de confirmação.

Há vieses diversos que acompanham este processo. Os vieses espacial e temporal, por exemplo, dizem respeito à crença de que as chances de algo ruim acontecer com alguém em outro lugar ou época seriam maiores do que de acontecer aqui e agora, conosco.

Outro exemplo é o viés de otimismo, que diz respeito às diferentes formas de processar o mundo e são inconscientemente adotadas pelos otimistas. Respostas emocionais muitas vezes nos guiam a crenças errôneas sobre benefícios e riscos de atitudes diversas, com tendência a subestimar o perigo e não tomar atitudes que poderiam preveni-lo.

Então como promover mudanças? Geoffrey Beattie e Laura McGuire trazem a indústria do cigarro à conversa para entendermos as poderosas lições de suas propagandas. A chave pode estar em considerar os lados racional e emocional da mensagem, despertando a emoção certa para que a necessidade de preservar o planeta seja vista como oportunidade, e não sacrifício.

Sobre os autores – Geoffrey Beattie é professor de Psicologia na Universidade Edge Hill. Autor de mais de vinte livros, foi eleito, em 2018, fellow da Royal Society of Arts por sua contribuição à pesquisa sobre mudança social. É supervisor do mestrado no Programa de Liderança em Sustentabilidade na Universidade de Cambridge e professor visitante na Escola Bren de Ciência e Gestão Ambiental na Universidade da Califórnia.

Laura McGuire é assistente de pesquisa em pós-doutorado na Universidade Edge Hill. Ela explora as possíveis barreiras psicológicas que impedem que as pessoas tenham uma vida mais sustentável. Foi assistente de pesquisa na Universidade de Manchester de 2007 a 2011 e trabalhou como assistente de pesquisa no Instituto de Consumo Sustentável na Universidade de Manchester de 2011 a 2012.

Ficha técnica:
Título: A psicologia das mudanças climáticas
Autores: Geoffrey Beattie e Laura McGuire
Número de páginas: 128
Formato: 14 x 21 cm
Preço: R﹩ 35,00
ISBN: 9786555062267

Noam Chomsky: Tomaremos o caminho para um futuro habitável ou deixaremos as corporações destruir a Terra?

O autor americano e ativista climático Stan Cox conversou com seu compatriota Noam Chomsky sobre a possibilidade de garantir um futuro habitável para nossos filhos e netos. Chomsky é muito positivo em relação às ações atuais sobre o clima dos jovens em todo o mundo. “Estas são as escolhas que enfrentamos. Não tenho muitos anos restantes, mas outros têm. A possibilidade de um futuro justo e sustentável é real e ainda há muito que podemos fazer para torná-lo realidade antes que seja tarde demais. ”

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O lingüista e ativista político norte-americano Noam Chomsky. (Foto de Heuler Andrey / AFP via Getty Images)

Este mês marcará um momento crítico na luta para evitar a catástrofe climática. Na cúpula do clima global COP26, que começará na próxima semana em Glasgow, Escócia, os negociadores enfrentarão a necessidade urgente de tirar a economia mundial do caminho normal que levará a Terra a até 3 graus Celsius de excesso aquecimento antes do final deste século, de acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). No entanto, até agora, as promessas das nações ricas de reduzir as emissões de gases do efeito estufa têm sido fracas demais para conter o aumento da temperatura. Enquanto isso, os planos climáticos do governo Biden estão em jogo. Se o Congresso não aprovar o projeto de lei de reconciliação, a próxima oportunidade para os Estados Unidos tomarem uma ação climática eficaz pode não surgir até que seja tarde demais.

Nas últimas décadas, Noam Chomsky tem sido uma das vozes mais enérgicas e persuasivas no confronto com a injustiça, a desigualdade e a ameaça representada pelo caos climático causado pelo homem para a civilização e a Terra. Eu estava ansioso para saber as opiniões do professor Chomsky sobre as raízes de nossa terrível situação atual e sobre as perspectivas da humanidade de emergir desta crise para um futuro habitável. Ele gentilmente concordou em falar comigo por meio de um bate-papo por vídeo. O texto aqui é uma versão resumida de uma conversa que tivemos em 1º de outubro de 2021.

O professor Chomsky, hoje com 92 anos, é autor de vários best-sellers políticos, traduzidos para várias línguas. Suas críticas ao poder e à defesa em nome da agência política da pessoa comum inspiraram gerações de ativistas e organizadores. Ele é professor emérito do Instituto de Tecnologia de Massachusetts desde 1976. Seus livros mais recentes são Consequences of Capitalism: Manufacturing Discontent and Resistance , com Marv Waterstone, e Climate Crisis and the Global Green New Deal: The Political Economy of Saving the Planet, com Robert Pollin e CJ Polychroniou.

—Stan Cox

Stan Cox: A maioria das nações que se reunirão em Glasgow para a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, de 31 de outubro a 12 de novembro de 2021, fizeram promessas de redução de emissões. Na maioria das vezes, essas promessas são totalmente inadequadas. Que princípios você acha que deveriam guiar o esforço para prevenir uma catástrofe climática?

Noam Chomsky: Os iniciadores do Acordo de Paris pretendiam ter um tratado vinculativo, não acordos voluntários, mas havia um impedimento. É chamado de Partido Republicano. Estava claro que o Partido Republicano nunca aceitaria nenhum compromisso vinculativo. A organização republicana, que perdeu qualquer pretensão de ser um partido político normal, dedica-se quase exclusivamente ao bem-estar dos super-ricos e do setor corporativo, e não se preocupa absolutamente com a população ou com o futuro do mundo. A organização republicana nunca teria aceitado um tratado. Em resposta, os organizadores reduziram seu objetivo a um acordo voluntário, que contém todas as dificuldades que você mencionou.

Perdemos seis anos, quatro sob o governo Trump, que se dedicou abertamente a maximizar o uso de combustíveis fósseis e desmontar o aparato regulatório que, em certa medida, havia limitado seus efeitos letais. Até certo ponto, esses regulamentos protegiam setores da população da poluição, principalmente os pobres e as pessoas de cor. Mas são eles que, é claro, enfrentam o principal fardo da poluição. São as pessoas pobres do mundo que vivem no que Trump chamou de “países de merda” que mais sofrem; eles são os que menos contribuem para o desastre e são os que mais sofrem.

Não tem que ser assim. Conforme você escreve em seu novo livro, O caminho para um futuro habitável, há de fato um caminho para um futuro habitável. Existem maneiras de ter políticas responsáveis, sãs e racialmente justas. Cabe a todos nós exigi-los, algo que os jovens de todo o mundo já estão fazendo.

Outros países têm suas próprias responsabilidades, mas os Estados Unidos têm um dos piores registros do mundo. Os Estados Unidos bloquearam o Acordo de Paris antes que Trump finalmente assumisse o cargo. Mas foi sob as instruções de Trump que os Estados Unidos retiraram-se totalmente do acordo.

Se você olhar para os democratas mais sãos, que estão longe de serem inocentes, existem pessoas chamadas moderadas como o senador Joe Manchin (D-WV), o principal recebedor de financiamento de combustíveis fósseis, cuja posição é a das empresas de combustíveis fósseis , que é, como ele disse, sem eliminação, apenas inovação. Essa também é a visão da Exxon Mobil: “Não se preocupe, nós cuidaremos de você”, dizem eles. “Somos uma empresa com alma. Estamos investindo em algumas formas futurísticas para remover da atmosfera a poluição que estamos despejando nela. Tudo está bem, apenas confie em nós.” Sem eliminação, apenas inovação, que pode ou não vir e, se vier, provavelmente será tarde demais e muito limitado.

Pegue o relatório do IPCC que acabou de aparecer. Era muito mais terrível do que os anteriores e dizia que devíamos eliminar os combustíveis fósseis passo a passo, todos os anos, e nos livrar deles completamente dentro de algumas décadas. Poucos dias depois de o relatório ser divulgado, Joe Biden fez um apelo ao cartel do petróleo da OPEP para aumentar a produção, o que reduziria os preços do gás nos Estados Unidos e melhoraria sua posição perante a população. Houve euforia imediata nas revistas de petróleo. Há muito lucro a ser obtido, mas a que custo? Foi bom ter a espécie humana por algumas centenas de milhares de anos, mas evidentemente isso é tempo suficiente. Afinal, a vida média de uma espécie na Terra é aparentemente de cerca de 100.000 anos. Então, por que devemos quebrar o recorde? Por que se organizar por um futuro justo para todos quando podemos destruir o planeta ajudando corporações ricas a ficarem mais ricas?

SC: A catástrofe ecológica está se aproximando de nós em grande parte porque, como você disse uma vez, “todo o sistema socioeconômico é baseado na produção para o lucro e um imperativo de crescimento que não pode ser sustentado.” No entanto, parece que apenas a autoridade estatal pode implementar as mudanças necessárias de forma equitativa, justa e justa. Dada a emergência que enfrentamos, você acha que o governo dos EUA seria capaz de justificar a imposição de restrições de recursos nacionais, como regras para alocação de recursos ou racionamento de ações justas, políticas que necessariamente limitariam a liberdade das comunidades locais e indivíduos em suas vidas materiais ?

NC: Bem, temos que enfrentar algumas realidades. Eu gostaria de ver um movimento em direção a uma sociedade mais livre e justa – produção por necessidade em vez de produção por lucro, trabalhadores capazes de controlar suas próprias vidas em vez de se subordinarem a senhores por quase toda a sua vida. O tempo necessário para ter sucesso em tais esforços é simplesmente muito grande para enfrentar esta crise. Isso significa que precisamos resolver isso dentro da estrutura das instituições existentes, que podem ser melhoradas.

O sistema econômico dos últimos 40 anos foi particularmente destrutivo. Infligiu um grande ataque à maioria da população, resultando em um enorme crescimento da desigualdade e ataques à democracia e ao meio ambiente.

Um futuro habitável é possível. Não temos que viver em um sistema em que as regras tributárias foram alteradas para que bilionários paguem taxas mais baixas do que os trabalhadores. Não temos que viver em uma forma de capitalismo de estado em que os 90% mais baixos dos assalariados de renda foram roubados em aproximadamente US $ 50 trilhões, em benefício de uma fração de 1%. Essa é a estimativa da RAND Corporation, uma estimativa muito subestimada se olharmos para outros dispositivos que foram usados. Existem maneiras de reformar o sistema existente basicamente dentro da mesma estrutura de instituições. Acho que eles deveriam mudar, mas teria que ser em uma escala de tempo mais longa.

A questão é: podemos prevenir a catástrofe climática dentro da estrutura de instituições capitalistas de estado menos selvagens? Acho que há uma razão para acreditar que podemos, e há propostas muito cuidadosas e detalhadas sobre como fazê-lo, incluindo algumas em seu novo livro, bem como as propostas do meu amigo e co-autor, o economista Robert Pollin, que trabalhou muitas dessas coisas em grandes detalhes. Jeffrey Sachs, outro excelente economista, usando modelos um tanto diferentes, chegou praticamente às mesmas conclusões. Essas são basicamente as linhas das propostas da International Energy Association, de forma alguma uma organização radical, que surgiu das corporações de energia. Mas todos eles têm essencialmente a mesma imagem.

Na verdade, existe até uma resolução do Congresso de Alexandria Ocasio-Cortez e Ed Markey que descreve propostas muito próximas disso. E acho que está tudo dentro da faixa de viabilidade. Suas estimativas de custo de 2% a 3% do PIB, com esforços viáveis, não só resolveriam a crise, mas criariam um futuro mais habitável, sem poluição, sem engarrafamentos, e com trabalho mais construtivo e produtivo, melhores empregos. Tudo isso é possível.

Mas existem barreiras sérias – as indústrias de combustíveis fósseis, os bancos, as outras instituições importantes, que são projetadas para maximizar o lucro e não se preocupam com mais nada. Afinal, esse era o slogan anunciado do período neoliberal – o pronunciamento do guru econômico Milton Friedman de que as empresas não têm responsabilidade para com o público ou com a força de trabalho, que sua responsabilidade total é maximizar o lucro para poucos.

Por razões de relações públicas, empresas de combustíveis fósseis como a ExxonMobil muitas vezes se retratam como cheias de alma e benevolentes, trabalhando dia e noite para o benefício do bem comum. É chamado de greenwashing.

SC: Alguns dos métodos mais amplamente discutidos para capturar e remover dióxido de carbono da atmosfera consumiriam grandes quantidades de biomassa produzida em centenas de milhões ou bilhões de acres, ameaçando assim os ecossistemas e a produção de alimentos, principalmente em áreas de baixa renda e baixas emissões nações. Um grupo de especialistas em ética e outros estudiosos escreveu recentemente que um “princípio fundamental” da justiça climática é que “as necessidades básicas urgentes das pessoas e dos países pobres devem ser protegidas contra os efeitos das mudanças climáticas e das medidas tomadas para limitar” o clima mudança. Isso pareceria descartar claramente esses planos de “emita carbono agora, capture-o mais tarde”, e há outros exemplos do que podemos chamar de “imperialismo de mitigação do clima”. Você acha que o mundo pode enfrentar cada vez mais esse tipo de exploração à medida que as temperaturas sobem? E o que você acha dessas propostas de bioenergia e captura de carbono?

NC: É totalmente imoral, mas é uma prática padrão. Para onde vão os resíduos? Não vai para o seu quintal, vai para lugares como a Somália, que não conseguem se proteger. A União Europeia, por exemplo, tem despejado seus resíduos atômicos e outros tipos de poluição na costa da Somália, prejudicando as áreas de pesca e as indústrias locais. É horrível.

O último relatório do IPCC pede o fim dos combustíveis fósseis. A esperança é que possamos evitar o pior e alcançar uma economia sustentável em algumas décadas. Se não fizermos isso, chegaremos a pontos de inflexão irreversíveis e as pessoas mais vulneráveis ​​- as menos responsáveis ​​pela crise – sofrerão primeiro e mais severamente com as consequências. Pessoas que vivem nas planícies de Bangladesh, por exemplo, onde ciclones poderosos causam danos extraordinários. Pessoas que vivem na Índia, onde a temperatura pode passar de 120 graus Fahrenheit no verão. Muitos podem testemunhar partes do mundo tornando-se impossíveis de viver.

Houve relatórios recentes de geocientistas israelenses condenando seu governo por não levar em conta o efeito das políticas que estão adotando, incluindo o desenvolvimento de novos campos de gás no Mediterrâneo. Eles desenvolveram uma análise que indicava que, dentro de algumas décadas, durante o verão, o Mediterrâneo estaria atingindo o calor de uma jacuzzi e as planícies baixas seriam inundadas. As pessoas ainda viveriam em Jerusalém e Ramallah, mas as enchentes afetariam grande parte da população. Por que não mudar de curso para evitar isso?

SC: A economia neoclássica subjacente a essas injustiças vive em modelos de clima econômico conhecidos como “modelos de avaliação integrados”, que se resumem a análises de custo-benefício baseadas no chamado custo social do carbono. Com essas projeções, os economistas estão tentando jogar fora o direito das gerações futuras a uma vida decente?

NC: Não temos o direito de jogar com as vidas das pessoas no Sul da Ásia, na África ou com pessoas em comunidades vulneráveis ​​nos Estados Unidos. Você quer fazer análises como essa no seu seminário acadêmico? Ok, vá em frente. Mas não se atreva a traduzir isso em política. Não se atreva a fazer isso.

Há uma diferença notável entre físicos e economistas. Os físicos não dizem, ei, vamos tentar um experimento que pode destruir o mundo, porque seria interessante ver o que aconteceria. Mas os economistas fazem isso. Com base nas teorias neoclássicas, eles instituíram uma grande revolução nos assuntos mundiais no início dos anos 1980, que decolou com Carter e acelerou com Reagan e Thatcher. Dado o poder dos Estados Unidos em comparação com o resto do mundo, o ataque neoliberal, um grande experimento da teoria econômica, teve um resultado devastador. Não era preciso ser um gênio para descobrir. Seu lema é: “O problema é o governo”.

Isso não significa que você elimine decisões; significa apenas que você os transfere. As decisões ainda precisam ser feitas. Se não forem feitos pelo governo, que está, de forma limitada, sob influência popular, serão feitos por concentrações de poder privado, que não têm responsabilidade perante o público. E seguindo as instruções de Friedman, não têm nenhuma responsabilidade para com a sociedade que lhes deu o presente de incorporação. Eles têm apenas o imperativo de enriquecimento pessoal.

Margaret Thatcher então chega e diz que não existe sociedade, apenas indivíduos atomizados que de alguma forma estão administrando o mercado. Claro, há uma pequena nota de rodapé que ela não se preocupou em acrescentar: para os ricos e poderosos, há abundância de sociedade. Organizações como a Câmara de Comércio, a Mesa Redonda de Negócios, ALEC, todos os tipos de outros. Eles se reúnem, se defendem e assim por diante. Há muita sociedade para eles, mas não para o resto de nós. A maioria das pessoas tem que enfrentar a devastação do mercado. E, claro, os ricos não. As corporações contam com um estado poderoso para salvá-las sempre que houver algum problema. Os ricos precisam ter um estado poderoso – bem como seus poderes de polícia – para garantir que ninguém fique em seu caminho.

SC: Onde você vê esperança?

NC: Jovens. Em setembro, houve uma greve climática internacional; centenas de milhares de jovens saíram para exigir o fim da destruição ambiental. Greta Thunberg recentemente se levantou na reunião de Davos dos grandes e poderosos e deu a eles uma palestra sóbria sobre o que estão fazendo. “Como você ousa”, disse ela, “você roubou meus sonhos e minha infância com suas palavras vazias.” Você nos traiu. Essas são palavras que deveriam ser gravadas na consciência de todos, especialmente pessoas da minha geração que as traíram e continuam a trair a juventude do mundo e os países do mundo.

Agora temos uma luta. Pode ser vencido, mas quanto mais atrasado, mais difícil será. Se tivéssemos chegado a um acordo há dez anos, o custo teria sido muito menor. Se os EUA não fossem o único país a recusar o Protocolo de Kyoto, teria sido muito mais fácil. Bem, quanto mais esperarmos, mais trairemos nossos filhos e netos. Essas são as escolhas. Não tenho muitos anos; outros de vocês fazem. A possibilidade de um futuro justo e sustentável existe e há muito que podemos fazer para chegar lá antes que seja tarde demais.

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Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pelo site “Common Dreams” [Aqui!].

COP 26 chega ao fim em Glasgow

Texto final traz avanços, mas ainda não garante o cumprimento da meta de 1,5ºC

unnamed (40)Ativistas do Greenpeace erguem faixa dizendo “NÃO ESTÁ À VENDA” contra o icônico globo gigante no centro da sala de conferências da COP26 em Glasgow

Glasgow, 13 de Novembro de 2021 – A COP 26 chega ao fim e, apesar de alguns avanços, ainda nos deixa distantes do que seria necessário para garantirmos a meta de 1,5 ºC. O texto final da Conferência do Clima da ONU cita a eliminação progressiva do uso do carvão e dos subsídios aos combustíveis fósseis, mas precisávamos de mais. O texto também traz avanços para as discussões sobre adaptação climática e os países desenvolvidos finalmente começam a responder aos apelos dos países em desenvolvimento por financiamento para lidar com o aumento das temperaturas. No entanto, muito ainda ficou pendente.

“O objetivo em Glasgow era encerrar a lacuna para 1,5 ºC e isso não aconteceu, mas em 2022 as nações terão que voltar com metas mais ambiciosas. A única razão pela qual conseguimos o que fizemos aqui foi porque jovens, líderes indígenas, ativistas e países na linha de frente do clima forçaram concessões que foram feitas de má vontade. Sem eles, essas negociações sobre o clima teriam fracassado completamente”, afirmou Jennifer Morgan, Diretora Executiva do Greenpeace Internacional.

Houve reconhecimento de que os países em situação de vulnerabilidade estão sofrendo perdas e danos reais com a crise climática, mas o que foi prometido até agora ainda está longe das necessidades dos territórios. Essa questão deve estar no topo da agenda dos países desenvolvidos, principalmente na COP 27, que será realizada no Egito, ano que vem. A questão é que as palavras no texto precisam ser, de fato, implementadas pelos países e se tornarem ações.

Com as atuais contribuições apresentadas pelos países, ainda estamos longe do 1,5 ºC – um estudo do Carbon Action Tracker divulgado na COP, apontou para um aquecimento de 2,4 ºC até o final do século se todas as metas para 2030 forem atingidas. Precisamos aumentar a ambição ou estaremos colocando milhões de vidas em risco.

O Brasil deixa a Conferência com a assinatura de dois acordos e o compromisso de revisar sua NDC no ano que vem – assim como todos os países. “Apesar de muito esforço do governo federal para parecer comprometido com o clima e com a preservação da floresta, os dados de desmatamento na Amazônia divulgados na última sexta-feira mostram que mentira tem perna curta”, diz Carolina Pasquali, diretora executiva do Greenpeace Brasil. “Esperamos que essa revisão no ano que vem nos traga ambição – a NDC atual, anunciada aqui na COP, não fez mais do que nos levar de volta aos patamares anunciados pelo governo em 2015”, completa.

Sem freios no desmatamento: DETER – 2021 registra o pior outubro da série histórica

Enquanto governo tenta passar uma maquiagem verde para inglês ver na COP 26, dados comprovam o descontrole do desmatamento na Amazônia

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 São Paulo, 12 de novembro de 2021 – Dados do sistema DETER-B, do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados hoje, apontam para uma área desmatada na Amazônia de 877 km². Os dados contemplam todo o mês de outubro e comprovam um recorde para o mês na série histórica do Deter – B que iniciou em 2016. Ao mesmo tempo em que o Brasil tenta limpar sua imagem durante a COP de Clima, assinando declarações e assumindo compromissos, essa notícia chega para evidenciar como a Amazônia segue sob constante abandono do governo Bolsonaro.

“Enquanto o governo federal tenta vender o Brasil como potência verde na COP 26, a verdade é que o desmatamento em outubro bateu mais um recorde e vem sendo impulsionado pela política antiambiental do presidente, do ministério do meio ambiente com apoio de parte do congresso nacional. Assinar ou endossar os diferentes planos e acordos não muda a realidade do chão da floresta, o desmatamento e queimadas continuam fora de controle e a violência contra os povos indígenas e população tradicional só aumenta”, declara Rômulo Batista, porta-voz da campanha Amazônia do Greenpeace.

Os alertas de desmatamento em outubro se concentraram nos estados do Pará 501 km² (57% do total), Amazonas 116 km² (13% do total) e Mato Grosso 105 km² (12% do total). Estimativas do Observatório do Clima apontam que a maior parte (46%) dos gases estufa emitidos pelo Brasil são provenientes do desmatamento. Os dados de 2020 mostram que o Brasil continua, desde 2010, a ampliar suas emissões. No ano passado, em plena pandemia, o aumento das emissões de gases de efeito estufa no Brasil foi de 9,5%; no restante do mundo, houve redução de cerca de 7%.

“Enquanto o ministro do meio ambiente passeia na COP 26, exaltando que o futuro verde já começou no Brasil, tecendo elogio ao agronegócio brasileiro, o desmatamento continua sem parar na Amazônia e em nenhum momento dessa COP o governo apresentou a verdade que é justamente essa agropecuária “verde” a responsável direta por 73% das emissões de gases do efeito estufa no país e principal motor do desmatamento na amazônia e outros biomas no Brasil ” conclui Rômulo.