Indígenas Munduruku protestam em frente à Blue Zone na COP30 e cobram reunião urgente com Lula

Povos exigem revogação do Decreto 12.600/2025, cancelamento da Ferrogrão e proteção contra grandes empreendimentos dentro do território

Membros do movimento indígena Munduruku Ipereg Ayu aguardam do lado de fora do local da COP30 durante um protesto em Belém, Brasil, em 14 de novembro de 2025

Membros do movimento indígena Munduruku Ipereg Ayu aguardam do lado de fora do local da COP30 durante um protesto em Belém, Brasil, em 14 de novembro de 2025 (AFP/AFP)

Belém (PA), 14 de novembro de 2025 — Na manhã desta sexta-feira (14), indígenas do povo Munduruku, articulados pelo Movimento Ipereg Ayu, realizaram um ato em frente à entrada da Blue Zone da COP30 para cobrar uma reunião emergencial com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O grupo denuncia que o governo federal está avançando com projetos de infraestrutura que ameaçam diretamente o território Munduruku, bem como todos os povos da bacia do Tapajós e Xingu — sem consulta prévia, livre e informada, como determina a Convenção 169 da OIT.

Além dos megaempreendimentos, os Munduruku também protestam contra projetos de crédito de carbono e mecanismos de REDD+ jurisdicional que vêm sendo discutidos no âmbito da COP30 e em negociações governamentais. Para o movimento, tais iniciativas representam formas de “venda da floresta” que retiram autonomia dos povos, permitem a entrada de empresas e intermediários nos territórios e não enfrentam a raiz dos problemas climáticos: o desmatamento industrial, o garimpo, as hidrovias e a expansão da soja.

O principal alvo da manifestação é o Decreto nº 12.600/2025, que instituiu o Plano Nacional de Hidrovias e incluiu o Tapajós, o Madeira e o Tocantins como eixos prioritários para navegação de cargas. Para os Munduruku, o decreto “abre a porteira” para novas dragagens, derrocamento de pedrais sagrados e expansão acelerada de portos privados. “Esse decreto ameaça exterminar nosso modo de vida, porque transforma o rio em estrada de soja. Presidente Lula, o senhor precisa ouvir o nosso povo antes de decidir sobre nosso futuro”, afirma liderança do Movimento Ipereg Ayu.

Dados dos estudos do Inesc mostram que o corredor Tapajós–Arco Norte é hoje um dos principais vetores de avanço do agronegócio sobre a Amazônia. Entre 2010 e 2022, 68% de todo investimento federal em infraestrutura na região foi destinado a corredores de exportação, incluindo BR-163, Terminais de Itaituba/Miritituba e projetos de hidrovias no Tapajós. Em 2023, 47% das exportações de soja do Brasil já saíam pelos portos do Arco Norte — antes, eram 16% em 2010.

Na prática, isso tem efeito direto no território Munduruku. O Inesc e organizações parceiras apontam que:

 • A movimentação de cargas e adubos nas hidrovias do Tapajós explodiu: 167 mil toneladas em 2022, contra apenas 4 mil toneladas em 2019, um salto de mais de 4.000%.

• O crescimento dos portos e barcaças reduz pesca, contamina água e restringe circulação de comunidades ribeirinhas — impactos já denunciados por aldeias Munduruku ao longo dos rios Tapajós e Teles Pires.

• Dragagens emergenciais recentes no Tapajós, feitas sem consulta, mobilizaram sedimentos contaminados e afetaram igarapés usados por aldeias para pesca e navegação.

“Tudo isso acontece sem o Estado nos ouvir. Querem destruir o fundo do rio, querem explodir nossos pedrais sagrados, querem lotar o Tapajós de barcaças para levar soja para fora do Brasil. Quem mora aqui somos nós, não as empresas”, disse uma liderança Munduruku.

O movimento também cobra o cancelamento definitivo da Ferrogrão (EF-170) — projeto planejado para transportar soja desde Sinop (MT) até Miritituba (PA), onde as barcaças seguem pelo Tapajós. Segundo estudos do Ministério dos Transportes, a ferrovia pode multiplicar por seis o volume de grãos enviados pelo rio até 2049. Para os Munduruku, isso significará:

 • Mais portos próximos às aldeias (Miritituba, Itaituba e Trairão já concentram projetos em série);

 • Mais dragagens e risco de explosão de pedrais sagrados;

 • Expansão da soja sobre a borda das terras indígenas e aumento de conflitos fundiários;

 • Contaminação da água e dos peixes por agrotóxicos.

Os Munduruku também cobram do governo federal a aceleração da demarcação das terras indígenas, dos processos parados no Ministério da Justiça e na Casa Civil, e responsabilizam o Estado por conflitos que aumentaram com o avanço da soja.

“Presidente Lula, estamos aqui na frente da COP porque queremos que o senhor nos escute. Não aceitamos ser sacrificados para o agronegócio. Revogue o Decreto 12.600. Cancele a Ferrogrão. Demarque nossas terras. Fora crédito de carbono — nossa floresta não está à venda. Quem protege o clima somos nós, e a Amazônia não pode continuar sendo destruída para enriquecer grandes empresas”, finaliza.

O longo braço do lobby da soja sufoca povos indígenas na Amazônia

Como os gigantes agrícolas do Brasil estão usando a política e os agrotóxicos para expulsar os povos indígenas de suas terras 

Com a construção do terminal de Santarém, em 1998, a empresa norte-americana Cargill lançou as bases para o cultivo industrial de soja no estado do Pará. Foto: Knut Henkel 

Por Knut Henkel, de Açaizal, para o “Neues Deutschland”

Josenildo dos Santos, de 39 anos, é professor da aldeia e, como cacique, uma espécie de chefe da aldeia, representa as cerca de 70 famílias indígenas Munduruku do Açaizal perante as autoridades, na justiça e junto a empresas agrícolas. Estas últimas cultivam soja e milho nas fazendas vizinhas, grandes propriedades rurais, alternando-as. No final do verão, o milho é a cultura dominante na aldeia. A soja tem um ciclo de crescimento de apenas quatro meses , o que complementa as espigas amarelas, que levam de sete a oito meses para serem colhidas.

Especialmente ao redor da cidade amazônica de Santarém , vastas terras agroindustriais se estendem por um planalto. O cultivo de soja começou lá em 1998 – e vem se expandindo continuamente desde então. Isso ocorre frequentemente em terras reivindicadas por comunidades indígenas como os Munduruku em Açaizal. “Os processos judiciais sobre os títulos de propriedade que reivindicamos para áreas onde nossa comunidade vive há cerca de 100 anos estão em andamento desde 2000”, diz dos Santos. “Grandes áreas foram destruídas e plantadas com soja desde então.

A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas começa em 10 de novembro no Brasil – bem no coração de um país onde a floresta amazônica está desaparecendo a um ritmo alarmante. Nossa série mostra a rapidez com que o desmatamento está progredindo – e quais soluções existem para o desenvolvimento econômico sustentável.

O chefe da aldeia representa sua comunidade no longo processo – apoiado pela Igreja Católica. A igreja assessora não apenas o município de Açaizal, mas também pelo menos outras cinco aldeias da região. “Onde quer que os produtores de soja avancem pela Rodovia Transamazônica , as aldeias estão sob pressão e ameaçadas de deslocamento”, explica Gilson Fernando de Jesús Rego, engenheiro agrônomo da Pastoral Rural Católica, em uma noite em Santarém. A rodovia é o elo de transporte mais importante da região.

“Os produtores de soja são muito agressivos, limpando a terra, inventando fatos — eles cultivam soja e pulverizam pesticidas até 15 vezes nos quatro meses entre a semeadura e a colheita.” Rego fala com cautela. Ele se recusa a ser fotografado e só compartilhará um novo estudo sobre conflitos de terra quando for publicado. “O lobby da soja tem um braço longo”, diz ele, em tom de desculpa.

Cultivo de soja no campo de futebol

O início do cultivo de soja no estado do Pará foi a construção de um terminal de soja pela empresa americana Cargill no porto de Santarém. Isso criou a infraestrutura para a expansão massiva do cultivo da planta, cujos grãos também são usados ​​na Europa principalmente como ração animal – em detrimento da floresta tropical. Isso é evidente nos arredores da vila de Açaizal.

Há apenas dez anos, a aldeia, com suas aproximadamente 70 casas, era cercada por uma densa floresta tropical. Pequenos agricultores como Paulo Munduruku caçavam ali, coletando castanhas-do-pará, frutas e plantas medicinais. Mas essa era está chegando ao fim. Hoje, um produtor de soja mora com sua família na aldeia – e continua a se expandir. Há alguns meses, ele exigiu que a comunidade da aldeia desocupasse o campo de futebol. “Ele disse que queria plantar soja lá”, lembra Munduruku, de 62 anos. “Quando eu me opus, junto com um dos meus filhos, ele nos ameaçou. Quase se tornou violento.”

Paulo Munduruku mora em um terreno no centro da aldeia, onde se encontram diversas castanheiras e árvores frutíferas. Ele plantou uma horta para sustentar a si mesmo e à sua família, pelo menos parcialmente. Isso costumava ser muito mais fácil antes da chegada dos produtores de soja. “Hoje, estamos cercados por fazendas de soja que ocuparam terras para as quais solicitamos o título de propriedade.” O ex-cacique recebeu ameaças de morte de produtores de soja diversas vezes porque descreve a situação com clareza.

Burocracia como arma

Este é o caso de muitas comunidades na Amazônia brasileira. Elas frequentemente têm uma relação tensa com as autoridades, que exigem provas de que as famílias vivem na região há muito tempo, que administram o meio ambiente de forma sustentável e que, portanto, têm direito legítimo à terra. Tal burocracia é estranha a muitas comunidades. “Mas sem títulos de terra, é impossível defender a área que habitamos da invasão de sociedades agrárias ou mineradoras”, explica Munduruku, com um gesto de desdém e olhando para seu sucessor, Josenildo dos Santos.

Ambos estão desgastados pela interminável batalha judicial. E veem que os produtores de soja não precisam lidar com tais obstáculos. “Eles compram pastagens de fazendeiros ou pequenos agricultores, mas também deslocam comunidades como a nossa”, critica Santos. “Eles ocupam terras – sem a intervenção do Estado. Pelo contrário: eles até recebem empréstimos.” A razão para isso é óbvia: o lobby da soja tem boas conexões com instituições públicas, pode influenciar significativamente as decisões nos parlamentos regionais e também tem um forte lobby no parlamento nacional em Brasília. O agronegócio controla financeiramente a política brasileira, explica o cientista agrícola Rego.

Moratória suspensa

De fato, os produtores de soja estão continuamente ocupando novas terras. Por um tempo, a moratória da soja acordada em 2006 – destinada a impedir o cultivo de feijão em terras recém-desmatadas – desacelerou essa expansão. No entanto, o acordo foi recentemente suspenso, tornando a soja novamente um dos principais impulsionadores da destruição da Amazônia. As metas climáticas do Brasil são, portanto, prejudicadas, e a população local está sofrendo particularmente com os desertos agroindustriais de milho e soja.

A professora dos Santos está particularmente preocupada com a saúde dos moradores quando agrotóxicos são pulverizados nas imediações da escola. “Náuseas, vômitos e até erupções cutâneas são o resultado. Aqui na aldeia, a maioria está preocupada com os efeitos que os pesticidas podem ter sobre a nossa saúde.” Sabe-se que o glifosato, sob o nome comercial Roundup, é usado no cultivo de soja. Não se sabe se outros agrotóxicos são usados. Os produtores locais de soja permanecem em silêncio sobre o assunto.

No entanto, os industriais agrícolas podem ter desconfiado da presença de uma equipe de pesquisa viajando por Santarém, realizando entrevistas e exames médicos, muitas vezes perto de escolas. Eles visitaram especificamente vilarejos no chamado corredor da soja do estado do Pará, onde o cultivo aumentou significativamente nos últimos anos.

Evidência científica

“Queremos determinar se há alguma mudança na população local”, explica Annelyse Rosenthal Figuerredo, professora da Universidade de Santarém. “Observamos pequenas mudanças nos testes cognitivos e visuais em comparação com o grupo de controle de uma área sem exposição a pesticidas. Também há alterações nas contagens sanguíneas.”

Para Figuerredo, essas são indicações claras dos efeitos negativos do uso generalizado de agrotóxicos. Embora tal descoberta científica não deva surpreender, ela é importante — é a única maneira de as agências governamentais agirem. A comunidade da aldeia de Açaizal espera que o estudo ajude a impor distâncias maiores entre edifícios residenciais e tratores que pulverizam pesticidas no futuro. O estudo ainda não foi publicado. Não está claro se será publicado antes da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas em Belém , que começa em 10 de novembro.

“É claro que sabemos que o estudo causará comoção — e que o lobby da soja tentará desacreditar os resultados e a nós, pesquisadores”, diz Rosenthal Figuerredo. “Nós respeitamos isso. Mas já sabemos de várias escolas onde crianças com intoxicação por agrotóxicos tiveram que ser tratadas em postos de saúde.”

O professor e cacique Josenildo dos Santos também quer se basear justamente nesses casos. “Precisamos de argumentos fortes contra os grandes agricultores que colhem mais soja a cada ano”, afirma. Na safra atual, o total foi de 169 milhões de toneladas — mais de 16 milhões de toneladas a mais do que em 2024. Esse aumento anda de mãos dadas com a superexploração da floresta tropical.


Fonte: Neues Deutschland

Amazônia brasileira tem mais de 80 mil pontos de garimpo, diz nota técnica do IPAM

Pico da atividade ilegal em terras indígenas ocorreu nos anos Temer e Bolsonaro; rios em ao menos 139 territórios são poluídos

destruição garimpo

Uma nota técnica publicada pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) nesta sexta-feira, 26, mostra que há 80.180 pontos de garimpo na Amazônia brasileira em uma área de 241 mil hectares – mais de duas vezes o tamanho de Belém.

Cerca de 10,5% dessa área, ou 25 mil hectares, está em 17 terras indígenas diretamente invadidas. Segundo a análise do IPAM, outras 122 estão em bacias hidrográficas garimpadas, totalizando ao menos 139 territórios e seus rios contaminados pela atividade.

Mesmo a mineração localizada fora dos limites de terras indígenas não está tão longe assim. Ocupando uma área de 84,3 mil hectares, 44% desses pontos de garimpo se fixaram em um raio de até 50 quilômetros das bordas dos territórios.

“O impacto do garimpo tem um alcance muito maior do que a área diretamente afetada por essa atividade. Com isso, os poluentes contaminam rios, solos, fauna e flora que acabam afetando a saúde dos povos indígenas da região”, diz Martha Fellows, coordenadora do núcleo de estudos indígenas do IPAM e autora.

16 vezes mais garimpo

O ápice da invasão de terras indígenas amazônicas pelo garimpo ocorreu de 2016 a 2022, identifica a nota técnica, durante os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro. No intervalo, povos originários viram a atividade crescer 361% em seus territórios. A maior parte (78%) da área invadida por garimpeiros em terras indígenas surgiu nesse período.

A velocidade com que o garimpo chega a terra indígenas é maior do que o avanço da atividade no restante da Amazônia: de 1985 a 2022, a área garimpada cresceu 16 vezes dentro dos territórios; e 12 vezes em todo o bioma.

As terras indígenas Kayapó, Munduruku e Yanomami, nessa ordem, são as mais invadidas. O território Kayapó, habitado por povos Mebêngôkre e isolados às margens do rio Xingu, no Pará, tem 55% de toda a área garimpada em terras indígenas na região. Juntas, as três concentram 90% da área indígena invadida por garimpos.

Dentro das terras Kayapó, a mineração ilegal cresceu 1.339% em 38 anos. No território Munduruku, também no Pará, o aumento foi de 129 vezes no período. E na terra Yanomami, em Roraima e no Amazonas, o garimpo ampliou em mais de 20 mil vezes a área invadida, no mesmo intervalo.

Flexibilização legal

De acordo com a nota técnica, o aumento “sem precedentes” na área de garimpo em terras indígenas e na Amazônia brasileira são explicados pela “flexibilização legal no último ciclo legislativo”.

Uma análise do histórico de regulamentação das atividades minerárias, desenvolvida no estudo, revela direções diferentes adotadas pela legislação.

“Há uma disputa legal para regulamentar a atividade minerária. De um lado, mecanismos legais que buscam garantir a segurança socioambiental; do outro, tentativas de afrouxar e até desrespeitar os direitos indígenas fundamentais”, acrescenta Fellows.

Garantindo a integridade socioambiental de áreas afetadas pelo garimpo está a própria Constituição Federal, por exemplo; enquanto as “facilidades para o exercício dessa atividade”, citam os pesquisadores, se mostram na Lei da Boa-fé (Lei n° 12.844/2013) e no Estatuto do Garimpeiro (Lei n° 11.685 de 2008).

Tornar mais robusta a legislação minerária e indigenista é uma das recomendações da nota, que endossa o seguimento do Projeto de Lei n° 3.025/2023, pela implementação de um sistema de rastreio da produção e comercialização do ouro.

Os autores frisam a necessidade da desintrusão imediata de garimpos em terras indígenas, com prioridade para as mais atingidas. A criação de um plano para evitar a reincidência nos territórios é destacada, com fortalecimento de órgãos de fiscalização em ações articuladas com órgãos indigenistas, visando o respeito aos povos e suas culturas.

Leia a nota técnica (disponível para download).

Uma feminista indígena luta contra a destruição de suas terras no Brasil

korap mundurukuFoto: AFP / Yasuyoshi Chiba

Por  Niklas Franzen para o Neues Deutschland

Estranhos passaram muito devagar pela vila em carros com vidros escuros, tirando fotos e enviando um monte de mensagens. As ameaças, diz Alessandra Korap Munduruku, aumentaram nas últimas semanas. “Sua única maneira é eliminar pessoas como eu.”

Korap é uma ativista dos direitos das mulheres e representante do povo indígena Munduruku. A mulher baixa de 36 anos com o rosto tatuado cresceu às margens do Rio Tapajós, no meio da floresta tropical brasileira. Mas a idílica Amazônia está ameaçada: represas e projetos de mineração poluem a natureza, garimpeiros e madeireiros estão penetrando à força em áreas indígenas, cada vez mais áreas florestais estão dando lugar a pastagens de vacas e campos de soja. Pessoas que resistiram são ameaçadas.

Korap diz que é ativista desde que nasceu. Mas por muito tempo ela não se atreveu a falar publicamente. “Não havia lugar para nós, mulheres, nas reuniões da aldeia. Só os homens falavam. ”Mas quando as escavadeiras chegaram e os garimpeiros começaram seus acampamentos em sua área, a mãe de dois filhos falou cada vez com mais frequência. Hoje, diz ela, muitas mulheres estão na linha de frente da luta. Korap é agora uma das faces mais famosas da floresta amazônica, falou em 20 de setembro de 2019 no Portão de Brandemburgo na frente de 270.000 pessoas no comício final da greve climática global. A associação de mulheres Wakoborûn, que ela cofundou, é considerada uma importante voz do feminismo indígena.

Um projeto em particular preocupa Korap e seus colegas: o Ferrogrão. A linha ferroviária planejada para ser construída na área de Munduruku para transportar soja do sul até os portos do rio Tapajós e de lá diretamente para a Europa e China. Numerosas empresas estrangeiras também ganham dinheiro com negócios sujos na Amazônia. Além disso: para cultivar soja, a floresta tropical deve ser desmatada ainda mais. “Os agrotóxicos usados ​​envenenam nosso rio e os peixes”, diz Korap. “O veneno da soja tem consequências terríveis – tanto para os brancos quanto para nós.”

Korap é uma mulher que não mede as palavras: em 2019, ela dobrou políticos de alto escalão em uma sessão parlamentar. Outra vez, ela atacou diretamente uma empresa de mineração. Um vídeo de seu discurso se tornou viral, inúmeras ameaças de morte se seguiram e Korap foi parar nas listas de morte. E não eram apenas ameaças. Pouco depois do discurso,  a sua casa foi arrombada e  parcialmente destruída. Documentos, um cartão de memória e um telefone celular estavam faltando, outros objetos de valor não. Korap tem certeza: “Foi um aviso.” Há muitos pistoleiros na região – gente que é paga para matar. Por um curto período, ela teve que se esconder. Hoje ela evita aparições públicas, não revela seu paradeiro.

O fato de pessoas como Korap terem que temer por sua saúde também tem a ver com um homem: o presidente Jair Bolsonaro. Já durante a campanha eleitoral, o extremista de direita anunciou que nenhum outro centímetro de terra seria designado como área protegida para comunidades indígenas. Ele insultou os indígenas de forma racista e protestou contra os ambientalistas. Desde a posse em 2019, o governo vem reduzindo sistematicamente as medidas de proteção ambiental e lutando pela exploração comercial da floresta amazônica. Recentemente, o governador do estado de Roraima, aliado do clã Bolsonaro, anunciou que aprovaria a mineração de mercúrio na região. “Isso terá consequências devastadoras para os povos indígenas”, diz Korap.

Nesse ínterim, até defensores da feminista indígena são ameaçados, mais recentemente seu advogado. Korap está com medo? “Não devo mais ter medo”, diz ela com segurança. “Porque tenho que ser um modelo para as outras mulheres.” O único medo: perder o país.

fecho

Este texto foi originalmente escrito e publicado pelo Neues Deutschland [Aqui!].

Como os povos indígenas estão sendo tratados com táticas de salame na Amazônia brasileira

A Amazônia brasileira está passando por um dos seus piores momentos” –  e os povos indígenas estão sendo tratados com táticas de salame. 

Sob o presidente Jair Messias Bolsonaro, os índios continuam sendo pressionados na Amazônia. No estado do Pará, cada vez mais fazendeiros de soja e garimpeiros estão invadindo seus territórios.

mineração

Uma mina ilegal de estanho em Novo Progresso que está sendo protegida por guardas armados (4 de novembro de 2018). (Imagem: Ricardo Moraes / Reuters)

Por Thomas Spleen para o “Neue Zürcher Zeitung

A lancha de alumínio orbita as copas das árvores projetando-se da água no estreito Rio São Sebastião a uma velocidade vertiginosa. Sem os saudar, os Parakanã passam pelos garimpeiros trabalhando em pequenas balsas, que sugam o fundo do rio com mangueiras do tamanho de um homem. De tempos em tempos, os indígenas têm que parar, porque as linhas de abastecimento intrusivas do rio estão no caminho. Então a floresta se abre subitamente de ambos os lados, tocos de árvores queimados e a terra arenosa derrubada pelas dragas dos garimpeiros jazia diante deles. Mas onde os Parakanã deveriam mostrar a mutilação de suas terras?

Na margem norte do rio pertencente à área indígena Apyterewa, que foi demarcada para eles em 2007, há sinais placas de  sinalização que anunciam «terra protegida».  Nessas placas são mostrados o artigo constitucional 231, que deu aos povos indígenas de todo o Brasil os direitos sobre as áreas que tradicionalmente habitavam em 1988, e, além disso, o artigo 18 da lei indígena de 1973, que permite apenas a exploração econômica da terra.  O artigo 161 do Código Penal, que proíbe a supressão ou deslocamento tapume, marco, ou qualquer outro sinal indicativo de linha divisória, para apropriar-se, no todo ou em parte, de coisa imóvel alheia

Receba o que você merece

Mas a área ao longo do poderoso Rio Xingu, no estado do Pará, no norte do Brasil, é vulnerável. O estado é representado apenas por alguns funcionários da Funai e um punhado de policiais. Os milhares de garimpeiros e fazendeiros que penetram cada vez mais profundamente em Apyterewa não são detidos. Desde meados do ano passado, o desmatamento no Xingu vem se acelerando rapidamente, com quatro vezes mais do que nos meses anteriores somente em agosto.

Naquela época, o político populista de direita Jair Messias Bolsonaro de repente se colocou com uma série pretendente a vencer a eleição presidencial. Os ex-militar prometeu abrir as terras indígenas e parques naturais para a mineração. Desde que Jair Bolsonaro assumiu o cargo de presidente em janeiro, os sinais de alerta foram deixados abandonados ao longo das margens do rio. O estado que uma vez fez a demarcação, agora mudou de lado. Embora Bolsonaro ainda não tenha implementado oficialmente suas promessas, nas intermináveis ​​extensões da Amazônia isso não importa. Os agricultores e garimpeiros já estão recebendo o que “merecem” de qualquer maneira.

Bolsonaro tem generais em seu gabinete que chegaram na Amazônia na década de 1970 como soldados para completar essa missão. Naquela época, eles construíam estradas de longa distância através das florestas, sobre as quais chegavam produtores de soja e fazendeiros do sul do Brasil. Naquela época já havia planos para construir hidrelétricas no poderoso Xingu antes de seu estuário no baixo Amazonas. Mas foi somente sob a administração do ex-presidente Lula da Silva que os planos foram implementados a partir de 2010.

O mundo tradicional está se rompendo

Embora as aldeias do Parakanã estejam localizadas a cerca de 300 km a frente da represa de Belo Monte,  os seus efeitos podem ser sentidos aqui. A vida selvagem ficou louca com as mudanças de fluxo,  afetando a vida dos povos indígenas. De repente, crocodilos e serpentes de água atacaram onde as crianças sempre se banhavam felizes. Os peixes grande desapareceram. Como os garimpeiros contaminaram os rios com mercúrio, comer peixe já não é uma boa ideia. De repente, os Parakanã passaram a morrer de doenças estranhas.

Como compensação pela barragem, os seus operadores tinham que atender aos requisitos sociais. Portanto, os Parakanã agora têm um pequeno hospital, mas faltam remédios e equipes médicas. Os geradores de energia também não foram instalados. E a promessa de expulsar todos os não-indígenas da aldeia de Apyterewa não foi cumprida. Novas estradas bateu agricultores das florestas através do qual os jovens índios podem agora rugindo com seus novos motocicletas.

Até os barcos de alumínio rápidos de até 50  km por hora são presentes de operadores de barragens. Com eles os homens da aldeia em seis horas chegarão a Altamira, a antiga cidade da selva, que cresceu vigorosamente depois da construção da represa de Belo Monte. Lá, os indígenas vendem o gás a que têm direito e gastam seu dinheiro nos cabarés. De volta a suas aldeias, eles trazem consigo doenças sexualmente transmissíveis. O mundo tradicional de Parakanã se quebra pouco a pouco.

Missão evangélica

É a brecha através da qual os missionários evangélicos invadem o mundo indígena.  É possível vê-los com suas camisetas “Jesus vai mudar você”  por toda a Amazônia. Na aldeia de Parakanã, até mesmo um renomado pregador evangélico já desembarcou. Ele deu três bois para os indígenas fazerem um churrasco. Desde então, eles rezam em sua igreja da vila, embora suas antigas tradições sejam chamadas lá como coisas do diabo. A Igreja Católica adverte em vão para que não abandonem as tradições comunais e as crenças indígenas.

A eleição de Bolsonaro é uma verdadeira reviravolta dos acontecimentos. A minoria evangélica elegeu o populista de direita para o cargo de presidente do Brasil. Agora, pela primeira vez na história do Brasil, os evangélicos também ditam o discurso público. Sob Bolsonaro, a aspiração de cada indivíduo por riqueza deve vir em primeiro lugar. Para isso, pode-se concluir nas igrejas evangélicas que o pagamento dos dízimos  é um contrato personalizado com Deus, que recompensa a pessoa com riqueza. Enquanto isso, a idéia dos católicos de que o bem comum está sempre acima do indivíduo é denunciada como comunismo.

Os garimpeiros são os representantes perfeitos do novo zeitgeist (i.e., o espírito definidor ou humor de um período particular da história, como mostrado pelas idéias e crenças do tempo). Na eleição Bolsonaro enviou-lhes mensagens via o aplicativo WhatsApp.  Essas mensagens diziam que eles serão respeitados como cidadãos iguais em vez de serem perseguidos como infratores da lei.  Jair Bolsonaro gosta de garimpar em seu tempo livre. E ele se identifica com os Outlaw Lucky Knights que se candidatam a encontrar ouro nas florestas da Amazônia. Que eles destruam o meio ambiente não incomoda Jair Bolsonaro. Os rigorosos requisitos ambientais estão prestes a acabar, promete o presidente Bolsonaro, que considera as mudanças climáticas como  sendo uma mentira disseminada pelos comunistas.

Luta diária pela sobrevivência

No caminho também está Apyterewa. O governo os aconselhou a arrendar metade de suas terras para os agricultores que já moram lá. Eles não voltariam de qualquer maneira, disseram eles. E se necessário, o Congresso poderia até mesmo dissolver seu território. Ameaças e cachos, sedução e intimidação. É a velha tática de salame que costumava roubar os povos indígenas do oeste dos Estados Unidos. E também funciona no século 21 no Brasil. Será que o Xingu terá em breve cassinos, como em Connecticut?

Cerca de vinte por cento da Amazônia já foi cortada. As áreas indígenas são as últimas grandes áreas florestais intactas ao sul da Amazônia. Que alguns povos indígenas têm um território tão vasto é injusto para o resto da sociedade, diz Bolsonaro. O lobby agrícola aliado espera que as reservas naturais e as reservas indígenas sejam reduzidas em breve.

mineração 1Vista de uma mina ilegal de estanho perto de Novo Progresso, no estado do Pará, Brasil. (Imagem: Ricardo Moraes / Reuters)

Por outro lado, os Munduruku ficam  300 km a oeste. Aqui, onde o rio Tapajós e o Amazonas fluem juntos, a fronteira agrícola na forma de campos de soja distantes já atinge o poderoso rio. Na aldeia de Munduruku eles alcançam até dez metros. Os deuses podem mais uma vez ser gentis o suficiente para cantar canções? Você lidera uma luta diária pela sobrevivência, diz o líder Josenildo. As substâncias químicas pulverizadas pelos agricultores contaminaram seus rios. Eles sofrem de tontura, falta de ar e náuseas.

Por anos os Munduruku estão lutando por seu território. De acordo com a constituição de 1988, a Funai teria que transferir todas as áreas indígenas tradicionais para os povos indígenas em 1993. Mas a resistência dos poderosos políticos locais é grande. Eles venderam a terra indígena para os fazendeiros de soja com documentos forjados, dizem eles nas proximidades de Santarém. Quando os Munduruku quiseram informar a Comissão Interamericana de Direitos Humanos no final do ano passado, os produtores de soja bloquearam a estrada com dúzias de veículos para impedir a passagem emissários da Organização dos Estados Americanos (OEA) .

O lobby agrícola é determinado

O presidente Bolsonaro também se apoia nas deficiências. Como um de seus primeiros atos oficiais, ele tirou a Funai do poderoso Ministério da Justiça e a colocou no Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos.  A ministra Damares Alves, um pregadora evangélica, já fez um nome para si mesmo como um ávido missionário indiano. Além disso, Bolsonaro privou a Funai da responsabilidade pela demarcação de terras para os povos indígenas. Esta é agora a responsabilidade do Ministério da Agricultura. No entanto, o lobby agrícola no poder depende da expansão da produção de soja.

Passo a passo, Santarém está sendo transformada em um polo de comércio de soja. A poucos quilometros  da vila de Munduruku, os produtores de soja vindos do Centro Oeste estão chegando pela BR 363 que foi construída pelos militares na década de 1970. O destino deles é o porto da multinacional  Cargill em Santarém, de onde os navios de carga descem. Amazônia em direção ao oceano Atlântico.  Atualmente, mais quatro portos de carga estão sendo construídos na região de Santarém. As comunidades pesqueiras locais já estão preocupadas com sua existência.

O fato do estado estar ausente da fronteira agrícola é uma decisão deliberada, acredita Luis de Camões Lima Boaventura. O governo admite que os indígenas estão sendo envenenados e as riquezas de seus territórios estão sendo ilegalmente exploradas, afirma o jovem promotor público de Santarém. Quase toda semana, ativistas que faziam campanhas pelos direitos dos indígenas às suas vem sendo assassinados. Não só o estado não faz nada contra a injustiça, mas intensifica deliberadamente o conflito. O promotor tira uma conclusão deprimente: “A Amazônia brasileira está passando por apenas um dos seus piores momentos”.

A Controversa Hidrelétrica de Belo Monte

Até o final do ano, a barragem de Belo Monte será concluída após quase nove anos de construção e investimento de cerca de R$ 50 bilhões. Com uma produção máxima de 11.233 megawatts seria a terceira maior do mundo, depois da represa das Três Gargantas  na China, e da brasileira-paraguaia Hidrelétrica de Itaipu. No entanto, devido às fortes flutuações de precipitação, os especialistas esperam uma média anual de apenas 4.000 megawatts. Isso ameaçaria a ocorrência de bilhões de reais em perdas. Além disso, o polêmico “Belo Monstro”, que é assim chamado pela população, é marcado por escândalos de corrupção e protestos espetaculares. Ativistas indígenas e ambientais repetidamente conseguiram atrasar o projeto nos tribunais. No final, milhares de habitantes da região tiveram que ser reassentados, incluindo povos indígenas, cujas áreas ancestrais foram inundadas. Os projetos sociais prometidos pelas operadoras da Hidrelétrica de Belo Monte ainda não foram implementados em grande parte.  Há ainda a controversa concessão de licenças ambientais para a mineração dos gigantescos depósitos de ouro da região para o grupo canadense de mineração Belo Sun Mining Corporation. Essa é mais uma ameaça de expulsão da população ancestral.

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Esta reportagem foi originalmente escrita em alemão e publicada pelo jornal “Neue Zürcher Zeitung”, que é publicado em Zurique na Suiça [Aqui!].

Artigo de pesquisadores da University of Florida alerta para riscos trazidos pelas usinas do Rio Tapajós sobre o povo Munduruku

Em artigo publicado na revista “Environment: Science and Policy for Sustainable
Development“, os pesquisadores estadunidenses Robert Walker e Cynthia Simmons, ambos da University of Florida, lançam luz sobre os conflitos socioambientais que estão ocorrendo na bacia do Rio Tapajós em função da construção de hidrelétricas que fazem parte do chamado “Complexo do Tapajós” que, por sua vez, faz parte da Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana, ou simplesmente IIRSA [1].

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Para quem não sabe, a IIRSA é um programa conjunto dos governos dos 12 países da América do Sul que visa a promover a integração sul-americana através da integração física desses países, com a modernização da infraestrutura de transporte, energia e telecomunicações, mediante ações conjuntas.

No caso do “Complexo do Tapajós”, o plano é adicionar cinco novas  usinas (UHE São Luiz do Tapajós, UHE Jatobá, UHE Jamanxim, UHE Cachoeira do Caí, UHE Cachoeira dos Patos) que juntas teriam a capacidade de gerar em torno de 10.000 MW.

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O problema como Walker e Simmons alertam, a construção deste conjunto de hidrelétricas gerará uma sinergia entre diferentes fatores que contribuirão para o aumento do processo de degradação dos ecossistemas naturais existentes na bacia do Tapajós e dos povos indígenas que habitam aquela parte do território do Pará, a começar pelo povo Munduruku que se opõe à expansão das hidrelétricas dentro do seu território.

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Membros da etnia Munduruku que se opõe à construção de hidrelétricas em seu território. Fonte: Environment: Science and Policy for Sustainable
Development

E é justamente nesse ponto que Walker e Simmons alertam para os riscos que serão postos sobre os Munduruku que estão dispostos a continuar o seu enfrentamento com o governo federal em defesa do seu território, na medida em que há uma óbvia desproporção de forças envolvidas nesse disputa.

Uma coisa que este artigo revela é que, ao contrário do que vem afirmando o presidente eleito para justificar a retirada do Brasil do Acordo Climático de Paris, a ameaça sobre a soberania nacional não é o fictício “Triplo A” [2], mas sim a IIRSA cuja consumação implicará no avanço da destruição da floresta Amazônica e dos povos indígenas e outras comunidades históricas que dependem de sua existência para sobreviver.

Finalmente, é importante ouvir ao alerta que está posto no artigo assinado por Walker e Simmons no tocante à defesa da integridade física e territorial do povo Munduruku que certamente será alvo de graves violências para que se impunha a construção das usinas do Complexo Tapajós.


[1] https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/00139157.2018.1418994

[2] https://g1.globo.com/politica/noticia/2018/11/28/bolsonaro-diz-que-pediu-cancelamento-da-conferencia-do-clima-no-brasil-em-2019.ghtml