O Brasil não sobreviverá a mais quatro anos de negacionismo: no segundo turno, voto em Lula

Os leitores deste blog sabem que mantive uma posição crítica em relação ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao longo de todo o seu terceiro mandato. Na maioria das minhas manifestações, o centro dessa crítica esteve naquilo que considero uma postura de negacionismo sutil diante de questões fundamentais, a começar pelas mudanças climáticas, mas não apenas. O atual governo tem se caracterizado por práticas de meio-termo, tentando conciliar preocupações sociais com a manutenção de uma política de controle fiscal que, objetivamente, impede o enfrentamento dos problemas produzidos pela profunda desigualdade econômica existente na sociedade brasileira.

Por outro lado, fui um crítico ainda mais contundente do governo de Jair Bolsonaro, especialmente no que se refere às questões ambientais e, mais ainda, à condução da pandemia de COVID-19. Além disso, sempre me pareceu evidente que uma das principais propostas de Jair Bolsonaro era desmantelar as concessões mínimas asseguradas a partir da Constituição Federal de 1988. Ao fazer isso, Bolsonaro pai acabou desmontando até mesmo medidas adotadas durante o regime civil-militar instaurado em 1964. Com essa postura, e de forma até coerente com seu projeto político, Jair Bolsonaro mostrou-se, em diversos aspectos, mais regressivo do que o próprio regime dos generais.

Agora, temos a possibilidade concreta do retorno do bolsonarismo ao governo federal, desta vez na figura do primogênito de Jair Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro. Tendo vencido o primeiro turno sem falar muito sobre seus planos de governo, Flávio certamente tentará evitar fazê-lo também durante o segundo turno. A razão é simples: aquilo que já se conhece de suas propostas aponta para a implantação no Brasil de uma versão igual ou ainda mais radical daquela adotada por Javier Milei na Argentina, envolvendo a privatização de empresas estatais estratégicas, o desmonte de políticas sociais que funcionam como anteparo mínimo contra a pobreza extrema e a adoção de políticas antiambientais que poderão fazer o Brasil retornar a taxas elevadas de desmatamento na Amazônia.

Há ainda um componente particularmente preocupante nesse projeto: a permanência da postura anticiência e do negacionismo que marcaram o governo de Jair Bolsonaro. Durante a pandemia de COVID-19, vimos até onde pode chegar um governo que despreza evidências científicas, transforma questões técnicas em batalhas ideológicas e trata o conhecimento produzido pelas universidades e instituições de pesquisa como um obstáculo a ser removido. O resultado dessa combinação de obscurantismo, improvisação e ideologia ficou dramaticamente exposto durante a crise sanitária.

Flávio Bolsonaro dá sinais de que essa postura não desapareceu com o pai. Um exemplo particularmente revelador ocorreu quando, questionado sobre o enfrentamento das mudanças climáticas, respondeu apontando o saneamento básico como uma das respostas para o problema. Evidentemente, ampliar o saneamento básico é uma necessidade urgente em um país no qual milhões de pessoas ainda vivem sem acesso adequado à água tratada e à coleta e tratamento de esgoto. Mas apresentar o saneamento como resposta ao aquecimento global revela uma incompreensão preocupante sobre a natureza e a escala da crise climática. Uma coisa é defender políticas de saneamento, inclusive como componente da adaptação e da redução da vulnerabilidade social; outra, completamente diferente, é apresentá-las como substitutas de políticas destinadas à redução das emissões de gases de efeito estufa, ao combate ao desmatamento, à transição energética e à adaptação dos territórios às mudanças climáticas já em curso.

E é justamente aí que o caráter tosco desse negacionismo se torna particularmente perigoso. O Brasil não enfrentará a crise climática com frases de efeito ou soluções improvisadas em palanques eleitorais. Enfrentará — ou deixará de enfrentar — um processo que já se manifesta por meio de secas, enchentes, ondas de calor, incêndios florestais, alterações nos regimes de chuvas e crescente pressão sobre os sistemas urbanos, agrícolas e energéticos. Colocar novamente o governo federal nas mãos de forças políticas que tratam a ciência como adversária significaria perder anos decisivos justamente quando as condições climáticas estão se deteriorando rapidamente.

O problema tampouco termina nas fronteiras brasileiras. O Brasil abriga a maior parcela da Amazônia, possui uma das maiores biodiversidades do planeta e ocupa posição central nas disputas internacionais sobre clima, energia, florestas e uso da terra. Um eventual governo Flávio Bolsonaro que retomasse o negacionismo climático, estimulasse o desmatamento e enfraquecesse novamente os organismos de fiscalização ambiental não produziria consequências apenas para os brasileiros. Em um momento em que limitar o aquecimento global exige redução acelerada das emissões, transformar novamente o Brasil em vetor de retrocesso ambiental seria desastroso para o país e contribuiria para agravar uma crise que é planetária.

Essa receita ainda inclui a entrega das reservas brasileiras de minerais estratégicos a empresas dos Estados Unidos, sob a justificativa de estabelecer um alinhamento estratégico com o governo de Donald Trump e, simultaneamente, criar uma espécie de contraposição à China, que ocupa posição dominante nas cadeias globais de terras raras. Além disso, esse alinhamento poderia se estender ao combate ao narcotráfico, inclusive com a possível presença de tropas estadunidenses em território brasileiro, o que representaria uma ameaça particularmente grave à soberania nacional.

Como ocorreu com seu pai, Flávio Bolsonaro, caso eleito, provavelmente chegaria ao governo acompanhado por quadros escolhidos mais pela fidelidade ideológica do que pela competência técnica. Isso tenderia a ampliar o grau de confusão e truculência governamental, sobretudo porque boa parte das medidas anunciadas ou insinuadas teria caráter profundamente antipopular, atingindo inclusive parcelas significativas da própria base eleitoral bolsonarista. Quando a fidelidade ideológica se combina com o desprezo pelo conhecimento científico, os resultados podem ser ainda mais graves, como a experiência recente do próprio Brasil já demonstrou.

Por isso, a escolha colocada neste segundo turno não diz respeito apenas à política econômica, ao destino das empresas estatais ou às políticas sociais. Ela envolve também decidir se o Brasil continuará, ainda que com todas as insuficiências e contradições do atual governo, reconhecendo a ciência e as mudanças climáticas como elementos que devem orientar políticas públicas, ou se retornará ao obscurantismo que caracterizou os anos de Jair Bolsonaro. Depois do que ocorreu durante a pandemia e diante do que já estamos experimentando com a crise climática, alegar desconhecimento sobre as consequências dessa escolha não será mais possível.

Todo esse cenário me leva a apontar, sem qualquer contradição com as críticas que fiz e continuarei fazendo ao atual governo, para a necessidade do voto em Lula no segundo turno. A situação social brasileira já é grave o suficiente para que nos arrisquemos a experimentar uma versão brasileira do programa de Javier Milei, aplicada a frio sobre uma sociedade marcada por níveis extremos de desigualdade. Acrescente-se a isso a possibilidade de retorno do negacionismo científico ao centro das decisões governamentais e teremos uma combinação potencialmente explosiva de regressão social, destruição ambiental e obscurantismo.

Mas, para derrotar Flávio Bolsonaro, será necessário ampliar o diálogo principalmente com aqueles que não foram votar no domingo passado. A disputa pelo eleitorado que compareceu às urnas será inevitavelmente difícil, ainda que exista alguma possibilidade de deslocamento de votos entre as duas candidaturas. Por isso, a ampliação da participação eleitoral e a disputa política daqueles que se abstiveram assumem importância decisiva.

E isso exige abandonar qualquer soberba e, sobretudo, qualquer depreciação da capacidade de escolha dos brasileiros e brasileiras. Quem pretende conquistar votos precisa primeiro compreender as razões pelas quais milhões de pessoas se afastaram das urnas ou deixaram de enxergar na atual alternativa governista uma resposta suficiente para seus problemas cotidianos. Tratar essas pessoas como ignorantes ou politicamente incapazes seria não apenas um erro político, mas talvez o caminho mais curto para entregá-las definitivamente ao bolsonarismo.

Não há, portanto, tempo a perder. É preciso começar desde já a trabalhar pela vitória de Lula no segundo turno, sem abandonar a crítica às limitações de seu governo e sem transformar o voto contra Flávio Bolsonaro em um cheque em branco para os próximos quatro anos. Derrotar o bolsonarismo nas urnas é a tarefa imediata. Enfrentar as políticas econômicas, sociais e ambientais que produziram o terreno no qual ele prospera continuará sendo uma tarefa para o dia seguinte.

E há uma diferença fundamental entre fazer oposição a um governo cujas políticas consideramos insuficientes e ter de enfrentar novamente um governo que transforma a própria realidade objetiva em inimiga. A experiência da pandemia deveria ter ensinado definitivamente o preço que uma sociedade pode pagar quando o negacionismo deixa de ser apenas discurso e passa a orientar políticas de Estado.

Por isso, no segundo turno, meu voto será em Lula. Sem cheque em branco, sem abandonar as críticas e sem qualquer ilusão de que uma vitória eleitoral resolverá as contradições profundas da sociedade brasileira. Mas com a convicção de que permitir o retorno do bolsonarismo ao Palácio do Planalto, agora sob o comando de Flávio Bolsonaro, seria um risco que o Brasil simplesmente não precisa — e talvez não possa — correr.

Como se diz atualmente nas manifestações que percorrem as ruas da Europa: às ruas, cidadãos!

Ciência: Conhecimento indesejado

Quem ainda precisa de pesquisa? É muito chato para a TV. Donald Trump está abolindo os cientistas. E Christian Drosten está farto de ser o burro

Os cientistas vieram para harmonizar o planeta. Nem todo mundo se sente confortável com isso. Foto: dpa/Hendrik Schmidt 

Por Frederico Valin para o “Neues Deutschland”

Christian Drosten foi o cientista mais proeminente na Alemanha durante a pandemia. Isso não foi sem razão: ele é um dos maiores especialistas mundiais em coronavírus. O que ele explicou em entrevistas ou no podcast “Corona Update” produzido pela NDR foi o estado atual da pesquisa. Ele explicou de uma forma que até mesmo leigos pudessem entender, mas, ainda assim, tentou não ser simplista. Era um ato de equilíbrio que ele frequentemente, mas nem sempre, conseguia fazer. Foi também graças a Drosten que a Alemanha superou bem a primeira onda, que – facilmente esquecemos – fez tantas vítimas em outras partes do mundo.

Em um podcast recente com o “Zeit”, Drosten diz que, dada essa experiência, ele não assumiria mais a tarefa de educar o público alemão. Sua vida, ele diz, nunca mais será a mesma de antes da pandemia. Ele pagou pessoalmente um alto preço por seu trabalho: foi atacado repetidamente, não apenas online. Ele foi atacado enquanto estava de férias, na presença de sua família.

De uma perspectiva humana, é compreensível que Christian Drosten coloque o bem-estar de seu próprio círculo acima do bem-estar de um público interessado em ciência. É um testemunho devastador para este público, para esta sociedade, que ela condene seus cientistas mais competentes ao silêncio. No podcast, Drosten dá dicas de quando e por que ele teria decidido de forma diferente: as intervenções de pessoas que fingiam ser especialistas em corona, mas não eram, contribuíram diretamente para sua conta de ódio. »Você se pergunta: por que você tem que assumir isso quando é atacado pelas partes mais desqualificadas, pelos motivos mais desqualificados, e você dificilmente consegue se defender disso. Você está apenas fazendo papel de bobo, por que faria isso?’ Não é difícil ver a quem ele está se referindo, mesmo que Drosten não mencione os nomes: Jonas Schmidt-Chanasit, Klaus Stöhr e especialmente Hendrik Streeck estavam tão frequentemente fundamentalmente errados que é justo perguntar o que eles realmente esperavam alcançar. Pelo menos eles conseguiram abalar a fé no conhecimento científico: um sistema que produz tais especialistas não pode ser de muita utilidade.

Esses especialistas foram alimentados pela indústria da mídia que não está comprometida com a realidade, mas age discursivamente: outras opiniões também devem ser permitidas. É por isso que os três mencionados apareceram com tanta frequência em artigos: não como o pior caso da ciência, mas como uma opinião alternativa legítima e bem fundamentada. O fato de que suas opiniões muitas vezes não se sustentam é irrelevante dessa perspectiva. Não se trata da verdade, que nunca poderá ser alcançada de qualquer maneira. Nem se trata de uma realidade que exija muito esforço para ser alcançada. É sobre publicidade. E nada prejudica mais a ciência do que quando o público percebe que alguns especialistas autoproclamados, em sua necessidade de aparecer, não são nada. E eles nem sequer são punidos com desacato geral, mas são autorizados a continuar suas carreiras. No entanto, você precisa dessa posição na indústria da mídia para obter financiamento de terceiros.

Ao contrário dos EUA, onde a ciência está de fato sob alta pressão política e a política de identidade da direita não apenas ameaça, mas na verdade abole a liberdade de pesquisa, a crise na Alemanha (ainda) não é abrangente: a pesquisa “Barômetro da Ciência”, realizada anualmente desde 2014, revela um nível estável de confiança pública na pesquisa durante esse período. “55 por cento dos entrevistados”, afirma a avaliação para 2024, “têm confiança total ou moderada na ciência e na pesquisa. A proporção de entrevistados que não confiam na ciência e na pesquisa ou que não confiam nelas é de nove por cento.

Há, no entanto, um caso atípico: em 2021, ano em que as medidas para conter a pandemia afetaram todas as áreas da vida, o número daqueles que não confiavam na pesquisa ou não confiavam nela de forma alguma foi de 13%. Isso é consistente com o estudo recente “Trust in Science and Science-Related Populism” (TISP), que entrevistou 72.000 pessoas em 68 países. De acordo com o estudo, 75% dos entrevistados acreditam que os métodos científicos são a melhor maneira de determinar se uma afirmação é verdadeira ou falsa. Os autores afirmam: “A maioria das pessoas confia nos cientistas e concorda que eles deveriam se envolver mais em questões sociais e políticas”.

Atualmente, não há nenhuma perda fundamental de confiança na ciência, nem globalmente nem na Alemanha. No entanto, há sinais de que a confiança é frágil: durante as medidas de combate à propagação da pandemia, o apoio a certas medidas que restringiam a liberdade das pessoas caiu, às vezes drasticamente; A questão aqui é se isso foi simplesmente uma rejeição de medidas específicas ou se a confiança fundamental em uma política que visava se recusar a restringir a economia e a área do trabalho, ao mesmo tempo em que regulava fortemente o lazer e a cultura, havia sido abalada.

É um problema crucial que, durante a pandemia, os tomadores de decisões políticas se esconderam atrás dos cientistas ao tomar decisões impopulares. A referência a dados que não deixam margem de manobra tornou estes últimos altamente expostos e também os colocou na mira de pequenos grupos radicais. O fato de Drosten estar agora chegando à conclusão de que não deveria ter se exposto daquela maneira é preocupante, mas, de acordo com um estudo da cientista de comunicações Nayla Fawzi, de Mainz, este aparentemente não é um caso isolado.

Também existe o risco de que a confiança do público na ciência não a proteja de ser completamente ignorada em tempos de dúvida. A doutrina de extrema direita do governo Trump, que, sob o lema de “erradicar a política woke” e “defender a tradição americana e a civilização ocidental”, está desviando dinheiro de todas as áreas que não estão de acordo com a ideologia, está ameaçando a confiança dos americanos na pesquisa. Os cortes afetam não apenas disciplinas individuais, mas todo o campo: tanto a National Science Foundation (NSF), que realiza pesquisas básicas, quanto os Institutos Nacionais de Saúde (NIH) estão sendo forçados a demitir funcionários. Espera-se que o NIH economize quatro bilhões de dólares sozinho. As consequências afetariam a todos nós: “O desenvolvimento de novos tratamentos seria atrasado, e a oportunidade de treinar futuras gerações de cientistas importantes diminuiria”, afirma o presidente da Universidade Harvard, Alan Garber.

Dadas as crises iminentes, esta é uma perspectiva preocupante.


Fonte: Neues Deutschland

Negacionismo científico em torno da existência do sistema de recifes do Amazonas revela a existência de um “bolsonarismo de esquerda”

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O grande sistema de recifes do Amazonas virou um alvo preferencial de uma peculair de Bolsonarismo, o “bolsonarismo de esquerda”

O portal Brasil 247  repercutiu no dia de hoje uma entrevista do professor aposentado da UFPA, Luís Ercílio Faria Junior, que foi feita pela Associação de Engenheiros da Petrobras que é um primor no sentido de mostrar que, na busca de se justificar a arriscada empreitada de explorar petróleo e gás na região da foz do Rio Amazonas, negar a ciência não é algo restrito ao que se convencionou chamar de “Bolsonarismo”.

Ao tentar enterrar evidências científicas sérias, as quais foram levantadas por cientistas que possuem produções acadêmicas altamente cientificas atribuindo a existência de um sistema recifal na foz do Amazonas, que foi denominado de “Great Amazon Reef System” (GARS)“, o que se faz é aumentar a campanha anti-científica que tem sido conduzida pela extrema-direita no Brasil e no resto do mundo, especialmente no que se refere à existência de uma grave crise climática.

E isso para quê? Para justificar a ampliação da participação do Brasil na exploração de combustíveis fósseis, inclusive em áreas de grande importância ecológica e social, como é o caso da região da foz do Rio Amazonas.

Como esses ataques estão vindo de setores que se dizem de esquerda, o que me parece ficar demonstrado é que quando se trata da ideologia negacionista, podem chamar de Bolsonarismo se quiserem, fica claro que ela não está estabelecida e operada pela chamada extrema-direita. Curiosamente, oq que os ataques à integridade ecológica do GARS em nome da exploração de petróleo e gás é que há sim uma variante de esquerda no Bolsonarismo.

Negacionismo científico em alta na cúpula Petrobras: para explorar petróleo, diretora executiva nega a existência do sistemas de corais da Amazônia

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O sistema de recifes da Amazônia, comprovado cientificamente mas negado pela Petrobras

Em abril de 2018, este blog noticiou a publicação de um artigo científico pela revista “Frontiers in Marine Science“ dando conta da existência de um complexo sistema de recifes na foz do Rio Amazonas.  Com comprovações científicas irrefutáveis, a descoberta revolucionou o conhecimento científico acerca do estabelecimento de sistemas de recifes em águas lamosas. Um dos cientistas responsáveis por essa descoberta foi o professor e pesquisador do Laboratório de Ciências Ambientais da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), Carlos Eduardo de Rezende.

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Mapa do Great Amazon Reef System (GARS) mostrando locais de amostragem. A área cinza denota a área potencial coberta por recifes mesofóticos (56.000 km2). As letras A-D correspondem aos locais em que características típicas dentro de um gradiente de profundidade de 70 a 220 m.

Eis que na semana passada, a diretora executiva de exploração e produção da Petrobras, Sylvia Anjos, se utilizou de uma aula na Coppe, o instituto de pós-graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (achei isso um ultraje, já que em universidade pública deveria ser proibido atacar o conhecimento cientifico) para negar a existência dos corais da foz do Amazonas afirmando que tal sistema não passaria de uma “fake news científica“.

A razão para esse ataque a algo que já foi demonstrado científicamente é simples: a Petrobras quer impor a exploração de petróleo em uma região de grande biodiversidade e de alta importância social a despeito de todas as incertezas sobre a segurança das operações que seriam ali conduzidas.

O ataque da diretora executiva da Petrobras é uma demonstração de que a empresa, apesar de todas os esforços de greenwashing que realiza, continua presa em uma visão de exploração e produção que desconhece não apenas a existência de algo que foi objetivamente demonstrado pela ciência (no caso a existência de uma área de alta biodiversidade e singularidade ecológica), mas também os complexos processos ambientais que isso causa, a começar pelas mudanças climáticas que hoje ameaçam a sobrevivência da Humanidade.

A questão agora é de como a silente ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, vai reagir a este ataque ao conhecimento científico, especialmente porque envolve a ampliação de riscos climáticos, algo que parece ser uma das questões estratégicas para 2025, ano em que a Petrobras pretende começar a perfurar na região em que este ecossistema altamente singular existe.

Na contramão da ciência

“Até quando a política e a economia estarão de costas para a sociedade e o meio ambiente?”

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Enchente do Rio Taquari na cidade de Lajeado (RS). Foto: marcelocaumors/Instagram

Por Andrea Zhouri & Edna Castro para o “Jornal da Ciência”

As enchentes catastróficas no Rio Grande do Sul chocam o Brasil. A crise instalada, cuja magnitude destrutiva não encontra precedentes na história, não é, contudo, um incidente inesperado. Ao contrário, os desastres ambientais deflagrados por eventos climáticos extremos já são uma realidade recorrente no país e revelam sua dimensão estrutural. Desde os anos 70, pelo menos, cientistas no mundo todo têm advertido sobre as mudanças climáticas, agora tratadas como emergências ou urgências. A receptividade dos alertas no meio político e das elites econômicas tem sido pífia ao longo de décadas. Entre o negacionismo e as supostas soluções apresentadas a partir da lógica neoliberal, a exemplo do mercado de carbono, prevalecem as opções macroeconômicas e neodesenvolvimentistas que apostam na exportação de commodities agrícolas e minerárias como uma espécie de consenso míope e macabro.

Os discursos que apelam para dimensões universalistas do problema, como por exemplo, a “falha da humanidade”, prestam desserviço à sociedade ao desviarem o foco dos aspectos tangíveis da questão, que são políticos e econômicos. Políticas de redução do desmatamento são ineficientes se não forem pensadas de forma integrada aos demais processos associados ao modelo econômico que exaure as energias do planeta. A redução do desmatamento como freio das mudanças climáticas é incompatível com as políticas que alimentam a obsessão de agentes econômicos pela apropriação de terra e recursos naturais para a acumulação de riqueza abstrata.

Enquanto o presidente Lula cobra dos países desenvolvidos os 100 milhões de dólares prometidos em 2009 para as ações de adaptação climática, as escolhas econômicas do governo continuam de costas para os problemas estruturais que provocam os eventos climáticos extremos. Cabe lembrar as incertezas que acompanham as boas intenções de ações de mitigação e de adaptação climática, pois sabemos que nos eventos extremos ocorridos no Rio Grande do Sul, pouco teriam servido para reduzir os danos. É devastador assistir o rompimento de barragens construídas nos rios para geração de energia assim como o medo e a insegurança causada nas famílias pela iminência de novas rupturas. É razoável lembrar que a tecnologia disponível não teve força e eficácia para prevenir e segurar a lama e os rejeitos de minério em Mariana e Brumadinho. Essas observações nos parecem relevantes para que se encare de frente uma realidade que exige coragem e determinação de agentes da política e da economia à altura do mega problema que as elites mundiais produziram no seu afã de modernidade e enriquecimento.

A política é um campo do simbólico, de produção e profusão de discursos muitas vezes difíceis de decifrar ou de identificar seus eixos e contextos. A razão que subjaz interconecta poder e convencimento. A insistência na exploração de petróleo na Amazônia é caso exemplar. O ministro das Minas e Energia, Alexandre Silveira declarou, no início de abril, que o país deveria explorar petróleo e gás até atingir o IDH de países industrializados. Ora, tal declaração lembra o contexto da década de 70, quando o conceito de desenvolvimento sustentável nem existia e os governantes discursavam sobre primeiro crescer para depois distribuir a riqueza e proteger o meio ambiente. Nega-se a realidade da crise climática e ambiental e os conhecimentos científicos existentes há, no mínimo, 50 anos!  No Congresso Nacional, a questão é ainda pior. A flexibilização das leis ambientais, como a aprovação da nova lei geral do licenciamento, verdadeiro desmanche do arcabouço normativo, revela o quanto os políticos legislam de costas para a sociedade e para o meio ambiente.

Os efeitos das mudanças climáticas atravessaram o território brasileiro nos últimos anos, e isso não se pode mais ignorar. Em 2023, foram muitos os municípios em situação de emergência, com alagamentos, soterramentos, mortes e perdas na Bahia, em Minas Gerais, Goiás, Maranhão, Pará, Rio de Janeiro, Santa Catarina, São Paulo, Espirito Santo, Rio Grande do Sul, entre outros estados.

Como temos pesquisado, os desastres não são meramente naturais ou sociais, mas resultam da intercessão de escolhas econômicas, políticas e institucionais “mal adaptadas” ao meio ambiente e à sociedade. É certo que as consequências, ao longo da história, têm atingido primeiro os grupos sociais mais vulnerabilizados pelo processo de construção da sociedade nacional, populações periféricas, negras e etnicamente diferenciadas. Mas a conta chega para todos. É hora de dizer basta ao negacionismo e às políticas econômicas míopes e submissas à lógica da acumulação primitiva. O momento é o de repensar o modelo de desenvolvimento e reconhecer que o valor da natureza, que é vida humana e não-humana, é inegociável. Razão fundamental à recusa do desenvolvimentismo e dos consensos produzidos em torno de uma economia predatória e neoextrativista.

* Andréa Zhouri é presidente da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), e Edna Castro é presidente da Associação Brasileira de Sociologia (SBS).


Fonte: Jornal  da Ciência da SBPC

‘Pseudociência intencional’: o método da extrema-direita para fazer você acreditar que mudanças climáticas não existem

O cientista Ricardo Galvão, que acaba de assumir a presidência do CNPq, e outros cientistas explicam como hipóteses científicas são usadas de forma distorcida para enganar o público e avançam rapidamente nas plataformas digitais. YouTube, que não tem política sobre conteúdos negacionistas do clima, desmonetizou vídeos enviados pelo projeto Mentira Tem Preço.

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Por Eduardo Geraque/InfoAmazonia

Os Estados Unidos viviam a “pior nevasca do século” e um dos mais prestigiosos jornais do mundo, o The New York Times, publicava “Como a mudança climática pode sobrecarregar as tempestades de neve“. No Brasil, o drama dos norte-americanos virou piada e motivo para negar a existência das mudanças climáticas no YouTube, plataforma que não tem políticas de conteúdo para combater o negacionismo das mudanças climáticas.

O projeto Mentira Tem Preço mapeou dois vídeos entre os mais vistos no Brasil em canais de extrema-direita na última semana de dezembro de 2022. Foram mais de 270 mil visualizações na semana em que Marina Silva aceitou ser ministra do Meio Ambiente do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e anunciou, em entrevista, que a pasta ganharia “mudanças climáticas” no nome.

Youtuber Junior Japa comenta o aquecimento global em seu canal, sem qualquer apuro científico | Reprodução Youtube

Um youtuber que se intitula Junior Japa, e que usa as redes para enaltecer o bolsonarismo, levantou dúvidas sobre as mudanças climáticas: “nunca vi um novembro e um dezembro chovendo tanto como neste ano, e eles insistem em falar de aquecimento global. Chegou a hora que até Deus está de saco cheio…”.

Outro vídeo é do jornalista Alexandre Garcia, ex-apresentador da CNN demitido por defender o uso de medicamentos sem eficácia no tratamento da Covid-19. Agora na equipe da Jovem Pan News, Garcia é um dos citados no inquérito do Ministério Público Federal sobre a disseminação de desinformação.Na live em seu canal, Garcia diz: “Vocês foram muito assustados pelo aquecimento global. Vai acabar o mundo, a temperatura vai subir. Gente, já morreram 62 nos Estados Unidos, de frio”.

“O nome disse é pseudociência intencional, e veio para ficar”, diz o cientista Ricardo Galvão, que acaba de assumir a presidência do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ). Galvão foi demitido da presidência do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) no governo de Jair Bolsonaro por divulgar dados que indicavam alta do desmatamento.

COMO FAZEMOS O MONITORAMENTO: O projeto Mentira Tem Preço, realizado desde 2021 pelo InfoAmazonia e pela produtora FALA, monitora e investiga desinformação socioambiental. Nas eleições de 2022, checamos diariamente os discursos no horário eleitoral de todos os candidatos a governador na Amazônia Legal. Também monitoramos, a partir de palavras-chave relacionadas a justiça social e meio ambiente, desinformação sobre a Amazônia nas redes sociais, em grupos públicos de aplicativos de mensagem e em plataformas.

A fórmula de sucesso desse raciocínio que termina ludibriando a opinião pública, diz Galvão, é jogar uma hipótese científica, sem explicar o método ou suas conclusões, nas redes sociais de maneira que quem não seja um especialista no assunto não tenha insumos para questionar. O método é utilizado pela extrema direita em todo o mundo. Essa desinformação gera ansiedade por respostas rápidas e pouco complexas que os cientistas têm dificuldade para responder. “Nem sempre uma resposta a um pseudocientista cabe em um fio do Twitter ou nos stories do Instagram.”

“Os eventos extremos, como ondas de calor, frio, secas ou chuvas, são indicadores claros das mudanças climáticas”, afirma o climatologista José Marengo, um dos grandes especialistas mundiais no tema. Ele é coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), instituição ligada ao governo federal.

Por isso, eventos como os ciclones-bomba dos Estados Unidos —ou, no caso do Brasil, as torrenciais tempestades de verão mais concentradas— vão ficar mais frequentes, aponta Marengo. “No verão, quando vêm as ondas de calor, ninguém se lembra muito de criticar o aquecimento”, diz o especialista peruano radicado há décadas no Brasil. “Se você fizer uma média, por exemplo, das temperaturas no inverno, elas estão mais quentes.

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Para o climatologista José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden, “eventos extremos, como ondas de calor, frio, secas ou chuvas, são indicadores claros das mudanças climáticas” | Ascom / CEMADEN

Tanto o canal de Garcia como o de Japa são monetizados, o que significa que Garcia, Junior e o YouTube podem lucrar com o negacionismo das mudanças climáticas. Isso não deveria ter acontecido segundo as próprias políticas de monetização e anúncios sobre mudanças climáticas atualizadas em 2021. Desde então, passou a ser proibida a geração de receita com conteúdo e anúncios que contradizem o consenso científico sobre a existência e as causas das mudanças climáticas. Sobre ter conteúdos negacionistas das mudanças climáticas na plataforma, não houve avanço

“Isso inclui material que se refere às alterações no clima como se fossem mentira ou um golpe, com afirmações negando que as tendências de longo prazo mostram um aumento na temperatura global, e dizendo que as emissões de gases do efeito estufa ou as atividades humanas não contribuem para esse cenário. Após análise, os vídeos em questão tiveram a monetização suspensa por infringirem as diretrizes de conteúdo adequado para publicidade do YouTube”, afirma a empresa por meio de nota.

A reportagem não conseguiu contato com Garcia e Junior. O vídeo de Japa foi removido durante a apuração da reportagem.

unnamed (8)Em transmissão ao vivo realizada em seu canal do YouTube, Alexandre Garcia afirma, sem mostrar evidências, que seus espectadores “foram muito assustados pelo aquecimento global” | Reprodução do YouTube

Como combater a pseudociência

Galvão lembra bem de quando entrou em contato com a pseudociência intencional da extrema-direita, representado na figura do astrólogo e ideólogo Olavo de Carvalho (1947-2022). Há alguns anos, um ex-aluno o procurou para saber como responder a Carvalho, que dizia em um vídeo que a Teoria da Relatividade de Albert Einstein estava errada. “Eles [os negacionistas da extrema-direita] usam um ponto importante do método científico”, explica Galvão.

“A teoria ou o modelo científico tem que ser testada, isso faz parte do próprio processo da ciência, para sabermos se ela é falsa ou não. Se você segue o método científico, você precisa provar que algo é verdadeiro ou, então, mostrar que aquilo pode ser falseado. Mas, segundo os negacionistas, o método científico é uma hipótese como outra qualquer, e esse é um problema sério agravado pela circulação dessas desinformações nas plataformas digitais.”

A desinformação em geral, e principalmente a relacionada a ciência e meio ambiente, incluindo a agenda climática e energética, faz parte de um processo já consolidado no Brasil mostram pesquisas sobre o tema.

“A desinformação é fruto também da histórica concentração midiática do sistema de comunicações no Brasil. Por isso, um debate sério sobre reforma do sistema comunicacional e do fortalecimento da comunicação pública também é um caminho urgente para sair do labirinto da desinformação”, afirma Lori Regattieri, pesquisadora do Netlab da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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Cientista Ricardo Galvão, que acaba de assumir a presidência do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), afirma que a pseudociência intencional “veio para ficar” | Cecília Bastos / USP Imagens

Para a especialista em desinformação digital, no caso específico do desmatamento, a solução também passa pelo fortalecimento do ecossistema das mídias regionais. “Principalmente na própria região do arco do desmatamento, com o objetivo de promover iniciativas de jornalismo regional comprometidas com a pluralidade de vozes da própria comunidade, promovendo informação e expondo a população a conteúdo consolidado pela ciência e pelas pesquisas desenvolvidas na agenda de clima e meio ambiente”, diz Lori.

Para ela, em termos práticos, o caminho para enfrentar a desinformação digital passa necessariamente pelo amadurecimento do PL 2630. “O chamado PL das Fake News precisa retornar a reflexões sobre a dinâmica de consumo informacional no Brasil, para que esteja conectado às demandas contemporâneas do ecossistema de notícias diante dos desafios estruturantes das redes sociais e aplicativos de mensagens. A transformação digital do ponto de vista das comunicações precisa considerar questões econômicas, pois o celular é um dos principais meios de interação com esse ecossistema de informação”, diz Lori.

Também entra nessa seara, diz a pesquisadora, a responsabilização de todos os atores envolvidos na cadeia da desinformação. “É um debate sobre a responsabilização desde as plataformas até indivíduos. Precisamos pensar que atores serão responsabilizados. Não é apenas a minha posição individual, mas as empresas também podem ser responsabilizadas ativamente no combate à desinformação.”

No caso de Galvão, mesmo com todos os desafios, ele conta que seu ex-aluno não ficou sem resposta para rebater Olavo de Carvalho em seu podcast. “Eu disse: ‘olha, diga aos seus seguidores do Instagram que, se eles usam GPS, se não fossem as correções relativísticas da teoria de Einstein, que fazem a correção do relógio do satélite com o horário do relógio que está na Terra, o erro de medição do GPS seria da ordem de 10 km’. E mandei mais três referências onde isso é explicado de forma mais detalhada e acessível para leigos. Ele fez isso e foi um sucesso de audiência.”

Essa reportagem faz parte do projeto Mentira Tem Preço –– especial de eleições, realizado por InfoAmazonia em parceria com a produtora Fala. A iniciativa é parte do Consórcio de Organizações da Sociedade Civil, Agências de Checagem e de Jornalismo Independente para o Combate à Desinformação Socioambiental. Também integram a iniciativa o Observatório do Clima (Fakebook), O Eco, A Pública, Repórter Brasil e Aos Fatos.

Estudo revela primeiros esforços para promover desinformação climática

Estudo detalha como uma extensa campanha de relações públicas nos Estados Unidos atrasou a ação climática em nível mundial

CO2 Emissons Report United Nations, Bergheim, Germany - 04 Dec 2018

Um artigo publicado hoje (11/4) na Environmental Politics revela novos detalhes sobre os primeiros esforços organizados para tentar enfraquecer a ação climática em nível mundial. Segundo a análise, a organização Global Climate Coalition (GCC) mudou o curso da política climática dos EUA no final do século 20, influenciando todo o contexto internacional, com táticas que servem de guia para a desinformação climática até hoje.

A Global Climate Coalition, criada em 1989 e encerrada em 2001, foi a primeira e maior organização dos Estados Unidos desenhada para se opor à ação climática. O artigo publicado hoje adiciona documentos previamente ocultos. Entre eles, estão arquivos da Associação Nacional de Fabricantes dos EUA de 1990-1998 e da agência de comunicação E. Bruce Harrison Inc., que revelam a estratégia inicial da GCC: lançar dúvidas sobre a ciência do clima e advertir sobre os danos econômicos que o combate às mudanças climáticas trariam.

Os documentos também detalham esforços para pressionar os regulamentos da EPA, Agência de Proteção Ambiental dos EUA, e como a GCC se vangloriou muitas vezes por ter conseguido influenciar negociações ambientais importantes, como a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática.

“As ações empreendidas pela Global Climate Coalition nos primeiros dias da política climática provaram ser incrivelmente eficazes em atrasar as ações climáticas por décadas”, disse Robert Brulle, autor da análise e professor visitante da Brown University. “Estes documentos revelam um livro de jogadas para o enorme e eficaz esforço de relações públicas que a indústria ainda emprega hoje.”

A revisão feita por Brulle hierarquiza da seguinte forma as táticas da GCC: 1) monitorar e contestar a ciência climática; 2) encomendar estudos econômicos sob medida para ampliar e legitimar seus argumentos; 3) mudar a compreensão cultural da mudança climática com campanhas publicitárias; e 4) conduzir um lobby agressivo sobre os legisladores e outros membros das elites políticas.

A análise inclui um documento da GCC de 1995 que resume os extensos esforços de relações públicas aplicados àquela altura para mudar a política climática internacional. Este material também detalha os principais doadores industriais da coalizão e seu orçamento.

Em sua formação original, a GCC era composta principalmente por empresas de serviços públicos, como água e eletricidade, representantes do setor de carvão e uma empresa petrolífera. Em 1991, o grupo tinha 79 membros.

O artigo foi publicado sob o título “Advocating Inaction: A Historical Analysis of the Global Climate Coalition” e está disponível aqui. Os novos documentos analisados na pesquisa podem ser consultados aqui.

Rede Irerê de Proteção à Ciência lança nota sobre negacionismo científico na Embrapa

Nota Pública sobre o Negacionismo Científico na Embrapa: o caso Evaristo Miranda

evaristo bolsonaro

  1. A Rede Irerê de Proteção à Ciência compreende o acesso à Ciência como um Direito Humano fundamental, assegurando aos povos o direito de usufruir do progresso científico e seus benefícios. Para isso, a Rede Irerê entende que a promoção da livre expressão científica e da proteção de pesquisadores, cientistas e demais trabalhadores do campo científico é tarefa fundamental, especialmente em tempos de aprofundamento de governos totalitários e arbitrários.
  2. No entanto, faz-se necessário afirmar que a liberdade científica não pode ser confundida com irresponsabilidade e até mesmo negacionismo científico. Especialmente, quando este se coloca de forma interessada junto aos grandes grupos políticos e econômicos, dispostos a atacar os direitos humanos, ambientais e de saúde da população.
  3. Como bem demonstrado no recente artigo científico “O risco de falsas controvérsias para as políticas ambientais brasileiras” (https://doi.org/10.1016/j.biocon.2021.109447), a fabricação artificial de dúvidas sobre aquilo que já se apresenta como certeza científica, consiste numa tática conhecida e bem documentada das grandes corporações multinacionais e de grupos conservadores para imporem narrativas ideológicas para manter seus lucros às custas do interesse coletivo e da proteção à saúde e ao meio
  4. Provas do negacionismo científico e os danos promovidos à população podem ser revisitados ao longo da história, e foram usados para justificar a escravidão, a submissão da mulher, dos povos indígenas, a criminalização dos pobres, a negação dos efeitos nocivos do tabaco, do amianto, de agrotóxicos já proibidos em diversos países, e até mesmo da eficácia de vacinas contra Covid-19.
  5. O caso Evaristo Miranda desnuda, por sua vez, essa prática negacionista e a submissão, omissão e conivência ao poder econômico e político em uma das maiores empresas de pesquisa pública agropecuária do mundo!
  6. Inegável reconhecer que o negacionismo científico tem duas faces na Embrapa: de um lado da moeda, ela promove a distorção dos fatos científicos por tais grupos alinhados ideologicamente ao poderio econômico conservador do setor (foi assim no debate científico sobre os transgênicos, código florestal, agrotóxicos…) e, por lado, busca promover uma verdadeira perseguição aos cientistas divergentes, que apontam os impactos negativos deste modelo agropecuário atrasado, predador, baseado na exploração de recursos naturais sem qualquer critério técnico como no caso dos níveis alarmantes de desmatamento no país, em especial na Amazônia, queimadas, uso de agrotóxicos, mau uso do solo e água, etc.
  7. Importante destacar ainda que, no lado “b” da Embrapa, há dezenas, e provavelmente centenas, de pesquisadores e pesquisadoras que se sentem preteridos, isolados, desprestigiados, desmotivados,   perseguidos, adoecidos e até mesmo sumariamente demitidos, por não se alinharem ao negacionismo científico, intensificado nos últimos anos com o amparo do atual São vítimas de uma violência científica, administrativa e ideológica quase invisível, dissimulada e ignorada por muitos, mas hoje conhecida na literatura como whistleblowing científico (http://www.cesteh.ensp.fiocruz.br/noticias/manifesto-em- defesa-dos-cientistas-que-alertam-sobre-os-perigos-dos-agrotoxicos, https://www.ohchr.org/EN/Issues/Environment/SRToxicsandhumanrights/Pages/right-to-science.aspx)
  8. Assim, ao contrário da postura adotada pela Anvisa ou pelo INPE, por exemplo, o negacionismo científico na Embrapa precisa ser compreendido como uma política institucional perpetrada pelo seu próprio quadro diretivo, uma vez que o sr. Evaristo Miranda, mesmo após esta denúncia humilhante, ainda permanece no cargo de Assessor do Presidente da ..
  9. Desta forma o combate a essa violência institucional contra à ciência deve ser feita de maneira estrutural, com o apoio da ciência e dos órgãos de controle de vigilância e das leis trabalhistas, de probidade administrativa, e na esfera criminal dos direitos humanos e
  10. A Rede Irerê de proteção à Ciência finaliza a presente nota solidarizando-se com todos os trabalhadores e trabalhadoras da Embrapa, seus pesquisadores e pesquisadoras, e cobra a apuração profunda da fabricação de falsas controvérsias científicas na empresa e a perseguição àqueles cientistas que optaram por cumprir seu papel em defesa dos interesses da sociedade.

Brasília, 08 de fevereiro de 2022

rede irere

Cidades inundadas são produto de formas tradicionais de governar e não do clima

chuvas 2

Sob pena de parecer repetitivo, volto aqui a mencionar a dissertação de mestrado do meu ex-orientando André Moraes Barcellos Martins, defendida no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense, que foi intitulada “O desafio da gestão urbana em Campos dos Goytacazes no contexto das mudanças climáticas: entre a construção da resiliência e a persistência de fórmulas tradicionais de governar“.  Começo citando essa dissertação para dizer que boa parte dos problemas que estamos vivenciando nas últimas 24 horas têm mais a ver com a forma pela qual a nossa cidade é governada do que com eventos meteorológicos. E isso deveria causar mais preocupação do que o nível das águas que teima em se manter alto pelas ruas da nossa cidade, inundando bairros inteiros, como, aliás, costuma sempre acontecer em ocasiões que chove forte.

O problema é que “as fórmulas tradicionais de governar” impedem processos de tomada de decisão que olhem para além das chuvas intensas como algo além do controle, e perpetuam uma postura de ignorar a necessidade de planejamento democrático das cidades.  E o que é pior,  deixam a população desarmada para um período de fortes mudanças no comportamento do clima onde uma das características principais é a ocorrência de eventos meteorológicos extremos que se caracterizam por altos níveis de precipitação em períodos curtos de tempo.

Uma curiosidade sobre o governo do prefeito Wladimir Garotinho que eu não me canso de repetir é a ausência de uma secretaria municipal de Meio Ambiente, com o setor tendo sido transformado em uma espécie de puxadinho da Secretaria Municipal de Planejamento. Com isso, não se viu no primeiro ano de governo nada que se possa chamar de uma política ambiental para o município, como se o meio ambiente fosse algo que possa ser ignorado ao mesmo modo em que se fazia, digamos, no final do século 19 quando incontáveis inundações traziam o flagelo para Campos dos Goytacazes. Com isso se esquece que vivemos o tempo das mudanças climáticas em que o despreparo técnico será punido com a perda de incontáveis somas de dinheiro e, pior, de vidas humanas.

Para não dizerem que não falei das flores, mostro abaixo uma figura produzida pelo mesmo André Moraes Barcellos Martins Vasconcellos para ser incluída em um artigo que estamos preparando sobre as injustiças ambientais ocorrendo na cidade de Campos dos Goytacazes como produto direto da persistência das formas tradicionais de governar.

alagamentos

Como se vê essa figura mostra os pontos críticos de inundação na região central da malha urbana campista que foram obtidos a partir de um levantamento de notícias publicadas na mídia local sobre pontos de alagamento em dias de chuvas mais intensas.  Além de mostrar onde os alagamentos ocorrem, o que esta figura deixa desnudo é o fato de que a inação do poder público municipal não se explica apenas pela ignorância de onde os fatos ocorrem, mas provavelmente pela postura de não priorizar soluções que não privilegiam a figura do “prefeito ostentação” que Wladimir Garotinho, como outros prefeitos no passado, parece tanto apreciar. Aliás, se nós no Setor de Estudos sobre Sociedade e Ambiente (SESMA) podemos gerar mapas deste “naipe”, o que dirá uma prefeitura bilionária como a de Campos dos Goytacazes, não é?

De toda forma, é preciso que se mova urgentemente da postura negacionista frente às mudanças climáticas para se adotar uma postura pró-ativa no sentido de preparar as cidades brasileiras para o advento de eventos persistentes de chuvas em períodos curtos de tempo que trarão fortes perturbações para a população, especialmente a mais pobre.  No caso de Campos dos Goytacazes, abandonar a postura negacionista requer a imediata recriação da secretaria municipal de Meio Ambiente (SEMA), com a devida dotação de recursos financeiros e humanos. Aliás, com um IPTU tão “salgado” quanto o que está sendo cobrado pelo governo de Wladimir Garotinho em 2022, recriar a SEMA não deveria ser problema, mas prioridade. Afinal de contas, nós que pagamos impostos merecemos uma cidade que esteja minimamente preparada para os desafios presentes e futuros.

Para quem tiver interesse em entender a natureza social dos riscos trazidos pelas mudanças climáticas, sugiro a leitura do artigo “Stop blaming climate for disasters” (ou em português “Parece de culpar o clima pelos desastres” que foi publicado recentemente pela revista  Nature na seção “Communications Earth and Environment”.

Spotify remove músicas de Neil Young por disputa com podcaster negacionista das vacinas

O Spotify disse na quarta-feira que o serviço de streaming lamenta a decisão de Young, mas espera “recebê-lo de volta em breve”

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O Spotify disse na quarta-feira que concordou em remover a música de Neil Young depois que o famoso cantor e compositor disse que não compartilharia a plataforma com o podcaster Joe Rogan, que foi criticado por espalhar desinformação sobre vacinas.

“Eles podem ter Rogan ou Young. Não os dois”, disse Young, de 76 anos, em uma carta aberta ao seu empresário e gravadora que foi postada em seu site Neil Young Archives na segunda-feira, segundo a Rolling Stone. A NBC News não viu o post original e não está claro por que foi removido do site de Young.

Um porta-voz do Spotify disse em um comunicado por e-mail que a empresa concordou em remover o trabalho de Young. O Spotify disse que lamenta a decisão de Young, mas espera “recebê-lo de volta em breve”.

“Queremos que todo o conteúdo de música e áudio do mundo esteja disponível para os usuários do Spotify”, disse o serviço de streaming. “Com isso, vem uma grande responsabilidade em equilibrar a segurança dos ouvintes e a liberdade dos criadores. Temos políticas de conteúdo detalhadas e removemos mais de 20.000 episódios de podcast relacionados ao COVID-19 desde o início da pandemia.”

O catálogo solo do cantor de “Heart of Gold” abrange mais de cinco décadas, desde seu álbum auto-intitulado de 1969 até seu álbum mais recente, “Barn”, de 2021. Um representante de Young não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.

Young chamou “The Joe Rogan Experience” em sua carta e o perigo do Spotify permitir a distribuição de desinformação potencialmente fatal.

“Com uma estimativa de 11 milhões de ouvintes por episódio, JRE, que é hospedado exclusivamente no Spotify, tem uma tremenda influência”, disse Young. “O Spotify tem a responsabilidade de mitigar a disseminação de desinformação em sua plataforma.”

Rogan, conhecido por suas opiniões contrárias e muitas vezes infundadas sobre a medicina , enfrentou uma reação generalizada por questionar a segurança das vacinas durante a pandemia. Ele assinou um acordo com o Spotify em 2020 que lhe renderia mais de US$ 100 milhões, dependendo do desempenho.

O Dr. Anthony Fauci, principal conselheiro médico do presidente, criticou Rogan no ano passado sobre os comentários de Rogan dizendo que não acreditava que os jovens deveriam ser vacinados contra o coronavírus.

“Bem, isso está incorreto, e a razão pela qual você está falando de si mesmo no vácuo”, disse Fauci a Savannah Guthrieno programa “TODAY”.

No início deste mês, quando o YouTuber Ethan Klein criticou publicamente as declarações de Rogan sobre a desinformação do COVID-19, os fãs de Rogan inundaram Klein com comentários gordofóbicos e antissemitas.

O YouTube derrubou um episódio recente de “The Joe Rogan Experience” por violar as diretrizes da comunidade da plataforma, que proíbem informações erradas relacionadas a eleições, COVID-19 e vacinas.

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela NBC News [Aqui!].