Nova Lima: Vale é denunciada em nota por causa da retomada de atividades minerárias do Projeto Vargem Grande que ameaçam população local

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Ato de Repúdio

Fomos surpreendidos ontem pelos órgãos de imprensa de que a empresa Vale S.A retornou com suas atividades minerárias no Projeto Vargem Grande, sem entrar em detalhes técnicos quanto à expansão das Minas de Tamanduá e Capitão do Mato.

É público e notório que a Vale vem sangrando todo o estado de Minas Gerais com operações degradantes e predatórias, sem política urbana e social, sem qualquer plano emergencial de contenção e protocolo de segurança, em localidades que já se encontravam antes da empresa iniciar suas operações.

A grande preocupação da empresa é obter lucro e aumentar cada vez mais seu poderio econômico, ignorando os diversos problemas ambientais e desrespeitando todas as comunidades próximas às suas minas, haja vista a falta de transparência e diálogo.

É evidente que o Poder Público é omisso em suas fiscalizações e no geral, estas empresas minerárias não respeitam a legislação ambiental em vigor, basta ver o ocorrido em Mariana, Brumadinho, Macacos e Betim, sem falar as inúmeras outras minas existentes com níveis elevados e, mais recentemente, o ocorrido na BR 040 com a Vallourec, em mais um crime ambiental.

Nota-se que não existe qualquer planejamento ou projeto concreto para ocorrências de riscos geológicos face os deslizamentos, erosões e diversos danos ao meio ambiente, sem falar da reparação e da recuperação de toda a área ambiental degradada e impactada pela exploração minerária.

A dor, a tristeza, a dor, a angústia e a falta de segurança nos deixa apreensivos e aterrorizados com a omissão da empresa e os órgãos fiscalizadores municipais, estaduais ou federais.

Não se sabe ao certo se as Minas de Tamanduá e Capitão do Mato possuem controle de segurança adequados, bem planejados, confiáveis e que possam evitar tragédias como as que pudemos acompanhar.

Basta ver a supressão em área nativa que realizaram no início de outubro de 2021 1 e no início do período chuvoso.

A informação dada pela Vale é de que seria necessária uma obra emergencial, face as diversas erosões na cava da Mina do Tamanduá detectadas em abril de 2021 e o risco desabamento.

Isso já serve de alerta para que as autoridades tomem as providências necessárias, com rigor excessivo, evitem novo desastre ambiental e não coloquem em risco vidas humanas das comunidades do Vale do Sol, Pasárgada, Condomínio Morro do Chapéu, Macacos, Condomínio Quintas do Morro, Reserva de Fechos e diversos outros paraísos que se encontram na região noroeste de Nova Lima/MG, contudo, nada foi feito até o presente.

E pasmem, a empresa Vale pretende realizar expansão da cava da Mina de Tamanduá, o que levou a Associação dos Proprietários do Pasárgada –ASPAS a notificar diversos órgãos ambientais responsáveis para que informem se a vida útil desta mina já venceu em 2016!

De que adianta trazer receitas para o Munícipio, Estado ou União, se violam Direitos Humanos, o Princípio Ambiental da Precaução e a legislação pertinente?

O risco de novo crime ambiental é iminente, já que a Vale continua explorando estas áreas sem qualquer limite de suportabilidade, podendo causar novamente diversos impactos ambientais e danos incalculáveis para toda a região acima mencionada.

A falta de sensibilidade de dano ou risco às pessoas e meio ambiente é tamanha, que sempre são tratorados pela ganância e evidente poder econômico de sua diretoria e, que aliás, fica toda na cidade do Rio de Janeiro, fazendo-se aqui representar por funcionários sem autonomia de decisão, mas cumprindo metas bem determinadas e com direito a bônus.

Conforme a bem posicionada manifestação Pública apresentada pela SME – Sociedade Mineira de Engenheiros, datada de 22 de janeiro de 2022: “Chuvas volumosas e intensas requerem níveis elevados de atenção e acompanhamento permanente, com avaliações em tempo real, assim como eficiente capacidade de mobilização de recursos de proteção e de salvamento e ágil e ampla campanha de informação e comunicação pública. É fundamental nestes casos haver uma atuação preventiva com preparação e capacitação nos âmbitos dos governos, das empresa e da sociedade de forma mais abrangente. Perdas dolorosas de vidas e bens podem ser reduzidas e mesmo evitadas com adoção de conhecimentos especializados no campo das engenharias, em destaque, a engenharia de recursos hídricos, da geotécnica e da geologia.”

 E finalizam: “Para a SME, pelas informações recebidas e avaliadas por nossos especialistas, no presente momento, estamos convictos de que a ausência de uma engenharia de qualidade é de fato contribuidora para o agravamento dos impactos advindos dos fenômenos hidrológicos adversos. Conhecer, prever, evitar ou reduzir os efeitos de eventos extremos são tarefas da gestão da engenharia, ferramenta imprescindível na construção de nosso futuro. Por isso, nossa manifestação, além de expressar nossa solidariedade, tem o produto de fazer um alerta para uma solução urgente e necessária em nosso país. É preciso reconquistar o papel da engenharia de qualidade, levá-la ao centro das decisões públicas e a sua valorização em nossa sociedade.”

Portanto, deixo aqui registrado minha preocupação, sentimento de impunidade e indignação pelos fatos que estão ocorrendo no estado de Minas Gerais, decorrentes da omissão e negligência das pessoas responsáveis pela exploração minerária de nosso tão castigado e maltratado meio ambiente, sem falar nos órgãos que expedem todo tipo de licenciamento requerido e não se preocupam em monitorar, fiscalizar, cobrar e fazer cumprir todo nosso ordenamento jurídico.

Nova Lima, 19 de janeiro de 2022.

Luiz Flávio Valle Bastos

Diretor de Meio Ambiente do Condomínio Morro do Chapéu

Moradores do Distrito de Macacos convivem com tensão causada pela instabilidade das estruturas de contenção da mina Mar Azul

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Mina Mar, operada pela mineradora Vale em Nova Lima (MG), onde barragem de rejeitos vive situação de forte instabilidade desde 2019

Venho acompanhando desde meados de 2019 os problemas causados pela instabilidade do sistema de barragens da mina Mar Azul que a mineradora Vale opera em Nova Lima (MG). Uma área especialmente afetada pelos problemas de instabilidade das barragens da Mar Azul é o distrito de Macacos que fica em distância relativamente pequena das estruturas.  Como mostrado recentemente a situação teve uma piora com a construção de um muro de contenção que evitaria a movimentação da mancha de rejeitos que poderá escapar em caso de rompimento da barragem da Mar Azul. No entanto, na manhã desta 3a. feira, o rompimento de um talude da mina lançou grande quantidade de rejeitos em um dos corpos hídricos da região de Macacos (ver vídeo abaixo).

Pois bem, hoje recebi uma imagem do que seria uma deslizamento de terra na área lateral da barragem B3/B4 que estaria no nível 3 (aquele em que há risco imediato de rompimento da estrutura) (ver imagem abaixo).

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A mineradora Vale já agiu rapidamente para colocar panos quentes na situação e lançou um informe em que procura minimizar o risco de que as estruturas de retenção dos rejeitos da Mar Azul estejam prestes a colapsar (ver imagem abaixo),

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Mas em que pese os desmentidos da Vale, a situação causa forte preocupação não apenas entre os moradores do Distrito de Macacos, mas também nos habitantes dos municípios que ficam à jusante da Mar Azul.  O fato é que a situação de risco na Mar Azul também está ocorrendo em outros municípios de Minas Gerais que convivem neste momento com a possibilidade de que outros incidentes de alto teor destrutivo como os de Brumadinho e Mariana se repitam em escala ainda maior. De toda forma, os próximos dias serão de alta tensão no Distrito de Macacos.

Os poderes ilimitados das mineradoras em MG: estrutura da Vallourec que cedeu em Nova Lima teve reunião extraordinária, licenciamento “fast food” e alertas sobre riscos

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Pelo Observatório da Mineração

A reunião que garantiu a ampliação da pilha de estéril Cachoeirinha da Mina Pau Branco, em Nova Lima/Brumadinho (MG), de propriedade do grupo francês Vallourec, foi feita em janeiro de 2021 após uma convocação extraordinária em regime de urgência pedido pela própria mineradora.

Para a expansão do projeto, a Vallourec entrou com pedido de licenciamento de várias estruturas, incluindo a Pilha de Rejeito/Estéril Cachoeirinha.

A urgência pedida pela Vallourec foi acatada pela Câmara de Atividades Minerárias (CMI) do Conselho Estadual de Política Ambiental (COPAM), após recomendação da Secretaria de Meio Ambiente (Semad).

O licenciamento correu na modalidade concomitante, com Licença Prévia, de Instalação e de Operação ao mesmo tempo. Assista a um vídeo inédito sobre a situação da Mina Pau Branco em imagens registradas por drone na tarde de ontem (09) por Bruno Costalonga Ferrete, cedido com exclusividade ao Observatório da Mineração.

A Vallourec alegou que, se não fosse atendida nas primeiras semanas de janeiro de 2021, a produção da empresa precisaria parar porque a pilha de estéril já tinha alcançado o limite de área permitido.

O prazo exíguo para análise dos documentos e manifestação oficial foi alvo de críticas da Promutuca e da MovSam, entidades ambientalistas da sociedade civil. Julio Grillo, ex-superintendente do Ibama em MG e representante da Promutuca, registrou em parecer que, no status da época, o empreendimento da Vallourec já representava um caminhão por minuto na BR 040, com alto risco de “desastres, mortes e poluição”.

Os ambientalistas repudiaram a convocação da reunião extraordinária de 14 de janeiro de 2021 em 30 de dezembro de 2020, após as 18 horas, época de recesso, alegando que precisariam analisar 412 páginas de processo no total da pauta da reunião em pouco tempo, incluindo apenas 5 dias úteis para os licenciamentos pedidos.

No fim, Grillo registrou que, caso o processo não fosse retirado de pauta diante dos problemas, a sua posição era pelo indeferimento. A reunião foi mantida, as críticas foram contemporizadas pela maioria dos presentes e a CMI aprovou por 11 votos favoráveis e 1 abstenção – da Promutuca – em 14 de janeiro de 2021 a expansão da Pilha de Estéril que, em parte, desabou dia 08 de janeiro de 2022, menos de 1 ano depois.

“A sociedade não pode ser míope ao analisar estes empreendimentos com rebaixamentos de lençol freático. Eles são divididos em pequenas partes e obtêm licenças sem que possamos analisar as consequências cumulativas e sinérgicas do que estamos licenciando”, diz o parecer de Grillo da época.

A CMI é formada por diversos representantes do poder público mineiro, pelo Ibama, ANM e representantes da sociedade civil como a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG), a Sociedade Mineira de Engenheiros e a já citada Promutuca. Ambientalistas costumam ficar isolados nas decisões da CMI.

Antes desses desdobramentos, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), celebrou em 23 de janeiro de 2019 a expansão da Mina Pau Branco em reunião com os representantes da Vallourec. Por coincidência, dois dias antes do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, que completa três anos no próximo dia 25 de janeiro.

Exaltando a previsão de investimento de R$ 220 milhões na ampliação das instalações do grupo francês em Brumadinho e Nova Lima, Zema afirmou em post no Twitter e no Instagram que o governo iria “trabalhar para trazer investimentos, gerar emprego e renda aos mineiros”.

Todas as fotos do deslizamento da Mina Pau Branco nesta matéria foram feitas por Bruno Costalonga Ferrete na tarde de domingo, 09 de janeiro.

Pilha de estéril está interditada pela ANM. Obras tentam conter novos impactos

A Pilha Cachoeirinha foi interditada pela Agência Nacional de Mineração, que exige um certificado de estabilidade e o restabelecimento das condições de segurança. O Dique Lisa foi elevado para a classificação 3 de risco pela ANM, o que requer a implementação do Plano de Ação de Emergência para Barragens de Mineração (PAEBM).

Na tarde de domingo, a ANM rebaixou o risco do Lisa – chamado de barragem pela agência – para nível 2 dizendo não haver “iminência de ruptura”. A BR 040 foi liberada.

Procurado para comentar o licenciamento, a reunião de Zema e a situação atual, o governo de Minas Gerais não se manifestou até a publicação desta reportagem. Caso o faça, a matéria será atualizada.

A Vallourec não respondeu as perguntas específicas da reportagem sobre o processo de licenciamento acelerado e a relação da empresa com o governador Romeu Zema e se limitou a enviar uma nota atualizada sobre a situação do transbordamento. “Neste momento, a Vallourec está com todas as equipes e recursos focados na adoção de providências e na realização das ações necessárias. Por isso, não conseguiremos dar um retorno sobre os seus questionamentos”, disse a mineradora.

Além da remoção das pessoas na mancha prevista de inundação e o transporte dos animais silvestres para outros viveiros, a Vallourec afirmou que “reforça que o Dique Lisa e a Barragem Santa Bárbara são estruturas distintas e localizadas em pontos diferentes da Mina Pau Branco. O dique em questão, localizado em Nova Lima, operava normalmente, em nível zero de criticidade e dentro dos parâmetros previstos na legislação vigente”.

“Desde o transbordamento do Dique Lisa, no dia 8/1/22, a Vallourec não poupou esforços para, em conjunto com os órgãos e autoridades competentes, minimizar os transtornos ocorridos e restabelecer a normalidade da situação. Na manhã de hoje, o tráfego na BR-040 foi liberado nos dois sentidos conforme os protocolos de segurança assinados com as autoridades e a Via 040”, completou a mineradora.

A justiça acatou em parte os pedidos da ação movida pelo Ministério Público de Minas Gerais e a Advocacia-Geral do Estado. Foi negado o bloqueio de bens da Vallourec no valor de R$ 1 bilhão, mas o juiz determinou a suspensão de toda e qualquer atividade de disposição de material de qualquer natureza, incluindo estéril e rejeitos na Mina de Pau Branco, na Pilha Cachoeirinha e a execução de todas as medidas emergenciais previstas no Plano de Ação, como base no pior cenário, inclusive contemplando a mancha de inundação na totalidade e potenciais efeitos cumulativos e sinergéticos com outras estruturas, com conferência e adequação de rotas de fuga, pontos de encontro, sinalização de campo e sistemas de alarme.

A expansão da Mina Pau Branco contou também com obras da estatal de energia Cemig, que Zema tenta privatizar, em março de 2021. Uma nova linha de distribuição foi construída para atender a mineradora.

De acordo com a Cemig, ao garantir disponibilidade de sistema para a expansão da Vallourec, o empreendimento “reforça a parceria entre as empresas e contribui para o desenvolvimento econômico do estado”.

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Este texto foi inicialmente publicado pelo “Observatório da Mineração” [Aqui!].

Muro de contenção da Vale acumula água das chuvas e isola habitantes do Distrito de Macacos em Nova Lima

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Muro de contenção (visto ao fundo na imagem acima) construído pela mineradora Vale causa acumulação das águas das chuvas e isola habitantes do Distrito de Macacos 

Em agosto de 2020 fiz uma postagem dando conta das táticas de isolamento territorial impostos pela mineradora Vale contra os habitantes do Distrito de Macacos em Nova Lima (MG).  Sob a escusa de construir um muro de proteção para conter rejeitos que poderiam escapar das ameaçadas barragens da Mina Mar Azul, a empresa instalou barreiras físicas que impediam a livre circulação dos habitantes de Macacos.

Eis que agora em meio às chuvas intensas que estão ocorrendo em Minas Gerais, os habitantes de Macacos estão sofrendo com o represamento de águas que terminaram por invadir propriedades e causar grande aflição aos moradores da área urbanizada (ver vídeos abaixo).

O pior é que segundo o jornal “Brasil de Fato“, informações vindas de Macacos dão conta que “a única rota de fuga segura, em caso de rompimento de qualquer barragem, a estrada Campos da Costa, está interditada por causa do muro” implicando no isolamento em relação à BR-040, o que evidencia que o drama em que estão imersos os habitantes do distrito tem a Vale como principal causadora.

Como se vê, o início de 2022 está sendo extremamente pedagógico em relação aos prejuízos sócio-ambientais causados pela mineração em Minas Gerais. E olha que não chegamos nem na metade do mês de janeiro.

Mais um incidente envolvendo barragem explicita o alto custo sociombiental da mineração em MG

barragem-rompe-mg-1Rejeitos escapados de barragem de mineração em Nova Lima (MG) criou cenário de destruição na BR-040

Após ser ter sido seu território atingido pelos tsulamas de Mariana e Brumadinho, o estado de Minas Gerais foi palco hoje de novo incidente envolvendo uma barragem de mineração, no caso o da mina de Pau Branco pertencente à Vallourec no município de Nova Lima (ver imagem abaixo).

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Diferentes fontes da mídia corporativa estão dando diferentes versões sobre o que está acontecendo na Mina Pau Branco, com umas falando em rompimento e outras em transbordamento.

O que fato ocorreu na barragem da Vallourec ainda deverá ficar claro nos próximos dias, mas fica mais uma vez patente o alto custo social e ambiental da mineração, pois o mínimo que ocorreu é que uma estrutura de proteção não conseguiu conter o transbordamento de uma quantidade ainda não calculada de rejeitos para áreas externas à estrutura de proteção (ver vídeo abaixo).

A Prefeitura de Nova Lima já informou que irá multar a Vallourec por cometimento de crime ambiental, e que ainda irá “exigir, ao lado do governo estadual, o cumprimento do Plano de Recuperação da Áreas Degradadas, já que o monitoramento, acompanhamento e licenciamento ambiental de mineração são atribuições de competência do Estado”.

Há que se lembrar que uma das prioridades do comando do congresso nacional neste momento é finalizar a aprovação do Projeto de Lei No. 3729/04, o que, entre outras coisas, deverá retirar a mineração a maioria dos  requisitos exigidos atualmente, o que representará uma espécie de passe livre para ampliação das atividades minerárias, com a expectativa de que tenhamos ainda mais casos de transbordamento e de ruptura de barragens de rejeitos. 

Como existem outros setores que estão tendo suas exigências ambientais rebaixadas pelo congresso nacional a pedido do governo Bolsonaro fica evidente que a proteção do meio ambiente deverá um dos principais pontos de qualquer plano de governo que vise impedir a  transformação do Brasil em uma mera colônia de produção de commodities agrícolas e minerais.

Vale usa caminhões robôs em Nova Lima, enquanto deixa atingidos por rompimento iminente desamparados

wp-1607002888617.jpgLocal onde a mineradora Vale realiza obras de reforço da barragem de rejeitos da mina Mar Azul usando veículos não tripulados

À primeira vista a cena abaixo é prosaica e mostra caminhões caçamba movimento terra em uma que está sendo realizada pela mineradora Vale nos arredores da mina de Mar Azul que desde o início de 2019 ameaça romper em Nova Lima (ver vídeo abaixo).

Mas a cena nada tem de prosaico, pois todos os veículos utilizados nesta obra são do tipo “não tripulado”, ou seja, são caminhões e carregadeiras “robôs” que pertencem à empresa “Barbosa Mello”, refletindo um alto grau de sofisticação.

O problema é que, segundo fontes do blog que vivem na região afetada pelo iminente rompimento de mais uma barragem da Vale (as outras que romperam causaram os catastróficos “tsulamas” de Mariana e Brumadinho), o mesmo tipo de sofisticação não é empregado pela Vale quando se trata de respeitar os direitos e necessidades das centenas de famílias que estão tendo suas vidas arruinadas pelas ações realizadas pela Vale para corrigir seus malfeitos na região de entorno da mina Mar Azul.

Aliás, convenhamos, a empresa que pode se dar ao luxo de utilizar veículos não tripulados para realizar obras de reforço de uma de suas barragens poderia, em primeiro lugar, ter agido para não ter que dar respostas a um problema que só existe por sua própria negligência com as questões sociais e ambientais decorrentes de suas operações.

Pelo jeito, a Vale, que gosta de apregoar seus compromissos socioambientais, prefere sempre agir depois que o leite já está derramado. Afinal, sempre é possível conduzir campanhas de “greenwashing” para iludir os acionistas estrangeiros.

Moradores de áreas próximas à mina que ameaça romper em Nova Lima (MG) reclamam das imposições da Vale

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A mineradora Vale está circulando o panfleto abaixo para, em tese, alertar sobre os eventuais efeitos do rompimento da barragem (ou barragens) da mina Mar Azul sobre a região de São Sebastião das Águas Claras (Macacos), município de Nova Lima (MG), no que se convenciona chamar de “nova hipotética de inundação”, a qual já teria sido validada no dia 16 de Novembro pela empresa que faz a auditagem do caso para o Ministério Público de Minas Gerais (ver imagem abaixo).

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O que a imagem disponibilizada pela Vale não mostra é sobre os fortes impactos ambientais e econômicas que o rompimento de uma de suas barragens (lembremos que a Vale é parte diretamente responsável pelos rompimentos ocorridos em Mariana e Brumadinho) em Minas Gerais. 

Esses impactos, no entanto, ficam mais claros na imagem abaixo retirada do Earth Google onde se pode ver todos as áreas habitacionais e estabelecimentos comerciais que estão no caminho potencial dos rejeitos que ameaçam escapar da mina Mar Azul desde o início de 2019.

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A situação criada em Macacos já foi objeto de diversas postagens neste blog onde mostrei que muitos moradores da região se ressentem das imposições da Vale, as quais muitos vêem como meros artifícios adotados pela mineradora para aumentar o seu já forte controle sobre o território, sem que haja o devido respeito aos direitos dos moradores que estão sob risco de perda total de seus propriedades e estabelecimentos em função de uma forma pouco responsável de armazenar os rejeitos gerados pela atividades de mineração.

Operação policial revela esquema criminoso para fornecimento de minério de ferro para a Vale

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Policiais em frente à sede da Cedro Mineradora, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte — Foto: Aluisio Marques/TV Globo

A mineradora Vale tem estado envolvida em uma série de situações que colocam em xeque a sua reputação internacional, começando pelos Tsulamas de Mariana e Brumadinho que resultaram em verdadeiras catástrofes socioambientais cujas consequências ainda estão em desenvolvimento, afetando populações humanas e ecossistemas naturais. Também tenho abordado as ações de controle autoritário do território em áreas afetadas pela iminência de novos rompimentos de suas barragens, como é o caso do Distrito de Macacos em Nova Lima.

Mas agora os problemas envolvendo a cadeia de fornecimento da Vale acabam de ganhar as páginas policiais com a descoberta de um esquema milionário de extração ilegal de minério de ferro pelas empresas Cedro Mineração e Extrativa (ver vídeo abaixo).

Essa situação revela outra faceta até desconhecida das relações comerciais que a Vale mantém com fornecedores de matérias primas que a empresa depois termina exportando. Ao se revelar o que parece ser uma forma de lavagem de minério”, a questão que aparece é sobre quanto daquilo que é comercializado pela Vale como sendo de suas próprias minas é originado de esquemas criminosos como é que agora está sendo revelado, inclusive pela mídia corporativa (ver vídeo abaixo).

Finalmente, é interessante notar que quando se trata da Vale, sempre há uma novidade a mais. Resta saber agora como vão reagir seus clientes e acionistas, bem como o próprio governo de Minas Gerais. Mas uma coisa é certa, essas revelações são complicadoras para a imagem corporativa da Vale que, aliás, já não está boa desde o incidente ocorrido em Mariana.

Em Macacos, Vale isola e divide comunidades com medidas draconianas de controle do território

wp-1597274811361.jpgCom trincheiras e portões, a Vale fecha acessos e isola comunidades no distrito de Macacos na área potencialmente inundável pelo rompimento dos depósitos de rejeitos da mina Mar Azul

Responsável direta por um enorme número de falências no outrora dinâmico Distrito de Macacos que foi diretamente atingido pela ameaça de rompimento das barragens da mina Mar Azul em Nova Lima (MG), a Vale propagandeia que paga indenizações a mais de 7.000 pessoas, quando o número real gira em torno de 900. Além disso, a Vale tem uma face pública em que procura mostrar transparência em relação ao que está fazendo para minimizar os estragos de mais um rompimento em um dos seus empreendimentos em Minas Gerais, como bem ilustra o folheto mostrado abaixo.

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Mas a coisa muda bastante de figura quando se tem acesso às práticas de estrito do controle do território que a Vale vem impondo, curiosamente sobre quem está sendo prejudicado pela postura de colocar o lucro acima da segurança das comunidades e do meio ambiente nas regiões em que a empresa desenvolve suas atividades.

Informações chegadas de Macacos dão conta que usando a desculpa de proteger os moradores que têm propriedades ou precisam cruzar áreas que eventualmente seria inundadas pelo rompimento das barragens da Mar Azul, a Vale vem realizando ações que impedem a livre circulação dos moradores em pelo menos uma área do distrito, a chamada Mata do Engenho, criando uma série de dificuldades dentro de uma comunidade formada por 80 famílias (ver imagens abaixo).

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Essa ação óbvia de controle corporativo do território vem causando um enorme problema dentro da comunidade, visto que partes dos moradores optou por construir uma via alternativa para evitar um trajeto de 20 km. O problema é que esta via alternativa foi feita dentro de propriedades particulares, gerando um inevitável confronto com os proprietários dos lotes em que a estrada alternativa foi construída.

Segundo um morador ouvido pelo blog,  a situação na comunidade do Mato do Engenho se tornou muito peculiar, na medida em que há maior estresse entre os moradores do que com a Vale que, afinal de contas, é a causadora inicial de todos os problemas que estão ocorrendo neste momento no Distrito de Macacos e, mais especificamente, na área da Mata do Engenho.  É que, além da dificuldade de circulação, os portões e trincheiras cavadas pela Vale estão dificultando as atividades agro-ecológicas e de turismo rural que eram a base da economia de Macacos. 

Imagens mostram a posição da comunidade do Mato do Engenho dentro da possível área de inundação causada pelo rompimento dos reservatórios da mina Mar Azul (esquerda), e os pontos de bloqueio feitos dentro da comunidade da Mato do Engenho (direita)

Segundo essa mesma fonte, a indefinição de qual seria a área efetivamente inundável pelo rompimento dos reservatórios de rejeitos da mina Mar Azul também sido utilizada pela Vale para pressionar moradores para que vendam suas propriedades. Entretanto, as pressões estariam sendo maiores sobre proprietários que são mais vocais no sentido de demandar ações mais rápidas de mitigação para os danos sociais e econômicos que a empresa tem causado desde que anunciou que outra de suas minas poderiam causar outro mega desastre ambiental em Minas Gerais. 

Como se vê,  de entidade filantrópica, como alegou um dos seus representantes em reunião com os moradores atingidos em Macacos, a Vale não tem nada. O que a Vale faz muito bem é usar táticas de controle do território que terminam infernizando a vida das vítimas dos seus malfeitos corporativos.  Mas o caso de Macacos está começando a chamar a atenção não apenas no Brasil, mas também no exterior. Com isso, o que se espera é que haja mais apoio à luta inglória que os moradores de Macacos estão sendo obrigados a travar com uma das gigantes da mineração mundial.  E isto tudo em meio a uma pandemia letal.

Em reunião virtual tensa, Vale informa a moradores de distrito sob risco de novo Tsulama que a empresa não é “uma instituição de caridade”

nova limaImagem de satélite mostra área de Nova Lima (MG) que poderia ser atingidas caso houvesse um rompimento das barragens da Vale na mina Mar Azul – Reprodução

Em uma reunião virtual feita por meio do aplicativo Microsoft Teams no dia 31 de julho, e qual foi marcada pela tensão, com os representantes dos atingidos pelas remoções causadas pela instabilidade dos reservatórios de rejeitos da Vale  da mina Mar Azul. que está localizada em Nova Lima, região metropolitana de Belo Horizonte. Os moradores do distrito de São Sebastião das Águas Claras, mais conhecido como Macacos, foram surpreendidos na reunião pela presença de sete advogados da Vale, já que apenas a presença de um representante havia sido anunciada previamente pela Defensoria Pública de Minas Gerais.

Os representantes da Vale, certamente pressionados pelas demandas apresentadas pelos representantes dos atingidos, abriram a reunião com o peculiar anúncio de que a empresa não era “uma instituição de caridade”. E isto em que pese os múltiplos prejuízos causados pela empresa no Distrito de Macacos por causa da instabilidade dos reservatórios de rejeitos da mina Mar Azul que, como em Mariana e Brumadinho, é um empreendimento sob responsabilidade da Vale que ameaça causar um novo “Tsulama” em Minas Gerais, que poderia causar outro grande desastre ambiental.

Os moradores de Macacos apresentaram uma pauta que envolve a busca de soluções para os problemas associados às tentativas (tardias, por sinal) de impedir que haja uma nova repetição dos rompimentos de Mariana e Brumadinho, e que causaram grandes perdas em termos de vida humanas, qualidade de vida, destruição de ecossistemas naturais e atividade econômica, especialmente o ecoturismo (ver vídeo abaixo).

De forma específica, os representantes dos moradores levantaram questões acerca dos impactos causados pelo trânsito de caminhões e os impactos das obras sendo realizadas para criar um muro de contenção que impeça a chegada dos rejeitos em caso de rompimento das barragens da Mar Azul.  Um detalhe que preocupa os moradores de Macacos de forma específica é a falta de transparência sobre a real condição de estabilidade das estruturas que ameaçam romper desde o início de 2019.

Um aspecto que causou especial tensão na reunião foi o pagamento de indenizações pela Vale aos moradores atingidos, visto que a empresa estaria impondo acordos financeiros sem a devida negociação com os atingidos, causando assim o prolongamento das perdas econômicas já acumuladas desde que a estabilidade dos reservatórios de rejeitos da Mar Azul foi colocada em questão.  Os moradores reclamaram ainda dos cortes realizados pela Vale no pagamento de um mecanismo de renda emergencial, sem que já tenha sido firmados acordos definitivos sobre as indenizações devidas pela mineradora.

Como se vê, apesar da propaganda em contrário, a Vale continua tratando os efeitos colaterais de suas estratégias de mineração como coisa alheia. Essa socialização do risco é certamente algo que precisa ser discutido urgentemente, especialmente em face da possibilidade de que o governo Bolsonaro “passe a boiada” e flexibilize de vez as operações de mineração no Brasil, inclusive no interior de terras indígenas.