Sistemas alimentares são responsáveis por mais de um terço das emissões globais de gases de efeito estufa

sistema alimentarA base de dados EDGAR-FOOD representa um marco para a compreensão de como o sistema alimentar global se desenvolveu.  Foto | FAO

Os sistemas alimentares mundiais são responsáveis por mais de um terço das emissões antropogênicas globais de gases de efeito estufa, de acordo com um novo estudo pioneiro publicado na Nature Food.

O estudo, de co-autoria do estatístico sênior e especialista em mudanças climáticas da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), Francesco Tubiello, em colaboração com pesquisadores do Centro de Pesquisa Conjunta da Comissão Europeia em Ispra, Itália, oferece um tesouro de dados e, pelo menos em nível de importância, apresenta uma nova base de dados – EDGAR-FOOD – que remonta a 1990 e permite o rastreamento granular de tendências atuais e futuras. A nova ferramenta, baseada nos principais dados de uso da terra do FAOSTAT, fornece uma série de dados completa e consistente abrangendo vários setores que serão essenciais no projeto de ações de mitigação eficazes e caminhos de transformação para sistemas alimentares sustentáveis.

Abrangendo desde mudanças no uso da terra e produção agrícola até embalagem e gestão de resíduos, as emissões do sistema alimentar foram estimadas em 18 bilhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente em 2015. Isso representa 34% do total, uma parcela que está diminuindo gradualmente – era de 44% em 1990 – mesmo com as emissões dos sistemas alimentares aumentando em quantidades absolutas.

O estudo também oferece uma compreensão e estimativa mais precisa dos efeitos climáticos da produção, distribuição e consumo de alimentos antes da Cúpula dos Sistemas Alimentares das Nações Unidas de 2021 no final deste ano. O Relatório Especial do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), sobre Mudanças Climáticas e Terras, recentemente atribuiu aos sistemas alimentares entre 11 e 19 bilhões de toneladas de emissões por ano, uma ampla gama que ressalta a necessidade de reduzir nossas lacunas de conhecimento.

A base de dados EDGAR-FOOD representa um marco para a compreensão de como o sistema alimentar global se desenvolveu. Ele permite avaliações de como as mudanças no comportamento do consumidor ou evolução tecnológica podem impactar as emissões de GHG (Gases de Efeito Estufa) do sistema alimentar e pode servir como uma ferramenta preciosa para pesquisadores com foco em setores específicos, bem como formuladores de políticas encarregados de projetar estratégias de mitigação que não apenas deslocam emissões para outros setores.

A FAO tem poderosos conjuntos de dados de emissões sobre a agricultura e o uso da terra e está construindo um novo para apoiar o trabalho da Cúpula dos Sistemas Alimentares da ONU.

Principais conclusões

Cerca de dois terços das emissões dos sistemas globais de alimentos vêm do setor baseado na terra, compreendendo agricultura, uso da terra e mudanças no uso da terra. Esse número é mais alto para os países em desenvolvimento, mas também está diminuindo significativamente com a redução do desmatamento e o aumento das atividades a jusante, como processamento de alimentos e refrigeração.

Em termos de sua participação em todas as emissões antropogênicas de GHG, os sistemas alimentares dos países industrializados são amplamente estáveis em cerca de 24%, enquanto nos países em desenvolvimento diminuíram notavelmente – em parte devido a aumentos muito elevados nas emissões não alimentares – para 39% em 2015 para 68% em 1990.

Os principais emissores são, pela ordem: China, Indonésia, Estados Unidos da América, Brasil, União Europeia e Índia.

Os estágios de produção que levam os alimentos para a fazenda – incluindo insumos como fertilizantes – são agora os principais contribuintes para as emissões gerais do sistema alimentar, constituindo 39% do total. O uso da terra e fatores relacionados contribuem com 38%, enquanto a distribuição é responsável por 29%, uma parcela que está crescendo e deve continuar crescendo.

EMISSÕES

Emissões de GEE do sistema alimentar. a, b, gráficos de pizza mostram a contribuição dos diferentes setores do sistema alimentar (baseado em terra, energia, indústria e  resíduos) às emissões de GEE provenientes de alimentos em 1990 (a) e 2015 (b). As cores no mapa mostram a parcela das emissões de GEE dos sistemas alimentares como uma fração do total de emissões de GEE (as participações detalhadas de GEE no sistema alimentar por país são relatadas na Tabela Suplementar 4). Emissões totais de GEE (incluindo CO2, CH4, N2O e gases F) são expressos como CO2  equivalente (CO2e) calculado usando os valores GWP100 usados no IPCC AR5, com um valor de 28 para CH4 e 265
para N2O. OCDE, Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico.

O metano (CH4) é responsável por cerca de 35% das emissões de GHG do sistema alimentar, praticamente o mesmo em países desenvolvidos e em desenvolvimento, e provém principalmente da pecuária e do cultivo de arroz.

A pesquisa destacou como os sistemas globais de alimentos estão se tornando mais intensivos em energia, refletindo tendências nos setores de varejo, embalagem, transporte e processamento, cujas emissões estão crescendo rapidamente em alguns países em desenvolvimento. Os países industrializados, por sua vez, aumentaram a emissão de gases fluorados com efeito estufa – que têm um efeito turboalimentador no aquecimento global – usados na refrigeração e em outras aplicações industriais. A refrigeração é responsável por quase metade do consumo de energia do setor de varejo e supermercado, cujas emissões aumentaram mais de quatro vezes na Europa desde 1990. As atividades da “cadeia de frio” mundial respondem por cerca de 5% das emissões globais do sistema alimentar, um número esperado para aumentar.

Ele também revelou que a embalagem agora contribui com cerca de 5,4% das emissões globais do sistema alimentar, mais do que qualquer outro fator da cadeia de abastecimento, incluindo transporte. No entanto, a intensidade das emissões varia notavelmente por produto, com o vinho e a cerveja sendo responsáveis por uma parcela significativa dos impactos das embalagens, enquanto as bananas e o açúcar de beterraba têm maiores emissões de transporte.

Em média, as emissões globais per capita anuais relacionadas aos alimentos diminuíram de 1990 a 2015 em cerca de um terço, para 2 toneladas de CO2 equivalente. Esse número não deve ser entendido como o mesmo que uma “pegada do consumidor”, pois variam de acordo com padrões dietéticos específicos, mas pode ser usado para avaliar os esforços nacionais de mitigação para reduzir as emissões de GHG do sistema alimentar como um todo.

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Este texto foi originalmente publicado pela seção brasileira da Organização das Nações Unidas [Aqui!].

Brasil terá que refazer suas metas no Acordo de Paris antes da COP26

ONU pede revisão de planos climáticos ruins; Brasil ficou fora de Cúpula em 2020 por submeter objetivos que reduzem esforço do país contra aquecimento global

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Um relatório da ONU divulgado hoje (26/02) afirma que as metas atuais dos principais poluidores combinadas não chegam nem perto de mitigar as mudanças climáticas. Segundo o documento, as propostas atuais dos países que representam 30% das emissões de gases de efeito estufa conseguirão reduzir em apenas 1% as emissões até 2030 em relação aos níveis de 2010. Para garantir que o aquecimento global fique abaixo de 2ºC, esse percentual deveria ser de 25%, sendo 45% para a meta de 1,5ºC, segundo cálculos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), maior autoridade científica sobre o assunto.

O relatório Síntese Inicial NDC foi solicitado pelas Partes do Acordo de Paris para medir o progresso dos planos nacionais de ação climática – Contribuições Nacionais Determinadas, conhecidos pela sigla NDC – antes da COP26 em novembro deste ano, que será realizada em Glasgow, na Escócia.

No ano passado, o Brasil ficou de fora da Cúpula de Ambição Climática da ONU exatamente porque os organizadores do evento não consideraram suficientes as metas climáticas divulgadas quatro dias antes do encontro pelo Ministério do Meio Ambiente. O Brasil é o 6º maior emissor do mundo, e a destruição das florestas responde pelo maior volume de emissões.

“No momento, é como se estivéssemos entrando em um campo minado de olhos vendados”, definiu Patrícia Espinosa, secretária executiva de Mudança Climática da ONU. Ela encorajou todas as nações a investigar outras áreas a fim de criar planos mais robustos. “O que precisamos é muito mais radical e transformador do que o que temos agora. Precisamos de planos concretos para eliminar gradualmente os combustíveis fósseis o mais rápido possível”.

“O relatório provisório de hoje é um alerta vermelho para nosso planeta”, lamenta o secretário geral das Nações Unidas Antonio Guterres. “Os principais emissores devem apresentar metas muito mais ambiciosas de redução de emissões para 2030 em suas Contribuições Nacionais Determinadas bem antes da Conferência Climática da ONU em Glasgow, em novembro. Agora é a hora.”

Laurence Tubiana, CEO da Fundação Europeia do Clima e uma das idealizadoras do Acordo de Paris afirma que os países do G20 deveriam liderar o processo de mitigação das mudanças climáticas. “Os governos que entregaram planos pouco ambiciosos devem — como sugere a ONU — reconsiderar e reapresentar os planos até a COP26”.

Entre pesquisadores e ambientalistas, os resultados do relatório geraram comoção. “É espantoso como os países estão longe de lidar com a crise climática”, afirma Mohamed Adow, diretor da Power Shift Africa, um think tank com sede no Quênia que estuda a transição energética no continente africano. “Alguns países fizeram bem em atualizar suas promessas do Acordo de Paris, mas muitos outros, como Brasil, Japão, Austrália, México e até mesmo a Nova Zelândia não fizeram nada, vergonhosamente. Este estado de coisas não pode continuar.”

Para Niklas Höhne, fundador do NewClimate Institute, organização especializada em políticas climáticas, o maior impacto positivo vem da União Europeia, seguida do Reino Unido e da Argentina. “Mas dez países apresentaram NDCs revisadas sem nenhuma melhoria na ambição ou mesmo retrocedendo: Austrália, Brasil, Japão, México, Nova Zelândia, Singapura, Coreia do Sul, Suíça e Vietnã”, destaca o pesquisador. Ele ressalta que dessa lista, ao menos o Japão já reconheceu a pouca ambição da meta submetida em 2020 e se comprometeu a melhorá-la este ano.

“O Brasil apresentou uma NDC que efetivamente enfraquece suas já insuficientes metas de ação climática para 2025 e 2030”, avalia Höhne. “Como resultado, as emissões do Brasil em 2030 sob a nova meta poderiam ser 27% maiores do que eram quando ratificou o Acordo de Paris em 2016.” Ele lembra que um recuo nas metas de redução de emissões desobedece a exigência do Acordo de Paris de que cada nova NDC seja mais ambiciosa que a anterior.

Esperança

Os resultados do relatório aumentam ainda mais as expectativas em relação a uma postura mais ambiciosa este ano por parte dos dois grandes poluidores do planeta: EUA e China.

“Espero que os EUA e a China possam igualar a União Europeia na entrega de estratégias que nos coloquem no caminho do zero líquido”, afirma Tubiana, que também é embaixadora da França para a Mudança Climática.

A diretora executiva do Greenpeace Internacional, Jennifer Morgan, também joga os holofotes sobre os dois países. “Estamos chamando os maiores emissores do mundo, os Estados Unidos e a China, para entregar NDCs no próximo mês que nos dêem motivos de esperança”, afirma. Ela ainda vê a possibilidade de países que estão indo no caminho contrário voltarem a cooperar pelo clima.

“A Austrália e o Brasil, arrasados por queimadas agravadas pela emergência climática, devem, respectivamente, controlar os interesses dos combustíveis fósseis e da agricultura industrial, enquanto trabalham para criar um futuro justo e seguro para seus cidadãos e proteger a preciosa biodiversidade”, disse a ambientalista.

 
“Com planos climáticos lamentavelmente fracos, grandes emissores como Japão, Austrália e Brasil estão pesando sobre a ambição global, quando na verdade deveriam estar liderando”, afirma Tasneem Essop, diretor executivo da Climate Action Network. Para ele, anúncios de metas líquidas zero em 2050 não podem ser o único sinal de ambição climática. “Os EUA e a China – que ainda vão apresentar suas NDCs – devem fazê-lo o mais rápido possível. É imperativo que os Estados Unidos forneçam sua parte justa, tanto sobre a redução de emissões, como em relação às finanças.”

O relatório está disponível  [Aqui!]

Observatório do Clima avisou em 2016 sobre “pedalada” na meta climática do Brasil

Pedido de ajuste na NDC para 57% à luz de novo inventário consta de análise do SEEG de quatro anos atrás

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Painel sobre os desafios do NDC no Brasil

DO OC – O governo (Bolsonaro) não pode alegar surpresa por ter sido excluído da Cúpula de Ambição Climática ao apresentar uma meta no Acordo de Paris que permitirá ao Brasil aumentar suas emissões. O Observatório do Clima já alertava para o problema contábil na chamada  Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC) do Brasil desde 2016.

Na quarta edição do SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa), que fez naquele ano a primeira análise da NDC (então INDC) brasileira, o OC notou que a meta de 37% e a meta indicativa de 43% precisariam ser ajustadas de forma a ficarem compatíveis com a contabilidade mais recente de emissões.

Isso porque em 2016 o Brasil publicou um novo inventário nacional de gases de efeito estufa, que elevou as emissões do país em 2005.

O alerta foi feito no seminário de lançamento do SEEG, em outubro de 2016, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, com presença de técnicos do governo federal. Na síntese do relatório analítico do SEEG, publicado em 2017, o aviso foi repetido:

“A referência para a INDC foram os dados do Segundo Inventário. Quando foi publicada a Terceira Comunicação Nacional do Brasil à UNFCCC, com os dados do Terceiro inventário (abril de 2016), houve uma revisão dos dados de emissão em toda a série histórica; especificamente em 2005, as emissões subiram para 2,8 GtCO2e (GWP-100; IPCC AR5), 25% maiores que as emissões conforme o Segundo Inventário.”

“Essa alteração foi resultado da evolução na metodologia de cálculo das emissões e remoções por mudança de uso da terra e florestas. Como a meta da INDC estava expressa primeiro em redução percentual em relação às emissões de 2005 e depois eram expressas na nota explicativa (anexada à INDC ‘apenas para informação’) em valores absolutos de emissões em 2025 e 2030, o OC defendeu um ajuste na NDC à luz dos novos dados.”

“Ao tomar como base as emissões totais de 2005 contidas no Terceiro Inventário, a meta de redução de emissões expressa em porcentagem faria com que a emissão projetada para 2030 fosse 400 MtC2Oe maior que o indicado na INDC (1.617 milhões contra 1.216 milhões de toneladas), o que representa quase 1% das emissões globais. Caso sejam mantidos os limites absolutos das emissões em 1.216 MtCO2e, a porcentagem de redução em 2030 fica em 57%, o que é certamente mais ambicioso.”

O relatório-síntese, com todos os cálculos e todas as tabelas, pode ser baixado aqui.

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Este texto foi originalmente publicado pelo Observatório do Clima [Aqui!].

Para quê e a quem serve a ciência que se faz?

Pesquisa realizada na Universidade Estadual do Norte Fluminense é citada em relatório produzido pela ONU sobre a situação dos direitos humanos no Brasil

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Muitas vezes há quem questione o papel da ciência no entendimento e modificação da realidade. Por outro lado, tomados pela lógica do produtivismo acadêmico há quem dentro da comunidade científica se exima de fazer ciência que incomode quem os financia, especialmente se eles estão abraçados com as corporações privadas.

De minha parte, tenho sempre tentado ser um pesquisador que busca investigar elementos que possam ser efetivamente úteis para o entendimento e modificação da realidade.  Por esse motivo, não me considero um indivíduo de passagem fácil dentro até da universidade onde escolhi trabalhar, a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf).

O fato é que procuro sempre seguir o vaticínio de que “a prática é o critério da verdade”, e ainda que isto não me torne exatamente uma pessoa popular, eu consigo sempre repousar a cabeça no travesseiro e dormir imediatamente.  Faço porque dispenso os elogios fáceis e as amizades traiçoeiras, pois acho que já tive a dose suficiente dessas coisas ao longo da vida. 

Mas por que estou oferecendo essa reflexão? É que, de tempos em tempos, vejo que o caminho que optei por seguir como pesquisador tem suas recompensas. É que hoje encontrei no relatório intitulado “Visit to Brazil – Report of the Special Rapporteur on the implications for human rights of the environmentally sound management and disposal of hazardous substances and wastes”  que acaba de ser submetido à 45th Sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, uma referência a um artigo intitulado “Modes of pesticides utilization by Brazilian smallholders and their implications for human health and the environment” que publiquei com colegas da Uenf sobre o uso de agrotóxicos em um assentamento de reforma agrária em Campos dos Goytacazes na revista Crop Protection em 2012 (ver imagem abaixo).

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Esse artigo já vinha sendo um motivo de alegria, pois desde sua publicação já foi citado em dezenas de outros estudos científicos e em relatórios de agências multilaterais, começando pela FAO. Mas me arrisco a dizer que ao ser incluído neste relatório do Conselho de Direitos Humanos da ONU, especificamente na seção que trata dos malefícios causados pelo uso intenso e abusivo de agrotóxicos no Brasil, este artigo alcançou um outro nível de contribuição ao conhecimento e aos esforços para modificação da realidade.

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Agricultor trabalha com agrotóxicos em um plantio de abacaxi sem qualquer tipo de proteção

E esse é o tipo de ciência que só universidades públicas podem produzir, pois, em que pesem todas as limitações impostas pelas restrições de financiamento e de perseguições políticas, é nelas que se produz mais de 90% da ciência brasileira. Por isso, os ataques recentes contra a sustentação econômico e à liberdade de cátedra que estão sendo realizados de fore e dentro das universidades brasileiras.

Finalmente, existem muitos pesquisadores que hoje se medem apenas pelo que dizem as famosas “métricas”, a começar pelo decantado Fator H. Eu diria que não obstante as métricas serem os indicadores da vez sobre a potencial contribuição da ciência que se produz, há muito mais coisa para além dos muros.  Entender isso, sem abrir mão da qualidade da ciência que se almeja produzir, será fundamental para a sobrevivência da ciência brasileira e das universidades públicas onde ela é produzida.

Jair Bolsonaro gosta de negar a realidade

Na abertura da Assembleia Geral da ONU, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro declara seu país vítima de uma campanha de mentiras sobre a Amazônia. Mas as fotos dos incêndios falam por si, comenta Thomas Milz.

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Jair Bolsonaro faz seu discurso virtual na Assembleia Geral da ONU de 2020

Por Thomas Mintz para a Deutsche Welle

É tradição na ONU que o Brasil seja o primeiro país a contribuir com os debates da Assembleia Geral. A novidade este ano foi que a contribuição foi gravada em vídeo, devido à pandemia do coronavírus. Com mais de 137.000 mortes de corona, o recorde do Brasil é atualmente o segundo mais letal depois dos EUA. Assim, Bolsonaro ficou na defensiva logo no início de seu discurso. Pois como você explica o desastre doméstico para o mundo, que conhece sua terrível comparação do coronavírus com uma “gripezinha”?

Não o culpe. Em vez disso, ele foi vítima do Judiciário brasileiro, que amarrou suas mãos na luta contra a pandemia e cedeu os poderes aos governadores. Qualquer um que olhe mais de perto sabe que Bolsonaro na verdade se recusou a lutar contra a pandemia que ele retratou como histeria. Pior ainda – ele confiou no comprovadamente ineficaz medicamento antimalárico cloroquina e colocou o Ministério da Saúde sob o comando de um general que antes organizava a logística das Olimpíadas do Rio. Mas parte de sua mentalidade de populista é a negação de qualquer culpa ou responsabilidade. 

É como exagerar o próprio papel sempre que algo está indo bem. A ajuda para os prejuízos causados pela pandemia da COVID-19 paga a mais de 65 milhões de brasileiros teria protegido a economia de um desastre ainda maior, diz Bolsonaro. Isso é verdade. Mas ele não diz ao público internacional que foi o Congresso brasileiro que instou o governo a fornecer ajuda. Em vez disso, ele está simplesmente mentindo quando diz que o valor total da ajuda é de US $ 1.000 por pessoa. Apenas metade disso foi pago. 

Queimando florestas e  causando uma gigantesca destruição ambiental

A negação da realidade de Bolsonaro se torna ainda mais óbvia em vista da destruição ambiental em curso na Amazônia. Mesmo nas grandes cidades do extremo sul do Brasil, as nuvens de fumaça já podem ser sentidas, e também podem ser vistas em sua gigantesca propagação nas imagens de satélite da NASA. E o fato de que o governo de Bolsonaro está impedindo as autoridades ambientais de proteger as florestas é evidenciado pelos cortes drásticos nos orçamentos ambientais. Até membros de seu próprio governo admitem abertamente a paralisia das autoridades de controle.

Mesmo assim, antes da Assembleia Geral virtual da ONU, Bolsonaro repetia seu mantra de que ninguém protege mais a natureza do que o Brasil. Exceto que a comunidade mundial malévola se recusa a reconhecer isso. “Quanto à Amazônia e ao Pantanal, somos vítimas de uma das mais brutais campanhas de mentiras”, disse Bolsonaro. As instituições internacionais participariam de maquinações sombrias para prejudicar seu governo e o Brasil, e até mesmo “aproveitadores de guerra antipatrióticos” do Brasil participariam. 

Além de organizações como o Greenpeace e o WWF e ativistas como o ator de Hollywood Leonardo DiCaprio, também se dirige contra a própria ONU, cuja conferência climática COP 25 seria realizada no Brasil no outono de 2019. Mas Bolsonaro ficou de lado. Por isso, acusou reiteradamente a ONU de querer tirar a Amazônia do Brasil com a ajuda do acordo climático.

Vítima de potências internacionais?

Mas Bolsonaro com certeza não está interessado na imagem do Brasil no mundo. Em tempos de redes globais de informação e graças ao relato vigilante da mídia, o mundo hoje sabe muito bem o que está acontecendo nas florestas brasileiras. Bolsonaro não tem nada a ganhar com isso. Pelo contrário, o seu discurso dirige-se à sua própria população, a quem tem de responder face às mortes da corona, à crise económica associada ao coronavírus e à destruição do ambiente. E que ele – ao contrário do público mundial bem informado – ainda pode imputar sua distorção dos fatos. 

Acusar poderes obscuros do exterior vai bem para muitos brasileiros. As ameaças das fileiras da União Européia de não ratificar o acordo comercial com o bloco do Mercosul vêm a calhar para ele se mostrar vítima de malandros internacionais. 

Dois problemas estão atualmente movendo o mundo: a pandemia corona e as mudanças climáticas. Ambas as crises têm dimensões globais e só podem ser resolvidas em nível global. Um estadista inteligente, portanto, usaria instituições globais como a ONU para encontrar soluções. Antes de mais nada, no interesse do seu próprio país. Mas Bolsonaro não pensa em soluções. Como populista profissional, ele aceita com gratidão as crises para culpar inimigos imaginários. Você não deve esperar nada construtivo dele.

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Este artigo foi originalmente escrito em alemão e publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

Pandemias resultam da destruição da natureza, dizem ONU e OMS

Especialistas pedem legislação e acordos comerciais em todo o mundo para incentivar a recuperação verde

guardian2Manguezais em Morondava, oeste de Madagascar. A ONU descreveu o coronavírus como um ‘sinal SOS’ para a humanidade. Foto: Alamy

Por Damian Carrington, editor de ambiente do “The Guardian”

Pandemias como o coronavírus são o resultado da destruição da natureza da humanidade, segundo líderes da ONU, OMS e WWF Internacional, e o mundo ignora essa dura realidade há décadas.

O comércio ilegal e insustentável de animais silvestres, bem como a devastação de florestas e outros locais selvagens ainda eram as forças motrizes por trás do crescente número de doenças que saltam da vida selvagem para os seres humanos, disseram os líderes ao Guardian.

Eles estão pedindo uma recuperação verde e saudável da pandemia de COVID-19, em particular reformando a agricultura destrutiva e as dietas insustentáveis.

Um relatório da WWF , também publicado na quarta-feira, alerta: “O risco de uma nova doença [da vida selvagem para o humano] emergir no futuro é maior do que nunca, com o potencial de causar estragos na saúde, nas economias e na segurança global”.

O chefe do WWF no Reino Unido disse que acordos comerciais pós-Brexit que não protegem a natureza deixariam a Grã-Bretanha “cúmplice em aumentar o risco da próxima pandemia”.

Números de alto nível emitiram uma série de avisos desde março, com os principais especialistas em biodiversidade do mundo dizendo que mais surtos de doenças mortais provavelmente ocorrerão no futuro, a menos que a destruição desenfreada do mundo natural seja rapidamente interrompida.

No início de junho, o chefe de meio ambiente da ONU e um economista importante disseram que o Covid-19 era um “sinal de SOS para a empresa humana ” e que o pensamento econômico atual não reconhecia que a riqueza humana depende da saúde da natureza.

Imagens aéreas mostram a extensão do desmatamento na floresta de Gran Chaco na Argentina – vídeo

“Vimos muitas doenças surgirem ao longo dos anos, como zika, Aids, Sars e Ebola e todas se originaram de populações de animais sob condições de severas pressões ambientais”, disse Elizabeth Maruma Mrema, chefe da convenção da ONU sobre diversidade biológica, Maria Neira, diretor da Organização Mundial da Saúde para meio ambiente e saúde, e Marco Lambertini, chefe da WWF International, no artigo do Guardian .

Com o coronavírus, “esses surtos são manifestações de nosso relacionamento perigosamente desequilibrado com a natureza”, disseram eles. “Todos ilustram que nosso próprio comportamento destrutivo em relação à natureza está colocando em risco nossa própria saúde – uma dura realidade que coletivamente ignoramos há décadas.

“O preocupante é que, enquanto o COVID-19 nos deu mais um motivo para proteger e preservar a natureza, vimos o contrário. Desde o Grande Mekong, até a Amazônia e Madagascar, surgiram relatórios alarmantes de aumento da caça furtiva, extração ilegal de madeira e incêndios florestais, enquanto muitos países estão se engajando em reveses ambientais apressados ​​e cortes no financiamento para a conservação. Tudo isso acontece no momento em que mais precisamos.

“Devemos abraçar uma recuperação justa, saudável e verde e dar início a uma transformação mais ampla em direção a um modelo que valoriza a natureza como base de uma sociedade saudável. Não fazer isso, e tentar poupar dinheiro negligenciando a proteção ambiental, os sistemas de saúde e as redes de segurança social, já provou ser uma economia falsa. A conta será paga muitas vezes.

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O relatório da WWF conclui que os principais fatores para doenças que se deslocam de animais selvagens para humanos são a destruição da natureza, a intensificação da produção agrícola e pecuária, além do comércio e consumo de animais selvagens de alto risco.

O relatório insta todos os governos a introduzir e fazer cumprir leis para eliminar a destruição da natureza das cadeias de suprimentos de mercadorias e ao público para tornar suas dietas mais sustentáveis.

Carne, óleo de palma e soja estão entre as commodities frequentemente ligadas ao desmatamento e os cientistas disseram que evitar carne e laticínios é a maior maneira de as pessoas reduzirem seu impacto ambiental no planeta.

Tanya Steele, chefe do WWF do Reino Unido, disse que os acordos comerciais pós-Brexit devem proteger a natureza: “Não podemos ser cúmplices em aumentar o risco da próxima pandemia. Precisamos de uma legislação forte e de acordos comerciais que nos impeçam de importar alimentos resultantes do desmatamento desenfreado ou cuja produção ignore os maus padrões de bem-estar e ambientais nos países produtores. O governo tem uma oportunidade de ouro para fazer acontecer uma mudança transformadora e líder mundial. ”

O relatório da WWF disse que 60-70% das novas doenças que surgiram em seres humanos desde 1990 vieram da vida selvagem. No mesmo período, 178 milhões de hectares de floresta foram desmatados, o equivalente a mais de sete vezes a área do Reino Unido.

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Este artigo foi publicado originalmente em inglês pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Alemanha, Reino Unido, China e ONU pedem estímulo verde para a recuperação econômica pós-COVID-19

Father and child hiking together in a forest stream

Os pacotes de recuperação econômica pós COVID-19 devem respeitar o meio ambiente e o Acordo de Paris sobre mudança do clima, afirmaram hoje (28/4) a chanceler alemã Angela Merkel, o primeiro-ministro britânico Boris Johnson, o secretário geral da ONU Antonio Guterres e o enviado de Xi Jinping, Huang Runqiu, em uma cúpula climática global em Berlim.

Em suas falanDiálogClimáticdPetersberg – realizado on-line pela primeira vez devido à pandemia atual – os líderes pediram aos governos que estão elaborando planos para reiniciar suas economias que eles não resultem em um aumento das emissões dos gases responsáveis pelo aquecimento global.

“O coronavírus nos mostra que a cooperação internacional é crucial e que o bem-estar de uma nação sempre depende do bem-estar de outras. Com o Acordo Verde da Europa, a Comissão da UE mostrou o caminho a seguir. A Europa deve se tornar o primeiro continente neutro em termos de emissões até 2050”, destacou Angela Merkel, chanceler da Alemanha. “Combinaremos a ação climática com novas perspectivas econômicas e novos empregos. Deixe-me esclarecer: haverá um debate difícil sobre a alocação de fundos. Mas é importante que os programas de recuperação estejam sempre de olho no clima, não devemos deixar de lado o clima, mas investir em tecnologias climáticas”, destaca.

De acordo com a AdministraçãNacionaOceânicAtmosférica dos EUA, 2020 está a caminho de ser um dos – se não o – ano mais quente já registrado. Os níveis recorde de gases de efeito estufa na atmosfera estão ligados a uma série de eventos climáticos globais cada vez mais extremos.

“Os eventos climáticos extremos não estão dando um tempo enquanto lidamos com outras prioridades, e algumas das pessoas mais vulneráveis do mundo continuam sofrendo como resultado, como vimos quando o ciclone Harold atravessou o Pacífico Sul este mês”, lembrou Boris Johnson, primeiro ministro do Reino Unido em discurso lido pelo secretário de Relações Exteriores, Dominc Raab. “As nações começarão a emergir do confinamento e tentarão reavivar suas economias mais uma vez. Quando isso acontecer, será dever de todo governo responsável garantir que nossas economias sejam revividas e reconstruídas de maneira a resistir ao teste do tempo. Isso significa investir em indústrias e infraestrutura que podem mudar a situação das mudanças climáticas. E significa fazer todo o possível para aumentar a resiliência ao moldar economias que possam suportar tudo o que a natureza nos lança. Não há escolha entre corte de emissões e economias em crescimento. Esse é um mito que o Reino Unido ajudou a quebrar na última década”, ressaltou.

Para o Secretário Geral da ONU Antonio Guterres, “alguns países, incluindo o Chile, o atual presidente da COP, já enviaram NDCs aprimorados e outros 114 países anunciaram que o farão. 121 países se comprometeram a alcançar a neutralidade do carbono até 2050. A chave para enfrentar a crise climática são os grandes emissores. Não devemos esquecer que os países do G20 representam coletivamente mais de 80% das emissões globais e mais de 85% da economia global. Eles também devem se comprometer com a neutralidade do carbono em 2050. O Acordo de Paris foi amplamente possível graças ao envolvimento dos Estados Unidos e da China. Sem a contribuição dos grandes emissores, todos os nossos esforços serão condenados”.

O Ministro das Relações Exteriores do Butão, Dr. Tandi Dorji, representando os Países Menos Desenvolvidos, reiteirou a mensagem de Guterres: “Qualquer queda nas emissões globais não será significativa nem duradoura, a menos que seja apoiada por promessas climáticas ambiciosas. Este ano, devemos ver países com altos níveis de emissões enviar NDCs novos e atualizados com a maior ambição possível, o que representará sua parte justa de ação, conforme exigido pelo Acordo de Paris”.

O Ministro da China, Huang Runqiu, reafirmou a posição de colaboração de seu país: “Como firme defensora do multilateralismo, a China se juntará a outros países para promover uma implementação completa, equilibrada e eficaz do Acordo de Paris. Implementaremos nossa estratégia nacional proativa de mudança climática e contribuiremos para os esforços de colaboração para enfrentar as mudanças climáticas globais”.

Emergência climática: ação global está “fora do rumo”, diz chefe da ONU

Ondas de calor mortais, inundações e aumento da fome são uma ameaça muito maior ao mundo do que o coronavírus, dizem os cientistas

5182Bombeiros e pessoal de resgate movem seu caminhão enquanto um incêndio mata perto de uma estrada principal e casas nos arredores da cidade de Bilpin, em Sydney, na Austrália, em dezembro de 2019. Fotografia: David Gray / Getty Images

Damian Carrington, editor para Meio Ambiente do “The Guardian

O mundo está “muito errado” no trato da emergência climática, e o tempo está se esgotando rapidamente, afirmou o secretário-geral da ONU.

António Guterres soou o alarme no lançamento da avaliação da ONU sobre o clima global em 2019. O relatório conclui que foi um ano recorde para o calor, e houve aumento da fome, deslocamento e perda de vidas devido a temperaturas e inundações extremas ao redor. o mundo.

Os cientistas disseram que a ameaça era maior que a do coronavírus, e os líderes mundiais não devem ser desviados da ação climática.

A avaliação climática é liderada pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) da ONU, com contribuições das agências da ONU para meio ambiente, alimentação, saúde, desastres, migração e refugiados, além de centros científicos.

Em 2019, os oceanos estiveram mais quentes em relação a todos os anos registrados anteriormente, com pelo menos 84% dos mares experimentando uma ou mais ondas de calor marinhas. As temperaturas da superfície do ar em todo o mundo foram as mais quentes já registradas, depois que um evento natural do El Niño aumentou os números em 2016.

O relatório diz que os resultados do Serviço Mundial de Monitoramento de Geleiras indicam que 2018-19 foi o 32º ano consecutivo em que mais gelo foi perdido do que ganho. O derretimento do gelo terrestre combinado com a expansão térmica da água elevou o nível do mar à marca mais alta desde o início dos registros.

O declínio a longo prazo do gelo do Ártico também continuou em 2019, com a extensão média de setembro – geralmente a mais baixa do ano – a terceira pior já registrada.

“A mudança climática é o principal desafio do nosso tempo. Atualmente, estamos fora do caminho para cumprir as metas de 1,5 ° C ou 2 ° C que o acordo de Paris exige ”, disse Guterres. O ano de 2019 terminou com uma temperatura média global de 1,1 ° C acima dos níveis pré-industriais. “O tempo está se esgotando rapidamente para evitar os piores impactos da perturbação climática e proteger nossas sociedades”.

Ele acrescentou: “Precisamos de mais ambição em [cortes nas emissões], adaptação e financiamento a tempo da conferência climática Cop26, em Glasgow, Reino Unido, em novembro. Essa é a única maneira de garantir um futuro mais seguro, mais próspero e sustentável para todas as pessoas em um planeta saudável. ”

O professor Brian Hoskins, do Imperial College London, disse: “O relatório é um catálogo de condições meteorológicas em 2019 tornado mais extremo pela mudança climática e pela miséria humana que a acompanha. Isso indica uma ameaça maior para nossa espécie do que qualquer vírus conhecido – não devemos nos desviar da urgência de combatê-lo, reduzindo nossas emissões de gases de efeito estufa a zero o mais rápido possível. ”

A OMM disse que seu relatório fornece informações oficiais aos formuladores de políticas sobre a necessidade de ação climática e mostra os impactos do clima extremo.

Uma onda de calor na Europa tornou-se cinco vezes mais provável pelo aquecimento global, e o verão abrasador levou a 20.000 internações de emergência e 1.462 mortes prematuras somente na França. A Índia e o Japão também aumentaram e a Austrália começou e terminou o ano com forte calor e teve o ano mais seco já registrado. A Austrália teve “uma temporada de incêndios excepcionalmente prolongada e severa”, observou a OMM.

Inundações e tempestades contribuíram mais para desalojar as pessoas de suas casas, particularmente o ciclone Idai em Moçambique e seus vizinhos, o ciclone Fani no sul da Ásia, o furacão Dorian no Caribe e as inundações no Irã, Filipinas e Etiópia. Estima-se que o número de deslocamentos internos de tais desastres esteja perto de 22 milhões de pessoas em 2019, ante 17 milhões em 2018.

Os EUA sofreram fortes chuvas, com o total de julho de 2018 a junho de 2019 sendo o mais alto já registrado. As perdas econômicas totais nos EUA no ano foram estimadas em US $ 20 bilhões, informou a OMM.

O clima imprevisível e o clima extremo foram um fator em 26 das 33 nações afetadas pela crise alimentar em 2019 e foram o principal fator em 12 dos países. “Após uma década de declínio constante, a fome está aumentando novamente – mais de 820 milhões sofreram com a fome em 2018, os últimos dados globais disponíveis”, diz o relatório.

A OMM disse que a precipitação invulgarmente pesada no final de 2019 também foi um fator no grave surto de gafanhoto nos desertos do Chifre da África, que é o pior em décadas e deve se espalhar até junho de 2020, em uma grave ameaça à segurança alimentar.

O professor Dave Reay, da Universidade de Edimburgo, disse: “Essa ladainha anual de impactos das mudanças climáticas e respostas globais inadequadas contribuem para uma leitura instigante. Em grande escala, é o efeito “multiplicador de ameaças” que é a mudança climática nos maiores desafios enfrentados pela humanidade e pelos ecossistemas do mundo no século XXI. “

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Este artigo foi publicado originalmente em inglês pelo “The Guardian” [Aqui!].

Brasil: relator da ONU denuncia impunidade por crimes ambientais

O governo Bolsonaro nega medidas mais rígidas de controle ambiental. Tuncak alerta para criminalização de ambientalistas

brumadinhoEm 25 de janeiro de 2019,  uma represa de uma bacia de retenção de rejeitos da mina Córrego do Feijão rompeu  próximo à pequena cidade de Brumadinho. FONTE:JESO CARNEIRO

Por Ulrike Bickel para o Amerika21

Genebra. O relator especial da ONU sobre toxinas e direitos humanos, Baskut Tuncak, reclamou da impunidade por crimes ambientais no Brasil . O país está em um “caminho trágico de desmantelar as instituições de proteção ambiental”, resume Tuncak após sua missão de investigação de duas semanas em dezembro de 2019.

Ele citou como exemplos o aumento das taxas de desmatamento e incêndios na região amazônica, o atual desastre de petróleo na costa, o uso intensivo de pesticidas e substâncias tóxicas altamente perigosas na indústria de mineração. O especialista da ONU manifestou grande preocupação, pois o governo do presidente Jair Bolsonaro não se comprometeu com medidas mais rígidas de controle ambiental.

Algumas autoridades chamariam certos casos de “crimes ambientais”, mas nenhum processo ou penalidade seria iniciada. O conhecimento da impunidade está incentivando os criminosos a envenenar cada vez mais inescrupulosamente as pessoas, tomar suas terras e destruir o meio ambiente. A não acusação de crimes ambientais por parte do judiciário causa mudanças ecologicamente fatais no uso da terra em favor da expansão da agricultura industrial e da mineração intensiva em áreas.

Ao mesmo tempo, Tuncak alertou para a crescente criminalização de ambientalistas e defensores dos direitos humanos. O atual governo está rompendo os canais estabelecidos de cooperação com os atores da sociedade civil e tentando intimidá-los e silenciá-los.

Tuncak pediu ao governo um convite oficial várias vezes antes de finalmente ser concedido. Nenhum ministro o recebeu durante sua visita. O governo havia dado feedback apenas cinco dias antes do início da missão após o envio de sua agenda de viagens. No Brasil, o relator recebeu apoio adequado em nível de trabalho do Ministério das Relações Exteriores e do Ministério dos Direitos Humanos, mas não estava entusiasmado com o Ministério do Meio Ambiente.

O Relator Especial também visitou as vítimas de duas barragens em Mariana e Brumadinho, no estado de Minas Gerais. No minério de ferro a céu aberto Córrego do Feijão teve em 25 de janeiro de 2019 da mineradora brasileira Vale do Rio Doce, um acidente de ruptura da barragem ocorreu . Cerca de doze milhões de metros cúbicos de lodo cheio de resíduos tóxicos se espalharam por uma área de aproximadamente 290 hectares e enterraram pessoas, casas e animais entre si. Pelo menos 270 pessoas morreram. No caso do colapso da barragem de Fundão, um dique de esclarecimento da produção de minério de ferro da empresa Samarco foi quebrado em 2015. Como resultado, uma avalanche de 60 milhões de metros cúbicos de lodo tóxico com mais de 663 quilômetros de extensão foi derramada nos rios Gualaxo do Norte, Carmo e Doce. O desastre matou 19 pessoas, afetou o abastecimento de água de 35 comunidades e cerca de 1.200 famílias perderam suas casas; as duas aldeias Bento Rodrigues e Paracatu foram completamente destruídas.

Segundo Tuncak, ele teve conversas “difíceis” com moradores e sobreviventes de ambos os desastres ambientais. O que mais o chocou foi a lenta resposta das autoridades e a dependência do governo das empresas responsáveis. Durante anos, eles se recusaram a reconhecer a situação ecologicamente contaminada. Por outro lado, os efeitos na saúde da exposição ao lodo tóxico se tornariam cada vez mais claros para a população quatro anos após o acidente em Mariana. As empresas continuaram abusando de seu poder, disse Tuncak, impedindo a publicação de informações sobre questões relativas à saúde e segurança.

O relator da ONU também problematizou o fato de que o governo Bolsonaro aprovou centenas de novos agrotóxicos.  Tuncak aponta que o Ministério da Agricultura subestimou este problema. Ele se reuniu com médicos e funcionários  que disseram que havia um problema com comunidades sendo envenenadas por agrotóxicos Mas funcionários do governo indicaram que não têm os recursos para garantir a vigilância necessária. O Brasil permite dezenas de agrotóxicos altamente perigosos que são proibidos na UE e em muitos outros países. A ação ou inação do governo Bolsonaro desencadeou uma onda catastrófica de aumento do uso de agrotóxicos tóxicos, desmatamento e mineração que  vão envenenar até as gerações futuras.

Segundo o currículo do especialista da ONU, o Brasil não cumpriu sua obrigação constitucional de proteger os direitos humanos da exposição a substâncias tóxicas e resíduos perigosos. Cortou ministérios e fundos importantes para programas ambientais e sociais, restringiu a participação dos cidadãos e falhou em aplicar as leis e decisões judiciais existentes para proteger contra toxinas.

O especialista apresentará seu relatório final ao Conselho de Direitos Humanos da ONU no segundo semestre de 2020.

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Este artigo foi originalmente publicado em alemão Amerika 21 [Aqui!].

ONU e CIDH recebem apelo urgente sobre arbitrariedades cometidas contra Projeto Saúde e Alegria e Brigadas de Incêndios de Alter do Chão

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Brigadas de Incêndios de Alter do Chão ocuparam papel de destaque na luta contra as queimadas, mas acabaram sendo presos pela Polícia Civil do Pará em processo bastante nebuloso

Cinco organizações brasileiras encaminharam nesta quarta-feira (11/12) um apelo urgente aos procedimentos especiais das Nações Unidas (ONU) e às relatorias da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), buscando que sejam tomadas ações imediatas em relação às medidas de criminalização e desmoralização da organização não-governamental “Projeto Saúde e Alegria (PSA)”, bem como às prisões de Daniel Gutierrez Govino, João Victor Pereira Romano, Gustavo de Almeida Fernandes e Marcelo Aron Cwerner, integrantes da Brigadas de Incêndios de Alter do Chão.

ARTIGO 19, Centro pela Justiça e o Direito Internacional (CEJIL), Conectas Direitos Humanos, Justiça Global e Terra de Direitos buscam apoio dos mecanismos internacionais para barrar uma escalada autoritária que coloca em risco direitos fundamentais e a própria atuação de organizações da sociedade civil.

De acordo com o documento enviado para ONU e CIDH, “desde as eleições presidenciais de 2018, as organizações da sociedade civil brasileira vêm sofrendo sistemáticos ataques, em um processo de desmoralização e criminalização que coloca em risco os direitos fundamentais de associação, de liberdade de expressão e de presunção de inocência”.

Este cenário rompeu uma barreira alarmante com a prisão infundada dos brigadistas e as medidas de busca e apreensão decretadas para a Brigadas de Incêndios de Alter do Chão e o Projeto Saúde e Alegria. O apelo frisa que diante da ausência de provas ou mesmo indícios que liguem essas entidades aos incêndios, fica “evidente que a investigação configura uma tentativa de criminalização de pessoas e organizações que notadamente atuam na preservação do meio ambiente na Amazônia brasileira”.

A partir do apelo, ONU e CIDH podem traçar recomendações às autoridades brasileiras. As organizações solicitam, entre outras medidas, que as relatorias peçam informações ao Estado Brasileiro e mantenham-se a par do desdobramento das investigações e do processo criminal. Ainda que se manifestem publicamente e recomendem ao Estado brasileiro não realizar declarações estigmatizantes e criminalizadoras que violam o direito das pessoas acusadas à presunção de inocência e à dignidade, até conclusão das investigações e desfecho do processo criminal.

Acesse o documento enviado à ONU e CIDH na íntegra em português e inglês

Mais informações:

ARTIGO 19
comunicacao@artigo19.org
(11) 9 9223 6051
Sugestão de fonte: Camila Marques, advogada e coordenadora do Centro de Referência Legal da ARTIGO 19

Centro pela Justiça e o Direito Internacional (CEJIL)
comunicacion@cejil.org
+1 (305) 335-5665
Sugestão de fonte: Alexandra Montgomery, Diretora do programa do CEJIL para o Brasil

Conectas Direitos Humanos
Luiza Buchaul – assessoria de comunicação
luiza.buchaul@conectas.org | (11) 99343-0669
Sugestão de fonte: Camila Asano – coordenadora de programas da Conectas Direitos Humanos

Justiça Global
glaucia@global.org.br
(21) 9 7688 2099
Sugestão de fonte: Antonio Neto, pesquisador da área de Defensores de Direitos Humanos.

Terra de Direitos
Franciele Petry – Assessoria de imprensa
franciele@terradedireitos.org.br | (47) 9 9653-5264
Sugestão de fonte: Darci Frigo, coordenador da Terra de Direitos