O massacre palestino escancara o limite das políticas identitárias. E agora, Jean Wyllys?

Há alguns anos atrás escrevi na revista “Somos Assim” um artigo onde criticava as identidades múltiplas que nasceram na esteira do chamado pós-Modernismo por entender que a adoção das mesmas implicava numa fragmentação da luta contra os efeitos perversos do funcionamento do Capitalismo na solidariedade que deve existir entre os que não são detentores do capital. Para simplificar, a minha posição é de que apesar de existirem várias dimensões decorrentes do funcionamento do Capitalismo no coditiano dos seres humanos, a classe ainda é a melhor forma de entender a opressão imposta aos trabalhadores, independente de gênero, etnia, preferência sexual ou religião. 

Essa minha reflexão de alguns anos atrás me parece ainda mais coerente quando assistimos ao massacre que está sendo promovido por Israel contra o povo palestino sob os olhos cúmplices das potências capitalistas e sob o silêncio generoso até de parte dos que se dizem de esquerda. 

Quem acompanha minimamente, por exemplo, os embates que ocorrem dentro do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) deve lembrar da acirrada troca de farpas entre o deputado Jean Wyllys (PSOL/RJ) e o ex-deputado Milton Temer por causa da viagem do parlamentar fluminense a Israel em janeiro de 2016 onde foi, segundo ele mesmo, “ministrar uma palestra na Universidade Hebraica de Jerusalém para debater  antissemitismo, racismo, homofobia e outras formas de ódio e preconceito e suas relações com a política contemporânea” [1].

jean willys

Quando criticado pela visita, Jean Wyllys e seus apoiadores utilizaram a escusa de que Israel respeita os direitos dos LGBTs, o que torna o país uma espécie de ilha democrática numa região onde tais direitos são negados pela maioria dos países.  Essa escusa obviamente foi objetada por ativistas pró-palestinos, sendo Milton Temer o que o fez de forma mais pública, que consideraram que ao se apoiar objetivamente o estado de Israel a partir do viés da identidade LGTB, Jean Willys estava se omitindo em relação ao tratamento dispensado por Israel ao povo palestino.

Os embates que ocorreram entre Jean Wyllys e Milton Temer e entre apoiadores dos dois foram uma verdadeira briga dentro de um lamaçal, sendo que ao veterano dirigente do PSOL sobraram as costumeiras acusações de anti-semitismo, o que é uma marca da reação contra aqueles que continuam apoiando a resistência nacional palestina contra um inimigo muito melhor armado e que não hesita em utilizar formas extremas de violência contra civis desarmados como o que está ocorrendo neste momento na cidade de Gaza.

Tive a curiosidade de visitar as páginas oficiais do deputado federal Jean Wyllys para ver se havia ali alguma menção ao assassinato de mais de 100 palestinos pelas forças armadas de Israel apenas nas últimas duas semanas, e a resposta foi não. O deputado parece estar neste momento mais preocupado com a sua reeleição do que qualquer outro assunto. Até aí nada demais, pois a imensa maioria dos ocupantes de cargos eletivos deve estar fazendo isso neste momento. 

Como Jean Wyllys optou por se expor ao ir a Israel, e ainda reagir de forma furiosa quando questionado sobre isso, ele não é qualquer um neste momento em que a mão pesada de Israel recai sobre idosos, crianças e até amputados que vivem numa condição de circunscritos num campo de concentração a céu aberto em Gaza.

O interessante é que ao  ao optar por ignorar o que está ocorrendo neste momento em Gaza, Jean Willys ajuda a demonstrar os limites objetivos que as lutas de natureza identitária possuem quando são usadas para ocultar outros conflitos mais agudos como é o caso do conflito israelense-palestino.

 E fica a minha curiosidade: o que teria Jean Wyllys a dizer sobre os acontecimentos em Gaza? É que a posição  pró-palestinos de Milton Temer continua sendo a mesma, tanto que ele está sendo processado por expressá-las sob o surrado argumento de que isso expressa anti-semitismo.


[1] https://www.huffpostbrasil.com/2016/01/08/chuva-de-criticas-a-jean-wyllys-por-viagem-a-israel-expoe-cenari_a_21692150/

O genocídio de Israel contra o povo palestino: uma discussão “honesta e responsável”

por João Telésforo*

GENOCIDIO

O Deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), em entrevista ao programa “Conexão Israel”, afirmou que seria “desonesto e irresponsável” chamar o Estado de Israel de genocida, por seus ataques criminosos contra o povo palestino.

Curiosamente, o partido de Jean foi um dos signatários de carta pública, em julho de 2014 (diante de mais uma série de ataques de Israel), na qual se afirmava que “o tom das ações israelenses tem sido de limpeza étnica, crimes de guerra e genocídio”. Quem terá razão?

O historiador israelense Ilan Pappé, Diretor do Centro Europeu de Estudos Palestinos na Universidade de Exeter (Inglaterra), considera, desde 2006, que o Estado de Israel comete genocídio na Faixa de Gaza, indo além das “clássicas” políticas israelenses de limpeza étnica contra os palestinos (remoção militarizada de um grupo étnico de determinados territórios).

Em novo texto de 2014, Pappé avalia que o genocídio segue em curso no “gueto” palestino de Gaza, de maneira incremental.

Michael Ratner, advogado, Presidente Emérito da renomada organização de direitos humanos Centro para Direitos Constitucionais (CCR), sediada em Nova Iorque, e Presidente do Centro Europeu para Direitos Humanos e Constitucionais, ex-Professor das Universidades de Yale e Columbia, concorda com a definição de Ilan Pappé, sobre “genocídio incremental” contra o povo palestino.

Em entrevista de 2014, refere-se aos “crimes de guerra” de Israel, ao “genocídio, crimes contra a humanidade, e apartheid”, e argumenta, citando Pappé, sobre os elementos jurídicos e fáticos que configuram esses crimes na situação.

Também há posições sólidas que não chegaram a resultados conclusivos sobre a existência de genocídio contra o povo palestino, embora tenham constatado outras gravíssimas violações ao direito internacional dos direitos humanos.

Richard Falk, professor emérito de Direito Internacional da Universidade de Princeton, afirmou, em relatório ao Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, durante seu mandato (2008-2014) como “relator especial da ONU para os direitos humanos nos territórios palestinos ocupados desde 1967”, que o Estado de Israel promove “colonialismo, apartheid e limpeza étnica” em suas ocupações na Palestina.

No que diz respeito à caracterização jurídica de genocídio, a posição de Falk é mais cautelosa, mas bastante longe de negá-lo como hipótese sem sentido, ou “desonesta e irresponsável”.

Em Setembro de 2014, Falk integrou sessão do Tribunal Russel (da sociedade civil) para analisar, do ponto de vista do Direito Internacional, a operação militar “Margem Protetora”, realizada por Israel na Faixa de Gaza em 2014, ao longo de 50 dias.

O júri, formado por indivíduos proeminentes de todo o mundo, destacados na defesa dos direitos humanos, e assessorado por uma equipe de juristas voluntários, analisou inclusive a acusação de genocídio, que ganhou muita força à época (acusação feita a Israel, inclusive, por 40 sobreviventes do holocausto nazista).

Em seu relato sobre as conclusões do Tribunal, Falk afirma que “o júri teve pouca dificuldade em concluir” sobre “uma série de crimes de guerra agravados pelo cometimento de crimes contra a humanidade, mais centralmente a imposição de um regime multifacetado de punição coletiva contra toda a população civil de Gaza, em violação flagrante e sustentada do Artigo 33 da Quarta Convenção de Genebra”. O júri também rechaçou a alegação de Israel de que a série de ataques teria caráter de “autodefesa”.

Sobre genocídio, adotando critérios jurídicos rigorosos (mais do que para qualificações políticas ou jornalísticas), o Tribunal Russel concluiu, após ouvir uma série de testemunhos (traduzo parte do relato de Falk):

“Houve consenso no júri que as evidências de genocídio eram suficientes para que fosse apropriado e responsável dar cuidadosa consideração à acusação de que o Estado de Israel cometeu o crime de genocídio durante a operação Margem Protetora.

Isso foi em si um reconhecimento de que havia uma atmosfera genocida em Israel na qual altos agentes do governo fizeram declarações apoiando a destruição, eliminação e subjugação dos palestinos de Gaza como um povo, e que essas declarações inflamatórias não foram repudiadas pelo governo Netanyahu nem submetidas à investigação criminal nem a quaisquer procedimentos legais.

Ademais, o bombardeio continuado de Gaza sob circunstâncias nas quais a população não tinha a oportunidade de sair da região ou procurar refúgio na Faixa de Gaza aumentaram a credibilidade à acusação de genocídio. O fato de que a ‘Margem Protetora” tenha sido a terceira operação militar de larga-escala e continuada contra essa população ilegalmente bloqueada, empobrecida e ameaçada também formou parte do contexto mais amplo de genocídio.

Ainda como pano de fundo, e talvez a consideração mais relevante de todas, Israel falhou em esgotar os meios diplomáticos antes de recorrer à força, como requerido pelo direito internacional e a Carta da ONU.

Israel teve a opção de levantar o bloqueio e explorar as opções de um acordo de longo prazo para existência pacífica, proposto pelo Hamas em inúmeras ocasiões nos anos recentes. Essas iniciativas foram desprezadas por Israel sob a alegação de que não negociariam com uma organização terrorista.

Apesar do peso incriminador desses fatores, houve dúvidas legais sobre a configuração do crime de genocídio. Os líderes políticos e militares de Israel nunca endossaram explicitamente a busca de objetivos genocidas, e pretensamente buscaram um cessar-fogo durante a campanha militar.

Não se constatou uma expressão oficial clara da intenção de cometer genocídio, como distinto da intensificação do regime de punição coletiva documentado de forma convincente. A presença de comportamento e linguagem genocidas, mesmo se usada em círculos governamentais, não é por si só suficiente para concluir que a operação Margem Protetora, apesar de sua escala e fúria, tenha chegado ao ponto de genocídio.

O júri concordou, no entanto, que cidadãos de Israel, inclusive agentes do governo, pareciam ser culpados em vários momentos do crime de Incitação ao Genocídio, previsto no Artigo 3(c) da Convenção de Genebra. (…) Em algum momento, o acúmulo de atos genocidas será razoavelmente entendido como suficiente para satisfazer o alto padrão probatório necessário para concluir que Israel cometeu genocídio”.

Ante a “atmosfera genocida”, a “incitação ao genocídio” e o conjunto de violações aos direitos humanos perpetradas por Israel contra o povo palestino, em especial os residentes de Gaza, o Tribunal Russel apelou à ONU e à comunidade internacional que ajam para prevenir qualquer comportamento adicional de Israel que possa configurar-se como genocídio.

Como se vê, há uma discussão jurídica séria sobre se os crimes de Israel chegaram ao ponto de constituir genocídio (sobre crimes contra a humanidade, colonialismo e limpeza étnica, há grau de consenso bem maior de que são praticados por Israel).

Existem diferentes avaliações respeitáveis sobre o assunto. Reduzir a acusação de genocídio contra o povo palestino a “desonesta e irresponsável” é que não tem qualquer consistência, e minimiza a necessidade (apontada pelo Tribunal Russel) de levar a sério que se trata no mínimo de um risco real, ante o qual é necessária a mobilização de toda a comunidade internacional.

A desqualificação da acusação de genocídio a Israel não condiz com a trajetória e a estatura política e intelectual de Jean Wyllys, parlamentar de enorme importância em múltiplas frentes de defesa dos direitos humanos.

Se iniciei este texto fazendo referência a ele, não é para “atacá-lo”, mas por reconhecer sua extraordinária influência, justamente conquistada, nas redes sociais e junto aos setores progressistas da sociedade brasileira, e a necessidade de oferecer um contraponto jurídico crítico fundamentado à sua afirmação pontual sobre o genocídio.

Afinal, como afirma Richard Falk em seu último livro, “Palestine: the Legitimacy of Hope”, “a luta palestina por autodeterminação tornou-se a questão moral internacional mais importante do nosso tempo”.

*João Telésforo é Mestrando em Direito, Estado e Constituição na Universidade de Brasília.

FONTE: http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/jean-wyllys-diz-ser-desonesto-e-irresponsavel-falar-em-genocidio-em-gaza.html

Gaza: marcha em Londres mostra força da rejeição ao massacre

Enquanto as forças armadas israelenses continuam bombardeando a Faixa de Gaza, uma manifestação gigantesca ocorreu hoje em Londres, capital do Reino Unido para exigir o fim dos ataques e defender os direitos do povo palestino. Essas manifestações já estão obrigando a que diversas corporações se manifestem publicamente no sentido de manifestar seu distanciamento de Israel, o que pode ser uma antevisão de uma política mais ampla de distanciamento econômico e político.

As imagens abaixo demonstram claramente o alto grau de capilaridade dos protestos que hoje varrem o mundo contra a agressão perpetrado por Israel contra os palestinos.

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A volta de George Orwell e a guerra do Grande Irmão contra Palestina, Ucrânia e a verdade

Por John Pilger
Traduzido por  Coletivo de tradutores Vila Vudu

 

Outra noite, assisti a 1984, de George Orwell, apresentada num teatro em Londres. O grito de alerta de Orwell, embora em montagem divulgada como ‘adaptação contemporânea’, apareceu-me como peça de época: remota, nada ameaçadora, quase tranquilizadora. Foi como se Edward Snowden nada tivesse revelado; como se o “Grande Irmão” [orig. Big Brother; é o personagem de 1984 que ‘vê tudo’] não fosse hoje um sistema gigante de vigilância digital; foi como se o próprio Orwell nunca tivesse dito que “Para ser corrompido pelo totalitarismo, não é preciso viver em país totalitário.”[1]

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Aclamada pela crítica, a nova produção serve para avaliar nossos tempos culturais e políticos. Quando as luzes foram acesas, as pessoas já estavam de pé, andando para a saída. Não davam qualquer sinal de emoção, já pensando na noitada que continuaria. “Desentendi total”, disse uma moça, ligando o celular.

Com as sociedades avançadas sendo despolitizadas, as mudanças são ao mesmo tempo sutis e espetaculares. No discurso diário, a linguagem política está de pés para cima, como Orwell profetizou em 1984. “Democracia” já não passa de recurso retórico. “Paz” é “guerra perpétua”. “Global” é “imperial”. O conceito de “reforma”, do qual antes tanto se esperava, significa hoje regressão, até mesmo destruição. “Austeridade” significa impor aos pobres o capitalismo mais extremo, e doar o socialismo só aos ricos: sistema super engenhoso, segundo o qual a maioria paga as dívidas da elite.

Nas artes, hostilidade contra quem dia a verdade é artigo de fé para a burguesia.  “A fase vermelha de Picasso” – diz uma manchete de Observer –, e “por que política não dá boa arte.” Imaginem! E, isso, num jornal que promoveu o banho de sangue no Iraque como se fosse cruzada liberal. A oposição de uma vida inteira, de Picasso, contra o fascismo, virou nota de rodapé; como o radicalismo de Orwell, completamente apagado do sucesso que se associou ao seu nome.

Há uns poucos anos, Terry Eagleton, então professor de Literatura Inglesa na Manchester University, observou que “pela primeira vez em duzentos anos, não há nenhum poeta, dramaturgo ou romancista britânico capacitado para fazer chacoalhar os pilares do modo de vida ocidental.” Nenhum Shelley que fale pelos pobres, nenhum Blake que dê voz aos sonhos utópicos, nenhum Byron a detonar a corrupção da classe governante, nenhum Thomas Carlyle e John Ruskin para expor o desastre moral do capitalismo. William Morris, Oscar Wilde, HG Wells, George Bernard Shaw não têm equivalentes contemporâneos. Harold Pinter foi o último a levantar a voz. No coro insistente de consumo-feminismo, nenhuma voz responde à voz de Virginia Woolf, que denunciou “as artes de dominar outras pessoas, de mandar, de matar, de acumular terra e capital.”

No National Theatre, uma nova peça, Great Britain, satiriza o escândalo da escuta clandestina de telefones que levou a julgamento e condenou jornalistas, inclusive um ex-editor do News of the World de Rupert Murdoch. Divulgada como “sátira com caninos afiados, [que] põe toda essa incestuosa cultura [midiática] no banco dos réus e a expõe sem piedade ao ridículo”, a peça toma como alvos os “oficialmente engraçados” [orig. “blessedly funny”(??)] personagens da imprensa britânica de tabloides. Tudo muito bom, tudo muito bem, e mais do mesmo, e só. Mas… e que fim levou a mídia não tabloide que se autoproclama respeitabilíssima e confiabilíssima, embora seja só braço auxiliar ou de governos ou de anunciantes, e que se dedica incansavelmente a promover guerra ilegal?

O inquérito Leveson sobre escutas telefônicas ilegais tocou apenas a superfície desses indizíveis. Mas Tony Blair depunha, reclamando ao juiz que presidia a investigação, que tabloides haviam perseguido a mulher dele, quando foi interrompido por uma voz vinda das galerias. David Lawley-Wakelin, cineasta, exigiu que Blair fosse preso ali mesmo e processado por crimes de guerra. Fez-se um longo silêncio na sala: o choque da simples verdade. Até que Lord Leveson ergueu-se de um salto, ordenou que a voz da verdade fosse expulsa do tribunal e pediu desculpas ao criminoso de guerra. Lawley-Wakelin foi processado. Blair continua em liberdade.

Os cúmplices de Blair que continuam no poder são ainda mais respeitáveis que os escutadores clandestinos de telefones. Quando a apresentadora da BBC Kirsty Wark entrevistou Blair, no 10º aniversário de sua invasão contra o Iraque, ela deu a Blair um momento com o qual nem Blair jamais sonhara; deu-lhe oportunidade para sofrer ao vivo, em cena, lastimando-se do quanto fora “difícil” a decisão sobre o Iraque. Poderia tê-lo acusado da prática daquele crime histórico, mas só o ajudou a ‘explicar-se’. Faz lembrar a procissão de jornalistas da BBC que, em 2003, declararam que Blair podia sentir-se “vingado”; e da série subsequente, dita “seminal”, The Blair Years [os anos Blair], da qual David Aaronovitch foi roteirista, apresentador e entrevistador. Quadro assalariado de Murdoch, que fez campanha a favor dos ataques contra Iraque, Líbia e Síria, Aaronovitch fez de Blair praticamente um herói da paz universal.

Desde a invasão do Iraque – caso exemplar de agressão internacional não provocada, crime que, para Robert Jackson, promotor de justiça no Tribunal de Nuremberg,  define-se como o maior e mais grave de todos os crimes de guerra “porque contém em si o mal de todos os demais crimes de guerra” –, Blair e seu porta-voz e principal cúmplice, Alastair Campbell, ganharam vastos espaços nas páginas do Guardian para reabilitar as respectivas reputações. Descrito como “estrela” do Labour Party, Campbell procurou ganhar a simpatia dos leitores mostrando-se deprimido; falou das próprias preocupações pessoais, mas não falou de já ter sido contratado, com Blair, para trabalharem como conselheiros dos militares egípcios neoditadores.

Com o Iraque sendo devastado, consequência da invasão inventada por Blair/Bush, manchete doGuardian declara: “Derrubar Saddam foi ação acertada. Mas saímos de lá cedo demais”. Lá estava, publicado na página, da edição de 13/6, em que se lia coluna assinada por John McTernan, ex-funcionário do governo Blair, que também serviu ao ditador Iyad Allawi que a CIA instalou no Iraque. Clama por repetir a invasão a um país que seu patrão ajudou a destruir; e nem uma palavra sobre os pelo menos 700 mil mortos, além dos 4 milhões de refugiados e dos tumultos sectários, numa nação que, antes de Blair-Bush-McTernan et allii, orgulhava-se da tolerância que reinava em suas comunidades.

“Blair é corrupção e guerra encarnadas” – escreveu o colunista Seumas Milne em inspirada coluna no Guardian. É o que o comércio da notícia chama de “equilíbrio”. Dia seguinte, o jornal publicou anúncio de página inteira de um bombardeiro Stealth norte-americano. Sob a imagem ameaçadora do bombardeiro, as palavras “The F-35. GREAT For Britain” [O F-35. ÓTIMO para a Grã-Bretanha]. Essa outra encarnação [alada] “da corrupção e da guerra” custará aos contribuintes britânicos £1,3 bilhão, os modelos “F” anteriores massacraram gente em todo o mundo em desenvolvimento.

Numa vila no Afeganistão, habitada pelos mais pobres dos pobres, filmei Orifa, ajoelhada ao lado dos túmulos do marido, Gul Ahmed, tecelão de tapetes, de sete membros de sua família, inclusive seis filhos seus, e duas crianças mortas na casa ao lado. Uma bomba de ‘precisão’ de 500 pounds  caiu diretamente sobre a pequena casa, de paredes de pedra, barro e palha, abrindo uma cratera de quase dois metros de largura. A empresa Lockheed Martin, que fabrica o avião, vangloria-se da precisão dos tiros, no anúncio que o Guardian publicou.

A ex-secretária de Estado e aspirante a presidente dos EUA, Hillary Clinton, estava recentemente no programa “Hora das Mulheres” [Women’s Hour] da BBC, quintessência da respeitabilidade ‘midiática’. A apresentadora, Jenni Murray, apresentou Clinton como farol máximo da mulher realizada. Não cuidou de lembrar às suas ouvintes a profanação, a monstruosidade, que a Clinton enunciou ao mundo: que o Afeganistão foi invadido para “libertar” mulheres como Orifa. A jornalista nada perguntou à Clinton sobre a campanha pró-terrorismo comandada pelo governo dela, que usadrones para matar à distância mulheres, homens e crianças, indiscriminadamente. Nem uma palavra sobre a ameaça de que Clinton, que está em campanha eleitoral para a presidência dos EUA, pode tentar ser também ‘a primeira mulher’ a tentar “eliminar” Iraque e Irã, e justamente ela, e mulher, que defende a vigilância ilegal em massa e prisão para os vazadores!

Mas a jornalista Murray, da BBC, perguntou, sim, a pergunta-farsa, a pergunta espetáculo: se a Clinton perdoara Monica Lewinsky… por ter tido um caso com o marido Clinton dela. “Perdão é escolha” – respondeu la Clinton. – “Para mim, foi absolutamente a escolha certa.” Fez lembrar os anos 1990s, e os anos consumidos no “escândalo Lewinsky” [que a imprensa-empresa JAMAIS chamou de “escândalo Clinton(s)” (NTs)].

Naquele momento, o presidente Bill Clinton estava invadindo o Haiti, bombardeando os Bálcãs, a África e o Iraque. Estava também matando e destruindo vidas de crianças no Iraque. A Unicef noticiou a morte de meio milhão de crianças iraquianas com menos de cinco anos de idade, como resultado do embargo imposto pelos EUA e Grã-Bretanha.

As crianças não contam, para essa imprensa-empresa, assim como tampouco contam as vítimas de Hillary Clinton nas invasões que ela apoiou e promoveu: Afeganistão, Iraque, Iêmen, Somália, só até aqui. Todos são subpovo, ou não povo, para esse jornalismo. Então, a jornalista Murray não falou delas e deles. Quem queira ver, encontra foto da jornalista e da entrevistada, luminosamente sorridentes, na webpage da BBC.

Na política, como no jornalismo e nas artes, parece que o ‘outro lado’, que antigamente ainda era tolerado pela imprensa-empresa dominante, passou agora a ser tratado como pequeno grupo de extremistas pirados sem importância: uma espécie de underground  metafórico.

Quando comecei a trabalhar na Rua Fleet britânica, nos anos 1960s, ainda se aceitavam críticas ao poder ocidental, apresentado como agente de saque e roubo. Leiam as reportagens justamente celebradas de James Cameron, sobre a explosão da bomba de hidrogênio no atol de Bikini; sobre a guerra bárbara dos EUA contra a Coreia; contra o bombardeio dos EUA contra o Vietnã do Norte.

A grande ilusão contemporânea é que viveríamos numa ‘era da informação’, quando, na verdade, vivemos numa ‘era do jornalismo-empresa’, quando já não há fato nem notícia nem informação, mas, só, incessante, propaganda & marketing de empresas e negócios: e o ‘jornalismo’ é só, só, propaganda & marketing insidioso, contagioso, efetivo e liberal.

Em seu ensaio de 1859 “Sobre a Liberdade”,[2] de que tanto falam os liberais modernos, John Stuart Mill escreveu: “O despotismo é modo legítimo de governar se se tem de enfrentar bárbaros, desde que a meta seja fazê-los melhorar, e os meios resultam justificados se essa meta é alcançada.” “Bárbaros” eram vastas porções da humanidade dos quais se exigia “obediência implícita”.

“É mito simpático e conveniente, que os liberais seriam pacificadores e os conservadores seriam fazedores de guerras” – escreveu em 2001 o historiador Hywel Williams, “mas o imperialismo da via liberal pode ser ainda mais perigoso, porque sua natureza não conhece limites: os imperialistas liberais vivem convencidos de que o imperialismo liberal seria uma forma superior de vida.” Williams tinha em mente, então, um discurso de Blair, no qual o então primeiro-ministro prometeu “reorganizar o mundo à nossa volta” e segundo os seus [de Blair] “valores morais”.

Richard Falk, autoridade respeitada em lei internacional e Relator Especial da ONU para a Palestina, falou, certa vez de uma cena “de autoelogio eterno, de mão única, só com imagens positivas de valores ocidentais e de cenas de inocência ameaçada, para validar uma campanha a favor de violência política irrestrita.” E [cena] que é “tão amplamente aceita, que resulta virtualmente incriticável e inatacável”.

Patrocínio, empregos e anúncios recompensam os jornais, jornalistas e ‘jornalismos’. Na Rádio 4 da BBC, Razia Iqbal entrevistou Toni Morrison, a novelista afro-norte-americana e Prêmio Nobel. Morrison mostrou-se surpresa: por que as pessoas “zangam-se” com Barack Obama, presidente “tão ótimo”, e que queria construir uma “economia forte e assistência médica” [orig. “who was “cool” and wished to build a “strong economy and health care”]?. Morrison estava orgulhosíssima por ter falado ao telefone com seu herói, que lera um dos livros dela e convidou-a para a posse.

Nem a novelista premiada nem a jornalista mencionaram as sete guerras de Obama, incluída sua campanha terrorista dos drones, que assassinam famílias inteiras, os que venham socorrer as vítimas e também quem se ajoelhe para chorar os mortos. A única ‘notícia’ era que um negro letrado e excelente orador alcançara os píncaros do poder.

Em Os Condenados da Terra,[3] Frantz Fanon escreveu que a “missão histórica” do colonizado foi servir como “correia de transmissão” a serviço dos que governavam e oprimiam. Na era moderna, usar a diferença étnica nos sistemas de poder de propaganda ocidentais passou a ser visto como essencial. Obama leva isso às alturas, embora o gabinete de George W. Bush – uma vasta claque pró-guerra – tenha sido o mais multirracial de toda a história presidencial dos EUA.

Quando a cidade iraquiana de Mosul foi tomada pelos jihadistas do ISIL, Obama disse: “O povo norte-americano fez investimentos e sacrifícios gigantescos para dar aos iraquianos a oportunidade de abraçar melhor destino.” Que mentira “tão ótima”, não é mesmo?!

E o que haveria de “excelente orador” no Obama que discursou na Academia Militar de West Point naquele 28 de maio? No seu discurso sobre “o estado do mundo”, na cerimônia de formatura daqueles que “assumirão a liderança nos EUA” em todo o planeta…  Obama disse: “Os EUA usarão força militar unilateralmente se necessário, quando nossos interesses centrais o exigirem. A opinião internacional conta, mas os EUA jamais pedirão permissão…”

Obama, aí, repudiou a lei internacional e os direitos das nações independentes. O presidente dos EUA declarou a própria divindade, baseado na força da “nação indispensável”. Essa é uma mensagem velha conhecida da impunidade imperial. Evocando o nascimento do fascismo nos anos 1930s, Obama disse que “Creio no excepcionalismo dos EUA com cada fibra do meu ser”. Como escreveu o historiador Norman Pollack: “Marchadores do passo-de-ganso, com substituição pela aparentemente mais inócua militarização total da cultura. E em lugar do líder bombástico, temos o reformador fracassado, despreocupadamente em ação, planejando e executando assassinatos, e sem parar de sorrir.”

Em fevereiro, os EUA montaram mais um dos seus golpes “coloridos” contra governo eleito na Ucrânia, explorando protestos genuínos contra corrupção em Kiev. A conselheira de Obama para assuntos de Segurança Nacional, Victoria Nuland, escolheu pessoalmente o líder de um “governo de transição”. Trata-o com intimidade, pelo apelido “Yats”. O vice-presidente Joe Biden foi a Kiev, e para lá foi também o diretor da CIA, John Brennan. A tropa de choque do golpe de que todos esses participaram eram fascistas ucranianos.

Pela primeira vez desde 1945, um partido neonazista, declaradamente antissemita, controla áreas chaves do poder do estado numa capital europeia. NENHUM líder político na Europa Ocidental condenou esse renascimento do fascismo, exatamente na fronteira pela qual as tropas nazistas de Hitler invadiram, para roubar milhões de vidas de russos. Os nazistas foram apoiados por um exército de insurgentes ucranianos [UPA] responsável pelo massacre de judeus e de russos (que chamam de “vermes”). Esse  UPA é a fonte de inspiração do atual Partido Svoboda e de seu aliado, o Setor Direita. O líder do Svoboda, Oleh Tyahnybok, exige expurgo de toda a “máfia judaico-moscovita e o resto do lixo”, que inclui gays, feministas e a esquerda política.

Desde o colapso da União Soviética, os EUA cercaram a Rússia com um ‘colar’ de bases militares, aviões e misseis nucleares, como parte de seu Projeto Ampliação da OTAN            [orig. Nato Enlargement Project]. Traindo o compromisso assumido com o presidente soviético Mikhail Gorbachev em 1990, de que a OTAN não seria expandida “nem uma polegada na direção leste”, a OTAN, de fato, ocupou militarmente toda a Europa Oriental. No ex-Cáucaso Soviético, a expansão da OTAN           é o maior acúmulo de força bélica numa só região, desde a 2ª Guerra Mundial.

O prêmio que Washington dará ao governo golpista de Kiev é um plano de ação pró inclusão na OTAN. Em agosto, uma “Operação Tridente Rápido” [orig. Operation Rapid Trident] porá soldados dos EUA e Grã-Bretanha na fronteira entre Ucrânia e Rússia; e uma “Operação Brisa Marinha” [orig. Operation Sea Breeze] enviará navios de guerra dos EUA para pontos dos quais sejam acessíveis portos russos. Imaginem só a resposta, se tais atos de provocação e de intimidação acontecessem contra fronteiras dos EUA!

Ao aceitarem a reintegração da Crimeia à Federação Russa – que Nikita Kruschev destacou ilegalmente da Rússia em 1954 –, os russos defenderam-se, exatamente como fizeram sempre por quase um século. Mais de 90% da população da Crimeia votou a favor de o território ser reintegrado à Rússia. Na Crimeia está ancora da Frota da Rússia no Mar Negro, e manter a Crimeia era questão de vida ou morte para a Marinha Russa; ganhar a Crimeia seria como maná caído do céu para a OTAN. Para grande confusão dos partidos da guerra em Washington e Kiev, Vladimir Putin retirou tropas da fronteira da Ucrânia e conclamou russos étnicos no leste da Ucrânia a abandonar o separatismo.

Em tradução orwelliana, tudo isso foi invertido e transformado em “ameaça russa” no ocidente. Hillary Clinton disse que Putin seria igual a Hitler. Sem ironia: comentariastas de direita alemães disseram exatamente a mesma coisa. Na imprensa-empresa, os neonazistas ucranianos foram desinfetados e apresentados como “nacionalistas” ou “ultranacionalistas”. O que mais temem é que Putin está procurando, muito habilmente, construir solução diplomática, e pode ser bem sucedido.

Dia 27/6, respondendo à mais recente acomodação oferecida por Putin – encaminhou ao Parlamento a rescisão da lei que lhe dava poder para intervir a favor dos russos étnicos – o secretário de Estado dos EUA John Kerry… lançou mais um dos seus ‘ultimatos’! A Rússia teria de “agir imediatamente, dentro de poucas horas literalmente”… para por fim à revolta no leste da Ucrânia.

É fato que Kerry é mundialmente famoso como bufão. O objetivo importante dos tais ‘ultimatos’ é impor à Rússia o status de pária; com isso, a imprensa-empresa passa automaticamente a suprimir todas as notícias da violência da guerra que o regime de Kiev está fazendo contra o próprio povo.

Um terço da população da Ucrânia é falante de russo e bilíngue. Há muito tempo buscam uma federação democrática que reflita a diversidade étnica da Ucrânia e seja autônoma e independente da Rússia. A maioria não são nem ‘separatistas’ nem ‘rebeldes’, mas cidadãos que querem viver em sua própria terra e em segurança. O separatismo é reação aos ataques da Junta em Kiev contra eles, que já causaram onda de mais de 110 mil pessoas (estimativa feita pela ONU), que fogem para o outro lado da fronteira com a Rússia. Tipicamente, são mulheres e crianças traumatizadas.

Como as crianças iraquianas vítimas De sanções e do embargo, e as mulheres e meninas afegãs ‘libertadas’ ao mesmo tempo em que aterrorizadas pelos senhores-da-guerra da CIA, esses grupos étnicos ucranianos são ‘não povo’ para a imprensa-empresa ocidental; os seus padecimentos, as atrocidades que se cometem contra eles são minimizadas ou suprimidas do noticiário; é como se não acontecessem. A imprensa-empresa ocidental absolutamente não informa sobre a escala do ataque, pelo regime em Kiev, contra a população. Não que jamais antes tenha acontecido.

Relendo a obra-prima de Phillip Knightley, The First Casualty: the war correspondent as hero, propagandist and mythmaker [A primeira baixa: correspondente de guerra como herói, propagandista e inventador de mitos], renovei minha admiração por Morgan Philips Price, do [jornal] Manchester Guardian, único repórter ocidental a permanecer na Rússia durante a revolução de 1917 e a reportar a verdade de uma desastrosa invasão pelos aliados ocidentais. Valente e de ideias progressistas, Philips Price foi a única voz a perturbar o que Knightley chama de “escuro silêncio” anti-Rússia em todo o ocidente.

Dia 21 de maio, em Odessa, 41 russos étnicos foram queimados vivos na sede do sindicato; a polícia apenas assistiu ao crime. Há vídeos horrendos, que são prova. O líder do Setor Direita Dmytro Yarosh saudou o massacre como “mais um dia luminoso em nossa história nacional”. A imprensa-empresa norte-americana e britânica noticiou o crime como “trágico incidente” resultante de “confrontos” entre “nacionalistas” (são os neonazistas) e “separatistas” (gente que recolhia assinaturas para um abaixo assinado a favor de um referendo que decida sobre a federalização da Ucrânia).

O New York Times apagou do mundo todo o evento, depois de noticiar informes de propaganda a favor de políticas fascistas e antissemitas dos novos clientes-aliados de Washington. O Wall Street Journal condenou as vítimas, como únicos culpados – “Fogo mortal na Ucrânia provocado pelos rebeldes, informa Kiev”. Obama congratulou-se com a Junta neonazista pela “moderação”.

Dia 28 de junho, o Guardian devotou quase uma página inteira a declarações feitas pelo “presidente” do regime de Kiev, o oligarca Petro Poroshenko. Mais uma vez, prevaleceu a regra orwelliana da inversão da verdade. Não houve golpe; não houve [nem continua a haver] guerra contra minorias na Ucrânia; a culpa de tudo seria, toda, dos russos. “Queremos modernizar meu país” – disse Poroshenko. – “Queremos introduzir liberdade, democracia e valores europeus. Há quem não queira isso. Há quem não nos ame por isso.”

Pelo que se lê no jornal, o jornalista do Guardian, Luke Harding, não contestou esses ‘ditos’. Não falou dos massacres de Odessa. Nada disse sobre os ataques por terra e ar contra bairros residenciais. Nada perguntou sobre sequestro e matança de jornalistas. Não perguntou sobre o ataque a bomba contra um jornal da oposição. Nem uma pergunta, nem quando Poroshenko falou de “livrar a Ucrânia da sujeira e dos parasitas.” O inimigo são “rebeldes”, “militantes”, “insurgentes”, “terroristas” e fantoches do Kremlin.

É como ouvir, do fundo da história, a voz dos fantasmas do Vietnã, do Chile, do Timor Leste, do sul da África, do Iraque: são as mesmas tags.

A Palestina é como um ímã para esse movimento ‘midiático’ de enganação universal que nunca muda. Dia 11 de julho, na sequência do mais recente ataque israelense com armamento norte-americano contra os habitantes de Gaza – no qual morreram 80, incluindo seis crianças de uma mesma família –, o Guardian publicou declarações de um general israelense. A manchete dizia: “Indispensável manifestação de força”.

Nos anos 1970s, entrevistei Leni Riefenstahl e perguntei-lhe sobre os filmes que fez de glorificação dos nazistas. Com técnicas revolucionárias de câmera e iluminação, ela produziu uma forma de cinema, documental, que hipnotizou os alemães. Há quem diga que seu Triumph of the Will [Triunfo da Vontade] foi o que teria inventado o ‘fascínio’ que Hitler exerceu sobre as massas. Perguntei-lhe sobre propaganda em sociedades que se imaginem superiores. Ela respondeu que as “mensagens” em seus filmes nunca dependeram de “ordem superior”; que havia um “vácuo submissivo” na população alemã. “E esse vácuo submissivo incluía a burguesia liberal letrada?” – perguntei. “Incluía todos” – disse ela, – “também a inteligência, é claro.”

Notas

[1] “The Prevention of literature”, 1946, em http://www.resort.com/~prime8/Orwell/preventlit2.html , [NTs].

[2]http://www.almedina.com.br/catalog/product_info.php?products_id=4069

[3] Baixe em http://publicacoes.midiatatica.info/os_condenados_da_terra.pdf

 

FONTE: http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=12849

Artistas de Hollywood são criticados por apoiar Palestina

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Desde que Israel começou a bombardear a Faixa de Gaza, vários artistas de Hollywood manifestaram sua solidariedade ao povo palestino e pediram o fim da agressão israelense.

Entre as celebridades estão nomes como os das cantoras Rihanna e Selena Gomez, o diretor Jonathan Demme (de “O silêncio dos Inocentes” e “Filadélfia”), e os atores Mark Ruffalo (de “Os Vingadores”), Mia Farrow (de “A Rosa Púrpura do Cairo”), John Cusack (de “Procura-se um Amor que Goste de Cachorros”) e o ganhador do Oscar Javier Bardem (de “Vicky, Cristina, Barcelona”).

Entretanto, ao contrário do que acontece com outras causas humanitárias que costumam ser abraçadas por Hollywood, o posicionamento desses artistas não foi bem recebido pelos altos executivos da indústria cinematográfica estadunidense.

Segundo a revista The Hollywood Reporter, isso acontece porque há uma relação de “afinidade e apoio político” entre os estúdios de Hollywood (a maioria controlados por judeus) e os governos israelenses ao longo dos tempos, impondo aos artistas mais engajados uma espécie de proibição às críticas sobre a política de Israel contra os palestinos.

Patrulhamento nas redes sociais

Além da censura, existem também um forte “patrulhamento ideológico” por parte das pessoas mais reacionárias que seguem esses artistas nas redes sociais. 

Rihanna, por exemplo, foi duramente criticada por “fãs” quando publicou uma mensagem em sua conta no Twitter com a hashtag #FreePalestine (“Palestina livre”). Minutos depois, a cantora foi obrigada a apagar a postagem. Algo parecido aconteceu com a também cantora Selena Gomez.

Já o espanhol Javier Bardem, um dos maiores atores da atualidade, não se intimidou e publicou uma carta aberta criticando os Estados Unidos, a União Europeia e a Espanha por se omitirem no que ele definiu como sendo “uma guerra de ocupação e de extermínio um povo sem meios”.

Segundo o ator, “no horror que está acontecendo em Gaza não cabe a distância nem a neutralidade. É uma guerra de ocupação e extermínio contra um povo sem meios, confinado a um território mínimo, sem água e onde hospitais, ambulâncias e crianças são alvos e terrorista suspeitos. É difícil de entender e impossível de justificar”.

Bardem conclui dizendo que está “indignado, envergonhado e magoado por tanta injustiça e assassinatos de seres humanos”.

A cada dia cresce a indignação contra os crimes cometidos pelo governo israelense, bem como a solidariedade com o povo palestino em sua luta pelo humano direito de existir e pela paz, e não há pressão ou censura que impeça esse sentimento de se desenvolver… até mesmo em Hollywood. 

Da Redação

FONTE: http://averdade.org.br/2014/07/artistas-de-hollywood-sao-criticados-por-apoiar-palestina/