Bois afogados como símbolos do afundamento do Neoextrativismo

Naufrágio no (e do) Pará

O Pará é o maior exportador de boi vivo do Brasil e o quarto maior do mundo, assim como é o maior exportador de minério de ferro e o terceiro maior exportador de energia do país. O que esses títulos significam? Que o Pará é um Estado colonial e colonizado; que o Pará está crescendo, mas nunca vai se desenvolver de verdade. É um Estado que sangra até a hemorragia das suas riquezas naturais. É primitivo e selvagem.

É esse contexto que ajuda a entender o triste espetáculo, bizarro e ultrajante, da exportação de milhares de bois vivos, todos os anos, pelo porto de Barcarena, o mesmo pelo qual são escoadas commodities como caulim, alumina, alumínio, manganês e soja, que fazem do Pará o sétimo maior exportador em geral e o terceiro que mais produz divisas para o país.

A cena chocante de enormes navios carregados com até 20 mil cabeças de gado para viagem de alguns dias até a Venezuela e quase um mês até o Líbano se tornou comum e virou rotina. Mas ontem ela provocou grande impacto. O navio Haidar virou e das cinco mil cabeças, menos de 200 conseguiram se livrar do afogamento, presas nos compartimentos da embarcação ou ao tentar chegar à praia.

Por que o navio adernou e foi ao fundo quando estava ainda ancorado a um dos píeres do principal porto do Pará? As hipóteses suscitadas foram de algum furo no casco ou, a mais provável, a má acomodação da carga viva – e móvel. Dezenas de embarques já foram efetuados desde que o negócio começou alguns anos atrás. Por que o acidente desta vez?

Talvez porque o embarque foi muito rápido, ao longo de poucas horas. Talvez porque a carga, sendo menor do que a usual, ao ser tratada pelo mesmo método, causou desequilíbrio, com algum agravante como a falta de lastro suficiente ou lastro inadequado.

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Qualquer que seja a causa determinante que vier a ser apurada ao final da investigação oficial, o morador de Belém, a capital do Estado, distante apenas 70 quilômetros do local do naufrágio, tomou consciência do que é essa plataforma de lançamento de recursos naturais, a maioria não renovável, sugada de suas entranhas e vendida a lugares distantes.

O PIB per capita de Barcarena é 10 vezes superior ao de Belém, mas quem acompanhou o acontecimento viu moradores locais investirem com ansiedade e volúpia sobre os bois que chegavam mortos à praia e retalhá-los ali mesmo, carregando o que puderam.

A carne, cujas condições de higiene ninguém pôde atestar, foi um presente inesperado para quem não tem acesso normalmente a esse produto. A sofreguidão foi a manifestação externa de uma carência soterrada por quantitativos de grandeza que abstraem o ser humano – e, em regra, o espoliam.

O fato inédito e chocante não deve ser apagado da memória nem reduzido a um registro burocrático. Causou enormes danos à natureza e prejuízos à sociedade. Custará caro, mas se for o preço de um mínimo de consciência sobre essa situação, terá cumprido uma missão civilizadora. Os paraenses não podem permitir que essa nova versão de um velho e sórdido colonialismo, na forma de boi vivo vendido em pé a compradores distantes, seja edulcorado pela explicação dita técnica dos seus agentes.

O navio é um velho transporte de contêineres, de bandeira libanesa, adaptado para a nova missão, que lhe adicionou cinco andares para abrigar bois, conduzido por um comandante sírio, para levar a carga à maltratada Venezuela, à razão de 800 reais por cabeça.

Se a Venezuela ficou ruim depois da passagem de Chávez, pior ainda está ficando o Pará dos Barbalhos, Gabrieis, Jatenes, Maioranas & quetais.

FONTE: https://lucioflaviopinto.wordpress.com/2015/10/07/naufragio-no-e-do-para/

Desmate na Amazônia sobe 290% em setembro

Nacho Doce/Reuters

Desmatamento da floresta amazônia em 2012

Desmatamento: o monitoramento foi realizado em 93% do território da Amazônia Legal

Do Estadão Conteúdo

O desmatamento na Amazônia Legal chegou a 402 km² em setembro de 2014 – um aumento de 290% em relação ao mesmo mês do ano anterior, quando foram desmatados 103 km².

O monitoramento foi feito pelo Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), da organização de pesquisa Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), de Belém (PA).

De acordo com o boletim publicado pelo Imazon e revelado pelo jornal Folha de S.Paulo, a perda florestal acumulada no período de agosto a setembro de 2014 – que corresponde aos dois primeiros meses do calendário oficial de medição do desmatamento – chegou a 838 km².

O aumento foi de 191% em relação ao período de agosto a setembro de 2013, quando foram desmatados 288 km².

Em setembro de 2014, o monitoramento foi realizado em 93% do território da Amazônia Legal. Por causa da cobertura de nuvens, em setembro do ano anterior o monitoramento abrangia 79% do território.

Segundo boletim, 59% do desmatamento detectado em setembro de 2014 foi registrado em áreas privadas. O restante foi registrado em assentamentos de reforma agrária (20%), Unidades de Conservação (19%) e terras indígenas (2%).

Rondônia foi o Estado mais afetado pelo desmatamento, com o registro de um terço de toda a derrubada de árvores apontada pelo Imazon. O restante se distribuiu entre Pará (23%), Mato Grosso (18%), Amazonas (12%), Acre (10%), Roraima (4%) e Tocantins (1%).

Os municípios que mais desmataram foram Nova Mamoré (RO), Novo Progresso (PA) e Colniza (MT), respectivamente com 53,1 km², 30,1 km² e 25,5km² de floresta derrubada.

Além dos dados sobre corte raso na mata, o Imazon divulgou também números sobre a degradação florestal – áreas onde a floresta não foi inteiramente suprimida, mas foi intensamente explorada ou atingida por queimadas.

Em setembro, as florestas degradadas na Amazônia Legal somaram 624 km². Em relação a setembro de 2013 houve um aumento de 3.797%, quando a degradação florestal somou apenas 16 km².

Sistemas paralelos

O SAD emprega imagens dos mesmos sensor e satélite utilizados pelo Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que fornece ao governo federal informações sobre novas áreas de desmatamento na Amazônia.

Entretanto, as metodologias usadas pelo Imazon e pelo Inpe são diferentes. Os dados de desmatamento do Deter para setembro ainda não foram divulgados pelo governo federal.

Além do Deter, que monitora o desmatamento em tempo real, o Inpe opera o sistema Degrad, que mapeia áreas expostas à degradação florestal, e o sistema Prodes, que tem resolução maior e fornece ao governo as taxas anuais oficiais de desmatamento na Amazônia Legal.

Segundo os dados do Prodes, entre agosto de 2012 e julho de 2013, foram devastados 5.891 km²: 29% a mais que no período anterior de 12 meses. O Degrad detectou que a área degradada caiu de 8,6 mil km², em 2012, para 5,4 mil km² em 2013.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

FONTE: http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/desmate-na-amazonia-sobe-290-em-setembro