Explicando os agrotóxicos: os produtos presentes em 70% daquilo que os habitantes dos EUA comem

Estudos têm ligado questões de saúde a longo prazo ao consumo de agrotóxicos, enquanto técnicos de governos insistem que violações de limites seguros são raras

comida agrotóxico450 milhões de Kg  agrotóxicos convencionais são usados anualmente nos EUA, de acordo com os dados mais recentes da EPA. Foto: Andy Paradise / The Independent / REX

Por Lauren Zanolli   para o jornal “The Guardian”

O que são agrotóxicos?

A Environmental Protection Agency (EPA) define agrotóxico como qualquer substância química usada para regular, prevenir ou destruir plantas ou pragas – geralmente insetos, roedores ou microorganismos, como fungos e bactérias – ou que atua como um estabilizador de nitrogênio no solo.

Cerca de 450 milhões de kilos de agrotóxicos convencionais são usados ​​anualmente nos EUA, de acordo com os dados mais recentes da EPA. A Food and Drug Administration (FDA), que monitora resíduos em alimentos, descobriu que as amostras testadas raramente excederam os limites de agrotóxicos e outros produtos químicos, que a EPA diz que são calculados com base na “certeza razoável de nenhum dano”.

Os resíduos estão em até 70% dos produtos vendidos nos EUA, de acordo com a última análise anual dos dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) pelo Environmental Working Group, grupo de defesa da saúde.

Descobriu-se que alguns agrotóxicos persistentes concentram-se no leite e na carne de animais de criação através da alimentação animal contaminada, descobriram vários pesquisadores em todo o mundo, bem como em peixes em águas contaminadas. Um estudo de 20 anos do US Geological Survey, por exemplo, encontrou agrotóxicos em níveis potencialmente prejudiciais à vida aquática em 60% dos rios e córregos do país em áreas agrícolas (esse número salta para 90% nas áreas urbanas).

Até 50 milhões de americanos poderiam estar bebendo de águas subterrâneas potencialmente contaminadas com agrotóxicos, de acordo com um estudo de 2000 do USDA. Os agrotóxicos também foram encontrados em xampus, materiais de construção e fundos de barcos.

Os agrotóxicos podem causar danos?

Um número crescente de estudos ligou os agrotóxicos a vários efeitos sobre a saúde humana, embora estes ainda sejam muito debatidos. Uma revisão de 2004, de coautoria do Instituto Nacional do Câncer, concluiu que “as evidências epidemiológicas sugerem claramente que, atualmente, os agrotóxicos afetam adversamente a saúde humana”. Alguns agrotóxicos também são conhecidos por perturbar a função endócrina ou hormonal, pesquisa revisada pela EPA e publicada em um manual de toxicologia. Um relatório de 2013 encomendado pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos analisou 600 estudos de investigação sobre agrotóxicos e encontrou as associações mais fortes com certos cancros, asma, leucemia infantil e doença de Parkinson, mas não conseguiu tirar conclusões sólidas. Uma resposta a esse relatório apontou limitações dos dados e recomendou novas abordagens para o uso de dados epidemiológicos nas avaliações de risco. Os agrotóxicos são “intrinsecamente tóxicos”, diz a Organização Mundial de Saúde.

A EPA afirma que suas ações regulatórias e melhorias na ciência nos últimos anos levaram a “um aumento no uso de agrotóxicos menos tóxicos e mais seguros… [e] uma tendência geral de redução do risco de agrotóxicos”.

Em uma decisão histórica em agosto do ano passado, a Monsanto foi considerada responsável por causar o câncer de um zelador da escola por meio da exposição ao Roundup, principal pesticida da empresa. No início deste mês, em um caso posterior, a Monsanto foi condenada a pagar mais de US $ 2 bilhões para um casal que teve câncer depois de usar seu herbicida. O Roundup, um herbicida organofosforado à base de glifosato, é um dos agrotóxicos mais utilizados no mundo, se não o mais utilizado. Uma revisão formal do glifosato pela EPA e pela Agência para Substâncias Tóxicas e Registro de Doenças (ATSDR) divulgada este mês encontrou algumas ligações estatisticamente significativas com certos tipos de câncer, como o linfoma não-Hodgkin.

Os trabalhadores agrícolas enfrentam uma exposição significativamente maior do que a população geral. Os agrotóxicos têm sido associados a uma lista de problemas de saúde em longo prazo, incluindo: câncer de próstata, pulmão, tireóide e medula óssea; diabetes; Mal de Parkinson; asma e degeneração macular, de acordo com o Agricultural Health Study, um estudo de pesquisa financiado pelo governo que monitora quase 90.000 agricultores e seus cônjuges desde o início dos anos 90. Envenenamento por agrotóxicos pode causar, juntamente com efeitos de curto prazo, danos neurológicos em longo prazo, um manual da EPA para os profissionais de saúde adverte.

Os agrotóxicos organofosforados (OPs), que incluem o glifosato e o clorpirifos, têm sido alvo de alguns pesquisadores como especialmente prejudiciais. Pesquisadores da Universidade da Califórnia descobriram, em uma meta-revisão de 2018 sobre estudos de saúde em OP, “provas convincentes” de que a exposição pré-natal leva ao aumento do risco de distúrbios do neurodesenvolvimento e déficits cognitivos e comportamentais. Esses pesquisadores pediram aos governos em todo o mundo que eliminassem completamente os produtos químicos. A partir de abril, a EPA está sob ordem judicial para decidir se proíbe o clorpirifos, que a agência descobriu em 2017, para exceder os padrões seguros de resíduos de agrotóxicos em alimentos e água, até julho.

Como os consumidores podem limitar os riscos?

Os agrotóxicos podem entrar no corpo através da inalação, através da pele do solo ou água contaminados, ou através de alimentos contaminados.

Reduza sua exposição através da comida, descascando produtos e cortando a gordura da carne e do peixe (onde os agrotóxicos podem se acumular); lavar e esfregar frutas e vegetais sob água corrente (nem todos os agrotóxicos podem ser lavados, diz a EPA); e selecionando alimentos de diferentes fontes para evitar a exposição potencialmente alta a um único pesticida.

Compre  produtos orgânicos onde você puder. Mas não evite alimentos frescos se você não puder comprar orgânicos. Coma diferentes tipos de produtos para evitar uma exposição potencialmente alta a um único pesticida.

Faça compras no mercado de agricultores locais e pergunte sobre práticas de agrotóxicos diretamente da fonte, ou você pode ir ainda mais longe se tiver um jardim e cultivar o seu próprio.

Como os agrotóxicos são regulados?

A EPA supervisiona todos os agrotóxicos usados ​​ou produzidos nos EUA e estabelece certas normas de segurança para agrotóxicos usados ​​em alimentos na alimentação animal. A agência também regula os limites máximos de alguns agrotóxicos na água potável, mas muitos permanecem sem monitoramento. Embora os fabricantes devam registrar todos os agrotóxicos na EPA, os ingredientes inertes são considerados “segredos comerciais” e não precisam ser divulgados.

Os EUA continuam a usar vários agrotóxicos proibidos na UE ou em outros países, incluindo atrazina, glifosato, 1,3-D, paraquate e neonicotinóides. Todos estão ligados a sérios problemas de saúde ou ambientais. Por exemplo, pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, descobriram que a exposição ao Paraquate e outros dois pesticidas aumentaram em três vezes o risco para a doença de Parkinson, e a Comissão Européia restringiu severamente os neonicotinóides devido aos riscos para as abelhas.

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!]

Sob os auspícios do governo Bolsonaro, Brasil está se tornando o último refúgio de agrotóxicos banidos no resto do mundo

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A Rede Brasil Atual publicou hoje a péssima notícia de que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) resolveu desprezar o conhecimento científico existente sobre a relação entre o agrotóxico Glifosato e o desenvolvimento de diversos tipos de tumores cancerígenos (sendo  o temível Linfoma de Non-Hodgkin (LNH) o mais conhecido deles) e fez publicar a Nota Técnica 23/2018 onde o herbicida mais usado no mundo é exonerado de quaisquer responsabilidade pelo desenvolvimento de tumores sólidos e não sólidos. 

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Ativistas pressionam Comissão Européia para que haja o completo banimento do Glifosato. A França foi o primeiro país a banir o produto, mas outros deverão seguir o exemplo.

A primeira coisa que se deve notar é que pesquisa recente  publicada em fevereiro de 2019 pela revista Mutation Research, e que foi realizada por pesquisadores ligados à Enviromental Protection Agency (EPA) apontou no sentido totalmente oposto à Nota Técnica 23/2018, notadamente no caso do LNH.

À luz de uma pesquisa de inquestionável soludez científica, os técnicos da ANVISA certamente poderão reconhecer que se equivocaram em exonerar o Glifosato de seu potencial para desenvolver tumores cancerígenos. Mas acredito que isto não ocorrerá por um simples motivo: existem outros agrotóxicos ainda mais perigosos e banidos em outras partes do mundo que continuam sendo livre e legalmente vendidos no Brasil.

O exemplo mais expressivo da permissividade da legislação brasileiro quanto ao uso de agrotóxicos que já foram banidos em outros países é o Paraquat que foi desenvolvido pela multinacional Syngenta (hoje absorvida pela multinacional chinesa ChemChina).

A má reputação do Paraquate (que no Brasil é vendido sob o nome de fantasia Gramaxone e fabricado pela Nortox) se deve ao fato de que seu princípio ativo tem sido associado ao desenvolvimento de vários tipos de doença, incluindo depressão, danos ao sistema neurológico que podem resultar no desenvolvimento da Síndrome de Parkinson e câncer de pele.

Devido ao amplo conhecimento científico dos danos causados pelo Paraquate à saúde humana fizeram com que a China, que hoje é o maior produtor desta substância e responsável por 80% da produção mundial, decidisse suspender completamente a sua produção e venda em escala mundial em setembro de 2020, já tendo banido o consumo interno em 2016.

Enquanto isso no Brasil, a Anvisa postergou o banimento do Paraquate para setembro de 2020, justamente para o mesmo período em que a China deixará de ofertar o produto em escala mundial. E ainda assim, os representantes do latifúndio agro-exportador está pressionando pela manutenção das vendas do Paraquate no Brasil!

Mas os casos do Glifosato e do Paraquate estão longe de ser únicos, pois o governo Bolsonaro, por meio do Ministério da Agricultura comandado pela deputada federal e “musa do veneno” Tereza Cristina (DEM/MS), vem trabalhando para aprovar via um “fast track” a aprovação de várias substâncias banidas em outras partes do mundo, inclusive nos EUA. Com isso, o  Brasil vem se tornando uma espécie de zona preferencial para a venda de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo. Os resultados desse afã por venenos que o resto do mundo já proibiu certamente terá consequências desastrosas para os agricultores e consumidores brasileiros.

Tereza Cristina (DEM/MS), atual ministra da Agricultura, foi uma das principais defensoras do “Pacote do Veneno” no Congresso Nacional.

Entretanto, como já venho dizendo, que ninguém se surpreenda se em um futuro não mito distante, boa parte da produção agrícola brasileira for colocada sob um rígido cordão sanitário por causa da ação irresponsável em face do uso intensivo e descontrolado de agrotóxicos banidos.  Em outras palavras, o chamado “Projeto de Mefistófeles” ainda sairá muito caro para o Brasil.

Veneno invisível: Brasil exporta agrotóxicos proibidos de volta para países-sede das indústrias produtoras

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No dia 10 de Dezembro de 2018 dei conta do lançamento da extensiva reportagem assinada pelo jornalista José Brito que nos informava que os agrotóxicos campeões de venda no Brasil incluem vários produtos que foram proibidos em outras partes do mundo, a começar pela União Européia [1].

Entre os produtos mais problemáticos que proibidos na Europa continuam sendo líderes de venda no Brasil estão o Paraquate, o Acefato e a Atrazina. Entre os problemas já detectados apenas para esses dois produtos altamente tóxicos estão a ocorrência de câncer, danos genéticos e suicídios.  Resíduos destes produtos podem ser encontrados em alimentos como café, arroz, feijão, batata, maçã, banana e até no caldo de cana.

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Esta situação deve ser aprofundada no governo Bolsonaro na medida em que forem cumpridas as sinalizações já dadas pela nova ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM/PPS), de que serão afrouxadas as regras para renovação de autorizações já existentes e de autorização de novos produtos [2]. 

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Tereza Cristina, também conhecida como “Musa do Veneno” por sua atuação parlamentar em prol dos interesses da indústria de venenos agrícolas, quer “liberar geral” a produção e venda de agrotóxicos no Brasil.

Com isso, o Brasil e, por extensão, os brasileiros que trabalham na agricultura ou consomem produtos contaminados por estes venenos agrícolas poderão sofrer ainda mais com os efeitos colaterais já documentados de forma extensiva pela comunidade científica [3] .

Mas até aqui “morreu o Neves”, pois o que acontece no Brasil não interessa necessariamente aos governos dos países-sede que se beneficiam na nossa transformação em uma zona de sacrifício das empresas que vendem venenos agrícolas.

O que me parece importante é que cedo ou tarde os países importadores irão começar a aplicar suas regras em termos dos níveis aceitáveis de resíduos de venenos agrícolas nas exportações que chegam do Brasil. Ai teremos diante de nós a possibilidade do estabelecimento de regras sanitárias de um tipo ainda inédito, que se referirão à exposição dos nossos produtos agrícolas ao uso de agrotóxicos. 

Para acelerar essa compreensão será necessário que se adicione ao conceito de “água invisível” [4] se adicione o de “veneno invisível” (que reflete a quantidade excessiva de resíduos de venenos num dado produto que é importado). É que até aqui, os países importadores reconheceram apenas de forma limitada os impactos das monoculturas sobre florestas e recursos hídricos nos países produtores de commodities. Mas certamente se preocuparão mais se esse fator ainda relativamente desconhecido for levado ao conhecimento dos consumidores dos países-sede (um bom exemplo disso foi o relatório sobre a produção de soja que foi publicado pela Rainforest Allianc Foundation da Noruega [5]).


[1] https://apublica.org/2018/12/agrotoxicos-proibidos-na-europa-sao-campeoes-de-vendas-no-brasil/

[2] https://diariodocomercio.com.br/sitenovo/tereza-cristina-defende-novas-regras-para-agrotoxicos/

[3] http://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/39772/9241561394.pdf?sequence=1&isAllowed=y

[4] https://exame.abril.com.br/estilo-de-vida/a-agua-invisivel-de-15-alimentos-e-bebidas-do-dia-a-dia/

[5]  http://historier.regnskog.no/den-norske-laksens-grumsete-farvann/index.html

 

 

Anvisa faz consulta pública para informar reavaliação do perigoso agrotóxicos “Paraquate”

paraquat

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) está realizando uma consulta pública para todos os que desejarem participar do processo de reavaliação do agrotóxico “Paraquate”. Este produto está banido em muitos países do mundo, incluindo a China) conforme mostrado na Tabela 1 do Parecer Técnico de Reavaliação da própria Anvisa (Aqui!), mas continua sendo vendido abundantemente no Brasil. Aliás, na Tabela 5 deste mesmo relatório são mostrados os casos de pacientes que morreram por causa de intoxicações com este herbicida altamente perigoso para o ambiente e a saúde humana.

Conforme mostra o chamamento da Anvisa que é mostrado logo abaixo,  contribuições serão aceitas até esta segunda-feira (16/11)

Apesar do tempo curto, é importante que seja feitam contribuições a esta consulta pública,  visto que os vendedores de veneno estão participando massivamente, votando pela continuidade do registro deste perigoso agrotóxico no Brasil. Aliás, como até a china proibiu, não é de se estranhar que os estoques excedentes estejam sendo enviados para países que ainda comercializam o Paraquate, começando pelo Brasil.

Consulta Pública nº 94, de 8 de outubro de 2015

Prazo para Contribuição: De 16 de outubro de 2015 até 16 de novembro de 2015

Em Aberto

Assunto:

Proposta de Reavaliação Toxicológica do Ingrediente Ativo PARAQUATE

Formulário para envio de contribuições

Novo tutorial do formulário e dúvidas frequentes

Processo : 25351.056773/2013-21
Assunto: Proposta de Reavaliação Toxicológica do Ingrediente Ativo PARAQUATE.
Agenda Regulatória 2015-2016: Subtema nº 67.5
Regime de Tramitação: Comum
Área responsável: Gerência-Geral de Toxicologia – GGTOX
Relator: Renato Alencar Porto

  • Documentos Relacionados:Justificativa
    Proposta de norma em discussão
    Parecer técnico de reavaliação

    Atos relacionados
    Despacho de iniciativa nº 93, de 8 de outubro de 2015 (DOU de 09/10/2015)

  • Importante:A fim de garantir maior transparência ao processo de elaboração dos atos regulatórios editados pela Anvisa, esclarecemos que os nomes dos responsáveis pelas contribuições (pessoas físicas e jurídicas) são considerados informações públicas e serão disponibilizados de forma irrestrita nos relatórios e outros documentos gerados a partir dos resultados dessa Consulta Pública.

    Já o e-mail e o CPF dos participantes são considerados informações sigilosas e terão seu acesso restrito aos agentes públicos legalmente autorizados e às pessoas a que se referem tais informações, conforme preconiza o artigo 31, §1º, inciso I da Lei nº 12.527/2012.