Cientista do IPCC alerta que reduzir rapidamente as emissões e iniciar medidas concretas de adaptação são tarefas simultâneas e urgentes diante de impactos climáticos que já atingem o Brasil
No debate realizado na última quinta-feira sobre o atual ciclo do El Niño, o professor Paulo Artaxo (USP), membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), fez uma série de observações importantes sobre o avanço do aquecimento da atmosfera terrestre e suas consequências cada vez mais evidentes. Artaxo participou de uma atividade organizada pela Comissão do Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física (ABGF), que reuniu também os pesquisadores Luciana Gatti (INPE) e Roberto Verdum (UFRGS) para discutir as mudanças em curso no sistema climático e os desafios que elas colocam para a sociedade brasileira.
Para começo de conversa, Artaxo lembrou que, apesar de todas as conferências realizadas pela Organização das Nações Unidas para enfrentar o aquecimento provocado principalmente pela queima de combustíveis fósseis, as emissões globais de gases de efeito estufa já ultrapassam 57 bilhões de toneladas por ano. Como resultado, a temperatura média global já aumentou cerca de 1,45 °C, enquanto nas áreas continentais esse aquecimento chega a aproximadamente 2,1 °C. No caso do Brasil, mantida a atual trajetória de aumento da temperatura, o aquecimento poderá atingir entre 3,5 °C e 4 °C, produzindo situações especialmente graves nas grandes cidades. Artaxo ressaltou ainda que o clima não se resume à temperatura, pois envolve também a precipitação e outros componentes do sistema climático; alterações importantes nos padrões de chuva já podem ser observadas em diferentes regiões.
Ao tratar dessas mudanças, Artaxo mencionou um estudo recente do MapBiomas que apontou uma redução de cerca de 30% no estoque de água do Pantanal, processo que já produz graves impactos ambientais, econômicos e sociais. No caso da Amazônia, ele destacou estudos que indicam que partes da floresta passaram da condição de sumidouro para a de fonte de carbono. Esse processo reforça a preocupação de que a Amazônia possa estar se aproximando do chamado ponto de não retorno, situação que produziria impactos não apenas sobre sua composição e estrutura florestal, mas também sobre sua capacidade de reciclar e transportar umidade para extensas áreas do território brasileiro.
Questionado sobre a implantação de grandes projetos econômicos na Amazônia, especialmente sobre a expansão da exploração de petróleo na região, Artaxo observou de forma enfática que esse tipo de iniciativa caminha na direção contrária aos esforços necessários para conter o aumento da temperatura global. A abertura de novas fronteiras petrolíferas amplia a oferta de combustíveis fósseis justamente quando a ciência climática indica a necessidade de reduzir rapidamente sua utilização e, consequentemente, as emissões de gases de efeito estufa.
Outro ponto importante destacado por Artaxo foi a necessidade de o Brasil acelerar a implantação de medidas de adaptação a uma condição climática que deverá se tornar mais severa nas próximas décadas. Segundo ele, embora já existam recursos destinados a iniciar esse processo, o país utiliza pouco do dinheiro disponível e, em diversos casos, utiliza esses recursos de maneira inadequada. A adaptação deixou, portanto, de ser uma questão que pode ser adiada para algum momento futuro, pois parte das mudanças climáticas já está em curso e continuará produzindo consequências mesmo que o mundo consiga reduzir significativamente suas emissões nos próximos anos.
Finalmente, Artaxo observou que a comunidade científica já considera inalcançável a meta de limitar o aquecimento da atmosfera terrestre a 1,5 °C. Esse reconhecimento, longe de justificar qualquer acomodação, torna ainda mais urgente a redução rápida e consistente das emissões de gases de efeito estufa, pois cada fração adicional de grau amplia a intensidade e a frequência dos impactos climáticos. Ao mesmo tempo, governos e sociedades precisam iniciar imediatamente medidas concretas de adaptação, uma vez que os efeitos do aquecimento já começam a se manifestar nos territórios. Adiar essas duas tarefas significa aumentar deliberadamente a exposição da população a ondas de calor, secas, chuvas extremas, enchentes, perdas agrícolas, crises no abastecimento de água e outros eventos capazes de produzir graves consequências sociais e econômicas. A inação, portanto, não representa apenas um risco projetado para as próximas décadas; ela já cobra seu preço no presente e pode transformar fenômenos climáticos cujos impactos poderiam ser prevenidos ou mitigados em desastres de proporções cada vez maiores.
Quem desejar ouvir na íntegra as declarações de Paulo Artaxo e as contribuições dos demais debatedores, Luciana Gatti e Paulo Verdum, poderá acessar a gravação da atividade no canal do GENAT/UFPB [ Aqui!].
Posto abaixo o vídeo da live organizada pela Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física (ABGF), transmitida ontem pelo canal do GENAT/UFPB no YouTube. A atividade reuniu os pesquisadores Paulo Artaxo (USP), Luciana Gatti (INPE) e Roberto Verdum (UFRGS) para discutir os mecanismos responsáveis pelo El Niño, as possíveis relações desse fenômeno com o aquecimento da atmosfera terrestre e os efeitos diretos dos eventos meteorológicos extremos associados tanto ao El Niño quanto às mudanças climáticas.
As manifestações dos três pesquisadores, todos com sólida produção científica em suas respectivas áreas de atuação, combinaram conhecimento científico com reflexões sobre os impactos do modelo econômico vigente e sobre a maneira como a interação entre esses processos contribui para mudanças profundas no funcionamento dos sistemas naturais do planeta. Uma das consequências mais imediatas dessas transformações aparece nas alterações cada vez mais perceptíveis da dinâmica atmosférica e na intensificação de determinados eventos extremos.
Em conjunto, os três participantes demonstraram especial preocupação com a falta de preparação da sociedade e do poder público para o necessário processo de adaptação aos novos padrões climáticos. Essa preocupação ganha ainda mais relevância diante do atual ciclo do El Niño, que deverá produzir impactos bastante diversos sobre a dinâmica climática, especialmente no território brasileiro. A ciência já oferece informações suficientes sobre os riscos envolvidos; o problema central passa, portanto, pela capacidade de transformar esse conhecimento em planejamento, prevenção e medidas concretas de adaptação.
Nesta quinta-feira, 20 de agosto, às 15h, participarei como mediador da live “Brasil sob o El Niño: crise climática, impactos socioambientais e urgência da adaptação”, promovida pela Comissão do Ambiente da Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB).
A conversa reunirá Luciana Gatti (INPE Amazônia), Paulo Artaxo (USP) e Roberto Verdum (UFRGS) para discutir os efeitos do El Niño sobre o território brasileiro, sua relação com a crise climática e, principalmente, a necessidade urgente de políticas de prevenção e adaptação diante de eventos extremos que a ciência já permite antecipar.
A transmissão ocorrerá pelo GENAT UFPB, canal da Geografia Brasileira impulsionado pelo Grupo de Pesquisa e Laboratório de Geomorfologia e Gestão de Riscos Naturais da Universidade Federal da Paraíba.
Docente da USP defende planejamento de longo prazo, investimentos em prevenção e políticas públicas capazes de enfrentar uma crise climática que já amplia eventos extremos e aprofunda as desigualdades socioambientais no país
Em entrevista publicada pela jornalista Vanessa Oliveira no jornal Valor Econômico, o físico e professor da USP, Paulo Artaxo, faz um diagnóstico que deveria orientar o planejamento público em todas as escalas de governo: o Brasil ainda está muito atrasado na construção de uma estratégia consistente para enfrentar os impactos de um clima que já não corresponde aos padrões do passado. A mensagem central da reportagem é clara: não basta reagir às tragédias quando elas acontecem; é preciso criar uma cultura permanente de prevenção, adaptação e planejamento.
Essa avaliação ganha ainda mais relevância porque os eventos extremos deixaram de ser exceções. Secas prolongadas, ondas de calor, tempestades intensas, enchentes e incêndios florestais passam a ocorrer com maior frequência e intensidade, impondo custos humanos, econômicos e ambientais crescentes. A insistência em tratar esses episódios como acontecimentos isolados impede que sejam enfrentados como parte de uma transformação climática estrutural.
No caso brasileiro, entretanto, o problema é ainda mais complexo. Não existe um único “novo clima”, mas diferentes expressões regionais da crise climática. Enquanto o Sul enfrenta chuvas excepcionais e inundações recorrentes, partes da Amazônia e do Nordeste convivem com secas severas, redução da disponibilidade hídrica e aumento do risco de incêndios. Nas zonas costeiras, tempestades, erosão marinha e elevação do nível do mar ampliam a vulnerabilidade de municípios que, em sua grande maioria, sequer dispõem de instrumentos adequados de planejamento territorial e gerenciamento costeiro.
Há também uma dimensão social que frequentemente permanece invisível. Os impactos climáticos distribuem-se de maneira profundamente desigual. Populações de baixa renda, moradores de periferias urbanas, comunidades tradicionais, agricultores familiares, pescadores artesanais e povos indígenas costumam sofrer os efeitos mais severos, justamente porque dispõem de menor infraestrutura, menor proteção estatal e menor capacidade de recuperação após os desastres. Adaptar o país ao novo clima significa, portanto, enfrentar simultaneamente as desigualdades socioespaciais que amplificam esses riscos.
Outro aspecto importante da entrevista é a defesa de que adaptação não deve ser entendida como uma política emergencial, mas como uma política permanente de Estado. Isso exige planejamento territorial, fortalecimento da ciência, investimentos contínuos em monitoramento meteorológico, sistemas de alerta precoce, infraestrutura resiliente e políticas públicas capazes de reduzir vulnerabilidades antes que os desastres ocorram. Sem isso, continuará prevalecendo o modelo de reconstrução após cada tragédia, normalmente mais caro e menos eficiente do que a prevenção.
A advertência de Paulo Artaxo merece ser levada muito além do debate científico. Construir uma cultura de enfrentamento ao novo clima significa reconhecer que a emergência climática já está reorganizando o território brasileiro. A persistência de uma lógica da improvisação, de cortes orçamentários e da ausência de planejamento significará transformar eventos extremos em crises humanitárias cada vez mais frequentes. A adaptação climática deixou de ser uma escolha política: tornou-se uma condição indispensável para proteger vidas, economias locais e ecossistemas em um país que já experimenta, diariamente, os efeitos das mudanças em curso.
A Comissão do Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física (ABGF) realizará, no próximo dia 20 de agosto, às 15h, a live “Brasil sob o El Niño: crise climática, impactos socioambientais e urgência da adaptação”, reunindo alguns dos mais destacados pesquisadores brasileiros dedicados ao estudo das mudanças climáticas e de seus efeitos sobre o território nacional.
A atividade acontece em um momento particularmente oportuno. As projeções mais recentes indicam o fortalecimento de um novo ciclo do El Niño, fenômeno que tende a intensificar eventos climáticos extremos em diferentes regiões do Brasil. A combinação entre o aquecimento anômalo do Oceano Pacífico, o aquecimento persistente do Atlântico Tropical e o avanço da crise climática global amplia os riscos de secas severas, queimadas, ondas de calor, escassez hídrica e episódios de chuvas intensas, com impactos diretos sobre a agricultura, os ecossistemas, a infraestrutura e a saúde pública.
Diante desse cenário, a Comissão do Ambiente da ABGF propõe um debate que articula ciência de excelência e compromisso com a sociedade. A live reunirá pesquisadores que vêm produzindo algumas das contribuições mais relevantes para a compreensão das transformações ambientais em curso no país.
Participarão como palestrantes a Dra. Luciana Gatti (INPE), reconhecida internacionalmente por seus estudos sobre o balanço de carbono da Amazônia e os efeitos do desmatamento sobre o clima; o Prof. Dr. Paulo Artaxo (USP), uma das principais referências brasileiras em física da atmosfera, mudanças climáticas e aerossóis; e o Prof. Dr. Roberto Verdum (UFRGS), pesquisador com ampla trajetória nos estudos sobre geografia física, vulnerabilidade ambiental e ordenamento territorial. A mediação ficará a cargo do Prof. Dr. Marcos Pedlowski (UENF), pesquisador da área de geografia política e ambiental, que conduzirá o diálogo entre os convidados e o público.
Mais do que discutir previsões meteorológicas, o encontro buscará analisar os desafios que o Brasil enfrenta para construir políticas efetivas de adaptação climática, reduzir vulnerabilidades socioambientais e fortalecer a capacidade de resposta das instituições públicas diante da intensificação dos eventos extremos.
A transmissão ocorrerá pelo canal GENATUFPB no YouTube e representa uma oportunidade para estudantes, pesquisadores, profissionais, gestores públicos e todos os interessados em compreender como o conhecimento científico pode contribuir para enfrentar um dos maiores desafios do século XXI.
Serviço
Live: Brasil sob o El Niño: crise climática, impactos socioambientais e urgência da adaptação Data: 20 de agosto Horário: 15h
Paulo Artaxo fazendo apresentação sobre mudanças climáticas no Palácio do Planalto no dia 17 de setembro– Foto: Ricardo Stuckert/PR – CC BY-ND 2.0
O físico e professor da Universidade de São Paulo, Paulo Artaxo, que também é membro do Painel Intergovernamental para as Mudanças Climáticas (IPCC) publicou umartigo que deveria ter servido como alerta para os governantes brasileiros, mas, principalmente no plano federal, com Jair Bolsonaro et caterva no controle do leme, o aviso passou completamente despercebido.
No artigo publicado pela revista Estudos Avançados, Artaxo alertava que nossa sociedade “está simultaneamente convivendo com três emergências importantes: 1) a crise na saúde; 2) a crise de perda de biodiversidade; e 3) a crise climática. Artaxo salinetou ainda que “essas crises têm ligações profundas entre si, e diferenças importantes, mas todas provocam impactos sociais e econômicos fortes e afetam nosso planeta globalmente”.
O texto afirmava ainda que “entre as diferenças importantes nas três crises está a questão temporal: enquanto a crise na saúde associada ao Sars-CoV-2 pode durar cerca de dois anos, o impacto das mudanças climáticas pode durar séculos, a perda de biodiversidade é para sempre. Artaxo ponderava ainda que não haveria lockdown como o aplicado na pandemia da COVID-19, nas crises climáticas e de biodiversidade”.
Dentre as questões relacionando a perda das florestas e a mudança do clima, Artaxo citou o exemplo do estado de Rondônia onde o desmatamento alterou a circulação atmosférica, resultando em menos chuva nas áreas desmatadas e mais chuva nas áreas adjacentes. É que, com a devastação de mais de 50% da floresta em Rondônia, houve uma mudança no mecanismo que controla as chuvas, afetando o clima local e a agropecuária.
Dentre as muitas conclusões de Artaxo, uma das que considero cada vez mais urgente foi a de que a interferência das mudanças climáticas vêm influenciando alterações no regime de chuvas, na temperatura, no nível e na química de águas costeiras, causando mudanças na fenologia das plantas, no funcionamento de ecossistemas e, na distribuição da biodiversidade, inclusive na distribuição de vetores transmissores de doenças. Artaxo afirmava ainda que essas mudanças interagiriam entre si e com “múltiplos estressores” sociais e ambientais que poderiam ampliar seus impactos. Em função disso, muitas dessas dimensões das mudanças climáticas, e suas interações, precisavam ser mais bem compreendidas. As fortes alterações no regime de chuvas em todas as regiões do país iriam exigir soluções para minorar os problemas socioeconômicos advindos das secas mais fortes e frequentes, e inundações extremas em grandes áreas.
Passados pouco de mais de quatro anos dos alertas de Paulo Artaxo, eis que estamos diante não apenas de cenários teóricos, mas de fatos concretos. Mas mesmo diante deles, o que se vê é a ignorância e objetivamente a rejeição das evidências científicas, principalmente por parte daqueles segmentos que estão lucrando com a destruição das nossas florestas e dos importantes serviços ambientais. Isso prova que para mudar essa situação não basta ter conhecimento científico, mas força política para impor uma agenda governamental que se livre do domínio do agronegócio e das multinacionais que coletam a maior parte do lucro que ele gera.
Há que se notar que no dia 17 de setembro, Paulo Artaxo foi convidado para participar de uma reunião de emergência convocada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio do Planalto para discutir o enfrentamento da crise climática no Brasil. Além de Lula, estavam presentes na sala os presidentes das duas casas do Congresso Nacional (Rodrigo Pacheco e Arthur Lira) e do Supremo Tribunal Federal (Luís Roberto Barroso), além do procurador-geral da República (Paulo Gonet), vários ministros de Estado e outras autoridades do mais alto escalão da política nacional.
Vamos ver se essa ida de Artaxo vai resultar em algo prático do ponto de vista das políticas federais que hoje objetivamente financiam a destruição das florestas brasileiras e envenenam nossos rios com agrotóxicos, muitos deles banidos em outras partes do mundo. E aqui a conta é simples: ou se muda essa equação ou o que se viu em 2024 é apenas um aperitivo do que está por vir.
São Paulo supera em quase 3 vezes recomendação da OMS para material particulado no ar
Um relatório lançado hoje (28/07) mostra que a poluição do ar por material particulado reduz em dois anos a expectativa média de vida das pessoas em todo o mundo. O Air Quality Life Index (AQLI)destaca ainda que a poluição particulada era o maior risco para a saúde humana antes da COVID-19 — e deve voltar a ser se não houver políticas públicas voltadas a uma redução permanente após a pandemia.
“Embora a ameaça do coronavírus seja grave e mereça toda a atenção que está recebendo — talvez mais em alguns lugares –, enfrentar a gravidade da poluição do ar com um vigor semelhante permitiria que bilhões de pessoas em todo o mundo levassem vidas mais longas e saudáveis”, diz Michael Greenstone, professor de economia do Milton Friedman Distinguished Service e criador do AQLI junto com colegas do Energy Policy Institute da Universidade de Chicago (EPIC). “A realidade é que não há vacina que alivie a poluição do ar. A solução está numa política pública robusta”.
O documento afirma que se todos os países mantiverem a poluição particulada dentro dos limites recomendados pela Organização Mundial da Saúde, que é de 10 μg/m3, a expectativa de vida atual subiria de 72 anos para 74. Em média, os seres humanos estão expostos a uma concentração de 29 μg/m3 desse tipo de contaminação.
Trabalhando dentro do corpo humano sem ser percebida, a poluição particulada tem um impacto mais devastador na expectativa de vida do que doenças transmissíveis como tuberculose e HIV/AIDS, assassinos comportamentais como o fumo e até mesmo a guerra. O tabagismo leva a uma redução na expectativa média de vida global de cerca de 1,8 ano. O uso de álcool e drogas reduz a expectativa de vida em 11 meses. A falta de água potável e de saneamento subtraem 7 meses. Na média, HIV/AIDS reduz a vida em 4 meses, e a malária em 3 meses. Conflitos e terrorismo cortam 18 dias de vida.
Poluição em São Paulo
Mariana Veras, coordenadora do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental do Hospital das Clínicas, teve acesso ao relatório e explica que os números referentes ao Brasil estão longe de refletir a realidade nos grandes centros urbanos do país, muitos deles sem monitoramento adequado de poluentes. “No estado de São Paulo, a questão do monitoramento é um pouco melhor, já que contamos com uma rede ampla da CETESB”, destaca a pesquisadora. “Dados dos últimos relatórios da qualidade do ar mostram que a média da concentração de PM2.5 está em torno de 28 ug/m³”. O dado citado por Veras é quase o triplo do recomendado pela OMS.
A pesquisadora explica que a poluição é uma ameaça mais grave a idosos e criança, e que moradores da periferia, que gastam mais tempo no trânsito, são mais impactados. “Os níveis atuais de poluição em São Paulo reduzem a expectativa de vida em cerca de um ano e meio, principalmente devido a câncer de pulmão e de vias aéreas superiores, infarto agudo do miocárdio e arritmias, bronquite crônica e asma”, afirma. Na capital paulista, Veras diz que a estimativa é que morre-se por poluição mais do que por acidentes de trânsito (1.556 no ano), 3 vezes e meia do que Câncer de mama (1.277), quase 6 vezes por AIDS (874) ou Câncer de Próstata (828).
A bióloga afirma que as políticas públicas brasileiras carecem de aplicação efetiva, e cita o PROCONVE e a Política Municipal da Mudança do Clima de São Paulo. “Nós fizemos um estudo na época do adiamento de uma das fases do PROCONVE. Os resultados mostraram que o adiamento por 3 anos da implementação em relação ao diesel provoca um excesso estimado de 13.984 mortes até 2040 e as despesas previstas com saúde aumentam em quase US ﹩ 11,5 bilhões no mesmo período”.
Reduções na China
75% de toda a redução mundial da poluição atmosférica foi feita na China. Desde que o país começou a chamada “guerra contra a poluição”, em 2013, o país reduziu a poluição em quase 40% em 5 anos, adicionando cerca de 2 anos à expectativa média de vida da população. Para se ter uma ideia da magnitude dessas medidas, foram necessárias várias décadas de redução da poluição — e até de recessões econômicas — para que os Estados Unidos e a Europa conseguissem o mesmo alívio que a China conquistou em 5 anos, sem interromper o crescimento de sua economia.
A redução da poluição atmosférica em alguns países foi anulada globalmente pelo agravamento das condições em outras regiões. A situação mais alarmante é a do Sul da Ásia, que registou um aumento de 44% na poluição, reduzindo a expectativa de vida em 5 anos em média em Bangladesh, Índia, Nepal e Paquistão. Cerca de um quarto da população mundial vive nestes quatro países, mas eles representam 60% dos anos de vida perdidos devido à poluição.
Bangladesh é o país mais poluído do mundo, mas uma região específica da Índia — Uttar Pradesh, com quase 250 milhões de habitantes — está expondo a população a um nível de contaminação que não é comparável a nenhum outro lugar do planeta e pode custar até 8 anos de vida de seus moradores.
Sobre o Índice de Qualidade de Vida do Ar (AQLI)
O AQLI é um índice de poluição que traduz a poluição atmosférica particulada na métrica mais importante que existe: seu impacto na expectativa de vida. Esse parâmetro foi desenvolvido por Michael Greenstone, professor de Economia do Milton Friedman Distinguished Service e criador do AQLI junto com colegas do Energy Policy Institute da Universidade de Chicago (EPIC).
O AQLI é embasado em pesquisas que quantificam a relação causal entre a exposição humana de longo prazo à poluição do ar e a expectativa de vida. O índice então combina medições de partículas hiperlocalizadas e globais, produzindo uma percepção sem precedentes do verdadeiro custo da poluição por partículas em comunidades ao redor do mundo. O Índice também ilustra como as políticas de poluição do ar podem aumentar a expectativa de vida quando cumprem as diretrizes da Organização Mundial da Saúde para o que é considerado um nível seguro de exposição, padrões nacionais de qualidade do ar existentes ou níveis de qualidade do ar definidos pelo usuário. Estas informações podem ajudar a informar as comunidades locais e os formuladores de políticas sobre a importância das políticas de poluição do ar em termos concretos.
Para informações sobre poluição e expectativa de vida no Brasil: Mariana Matera Veras, bióloga e Coordenadora do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental +55 11 95272-6005
Para informações sobre emissões de material particulado no Brasil: Paulo Artaxo: +55 11 99115-8970 artaxo@if.usp.br, artaxo@gmail.com
Pesquisador Paulo Artaxo relaciona desmatamento amazônico a aumento da temperatura média da Terra na abertura de ciclo de conferências que Universidade Humboldt dedica aos 250 anos do nascimento do naturalista alemão.
Pesquisador Paulo Artaxo na abertura das palestras Kosmos promovida pela Universidade Humboldt em Berlim
A Amazônia é um dos componentes-chave do sistema terrestre e alterações na floresta podem influenciar o clima de todo o planeta. A informação foi apresentada pelo pesquisador brasileiro e professor da Universidade de São Paulo (USP) Paulo Artaxo, no sábado (07/04), na abertura da série de palestras Kosmos-Lesungen, em Berlim, que marcam os 250 anos do nascimento do naturalista alemão Alexander von Humboldt.
A taxa atual de desmatamento da Amazônia está em 18%. “Se subir para 40%, a floresta tropical corre risco de colapsar e virar savana”, alertou o pesquisador.
A palestra, reservada a autoridades científicas e políticas da Alemanha e que contou com discurso do presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinemeier, lotou o auditório do Teatro Maxim Gorki, localizado logo ao lado do complexo de prédios da Universidade Humboldt.
Artaxo é referência internacional no estudo do meio ambiente amazônico e mudanças climáticas globais, além de membro da equipe do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), agraciada com o Prêmio Nobel da Paz de 2007.
Os dados trazidos por ele mostram que a estação seca na Amazônia está se prolongando, o que resulta em um período de queimadas mais longo. Isso também eleva a temperatura da água dos rios que cruzam a floresta e desembocam no oceano. Além disso, a floresta sempre foi parte importante do ciclo do carbono, o que já não ocorre. “Hoje a absorção de carbono pela floresta amazônica é igual a zero”, frisou.
Além de advertir sobre fatos e riscos, Artaxo também disse que a floresta pode fazer parte da solução. “Só há um processo que pode resolver o problema e remover o CO2 da atmosfera. Ele se chama fotossíntese”. O professor citou ainda outros pontos críticos do sistema climático da Terra, como o Sahel, na África, e a Grande Barreira de Corais, na Austrália. A importância brasileira, no entanto, foi destacada. “O Brasil tem a maior superfície de floresta tropical do mundo. É preciso mantê-la em pé”, afirmou.
O aumento da intensidade e a maior frequência de eventos climáticos extremos já acontecem desde os anos 1980. Para ilustrar os efeitos dessas alterações provocadas pela elevação da temperatura média do planeta, Artaxo citou o ciclone Idai, que matou mais 700 pessoas em Moçambique, no Zimbábue e no Malaui. no início de março.
Outra consequência do aquecimento global é a extinção de espécies. “A América do Sul é a parte da Terra que mais corre risco de perder biodiversidade, seguida pela Austrália e Nova Zelândia”, avisou. A produção de alimentos também será prejudicada e haverá mudanças no ciclo da água. “Já está acontecendo, mas não sabemos o quanto”.
Na palestra, foram apresentados mapas que simularam uma nova geografia, caso as emissões de CO2 não cessem. Cidades podem sumir devido à elevação do nível dos oceanos, um processo que também afeta a Europa, África e Estados Unidos. “Nós sabemos que estamos fazendo isso há mais de cem anos e está acontecendo em todos os lugares do planeta. Aquecimento global não é o futuro, é o presente”, sublinhou.
Segundo Artaxo, há duas fontes para o aquecimento global: A queima de combustíveis fósseis (91%) e o desmatamento (9%). A segunda já apresentou redução. Na década passada, o desmatamento era responsável por 18% do CO2 lançado à atmosfera, absorvido pelos oceanos e florestas. Para zerar as emissões, entretanto, ainda há um longo caminho a percorrer, disse o especialista.
De acordo com o último relatório do IPCC, é preciso reduzir as emissões de gases de efeito estufa em pelo menos 5% ao ano começando em 2020, e zerar essas emissões até 2040. “Isso é possível, mas precisamos de um esforço global conjunto, envolvendo a ciência, os tomadores de decisão e o setor empresarial”, apontou o pesquisador, que completa: “É uma decisão política que tem que ser tomada agora e a ciência aponta os caminhos. Para a ciência, a solução é simples, mas talvez não o seja para a política”, apontou Artaxo.
Paulo Artaxo gráfico com evolução do desmatamento da Amazônia
Ele mencionou o Acordo de Paris como um movimento para frear as emissões, mas alertou: “Mesmo que seja totalmente cumprido, ainda teremos um aumento entre 2,7°C e 3°C na temperatura media global até 2050”. Artaxo se mostrou cético ao falar sobre o compromisso brasileiro em reduzir 37% das emissões de CO2 até 2025 e 43% até 2030. O país também pretende até 2030 zerar o desflorestamento ilegal e compensar as emissões provenientes do desmatamento legal. “O Brasil até é capaz de cumprir, mas essas metas são bem difíceis”, opinou.
Ao encerrar a palestra, Artaxo apontou que, se ainda estivesse vivo, Alexander von Humboldt, geógrafo, naturalista e explorador alemão, certamente faria recomendações similares a dos atuais cientistas ambientais. “Se queremos evitar um aquecimento de 4°C ou 5°C no nosso planeta ainda neste século, não há outra forma a não ser usar os recursos naturais do nosso planeta de forma mais eficaz e inteligente”.
Após a palestra, Paulo Artaxo falou à DW Brasil sobre a situação da ciência brasileira. Apesar de ter relevância mundial, os cientistas brasileiros carecem de apoio e suporte financeiro dentro de seu próprio país. “A pesquisa não pode depender de orçamento de 1 ano, 2 anos ou 4 anos, pois tem papel fundamental no processo de evolução da economia e da sociedade”, afirmou. “Sem ciência, não há desenvolvimento. Assim, o Brasil será para sempre exportador de minério de ferro ou de soja”, completou.
O pesquisador criticou os recentes cortes de verba e congelamento de repasses para o setor. O orçamento do Ministério das Ciências e Tecnologia foi cortado em 32% de 2018 para 2019. No final de março, o presidente Jair Bolsonaro anunciou um congelamento adicional de repasses de 42%. “Isso basicamente estrangula todo o desenvolvimento cientifico e tecnológico do país. Faz muitos anos que é difícil para o CNPq implementar grandes projetos de pesquisa e isso está fazendo com que o Brasil perca terreno na ciência internacional”, informou o professor, que é pesquisador Emérito do CNPq.
Os cortes de orçamento atingem toda a cadeia de produção de conhecimento científica no Brasil. Desde o bolsista de iniciação científica que recebe 300 reais por mês até o estudante de pós-doutorado e também os projetos de pesquisa em andamento. “É importante frisar que não é só uma questão de recursos, é uma questão de modelo de desenvolvimento, do que se quer para o país daqui a 10, 15 ou 50 anos”, apontou.
“A função do governo é pensar essa estratégia e implementar medidas de longo prazo, visando para que caminho o país quer ir. E isso não está sendo feito”, finalizou.
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Esta reportagem foi originalmente produzida e publicada pela Deutsche Welle [Aqui!]
Paulo Artaxo, professor da Universidade de São Paulo e uma das mais importantes lideranças no estudo das mudanças climáticas do Brasil.
Em uma ação rara por parte de uma das principais revistas científicas do mundo, a prestigiosa “Science” abriu espaço editorial para que o professor da Universidade de São Paulo (USP)e importante liderança científica na área das mudanças climáticas, Paulo Artaxo, produzisse um grave alerta sobre os riscos que estão sendo colocados sobre a Amazônia brasileira em função dos primeiros atos e planos anunciados por parte do governo de Jair Bolsonaro.
Artaxo aponta ainda suas preocupações para o desmanche produzido no Ministério do Meio Ambiente e das ferramentas de controle que existiam para acompanhar o avanço do desmatamento e da degradação de ecossistemas amazônicos e do Cerrado.
Outro aspecto ressaltado foi o desmanche dos setores que tratavam da questão das mudanças climáticas no interior dos ministérios do Meio Ambiente e das Relações Exteriores, bem como da pretensão anunciada de retirar o Brasil do Acordo Climático de Paris. Artaxo lembra que parte significativa das reduções de emissões dos gases que causam o chamado efeito estufa depende do término do desmatamento ilegal e do reflorestamento de milhões de hectares. Artaxo também que estas metas estão agora em conflito com o desejo do agronegócio de expandir a pastagem e agricultura intensiva na floresta amazônica e no Cerrado.
A repercussão desse editorial deverá ser imediata, principalmente naqueles países que, ao contrário dos EUA, se mantém alinhados com as metas de redução das emissões de gases estufa, e que são fortes parceiros comerciais do Brasil, a começar pela China. Tal repercussão é garantida não apenas pelo peso científico da Science, mas também pelo reconhecimento que Paulo Artaxo possui em função de sua consistente produção científica nas questões relacionadas ao clima.
Entretanto, a minha impressão é que esse alerta só será levado a sério quando começar o boicote proposto pelo “The Washington Post” para commodities originadas em áreas recentemente desmatadas na Amazônia.
Quem desejar ler o editorial escrito por Paulo Artaxo para a Science, basta clicar [Aqui!]
Maria Fernanda Ziegler, em Uatumã | Agência FAPESP
Para fazer ciência na Amazônia, além de enfrentar longos desafios logísticos, também é preciso subir degraus. Muitos deles. Quase 1,5 mil e, se possível, de uma só vez. O esforço vale a pena, pois tem levado a descobertas sobre o impacto tanto das mudanças climáticas na Amazônia quanto da floresta no clima de todo o planeta.
A escadaria em questão está na Torre Alta da Amazônia (ATTO, na sigla em inglês), com 325 metros de altura – ou quase o mesmo que três edifícios Copan empilhados. A torre fica a 150 km de Manaus (AM), na Estação Científica do Uatumã. É lá que cientistas instalam equipamentos capazes de captar informações sobre os fluxos de troca entre a floresta e a atmosfera.
São análises de concentrações de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, do balanço de radiação e de fluxos de ozônio e aerossóis – partículas líquidas ou sólidas em suspensão no ar –, entre outros indicadores importantes para que se forme um panorama da importância da floresta amazônica.
Antônio Huxley do Nascimento sobe até o topo da torre diariamente quando está na Estação Científica, cerca de 10 dias por mês. Ele é técnico em instrumentação do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa) e monitora a operação de alguns dos mais de 100 equipamentos instalados na torre ATTO. Para subir, ele usa equipamento de segurança que inclui cinturão, mosquetões e cordão presos à cintura e ao corrimão da escadaria.
Nascimento verifica dados e o funcionamento dos equipamentos. “São equipamentos que coletam dados complexos o tempo inteiro, não pode haver interrupção. Eles geram uma quantidade enorme de dados e as informações são acessadas pelos pesquisadores em seus laboratórios no Brasil e na Alemanha. Mas é preciso ver constantemente se está tudo funcionando bem na torre”, disse à Agência FAPESP.
Em funcionamento desde 2015, a construção da torre custou € 8,4 milhões, financiados metade pelo governo alemão e pelo Instituto Max Planck e a outra metade pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) do Brasil, com recursos da Financiadora de Inovação e Pesquisa (Finep). Agências de fomento estaduais, como a FAPESP, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e a Fundação da Universidade Federal do Paraná (Funpar), financiam projetos de pesquisa na torre.
Na reserva existem ainda outras duas torres mais baixinhas, com 80 metros cada, usadas para o estudo de gases e aerossóis. Nelas é possível ter uma perspectiva mais próxima do dossel e não sobre a floresta, como ocorre com a torre ATTO.
A copa das árvores chega geralmente até 40 metros de altura, ou um oitavo da torre ATTO. Nessa etapa da subida da torre, é possível sentir a variação da umidade da floresta. Bem mais acima, a uns 170 metros de altura, um vento forte toma a torre. No entanto, ela não balança, pois está fixada também por longos e fortes cabos de aço. No topo, vê-se a imensidão da floresta, geralmente acompanhada por um enorme silêncio. De resto, só alguns pássaros conseguem parar no alto da torre, ou deixar lembranças por lá.
A Amazônia desempenha um papel importante nos ciclos biogeoquímicos globais de gases de efeito estufa. “A floresta amazônica é de extrema importância, principalmente por ser um bioma único no mundo, em região tropical. É a maior extensão de floresta tropical e o único lugar onde a própria floresta tem mecanismos de controle de seu clima interno, impactando muito de nosso planeta”, disse Paulo Artaxo, professor titular no Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IFUSP) e membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).
Essas características da floresta amazônica permitem que ela tenha mecanismos de regulação climática sobre a região.
“A floresta controla o balanço de energia, o fluxo de calor latente e sensível, o vapor d’água e os núcleos de condensação de nuvem que vão intensificar o seu ciclo hidrológico. E isso só é possível se houver uma extensão muito grande de floresta contígua. Quando ela é fragmentada, deixa de ter essa propriedade”, disse o também membro da coordenação do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais.
Artaxo coordena a pesquisa “O ciclo de vida dos aerossóis e nuvens na Amazônia“. Apoiada pela FAPESP, a pesquisa vai calcular o transporte de aerossóis a partir de medidas obtidas na torre ATTO, em Chacaltaya – a 5.250 metros de altitude nos Andes bolivianos – e em barcos e aviões.
O pesquisador também coordenou o href=”https://bv.fapesp.br/pt/376/”>Green Ocean Amazon Experiment (GOAmazon), campanha científica que buscou entender como os ciclos de vida dos aerossóis e das nuvens são influenciados pelo transporte de poluentes de Manaus para regiões de floresta tropical. O GOAmazon foi realizado de 2013 a 2018 e teve apoio da FAPESP, do Departamento de Energia dos Estados Unidos (DoE) e da Fapeam.
A análise de dados coletados na torre ATTO e em outros locais da Amazônia permitiu ao projeto GoAmazon fazer descobertas importantes sobre a dinâmica da floresta amazônica e sua relação com as mudanças climáticas. A partir de dados obtidos na torre, pesquisadores descobriram que o processo de aquecimento global pode ser ainda mais intenso do que o previsto originalmente caso não se consiga frear o desmatamento.
O grupo de pesquisadores reproduziu matematicamente as condições atmosféricas atuais do planeta, incluindo concentrações de aerossóis, compostos orgânicos voláteis (VOCs, na sigla em inglês) antropogênicos e biogênicos, ozônio, CO2, metano e também os demais fatores que influenciam na temperatura global. De acordo com o estudo, essa maior intensidade de aquecimento está relacionada principalmente às mudanças nas emissões de BVOCs (compostos orgânicos voláteis biogênicos) pelas florestas tropicais.
Outro estudo, publicado na Nature Communications, reforçou a importância da Amazônia na regulação química da atmosfera. Pesquisadores do GoAmazon descobriram que a floresta amazônica emite três vezes mais isopreno do que o estimado anteriormente. A substância é um dos principais precursores do gás ozônio.
Aerossóis e ozônio
Um terceiro trabalho, publicado na revista Science, mostrou que na floresta tropical as partículas ultrafinas de poluição emitidas pelas cidades – e que costumam ser desprezadas para o impacto da poluição urbana – afetam substancialmente a formação das nuvens de tempestade na Amazônia.
Os resultados obtidos ajudam na compreensão de como a poluição urbana afeta os processos relacionados à formação de tempestades na Amazônia.
“É um quebra-cabeça e nós tentamos justamente identificar novas peças para contar a história completa”, disse Luciana Varanda, professora da Unifesp e integrante do GoAmazon.
Varanda faz estudos também na Floresta Nacional do Tapajós, no Pará, e na reserva do Cuieras, que fica a 60 km de Manaus (AM). “Estamos comparando observações no ATTO e nesses outros dois pontos e os resultados são semelhantes. Isso indica que essa floresta, apesar de ser mais próxima de Manaus, na maior parte do tempo tem condições originais da floresta preservada”, disse.
Os cientistas do GoAmazon utilizam equipamentos de última geração instalados nas torres.
“Eles funcionam automaticamente, coletam o ar e analisam com alta precisão a concentração de dióxido e monóxido de carbono – indicadores de ação do homem. Também medimos o ozônio, que é um poluente importante na troposfera. E ainda temos equipamentos que analisam detalhadamente as propriedades físico-químicas dos aerossóis. São análises em tempo real de composição química e de propriedades ópticas que indicam a interação dos aerossóis com a radiação solar e a fotossíntese da floresta”, disse Varanda.
Artaxo explica que as torres foram construídas em locais onde recebem quantidade mínima de poluição urbana.
“A poluição de Manaus atinge a torre ATTO muito esporadicamente, coisa de alguns dias por ano. Na maior parte do tempo, a torre recebe uma das massas de ar mais limpas que temos no planeta, que é transportada por 2 mil quilômetros desde o Atlântico Tropical, ao longo de uma região que não tem nenhuma grande área urbana. Isso é o que faz a torre ser muito especial do ponto de vista de monitoramento atmosférico de gases do efeito estufa, partículas de aerossóis, nuvens, radiação etc.”, disse à Agência FAPESP.
Para Artaxo, medições desse tipo na Amazônia são de extrema importância, tanto que só existem outras duas torres no mundo com características semelhantes à torre ATTO.
“Existe a torre Zotto, que fica na Sibéria, com 302 metros de altura, e uma torre alta que fica em Wisconsin, a WLEF, nos grandes lagos na América do Norte. Elas medem o balanço de carbono e propriedades atmosféricas. A torre ATTO é a única localizada em regiões tropicais, que são regiões estratégicas do ponto de vista de balanço de carbono e hidrologia global”, disse.
“O ATTO é um grande grupo integrado de pesquisadores e o mais importante é que estamos fazendo tudo no mesmo lugar. Há um intercâmbio grande entre os pesquisadores, não só de conhecimento, mas de dados, análises e também de metodologia de pesquisa”, disse Susan Trumbore, pesquisadora do Instituto Max Planck e coordenadora do lado alemão do projeto.
O objetivo é que cada projeto de pesquisa tenha um equilíbrio entre brasileiros e alemães. “Futuramente, pretendemos abrir a pesquisa para cientistas de outras nacionalidades”, disse Trumbore.
Na reserva são feitas pesquisas em fisiologia da vegetação, meteorologia, hidrologia, vegetação, gases do efeito estufa, entre muitas outras áreas.
“É essencial a colaboração entre os pesquisadores. Por exemplo, digamos que estudamos aerossóis e notamos que um gás específico está com concentração alterada. A primeira providência é contatar os colegas que estão medindo essa partícula. Depois, analisamos dados de satélites, de vento e de grande escala da vegetação. É importante estar conectado com diferentes áreas, pois a floresta é um sistema dinâmico complexo”, disse Stefan Wolff, pesquisador do Instituto Max Planck de Química.
Um exemplo de colaboração entre pesquisadores está no experimento supervisionado por Fernanda da Luz, que acabou de defender mestrado no Inpa. Ela integra a equipe de um estudo sobre a influência da diversidade vegetal e do solo na composição molecular da matéria orgânica dissolvida no solo. O experimento faz parte do projeto de doutorado de um pesquisador do Instituto Max Planck de Biogeoquímica.
De 15 em 15 dias, Luz coleta amostras de água para análise do carbono orgânico. As análises das amostras são realizadas no laboratório de hidrologia do Inpa.
Amazônia como um todo
Trumbore explica que para entender a complexidade da interação da floresta com a atmosfera é necessário também fazer pesquisas de solo e da vegetação. “Particularmente, a minha pesquisa não usa a torre. Ela envolve fazer buracos no solo em vez de subir na plataforma”, disse.
Para ela, o mais positivo do projeto como um todo é tentar entender processos complexos. “Ao mesmo tempo que medimos os fluxos atmosféricos, precisamos entender o porquê. Por isso estudamos solo, árvores, folhas, a relação simbiótica de liquens e muitos outros aspectos. Eu fico com a parte dos porquês. A reserva científica também serve de apoio para pesquisas de vegetação”, disse.
O metano, gás importante para o efeito estufa, é emitido pelo solo e em áreas inundadas. “No nível global a bacia amazônica é uma fonte global de metano. Queremos saber como isso vai se alterar com as mudanças climáticas e o aquecimento global”, disse Trumbore.
Artaxo destaca que a torre ATTO tem que funcionar a médio e longo prazo para fazer diagnósticos precisos do que está ocorrendo com o ecossistema amazônico.
“Ele está perdendo carbono para a atmosfera? Está absorvendo? A chuva está diminuindo ou aumentando? São questões fundamentais tanto para responder questões relacionadas ao Acordo de Paris, do qual o Brasil é signatário, quanto questões para que possamos fazer um diagnóstico preciso e o mais cedo possível do estado atual do funcionamento do ecossistema amazônico”, disse.