Debate: A Revolução Soviética e a formação do Partido Comunista do Brasil (PCB)

A Revolução Soviética e a formação do Partido Comunista do Brasil (PCB)
Debate Cedem
14/03/17 – 3ª feira – às 18h30

Em homenagem aos 95 anos de fundação do Partido Comunista do Brasil (PCB), oficializada durante um congresso realizado em março de 1922, o primeiro Debate CEDEM de 2017 reúne especialistas para abordar essa importante fase da história política nacional. O surgimento do PCB, à esquerda da política dominante, deveu-se muito a ação do jornalista Astrojildo Pereira. Bastante influenciado pela Revolução Soviética de 1917, Astrojildo rompe com o movimento anarquista. Cria, na sequência, a revista Movimento Comunista, primeira do gênero no país. Ele foi a Moscou defender a legitimação do PCB pela Internacional Comunista. Em 1924, o Partido passou a ser a “Seção Brasileira da Internacional Comunista”, o que equivalia a pertencer ao movimento mundial da revolução do proletariado.

Expositores:

Prof. Dr. João Quartim de Moraes – Doutor pela Fondation Nationale de Science Politique da Academia de Paris; professor titular aposentado da Universidade Estadual de Campinas. Desenvolveu pesquisas e publicou artigos e livros nas áreas de história da filosofia antiga, teoria política, materialismo, marxismo, instituições brasileiras, entre outros temas.

José Luiz Del Roio – Vice-presidente do Instituto Astrojildo Pereira (IAP) e ex-senador da República Italiana. É escritor e ativista político.

Mediação:
Prof. Dr. Antonio Thomaz Júnior – Professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Unesp, Câmpus de Presidente Prudente; Coordenador do Centro de Memória, Documentação e Hemeroteca Sindical “Florestan Fernandes” (CEMOSi); publicou artigos e livros nas áreas de trabalho, geografia, desenvolvimento territorial, entre outros temas.

Debate Cedem
A Revolução Soviética e a formação do Partido Comunista do Brasil (PCB)

Data e horário: 14/03/2017, 3ª feira às 18h30
Local: Praça da Sé, 108 – 1º andar (metrô Sé)
Informações: (11) 3116–1701
Inscrições gratuitas: http://www.cedem.unesp.br/#!/evento1
E-mail: eventos@cedem.unesp.br
www.cedem.unesp.br
https://www.facebook.com/Cedem_unesp_oficial-718842781598083

Esquerda, ma non troppo

lula

Agora que vemos o desgaste inevitável na imagem do Partido dos Trabalhadores (PT) como um legítimo representante de um pensamento de esquerda para o Brasil, há um processo concomitante de caça a partidos que ameaçam crescer no vácuo deixado pela derrocada da agremição liderada pelo ex-presidente Lula.

Como é de se esperar a ira é dirigida principalmente contra o Partido Socialismo e Liberdade (PSol), mas eventualmente sobra para o ressurgente Partido Comunista Brasileiro (PCB).  Pior destino ainda sofre o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (Pstu) que defende que não houve golpe de estado, mas golpe de ex-aliados do PT. Ao Pstu sobram as mais graves designações por sua posição de ultraesquerda.

As alegações que eu vejo aparecendo mais comumente é que ao criticar o PT e o partido satélite que lhe restou dos tempos de domínio absoluto, o pragmático Partido Comunista do Brasil (PC do B) é que equivalente a uma traição na luta contra o golpe de estado via parlamento que foi operado contra a presidente Dilma Rousseff.

Primeiro é importante dizer que a bancada do Psol com apenas 6 militantes foi mais atuante do que a do PT na luta pela manutenção do mandato legítimo de Dilma Rousseff. Sempre notei a desproporção da energia gasta pela bancada do PT em relação à do Psol que parecia ser sempre dez vezes maiores do que era. Segundo, que o Psol e o PCB não estão defendendo nada muito diferente do que defenderam ao longo dos últimos anos, quando criticavam as políticas de cunho neoliberal implantadas por Lula e Dilma.

Para mim, não há como cobrar total alinhamento e ausência de crítica aos candidatos do PT e do PC do B em nome da luta contra o golpe. É que, para começo de conversa, os golpistas eram até recentemente membros da suposta base aliada do governo Dilma. Segundo, é que ao longo dos anos, quem abandonou o campo das alianças de esquerda em nome de um governabilidade que se mostrou fajuta foram o PT e o PC do B.

Ainda que eu considere as posições do Psol como sendo marcadas por uma crença excessiva na capacidade de resolver os problemas nacionais via o parlamento, não há como negar que o partido se manteve coerente a partir de uma posição de defesa dos interesses da maioria da população pobre. Além disso, ao se aliar ao PCB na cidade do Rio de Janeiro, o Psol expressou um avanço no sentido da formação de alianças eleitorais que vão além dos interesses momentâneos e fisiológicos que partidos como o PT e o PC do B continuam adotando. Tanto isso é verdade que o PT está aliado aos chamados partidos golpistas em mais de 1.000 municípios nas atuais eleições.

Finalmente, como eleições são apenas uma espécie de momento “the flash” na luta de classes, a minha expectativa é que estejamos vivenciando um processo de reagrupamento da esquerda no Brasil.  Mas não aquela esquerda “ma non troppo” que só esquerda no momento de pedir votos. É que dessa esquerda, não há mais muito o que esperar.

 

No Rio, é Marcelo Freixo e Luciana Boiteux!

freixo-luciana

Há horas que eu lamento ter transferido meu domicílio eleitoral que por muitos anos me colocava para votar na Ilha do Fundão, na UFRJ. Era um daqueles exercícios de paciência, pois viajava quase cinco horas para passar poucos minutos numa seção praticamente vazia onde rapidamente votava.

Pois bem, este ano será um em que particularmente lamentarei a opção de transferir meu domicílio eleitoral para Campos dos Goytacazes. É que além de não haver aqui uma candidatura verdadeiramente de oposição já que a esquerda se desmanchou desde o último pleito, não poderei votar em Marcelo Freixo  e na professora Luciana Boiteaux para prefeito e vice-prefeita da cidade do Rio de Janeiro.

Ainda que eu tenha minhas críticas ao PSOL e ao próprio Marcelo Freixo em algumas de suas ações, inegavelmente essa candidatura é o que há de mais avançado e empolgante na maioria das capitais brasileiras. Não é à toa que setores amplos da juventude e dos trabalhadores está dando gás a uma campanha que morreria de inanição se fosse depender dos minguados 11 segundos concedidos por uma regra eleitoral estapafúrdia.

Como conheço o Marcelo desde antes dele sequer pensar em se candidatar, vejo que a vida no parlamento não mudou seus principais compromissos políticos, e que ele se manteve íntegro frente às inevitáveis tentações de aderir aos mecanismos não republicanos que abundam na política brasileira. Além disso, se não fosse pela coragem dele e da pequena bancada do PSOL na Alerj, nós estaríamos literalmente entregues à sanha privatista e anti-povo do (des) governo comandado pelo PMDB.

Também considero que a aliança com o PCB aponta uma forma de resgate das alianças programáticas que deveriam marcar a ação da esquerda em qualquer eleição. Lamentavelmente esse tipo de aliança foi prontamente descartada pelo neoPT e pelo PC do B em nome de “alianças viáveis” com partidos de direita.  Assim, considero que essa aliança PSOL-PCB é fundamental para que haja o início de um processo de reorganização da esquerda no Rio de Janeiro, processo esse que será fundamental para os duros combates que se avizinham no horizonte.

Esses elementos é que me fazem chamar o voto na chapa Marcelo Freixo e Luciana Boiteux.  Afinal, a saída que precisamos é pela esquerda.

Não, nem todos os partidos são corruptos. As doações das empreiteiras mostram isso

Uma reportagem publicada pelo jornal paranaense Gazeta do Povo no já distante dia 27 de Novembro (Aqui! ) trouxe uma informação impressionante mesmo para mim: nas eleições de 2014, as empreiteiras envolvidas na Lava Jato (ou seja no escândalo de corrupção na Petrobras) “doaram” nada menos do que R$ 277 milhões para 28 dos 32 partidos que concorrem no pleito  (ver gráfico abaixo).

empreiteiras

E o leitor deste blog poderia se perguntar sobre quem seriam os 4 partidos que ficaram de fora desta lista de recebedores das generosidades agora sob fogo cerrado das empreiteiras. Pois bem, aí é que a porca torce o rabo para os manifestantes “coxinhas”: Partido Comunista Brasileiro (PCB), Partido da Causa Operário (PCO), Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU).  

Em suma, ficaram de fora os partidos da esquerda nos quais eu venho votando de forma consistente desde 1998 quando retornei ao Brasil  e vi que o Partido dos Trabalhadores (PT) havia feito uma opção programática que eu considerava equivocada e antipopular em nome de uma questionável viabilidade eleitoral.

Agora que os principais partidos políticos estão literalmente chafurdando na lama, fico imaginando o que me dirão os profetas do pragmatismo neopetista que me diziam que os partidos de esquerda eram inviáveis eleitoralmente porque não aceitavam fazer o jogo como estava dado. Pois bem, eu não tenho outra saída a não ser concluir que é melhor se inviabilizar eleitoralmente do que entregar bandeiras históricas.

Se algo de bom existe nessa crise vergonhosa que assola a política partidária brasileira é oferecer aos partidos de esquerda a possibilidade, com todas as suas fragilidades e limitações, de buscarem pontes de contato com a maioria da população brasileira que nas últimas décadas votou no PT como forma de buscar a construção de uma sociedade mais justa no Brasil.   

Entretanto, para que isso ocorra os partidos de esquerda vão ter que superar a comodidade de manter isolados na periferia da luta de classes como fizeram ao longo dos anos de hegemonia eleitoral do PT dentro da classe trabalhadora.  Esse é um desafio formidável, e resta saber se a esquerda vai aceitar fazer as correções internas para, enfim, dialogar com a maioria da classe trabalhadora brasileira.

 

É o lobo! É o lobo!

A Sheep in Wolf's Clothing

A Sheep in Wolf’s Clothing

Por Mauro Iasi*

Uma vez mais se apresenta o alerta sobre a possibilidade de interrupção do mandato presidencial e a possibilidade de algum tipo de golpe. Desta vez pelas declarações golpistas do PSDB, preocupado que o prazo para que a interrupção leve a uma nova eleição está para se esgotar. Como das outras vezes, intensificam-se os ataques ao governo, convocam-se novas manifestações e os meios de comunicações atacam com novas e requentadas denúncias.

Continuamos acreditando que a opção principal da direita, no sentido mais preciso dos interesses de classe ligados ao grande capital monopolista, caminha em outro sentido, qual seja, de produzir uma transição sob um governo fraco e sob cerco, enquanto se gesta uma alternativa para substituí-lo nas eleições de 2018. Alertávamos, no entanto, em outra oportunidade, que um dos mecanismos desta operação, a constante ameaça de impedimento antecipado da presidente, poderia ganhar uma dinâmica própria e se viabilizar como alternativa e, desta maneira, não estaria por princípio descartada como possibilidade pelo bloco dominante.

O cenário atual comprova a persistência deste quadro. Intensificam-se os ataques, enquanto a base de sustentação do governo no Congresso é corroída e os meios de comunicação hegemônicos, por meio de um eficiente manejo do anti-petismo, trabalham para configurar um clima de descontrole total nas hostes governistas. Ao mesmo tempo o governo reage intensificando suas concessões ao bloco dominante: implanta o ajuste e as políticas de austeridade, intensifica os ataques aos trabalhadores (como nas medidas provisórias 664 e 665, no veto às superficiais mudanças na previdência, etc.), opera cortes na educação e na saúde, e impõe arrocho sobre o funcionalismo público federal. Tudo isso sem deixar de abrir seus cofres em generosas contribuições ao agronegócio e financiar a manutenção de empregos com redução de salários e benefícios para as grandes empresas.

Há uma relação entre estes dois vetores da conjuntura que nem sempre fica tão visível. O desgaste inevitável que as concessões ao grande capital monopolista produzem gera uma igualmente inevitável depressão nos setores sociais que sustentaram a atual presidente na expectativa de uma mudança de orientação. A esquerda petista, isolada e minoritária no interior do PT, está rouca de tanta tentar alertar que o caminho escolhido contribui com a estratégia da direita de ir sangrando o governo e dilapidando sua base social para derrotá-lo eleitoralmente na próxima eleição nacional. Propõem um “cavalo de pau”, rompendo com a aliança com o PMDB e retomando o caminho de um projeto democrático popular.

Neste ponto a situação ganha uma complexidade que está longe de ser simples de ser compreendida. A analogia do “cavalo de pau” serve como imagem da urgente necessidade de uma mudança radical de rumos, mas é absolutamente inapropriada para o momento. O ato de puxar o freio de mão e produzir uma mudança abrupta de direção, inclusive valendo-se da derrapagem lateral do veículo, costuma funcionar, não sem riscos de capotagens, quando se trata de veículos leves. Mas no caso de um grande navio, há restrições de movimento por conta de suas dimensões e do tamanho de seu calado. Quando se aproxima do porto, por exemplo, uma embarcação como essa não pode nem sequer sair fora do rumo do canal, e mesmo com suas máquinas desligadas chega a percorrer milhas antes de parar. Por essas condições estruturais, ele está impossibilitado de dar o que se chamaria de um “cavalo de pau”. O governo petista está mais para um grande navio do que para um carro esporte.

No entanto, cabe nos perguntar: por que motivo o governo opera num aparente paradoxo que contribui para a estratégia daqueles que querem derrotá-lo? Podemos falar o que quisermos deste governo (muito temos falado de como ele operou uma estratégica que desarmou a classe trabalhadora conduzindo-a ao pântano da conciliação de classes), mas não que ele é ingênuo ou que lhe falta habilidade política. Aqui a analogia com o navio é ainda mais útil, pois não adianta olharmos para a superfície do mar ou para as hipnóticas luzes de bordo, pois a resposta está no canal em que navega.

O caminho escolhido pelo PT como via de desenvolvimento de sua estratégia acabou por considerar virtuosa uma configuração que segundo seu juízo constituía uma imprudência da burguesia e um cenário favorável aos desenvolvimento de “reformas” gradualistas que beneficiariam aos trabalhadores. Este equívoco se fundamenta na incompreensão de um dos elementos do Estado burguês na sua configuração contemporânea.

A FORMA DEMOCRÁTICA DA REPÚBLICA BURGUESA

Talvez possa parecer, a um olhar superficial, que a forma democrática da república burguesa e a prevalência das eleições como um meio de composição de seus governos, fosse um equívoco das classes dominantes (ou ainda, em outro registro, uma concessão que só se explica pela pressão dos trabalhadores). Afinal, sendo as eleições um jogo numérico e a classe trabalhadora inegavelmente mais numerosa que as classes dominantes, a tendência seria a formação gradual maiorias que pouco a pouco poderiam ir construindo a vontade geral como expressão dos interesses dos trabalhadores, reduzindo o poder político da burguesia à proporcionalidade de sua expressão quantitativa.

O que os atuais reformistas (a bem da verdade estes senhores acabaram ficando muito aquém do reformismo, a ponto de ter de ficar a cargo da esquerda petista a defesa da retomada do rumo das reformas), de fato desconhecem é que a burguesia já equacionou há muito tempo este problema. Podemos comprovar isso resgatando o pensamento de James Madison (1751-1836), que foi um dos destacados redatores de O Federalista (uma serie de ensaios, publicada 1788, defendendo a federação contra a forma confederada), no contexto da luta pela independência dos EUA e consolidação de sua forma política republicana.

O problema dos revolucionários norte-americanos, resumidamente, era determinar qual seria a forma de governo da jovem nação que poderia responder simultaneamente a duas exigências cruciais: manter a necessária unidade política, economia e militar das ex-colônias, e garantir a liberdade das partes aderissem à nação, evitando o risco da tirania.

Diante disso se enfrentam com o problema das facções, entendidas, nos termos de Madison, como grupos de cidadãos, maiorias ou minorias, que unidos por sentimentos e interesses comuns se opõem a outras facções, cidadãos ou mesmo interesses coletivos de uma comunidade. Parecia a Madison que as duas possibilidades apresentadas – atacar as causas das facções ou tentar controlar seus efeitos – se apresentavam impraticáveis. Isso porque as causas estariam ligadas à natureza humana, sendo portanto, incontornáveis. Quanto ao controle dos efeitos, a impraticabilidade derivaria do fato de que teria que ser operada pelos próprios seres humanos que colocariam suas vontades e paixões como critério de tal controle. A solução encontrada seria, segundo Madison, colocar tanto a natureza como seus efeitos a serviço de uma forma que possibilitasse a República. A chave para tal feito seria expressa na formula: “ambição será incentivada para enfrentar a ambição” (O Federalista, n.51).

Antes de ver como isso se materializa em uma forma política, é importante fazer uma ressalva. Apesar de localizar na natureza humana o comportamento de facção, o revolucionário norte-americano sabe que a base material da disputa dos diversos interesses que compõem uma sociedade não é a mera predisposição dos seres humanos como criaturas “ambiciosas, vingativas e rapaces”. Por isso poderá concluir, sem abandonar aquela premissa, que “a fonte mais comum e duradoura das facções tem sido a distribuição variada e desigual da propriedade”, de tal forma que “aqueles que possuem e os não-proprietários invariavelmente corporificam distintos interesses na sociedade”.

Todos são juízes de suas próprias causas. Uma vez que prevaleça o poder de uma facão ou conjunto de facções associadas, seria natural supor que esta maioria tente impor seus interesses sobre as demais, impondo os interesses dos manufatureiros sobre os donos de terra, ou o inverso, “não havendo em nenhum dos casos consideração para com a justiça ou o interesse público”. A confiança de que “estadistas esclarecidos” poderiam funcionar em prol do equilíbrio e da prevalência do bem público é descartada pelo autor com requintes de pragmatismo: “nem sempre os estadistas esclarecidos estarão no leme”.

Notem que, como fica evidente, o objetivo destes senhores é evitar a tirania da maioria. A solução de uma “democracia pura”, como a denominavam, é recusada. Ela é definida como necessariamente própria de pequenas sociedades formadas por indivíduos virtuosos (definidos como aqueles que colocam o bem comum sobre o interesse particular) e cuja base é a frugalidade, nos termos de Montesquieu. Em outras palavras, essa forma política só funcionaria num contexto de pouca riqueza e uma vida simples e estaria descartada para grandes nações poderosas econômica e militarmente. Neste ponto, a afirmação de que as facções se formam pela distribuição desigual da propriedade ganha uma dimensão decisiva.

A forma da “democracia pura” em uma sociedade moderna seria palco de “distúrbios e controvérsias” e levaria necessariamente a um quadro de insegurança e incapacidade de garantir o direito de propriedade, tendo conseguentemente, segundo o juízo de Madison, uma vida curta e um fim violento. A solução, portanto, é a uma república em que se aplica o “esquema da representação”.

Entre as várias vantagens apresentadas por Madison para defender a república contra a democracia pura, estaria em primeiro lugar o fato de que por meio da representação os “pontos de vista da população são filtrados” pelo crivo de alguns cidadãos que irão representá-los. Como o povo escolheria os “melhores” nesse processo de seleção, os seria justo dizer que os eleitos saberão discernir os verdadeiros interesses do país, graças ao seu “patriotismo e amor pela justiça”, dificilmente sacrificando estes interesses por “considerações temporárias ou parciais”, nas palavras de James Madison que chegou a ser o quarto presidente dos EUA.

Evidentemente soa estranho esse grau de fé nas virtudes morais expressa na pena do fundador do Partido Republicano, um sujeito, como vimos, dotado justamente de uma posição marcada pelo pragmatismo. Sem dúvida, Madison tem plena consciência de que indivíduos de “temperamento faccioso e propósitos maldosos” podem por vários meios, inclusive a intriga e a corrupção, conseguir os votos necessários e “depois trair os interesses do povo”. No entanto, para ele, a solução estaria na própria dimensão da república moderna, no sentido quantitativo propriamente dito.

O argumento de Madison é de que a fragmentação de uma grande população em diversas facções e partidos, pulveriza a representação. Assim, com cada um buscando apenas seu próprio interesse, fica difícil formar maiorias, obriga-se que os governantes (ainda que sendo expressão de uma maioria eleitoral) negociem com um conjunto pulverizado de interesses para lograr estabilidade em seu governo. Diz Madison ao falar da república que defende:

“alargado este campo (o do número de cidadão de um Estado) teremos uma variedade maior de partidos e interesses, tornando menos provável a constituição de uma maioria no conjunto que, alegando uma motivação comum, usurpe os direitos de outros cidadãos”.

Desta maneira, conclui Madison, teríamos uma estrutura adequada, um “remédio republicano para as doenças mais incidentes sobre um governo republicano”.

Reparem: a vacina contra a possível “doença” de uma maioria chegar ao poder em algum ponto do Estado burguês está dada desde 1788. Não é demais relembrar que tal estrutura adequada se completa com um redesenho da solução clássica da divisão de poderes, muito além da simples divisão funcional na qual quem governa não redige as leis, e quem as redige não governa, da mesma forma que aquele que julga não redige a lei, nem governa.

O MENINO E O LOBO

Agora, depois da experiência norte-americana, aplica-se uma dinâmica de pesos e contrapesos. Isto é, a cada poder de uma esfera se apresenta um poder para que a outra o controle, como no dispositivo de veto do executivo a uma lei elaborada pelo legislativo e a possibilidade de derrubada do veto pelo segundo, assim como, se houver dúvidas os tribunais são acionados e se tudo der errado há forças armadas para “garantir” a constituição em defesa da propriedade (notem como estamos hoje muito longe da necessidade deste último expediente).

No contexto atual estas chamadas estruturas adequadas não estão menos, mas muito mais eficientes e sofisticadas. Em formações sociais como a nossa, na qual a contradição entre proprietários e não-proprietários é explosiva, o risco de uma tirania da maioria é enfrentado com rigor e profissionalismo.

Além de um eventual executivo que expresse uma certa maioria eleitoral ligeiramente comprometida com interesses populares ser obrigado a compor sua governabilidade com os partidos que compõem o poder legislativo, o filtro eleitoral garante que ali se represente o conjunto das facções das classes proprietárias, obstaculizando ao máximo a possibilidade da maioria real na sociedade se apresentar como maioria na chamada “representação”.

Uma das formas conhecidas, e não por acaso veementemente garantida na atual farsa da reforma política, é o financiamento privado de campanha em sua forma explícita. O poder econômico na sociedade capitalista sempre determina a disputa eleitoral, mesmo numa situação na qual se proíba o financiamento direto de empresários, seja por formas ilícitas e caminhos alternativos (que não deixam de agir mesmo na legalidade do financiamento privado) seja por seu poder indireto no controle de várias esferas da vida, da comunicação de massa, da cultura, do assedio que se funda no poder brutal que patrões têm sobre os trabalhadores nos locais de trabalho, etc.

Uma vez entrando neste canal e aceitando suas regras, que por um tempo favoreceram os governos petistas e sua continuidade, torna-se muito difícil sair, pelo menos sem rupturas consideráveis. Ocorre que é exatamente a dimensão da ruptura que foi abandonada no desenho da estratégia. Querer introduzi-la agora é uma artificialidade infantil, ingênua e, por uma motivo mais banal, impossível.

Nos termos atuais, para a burguesia inviabilizar o governo petista, basta o deslocamento do PMDB para um bloco de oposição.

Não tendo outra alternativa no horizonte imediato que não manter o rumo, a comandante tenta se manter firme no timão exercendo a arte de fazer de conta que não é com ela, enquanto caminha decididamente para a catástrofe. Para se manter cede aos interesses do capital e mergulha ainda mais na tentativa insana de manter a base aliada que se desfaz sob seus pés. Esta tática permite sobreviver no campo imediato, mas tudo indica que fortalece as condições da futura derrota eleitoral. Este é o paradoxo.

Não podendo mobilizar suas bases sociais que correm o risco de serem capturadas pela direita, pela ação em defesa de direitos, conquistas ou condições de vida (uma vez que o presente ajuste e a linha de governo praticada nos últimos doze anos caminharam no sentido contrário), resta a esperança de que, mais uma vez, a chantagem da necessidade do apoio a este governo contra a “direita” ou o “conservadorismo”.

Sabemos que a direita se move em várias frentes, é evidente a retomada de um conservadorismo sem máscaras e preocupante. Compreendemos que papel estes fatores ocupam na estratégia do desgaste visando uma futura derrota eleitoral do petismo, ou na possibilidade de antecipar este desfecho por uma interrupção do mandato da presidente. Mas a direita e a forma de manifestação do conservadorismo tem um papel, também, na estratégia governista. É o de desviar a atenção da brutalidade do ajuste e do real e evidente caráter do compromisso do governo com as condições necessárias à retomada da acumulação de capitais, criando uma cortina de fumaça que desvia a atenção para uma abstrata contraposição entre conservadorismo e progressismo.

Além de desviar a atenção do ataque operado contra os trabalhadores, a educação, a saúde púbica e tantas outras áreas, procurando desarmar a resistência que se ensaia nas greves e nas lutas sociais, há também a clara intenção de desvincular-se do governo que naufraga para, justificado pelo combate ao conservadorismo, manter a mesma estratégia e a continuidade do ciclo petista.

Não há solução para esta estratégia nos rumos escolhidos, ao mesmo tempo não há como buscar outros caminhos mantendo-se no essencial esta estratégia que ao nosso ver se esgotou.

No melhor cenário imaginado pela comandante agarrada ao timão é que o reajuste dê certo, a economia capitalista volte a crescer, o governo logre manter a aliança com o PMDB e tenha condições de disputar as eleições para renovar o mito. Vejam que o melhor cenário renova o caminho que os colocou no impasse em que se encontram.

É bom que lembremo-nos que, pelo menos na versão original da história, quando o lobo veio mesmo… ninguém acreditou no menino.

***

Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

FONTE: http://blogdaboitempo.com.br/2015/07/15/e-o-lobo-e-o-lobo/

Mauro Iasi, ex-candidato presidencial do PCB, analisa resposta do governo Dilma à revolta dos coxinhas

Um discurso lamentável e um espetáculo de servilismo

Por Mauro Iasi

IASI

Um dia depois das manifestações da direita a presidente Dilma se apressa em aparecer em um discurso e numa coletiva de imprensa para dizer que as manifestações são democráticas e que está aberta ao diálogo.
Vamos lembrar que em 2013 fomos tratados como vândalos e terroristas, o ministro da justiça, José Eduardo Cardozo, defendendo legislação que criminalizou e levou para a cadeia os manifestantes.
Para as demandas dos setores populares, nenhuma resposta, ou pior, a reafirmação que os ajustes são necessários e serão impostos aos trabalhadores, assim como a esperada reforma política será feita pelo Congresso.
Num ato falho cheio de significado Dilma afirmou que tem concordâncias e discordâncias com o que foi cobrado nas manifestações. Concorda com o combate à corrupção, discorda da crítica ao ajuste. Isto é, concorda com o ato da direita e deu uma banana para o ato governista de sexta feira.
Uma pessoa disfarçando o nervosismo e tentando parecer o que não é. Apenas uma nota positiva foi a defesa da luta contra a ditadura, mas se perde numa postura de rendição total à defensiva diante da ação das classes dominantes.
Só posso chegar a uma conclusão: protestar por transporte público, por moradia, contra a violência policial e contra os limites da chamada democracia representava é crime; defender a ditadura militar, a morte dos comunistas, o obscurantismo e a intolerância é uma ato de democracia. Para os primeiros, repressão brutal e cadeia, para os segundos o governo está aberto ao diálogo.
Lamentável. Um espetáculo de servilismo.

FONTE: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=619057538225049&set=a.111826865614788.14401.100003624263984&type=1&theater

E se a “oposição” virasse o jogo em Campos, o que mudaria?

Em resposta à minha própria pergunta, eu diria que muito pouco ou quase nada, o que pode não ser o mesmo mas é quase igual. É que ao olhar quem compõe a oposição e quem está oposição apoiou para o governo do Rio de Janeiro, o que se vê é até um receituário ainda pior para os pobres. Aliás, isto é tão evidente para a maioria da população que ninguém dessa oposição se preocupa em apresentar uma perspectiva distinta de governar. E não é preciso lembrar que quando tiveram o controle do governo municipal, os resultados foram catastróficos.

O problema em minha modesta opinião é que em Campos a maioria gostaria de ser como o deputado Anthony Garotinho, mas ninguém na oposição tem a mesma disposição para o embate ou para o incansável trabalho de sustentar um grupo político coeso.  O que unifica a maioria é apenas a vontade de controlar o butim representado pelo gordo orçamento que os royalties do petróleo fornecem ao município. Agora, o que há de concreto por detrás dos discursos de moralidade e compromisso com a transparência? Nada!

Se este comportamento me é indiferente naqueles que se agrupam dentro dos partidos da direita, o mesmo não posso dizer daqueles partidos que se reivindicam como sendo de esquerda como o PSOL, o PSTU e  o PCB.  Se há algo que as últimas eleições mostraram foi que o isolamento de candidaturas serviu, quando muito, para uma clarificação para uma fração mais organizada da população sobre as nuances programáticas destes partidos. Além disso, no caso de Campos, me preocupa a visão de que o problema se resolve personificando todo o mal em Anthony Garotinho, enquanto se flerta com setores extremamente atrasados da classe política local.

A esquerda ideológica só sairá do limbo se conseguir ultrapassar a fixação reinante na figura de Anthony Garotinho e apontar para a construção de um modelo de cidade que cesse a hiper concentração de renda nas mãos dos mesmos de sempre. A perpetuação desta situação sob a égide do grupo de Anthony Garotinho é muito pouco explorado pelos partidos de esquerda. Questionar este modelo de cidade partida é uma obrigação dos partidos da esquerda ideológica. Mas para fazer isto há que se superar modelos baseados no culto à personalidade no processo de construção partidária. Afinal, se é para ser assim, ninguém faz isto melhor do que Garotinho.

 

Nem continuísmo, nem retrocesso… Mudar pra valer!

Declaração de voto para Senador: Eduardo Serra do PCB, sem medo de errar

A presença do professor Eduardo Serra na tarde desta 5a. feira na sede social da ADUENF me ofereceu a chance de ouvi-lo e de confirmar a correção da minha decisão de votar nele para senador nas próximas eleições. Essa decisão se deve não apenas ao meu entendimento de que as propostas que ele traz para transformação do Senado em algo mais útil às transformações sociais de que o Rio de Janeiro e o Brasil precisam, mas também por identificar no Eduardo Serra uma pessoa com um compromisso efetivo de repensar inclusive o papel da esquerda no processo de construção de uma sociedade mais justa.

Assim, para o senado, vou de Eduardo Serra do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

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