Petrobras e a captura silenciosa da ciência brasileira

A crise do financiamento público fortalece a influência corporativa sobre universidades, pesquisadores e organizações socioambientais, enfraquecendo a autonomia crítica e o debate democrático

Em uma investigação publicada pela jornalista Mirna Wabi-Sabi na Plataforma9, intitulada “Como patrocínios ambientais da Petrobras compram o silêncio”, é revelado um aspecto pouco debatido da relação entre grandes corporações e a produção do conhecimento científico: a existência de cláusulas contratuais que podem limitar a autonomia de instituições de pesquisa financiadas por empresas cujas atividades são justamente objeto desses estudos. A reportagem descreve contratos firmados pela Petrobras com organizações ambientais que incluem dispositivos de confidencialidade, revisão prévia de materiais de divulgação e a possibilidade de encerramento do apoio caso a imagem da empresa seja considerada prejudicada.

O caso apresentado vai muito além de uma discussão jurídica sobre contratos. Ele coloca em evidência um problema estrutural: quem financia a pesquisa também pode adquirir capacidade de influenciar a forma como seus resultados circulam no espaço público. Ainda que isso não implique necessariamente manipulação direta dos dados científicos, a simples existência de mecanismos capazes de restringir a divulgação de informações críticas ou de induzir à autocensura já representa uma ameaça à independência da ciência. Afinal, o conhecimento científico só cumpre plenamente sua função social quando pode ser produzido, debatido e divulgado sem condicionantes impostos pelos interesses econômicos dos financiadores.

Entretanto, seria um erro tratar essa situação apenas como consequência da atuação de uma empresa. O problema é também resultado de décadas de desfinanciamento da ciência brasileira. A contínua redução dos investimentos públicos em universidades, institutos de pesquisa e agências de fomento criou um ambiente de extrema vulnerabilidade financeira. Laboratórios precisam sobreviver, pesquisadores precisam manter equipes, estudantes dependem de bolsas e equipamentos necessitam de manutenção. Quando o Estado abandona sua responsabilidade histórica de financiar a produção científica,  é aberto o espaço para que grandes corporações ocupem esse vazio.

É precisamente nesse contexto que estratégias de captura corporativa se tornam eficazes. Não é necessário comprar consciências de forma explícita quando se controla o acesso aos recursos indispensáveis para que a pesquisa continue existindo. A dependência financeira tende a produzir formas sutis de acomodação: temas deixam de ser investigados, críticas tornam-se mais cautelosas e resultados potencialmente inconvenientes passam a ser comunicados com menor intensidade. Trata-se de um mecanismo conhecido na literatura internacional como soft capture, no qual a influência é exercida menos pela censura aberta e mais pela construção de relações permanentes de dependência econômica.

Essa discussão assume especial relevância quando se trata da Petrobras. Durante décadas, a empresa construiu para si a imagem de patrimônio nacional e de protagonista do desenvolvimento brasileiro. Essa identidade, frequentemente mobilizada para neutralizar críticas, acabou por conferir uma espécie de blindagem política às suas práticas. No entanto, quando utiliza seu poder econômico para estabelecer relações de dependência com universidades, grupos de pesquisa e organizações não governamentais, a Petrobras reproduz mecanismos típicos da captura corporativa. Não se trata apenas de financiar projetos ambientais, mas de criar um ambiente em que críticas contundentes aos impactos de suas atividades tendem a se tornar mais raras, mais cautelosas ou simplesmente desaparecem da esfera pública.

Tal dinâmica é particularmente preocupante porque a Petrobras não atua apenas como financiadora de pesquisas. Em diferentes regiões do país, seus empreendimentos ligados à exploração, ao transporte e ao processamento de petróleo e gás têm contribuído para processos de reconfiguração territorial que frequentemente restringem o acesso de comunidades tradicionais aos espaços de que dependem para sua reprodução social e cultural. Pescadores artesanais, caiçaras, quilombolas e povos indígenas convivem, não raramente, com a ampliação de áreas de exclusão, dificuldades de acesso a territórios tradicionalmente utilizados e processos decisórios marcados por profundas assimetrias de poder.

Um dos exemplos mais emblemáticos dessa realidade é o da Baía de Guanabara. Ali, o pescador artesanal Alexandre Anderson, fundador e principal liderança da AHOMAR (Associação Homens e Mulheres do Mar), tornou-se símbolo da resistência aos impactos da expansão da indústria petrolífera sobre os territórios pesqueiros. Em razão dessa atuação, foi alvo de sucessivos atentados e ameaças de morte, passou anos sob escolta policial e precisou ser incluído no Programa Federal de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos. Independentemente da autoria material desses ataques, sua trajetória revela o elevado grau de conflitividade associado aos grandes empreendimentos petrolíferos e os riscos enfrentados por quem desafia interesses econômicos poderosos. Não é por acaso que a luta de Alexandre Anderson extrapolou a defesa da pesca artesanal para tornar-se um símbolo nacional da resistência aos processos de desterritorialização promovidos pela expansão da indústria do petróleo.

É justamente nesse ponto que o financiamento de pesquisas e projetos socioambientais adquire uma dimensão política ainda mais ampla. Embora a reportagem da Plataforma9 não afirme que todas as instituições financiadas tenham renunciado à sua autonomia crítica, ela evidencia a existência de mecanismos capazes de produzir um ambiente favorável ao amansamento institucional. Em um cenário de escassez crônica de recursos públicos para a ciência, muitas universidades, grupos de pesquisa e organizações da sociedade civil  se tornam progressivamente dependentes do financiamento corporativo para garantir sua própria sobrevivência. Essa dependência tende a produzir autocontenção, evitar conflitos públicos e enfraquecer a disposição de questionar os impactos socioambientais dos próprios financiadores.

A consequência é a construção de um ambiente político particularmente favorável às grandes corporações. Enquanto lideranças comunitárias e defensores de direitos territoriais enfrentam ameaças, processos judiciais, criminalização e, em casos extremos,  a eliminação física, parte das instituições responsáveis pela produção do conhecimento científico e pela formulação de críticas públicas passa a depender financeiramente daqueles cujas atividades deveriam investigar com independência. Está é uma combinação extremamente funcional ao avanço do extrativismo: o espaço da contestação social é reduzido, ao mesmo tempo em que se enfraquece a capacidade crítica da ciência e das organizações da sociedade civil.

A investigação da Plataforma9, portanto, extrapola o caso específico dos contratos analisados. Ela revela como o desfinanciamento sistemático da ciência pública brasileira fortalece a capacidade de grandes empresas de moldar o ambiente institucional em que o conhecimento é produzido. Quanto menor for o investimento estatal, maior será a dependência de recursos corporativos e maior o risco de que universidades, laboratórios e organizações da sociedade civil passem a calibrar suas agendas de pesquisa e sua atuação pública em função dos interesses de seus financiadores.

A verdadeira resposta para esse dilema não consiste em demonizar toda parceria entre universidades e empresas. Cooperações podem produzir resultados socialmente relevantes, desde que estejam submetidas a regras rigorosas de transparência, autonomia científica e liberdade irrestrita para publicar resultados, favoráveis ou desfavoráveis ao financiador. O que não pode ser naturalizado é um modelo em que a escassez deliberadamente produzida de recursos públicos transforma pesquisadores em dependentes da boa vontade das corporações. Enquanto o Estado continuar renunciando ao seu papel de principal financiador da ciência, a autonomia da pesquisa permanecerá vulnerável à influência daqueles cujas atividades ela deveria investigar criticamente.

No caso da Petrobras, essa contradição assume contornos particularmente preocupantes. Uma empresa que reivindica para si a condição de símbolo do desenvolvimento nacional utiliza seu poder econômico para ampliar sua legitimidade social ao mesmo tempo em que atua em territórios marcados por conflitos ambientais, restrições aos modos de vida de comunidades tradicionais e mecanismos de influência capazes de reduzir o espaço do dissenso.  É preciso ressaltar que a investigação da Plataforma9 mostra apenas uma das faces desse problema. A questão mais profunda é saber até que ponto uma ciência crescentemente dependente do financiamento corporativo continuará sendo capaz de cumprir sua função essencial: produzir conhecimento crítico, independente e comprometido com o interesse público, e não com o esverdeamento da imagem de empresas cujas atividades são antagônicas com a preservação do ambiente e das comunidade tradicionais.

Petrobras azeita sua máquina de propaganda para vender o óleo da Foz do Amazonas

Por TJ Jordan,  Maria Clara Parente e Naira Hofmeister para “The Ecologist”

“O aparelho de ar condicionado, as caixas de som, os computadores, os celulares, as cadeiras”, disse Nãnashaira Medeiros Siqueira, apontando para o ambiente. “O petróleo está presente em muitas áreas do nosso dia a dia.” 

Ela estava ao lado de uma tela de projeção em uma cabana de madeira na Ilha de Marajó, no nordeste do Brasil, e apertou o botão do controle remoto (veja a imagem). O slide dizia: “Produtos feitos com Petrol” (“Coisas feitas com petróleo”).

Siqueira, representante da Petrobras, a empresa petrolífera estatal brasileira, fez uma série de apresentações para comunidades costeiras na bacia da Foz do Amazonas em novembro de 2025.

Em alto-mar

A empresa tinha acabado de iniciar a perfuração de um poço exploratório em águas profundas nessas localidades, aumentando os temores de um vazamento de petróleo que poderia prejudicar os manguezais e recifes de coral dos quais a população local depende.

Desde que assumiu o controle total dos blocos de perfuração na Foz do Amazonas em 2020, a Petrobras intensificou suas atividades de relações públicas: desde a realização de reuniões e a contratação de influenciadores da Geração Z, estrelas de cinema e ícones pop, até a aplicação de sua logomarca verde, branca e amarela em projetos de conservação de manguezais e baleias jubarte, como mostra  uma investigação da DeSmog em parceria com a revista brasileira Piauí,  publicada na quarta-feira, 17 de junho de 2026.

De acordo com informações públicas, a Petrobras quintuplicou seus investimentos em publicidade e patrocínio entre 2020 e 2025. Vídeos criados por influenciadores em nome da empresa acumularam mais de 1,5 bilhão de visualizações em 2024 e 2025 — o equivalente a oito visualizações por pessoa no Brasil, um país com 213 milhões de habitantes.

O IBAMA, órgão regulador ambiental do Brasil, rejeitou repetidamente pedidos de perfuração, alegando riscos para os ecossistemas marinhos.

Apesar disso, a Petrobras iniciou a perfuração de um poço exploratório em águas profundas em Foz do Amazonas em outubro, após vencer uma batalha judicial de cinco anos pela concessão da licença. Isso pode abrir caminho para que o restante da indústria comece a desenvolver petróleo em alto-mar na região.

Licença social

Ativistas, acadêmicos e promotores estaduais acusaram a Petrobras de enganar o público na forma como apresenta o projeto, minimizando os riscos climáticos e ambientais e ocultando a verdadeira dimensão de seus planos das comunidades locais.

A Petrobras triplicou o número de influenciadores de mídia social contratados entre 2022 e 2024, chegando a 72, trabalhando com estrelas das redes sociais que vão desde ativistas LGBTQ+ a biólogos, de acordo com dados da empresa obtidos por meio de pedidos de acesso à informação e compartilhados com o DeSmog pela unidade de investigação Unearthed do Greenpeace. 

A Petrobras também quadruplicou o número de projetos culturais e ambientais que patrocina desde 2020, conforme mostram seus registros públicos. Amanda Mota, influenciadora cultural, por exemplo, dança no festival Choro Jazz, patrocinado pela Petrobras, em Marajó, em um vídeo de 2025 no YouTube que já ultrapassou cinco milhões de visualizações.

Eles entram no setor cultural local para garantir que realmente tenham a licença social para operar.

Gertjan Plets, pesquisador de filantropia no setor de petróleo e gás na Universidade de Utrecht, na Holanda, afirmou: “As empresas de combustíveis fósseis têm muito medo de protestos das comunidades locais, porque isso pode dificultar a atuação das autoridades no terreno. 

“Então eles entram no setor cultural local, nos grupos locais de preservação ecológica, para realmente garantir que tenham a licença social para operar.”

Patrocínio

A gigante petrolífera lançou em julho a campanha “Transição Energética Justa”, que conta com a participação da estrela de cinema Camila Pitanga, explicando como a Petrobras está “adotando novas formas de energia”.

Os críticos questionam se essa campanha reflete a realidade dos negócios da empresa. Os gastos planejados pela Petrobras com exploração e produção de petróleo entre agora e 2030 aumentaram no ano passado e representam 72% de seus investimentos totais, de acordo com o último plano quinquenal da companhia. Isso se compara a 8% destinados a “energia de baixo carbono”, uma queda de 1,7% em relação ao plano anterior.

Agências de publicidade, incluindo a Ogilvy, sediada em Nova York, que possui contratos de cinco anos com a Petrobras no valor de mais de R$ 450 milhões (US$ 87 milhões), segundo informações da Petrobras, desempenham papéis fundamentais em sua estratégia publicitária. A Ogilvy pertence ao conglomerado britânico de publicidade WPP, que tem um longo histórico de trabalho com a indústria de combustíveis fósseis.

Em resposta a perguntas da DeSmog, a Petrobras afirmou que não há “relação causal” entre suas ambições de perfurar na bacia da Foz do Amazonas e o aumento de seus gastos com publicidade, patrocínio e influenciadores. 

Perfuração

A empresa afirmou que os gastos com publicidade foram excepcionalmente baixos em 2019 e 2020 devido à reestruturação, antes de retornarem a “níveis compatíveis com a escala, o alcance e a responsabilidade institucional da maior empresa do Brasil” a partir de 2023, sob nova gestão.

O IBAMA exige que a Petrobras organize “reuniões informativas” como as realizadas em Marajó, como parte de sua licença de exploração. Representantes da Petrobras, incluindo Siqueira, disseram ao público que não havia chance de o petróleo atingir a costa em caso de vazamento — uma avaliação que está sendo contestada judicialmente por um grupo de ONGs.

O local inicial de testes fica a 175 km da costa da cidade brasileira de Oiapoque, na fronteira com a Guiana Francesa, e a 500 km de Marajó. Mas o sucesso ali poderá abrir caminho para a perfuração em centenas de outros blocos — muitos dos quais situados diretamente sobre recifes de coral — que se estendem para o sul em direção à ilha.

Os representantes da empresa também afirmaram que a perfuração impulsionaria a economia local, listaram 12 projetos ambientais que a empresa está patrocinando na região e disseram que a Petrobras nunca causou danos ambientais por meio de perfurações em alto-mar. A questão das mudanças climáticas não foi mencionada.

Garantias

Fernanda Pereira, uma estudante de biologia de 23 anos, disse após participar de uma reunião em Soure, no litoral leste de Marajó: “Em Marajó, algumas comunidades não têm essa informação. Ou, quando ela chega, chega de forma completamente distorcida”. Outro participante descreveu a apresentação da Petrobras como “uma ótima performance de relações públicas”.

Em fevereiro, procuradores estaduais do Ministério Público Federal recomendaram a revogação da licença da Petrobras por diversos motivos, incluindo o de que a empresa estava enganando o público nessas apresentações ao não explicar claramente que planejava perfurar mais três poços exploratórios como parte de seus testes.

Pouco mais de um mês após a reunião de Cachoeira do Arari, em novembro, em 4 de janeiro de 2026, 18.000 litros de produtos químicos utilizados na perfuração vazaram do poço de teste para o oceano.

O devastador vazamento de petróleo que muitos temem pode ainda não ter acontecido. Mas aqueles que se opõem ao projeto dizem que o vazamento comprova o que vêm dizendo há anos: que as garantias da Petrobras não são confiáveis.

Autores

TJ Jordan é um repórter investigativo do DeSmog. Seu trabalho visa revelar como as indústrias poluentes — e seus consultores contratados — atrasam as ações climáticas por meio de publicidade, relações públicas e lobby. 

Maria Clara Parente é uma jornalista ambiental e cineasta documentarista brasileira. Desde 2016, ela se dedica à justiça climática, contribuindo para importantes veículos de comunicação e dirigindo projetos documentais premiados.

Naira Hofmeister é uma jornalista investigativa premiada com 18 anos de experiência na cobertura de conflitos socioambientais no Brasil.


Fonte: The Ecologist

A máquina de greenwashing “neutro em carbono” da Petrobras continua operando

Extrair cada vez mais combustíveis fósseis não pode, de forma alguma, ser “neutro em carbono”

Crédito da foto: Refinaria Abreu e Lima, Petrobras.

Por Chris Lang para o REDD-Monitor

A Petrobras é uma gigantesca empresa brasileira de petróleo e gás. Ela é responsável por uma grande contribuição para a crise climática, que está se agravando. Em 2025, a empresa aumentou sua produção de petróleo e gás em 11%.

Em setembro de 2021, a Petrobras foi uma das 12 empresas de petróleo e gás da Iniciativa Climática do Petróleo e Gás (Oil and Gas Climate Initiative) que anunciaram uma estratégia de emissões líquidas zero . A Iniciativa Climática do Petróleo e Gás é uma manobra de greenwashing das grandes poluidoras . Seus membros incluem BP, Chevron, CNPC, Eni, Equinor, ExxonMobil, Occidental, Petrobras, Repsol, Saudi Aramco, Shell e TotalEnergies.

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Obviamente, essas empresas não planejam interromper a extração e o lucro com a venda de combustíveis fósseis para atingir sua meta de emissões líquidas zero. Em vez disso, elas ignorarão as emissões provenientes da queima de combustíveis fósseis ( emissões de escopo 3 ) e se concentrarão na redução das emissões em suas próprias operações (emissões de escopo 1 e 2).

E, claro, eles compram créditos de carbono. Em seu suplemento “Mudanças climáticas e transição energética 2025 “, publicado recentemente, a Petrobras explica que,

Acreditamos que a compensação de emissões por meio de créditos de carbono pode complementar nossa jornada de descarbonização. Esses créditos podem ser baseados na natureza, aproveitando florestas, solos, oceanos e algas marinhas, ou derivados de soluções tecnológicas. Embora se espere que as compensações sejam utilizadas, elas são concebidas como contribuições suplementares e não substituem a necessidade de um fornecimento de energia com menor emissão de carbono.

A última frase soa bem, mas a Petrobras está aumentando a quantidade de petróleo e gás que extrai. A realidade é que a Petrobras é mais uma grande poluidora que usa créditos de carbono para maquiar suas operações destrutivas.

Gasolina “neutra em carbono”

A Petrobras vende seu Gasolina Podium como “neutro em carbono”. O REDD-Monitor escreveu sobre essa completa farsa em 2023:

Em 2025, a Petrobras comprou 1,2 milhão de créditos de carbono. Eis o que a Petrobras escreveu em seu relatório publicado recentemente:

Desde 2023, investimos no mercado voluntário para compensar as emissões da gasolina Petrobras Podium Carbon Neutral. Em 2025, adquirimos 1,2 milhão de créditos do projeto APD Grouped na Amazônia brasileira, dos quais 455 mil foram utilizados para compensar as emissões do Podium. Os créditos, da safra de 2022, são certificados pelo Verified Carbon Standard (VCS) da Verra.

O projeto APD Agrupado da Amazônia Brasileira foi desenvolvido pela empresa brasileira BRCarbon. O projeto abrange uma área total de mais de 30.000 hectares, composta por 15 propriedades nos estados de Mato Grosso, Acre, Amazonas e Pará.

Em seu site, a empresa desenvolvedora do projeto, BRCarbon, apresenta este mapa da área do projeto:

O projeto vendeu um total de 3.220.904 créditos de carbono. Entre os compradores, além da Petrobras, estão a Air New Zealand, a trip.com, a Rhodia Brasil (agora pertencente à empresa franco-belga Solvay), a PwC International e a Air Canada.

Segundo o Código Florestal brasileiro de 2012, todas as propriedades em áreas florestais devem manter uma área mínima de 80% com cobertura vegetal nativa, constituindo Reserva Legal. Em áreas de cerrado, o percentual é de 35%. O restante da área pode ser legalmente desmatado. O documento do projeto BRCarbon explica que,

Os proprietários de terras que decidirem aderir à iniciativa, renunciando ao seu direito de desmatar legalmente as suas áreas florestais, poderão aceder a recursos financeiros do mercado voluntário de carbono, tornando-se parceiros da BRCarbon.

Adicional? Permanente?

A questão de se o projeto é adicional ou não é discutível — como acontece com todos os projetos REDD . A BRCarbon afirma que “qualquer propriedade privada legalmente constituída dentro do bioma Amazônico, com mais de 80% de cobertura florestal (ou 35% para o Cerrado), é elegível para este projeto agrupado”.

É impossível saber se a floresta permanecerá protegida enquanto as emissões da queima de combustíveis fósseis permanecerem na atmosfera, e enquanto os créditos de carbono do projeto estiverem sendo negociados .

O documento do projeto reconhece que,

A atividade proposta para o projeto é economicamente menos atrativa do que qualquer projeto agrícola, pois não se esperam benefícios financeiros para o proponente do projeto além da receita relacionada ao comércio voluntário e à cadeia de valor, devido à sua implementação.

Em qualquer momento no futuro, um proprietário de terras poderá decidir ganhar mais dinheiro desmatando a floresta, vendendo a madeira e convertendo a terra em pastagens para gado ou plantações de soja.

Mesmo que a floresta permanecesse de pé como resultado do projeto REDD pelos próximos mil anos , os benefícios climáticos seriam anulados pelas operações poluentes das empresas que compram os créditos de carbono.

“Consideramos os mercados de carbono um instrumento crucial no combate às mudanças climáticas e estamos em discussões sobre a implementação de um mercado de carbono regulamentado no Brasil”, escreve a Petrobras .

A empresa está inclusive analisando a possibilidade de gerar seus próprios créditos de carbono, “otimizando a infraestrutura de transporte como alavanca de descarbonização por meio de parcerias público-privadas”.

A indústria de petróleo e gás precisa urgentemente ser regulamentada. Em vez disso, o governo brasileiro está convidando uma das maiores empresas poluidoras do país a ajudar a implementar a brecha do comércio de carbono para permitir que a destruição continue.

Com o agravamento da crise climática, a Amazônia se aproxima cada vez mais de um ponto de inflexão perigoso . Simplesmente não podemos nos dar ao luxo de trocar o carbono armazenado nas florestas por emissões contínuas de combustíveis fósseis. No entanto, é exatamente isso que a Petrobras e outras grandes empresas poluidoras estão fazendo.


Fonte: REDD-Monitor

‘Nossos medos estão se tornando realidade’: Povos indígenas enfrentam a realidade da perfuração de petróleo na foz do Amazonas

Amazon Indigenous communities face harsh reality of oil… | TBIJ

Por Flávia Milhorance e  Grace Murray para “TBIJ” 

Em janeiro deste ano, 18 mil litros de fluido de perfuração de um poço de petróleo em alto-mar vazaram para o Oceano Atlântico, na costa norte do Brasil. O incidente paralisou as operações e prejudicou a vida marinha.

Era exatamente o que os povos indígenas que viviam ali temiam. “Todos os nossos medos como comunidade indígena, tudo o que nos preocupava, está se tornando realidade”, disse Luene Karipuna, uma jovem líder do povo Karipuna.

As comunidades indígenas de Oiapoque, no norte da Amazônia brasileira, já haviam manifestado há tempos suas preocupações com o projeto. Em reuniões públicas e em comunicações com políticos locais, alertaram que as fortes marés poderiam causar o transbordamento de efluentes em suas terras e que os helicópteros sobrevoariam a área, perturbando a natureza e seu modo de vida.

No entanto, ao longo do processo que durou anos para obter uma licença para perfuração exploratória, a Petrobras, empresa petrolífera estatal, argumentou que a atividade não teria impacto direto sobre os povos indígenas.

Essas comunidades têm solicitado repetidamente uma consulta adequada sobre a exploração de petróleo na Amazônia, em consonância com os acordos internacionais que o Brasil apoia. De maneira mais ampla, o país, sob o governo do presidente Lula, comprometeu-se com a participação significativa dos povos indígenas nas negociações climáticas e nas políticas públicas.

No entanto, a realidade, nas palavras de Luene, apresenta “uma flagrante contradição”. Analisamos centenas de documentos, atas de reuniões e trocas de mensagens entre o órgão ambiental brasileiro e empresas petrolíferas, incluindo a Petrobras. Descobrimos que repetidos alertas sobre os efeitos da prospecção sobre os povos indígenas foram ignorados e que essas comunidades não foram devidamente consultadas.

Anos de avisos

Durante décadas, as grandes empresas petrolíferas têm cobiçado esta parte da Bacia Amazônica. Ela abriga milhares de espécies da vida selvagem, muitas das quais seriam vulneráveis ​​a um derramamento de petróleo – incluindo a tartaruga-de-couro, a baleia-azul e o peixe-boi-das-antilhas.

A BP solicitou pela primeira vez autorização para licenciar uma parte do leito marinho offshore (conhecida como Bloco 59) em 2014, após vencer leilões em consórcio com a Petrobras no ano anterior. Apesar da presença de territórios indígenas próximos à costa e de outros conectados ao mar por vias navegáveis, o pedido inicial da BP não mencionava os povos indígenas.

A empresa então submeteu estudos ambientais ao Ibama, o órgão regulador ambiental brasileiro. O Ibama identificou diversos problemas, incluindo a falta de dados ambientais de referência, programas de monitoramento e planos de manejo para as aves e mamíferos da área.

Desde então, ocorreram algumas reuniões públicas, mas os representantes indígenas constituíram apenas uma pequena porcentagem dos participantes. Em 2016, a BP se reuniu com líderes indígenas em Oiapoque. A empresa observou as preocupações das comunidades sobre derramamentos de petróleo e combustível, a necessidade de consultas que respeitassem os protocolos indígenas e o potencial aumento de voos que perturbariam a vida selvagem. A BP não comentou para esta reportagem, informando que não possui participação no Bloco 59 desde 2020.

Costa Oiapoque no estado do Amapá, BrasilNelson Almeida / AFP

A tartaruga-de-couro é uma das muitas espécies ameaçadas por derramamentos de petróleo nas proximidades.Philippe Giraud / Corbis via Getty

Quando a Petrobras assumiu o controle total do Bloco 59, a empresa ainda precisava de uma licença ambiental do Ibama para perfuração exploratória – e, para isso, agendou novas audiências públicas. Mas o trabalho na plataforma continuou.

Em uma reunião com a Petrobras no início de 2023, líderes indígenas expressaram novamente preocupação com os helicópteros que sobrevoavam seus territórios. Na ocasião, a Petrobras alegou que havia uma média de apenas dois voos diários sobre suas terras.

Mas o número real foi quase quatro vezes maior. Novos dados de voo que obtivemos mostram que o número de helicópteros da Petrobras sobrevoando os territórios até as plataformas marítimas aumentou de 130 em 2022 para quase 3.000 em 2023. No ano passado, esse número subiu novamente, para mais de 4.000. A Petrobras não respondeu às nossas perguntas para esta reportagem.

Segundo o chefe Edmilson, coordenador do Conselho de Chefes Indígenas da região de Oiapoque, o barulho dos helicópteros espantou os animais. Ele afirmou que os moradores relataram o desaparecimento repentino de um grande número de pássaros. Os peixes nos rios também se tornaram mais escassos, afetando o abastecimento de alimentos. “Este projeto nos tirou a paz”, disse ele.

Perfuração exploratória em um poço que faz parte do projeto Bloco 59.Petrobras

Consulta inadequada

Enquanto a Petrobras prosseguia com o processo de obtenção da licença de perfuração, a atenção dos moradores se voltou para a Convenção 169 da OIT, um tratado internacional vinculativo assinado pelo Brasil. Em audiências públicas realizadas em 2022 e 2023, eles exigiram saber se os povos indígenas seriam consultados, em conformidade com as obrigações da convenção. A convenção exige consultas livres, prévias e informadas aos povos indígenas, com o objetivo de obter seu consentimento para projetos que os afetem.

Luene é uma das muitas líderes indígenas em Oiapoque. Ela trabalhou com outros povos dos povos Karipuna, Palikur, Galibi-Marworno e Galibi Kali’na para criar um protocolo de consulta. Este protocolo dá menos ênfase a reuniões com um ou dois líderes e, em vez disso, incentiva processos coletivos e culturalmente apropriados, nos quais informações claras e oportunas são compartilhadas. O processo também deve proporcionar tempo e espaço suficientes para deliberação dentro dos territórios.

Luene afirmou que isso não aconteceu. Ela disse que existe confusão entre audiências públicas, às quais qualquer pessoa pode comparecer, e reuniões específicas para, digamos, universidades ou povos indígenas. O formato público, disse Luene, “não funciona para os povos indígenas”.

No ano passado, Luene foi uma das 100 pessoas indígenas que entrevistamos antes das negociações climáticas globais no Brasil. Ela nos contou como a exploração de petróleo está transformando sua comunidade de maneira drástica e que os custos de contestá-la são altos. “Quando começamos a nos posicionar e exigir consulta”, disse ela, “começamos a receber inúmeras ameaças”.

Nos três anos desde que começou a se manifestar, Luene disse que houve várias tentativas de silenciá-la, incluindo um arrombamento em sua casa e ameaças online. Agora, ela muda de endereço regularmente na tentativa de proteger a si mesma e à sua família.

Licença para perfuração

Em 2023, o Ibama negou à Petrobras uma licença de perfuração. Um documento oficial citou a alta sensibilidade ambiental do litoral amazônico, o risco de derramamentos de petróleo e as limitações no plano de resposta a emergências da empresa. O documento também observou que o estudo ambiental da Petrobras não havia avaliado adequadamente os impactos dos voos. (A empresa contestou a decisão, alegando ter resolvido a questão com um líder indígena. No entanto, descobriu-se que o representante era do governo local e não representava a comunidade.)

O advogado ambientalista Rodrigo Leitão disse que, quando começou a trabalhar com organizações indígenas em Oiapoque, em 2024, elas tinham recebido pouca ou nenhuma informação concreta sobre os planos de exploração de petróleo da Petrobras. “Ninguém tinha falado com eles ainda”, lembra.

Segundo Leitão, as reuniões realizadas nos anos anteriores não abordaram a questão central da consulta nem os potenciais impactos da exploração. Em vez disso, afirmou, as discussões se concentraram em projetos que a Petrobras alegava beneficiar a comunidade. Tanto o Estado quanto a Petrobras deixaram de cumprir uma obrigação fundamental para com os povos indígenas, disse ele: “Eles não reconhecem o direito à consulta livre, prévia e informada, de boa-fé”.

Uma decisão recente do Tribunal Federal do Amapá determinou que não havia obrigação legal de realizar consulta na fase de prospecção do licenciamento, uma vez que não havia impacto direto e imediato sobre comunidades indígenas ou tradicionais. A decisão, em resposta a uma ação civil movida contra o Ibama e a Petrobras pelo Ministério Público Federal, também afirmou que, embora não tenha havido consulta formal aos povos indígenas, o processo de licenciamento ambiental ofereceu diversas oportunidades de participação.

A Petrobras, empresa petrolífera estatal brasileira, afirmou que seu projeto em alto-mar não afetaria comunidades indígenas.Vanderlei Almeida/AFP via Getty Images

No início do ano passado, o Ibama continuava negando a licença à Petrobras. A questão do aumento dos voos sobre os territórios permanecia sem solução. Os planos de proteção da fauna, embora aprimorados pela Petrobras, continuavam em discussão. Contudo, em maio passado, algo mudou: o órgão regulador ordenou que o processo prosseguisse.

Seis meses depois, em 20 de outubro, o Ibama emitiu uma licença de operação para perfuração exploratória. A Petrobras iniciou a perfuração no mesmo dia.

Ibama informou que a avaliação de impacto ambiental da atividade de perfuração offshore no Bloco 59 foi aprovada dentro dos parâmetros técnicos e legais estabelecidos.

Ibama acrescentou que a licença só foi concedida após a apresentação de um plano de emergência atualizado com um “aumento nos cuidados com a vida selvagem”, e uma avaliação realizada em agosto de 2025 mostrou que isso era viável.

Suely Araújo, ex-presidente do Ibama, nos disse que esse processo expôs mais uma vez deficiências críticas nos procedimentos de consulta aos povos indígenas e comunidades tradicionais.

Embora a Petrobras tenha cumprido uma série de exigências do Ibama – incluindo a apresentação de estudos e a participação em audiências públicas –, essas formalidades não contemplaram as implicações mais amplas do projeto, afirmou Araújo. Ela agora trabalha para o Observatório do Clima, uma rede de ONGs que está movendo uma ação judicial buscando a paralisação imediata de todas as perfurações. Essa é uma das três ações que contestam o licenciamento da exploração de petróleo na região e alegam consultas inadequadas. O Ibama informou que está ciente das ações e que respondeu prontamente a cada uma delas.

O tratado internacional que o Brasil assinou “tem força de lei”, disse Araújo. “Não é uma questão de escolha.”

E agora?

Duas das três ações judiciais que visam impedir a perfuração estão em andamento e iremos monitorá-las. A ação movida pelo Ministério Público Federal, que foi rejeitada, poderá ser objeto de recurso.

O relator especial da ONU para os Povos Indígenas está elaborando um relatório sobre a consulta e o consentimento livre, prévio e informado dos povos indígenas em projetos como a exploração de petróleo, que afetam suas terras. Ele apresentará o relatório na Assembleia Geral da ONU em setembro. Já contribuímos com evidências como parte desse processo.

Imagem de cabeçalho: Luene Karipuna, líder do povo Karipuna

Repórteres: Flávia Milhorance e Grace Murray.
Editor de Meio Ambiente: Rob Soutar.
Editora Adjunta: Chrissie Giles.
Editor: Franz Wild.
Editor de Produção: Alex Hess.
Verificador de Fatos: Ero Partsakoulaki.

O Bureau conta com diversos financiadores, cuja lista completa pode ser encontrada aqui. Nenhum dos nossos financiadores exerce qualquer influência sobre as decisões editoriais ou o conteúdo produzido.


Fonte:  TBIJ

Greenpeace pede paralisação de perfurações após vazamento na Foz do Amazonas

A Petrobras descobriu um vazamento na bacia amazônica e interrompeu as perfurações. O Greenpeace e as comunidades locais alertaram para a poluição e exigem a paralisação imediata das atividades

Os recifes de coral mesofóticos estão localizados em zonas mais profundas do oceano e requerem menos luz. Um desses recifes está ameaçado pela extração de petróleo da Petrobras. Fonte:Greenpeace / Alexis Rosenfeld / Olivier Bianchimani

Por Ulrike Bickel para Amerika21

No início de 2026, aproximadamente 15 mil litros de fluido de perfuração vazaram de um poço pertencente à Petrobras, empresa petrolífera brasileira, próximo à bacia Amazônica . Segundo a empresa, o vazamento foi descoberto em 4 de janeiro de 2026, a cerca de 175 Km da costa do Amapá, a uma profundidade de aproximadamente 2.700 metros.

A área costeira afetada é conhecida por seu ecossistema quase intocado, ainda considerado em grande parte inexplorado e que abriga o Grande Recife da Amazônia. Este vasto sistema recifal, descoberto apenas em 2016 na costa atlântica do norte do Brasil, abriga recifes de coral mesofóticos, caracterizados pela presença de corais e algas dependentes da luz, bem como organismos encontrados em águas com baixa transmissão luminosa.

A Petrobras anunciou a suspensão das operações de perfuração para reparos após a detecção de um vazamento de fluido em duas linhas auxiliares que conectam uma plataforma de perfuração ao poço Morpho. Segundo a estatal, o vazamento foi imediatamente estancado e contido. A Petrobras informou que o fluido era uma mistura de sólidos, líquidos e produtos químicos “não perigosos”.

O IBAMA afirmou ter sido informado do incidente e que não houve vazamento de petróleo. Mesmo assim, o IBAMA, que concedeu a licença somente em outubro de 2025 após anos de disputas, intensificou o monitoramento. As consequências para a Petrobras incluem o atraso na campanha de perfuração de cinco meses, revisões regulatórias adicionais e o adiamento do desenvolvimento da área da Margem Equatorial, de importância estratégica, visto que o projeto na Amazônia é considerado pelo governo brasileiro um componente fundamental para a era pós-esgotamento de outras reservas de petróleo que em breve se esgotarão.

Segundo o Greenpeace, o último vazamento está diretamente ligado aos riscos ambientais que já haviam sido apontados durante o processo de licenciamento. O acidente não é um incidente isolado, mas um sinal de alerta, já advertido em 2025 por uma delegação do Greenpeace Brasil, ONGs locais, quilombolas, movimentos indígenas e comunidades pesqueiras em uma ação judicial movida na Justiça Federal contra o IBAMA, a Petrobras e o Estado brasileiro . A organização ambiental exige agora a paralisação imediata das atividades e a cassação da licença de operação da Petrobras para a exploração desse campo de petróleo.

Em meados de junho de 2025, o governo brasileiro leiloou um total de 34 dos 172 blocos de produção de petróleo e gás em um processo de licitação controverso , incluindo blocos no estuário da Foz do Amazonas. Essa área é classificada como ecologicamente muito vulnerável por autoridades ambientais, promotores públicos e organizações indígenas (a Amerika21 noticiou o fato antes e depois do leilão ).

No ano passado, o Greenpeace Brasil, juntamente com as organizações parceiras Arayara, WWF, ClimaInfo e Instituto Iepé, realizou oficinas sobre os possíveis impactos da produção de petróleo em Foz do Amazonas nas comunidades ribeirinhas e quilombolas de Amapá, Oiapoque, Cunani e Calçoene, cujo modo de vida e existência estão ameaçados.

Um vazamento de petróleo perto da bacia amazônica poderia ter efeitos devastadores no ecossistema da região e nas comunidades locais cuja subsistência depende de um oceano saudável. Informações sobre o vazamento foram incluídas em um processo judicial no qual os demandantes enfatizaram “a urgência de uma ação judicial federal imediata para suspender a licença de operação”.

Vazamentos durante a extração em águas profundas ocorrem repetidamente no Brasil. Segundo um advogado do Greenpeace Brasil, entre 1975 e 2014, um total de 95,2% dos acidentes registrados foram atribuídos a essas atividades. As consequências e os riscos são óbvios e, portanto, segundo os autores da ação, uma ordem judicial para suspender essas atividades é necessária com base nos princípios da prevenção e da precaução.

Segundo os demandantes, a extração de petróleo na Amazônia representa um risco “real, previsível e evitável”. No entanto, a perfuração continua apesar da falta de avaliações de impacto ambiental adequadas, da ausência de consulta às comunidades afetadas e da inexistência de qualquer avaliação de impacto climático. Já passou da hora de eliminar gradualmente os combustíveis fósseis e promover uma transição justa que priorize as pessoas, sua dignidade e um futuro livre de combustíveis fósseis.


Fonte: Amerika21

Vazamento na Foz do Amazonas não é um acidente — é um teste ético para o Brasil

O incidente na perfuração da Petrobras escancara uma pergunta incômoda: estamos preparados para explorar petróleo no último grande território vivo do planeta?

O vazamento registrado durante a perfuração da Petrobras na Foz do Amazonas não é apenas um episódio técnico. É um teste de coerência – Imagem gerada por IA – Foto: Ilustrativa/Divulgação 

Por Oscar Lopes para o “Neomundo”

Não foi uma explosão.
Não houve óleo negro na superfície.
Não apareceu nenhuma imagem dramática de aves cobertas por piche.

E, ainda assim, o vazamento registrado durante a perfuração do poço FZA-M-59, na Foz do Amazonas, talvez seja um dos episódios ambientais mais simbólicos — e reveladores — dos últimos anos no Brasil.

Segundo documento interno da própria Petrobras, ao qual a imprensa internacional teve acesso, cerca de 15 mil metros cúbicos de fluido de perfuração vazaram para o mar a quase 2.700 metros de profundidade, em uma das regiões mais sensíveis e menos conhecidas do planeta. O incidente foi classificado como potencialmente capaz de causar danos ao meio ambiente ou à saúde humana. As atividades, por ora, estão suspensas.

A empresa afirma que o fluido é biodegradável, atende aos limites de toxicidade e que tudo está sob controle.

Mas talvez essa não seja a pergunta certa.

O vazamento não é o ponto final. É o ponto de partida

O debate público rapidamente se dividiu entre dois polos previsíveis:
de um lado, quem grita “tragédia ambiental”;
do outro, quem responde “foi contido, não há risco”.

Só que o episódio revela algo mais profundo — e mais desconfortável.

A Foz do Amazonas virou um laboratório de risco institucional

Ali, não se testa apenas tecnologia de perfuração em águas ultraprofundas. Testa-se a capacidade do Brasil de:

  • avaliar riscos reais em ecossistemas pouco mapeados;
  • ouvir comunidades tradicionais antes, e não depois;
  • alinhar discurso climático com decisões econômicas;
  • sustentar a própria credibilidade ambiental no cenário global.

Quando um vazamento acontece antes mesmo de qualquer descoberta comercial, o sinal de alerta não é técnico. É estratégico.

Um território invisível… até dar problema

A Bacia da Foz do Amazonas — também chamada de Margem Equatorial — abriga um sistema oceânico singular, com recifes profundos, alta biodiversidade e conexões diretas com o maior rio do planeta. É uma região onde ciência ainda está correndo atrás do básico: mapear, entender, descrever.

E é justamente aí que mora o paradoxo.

Como perfurar com segurança um território que ainda não conhecemos direito?

Organizações da sociedade civil questionam o licenciamento concedido pelo Ibama, apontando falhas graves:

  • ausência de consulta adequada a povos indígenas, quilombolas e pescadores;
  • uso de modelos de dispersão de impactos baseados em dados de 2013, quando já existem informações de 2024;
  • subestimação de cenários extremos em uma região de correntes marítimas complexas.

Nada disso é detalhe técnico. É governança ambiental.

O passado insiste em voltar

Este não é um capítulo isolado. Desde 1946, a Foz do Amazonas desperta interesse da indústria do petróleo. Entre 2001 e 2011, ao menos 11 poços foram perfurados. Em 2011, uma sonda da própria Petrobras chegou a ser arrastada por correntes marítimas intensas — um alerta ignorado por anos.

Depois de uma negativa em 2023, a autorização para o novo poço só veio em outubro de 2025, após recurso da estatal. Pouco depois, a empresa pediu licença para perfurar outros três poços contingentes: Manga, Maracujá e Marolo.

Em paralelo, no leilão da Agência Nacional do Petróleo, em junho de 2025, a Petrobras arrematou 10 dos 19 blocos disponíveis na região. Outras gigantes globais seguiram o mesmo caminho.

O recado é claro: a corrida pelo petróleo na Amazônia Azul começou.

O verdadeiro vazamento é de coerência

O Brasil já sediou a COP30, ocupou o centro do debate climático global e reforçou, nos discursos oficiais, seu compromisso com a biodiversidade, a transição energética e a liderança ambiental. Ao mesmo tempo, aposta alto na expansão da fronteira petrolífera mais sensível do país.

Esse vazamento não derramou apenas fluido de perfuração.
Ele derramou uma contradição.

Se tudo der certo, dirão que foi um incidente menor.
Se algo der errado, o custo será incalculável — ambiental, social e reputacional.

A pergunta que fica não é se o fluido era biodegradável.
É se a decisão política que levou até ali também é.

A Foz do Amazonas como espelho do Brasil

No fim das contas, a Foz do Amazonas não é só um território em disputa.
Ela virou um espelho.

Reflete quem somos quando crescimento econômico e proteção ambiental entram em conflito.
Reflete até onde vai, de fato, nosso compromisso com um futuro de baixo carbono.
E reflete se aprendemos algo com décadas de acidentes que sempre começam assim: pequenos, controlados, “dentro do previsto”.

Talvez o maior risco não esteja no fundo do mar.
Mas na superfície das decisões.

E esse, definitivamente, ainda não foi contido.


Fonte: Neomundo

Governo sabota COP30 e licencia petróleo na Foz do Amazonas; ONGs vão à Justiça

Ibama autoriza perfuração do Bloco 59 a pouco mais de duas semanas do início da conferência do clima, comprometendo liderança de Lula e expondo presidência da COP

Navio-sonda que perfura o poço Pitu Oeste, na Bacia Potiguar, também na Margem Equatorial. (Agência Petrobras)
Por Observatório do Clima 

A pouco mais de duas semanas da COP30, o governo brasileiro aprovou nesta segunda-feira (20/10) a licença de perfuração de petróleo no bloco FZA-M-59, na bacia sedimentar da Foz do Amazonas. A aprovação é uma sabotagem à COP e vai na contramão do papel de líder climático reivindicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no cenário internacional. Também cria dificuldades para o presidente da COP, André Corrêa do Lago, que precisará explicar o ato aos parceiros internacionais do Brasil.

A decisão é desastrosa do ponto de vista ambiental, climático e da sociobiodiversidade e, para enfrentá-la, organizações da sociedade civil e movimentos sociais irão à Justiça denunciar as ilegalidades e falhas técnicas do processo de licenciamento, que poderiam tornar a licença nula.

Além de contrariar a ciência, que diz que nenhum novo projeto fóssil pode ser licenciado se quisermos ter uma chance de manter o aquecimento global em 1,5oC, a liberação do petróleo na Foz também se opõe a decisões legais de tribunais internacionais sobre a urgência da interrupção da expansão dos combustíveis fósseis, incluindo deliberações recentes da Corte Interamericana de Direitos Humanos e da Corte Internacional de Justiça, que reforçam a obrigação legal dos Estados-nação de protegerem o clima.

Povos indígenas da Bacia Amazônica, parlamentares e sociedade civil vêm reiterando a necessidade de acabar com a expansão de petróleo e gás, sobretudo em áreas de alta biodiversidade, e de criar zonas de exclusão para atividades extrativistas, a fim de proteger ecossistemas críticos para o planeta – começando pela Amazônia.

É preciso estabelecer zonas prioritárias de exclusão da proliferação dos combustíveis fósseis, protegendo ecossistemas críticos para a vida no planeta. Por sua imensa relevância para o clima e para a biodiversidade, que enfrentam crises globais, a Amazônia deve ser uma dessas zonas, tanto para a exploração onshore quanto para a offshore.

Especialistas da sociedade civil e representantes de povos indígenas amazônicos oferecem análises a seguir:

“A emissão da licença para o Bloco 59 é uma dupla sabotagem. Por um lado, o governo brasileiro atua contra a humanidade, ao estimular mais expansão fóssil contrariando a ciência e apostando em mais aquecimento global. Por outro, atrapalha a própria COP30, cuja entrega mais importante precisa ser a implementação da determinação de eliminar gradualmente os combustíveis fósseis. Lula acaba de enterrar sua pretensão de ser líder climático no fundo do oceano na Foz do Amazonas. O governo será devidamente processado por isso nos próximos dias.” Suely Araújo, coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima

“A decisão de licenciar é claramente política — não técnica. O valor de uma sonda jamais pode se sobrepor ao valor da vida das comunidades amazônidas, à biodiversidade ou ao equilíbrio climático do planeta. A Petrobras, responsável por 29% de todos os novos projetos fósseis da América Latina, é a principal protagonista da expansão fóssil no continente. Ao insistir na perfuração do bloco 50, ela se consagra como a Líder Continental da Não Transição Energética.” Nicole Oliveira, diretora-executiva do Instituto Arayara

“A Amazônia está muito próxima do ponto de não retorno, que será irreversivelmente atingido se o aquecimento global atingir 2°C e o desmatamento ultrapassar 20%. Além de zerar todo desmatamento, degradação e fogo na Amazônia, torna-se urgente reduzir todas as emissões de combustíveis fósseis. Não há nenhuma justificativa para qualquer nova exploração de petróleo. Ao contrário, deixar rapidamente os atuais combustíveis fósseis em exploração é essencial.” Carlos Nobre, copresidente do Painel Científico para a Amazônia

“O agravamento da crise climática, causada pela produção e queima de combustíveis fósseis, não deixa dúvidas de que temos que acelerar a transição energética para produção solar e eólica. O Brasil tem a oportunidade de explorar seu enorme potencial de geração energética solar e eólica e se tornar uma potência mundial em energias sustentáveis. Não devemos desperdiçar esta oportunidade. Abrir novas áreas de produção de petróleo vai auxiliar a agravar ainda mais as mudanças climáticas e certamente isso vai contra o interesse do povo brasileiro.” Paulo Artaxo, Físico, integrante do IPCC, especializado em crise climática e Amazônia

“É inaceitável que o governo continue promovendo a exploração de petróleo e gás na bacia Amazônica, uma área vital para a proteção do clima e da biodiversidade. Essa decisão contraria os compromissos com a transição energética e coloca em risco as comunidades, os ecossistemas e o planeta. Ao contrário do que alegam, os recursos do petróleo pouco investem na transição, sendo apenas 0,06%. Precisamos de um acordo global para eliminar a extração de petróleo de forma justa, equitativa e sustentável. Até lá, o mínimo que temos que fazer é impedir sua ampliação.” Clara Junger – Coordenadora de Campanha no Brasil – Iniciativa do Tratado de Não Proliferação de Combustíveis Fósseis

“Autorizar novas frentes de petróleo na Amazônia não é apenas um erro histórico, é insistir em um modelo que não deu certo. A história do petróleo no Brasil mostra isso com clareza: muito lucro para poucos, e desigualdade, destruição e violência para as populações locais. O país precisa assumir uma liderança climática real e romper com esse ciclo de exploração que nos trouxe até a crise atual. É urgente construir um plano de transição energética justa, baseado em renováveis, que respeite os povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, e que garanta a eles o papel de protagonistas nas decisões sobre clima e energia, inclusive na COP30.” Ilan Zugman, diretor da 350.org para a América Latina e Caribe


Fonte: Observatório do Clima

Mais de 60 caciques do Oiapoque repudiam exploração de petróleo na Foz do Amazonas e exigem suspensão imediata do licenciamento

Oiapoque, 2 de junho de 2025 – Em uma manifestação histórica, mais de 60 caciques dos povos indígenas Karipuna, Galibi Marworno, Galibi Kali’na e Palikur Arukwayene, do Oiapoque (AP), divulgaram uma carta de exigindo a imediata suspensão do processo de licenciamento do bloco FZA-M-59, na bacia da Foz do Amazonas, e de todos os blocos incluídos no próximo leilão da Agência Nacional do Petróleo (ANP), previsto para 17 de junho.

Reunidos no Conselho de Caciques dos Povos Indígenas do Oiapoque (CCPIO), as lideranças denunciam que nunca foram consultadas sobre a exploração de petróleo na região — como determina a Convenção 169 da OIT e a Constituição Brasileira. Mesmo com os impactos socioambientais já sentidos nas aldeias, os territórios indígenas ficaram fora do Estudo de Impacto Ambiental apresentado pela Petrobras.

A carta denuncia os graves riscos socioambientais da atividade petrolífera, como poluição, destruição da biodiversidade e ameaça à subsistência dos povos indígenas, além de condenar a disseminação de desinformação e a perseguição a lideranças indígenas. O CCPIO exige a suspensão imediata de qualquer projeto de exploração na região e convoca o apoio de organizações indígenas, entidades de direitos humanos e da sociedade brasileira em defesa da vida dos povos originários e da proteção da Amazônia.
 

LEIA A CARTA NA ÍNTEGRA:

(Link com o PDF)

Oiapoque/AP, 28 de maio de 2025.

De Conselho de Caciques dos Povos Indígenas de Oiapoque – CCPIO

CARTA DE REPÚDIO AOS REPRESENTANTES POLÍTICOS DO ESTADO DO AMAPÁ

Pelo desrespeito aos direitos dos Povos Indígenas do Oiapoque e a pressão pela exploração de petróleo na Foz do Amazonas.

Nós, Conselho de Caciques dos Povos Indígenas do Oiapoque (CCPIO), representantes legítimos dos povos originários desta terra, manifestamos nosso veemente REPÚDIO às declarações e ações de toda classe política do Estado do Amapá, que insiste em defender a exploração de petróleo na Foz do Amazonas, ignorando os graves impactos socioambientais e violando os direitos fundamentais dos povos indígenas.

1. Violação do Direito à Autodeterminação e Consulta Prévia:

O desrespeito a Convenção 169 da OIT e a Constituição Federal de 1988, que garantem aos povos indígenas o direito à consulta prévia, livre, informada e de boa-fé sobre projetos que afetam nossos territórios e modos de vida. A exploração de petróleo na Foz do Amazonas ameaça diretamente nossa sobrevivência cultural e física, além de colocar em risco um dos biomas mais sensíveis do planeta.

2. Ameaça Socioambiental Irreversível:

A perfuração de petróleo na região trará poluição, destruição de ecossistemas e impactos irreparáveis à biodiversidade, afetando nossa pesca, agricultura e fontes de água. Não aceitamos que interesses econômicos se sobreponham à vida de nossos parentes e ao futuro das próximas gerações. A perfuração de petróleo na região trará poluição, destruição de ecossistemas e impactos irreparáveis à biodiversidade, afetando nossa pesca, agricultura e fontes de água. Não aceitamos que interesses econômicos se sobreponham à vida de nossos parentes e ao futuro das próximas gerações.

3. PL da Devastação (No2159/2021) e Senador Davi Alcolumbre

Repúdiamos à postura do Senador Davi Alcolumbre, que vem atuando de forma irresponsável e desrespeitosa ao garantir que Leis que facilitem a devastação do meio ambiente seja aprovada. A atuação do senador demonstra uma trajetória política marcada pelo desprezo às garantias ambientais e aos direitos dos povos originários. Sua militância contra o licenciamento ambiental e sua tentativa de acelerar, a qualquer custo, a liberação para a exploração petrolífera na região costeira amazônica mostram que ele opta por defender interesses econômicos imediatistas, mesmo que isso signifique colocar em risco a vida de comunidades inteiras.

Para nós, essa postura é inadmissível. O petróleo não pode valer mais do que nossas vidas, nossas águas, nossos modos de existência. O senador Davi Alcolumbre, que deveria proteger sua gente e sua terra, atua como instrumento de destruição, empurrando a Amazônia para um caminho de contaminação, conflitos e perda irreparável.

4. Disseminação de ódio e desinformação:

Repudiamos a classe política, incluso Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Davi Alcolumbre, Randolfe Rodrigues, Lucas Barreto, Deputado Inácio, Governador Clécio Luis, Vice-governador Teles Junior, Prefeito Breno Almeida, Câmara de Vereadores do Oiapoque e todos os demais que disseminam, sem pudor, desinformações a população do Estado do Amapá sobre a exploração de petróleo, a criação da Reserva Extrativista Marinha e perseguição e ameaça a vidas das lideranças que se colocam contra esses projetos que violam nossos direitos.

5. NÃO AO PETRÓLEO NA FOZ DO AMAZONAS!

Repudiamos qualquer tentativa de silenciar nossa voz. Exigimos que o Governo Brasileiro suspenda imediatamente qualquer projeto de exploração na região e que o Congresso Nacional respeite nossa autonomia e nossos direitos constitucionais. Não seremos sacrificados em nome do lucro de poucos!

Convocamos todas as organizações indígenas, entidades de direitos humanos e a sociedade brasileira a se somarem a esta luta.

PELA VIDA DOS POVOS INDÍGENAS E PELA PROTEÇÃO DA AMAZÔNIA!

Assinam,
CCPIO

Na urgência climática, uns alertam, outros aceleram

Por Paulo Silva Junior para o blog da Editora Elefante 

Parece um eterno retorno, e talvez seja, apesar da nossa teimosia em vislumbrar outros futuros possíveis enquanto o mundo grita que seguimos escolhendo o caminho do colapso. “Ainda estou aqui”, diz o petróleo, que segue em alta prometendo arrancar na pista a meses da próxima Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, a COP30, programada pra novembro, em Belém.

É exatamente por ali, que ironia, bem na margem equatorial, que estão cinco bacias em alto-mar, como a Bacia da Foz do Amazonas, no litoral do Amapá. Há dois anos, o Ibama negou a licença para prospecção marítima no local. O presidente Lula, em entrevista em Macapá em fevereiro, disse que não dá para ficar nessa “lenga-lenga” ecológica.

De um lado, o governo acredita que investir na região seja a principal aposta para repor as reservas brasileiras após o esgotamento do pré-sal, diante de um volume atual que garante manter o ritmo da produção por mais treze anos. É nesse contexto que a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, tem reforçado a ideia de pisar no acelerador. Ela pediu para que os fornecedores estejam preparados para esse novo momento do investimento petrolífero do país.

Em oposição à tamanha euforia, Marina Silva, ministra do Meio Ambiente, disse que o Ibama é quem pode definir tecnicamente se há sustentabilidade para um novo empreendimento na Foz do Amazonas. Lula, falando em Belém, entende que a ministra tem seus pontos sobre o método do projeto, mas que é uma pessoa inteligente para entender a necessidade do Brasil. Há quase duas décadas, debate parecido foi travado em tempo de projetos das usinas de Belo Monte, Jirau e Santo Antônio. Na época, Marina acabou ridicularizada como “ministra dos bagres” por estar, segundo os críticos, atrasando o desenvolvimento de obras em proteção aos peixes. Ela pediu demissão do governo em 2008.

Bom, o petróleo passa o carro, que se tivesse um alto-falante poderia circular aos berros de “drill, baby, drill” na voz de Donald Trump, que não para de repetir esse verbo: perfurar. Rita von Hunty, em seu canal Tempero Drag, lembrou de O decênio decisivo, de Luiz Marques, ao refletir sobre o fato do planeta terra estar saturado da exploração de combustíveis fósseis.

“A gente já está caminhando no decênio decisivo. É agora, são nesses dez anos, ou adeus à vida humana no planeta Terra. São dez anos para que a gente reverta a matriz energética do planeta para matrizes sustentáveis. A gente vai aquecer o planeta em três graus. É o ano da COP30 e a presidente da Petrobras está dizendo que a gente vai pisar no acelerador.”

Na reta final do livro, quando trata de propostas para uma política de sobrevivência, Luiz Marques passa por muitas ideias que atravessam essa discussão sobre a energia e a Amazônia atuais. Por exemplo, a da extensão da ideia de sujeito de direito às demais espécies, à biosfera e às paisagens naturais, ou a própria restauração e ampliação das reservas naturais enquanto santuários inacessíveis aos mercados globais, entre outras.

“Realizar essas rupturas civilizacionais, e no prazo de um decênio, parece evidentemente cada vez mais difícil. A enormidade da tarefa, a resistência material e ideológica dos interesses econômicos, a dificuldade de compreender a gravidade e a aceleração das crises ambientais, a fragmentação dos movimentos sociais, tudo agora joga contra a humanidade. Pouco importa: não se enfrenta um desafio existencial a partir de cálculos de probabilidade”, aponta o autor.

E, por falar em combustíveis, matrizes energéticas e fontes mais ou menos limpas e sustentáveis, é interessante pensar como essas escolhas ao longo da história vão ditando o que se convém a entender como inevitável. Não, não deveria ser impossível imaginar uma vida sem tanto petróleo – alguém definiu em algum momento a importância daquilo para o funcionamento deste tipo de mundo. Em Capital fóssil, Andreas Malm revela como é que tudo mudou quando as indústrias do século XIX na Inglaterra resolveram trocar as rodas d’água por motores a vapor, queimando carvão.

“Ao menos por ora, os cientistas naturais vêm interpretando o aquecimento global como um fenômeno que ocorre na natureza; a questão, no entanto, consiste em rastrear suas origens humanas. Somente assim preservaremos ao menos uma possibilidade hipotética de mudança de curso”, escreve Malm. Lembra alguma coisa sobre a discussão de início, envolvendo governo, a Foz do Amazonas e as vontades aceleradoras do Brasil?


Fonte: Editora Elefante

Espanha e o sistema de recifes da Amazônia: distância que a crise climática aniquila

afogados

A região leste da Espanha, especialmente a cidade de Valência, ainda tenta se recuperar dos efeitos devastadores das maiores tempestades em décadas que deixaram um visível rastro de destruição e mortes (até agora o número está na casa de uma centena, mas promete aumentar), um claro sinal de que a crise climática é algo que continuará a se manifestar globalmente, desconhecendo as fronteiras artificiais traçadas pela sociedade humana (ver imagens abaixo).

Enquanto isso no Brasil, segue a pressão para que a Petrobras seja autorizada a perfurar na região do foz do Rio Amazonas onde se acredita existirem reservas de petróleo e gás cuja exploração justificaria a destruição de um ecossistema de alta importância ecológica conhecido cientificamente como “Great Amazon Reef System (GARS) ” (ou em bom português, Grande Sistema de Recifes da Amazônia). No caminho da sanha exploratória apenas um grupo de técnicos do IBAMA que se nega a emitir licenças ambientais necessárias para iniciar a destruição daquele ecossistema tão singular quanto importante. Sobre eles está recaindo um pesado ataque que se assemelha muito ao que sofreram há pouco tempo pelas mãos do governo de Jair Bolsonaro, em viés explícito de Macarthismo de esquerda ( ver imagem abaixo).

brasil 247

Algo que precisa ser lembrado, após a quase total da privatização total da Petrobras pelo governo Bolsonaro, é que a empresa hoje é praticamente uma para-estatal, cujos beneficiários principais são seus acionistas estrangeiros que residem a milhares de distância do GARS, e não poderiam se preocupar menos com sua destruição em nome de uma quantidade maior de dividendos.

O fato é que o embate entre os que querem proteger o GARS e os que querem destruí-lo (começando por sua negação como fez recentemente a diretora executiva de exploração e produção da Petrobras, Sylvia Anjos.  O buraco aqui é muito mais embaixo, pois, para justificar a exploração do GARS, há que se negar a própria existência da crise climática e as responsabilidades do Brasil na sua ocorrência, tanto pelas emissões oriundas da destruição acelerada das nossas florestas, mas também pela própria exploração de combustíveis fósseis.

Por isso é que há um esforço para apagar as conexões existentes entre o que está ocorrendo na Espanha (e já ocorreu recentemente aqui mesmo no Brasil) e a aposta no avanço da fronteira extrativa dos combustíveis fósseis, como é o caso da tentativa de abrir poços sobre o sistema de recifes amazônicos. Desta forma, não adianta nada o presidente Lula e a emudecida ministra Marina Silva fazerem seus discursos de sensibilidade climática em banquetes realizados para os convidados das Conferência entre as Partes (COP), ou Conferência do Clima (COPs), enquanto aqui mesmo o que vale é o ronco incessante das motosserras e o barulho das brocas de perfuração nos poços de petróleo.

O problema é que a crise climática é real e é devastadora, especialmente para os mais pobres. Isso torna a aposta no combustíveis fósseis algo que só faz sentido para os detentores de grandes lotes de ações das petroleiras, a Petrobras inclusa.  Reagir às pressões por mais extração de petróleo e gás se tornou uma das principais necessidades pelos defensores do clima da Terra. E essa reação começa pela defesa dos técnicos do IBAMA que estão cumprindo o seu dever com grande coragem como servidores públicos que são.