Outorga amiga para o porto, tarifa salgada para os moradores da Barra do Açu

TooExpensive-image

Após ler a postagem de hoje sobre o mega consumo de água pelo Porto do Açu (o sétimo maior consumidor entre 50 empresas que são “os donos da água no Brasil), um leitor que reside na localidade de Barra do Açu me informou que o caso não é o mesmo quando se aplica ao abastecimento oferecido pela CEDAE.

Segundo esse morador que me enviou a conta mostrada abaixo, há algum tempo a aplicação de uma regra esdrúxula que divide o consumo das residências em “comercial” e “doméstico”, as contas de água na Barra do Açu se tornaram extremamente “salgadas”, tornando o consumo que proibitivo para muitas famílias pobres que vivem ali, e que estão sendo cada vez mais acossadas pelo avanço do mar.

fatura CEDAE Barra do Açu

Para essa pessoa que vive há décadas na Barra do Açu, o tratamento camarada dispensado ao Porto do Açu deveria ser estendido aos moradores que convivem hoje com as consequências negativas que o empreendimento trouxe para quem vive no V Distrito de São João da Barra.

Uma questão que foi levantada no diálogo que mantive com o leitor do blog se refere ao sentimento de abandono que os moradores possuem não em relação ao Porto do Açu de quem não se espera muita coisa, mas do governo municipal e da Câmara de Vereadores de São João da Barra que nada fazem para minimizar as graves distorções que afetam a vida dos moradores da Barra do Açu desde que o ex-bilionário Eike Batista assumiu a construção do empreendimento que hoje é de propriedade do fundo de private equity conhecido como EIG Global Partners.

Porto do Açu está entre os maiores consumidores de água do Brasil. Enquanto isso, o V Distrito convive com água salinizada…

montagem-2

No dia 27 de outubro repercuti uma reportagem da Agência Pública mostrando que apenas 50 empresas podem usar a mesma quantidade de água que metade da população brasileira.  Pois bem, ontem ao ministrar uma aula no curso de Ciências Sociais da Uenf, notei um detalhe fino da reporagem que me passou despercebido inicialmente.

É que um dos gráficos usados pela Pública para ilustrar a sua reportagem aponta que o Porto do Açu possui um volume outorgado anual de 142,4 bilhões de litros de água, ficando acima de grupos empresariais importantes como a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e a Klabin (ver imagem abaixo).

water-4

Não sei se os leitores do blog recordam, mas o projeto do porto criado pelo ex-bilionário Eike Batista previa a realização de uma transposição do Rio Paraíba do Sul que retiraria um volume de de 10 litros por segundo para abasteceras necessidades do empreendimento.  Este volume seria capaz de abastecer uma cidade com uma população de 2,8 milhões de habitantes.

Entretanto, como a tal transposição nunca foi concretizada, a pergunta que fica é de onde a Prumo Logística estaria retirando a água que lhe foi outorgada e para quais usos específicos.  Uma coisa é certa, se mesmo uma fração do volume outorgado está sendo usado neste momento, isto levanta questões interessantes sobre o impacto que o empreendimento está trazendo para os mananciais existentes em seu entorno ou embaixo dele.

Nunca custa lembrar que a população do V Distrito de São João da Barra continua enfrentando as mesmas condições de abastecimento que existiam antes da construção do empreendimento, com uma “leve pitadinha de sal” vindo do aterro hidráulico do Porto do Açu (dos aterros, quer dizer).

Tanto em Ilhéus como na Praia do Açu, um porto está na raiz da erosão costeira

açu erosão

Praia do Açu: o que estava caindo em 2014, em 2023 sumiu totalmente da paisagem

O município de Ilhéus localizado no sul da Bahia está experimentando um processo acelerado de erosão costeira que, segundo pesquisadores, tem com um das causas a construção do Porto do Malhado que foi inaugurado em 1971.  Segundo matéria publicada pelo Portal G1, o processo de erosão está ameaçando a estabilidade da região litorânea de Ilhéus e coloca em risco o futuro de milhares de pessoas que ali se estabeleceram a partir da década de 1970.

Segundo o professor  José Maria Landim Dominguez, professor do Instituto de Geociências da UFBA e responsável pelo mapeamento da Bahia no estudo “Panorama da Erosão Costeira no Brasil”, do Ministério do Meio Ambiente, a estrutura portuária  impede a passagem da areia do lado sul para o lado norte da cidade, e causa o processo erosivo (ver imagem abaixo).

bahia erosão costeira

Comparação da faixa de areia em 1960 e em 2012 — Foto: José Maria Landim Dominguez, professor do Instituto de Geociências da UFBA

Ao olhar a imagem acima, me veio imediatamente à mente uma análise que foi realizada no meu laboratório em 2014 sobre um processo semelhante, e que continua ocorrendo até hoje, na localidade de Barra do Açu. Em função disso, resolvi tentar uma comparação entre 2014 e 2023 na Praia do Açu para ver se houve alguma mudança visual na paisagem costeira (ver imagem abaixo).

açu 2014 2023

O que transparece dessas imagens é que, apesar de não estarmos experimentando a mesma redução observada na Bahia (provavelmente ao período comparado nos dois casos), é que a Praia do Açu está realmente “encolhendo” por causa do processo erosivo associado à implantação dos terminais do porto de Eike Batista. Para identificar isso, bastaria olhar para a linha de praia em 2014 quando existiam pequenos quiosques na extensão comparada, os quais hoje sumiram da paisagem. Além disso, como seria de se esperar, a área da “Avenida Atlântica” está praticamente toda coberta por areia em 2023, diferente do que estava em 2014.

Outra diferença notável está no tratamento que a Prefeitura Municipal de Ilhéus está dando ao problema em comparação ao que se pratica na sua congênere de São João da Barra. O fato é que neste momento a questão da erosão causada pelo Porto do Açu simplesmente sumiu da pauta não apenas da Prefeitura, mas também da Câmara de Vereadores de São João da Barra. Parece até que nada de diferente está ocorrendo na Barra do Açu e na praia que um dia foi o principal ponto de veraneio de muitas famílias campistas e sanjoanenses.

 

 

 

Em tragédia anunciada pelo EIA/RIMA do Porto do Açu, erosão costeira se agrava e ameaça localidade no V Distrito de São João da Barra

erosão açu

Erosão continua avançando e ameaça varrer do mapa a localidade de Barra do Açu no V Distrito de São João da Barra.

Venho acompanhando ao longo dos anos o processo de erosão costeira que afeta a localidade de Barra do Açú após a construção de um quebra-mar que protege um dos terminais do Porto do Açu.  Essa é uma tragédia anunciada nos estudos técnicos realizados pelo Grupo EBX do ex-bilionário para obter as licenças ambientais para a implantação do empreendimento que hoje está nas mãos do fundo de “private equity” EIG Global Partners.

Visitei a outrora aprazível e pacata localidade de Barra do Açu ao longo dos anos e a perda da faixa de areia é visível, com uma diminuição acentuada da faixa de praia. Entretanto, o processo que parecia ter estabilizado, agora voltou com força, deixando os habitantes da localidade cada vez mais apreensivos com o destino do local (ver vídeo abaixo mostrando a ação do mar neste sábado (30/09).

O mais lamentável é que após momentos em que se pretendeu alguma preocupação, seja por parte do governo municipal, da Câmara de Vereadores, ou da Prumo Logística Global, a situação agora está no melhor estilo do “À mercê da própria sorte”.

Esta situação demonstra que o discurso de desenvolvimento não apenas não se concretizou, como agora temos uma série de heranças malditas afetando todo o V Distrito de São João da Barra. É que além da erosão costeira, temos ainda a salinização de águas superficiais, o aumento das ações do narcotráfico em uma região que antes não vivenciava nenhum desses problemas.

Alerj realizará audiência pública em Mato Escuro sobre conflitos socioambientais na região do Porto do Açu

auidiencia pública

No dia 30 de junho, sexta-feira, às 17h, ocorrerá uma Audiência Pública sobre os Conflitos Socioambientais na região do Açu, em São João da Barra. Ela ocorrerá no Centro Municipal de Educação Avançada, em Mato Escuro.

Problemas como a falta de acessos a bens naturais públicos, a posse das terras, a relação com instituições públicas serão abordadas nesta audiência.

Esta audiência é promovida pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro – ALERJ, através através da Comissão de Trabalho, presidida pela Deputada Estadual Dani Balbi (PCdoB) e pela Comissão de Segurança Alimentar, presidida pela Deputada Estadual Marina do MST (PT). O autor do requerimento de audiência foi o Deputado Estadual Flavio Serafini (PSOL).

Fogo antecedido por explosão provoca rasgo na imagem do Porto do Açu

fogo buzios

Foto: Parahybano

O Porto do Açu, empreendimento iniciado pelo ex-bilionário Eike Batista, nunca materializou a imagem grandilonquente projetada pelo seu idealizador nas suas apresentações de Powerpoint. Isto se deu em que pese toda a mão dada pelos diferentes níveis de governo, incluindo o aporte de recursos bilionários de diferentes fontes públicas. Sem falar, é claro, no lamentável processo de desapropriação que prejudicou milhares de famílias de pequenos agricultores no V Distrito de São João da Barra.

Mas há que se reconhecer que, com base nos trabalhos de uma habilidosa assessoria de mídia, os atuais controladores do Porto do Açu conseguiram projetar uma imagem de eficiência gerencial e de sucesso do empreendimento. Pois bem,  como inicialmente noticiou o site Parahybano,  na madrugada desta 6a. feira,  uma explosão causou um grande incêndio em um navio ancorado no Porto do Açu, o barco norueguês Skandi Búzios, obrigando a mobilização de veículos do Corpo de Bombeiros para evitar danos maiores à infraestrutura portuára (ver vídeo abaixo).

Apesar do incêndio já ter sido controlado e alegadamente não existirem vítimas deste incidente, é inevitável dizer que anos de marketing estratégico podem ter ido pelos ares.  É que mesmo funcionando com baixa demanda, o Porto do Açu ainda passou por uma experiência que coloca em xeque a imagem de eficiência que procura passar em suas propagandas.

Agora, imaginemos o que poderia ter acontecido se o navio em que ocorresse um sinistro deste tipo fosse um desses superpetroleiros que o Porto do Açu sonha em ter ancorado em seus terminais. Com certeza, o problema teria sido bem mais complexo para ser controlado.

Na cidade do Porto do Açu, 43% dos habitantes dependem do “Bolsa Família” para ter (alguma) renda

Beneficiários do Bolsa Família x Percentual de Habitantes dos municípios de Campos, de Macaé, de Rio das Ostras e de São João da Barra de março de 2023 

bolsa familia 1

Por José Alves Neto

O gráfico abaixo apresenta os dados dos beneficiários do programa federal de transferência direta e indireta de renda, denominado de Bolsa Família, e o percentual em relação ao número de habitantes dos municípios de Campos, de Macaé, de Rio das Ostras e de São João da Barra, que hoje, fazem parte desse relevante instrumento de inclusão social, segundo a Secretaria Nacional de Renda de Cidadania (SENARC), do mês de março de 2023.

Bolsa família

No caso de Campos, por exemplo, estão no programa 31,60% dos seus 514.643 habitantes.

Em Macaé, os beneficiários chegam a 20,10% de 266.136 habitantes.

E em Rio das Ostras e em São João da Barra, os percentuais, são respectivamente, de 23, 97% de 159.529 habitantes e de 43,02% de 36.731 habitantes.

Diante desses números vergonhosos, observa-se, todavia,  São João da Barra, exibiu no mês de março de 2023, o pior índice. Logo, o município que tem no seu território, um dos maiores investimentos do mundo, o Porto do Açu, que se orgulha de ter investido desde 2014 o total de R$ 20 bilhões, conforme o site (https://portodoacu.com.br/o-porto/)

É um verdadeiro paradoxo. Em face desse cenário, uma pergunta não quer calar: cadê o desenvolvimento econômico e social do município sanjoanense? 


compass black

Este texto foi inicialmente publicado no “Blog do Zé Alves Neto” [Aqui!].

O Porto do Açu e a extrema pobreza em São João da Barra: dados mostram que o tão prometido desenvolvimento econômico não passou de miragem

Lanlamento da pedra fundamental Porto do Açu -27-12-2006 (1)

Eike Batista e o lançamento da pedra fundamental do Porto do Açu no distante ano de 2006

Em função das minhas múltiplas tarefas semanais na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), acabei não cometendo mais uma excelente postagem vinda do blog do economista José Alves Neto. Me refiro ao texto em que ele aborda a prevalência da miséria extrema na região Norte Fluminense. Segundo dados apresentados pelo José Alves Neto, a  extrema pobreza afeta 17.294 pessoas ou 47,08% dos habitantes do município de São João da Barra (36.731), o que vem a ser o índice mais alto de todo o Norte Fluminense. José Alves Neto lembra ainda que  é justamente São João da Barra que abriga o Porto do Açu onde alegadamente foram investidos mais R$20 bilhões de desde 2014 e se deverá investir outros R$ 22 bilhões até 2033, conforme está anunciado no site do empreendimento.

Como tenho estudado o empreendimento com profundida desde que começou a sua implantação, sou obrigado a apontar para o fato de que a maior parte desses investimentos realizados serviram apenas para criar um enclave geográfico com pouquíssimo contato com as áreas externas pertencentes ao município de São João da Barra.

Além disso, a verdade é que, apesar de todo o dinheiro aplicado na custosa implantação do Porto do Açu, o empreendimento até hoje é  “mais espuma do que chopp”. Segundos dados levantados por movimentos sociais, o Porto do Açu funciona hoje com menos de um terço de sua capacidade na área de óleo e gás, reforçando o óbvio que é o fato de que todo o dinheiro ali investido pelo Estado brasileiro foi basicamente um grande desperdício econômico. É que, como mostram os dados levantados por José Alves Neto, o Porto do Açu não só não serviu para aliviar a extrema miséria, mas acabou retirando as fontes de geração da renda de milhares de famílias de agricultores e de pescadores artesanais que vivam modestamente, porém com dignidade, no território de onde foram defenestradas para a instalação do empreendimento.

A concorrência do Porto Central deverá aumentar a inoperância do Porto do Açu e agravar a extrema pobreza no Norte Fluminense

Mas como desgraça pouca é bobagem, o jornal “A Gazeta”  informou ontem (11/5) que o presidente do IBAMA, Rodrigo Agostinho, informou que foi emitida a licença de instalação do Porto Central que ficará sediado no município de Presidente Kennedy (ES).  O Porto Central é uma espécie de cópia minimizada do Porto do Açu, mas irá oferecer uma concorrência direta para um empreendimento que nunca esteve à altura das promessas mirabolantes de Eike Batista (ver imagem abaixo).

Porto Central colocará  o Estado no caminho de  mais cargas

Maquete do Porto Central que teve sua construção em Presidente Kennedy (ES) liberada pelo IBAMA

O pior é que estando localizado a apenas 160 km de distância rodoviária de São João da Barra, o Porto Central deverá agravar os problemas ambientais que já foram gerados nas áreas ao norte do Porto do Açu, atingindo diretamente as cidades de Bom Jesus de Itabapoana e São João da Barra o que, por sua vez, deverá agravar os problemas sociais, com o risco de aumentar ainda mais a extrema pobreza nesses dois municípios. 

Não tenho dúvidas de que o somatório desses dois portos irá causar estragos ainda incalculáveis para toda a região Norte Fluminense, mas principalmente para os segmentos que hoje se encontram nas piores condições de vida.   É que esses enclaves geográficos não estão sendo idealizados para gerar desenvolvimento regional, mas sim formas ainda mais absurdas de exploração dos territórios onde são instalados. Aliás, no dia de hoje foi iniciada mais uma greve de trabalhadores no Porto do Açu que demandam  reajustes de até 30% em algumas categorias, além de reivindicar melhores condições de trabalho. Como se vê, mais um bom exemplo de que a miragem não resiste a um exame mínimo dos fatos.

Racionalidade coreógrafica tem dia de campo na Faculdade Cândido Mendes com presença de responsável de comunidades do Porto do Açu

devolvam 2

Em meus estudos sobre os impactos socioambientais causados pela implantação do Porto do Açu, acabei de entrar em contato com o conceito de “Racionalidade Coreográfica” que vem a ser   cálculo deliberado da conformidade social aos interesses econômicos do mercado.  Em outras palavras, a racionalidade coreográfica é composta por  movimentos harmônicos que buscam promover um engajamento político das empresas em detrimento de uma responsabilidade social efetiva. Assim, por detrás da imagem de preocupação, o que prevalece mesmo é a usura e a busca da maximização de lucros estratosféricos.

Agora, graças a uma ação desenvolvida pela Faculdade Cândido Mendes em Campos dos Goytacazes, todos os que estudam os impactos de grandes empreendimentos portuários sobre comunidades locais terão uma espécie de “dia de campo” para melhor entender a aplicabilidade da “racionalidade coreográfica. É que dentro da “Jornada Profissional:  Açu Greenport“, os participantes terão um encontro face-a-face com o Gerente de Relacionamento com Comunidades do Porto do Açu Operações S/A, o biólogo Wanderson Primo (ver imagem abaixo).

wp-1683641950481

Como conheço o normalmente boa praça Wanderson Primo praticamente desde que cheguei para trabalhar na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) sei que ele terá uma narrativa bem alinhada à racionalidade coreográfica para, digamos, “vender o peixe” de responsabilidade sócio-corporativa do Porto do Açu.

O problema é que conhecendo um pouco da realidade em que as populações que tiveram o tremendo azar de ficar sob a sombra do Porto do Açu,  não há racionalidade coreográfica que resista ao exame dos fatos como eles realmente se dão no chão arenoso do V Distrito de Sâo João da Barra. E uma coisa para mim é certa, a única realmente “green” no Porto do Açu é o “greenwashing” (ou em português “lavar com tinta verde”) que é feito de forma meticulosa pelos donos do empreendimento para ocultar todos as consequências ambientais negativas que já foram causadas pela implantação e funcionamento do empreendimento.

Aliás, já que é de relacionamento com comunidades que Wanderson Primo deverá falar, reposto abaixo o vídeo mostrando a ação truculenta de polícias militares e de empregados da Gás Natural do Açu (GNA) contra agricultores que estabeleceram cultivos em áreas que estão sendo arrestadas para a implantação da chamada “faixa de servidão”.  Quem sabe o Gerente de Relacionamento com Comunidades do Porto do Açu possa explicar o porquê de tanta violência contra quem só quer produzir alimentos.

Projeto Comprova analisa uso enganoso de vídeo mostrando conflito entre agricultores e a GNA no Porto do Açu

Conflito entre agricultor e policiais militares em plantação não tem relação com governo do PT

enganoso

Enganoso: É enganoso o vídeo que atribui ao governo do PT uma ação de policiais militares contra um agricultor. As imagens foram feitas no dia 5 de abril de 2023 na localidade de Água Preta, distrito do município de São João da Barra (RJ), onde há anos ocorre uma disputa entre produtores rurais e a joint venture Gás Natural Açu (GNA), responsável pela construção de usinas termelétricas e do Porto do Açu na região. As desapropriações são conduzidas pelo governo do Rio de Janeiro, desde 2021 sob o comando de Cláudio Castro (PL).

Conteúdo investigadoVídeo que mostra policiais militares mandando que um trator passe por cima de uma lavoura e usando spray de pimenta contra um homem, aparentemente responsável pela plantação. Sobre a imagem, há um texto onde se lê: “esse eh o governo de vcs petistas”.

Onde foi publicado: TikTok.

Conclusão do Comprova: É enganoso o vídeo que atribui ao governo do PT a ação de ao menos três policiais militares contra um homem em uma lavoura de abacaxi no município de São João da Barra, no Rio de Janeiro. No vídeo, os agentes mandam que um trator passe por cima da plantação, enquanto lançam spray de pimenta sobre o rosto de um homem, que tenta impedir a ação. As imagens foram gravadas no dia 5 de abril de 2023 na localidade de Água Preta, distrito de São João da Barra.

No vídeo, é possível identificar a farda da Polícia Militar fluminense pela bandeira do Estado no braço direito dos agentes. A Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) confirmou que a ação foi realizada por agentes do 8º Batalhão de Polícia Militar (BPM) de Campos dos Goytacazes, que foram acionados após um relato de descumprimento de ordem judicial em um terreno no distrito de Água Preta, em São João da Barra. O local é alvo de disputa entre agricultores que vivem na região e a Gás Natural Açu (GNA), uma empresa privada que constrói uma usina termelétrica na região.

Diferentemente do que afirma o texto escrito sobre a imagem, não há relação entre a ação dos policiais e qualquer governo do PT. A PM é subordinada ao Estado, que, no caso, é governado desde 2021 por Cláudio Castro, do PL, partido de oposição ao PT. O Rio de Janeiro não é governado pelo PT desde 2002, quando Benedita da Silva, que era vice de Anthony Garotinho, assumiu o posto após ele se licenciar para se candidatar à Presidência da República.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação:

O Comprova investiga os conteúdos suspeitos com maior alcance nas redes sociais. Até o dia 2 de maio, este vídeo havia alcançado 213,2 mil visualizações no TikTok.

Como verificamos

Primeiramente, o Comprova fez a transcrição da narração do vídeo, e identificou, nos segundos finais, uma voz masculina que afirma: “O produtor rural não tem força diante do dinheiro da GNA”. O narrador também fala em “força policial” e “Porto do Açu”. Por isso, o próximo passo foi buscar por estes termos no Google, associados à palavra “plantação”.

O resultado levou a uma publicação feita no dia 9 de abril de 2023 no site A Nova Democracia, que exibia o mesmo vídeo, denunciava uma ação da Polícia Militar na região de São João da Barra e mencionava a empresa GNA.

O Comprova, então, procurou por reportagens sobre o assunto e localizou uma publicação do Estadão de 9 de outubro de 2022 sobre as desapropriações no Porto do Açu, que fica na mesma região e pertence à mesma joint venture, e outra no site Ururau a respeito da ação policial que foi registrada no vídeo.

Em seguida, foram procuradas a Polícia Militar do Rio de Janeiro, a empresa GNA e o geógrafo Marcos Antonio Pedlowski, professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) e chefe do Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico (LEEA), que acompanha o caso.

Vídeo foi feito em São João da Barra, no Rio de Janeiro

As imagens registradas no vídeo aqui investigado foram feitas no dia 5 de abril de 2023 na localidade de Água Preta, distrito do município de São João da Barra, na região de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro. Na ocasião, policiais militares do 8º Batalhão de Polícia Militar foram acionados pela empresa privada GNA porque, segundo relato feito à polícia, um homem impedia a passagem de máquinas para a construção de uma linha de transmissão que ligará uma usina termelétrica ao Sistema Interligado Nacional, em São João da Barra.

A região é alvo de disputa há anos. De um lado está a empresa GNA, que já construiu no local uma usina termelétrica, a GNA I, e que agora ergue uma segunda, a GNA II, com início da operação previsto para 2025. Para que a usina opere, contudo, é preciso que passem pelo local linhas de transmissão ligando a usina termelétrica ao Sistema Interligado Nacional. Do outro lado da disputa estão as famílias proprietárias das terras por onde passarão as linhas de transmissão.

De acordo com o geógrafo Marcos Antonio Pedlowski, professor da UENF que acompanha a situação, o conflito nesse caso específico se dá porque não há consenso entre as famílias e a empresa a respeito dos valores pagos como indenização pelo uso por tempo indefinido das terras.

“As famílias que possuem as propriedades que ficaram no caminho das torres de transmissão reclamam dos baixos valores pagos pela GNA para impedir o uso das terras que ficarem dentro da faixa de servidão. Por isso estão acontecendo conflitos entre a GNA e essas famílias”, explica Pedlowski.

Já a GNA informou, em nota, que a empresa ganhou na Justiça o direito de usar a faixa de servidão – o trecho de terra ao lado das torres de eletricidade – para a passagens das linhas de transmissão que ligarão a usina termelétrica em construção ao Sistema Interligado Nacional. “Proprietários afetados pela faixa de servidão receberam oferta de indenização pelo acesso e uso da área. Os que não aceitaram tiveram indenizações depositadas em juízo”, diz a nota.

Policiais mandaram destruir lavoura de abacaxi recém-plantada

De acordo com o professor Marcos Antonio Pedlowski, a decisão judicial que autorizou o uso da faixa de servidão pela empresa GNA foi uma liminar de um juiz de São João da Barra, afetando centenas de produtores, incluindo os donos da terra onde as imagens foram feitas. Segundo ele, os donos da propriedade arrendaram um pedaço do terreno para um homem que fez no local uma plantação de abacaxi, mas a área arrendada ficava justamente dentro da faixa de servidão, o que desencadeou o conflito.

A GNA informou em nota que, apesar da decisão judicial, na semana do dia 5 de abril, “a equipe da empresa foi impedida de exercer suas atividades por um bloqueio físico feito por um indivíduo que se apresentou como novo responsável pela área e dono de uma recente lavoura de abacaxi”. Por isso, a Polícia Militar foi acionada.

Segundo a PMERJ, os policiais do 8º BPM (Campos dos Goytacazes) foram acionados devido a um relato de descumprimento de ordem judicial em terreno na localidade de Água Preta. “Segundo os policiais militares que estavam na ocorrência, houve resistência de pessoas que encontravam-se no local e, a princípio, descumprindo a determinação judicial”, disse a PMERJ, em nota.

No vídeo investigado, é possível ver quando um dos policiais manda que um trator passe por cima da plantação, enquanto o homem que tenta impedir a ação recebe no rosto o que parece ser um jato de spray de pimenta. A ação truculenta foi notícia em sites locais (A Nova Democracia e Ururau) e a PMERJ informou que “o 8ºBPM instaurou um procedimento apuratório interno a respeito desta ocorrência”. O inquérito está em andamento.

Não há ligação entre a ação policial e o governo do PT

Apesar de mostrar uma situação real, o vídeo engana ao afirmar, com um texto sobre a imagem, que a ação registrada é do governo petista, insinuando uma relação com o governo federal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na realidade, as partes envolvidas no conflito são uma empresa privada, a GNA, os proprietários das terras por onde passam as linhas de transmissão da usina que está sendo construída, e a Polícia Militar do Rio de Janeiro, vinculada ao governo do estado, e não ao governo federal.

Desde 2021, o Rio de Janeiro é governado por Cláudio Castro, do PL, partido que faz oposição ao PT. A última vez que um petista ocupou o Palácio Guanabara foi em 2002, muito antes do conflito que aparece nas imagens.

O que diz o responsável pela publicação

A reportagem não conseguiu contatar o perfil que postou o vídeo, uma vez que o TikTok, onde o conteúdo foi postado, não permite o envio de mensagens entre contas que não se seguem.

O que podemos aprender com esta verificação

O vídeo mostra um conflito entre policiais e um agricultor, sem informar onde ou quando aconteceu. No entanto, há elementos no conteúdo que permitem identificar algumas pistas: o narrador menciona o nome de uma empresa e fala sobre a polícia, mas não se refere em momento algum ao governo federal ou ao PT, o que já é um indício de que o contexto talvez seja outro. Uma busca rápida por vídeos na internet que envolvem o nome da empresa e um conflito com policiais rapidamente leva ao conteúdo original, que mostra não haver mesmo uma relação com o governo petista.

Por que investigamos

O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas e eleições no âmbito federal e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.


color compass

Este texto foi inicialmente publicado no site do “Projeto Comprova” [Aqui!].