Ciência como “commodity” atinge novo patamar na Coréia do Sul com pesquisadores colocando filhos como co-autores

A respeitada revista “Nature” publicou no dia 02 de fevereiro de 2018 um artigo assinado pelo jornalista científico Mark Zastrow sobre um escândalo que emergiu nas principais universidades da Coréia do Sul em função de pesquisadores estarem colocando seus filhos como co-autores em artigos publicados em revistas científicas [1].

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A razão para esta prática seria a intenção dos pesquisadores melhorarem as chances de seus filhos para ingressar nas melhores universidades da Coréia do Sul, no que parece ser uma forma bem sofisticada de nepotismo.

O fato da prática estar disseminada nas melhores universidades sul coreanas levou ao governo da Coréia do Sul a iniciar uma investigação nas publicações indexadas em base de dados como Web of Science, Scopus e o Science Citation Index (SCI) para verificar o possível cruzamento de nomes dos 76.000 docentes de tempo integral existentes no país com seus filhos.

Segundo o que publicou Mark Zastrow, resultados iniciais da investigação cobrindo apenas a última década, e que foram publicados em janeiro de 2018, apontaram que a prática estava presente em 29 universidades sul coreanas, sendo detectadas 82 publicações, sendo que dentre estas em apenas 39 casos a participação de filhos como co-autores foi considerada legítima [2].

Como a investigação do Ministério da Educação foi encerrada apenas na semana passada é provável que os resultados finais desta investigação ainda demorem a ser conhecidos. Entretanto, o que já fica claro que o processo de comodificação da ciência que já havia resultado em graves distorções em prol da quantidade em detrimento da qualidade, agora atingiu um novo patamar de deterioração da integridade.

Resta saber se essa prática está presente em outros países e em qual intensidade.  É que se isto for um caso que vai além das universidades sul coreanas, os princípios meritocráticos que supostamente guiam a progressão profissional na carreira científica serão fortemente questionados, como já estão sendo na Coréia do Sul.


[1] https://www.nature.com/articles/d41586-018-01512-5

[2] http://www.koreatimes.co.kr/www/nation/2018/01/119_243144.html

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A expansão das revistas de”trash science”: por que devemos nos importar?

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Não sei se estou sendo alvo pessoal de uma campanha de marketing de diferentes “editoras” de revistas que disseminam “trash science”, mas minhas contas de correio eletrônico estão sendo especialmente bombardeadas nas últimas semanas com anúncios me convidando a publicar artigos em áreas que vão desde a pediatria até a engenharia de materiais (vejam abaixo três amostras destes convites)

A coisa é tão escancarada que nem é preciso visitar o blog do Prof. Jeffrey Beall (Aqui!) para verificar se editora e revista estão na sua lista de revistas predatórias.  E só esse fato explicita o fato de que o mercado de lixo científico está em processo de florescimento e não o contrário.

A pergunta que se sucede, por que o mundo do “trash science” para estar tão bem a despeito de esforços localizados para mostrar a verdadeira natureza dessa parte da indústria das publicações científicas? A primeira ideia que me ocorre é que seguindo as leis de mercado, oferta e demanda acabam se retroalimentando. Mas a coisa me parece ser mais complexa, pois se olharmos os custos envolvidos para que se publique nessas revistas caça-níqueis, há também que se introduzir análises sobre quais são os ganhos que os pesquisadores ou proto-pesquisadores acabam recebendo em troca pelos investimentos que fazem.

O mais crítico disso tudo é que ao se banalizar e incorporar como válidos artigos que não seriam publicados em revistas que sejam minimamente sérias no uso do processo de revisão por pares (ou peer-review), temos uma contaminação perigosa não apenas no que é tomado como sendo ciência, mas também nos processos de premiação e contratação. 

Outro aspecto que me preocupa com o caminho praticamente livre que essas revistas trash possuem é o processo anti-pedagógico que elas cumprem junto às novas gerações de pesquisadores. É que se tacitamente legitimar a publicação nesses veículos, e ainda por cima premiar quem faz isto, o que estamos dizendo a jovens pesquisadores é que o vale-tudo está oficializado na disseminação do conhecimento científico. Se isto já é um problema em países onde a comunidade científica já é robusta e bem consolidada, imaginemos o que isto causa nos países da periferia capitalista.

Finalmente, no caso brasileiro afora algumas tentativas de expor os malefícios do “trash science” (cito explicitamente os esforços do jornalista Maurício Tuffani (Aqui!)), o silêncio é quase total e as publicações de baixa qualidade em inglês canhestro abundam.  No caso brasileiro, o silêncio sepulcral do CNPq e da CAPES  sobre este problema, bem como a objetiva falta de ação para coibir  a premição do “trash science” são sinais de que temos um árduo desafio pela frente. Resta saber quem vai querer comprar esta briga, especialmente num tempo em que convivemos com um encurtamento brutal de verbas para a pesquisa.

Maurício Barreto: Se mudarmos a forma de avaliar a ciência, mudamos a forma de entender e valorar a publicação científica

Um dos cientistas brasileiros mais renomados no cenário internacional fala da importância de mudar os pesos da avaliação científica

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Membro da The World Academy of Sciences (TWAS), da Academia Brasileira de Ciências (ABC), e um dos mais profícuos pesquisadores da Saúde Coletiva, Maurício Barreto tem acompanhado de perto o debate sobre o papel da produção científica no mundo e alerta: se universidades e centros de fomento não abandonarem o atual modelo de avaliação, baseado unicamente na quantidade de publicações e citações, a própria ciência tende a ampliar o fosso que a aparta do resto da sociedade. “Cada vez mais, a consciência de que esse modelo baseado em índices e fatores de impacto não demonstram a importância do desenvolvimento científico e dos efeitos da ciência, o que exige esforços de propor e apresentar alternativas”.

Para ele, é fundamental que a academia tome para si o compromisso social da produção do conhecimento. Barreto não fica apenas nas palavras. A partir de seu estudo pioneiro sobre os impactos do Bolsa Família sobre a mortalidade infantil e demais aspectos do ciclo vital e de desenvolvimento, o governo federal, na figura do Ministério de Desenvolvimento Social (MDS), Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Universidade de Brasília (UnB) e Universidade Federal da Bahia (UFBA) assinaram ano passado um acordo de cooperação técnica que possibilitará a realização de um estudo de corte baseado nos dados de cerca de 100 milhões de brasileiros que se beneficiam dos programas sociais e compõem a base de dados do Cadastro Único (CadÚnico).

Para o Portal Abrasco, ele fala do desafio da avaliação, da crise que já se abate sobre o custeio dos programas de pós-graduação, do debate sobre o produtivismo e do papel da ciência, temas que abordará em palestras e mesas redondas durante o Abrascão 2015,  que acontece entre 27 de julho e 1 de agosto, na Universidade Federal de Goiás, em Goiânia.

“O Abrascão é uma caixa de ressonância, por isso é vital falarmos de avaliação. Temos a oportunidade de pensar sobre a avaliação numa visão múltipla”, afirma Barreto. Leia a entrevista e confira ao final a programação.

Abrasco: Em sua conferência no 9º Congresso Brasileiro de Epidemiologia, o Epivixo senhor abordou como a epidemiologia vive um processo de atração e distanciamento dos demais campos científicos, sendo fundamental ter como centro os grandes projetos que afetam a saúde das populações. Isso é possível dentro do atual cenário da produção científica?

Maurício Barreto: O campo da Saúde Coletiva tem uma serie de desafios internos entre os quais inclui a articulação de conhecimento produzido em várias áreas científicas. Estamos dentro do campo geral das ciências da saúde, e vivemos os dilemas complexos inerentes a esse setor, gerador de expectativas e cujos resultados, de diversas formas, têm grande de interferir no cotidiano das pessoas e das populações. Mesmo com todas as nossas características específicas e tendo de seguir as regras universais da produção científica, temos que refletir sobre nossas especificidades e em especial os efeitos que nosso conhecimento gera sobre as sociedades humanas.

Abrasco: Quais são as deficiências da avaliação das ciências?

Maurício Barreto: A tradição da avaliação da ciência vem de uma disciplina chamada cienciometria. Ela parte da ideia central de aferir todos os campos do conhecimento científico por uma única métrica de uso universal baseada em índices do que se publica e do que se cita na produção científica mundial. Para isso, utiliza medidas, como o Fator de Impacto, o Índice H, medidas que têm pretensão de métricas universais, que sirvam para qualquer campo científico. Só que esta opção gera muitos dilemas e desafios. O mais importante é que as ciências são muito diferentes entre si. Veja a Cosmologia, que agora está na mídia discutindo sobre as condições de Plutão, por conta da aproximação da sonda da NASA a este planeta. Como comparar a Cosmologia com a Saúde Coletiva, que tem o potencial de gerar efeitos mais concretos no cotidiano da vida das pessoas? Os seja, como comparar estas duas ciências que geram efeitos tão diferentes?

Deve-se enfatizar que estas duas ciências não são tão diferentes na forma de publicar e de citar (os novos resultados obtidos sobre Plutão com certeza serão publicados em revistas científicas e certamente serão citados) – a maior diferença é nos efeitos que estas duas ciências geram sobre a sociedade. Porém, até o momento as avaliações científicas não levam (ou leva muito pouco) isso em consideração. Nesta perspectiva, eu partilho o ponto de vista de que a avaliação do conhecimento não pode ser somente baseada em parâmetros blibliométricos (publicar e citar). Nosso objetivo como pesquisadores deve ser o de modificar a realidade que vivemos e a avaliação científica de ajudar a entender como os efeitos do conhecimento cientifico por nós produzidos afetam a sociedade. A produção de uma nova vacina, contribuir para a organização de novos programas na saúde devem ser objetivos finais de nossos programas científicos, e não apenas as publicações que tratam desse tema. As publicações são estágios desses empreendimentos, não o seu fim.


Abrasco: No mundo atual, grandes grupos econômicos, como o Elsevier, dominam a publicação científica, o que vem gerado vários protestos da comunidade acadêmica internacional. O que é possível fazer para reverter esse quadro?

Maurício Barreto: De fato, quem domina o campo e formula as regras são, em boa parte, as grandes editoras internacionais. Quando falamos que o Fator de Impacto de uma publicação é alto, podemos também dizer que alto também é o valor econômico das empresas que detêm os direitos editoriais desta revista. Mas temos alternativas, como revistas online e de acesso aberto. Aqui no Brasil ainda temos a cultura das revistas e periódicos ligados às associações, sem objetivos empresariais por trás. O SciELO tem sido um bom exemplo de iniciativa que se contrapõe a lógica de como o capitalismo vem moldando o empresariamento editorial das ciências.

Nos países desenvolvidos é mais claro o campo de disputa econômica que se tornou a publicação científica. Como modificar este quadro tem sido tema de debates internacionais. Entretanto, não é uma tarefa simples, não há fórmulas prontas. O consenso é que o modelo atual é insuficiente e não transparece as aspirações do conhecimento científico como algo que pertence ao bem comum. O aparecimento de outro modelo exige grande consenso em torno desse reconhecimento. Introduzir outros elementos avaliativos, como qualidade, efeitos e impactos da produção científica geraria outros focos de debate, hoje tão centrado na publicação científica. Isso é fundamental para o campo da saúde, que precisa criar condições ou mesmo liderar e desenvolver alternativas em torno de como perceber e mesmo mensurar os efeitos da sua produção científica.

Abrasco: Os cientistas que lideram essas críticas centram fogo também na crítica ao produtivismo que impera nas academias. A crítica que o senhor faz à avaliação das ciências parte dos mesmos pressupostos?

Maurício Barreto: Historicamente, o conhecimento científico é apresentado em forma de publicações, isso faz parte do fazer científico. O modo de se publicar e a influência das publicações sobre a avaliação é que têm mudado. Acredito que o debate do produtivismo tem suas razões e não razões. O discurso contra o produtivismo acerta quando critica a obrigação do volume de produção, quando aponta a excessiva valorização de quantidades e métricas derivados do número de publicações e de citações. O erro advém de colocar todo o peso da avaliação – seja individual, seja coletiva – nas publicações. Se colocarmos no centro da avaliação os efeitos que tal conhecimento possa ter ou vir a ter na vida das pessoas e das sociedades, teríamos condições de produzir um novo debate e mudar o foco da avaliação centrado quase exclusivamente na publicação. Publicar com qualidade é importante e todos concordamos, faz parte do processo da ciência e de uma ciência feita de forma rigorosa – dessa lógica não escapamos, nem podemos escapar. O central é mudar a lógica do que queremos, o que é feito e o que podemos fazemos com a ciência que produzimos. Acredito que seja a forma de mudar o sentido do debate sobre o produtivismo e transformá-lo em um debate útil sobre os sentidos do labor científico.

Abrasco: Como o senhor vê o processo de avaliação das ciências na academia brasileira e o anúncio de cortes da Capes em importantes programas de custeio das Pós-Graduações? 

Maurício Barreto: A produção científica brasileira e nós, pesquisadores, continuamos presos a esse modelo sobre o qual existe certo consenso de que está superado, mas por razões nem sempre compreensíveis, continuamos utilizando-o. Continuamos destacando apenas como melhor aquele que mais publica, que é mais citado, esquecendo de que precisamos também destacar aqueles conhecimentos que afetam as nossas vidas. Mudanças na forma de avaliar o conhecimento produzido poderiam vir a ser uma valiosa contribuição na busca de sentido e mesmo utilidades para o conhecimento que produzimos. Porém, deve-se enfatizar que esta não é uma tarefa simples e que já está pronta, faz-se necessário o desenvolvimento de novos modos e mesmo de novas métricas de avaliação.

A atual crise só agrava e mostra as insuficiências do modelo de avaliação que usamos. Todo o nosso sistema nacional de pós-graduação é mal financiado, mesmo nos momentos de calmaria econômica. Espero que os cortes atuais sejam apenas momentâneos, pois sua manutenção, com certeza, será uma pá de cal em cima desse sistema, que exigiu imensos esforços da sociedade brasileira para a sua construção.

O debate sobre a avaliação é central nesse momento, pois pode propiciar um redirecionamento e alternativas, e mostrar que nossa missão é maior do que produzir artigos científicos. Não fomos criados para ser uma comunidade de produtores de artigos, mas sim de conhecimentos que contribuam para a compreensão abrangente dos problemas de saúde, para o fortalecimento do SUS e para as transformações necessárias nas condições de saúde da população brasileira. Esse deveria ser o norte do nosso sistema de avaliação. Porém, para que isso possa acontecer, os programas precisam continuar existindo e produzindo. À medida que se reduz cada vez mais o financiamento, a luta passa a ser apenas pela misera sobrevivência, perdendo o sentido de debates em torno da avaliação.

Abrasco: A defesa do SUS universal é o tema do Abrascão 2015. Qual é a importância desse debate no cenário brasileiro?

Maurício Barreto: Ao colocar a universalidade dos sistemas de saúde como tema central deste Congresso, a Abrasco reafirma-se como uma organização criada para defender o sistema de saúde brasileiro e contribuir para o desenvolvimento do SUS. Como parte da turbulência que vive a sociedade brasileira, o nosso sistema de saúde também atravessa momentos críticos. Muita coisa boa está acontecendo, por exemplo, a expansão da Rede de Atenção Primária e o nível de equidade que está se alcançando neste nível de atenção, porém e ao mesmo tempo, vários outros de problemas existem e precisam de soluções. Em todos os problemas a questão da universalidade é relevante. Na perspectiva da nossa comunidade científica, tudo isto implica em desafios de continuar contribuindo para o SUS integral, resolutivo, universal que almejamos. Esse debate é de grande relevância para nós, como parte da comunidade de produção científica e, certamente, de onde poderão sair os conhecimentos necessários para a emergência de soluções compatíveis com a grandeza dos problemas e desafios que é a construção de um SUS almejado pela sociedade brasileira.

(Abrasco)

FONTE: http://www.jornaldaciencia.org.br/edicoes/?url=http://jcnoticias.jornaldaciencia.org.br/2-mauricio-barreto-se-mudarmos-a-forma-de-avaliar-a-ciencia-mudamos-a-forma-de-entender-e-valorar-a-publicacao-cientifica/