À beira do colapso? A falência dos modelos atuais de pesquisa e pós-graduação

Por Érico Andrade para o “Blog da Boitempo” 

O sistema de pós-graduação no Brasil conheceu um avanço raro em poucas décadas. Para dar um exemplo, basta dizer que em 2023 a pós-graduação stricto sensu superou a marca de 350 mil matrículas. O crescimento da produção científica no Brasil e o incremento na formação de pessoas com mestrado e doutorado é notável. Segundo o Plano Nacional de Pós-Graduação, temos ainda um número deficitário de doutores quando comparado a outros países, mas com um esforço descomunal da comunidade acadêmica estamos equalizando esse quadro. Contudo, esse crescimento, por um lado, não foi acompanhado de melhores condições de trabalho, e por outro, foi objeto de uma maior ingerência dos órgãos de controle sobre a vida universitária. Ou seja, o aumento significativo na produção científica não teve como contrapartida um aumento do investimento em ciência que pudesse desonerar o pesquisador de ser um administrador, contador e expert em prestação de contas de projetos. Ademais, os órgãos de controle passaram a comportar cada vez mais exigências — todas elas quase kafkianas. Nos programas de pós-graduação, as secretarias (quando existe secretaria) parecem abarrotadas de trabalho, porque os sistemas das universidades para monitoramento da vida acadêmica estão cada vez mais complexos. Para alguns deles, aliás, é preciso até um tutorial de uso! 

Sob o pretexto de publicizar os atos administrativos, as universidades e agências de fomento têm sequestrado o tempo de pesquisa em nome de uma burocracia que aumenta na mesma medida em que o corpo técnico da universidade é diminuído e precarizado. Igualmente, o aumento de vagas na pós-graduação não é acompanhado por um crescimento no número de bolsas, e joga estudantes para uma espécie de concorrência fratricida e exaustiva para garantir um direito básico, qual seja, cursar uma pós-graduação com alguma renda que lhes permita se dedicar minimamente à produção acadêmica.

Essa concorrência se estende ao corpo docente, que muitas vezes, a fim de garantir mais recursos para os programas de pós-graduação, tem que produzir milhares de eventos, artigos e preencher não mais apenas o Lattes, mas diversas plataformas (Orcid, web of science, Scopus, academia.edu etc.) para se habilitar a submeter projetos que são avaliados considerando os rankings estrangeiros. Para a avaliação desses projetos, as agências de fomento naturalizaram o caráter privado dessas plataformas e obrigam o pesquisador a se desdobrar em tarefas que parecem não ter fim. A representação icônica disso é o nome do programa para recuperação de citação, “publish or perish” (literalmente, publique ou pereça), que indica que a morte acadêmica é o destino de quem não se adequa à compulsão por produzir. 

É nesse contexto que a lembrança de um texto do psicanalista Winnicott parece decisiva naquilo que, aqui, ele pode nos servir de metáfora. Em “O medo do colapso”, ele nos mostra que o medo intenso de um colapso frequentemente não é um temor do desconhecido, mas de reviver o que já experimentamos. Partindo dessa imagem como metáfora, é preciso afirmar que se sentimos medo do colapso da vida acadêmica é porque, de algum modo, esse colapso já ocorreu. Acredito que é precisamente o que estamos vivendo nos programas de pós-graduação quando, para cada tese escrita, cada projeto aprovado e cada evento feito, é produzida uma carga muito mais exaustiva de trabalho e, com isso, mais angústia, adoecimento e insegurança (diante da ameaça constante de perda de bolsas ou necessidade de devolver o financiamento recebido do próprio bolso por causa de um erro na prestação de contas).

É possível dizer que o atual sistema de avaliação, focado, sobretudo, em resultados — com as suas enormes exigências de produção e de comprovação de produções —  mimetiza tanto a lógica dos órgãos de controle quanto a lógica capitalista. O atual sistema de avaliação termina por contribuir para empurrar toda a comunidade acadêmica para um precipício.

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Érico Andradeé psicanalista, filósofo e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).


Fonte: Blog da Boitempo

A universidade brasileira é refém do produtivismo

Exame de uma universidade sem dinheiro e sem projeto. Pesquisas são repetitivas ou rendidas a modismos. Cai a renovação teórica, busca-se financiamento privado e pontuação. Com saberes apartados da sociedade, portas são abertas ao mercado

Por Michel Goulart da Silva para “Outras Palavras” 

Pode-se afirmar que o fundamento que estrutura o meio acadêmico brasileiro é o da precarização, ou seja, a maior parte dos profissionais que produzem conhecimento científico o fazem em condições de extrema dificuldade. Não há muitas das condições básicas para a realização das atividades, seja em termos de estrutura física ou de pessoal, fazendo com que o pesquisador e seus colaboradores encontrem grandes dificuldades para realizar seu trabalho.

Os professores das universidades públicas, onde é realizada a maior parte das pesquisas, encontram dificuldades como a escassez de tempo para se dedicar à pesquisa e à extensão, combinada a uma extensa carga horária de aulas. Os professores das instituições privadas, com poucas exceções, não são incentivados a fazer pesquisa nem a atuar na pós-graduação. Os técnico-administrativos, além de gastar a maior parte do seu tempo em tarefas operacionais, sofrem com todo tipo de preconceitos e marginalização, tornando praticamente impossível a dedicação a outras atividades do espaço acadêmico, como pesquisa e extensão. Os centros de pesquisa públicos são poucos e, a despeito de produzirem importantes pesquisas, não conseguem dar conta das necessidades demandadas pela sociedade.

Outro aspecto a ser considerado se refere à materialização da precarização na condição dos estudantes. Como os docentes têm dificuldades de tempo e de estrutura para realizar suas pesquisas, acabam sendo os estudantes os responsáveis por realizar parte dmerco trabalho, cabendo ao coordenador do projeto se limitar a uma orientação genérica ou simplesmente colocar o nome no artigo final. Esse elemento se manifesta em especial numa divisão de tarefas em que a pesquisa dos orientadores é dividida em partes que os discentes assumem, independentemente do seu nível de formação. Com isso, grande parte das dissertações e teses desenvolvidas no interior dos grupos de pesquisa acabam sendo não o produto do interesse dos pesquisadores em formação, mas fragmentos de uma investigação cujos resultados estão voltados para os interesses e para o currículo do docente que coordena o projeto.

Os discentes, a despeito da enorme responsabilidade que acabam assumindo, inclusive eventualmente de docência, recebem bolsas cujos valores não condizem com suas necessidades vitais e mesmo de apoio às suas pesquisas. Em meio à necessidade de aquisição de bibliografia, de viagem para pesquisas e eventos, além de necessidades primordiais, como se alimentar e pagar aluguel, os valores pagos pelas bolsas vão sendo corroídos pela inflação sem que haja qualquer política de reajuste permanente. Um fator ainda mais degradante se refere ao fato de que, em um cenário de crise econômica e desemprego, para esses pesquisadores em formação a bolsa muitas vezes não está ligada a um projeto de vida e carreira como pesquisador, mas apenas à necessidade imediata de sobrevivência.

Em meio a isso, se coloca a supervalorização da titulação, onde a obtenção do doutorado não é encarada como uma fase da formação do pesquisador, mas um objeto de poder que pode ser utilizado como uma forma de distinção dentro do ambiente acadêmico. Nas universidades o título de doutor pode representar também o ponto mais elevado dentro da burocracia universitária, ocupando cargos de direção ou mesmo a reitoria. O docente doutor pode orientar pesquisadores de todos os níveis de formação, pleitear todos os tipos de financiamento e acessar todos os cargos e órgãos disponíveis na instituição. Muitos doutores fazem questão não apenas de ressaltar sua titulação, mas de destacar que isso os torna especiais e, por isso, mais importantes que todos os demais profissionais que atuam na instituição, inclusive em comparação até mesmo com técnico-administrativos que possuem doutorado. Essa relação de poder e detenção de status é uma demonstração de que “o capital universitário se obtém e se mantém por meio da ocupação de posições que permitem dominar outras posições e seus ocupantes”.

Para que seja relevante, o título de doutor dos pesquisadores precisa estar acompanhado de uma rede de financiamento e alianças que possibilitem à instituição obter mais e mais recursos. Em função disso, não importa a relevância da pesquisa ou o papel que possui o pesquisador em sua área, mas somente a capacidade que ele tem de obter recursos, sejam públicos ou privados, e as redes de contatos em que está inserido. Para a maior parte das instituições vale mais a pena ter um pesquisador que, embora sem grandes contribuições em sua área de pesquisa, possua amigos influentes em outras universidades e centros de pesquisa.

Essa necessidade de busca por financiamento impacta na escolha do que é produzido na instituição, ainda que a pesquisa seja irrelevante em sua área do conhecimento ou apresente uma baixa qualidade teórica e metodológica. O critério passa pela publicidade que a pesquisa possa alcançar e pela sua capacidade de ser vendida ao mercado. Esse processo tem relação direta com a crise na qual se encontra o sistema capitalista, que:

“[…] reflete-se numa crise dos valores burgueses, da moralidade, da religião, da política e da filosofia. O pessimismo que aflige à burguesia e aos seus ideólogos neste período se manifesta na pobreza de seus pensamentos, na trivialidade de sua arte e no vazio de seus valores espirituais. Expressa-se no espantalho filosófico pós-modernista, que se imagina superior a toda filosofia anterior, quando, na realidade, é absolutamente inferior”.

Muitas das pesquisas se tornam meras repetições umas das outras, com pequenas variações, dentro de grupos de pesquisas ou como parte de redes. Produz-se uma grande quantidade de teses, dissertações e artigos que basicamente discutem os mesmos assuntos, apresentando pequenas mudanças nos objetos ou nos problemas a serem discutidos. Não há uma preocupação efetiva em ensaiar novas metodologias e perspectivas, mas somente em chegar a um produto, o que obviamente é garantido por uma metodologia conhecida e utilizada de forma repetida e recorrente. Não se trata aqui de experimentos variados que levam a um novo conhecimento, podendo contribuir inclusive para uma renovação daquele campo de pesquisa, mas de um conhecimento pronto que basicamente vai sendo repetido à exaustão e, dessa forma, garantir a produção em grande escala de dissertações, teses e artigos.

Uma consequência dessa repetição de métodos e procedimentos é um completo desdém pelo debate teórico. Evita-se produzir reflexões que exijam a leitura aprofundada de clássicos e um denso debate epistemológico, e que poderiam apontar para novas interpretações ou mesmo para construções teóricas inovadoras. O caminho mais comum é partir de algum referencial pronto, normalmente algum autor ou um campo da moda na Europa ou nos Estados Unidos, e aplicar na pesquisa. Muitos pesquisadores apenas se alongam em citações que, com sorte, talvez façam sentido dentro da lógica do texto. Como consequência, a ciência “se converter numa rotina de simples absorção e arquivamento de ideias, de mera repetição de procedimentos conhecidos e sancionados, dos quais apenas se esperam os resultados seguros e rendosos que não podem faltar”. Torna-se, assim, praticamente impossível a construção de um referencial teórico que apresente inovações e novos olhares para os objetos de pesquisa.

Essa situação acaba se mostrando mais grave na pós-graduação, onde se estruturou uma avaliação quantitativa do trabalho realizado, embasada num sistema de controle que inicia nos projetos em andamento, passa pelas orientações e trabalhos em eventos, chegando à publicação de artigos e livros, exigindo uma coerência temática e metodológica que é medida não por critérios teóricos e metodológicos ou pela relevância para a área de conhecimento, mas, em última instância, por palavras-chave ou número de citações. Os pesquisadores, as instituições a que estão vinculados, os periódicos e os livros são categorizados e ranqueados, sendo sua classificação um critério determinante na definição da distribuição de recursos. Entende-se que essa “adoção do modo quantitativo de avaliação das produções cientificas, e o fato de que ele passa ser visto como razoável, decorre do processo de mercantilização ao qual a ciência está sujeita no capitalismo”.

Esse cenário de pressão pela produtividade está associado às mudanças na forma de organização do trabalho, na medida em que o capitalismo necessita cada vez mais que a técnica e a tecnologia garantam a diminuição nos custos de produção. No sistema capitalista, “a grande indústria tem de incrementar extraordinariamente a força produtiva do trabalho por meio da incorporação de enormes forças naturais e das ciências da natureza ao processo de produção”. Cabe à pesquisa um papel decisivo nesse processo, na medida em que possibilita a incorporação de novas tecnologias ao processo produtivo, exigindo-se resultados rápidos, inovadores e com impactos práticos. Como parte do processo de “reorganização econômica, a esfera de natureza simbólico-cultural altera-se, para constituir-se de valores e signos próprios da produção econômica, no contexto de tecnificação da política e da cultura”. Consequentemente, diante de dificuldades estruturais, de pressão pela produtividade, e de avaliações com critérios arbitrários, criam-se formas de garantir dados estatísticos de produção. Nesse sentido:

“[…] a pressão produtivista gera o efeito perverso do agir instrumental e do abandono do essencial (o processo em si, gerador de conhecimento e enriquecedor da formação intelectual) pelo aparente, isto é, o resultado espelhado na pontuação. Em outras palavras, privilegia-se a quantidade sem se importar com a qualidade”.

Esse problema se manifesta no comércio de publicações. O mercado das revistas acadêmicas e as parcerias com empresas fazem com que se deixe de lado a possibilidade de produção de conhecimentos que possam ter um caráter socialmente refletido e que apontem para uma perspectiva minimamente crítica. Construiu-se um complexo sistema de indicadores e estatísticas que mede não a qualidade ou a importância do conhecimento produzido, mas a quantidade de textos que o pesquisador produz. Não importa o conteúdo desses textos, se repetem integralmente o que foi escrito antes ou mesmo se não tem alguma relevância, mas sim as citações que faz e as que possa vir a obter. Os textos podem não apresentar nenhuma contribuição para sua área do conhecimento, mas tornam-se importantes dentro da realidade paralela do mundo acadêmico, importância essa completamente subjetiva e que somente faz sentido para um grupo específico de profissionais. O objetivo desses artigos produzidos em grande quantidade não é a apresentação de reflexões realizadas a partir de uma pesquisa com efetiva contribuição para seu campo de estudo ou a intervenção para a solução de um problema da sociedade, mas a obtenção de resultados que sejam mensuráveis por um sistema de avaliação definido com critérios arbitrários e desconhecido pela esmagadora maioria das pessoas de fora da universidade.

Nesse cenário, de precarização do trabalho da pesquisa e de atribuição de pouca relevância ao conteúdo que se produz, a adesão aos modismos acaba sendo o caminho seguido por pesquisadores em qualquer nível de formação. Os pesquisadores acabam ou adotando os temas mais comuns do momento ou incorporando métodos e teorias mais utilizados por seus pares, na medida em que isso facilita tanto a obtenção de recursos e bolsas, como a publicação em revistas. O pesquisador deixa de ser um profissional que procura novos caminhos para seu trabalho, onde poderia encontrar saberes ainda pouco conhecidos e nada explorados, para permanecer estagnado em um lugar lotado e totalmente desgastado. Outro aspecto tem relação com o fato de esses métodos, teorias e objetos de moda normalmente expressarem interesses privados que, mesmo quando não influem de forma direta sobre o financiamento da pesquisa, determinam a importância que se deve dar ao trabalho do pesquisador.

Essa busca por estar na moda e em harmonia com os temas e teorias dominantes nos meios acadêmicos também tem como consequência o fato de se evitar quaisquer polêmicas. Se há divergências teóricas, deve-se ou fazê-las da forma mais cordial possível ou até mesmo evitar torná-las públicas, embora a produção do conhecimento necessite do debate e da crítica para apontar não apenas limitações do trabalho realizado, como indicar possíveis caminhos a serem seguidos. Nos diversos campos, dominam teorias, temas e métodos quase consensuais, parecendo que todos falam a mesma coisa, ainda que com pequenas variações na forma. O meio acadêmico atualmente existente, com raras e marginalizadas exceções, não é constituído por um espaço de debate aberto e saudável, mas por um comodismo que aceita passivamente os modismos dominantes e a precarização estrutural.

Nos últimos anos, algumas vozes têm se levantando para denunciar os problemas enfrentados pelos pesquisadores, enfatizando especialmente cortes de verbas para fomento, dificuldades estruturais e a ameaça de perda de bolsas. Contudo, de forma geral, essas críticas não apresentam uma análise da lógica perversa do meio acadêmico e do fato de que sua precarização não se limita a um projeto de governo, mas constitui-se em uma estratégia diretamente ligada aos interesses do capital, que tem como objetivo a completa transformação do conhecimento em mercadoria. Deve-se ressaltar que:

“[…] as atividades intelectuais de produção da ciência e da tecnologia não se constituem processos autônomos, independentes da realidade concreta onde se efetivam. A ciência revela-se historicamente como instrumento de poder. Ela passa a atuar junto às forças produtivas de forma cada vez mais decisiva, ampliando cada vez mais sua potência econômica”.

O Estado, diante das variações no modo e nas relações produções, adapta as políticas educacionais e de pesquisa aos interesses do capital, priorizando ora investimentos com recursos públicos, ora a entrega da educação à gestão privada, com ou sem recursos do Estado. Portanto, a despeito de todas as mediações possíveis, em última instância, a educação sob o capitalismo é funcional à produção de valores de troca e à exploração do trabalho. Com isso, a possibilidade de avanço na produção do conhecimento mostra-se incapaz de romper as barreiras da sua mercantilização, exigindo das organizações trabalhadores ações que se coloquem no sentido de romper essa bolha perversa.

Referências

  1. BOURDIEU, Pierre. Homo academicus. 2ª Florianópolis: Editora da UFSC, 2011, p. 115.
  2. Alan Woods. Reformismo ou revolução. São Paulo: Editora Marxista, 2009, p. 67.
  3. Álvaro Vieira Pinto. Ciência e existência: problemas de filosofia da pesquisa científica. 3ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985, p. 255.
  4. Marcos Barbosa de Oliveira. A mercantilização da ciência: funções, disfunções e alternativas. São Paulo: Scientiae Studia, 2023, p. 38.
  5. Karl Marx. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2013, p. 460.
  6. Valdemar Sguissardi; João Reis Silva Jr. Novas faces da educação superior no Brasil: reforma do Estado e mudança na produção. 2ª ed. São Paulo: Cortez; Bragança Paulista: USF, 2001, p. 80.
  7. Antonio Ozaí da Silva. A corrida pelo Lattes. In: Waldir José Rampinelli; Valdir Alvim; Gilmar Rodrigues (Org.). Universidade: a democracia ameaçada. São Paulo: Xamã, 2005, p. 89.
  8. Maria de Lourdes Pinto de Almeida. A pesquisa acadêmica no século XXI. Campinas: Mercado de Letras, 2012, p. 93.
 

Michel Goulart da Silva

Historiador pela UDESC. Doutor em História pela UFSC. Servidor público, atuando na reitoria do IFC, em Blumenau.


Fonte:  Outras Palavras

Produtivismo acadêmico empurra o funcionamento de “fábricas de papers”, mostra estudo

Centenas de artigos falsos foram publicados em periódicos científicos. Levantamento identifica 648 trabalhos produzidos por “fábricas de papers” nas áreas de cristalografia e química

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Cristal de estrutura metalorgânica (MOF), tipo frequentemente replicado em artigos fraudulentos. CSIRO

Por Revista da FAPESP

David Bimler, pesquisador do Departamento de Psicologia da Universidade de Massey, na Nova Zelândia, identificou 648 artigos publicados entre 2015 e 2022 em periódicos de cristalografia e química que, segundo ele, teriam sido produzidos por uma mesma “fábrica de papers”, um tipo de serviço ilegal que vende trabalhos científicos sob demanda, quase sempre com dados manipulados ou falsificados. Em comum, são artigos sobre tópicos como estruturas metalorgânicas e polímeros de coordenação, que continham imagens duplicadas ou muito semelhantes, uso repetido de frases peculiares e menções a artigos irrelevantes. É provável, segundo ele, que as imagens tenham origem em pesquisas genuínas, posteriormente reutilizadas e manipuladas com propósitos fraudulentos. Bimler publicou seus achados no repositório de preprints Research Square.

Segundo o psicólogo, que escreve sobre integridade científica no site For Better Science com o pseudônimo Smut Clyde, os trabalhos forjados combinam aspectos da cristalografia e da medicina, atribuindo aplicações terapêuticas a estruturas cristalinas. Os polímeros de coordenação, por exemplo, adquirem propriedades anestésicas ou tornam-se capazes de destruir bactérias e células cancerígenas, interrompendo processos inflamatórios. “O sucesso da ‘fábrica de papers’ só foi possível porque editores e revisores dos periódicos desconheciam os erros e absurdos biológicos contidos nos textos. Em defesa deles, é preciso dizer que são físicos e químicos de formação e entendem menos de biologia do que os fraudadores”, escreveu Bimler.

Os autores dos artigos em geral são médicos da China que provavelmente recorreram a uma “fábrica de papers” para conseguir publicar em periódicos internacionais os artigos necessários para concluir sua formação ou obter promoções. Os papers falsos identificados no levantamento receberam 518 citações, mas elas se distribuíram de maneira desigual. A maioria (410) nunca foi citada, outros (125) foram mencionados em referências de outros artigos apenas uma vez.

Sylvain Bernès, cristalógrafo computacional da Benemérita Universidade Autônoma de Puebla, no México, explicou à revista Chemistry World que é relativamente fácil trapacear manipulando estruturas cristalinas. “A construção de uma nova estrutura a partir do zero, incluindo a fabricação de dados experimentais, é algo um pouco mais complicado e demorado, mas muitos softwares que permitem fazer isso estão disponíveis”, afirmou Bernès. “Leva mais tempo para verificar e detectar problemas nessas estruturas do que criar estruturas falsas. Suponho que isso seja muito bom para a produtividade de ‘fábrica de papers’.”

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Este texto foi inicialmente pela Revista da FAPESP [Aqui! ].

Estudos mostram lado nefasto do produtivismo acadêmico

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Por Evanildo da Silveira para a “Questão de Ciência”

Ninguém do mundo acadêmico desconhece a expressão – ou princípio, ou mandamento – “publish or perish”, em português “publique ou pereça”. Significa que um cientista que não publica artigos em periódicos especializados, relatando suas descobertas, não é produtivo, é irrelevante ou, no limite, não existe para a comunidade acadêmica. Ele terá dificuldades para progredir na carreira, conseguir financiamento para suas pesquisas e formar novos pesquisadores, pois não terá bolsas de mestrado ou doutorado a oferecer.

Aos poucos, no entanto, esse mantra draconiano começa a ser questionado. Ou pelo menos estudado. “O número de artigos científicos com o tópico ‘publish or perish’ tem aumentado nos últimos anos, publicados em revistas de diferentes áreas do conhecimento e não apenas em revistas dedicadas à cientometria, por exemplo”, diz o físico Peter Alexander Bleinroth Schulz, da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em Limeira. “A percepção é de que a cultura associada ao mandamento precisa ser mudada”.

De acordo com ele, é o que se constata ao buscar a expressão em base bibliográfica internacional (Web of Science): poucas vezes mencionado no século passado, o número de artigos, cartas e editoriais em periódicos científicos, em diferentes áreas, sobre este tema vem crescendo notavelmente nos últimos anos. Schulz cita um estudo realizado na área de Economia em universidades holandesas pelo pesquisador Henrik van Dalen.

O autor do trabalho explica que escolheu estudar as faculdades de Economia da Holanda porque elas alcançaram uma posição de destaque na Europa e vêm se internacionalizando rapidamente. Quarenta e três por cento dos estudantes delas são estrangeiros e a maioria das aulas nos departamentos de economia é ministrada em inglês.

Van Dalen detectou uma clara divisão entre os economistas. Aproximadamente dois terços dizem que a pressão para publicar tem mais pontos negativos do que positivos, e um terço vê apenas pontos positivos e não negativos. Essa divisão não ocorre por causa da pressão em si, pois todos a sofrem igualmente. De acordo com o autor, o posicionamento em relação ao princípio de publicar ou perecer está mais ligado ao lugar que se ocupa na hierarquia. Professores titulares têm uma atitude muito mais positiva quanto ao princípio.

Para o médico Guilherme Werneck, doutor em saúde pública e epidemiologia pela Universidade de Harvard e professor das universidades Federal (UFRJ) e do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), o impacto do “publique ou pereça” é perceptível em várias áreas do conhecimento e gera preocupações sobre suas consequências na formação de pesquisadores e, ao final, na própria credibilidade da ciência. “Por isso, muitos grupos de pesquisa têm se dedicado a estudar este processo em diferentes áreas e contextos, enfatizando os seus efeitos em vários aspectos da vida acadêmica”, diz.

Entre esses aspectos, estão ética na pesquisa; credibilidade da ciência; redução do interesse pela carreira acadêmica; qualidade de vida e saúde mental de pesquisadores; desperdício de recursos com pesquisas e artigos pouco relevantes ou não inovadores; custos crescentes do uso de recursos de pesquisa para publicação; explosão de editoras e revistas científicas de má qualidade (popularmente conhecidas como revistas e editoras “predatórias”).

Segundo Werneck, existem muitos dados na literatura sobre esses temas. Como exemplo, cita um estudo feito na França que mostrou que os critérios de autoria do International Committee of Medical Journal Editors (ICMJE) muitas vezes não foram seguidos, e que a “autoria concedida”, quando o nome de um pesquisador que não colaborou de modo significativo com o trabalho aparece na lista de autores,  era uma prática frequente. “O sistema ‘publicar ou perecer’ foi apontado como a principal causa desses abusos”, diz.

Outra pesquisa, realizada na Holanda, identificou que uma atitude negativa em relação ao sistema de publicação está presente em todos os níveis acadêmicos e campos disciplinares. Nesse estudo, pós-doutorandos e professores assistentes perceberam o maior estresse em relação à publicação, e os doutorandos notaram falta de recursos para enfrentar situações de estresse relacionado à demanda por publicação.

Werneck cita um terceiro exemplo. Um inquérito nacional entre pesquisadores biomédicos na Bélgica mostrou que 15% dos entrevistados admitiram ter fabricado, falsificado, plagiado ou manipulado dados nos últimos três anos. “A pressão da publicação foi frequentemente relatada (72%) e significativamente associada com maior gravidade de má conduta científica”, diz.

Os pesquisadores brasileiros não estão alheios ao assunto. “Existe uma iniciativa em andamento no país para replicar experimentos biomédicos realizados ao longo dos últimos 20 anos”, conta Werneck. “O trabalho poderá jogar luz sobre a confiabilidade da pesquisa publicada nessa área”.

Para o biólogo Demétrio Luís Guadagnin, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), essas iniciativas e estudos que vêm sendo realizados mostram que a ciência é capaz de ser cética consigo mesma. “É uma autocrítica que está sendo feita”, diz. “Isso é bom, é o caminho para melhorar”. Mas enquanto a melhora não vem, as consequências do “publique ou pereça” vão continuar existindo.

Guadagnin vê dois lados na questão. “Há consequências boas e ruins (lembrando que o que é bom ou ruim depende de quem julga)”, explica. “Pelo lado bom, conforme o julgamento ortodoxo, a seleção dos melhores e os consequentes ganhos de eficiência e produtividade na academia. Pelo lado ruim, a deturpação dos valores superiores da ciência em favor de caminhos que facilitem a permanência e ascensão no sistema”.

Schulz é mais incisivo. Para ele, a principal consequência do princípio do “publique ou pereça” é que a publicação deixa de ser uma consequência natural da pesquisa para ser um fim em si mesmo. Em outras palavras, deixa-se de avaliar a ciência em si para, simplesmente, considerar o número de artigos e seus indicadores associados. “Em uma analogia econômica, deixa-se de lado a economia real para só olhar o mercado financeiro”, compara.

A química Teresa Dib Zambon Atvars, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), acrescenta outras consequências, entre elas o surgimento de revistas com pouca qualificação e que publicam artigos com pouco ou nenhum critério de qualidade. “Na sequência, surge um comércio com as chamadas revistas predatórias, nas quais se paga para publicar”, diz. “Todos os dias os pesquisadores recebem convites para publicar ou para organizar números especiais, convidando colegas. Algumas dessas são sérias, têm impacto, são lidas, outras são apenas depósitos de papers impublicáveis em revistas mais sérias”.

Por isso, considera, o sistema precisa mudar. Caso contrário, a ciência corre risco de estagnação. No Brasil, ela diz que a alternativa é medir o potencial de inovação da pesquisa, não no sentido de gerar tecnologia, mas no de avaliar corretamente o que o trabalho traz de novidade em relação ao que vem sendo feito, no mesmo campo, pelos melhores grupos do mundo. “Isto significa mudar a cultura de avaliar resultado (o número de papers) para medir impacto (no que o trabalho feito muda a ciência)”, defende. “Não é fácil, mas é necessário. Exige uma mudança de paradigmas, uma cultura de avaliação e preparo para fazê-la”.

Segundo o biólogo Victor Jose Mendes Cardoso, professor aposentado do Instituto de Biociências do campus de Rio Claro da Universidade Estadual Paulista (Unesp), para que ocorram mudanças deve ficar claro que publicar faz parte da vida de todo cientista. Quem não publica não divulga suas ideias e sua contribuição às ciências e à sociedade em geral. “A questão é que ‘publicar’ deve ser entendido num conceito amplo, não necessariamente a produção de papers, mas também outros meios de divulgação e de interação com o público alvo das pesquisas”, explica. “Atualmente, a produção de artigos científicos assume uma importância desmesurada. Isso precisa mudar”.

Evanildo da Silveira é jornalista

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Este texto foi originalmente publicado pela revista “Questão de Ciência” [Aqui!].

A palestra de António da Nóvoa na Uenf acabou em aplausos de pé. Mas sua mensagem contundente e desafiadora foi entendida?

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No encerramento das festividades dos seus 24 anos, a comunidade universitária da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) foi brindada com a presença do professor António Sampaio da Nóvoa da Universidade de Lisboa que ofereceu aos presentes com duas coisas tão básicas quanto fundamentais: uma crítica contundente aos descaminhos enfrentados pelas universidades na atual conjuntura histórica e uma visão de que elas podem cumprir um papel fundamental na produção de respostas às crises agudas que marcam o atual momento histórico.

Na parte da crítica, o professor Nóvoa, que foi reitor da Universidade de Lisboa onde liderou um complexo processo de transição para fortalecer as estruturas de produção de conhecimento universitárias em ferramentas para que Portugal superasse um agudo processo de crise econômica, não deixou pedra sobre pedra.  Ele atacou não apenas o produtivismo acadêmico, o abandono da ligação entre ensino e pesquisa, a predominância de propostas empresariais para a geração de recursos para as universidades, e a insistência de que universidades funcionem ancoradas na lógica predominante em empresas capitalistas.

Ao fazer isto, ele  colocou em questão a ideologia que está sendo aplicada há várias décadas sobre as universidades brasileiras. É que independente de quem esteve governando o Brasil, essa tem sido a lógica de fundo que vem sendo aplicada, inclusive nas universidades estaduais do Rio de Janeiro.  A partir dessa ideologia é que se justifica a implantação de sistemas de valoração que sobrepõe a produção de múltiplas publicações de um mesmo autor, sem que haja qualquer contribuição ao avanço do conhecimento. Para a ciência, especialmente uma em processo embrionário de desenvolvimento como é o caso da brasileira, não há ameaça maior do que a adoção de uma lógica que privilegia a quantidade sobre a qualidade. E os resultados disso já foram abordados por mim diversas vezes nas postagens sobre a disseminação do que eu convencionei chamar de “trash science“.

Mas, como o professor Nóvoa também mostrou, essa supervalorização da produção de quantidade resulta também no abandono do ensino, já que muitos professores se veem mais como pesquisadores do que educadores. Ao fazer isso, a presença na sala de aula passa a ser vista como uma coisa onerosa e pouco importante. O problema é que, como foi o caso da Uenf em seu nascedouro, não há nada que dinamize mais a produção científica do que a presença integral dos professores e dos estudantes em ambientes em que eles possam interagir diretamente. 

Outro aspecto importante, e que resulta da aplicação da lógica da ciência enquanto commodity é de que se perde a perspectiva de que nem sempre o conhecimento gerado pode ser aplicado imediatamente ou ser apropriado rapidamente pelo mercado. Esse ponto é especialmente crucial porque é a lógica que vem sendo aplicada no Brasil, e no mundo, de que só são financiadas pesquisas que mostrem sua capacidade de “se vender” para o mercado.   

Entretanto, o professor Nóvoa mais do que apontar para as deformações existentes, ofereceu uma série de receitas para que as universidades se coloquem no centro das disputas que estão colocadas a partir da retomada do seu papel criador. E aí é que mora o problema, pois aqui mesmo na Uenf vejo que a ideologia de mercado que o professor Nóvoa atacou está bem implantada. Disto decorre o fato inescapável que a atual crise serve, entre outras coisas, para obscurecer a necessidade urgente de que a prevalência das métricas e da submissão à lógica do mercado sejam, pelo menos, seriamente questionadas.

Para mim a maior demonstração de que teremos uma dura batalha para ser vencida se quisermos abraçar a visão oferecida pelo professor Nóvoa foi o simples fato dele ter sido aplaudido de pé. É que depois dele simplesmente desmantelar os mitos a que muitos se agarram todos os dias para justificar o funcionamento “normal” da Uenf,  a última coisa que eu esperava era que a maioria da plateia presente o aplaudisse de pé por mais de um minuto. Depois disso, o professor Nóvoa ainda recebeu um tratamento digno de um pop star com direitos a selfies e tudo o que as estrelas têm direito.  Já eu saí de lá com o sentimento de que temos ainda um longo caminho a percorrer para que nossas universidades, a Uenf inclusa, possam atingir o tipo de visão que ele nos ofereceu.  A começar pela responsabilidade pública que precisamos ter com o Brasil e com a cidade de Campos dos Goytacazes.

Marketing acadêmico: texto aborda os problemas vividos dentro da universidade brasileira sob o império do produtivismo

produtivismo

Recebi de uma colega professora da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), e sugiro a leitura do texto “Dos Valores de Medida aos Valores como Medida: Uma avaliação axiológica da avaliação acadêmica” do professor adjunto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), André Luís de Oliveira Mendonça, publicado na Revista “Ensaios Filosóficos”, e que pode ser acessado (Aqui!). Em um texto que mostra com perfeição os problemas enfrentados dentro das universidades brasileiras por professores e estudantes no tocante aos  efeitos do produtivismo acadêmico, os quais estão atualmente umbilicalmente ligados ao processo de avaliação de programas de pós-graduação, o prof. Mendonça não se limita a falar da “doença”, mas aponta para os remédios que permitiriam buscar a cura do mal que nos aflige.

O interessante é que dependendo da forma com que este texto for lido e devidamente apreciado, o leitor poderá se enquadrar nas diversas categorias que foram estabelecidas para diagnosticar a situação em que nos encontramos atualmente, onde a pressão produtivista compromete o estabelecimento de reflexões críticas da realidade e fere mortalmente o poder criativo dos cientistas brasileiros.

Entretanto, ainda que eu discorde em relação à efetiva eficácia da “medicação” sugerida pelo Prof. Mendonça, a simples menção de que estamos imersos num sistema enfermo já me anima a recomendar a leitura deste interessante texto. É que no meio do deserto das produções comuns e corriqueiras, é sempre salutar ver que existem esforços reflexivos acerca dos problemas e saídas a serem adotadas para superá-los. Pode não parecer, mas isso já é muita coisa. Afinal de contas, sem reflexão crítica não há ciência verdadeira, apenas arremedo.