Produtivismo acadêmico empurra o funcionamento de “fábricas de papers”, mostra estudo

Centenas de artigos falsos foram publicados em periódicos científicos. Levantamento identifica 648 trabalhos produzidos por “fábricas de papers” nas áreas de cristalografia e química

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Cristal de estrutura metalorgânica (MOF), tipo frequentemente replicado em artigos fraudulentos. CSIRO

Por Revista da FAPESP

David Bimler, pesquisador do Departamento de Psicologia da Universidade de Massey, na Nova Zelândia, identificou 648 artigos publicados entre 2015 e 2022 em periódicos de cristalografia e química que, segundo ele, teriam sido produzidos por uma mesma “fábrica de papers”, um tipo de serviço ilegal que vende trabalhos científicos sob demanda, quase sempre com dados manipulados ou falsificados. Em comum, são artigos sobre tópicos como estruturas metalorgânicas e polímeros de coordenação, que continham imagens duplicadas ou muito semelhantes, uso repetido de frases peculiares e menções a artigos irrelevantes. É provável, segundo ele, que as imagens tenham origem em pesquisas genuínas, posteriormente reutilizadas e manipuladas com propósitos fraudulentos. Bimler publicou seus achados no repositório de preprints Research Square.

Segundo o psicólogo, que escreve sobre integridade científica no site For Better Science com o pseudônimo Smut Clyde, os trabalhos forjados combinam aspectos da cristalografia e da medicina, atribuindo aplicações terapêuticas a estruturas cristalinas. Os polímeros de coordenação, por exemplo, adquirem propriedades anestésicas ou tornam-se capazes de destruir bactérias e células cancerígenas, interrompendo processos inflamatórios. “O sucesso da ‘fábrica de papers’ só foi possível porque editores e revisores dos periódicos desconheciam os erros e absurdos biológicos contidos nos textos. Em defesa deles, é preciso dizer que são físicos e químicos de formação e entendem menos de biologia do que os fraudadores”, escreveu Bimler.

Os autores dos artigos em geral são médicos da China que provavelmente recorreram a uma “fábrica de papers” para conseguir publicar em periódicos internacionais os artigos necessários para concluir sua formação ou obter promoções. Os papers falsos identificados no levantamento receberam 518 citações, mas elas se distribuíram de maneira desigual. A maioria (410) nunca foi citada, outros (125) foram mencionados em referências de outros artigos apenas uma vez.

Sylvain Bernès, cristalógrafo computacional da Benemérita Universidade Autônoma de Puebla, no México, explicou à revista Chemistry World que é relativamente fácil trapacear manipulando estruturas cristalinas. “A construção de uma nova estrutura a partir do zero, incluindo a fabricação de dados experimentais, é algo um pouco mais complicado e demorado, mas muitos softwares que permitem fazer isso estão disponíveis”, afirmou Bernès. “Leva mais tempo para verificar e detectar problemas nessas estruturas do que criar estruturas falsas. Suponho que isso seja muito bom para a produtividade de ‘fábrica de papers’.”

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Este texto foi inicialmente pela Revista da FAPESP [Aqui! ].

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