Pedagogia invertida: os estudantes ensinam o caminho a seguir

Não tenho dedicado o merecido espaço ao processo de ocupação de escolas e prédios públicos por estudantes que se mobilizam para defender a escola pública e para exigir a apuração de crimes cometidos por ocupantes de cargos públicos como no caso lapidar do escândalo da máfia que atuava roubando merenda escolar em São Paulo.

O movimento dos estudantes começou ocupando escolas em São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás e ameaça se espalhar por todo o Brasil. Aliás, há notícias que o movimento de ocupação de escolas já atingiu até o Paraguai.

Este movimento de base está sendo duramente reprimido pelos governos estaduais, e o maior exemplo da truculência governamental tinha que estar ocorrendo no “tucanistão” sob a batuta de José Geraldo Alckmin (PSDB). Entretanto, quanto mais repressão ocorre, maior parece ser a disposição dos estudantes de exigir que a educação pública seja gratuita e de qualidade, e que sejam punidos os que se locupletam de diversas formas das verbas que deveriam estar sendo investidas em prol da qualidade do ensino.

Há que se observar que este movimento dos estudantes tem características autônomas, ainda que eventualmente as organizações estudantis tradicionais apareçam, até tardiamente, para emprestar o necessário apoio. 

Essa situação que se assemelha muito ao que aconteceu na Espanha e acontece agora na França é um daqueles elementos que fogem ao controle dos partidos tradicionais, seja de direita ou de esquerda, e expressa um profundo inconformismo com o estado de coisas que prevalece no plano da política partidária tradicional. Esse inconformismo é uma espécie de imponderável que poderá causar um desarranjo profundo na transição conservadora e golpista que as elites estão levando a cabo em Brasília. 

E na parte que me cabe, expresso meu total e irrestrito apoio aos estudantes que lutam em defesa da educação pública, gratuita e democrática.  E não faço nada mais do que a minha obrigação de agradecer a quem me enche de esperança num momento tão pleno de desesperanças. 

PSDB, uma nau de vestais nada vestais

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A iminência de que o impechment (pode chamar de golpe parlamentar) da presidente Dilma Rousseff é quase uma certeza, vemos novos escândalos envolvendo o PSDB (principal parceiro do PMDB na empreitada de impor um presidente pela via indireta).

A mais nova revelação de tucano enfiado em coisas esquisitas é o do Sr. João Dória, candidato tucano à prefeitura de São Paulo, que foi pego com uma conta offshore no escândalo conhecido como “Panama Papers” (Aqui!). Mas em São Paulo temos ainda o escândalo da máfia das merendas cuja comissão parlamentar de inquérito (CPI) continua paralisada na Alesp.

O elemento mais singular de todo esse suposto processo de combate à corrupção que foi utilizado como argumento para desgastar o PT e a presidente Dilma Rousseff foi de que o partido era corrupto e ela era, no mínimo, cúmplice.

Quando o caso é com o caso é com o PSDB, os meios que esperneiam contra o PT se calam ou, pior, continuam jogando a culpa em Lula et caterva.  A impressão que fica é que as elites e a classe média não sou contra a corrupção como um todo. Elas são apenas contra a corrupção que foi cometida por outros, já que a delas parece ser um direito divino.

Lava Jato: uma narrativa desconstruída pela realidade

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A chamada Operação Lava Jato serviu para a construção de uma narrativa ao longo dos dois últimos anos: tudo o que era ruim e corrupto no sistema político brasileira. Tudo ia bem até que surgisse o impávido colosso conhecido como “Listão da Odebrecht”.

O surgimento do famigerada listão caiu como uma bomba na narrativa da Lava Jato. É que querendo a Rede Globo ou não, boa parte dos brasileiros hoje sabe que no verdadeiro “coração de mãe” das doações da Odebrecht, só não couberam quatro partidos: PCB, PCO, PSOL e PSTU.  O resto dos 28 partidos existentes em 2014 receberam algum tipo de doação, por vias legais ou não.

Mas não bastasse a lista da Odebrecht, veio em sequência a informação de que o ex-deputado Pedro Correa, do insuspeito Partido Popular (PP), revelou que o sistema de corrupção eleitoral (notem que ele teria dito SISTEMA, o que implica em algo muito além de um partido. E mais, Pedro Corrêa teria dado detalhes sobre como o falecido banqueiro Olavo Setúbal, do Banco Itaú que hoje apoia Marina Silva, teria comprado a reeleição de Fernando Henrique Cardoso do PSDB.

O listão da Odebrecht mais a delação de Pedro Correa implodem a narrativa construída pelo Lava Jato, e ainda servem para lançar uma questão: será que os braços das empreiteiras se estenderam apenas sobre o executivo e o legislativo, ou cedo ou tarde (ou talvez mais cedo do que se imagina) veremos alguma figura ilustre do judiciário aparecer em outras listas de generosidades, seja da Odebrecht ou das outras empreiteiras enroladas na Lava Jato?

De toda forma, as próximas semanas deverão ser interessantes para que saibamos como os envolvidos vão tentar estabelecer a narrativa que melhor lhes sirva na luta pelo poder que hoje assola o Brasil. O problema vai ser convencer a maioria dos brasileiros sobre a efetiva relação entre narrativa e realidade. É que se pode enganar muitos por algum tempo, mas jamais todos o tempo inteiro. 

 

Com Aécio Neves fisgado, o que estará pensando Mauro Silva?

Ainda que comentar a política partidária e os arranjos para as próximas eleições em Campos dos Goytacazes não esteja nos tópicos favoritos deste blog, não posso deixar de pensar o que estará pensando neste exato momento o vereador Mauro Silva que no dia 25 de Fevereiro entrou com pompa e circunstância no PSDB, com direito a ter sua ficha de filiação abonada em cerimônia ocorrida em Brasília por ninguém menos o presidente nacional da agremiação, Aécio Neves ( ver abaixo reprodução de matéria publicada no Jornal O Diário!).

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Ainda que Mauro Silva seja considerado um boa praça até por adversários, não há como deixar de apontar que esta fotografia deverá ser usada à exaustão caso ele insista na sua candidatura ao cargo de prefeito de Campos dos Goytacazes nas próximas eleições. 

Além disso, com a carreira de Aécio Neves literalmente implodida pela delação premiada do ainda senador Delcídio Amaral, qualquer que tiver sua ficha de filiação abonada pelo grão tucano vai ter um trabalho danado para explicar uma associação política que agora se tornou totalmente desgraçada.

Finalmente, também não há como ignorar que a derrocada de Aécio Neves implicará na necessidade de que o patrono político de Mauro Silva, o ex-governador Anthony Garotinho, rearrume seu já estreito espaço de manobra.  Para chegar a esta conclusão nem precisa ser cientista político (eu, por exemplo, sou geógrafo), mas apenas ler o conteúdo da matéria que ilustra esta postagem.

Cortaram as asas dos tucanos: Aécio Neves e Geraldo Alckmin são expulsos do ato da Avenida Paulista

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Duas vítimas inesperadas do ato organizado na Avenida Paulista para pedir o impeachment da presidente Dilma Rousseff vem exatamente do partido que tem tentado capitanear o processo dentro do congresso. O vídeo abaixo mostra o momento em que o senador e presidente nacional do PSDB, Aécio Neves, e o governador de São Paulo, José Geraldo Alckmin, são expulsos da manifestação que ocorria na capital paulista debaixo de gritos de “vagabundos, corruptos, ladrões de merenda, etc”.

Muitas leituras podem ser feitas dessa expulsão, mas para mim mais do que celebrar a situação humilhante a que os dois políticos tucanos foram expostos (aliás,  acho que as futuras pretensões presidenciais de ambos acabam de ser enterradas!), creio que é preciso analisar o caso sob o ângulo da ojeriza à política partidária que isto expressa, É que em outros contextos históricos, esse tipo de situação levou ao evento de governos de ultra-direita como o fascista de Benito Mussolini na Itália e o nazista de Adolf Hitler na Alemanha.  A verdade é que tanto os tucanos utilizaram da demonização do neoPT que agora se arriscam a ser consumidos na mesma fogueira que ajudaram a iniciar.

Agora, o grande problema é o seguinte: agora que tiraram o gênio mau da garrafa, quem vai conseguir colocá-lo de volta? Pelo jeito, está mais do que claro  pelas imagens  mostrados no vídeo que não serão Aécio e Alckmin que vão conseguir fazer isso.

Documentário lança luz no caso da “Lista de Furnas”

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Não apoio o governo Dilma, como não apoiei o governo Lula.  Mas isso não me impede de achar que existem dois pesos e duas medidas no tratamento do problema da corrupção no Brasil. Aliás, a falta de profundidade analítica sobre a gênese da corrupção no Capitalismo e o papel que essa cumpre no processo de consolidação do poder de classe da  burguesia é a principal marca de todo o embate em curso sobre o caso da Lava Jato.

O fato que muitos se recusam a reconhecer é que a corrupção sistêmica que afeta o Brasil não começou com chegada de Lula ao Palácio do Planalto em 2003.

Por isso, me permito a divulgar o vídeo documentário  produzido via crowfunding pelo site Diário do Centro do Mundo que é mostrado abaixo. 

O fato é que enquanto a apuração e a punição for unilateral, não haverá qualquer chance de se parar minimamente a apropriação privada de recursos públicos via esquemas ilegais como é o caso da Lista de Furnas. Simples assim!

Garotinho, em breve o mais novo tucano?

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Apesar de já ter apoiado José Geraldo Alckmin no segundo turno da eleição presidencial em que o tucano perdeu o segundo turno para Lula, o ex-governador Anthony Garotinho manteve-se ao largo do partido de FHC e Aécio Neves.

Agora, aparentemente isolado dentro do Partido da República (PR), Anthony Garotinho parece cada vez mais propenso a compartilhar o ninho tucano.

De onde tirei essa ideia? Bom, a primeira evidência pode ser observada nas contínuas postagens que Garotinho ou o seu alter ego fazem no blog homônimo que o ex-governador possui. Lá, enquanto sobram bordoadas diárias contra Lula e o neoPT por seus problemas com o caso Lava Jato,  os tucanos só aparecem raramente, e normalmente não pelas mesmas razões.

Outra agulha neste palheiro foi o namorado declarado entre o PSDB e a deputada Clarissa Garotinho; namoro esse que não aconteceu até agora provavelmente por detalhes, já que não há nenhuma razão ideológica aparente para que não haja a concretização do enlace.

Agora, para quem como eu já andava desconfiado de que Anthony Garotinho está aprontando as malas para ir para o ninho tucano, a recente filiação do vereador Mauro Silva, um dos últimos e mais fiéis escudeiros que o ex-governador ainda possui, ao PSDB e com direito à benção de Aécio Neves, acaba ficando com mais certeza de que o fato deve estar sendo negociado de maneira acelerada.

O problema nesse enredo é que o PSDB do Rio de Janeiro não, digamos, morre de amores por Anthony Garotinho. Mas a este tipo de desamor convenhamos que o ex-governador já está acostumado. 

Aliás, há alguém que se surpreenderia com essa ida de Anthony Garotinho para o PSDB? é que ao longo de mais de três décadas de envolvimento em política partidária, o ex-governador tem paulatinamente, mas consistentemente, se movido para a direita. Dai para chegar agora ao PSDB é quase tão natural quanto a passagem do Paraíba do Sul pela Ponte da Lapa em direção ao mar.

Mariana: a história de um desastre anunciado

O que o pior desastre ambiental da história do Brasil nos fala sobre o custo real da privatização.

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A devastação em Minas Gerais, Brasil. Foto: Bruno Alencastro

Por Ian Steinman

(Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site Jacobin Aqui! e a tradução para o português é de minha responsabilidade ).

Em 5 de novembro, uma represa usada como um depósito de rejeitos de propriedade da Mineradora Samarco rompeu, causando uma inundação de lama tóxica e de água que matou doze pessoas, feriu muitas mais, e destruiu completamente a o distrito de Bento Rodriguez no Brasil. Os resíduos do derramamento passaram a envenenar o Rio Doce, um grande rio que liga o interior de Minas Gerais do Brasil à costa leste do Espírito Santo.

60 milhões de metros cúbicos de águas residuais têm sufocado a vida no interior e no entorno do rio Doce. Mais de um quarto de milhão de pessoas ficaram sem água potável. Comunidades inteiras, vilas e cidades espalhadas ao longo do Rio Doce e nas áreas vizinhas encontram seus meios de subsistência e de futuros ameaçados.

As causas exatas da quebra de segurança ainda estão sob investigação, pontos de informação, entretanto, lançados recentemente no sentido de um projeto de construção que era para ligar a barragem com outra represa nas proximidades, quintuplicando o tamanho da instalação.  A Samarco tem mantido que as águas não teriam sido contaminadas com material tóxico, e que os rejeitos não representam qualquer ameaça para as pessoas ou o ambiente. O governo tem apoiado em grande parte essas alegações.

No entanto um teste recente mostrou níveis de arsênico e mercúrio mais de dez vezes acima do limite legal.  O escritório do Alto Comissariado para Direitos Humanos da ONU também criticou os relatórios da Samarco e declarou que as respostas apresentadas pelo Governo Federal e pela empresa como sendo inadequadas.

Enquanto a verdadeira escala do desastre ainda é desconhecida, os efeitos devastadores serão sentidos para os próximos anos. A responsabilidade por esta catástrofe não reside apenas com a Samarco, mas também as tendências econômicas destrutivas das últimas décadas, a privatização da coproprietária da Samarco, a mineradora Vale, e a conivência generalizada entre as classes dominantes e as corporações da mineração.

Uma tendência global no sentido do desastre

O desastre vem em meio a uma grande crise econômica no Brasil, que afetou profundamente a indústria de mineração. A queda global no valor dos recursos de materiais como o ferro tem contribuído para a desaceleração econômica do Brasil.

As empresas de mineração têm respondido à crise demitindo trabalhadores e concentrando-se em medidas de corte de custos. 2.097 trabalhadores na indústria de mineração do estado de Minas Gerais foram demitidos no primeiro semestre de 2015. No Espírito Santo, um dos estados através do qual o Rio Doce passa no caminho para a costa, a empresa-mãe da Samarco, a Vale demitiu mais de quatro mil trabalhadores.

Enquanto a Samarco alega que as lagoas de rejeitos passaram pela inspeção do governo em julho e foram considerados seguras, o método que a empresa está usando para depositar resíduos em águas locais represadas é uma solução barata e arriscada. No Chile, onde os terremotos são uma ameaça constante, muitas empresas de mineração dependem de técnicas de armazenamento seco que custam dez vezes mais.

A construção de áreas de armazenamento à base de água a partir do zero em terra virgem também seria mais segura, mas custaria o dobro. Isso não é nada comparado com a morte, deslocamento e devastação afetando o ambiente e as comunidades ao longo do rio Doce. No entanto, para uma empresa capitalista, especialmente sob pressões recessivas, o método mais barato possível sempre prevalecerá.

Este tipo de desastre não é exclusivo para o Brasil e o mundo em desenvolvimento. É na verdade parte de uma tendência global na indústria de exploração mineira para falhas técnicas de armazenamento de resíduos à base de água cada vez mais numerosas e catastróficas. Um relatório da Lindsay Bowker e David Chambers mostra uma tendência crescente para falhas mais “sérias” e “muito graves” começando na década de 1960 e aumentando até o presente.

Quando as empresas se recusam a optar por estruturas de alto custo, técnicas de armazenamento mais seguras, e reparos eles se voltam para soluções improvisadas, que muitas vezes expandem o armazenamento e despejam muito além dos limites inicialmente previstos e concebidos.  Ao analisar a segmentação dos mercados financeiros da indústria e as tendências de investimento, o relatório conclui que há “uma relação clara e irrefutável entre as mega tendências que espremem fluxos de caixa para todos os mineiros em todos os locais, e esta tendência indiscutivelmente clara para as falhas de cada vez maior consequência ambiental.”.

A crise causada pelas falhas no despejo de resíduos parece muito com a crise geral do investimento capitalista na produção. Não é lucrativo investir em grandes reparações, técnicas de armazenagem seguras, ou novas minas tecnicamente mais avançadas.

Diante da crise de sobreprodução desencadeada pela queda global nos preços do minério, as empresas procuram extrair o máximo possível de instalações de mineração existentes. No entanto, empurrando a extração até o ponto de ruptura tem consequências desastrosas para comunidades inteiras, regiões e ecossistemas.

Os custos de limpeza e prejuízos econômicos e ambientais em longo prazo nunca são apoiados integralmente pela empresa – muitas vezes ela própria uma filial usada por grandes corporações para evadir a responsabilidade – mas em vez disso são repassados para os governos locais e nacionais.

No Brasil, essa tendência é exacerbada como os custos da adoção de medidas de segurança ou mesmo operando legalmente, muitas vezes superam  as multas simbólicas impostas a empresas que violam a lei. As multas aplicadas à Samarco são de longe algumas das maiores aplicadas no Brasil, mas ainda estão muito aquém do esmagador custo econômico ambiental, e humano deste desastre provocado pelo homem.

A Vale foi uma vez uma empresa de mineração nacional e vista como fundamental para o desenvolvimento da economia brasileira e da independência nacional. Mas a empresa estatal foi privatizada em 1997 sob a administração neoliberal de Fernando Henrique Cardoso em uma venda amplamente considerada como tendo desvalorizado substancialmente a empresa.

O seu preço de venda de 3.14 bilhões de dólares omitiu o valor de suas patentes, direitos minerais, reservas, e estoque em outras empresas. Embora incluídas na infraestrutura, muitas minas foram excluídas na avaliação do preço da Vale. No dia em que a venda foi finalizada milhares de manifestantes entraram em confronto com a polícia na frente da sede da empresa no Rio de Janeiro com protestos semelhantes em todo o Brasil.

Hoje, a empresa tem um valor estimado de mais de 53 bilhões de dólares e se estabeleceu- como uma multinacional global com uma reputação a ser superada. Por trás da ilusão de solidariedade Sul-Sul, as operações internacionais da empresa são tão ruins quanto e muitas vezes ainda piores do que as práticas das multinacionais europeias e americanas.

A Samarco, a empresa formalmente responsável pelo desastre, é por si só é uma joint venture de propriedade da Vale e da multinacional anglo-australiana BHP Billiton.

A cumplicidade do PT

Enquanto a Vale pode ter sido privatizada sob a liderança neoliberal de Cardoso e o direitista PSDB, os novos proprietários da empresa rapidamente encontraram parceiros dispostos no Partido dos Trabalhadores do ex-presidente Lula da Silva e da atual presidente Dilma Rousseff. Esforços legais para desafiar a privatização sobre irregularidades na venda da Vale não receberam nenhum apoio do PT que, em vez disso, abraçou a empresa, a indústria de mineração, e os bancos que controlam e financiam grande parte da indústria da mineração.

Apenas em 2014, a Vale investiu R$ 8.25 milhões nas campanhas eleitorais do PT e R $ 23.55 milhões para o PMDB – um aliado PT que controla o Ministério de Minas e Energia, bem como o Departamento Nacional de Produção Mineral.  A campanha de reeleição de Dilma Rousseff contou com R$ 14 milhões em doações da Vale – superando de longe os R$ 2,7 milhões que foram para o candidato da oposição de direita, Aécio Neves-, bem como outros R$ 14 milhões a partir de outras mineradoras.

Uma das maiores acionistas da Vale é o Banco Bradesco. Joaquim Levy, principal ministro econômica de Dilma e arquiteto de programas de austeridade recentemente implementados, trabalhou anteriormente como diretor do Bradesco. O Bradesco registrou um lucro recorde de R$ 4.47 bilhões, no segundo trimestre de 2015, um crescimento de 18% em relação ao ano anterior. O setor bancário como um todo tem visto um crescimento sem precedentes e as taxas de lucro sob a administração do PT, e os bancos têm sido um parceiro disposto do governo.

Em Minas Gerais, o epicentro do desastre, do PT Fernando Pimentel está servindo como governador. Longe de usar a crise como uma oportunidade para impor regulamentações mais rígidas, ele e os deputados PT, em vez disso correu para aprovar um projeto de lei que já foi defendido pelo PSDB de Aécio Neves, que acelera o licenciamento ambiental para as empresas de mineração. O que emerge em nível estadual e nacional é uma teia de cumplicidade e apoio em que o PT tem sido muitas vezes partido de escolha da Vale para garantir e defender seus interesses econômicos.

Além disso, sob a pressão da crise econômica e profundamente afetado pelos escândalos de corrupção, há agora uma grande proposta para privatizar grandes seções da Petrobras, a companhia petrolífera estatal brasileira. A Petrobras tem avançado com um plano para vender US $ 15 bilhões em ativos até o final de 2015, com mais vendas para vir em 2016 e além. O custo estimado do escândalo de corrupção Lava Jato tem sido até agora de US$ 6 bilhões e, juntamente com a queda nos preços do petróleo, deixou a empresa altamente endividada e enfrentando uma grave crise.

Os trabalhadores da Petrobras têm tentado resistir a esta tendência de privatização. OS trabalhadores da Petrobras encerraram recentemente uma das maiores greves na história recente em que os trabalhadores em muitos locais ocuparam plataformas e locais de trabalho, bem como desafiaram as tentativas do burocracia sindical para acabar logo com a greve. A oposição ao plano de privatização foi uma grande demanda da greve e uma fonte de desilusão generalizada com o governo do PT.

No entanto, o principal sindicato responsável por representar os trabalhadores da Petrobras está profundamente ligado à gestão da PT e Petrobras. O descontentamento expresso na greve foi substancial, mas ainda muito aquém do tipo de movimento operário de massa que seria necessário para bloquear a proposta venda ativos.

A ameaça de privatização em curso e tanto futuro não só representa uma questão importante para os trabalhadores da Petrobras, mas potencialmente representa uma ameaça ambiental substancial. Se setores privatizados da indústria de petróleo e gás seguirem o mesmo caminho da Vale, a consequência provável será ainda a ocorrência de mais desastres ambientais.

Lutando de volta

O desastre de Mariana mostra o dano irreparável que as empresas capitalistas causam sobre o meio ambiente, e que as tendências de crescimento em toda a indústria de mineração são para a adoção de técnicas cada vez mais arriscadas e prejudiciais. Modelos empresariais em indústrias de risco ambiental, como a mineração, tendem a socializar os riscos terríveis de extração enquanto privatizam os benefícios financeiros.

No entanto, ao defender a propriedade estatal é importante, mas está longe de ser suficiente. A crise da Petrobras e sua crescente tendência para a privatização em si foi impulsionado pela pilhagem dos seus ativos pelo partido governante, o PT, e seus aliados. A capacidade dos partidos do governo e aliados para roubar Petrobras em conluio com empresas privadas e gestão da empresa é uma fraqueza de seu caráter estatal e controlado pelo Estado.

A oposição de direita até agora tem sido capaz de usar os escândalos de corrupção para empurrar para posterior privatização. Rousseff e o PT tem-se avançado a privatização parcial da Petrobras pela venda de ativos como uma solução para os enormes custos da corrupção e do aprofundamento da crise econômica.

No rescaldo do desastre há uma oportunidade política para dar um golpe contra todo o projeto de privatização. A única alternativa que os partidos do governo têm para oferecer o Brasil é mais privatização em ritmo mais lento ou mais rápido, com mais desastres ambientais com uma certeza para o futuro.

Contra a corrupção estatal e corporativa, a esquerda deve retomar o velho slogan de nacionalização sob o controle operário – não apenas como uma demanda de trabalho, mas também uma necessidade ambiental. Com uma crise na Petrobras e crescente ódio popular contra a Vale, a gestão dos trabalhadores representa a única alternativa real a um futuro dominado pelos lucros privados e a socialização da devastação.

MPF/RJ denuncia 12 pessoas envolvidas em crimes nos contratos entre Petrobras e SBM Offshore

Denunciados devem responder por corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e evasão de divisas

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O Ministério Público Federal (MPF) no Rio de Janeiro apresenta nesta quinta-feira (17) denúncia à 3ª Vara Federal Criminal do Rio contra 12 pessoas por crimes relacionados a contratos entre a Petrobras e a empresa holandesa SBM Offshore, que envolviam na maioria das vezes o afretamento de navios-plataforma, conhecidos como FPSO (Floating Production Storage and Offloading, em português Unidade Flutuante de Produção, Armazenamento e Transferência)

Entre os denunciados, estão os ex-empregados da Petrobras Pedro José Barusco Filho (ex-Gerente-Executivo de Engenharia), Paulo Roberto Buarque Carneiro (membro de Comissão de Licitação de diversos FPSOs), Jorge Luiz Zelada (ex-Diretor Internacional) e Renato Duque (ex-Diretor de Serviços), os ex-agentes de vendas da SBM no Brasil Julio Faerman e Luis Eduardo Campos Barbosa da Silva, além dos executivos da SBM Robert Zubiate, Didier Keller e Tony Mac

De 1998 a 2012, com o uso de empresas offshore de fachada, houve pagamentos indevidos na Suíça de pelo menos US$ 46 milhões de dólares, relativos aos contratos dos navios FPSO II, FPSO Espadarte (Cidade de Anchieta), FPSO Brasil, FPSO Marlim Sul, FPSO Capixaba, turret da P-53, FPSO P-57 e monoboias da PRA-1.

A denúncia do MPF abrange ainda a contribuição pedida por Renato Duque aos agentes da SBM, no valor de US$ 300 mil dólares, para a campanha presidencial do Partido dos Trabalhadores (PT) em 2010. Integrantes da direção atual da SBM estão sendo denunciados por favorecimento pessoal, por terem adotado condutas tendentes a evitar ação penal contra algumas das pessoas envolvidas em atos de corrupção.

Outro contrato no qual houve crime de corrupção, porém não relacionado à SBM, foi o do navio Campos Transporter, que foi objeto de afretamento pela Petrobras junto à empresa Progress Ugland, representada por Julio Faerman, tendo havido a atuação de seu então CEO Anders Mortensen e o recebimento de vantagens indevidas por Pedro José Barusco Filho.

A denúncia do MPF, feita a partir de investigação a cargo dos procuradores da República no Rio de Janeiro Renato Oliveira, Leonardo Freitas e Daniella Sueira, baseou-se em análise de informações bancárias, cambiais e fiscais, que corroboraram provas obtidas por meio de colaborações premiadas homologadas na 3ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, bem como em provas obtidas em pedidos de cooperação internacional, principalmente os respondidos por Holanda e Inglaterra.

Até o momento, foram efetivamente recuperados em procedimentos de colaboração premiada, entre multas e repatriação, mais de R$ 96 milhões de reais, a maior parte com a cooperação de autoridades suíças.

Confira a lista completa de denunciados e os crimes cometidos

1) Jorge Luiz Zelada:  corrupção passiva, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, associação criminosa.

2) Julio Faerman: corrupção ativa, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, associação criminosa.

3) Luís Eduardo Campos Barbosa da Silva: corrupção ativa, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, associação criminosa.

4) Pedro José Barusco Filho: corrupção passiva, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, associação criminosa.

5) Paulo Roberto Buarque Carneiro: corrupção passiva, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, associação criminosa.

6) Renato de Souza Duque: corrupção passiva, associação criminosa.

7) Robert Zubiate: corrupção ativa, associação criminosa.

8) Didier Henri Keller: corrupção ativa, associação criminosa.

9) Anthony (“Tony”) John Mace: corrupção ativa, associação criminosa.

10) Bruno Yves Raymond Chabas: favorecimento pessoa

11) Sietze Hepkema: favorecimento pessoa

12) Philippe Jacques Levy: favorecimento pessoa

13) Anders Mortensen: corrupção ativa

Assessoria de Comunicação Social, Procuradoria da República no Rio de Janeiro