Militares do golpe de 1964, anti-democráticos, mas nacionalistas? O que é isso, camarada Manuela?

Os ex-presidentes Ernesto Geisel e João Batista Figueiredo durante passagem de cargo em Brasília

A deputada estadual e candidata presidencial (ao menos por enquanto) Manuela D´Ávila deu uma entrevista à rede BBC onde desfiou algumas pérolas sobre a Amazônia e o regime militar de 1964 [1].

Ao ler o conteúdo da entrevista no capítulo referente ao regime militar de 1964,  Manuela D’Ávila soltou a seguinte pérola: “Os militares fizeram governos antidemocráticos, que perseguiram meu partido, mas tinham algumas visões mais nacionalistas que o governo atual.

A base para a alegação de Manuela D’Ávila seria de que o “ciclo (militar,  grifo meu) que trouxe a indústria para o país, por exemplo. Olhar de forma maniqueísta a história do Brasil não vai ajudar o país a sair da crise.”

Essa postura condescendente com os presidentes/ditadores parece resultar da falta de leituras por parte de Manuela D’Ávila de alguns autores que explicaram bem a política industrial do regime militar de 1964, a começar por Ruy Mauro Marini [2] e Celso Furtado [3]. É que se ela os tivesse lido, certamente saberia que não houve nada de nacionalista na ação dos militares que apearam via um golpe militar o presidente João Goulart.

Essa condescendência com os militares é especialmente surpreendente porque é uma reprodução um tanto canhestra do “rouba, mas faz” de Paulo Maluf. É que essa invocação de que os militares que exerceram o poder com lista de quem devia morrer nas mãos eram mais nacionalistas do que o governo “de facto” de Michel Temer, invocando ainda a necessidade de não se olhar a história brasileira de forma maniqueísta é uma verdadeira tragédia.

É que essa invocação traz embutida a aceitação (equivocada acima de tudo) de que em nome da industrialização é possível de alguma forma exonear o que ocorreu no Brasil entre 1964 e 1985. E, pior, para que se implantasse um modelo de industrialização que apenas poupou os países ricos de continuarem tendo dentro de suas fronteiras as indústrias mais poluentes e degradoras dos ecossistemas naturais e da saúde humana.

O interessante é que essas declarações de Manuela D´Ávila acontecem no mesmo período em que o ex-comunista Raul Jungmann declarou que a confirmação, via documentação da CIA, de que os generais/presidentes Ernesto Geisel e João Figueiredo seguravam em suas mãos os destinos de seus opositores não “afetava” o prestígio das forças armadas [4].  Só faltou Jungmann condenar o maniqueísmo de quem associasse essa confirmação a uma falta de nacionalismo por parte dos generais/presidentes que decidiram manchar suas mãos com o sangue de opositores políticos.

Mas no essencial, penso que estamos muito mal parados com esse tipo de visão sobre o papel cumprido na história recente do Brasil pelos militares durante os chamados “anos de chumbo”.  


[1] http://www.bbc.com/portuguese/brasil-44048851

[2] https://www.ifch.unicamp.br/criticamarxista/arquivos_biblioteca/artigo236merged_document_246.pdf

[3] http://www.centrocelsofurtado.org.br/arquivos/image/201111011233060.CD_edicao9_cmpleto.pdf

[4] http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,jungmann-defende-prestigio-das-forcas-armadas-e-general-fala-em-interesses-politicos,70002305043

 

A Folha de São Paulo dá pintas de que tem saudades da ditadura

Não bastasse o edital em que basicamente clamava pela repressão aos protestos contra Michel Temer (Aqui!), a Folha de São Paulo publicou hoje uma matéria (ver reprodução parcial abaixo) onde é ressuscitado o lema “Brasil ame-o ou deixe-o” que os presidentes ditadores utilizaram durante os anos de chumbo para legitimar a perseguição aos opositores do seu regime de exceção.

saudades

Alguém mais ingênuo poderia achar que os editores da Folha de São Paulo decidiram apenas fazer um “gracejo” com o velho bordão da propaganda oficial do regime militar de 1964.  Se foi isso, a coisa é de um mau gosto terrível. 

O pior é que nem Michel Temer é o Brasil e, tampouco, os que não aceitam a sua permanência no cargo para o qual não foi eleito querem deixar o Brasil.  Assim, ao usar este bordão de forma capiciosa, o pessoal da Folha de São Paulo está apenas e obviamente jogando com uma mensagem subliminar que traz conotações terríveis para quem viveu sob o regime de exceção.

Ao julgar pelo andar da carruagem e da sucessão de tiradas de mau gosto, os donos da Folha de São Paulo estão mesmo é irritados com o tamanho da reação que está acontecendo ao golpe de estado “light” do qual eles foram instrumentos importantes para vender a narrativa de que Dilma Rousseff precisava ser apeada do poder a despeito de ter sido sufragada por mais de 54 milhões de eleitores.

Mas não é a primeira vez, nem deverá ser a última, que os donos da Folha de São Paulo são levados a apoiar regimes que não possuem a chancela democrática da maioria do povo brasileiro. É que quem apoia uma ditadura como a de 1964 não se torna genuinamente democrático. Simples assim!