Com mandato contado em meses e sem garantias de continuidade após as eleições, o governo Couto oferece uma conjuntura passageira que não deveria ser confundida com uma política de Estado
Tenho ouvido com alguma frequência avaliações bastante positivas sobre a relação das universidades estaduais com o governo de Ricardo Couto. Em alguns casos, chega-se a afirmar que o desembargador estaria realizando um excelente trabalho à frente do governo do Rio de Janeiro. Não tenho dificuldade em reconhecer que determinadas medidas tomadas por Couto parecem apontar para uma tentativa de reorganização administrativa e financeira de um Estado que há muito convive com graves problemas de planejamento, aparelhamento político e deterioração de sua capacidade institucional. O problema começa quando uma avaliação positiva sobre medidas tomadas pelo atual governador passa a ser confundida com a existência de condições estáveis para planejar o futuro das universidades fluminenses.
Há nessa leitura um paradoxo que não deveria passar despercebido. O governo Ricardo Couto é produto direto de uma das mais graves crises institucionais recentes do estado do Rio de Janeiro. Cláudio Castro renunciou ao cargo, o posto de vice-governador já estava vago, o então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, que deveria ocupar posição central na linha sucessória, havia sido preso preventivamente e posteriormente teve seu mandato cassado, enquanto o STF impediu que o novo presidente da Assembleia Legislativa assumisse interinamente o governo. Esse cenário extraordinário permitiu que Ricardo Couto, então presidente do Tribunal de Justiça, chegou ao Palácio Guanabara.
Portanto, é no mínimo curioso que justamente um governo nascido de tamanha instabilidade esteja sendo apresentado como uma espécie de porto seguro para o planejamento das universidades fluminenses, especialmente as estaduais. Isso se torna ainda mais contraditório quando o próprio Ricardo Couto reconhece a profundidade da crise que encontrou e fala publicamente na existência de uma espécie de “captura” do Executivo pelo Legislativo. Se esse diagnóstico estiver correto, e eu considero que está, estamos falando de algo muito mais grave do que simples problemas administrativos, pois o que está em questão é a própria deterioração das fronteiras institucionais entre os poderes e a apropriação de partes da máquina pública por grupos políticos.
É verdade que Couto tomou medidas que procuram enfrentar alguns desses problemas e seu governo promoveu auditorias em contratos, restringiu despesas, alterou postos importantes da administração e anunciou mecanismos destinados a reforçar o planejamento fiscal. Mas reconhecer esses aspectos não nos obriga a transformar Ricardo Couto em garantia de estabilidade institucional, até porque ele não será o governador do Rio de Janeiro depois de 31 de dezembro. Estamos em plena campanha eleitoral e não vi, até agora, compromissos inequívocos dos principais candidatos de preservar o conjunto das mudanças que estão sendo realizadas pela atual administração.
Mas existe uma segunda questão que considero ainda mais preocupante para quem dirige uma universidade pública: o dinheiro. O estado do Rio de Janeiro aderiu ao PROPAG e isso vem sendo apresentado como uma possibilidade importante de obtenção de novos recursos para áreas como educação e para as próprias universidades estaduais. A possibilidade existe, mas daí a tratar esses recursos como base segura para uma estratégia de expansão institucional existe uma distância considerável. O PROPAG não é simplesmente um programa de distribuição de dinheiro novo. Ele é, antes de tudo, um mecanismo de renegociação da gigantesca dívida estadual e vem acompanhado de contrapartidas fiscais, entre elas a limitação do crescimento das despesas primárias.
Isso significa que o mesmo programa que pode abrir uma janela para investimentos também impõe disciplina sobre a expansão futura dos gastos. Além disso, universidades estaduais são apenas uma das destinações possíveis dos recursos, enquanto a educação profissional técnica de nível médio possui prioridade específica dentro das regras do programa. Portanto, afirmar que o PROPAG permite investimentos nas universidades é correto; concluir daí que UERJ e UENF terão garantido um fluxo crescente e permanente de recursos é algo completamente diferente.
A situação fica ainda mais delicada quando se observa o cenário fiscal mais amplo. O governo estadual trabalha para reduzir drasticamente o déficit e chegar ao equilíbrio das contas, enquanto no plano federal a política fiscal aponta para metas de superávit e contenção do crescimento das despesas. Ou seja, estamos entrando em 2027 sob sinais bastante claros de maior restrição fiscal tanto no governo federal quanto no estadual. Planejar grandes expansões universitárias supondo disponibilidade crescente de recursos nesse contexto exige, no mínimo, uma boa dose de cautela.
Há ainda uma distinção que qualquer gestor universitário deveria conhecer muito bem: recurso para investimento não é a mesma coisa que recurso para custeio permanente. Com dinheiro extraordinário pode-se construir um prédio, comprar equipamentos, reformar laboratórios ou implantar uma nova unidade. Mas depois será necessário pagar professores, técnicos, terceirizados, energia, manutenção, segurança, bolsas e uma longa lista de despesas que se repetirão todos os anos. Desta forma, criar estruturas permanentes com recursos temporários é uma das maneiras mais eficientes de produzir déficits permanentes.
É por isso que, quando ouço dirigentes universitários celebrarem que “a relação com o governo está excelente” ou manifestarem grandes expectativas sobre recursos provenientes do PROPAG, fico me perguntando se não estamos confundindo uma janela conjuntural de oportunidade com uma mudança estrutural nas condições de financiamento das universidades estaduais.
A pergunta que deveria orientar qualquer planejamento responsável é muito simples: qual será a fonte permanente de financiamento das despesas permanentes que estão sendo criadas agora? Se essa resposta depender de Ricardo Couto continuar organizando as finanças estaduais, de o próximo governador manter suas políticas, de o PROPAG gerar recursos suficientes e de futuros orçamentos estaduais preservarem as universidades em meio a um cenário de ajuste fiscal, então não temos propriamente um planejamento. Temos uma sequência de apostas.
Universidades como UENF e UERJ trabalham com horizontes de décadas, enquanto o governo Couto, por definição, possui um horizonte de meses. Questões como financiamento, concursos públicos, recomposição dos quadros, planos de carreira, infraestrutura e expansão acadêmica precisam estar sustentadas por orçamento, legislação e compromissos institucionais capazes de sobreviver à troca do ocupante do Palácio Guanabara. Por isso, talvez seja necessário substituir a pergunta “Ricardo Couto está tratando bem as universidades?” por duas outras muito mais importantes: o que o governo Couto está deixando institucionalizado para impedir que seu sucessor simplesmente aperte o botão de reset em janeiro de 2027? E quem pagará, nos anos seguintes, pelas estruturas permanentes que as universidades eventualmente criarem aproveitando recursos extraordinários disponíveis hoje?
Se não houver respostas convincentes para essas duas perguntas, podemos estar vivendo uma conjuntura favorável de relacionamento com o governo e até uma oportunidade momentânea de investimentos, mas certamente não estaremos diante de uma política de Estado. E dirigentes universitários deveriam ser justamente aqueles mais capazes de compreender a diferença entre oportunidade e sustentabilidade. Afinal, talvez não exista aposta mais perigosa para uma universidade pública do que criar despesas para décadas contando com dinheiro disponível por alguns anos e com a boa vontade de um governo que tem data marcada para terminar.




