Syngenta, ADAMA e os pós-patentes revelam como a China avançou sobre a indústria mundial de agrotóxicos e como o Brasil se tornou peça-chave de um colonialismo químico cada vez mais Sul–Sul
A reportagem publicada pelo Correio 24 Horas sobre o crescimento da Syngenta no Brasil oferece uma oportunidade para discutir algo muito maior do que o desempenho comercial de uma empresa de sementes e agrotóxicos. O dado mais imediato já chama atenção: enquanto a receita global da companhia recuou no primeiro semestre de 2026, suas vendas de sementes cresceram 18% no Brasil. Mais importante é perceber que esse crescimento ocorre em um dos maiores mercados mundiais de agrotóxicos e em um país no qual continuam autorizados ingredientes ativos que não possuem autorização para uso na União Europeia.
Há, entretanto, outra questão que merece ser colocada no centro dessa discussão. A própria definição da Syngenta como uma “gigante suíça” tornou-se insuficiente para explicar quem controla hoje uma parcela importante da indústria mundial de agrotóxicos e, principalmente, para compreender o peso adquirido pela China nessa cadeia global.
Suíça na fachada, China no controle
A Syngenta mantém sua sede em Basileia e conserva uma identidade corporativa fortemente associada à Suíça, mas isso não significa que continue sendo uma companhia suíça independente. Em 2017, a empresa foi adquirida pela estatal chinesa ChemChina por aproximadamente US$ 43 bilhões. Posteriormente, a reorganização envolvendo ChemChina e Sinochem colocou o Syngenta Group sob controle da Sinochem Holdings, empresa estatal supervisionada pela SASAC, órgão do Conselho de Estado chinês responsável pela administração dos grandes ativos empresariais estatais.
Mas a Syngenta não foi a única aquisição estratégica realizada pelos chineses. Alguns anos antes, em 2011, a ChemChina já havia adquirido o controle da Makhteshim Agan, companhia israelense que posteriormente passou a operar mundialmente sob a marca ADAMA. O controle chinês foi ampliado nos anos seguintes e, atualmente, a ADAMA integra o próprio Syngenta Group. A empresa continua sediada em Israel e preserva sua marca e identidade histórica, mas seu controle societário está inserido na mesma estrutura chinesa que controla a Syngenta.
A incorporação da ADAMA é especialmente reveladora porque não se tratava de uma empresa marginal. Antes mesmo de sua integração à atual estrutura chinesa, a companhia se apresentava como uma das maiores empresas mundiais de agrotóxicos genéricos e pós-patente. Atualmente, a própria ADAMA informa possuir um portfólio de centenas de ingredientes ativos e ocupar posição de destaque mundial na proteção de cultivos.
Quando colocamos Syngenta e ADAMA lado a lado, portanto, a estratégia chinesa torna-se muito mais clara. De um lado, a aquisição da Syngenta permitiu acessar pesquisa, desenvolvimento, patentes, sementes, marcas e uma gigantesca estrutura internacional de comercialização. De outro, o controle da ADAMA reforçou uma posição particularmente importante no mercado dos produtos genéricos e pós-patente. O resultado foi a construção de uma estrutura capaz de operar simultaneamente no topo tecnológico da indústria e no enorme mercado mundial dos princípios ativos cujas patentes já expiraram.
A China domina justamente a base industrial dos agrotóxicos
Esse aspecto é particularmente importante porque ajuda a entender por que a dimensão chinesa da indústria mundial de agrotóxicos permanece muito menos visível do que deveria. Um estudo publicado na revista World Development estima que empresas chinesas já respondem por quase 70% da produção mundial de agrotóxicos, sendo grande parte dessa produção constituída justamente por ingredientes ativos pós-patente.
A ascensão chinesa, portanto, não ocorreu apenas pelo crescimento das exportações, mas por uma estratégia de ocupação progressiva dos diferentes níveis da cadeia agroquímica. Empresas chinesas começaram fortemente concentradas na fabricação de ingredientes ativos e genéricos de menor valor agregado, avançaram sobre formulação e distribuição e, por meio de fusões e aquisições, passaram a controlar empresas que detêm marcas globais, redes comerciais, tecnologias e capacidade de pesquisa e desenvolvimento. O estudo da World Development mostra inclusive que empresas estatais e privadas chinesas estão hoje presentes nos diferentes estratos da cadeia mundial de agrotóxicos, enquanto a propriedade estatal possui importância especialmente forte justamente no seu nível superior.
A aquisição da Syngenta deve ser entendida nesse contexto, assim como a incorporação da ADAMA. Não estamos diante de compras empresariais desconectadas, mas da formação de um complexo agroquímico capaz de combinar produção massiva de ingredientes ativos pós-patente, formulação, marcas internacionais, pesquisa e desenvolvimento e redes globais de comercialização.
É justamente essa estrutura que torna a presença chinesa menos evidente do que efetivamente é. Um agrotóxico pode chegar ao agricultor brasileiro carregando uma marca historicamente suíça ou israelense e, ainda assim, integrar uma cadeia corporativa cujo controle final está ligado ao Estado chinês. Em outras situações, o ingrediente ativo utilizado na formulação pode ter sido produzido por uma empresa chinesa e comercializado posteriormente sob outra marca. A nacionalidade estampada no rótulo, portanto, diz cada vez menos sobre a verdadeira geografia econômica dos agrotóxicos.
O Brasil tornou-se estratégico para essa engrenagem
É nesse ponto que o caso brasileiro ganha enorme importância. Dados do comércio internacional mostram que a China se consolidou como principal fornecedora externa de agrotóxicos e produtos relacionados para o Brasil. Em 2024, aproximadamente 45% do valor importado pelo Brasil na categoria internacional que reúne inseticidas, herbicidas, fungicidas e produtos semelhantes veio diretamente da China. Em quantidade física, a concentração foi ainda maior, aproximando-se de dois terços de todo o volume importado.
Esses números precisam ser observados juntamente com o fato de que, além de ser o principal fornecedor direto, o capital estatal chinês controla justamente alguns dos ativos corporativos mais importantes da indústria agroquímica mundial. Temos, portanto, dois movimentos que se reforçam mutuamente: uma enorme corrente comercial China → Brasil, abastecendo diretamente o mercado brasileiro, e outra menos visível, mediada por empresas transnacionais historicamente identificadas com outros países, mas atualmente integradas a conglomerados chineses.
Quando Syngenta e ADAMA entram juntas nessa equação, torna-se ainda mais difícil tratar a China apenas como uma fornecedora de matérias-primas baratas para a indústria agroquímica mundial. Ela ocupa progressivamente a própria estrutura de comando dessa indústria.
E a Índia também entrou no mapa
Mas a China não é o único país do Sul Global cuja ascensão modifica a velha geografia mundial dos agrotóxicos. A Índia também se transformou em um importante produtor e exportador, apoiando-se em vantagens semelhantes às que impulsionaram inicialmente a indústria chinesa: capacidade industrial química, custos competitivos de produção e forte especialização em moléculas genéricas e pós-patente.
Dados recentes colocam a Índia entre os maiores produtores mundiais de agrotóxicos e mostram uma indústria fortemente voltada para exportações. A expiração de patentes é explicitamente identificada pelo próprio setor indiano como uma importante oportunidade para ampliar a fabricação de moléculas genéricas e conquistar mercados internacionais.
Os números mostram que essa não é uma transformação marginal. As exportações indianas de agrotóxicos, considerando produtos técnicos e formulados, passaram de aproximadamente 461 mil toneladas em 2018-19 para 641 mil toneladas em 2023-24. E há um dado especialmente significativo para nós: naquele último período, o Brasil foi o principal destino em volume dos agrotóxicos exportados pela Índia, recebendo 23,7% do total.
China, Índia e Brasil passam, assim, a formar alguns dos nós fundamentais de uma nova geografia mundial dos agrotóxicos.
O colonialismo químico está mudando de direção
É justamente aqui que o conceito de colonialismo químico, desenvolvido pela geógrafa brasileira Larissa Bombardi, ganha uma nova dimensão. Ao estudar os fluxos internacionais de agrotóxicos, Bombardi demonstrou a existência de uma profunda assimetria entre aquilo que países europeus consideram aceitável para seus próprios territórios e aquilo que suas empresas produzem ou comercializam em outras partes do mundo. O paradoxo tornou-se conhecido: determinadas substâncias deixam de ser autorizadas na União Europeia em função dos riscos ambientais ou sanitários associados ao seu uso, mas continuam circulando internacionalmente e sendo utilizadas em países onde a regulação é mais permissiva.
O Brasil tornou-se um dos exemplos mais evidentes dessa geografia desigual, mas a ascensão chinesa e, mais recentemente, a consolidação da Índia como grande produtora e exportadora de agrotóxicos obrigam a ampliar essa interpretação. O fluxo já não pode ser compreendido exclusivamente segundo o eixo Norte Global → Sul Global, pois uma parcela crescente da produção mundial está concentrada no próprio Sul Global e circula intensamente entre países do Sul.
Isso não invalida a formulação de Bombardi, mas mostra que a geografia do colonialismo químico está se tornando mais complexa. O mecanismo fundamental permanece: determinados territórios concentram produção e acumulação econômica, enquanto outros absorvem desproporcionalmente os riscos ambientais e sanitários associados ao uso intensivo dessas substâncias. O que está mudando são os lugares ocupados pelos diferentes atores nessa divisão internacional.
O colonialismo químico também pode ser Sul–Sul
A emergência de novas potências econômicas do Sul Global não significa necessariamente a superação das relações ambientalmente desiguais que caracterizaram historicamente o sistema internacional. Em determinadas cadeias produtivas, pode significar simplesmente sua reprodução por novos atores, e o complexo agroquímico oferece um exemplo particularmente evidente dessa transformação.
China e Índia desenvolveram gigantescas capacidades de produção de ingredientes ativos e produtos pós-patente, enquanto países como o Brasil oferecem uma combinação extremamente atraente de agricultura em larga escala, enorme demanda por insumos químicos e um sistema regulatório que permite a utilização de substâncias que enfrentam restrições em outros mercados.
Nesse sentido, o colonialismo químico deixa de possuir apenas uma direção geográfica. Ele continua operando no eixo Norte–Sul, mas passa também a circular intensamente no eixo Sul–Sul, produzindo uma rede muito mais complexa de transferência de riscos ambientais.
O caso brasileiro é particularmente revelador porque o país aparece simultaneamente como grande potência agrícola e como gigantesco mercado consumidor de produtos fabricados em outros países do Sul Global. O fato de o Brasil ter se tornado o maior destino das exportações chinesas de agrotóxicos em determinados anos e aparecer também como principal destino em volume das exportações indianas em 2023-24 mostra que essa nova geografia já não é uma hipótese abstrata.
Os lucros circulam; a toxicidade fica
O problema fundamental, portanto, não está simplesmente na nacionalidade das empresas. O que está se formando é uma cadeia agroindustrial transnacional na qual corporações historicamente europeias ou israelenses, capitais estatais chineses, fabricantes chineses e indianos de ingredientes ativos, tradings internacionais e grandes produtores agrícolas brasileiros participam de um mesmo sistema econômico, enquanto os benefícios e os riscos associados a esse sistema permanecem distribuídos de maneira profundamente desigual.
Os lucros, as marcas e os capitais atravessam fronteiras com enorme facilidade, enquanto a toxicidade permanece principalmente nos territórios onde esses produtos são utilizados, acumulando-se potencialmente na água, nos solos e nos organismos expostos e alcançando trabalhadores rurais, populações próximas às áreas de aplicação e consumidores por diferentes rotas de exposição. Por isso, a discussão sobre a nacionalidade das empresas não pode obscurecer uma questão essencial: quem se apropria dos benefícios econômicos e quem permanece com os custos ambientais e sanitários desse modelo?
O Brasil como grande mercado da permissividade
É justamente nesse ponto que o crescimento da Syngenta relatado pelo Correio 24 Horas ganha significado político e econômico mais amplo. O Brasil não se tornou um mercado estratégico para a indústria mundial de agrotóxicos por acaso, pois somos simultaneamente uma gigantesca potência agrícola, um dos maiores mercados mundiais desses produtos e um país no qual substâncias que enfrentam restrições em outros mercados continuam encontrando espaço comercial.
A permissividade regulatória, portanto, não pode ser tratada apenas como uma peculiaridade burocrática brasileira, pois ela possui evidente valor econômico. Cada ingrediente ativo que perde mercado em países com regulações mais restritivas precisa encontrar outros destinos para continuar gerando receita, enquanto cada patente que expira abre um gigantesco mercado para fabricantes chineses e indianos especializados em produtos genéricos e pós-patente. O Brasil oferece simultaneamente escala territorial, demanda agrícola e condições regulatórias para absorver parte expressiva dessa produção.
Por isso, quando uma corporação agroquímica cresce fortemente justamente no mercado brasileiro enquanto determinados produtos enfrentam regulações mais rigorosas em outras regiões, é necessário perguntar se estamos diante apenas de uma história empresarial de sucesso ou de algo muito mais profundo: uma nova divisão internacional da produção e dos riscos químicos.
O agrotóxico tem passaporte, mesmo quando ele fica escondido
A reportagem do Correio 24 Horas ajuda, portanto, a revelar uma contradição importante do capitalismo agroquímico contemporâneo. A Syngenta continua tendo endereço suíço e a ADAMA continua carregando uma história empresarial israelense, mas ambas integram hoje uma estrutura corporativa controlada pelo Estado chinês. Paralelamente, gigantescos volumes de ingredientes ativos e produtos formulados saem diretamente de fábricas chinesas e indianas em direção aos grandes mercados agrícolas mundiais, entre os quais o Brasil ocupa posição privile
