Para fugir de suas responsabilidades na devastação da Amazônia, o improbo Ricardo Salles ataca a Noruega e o ex-diretor do INPE

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O ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, esteve hoje no Senado Federal para oferecer suas explicações sobre o caos ambiental em que o Brasil está imerso sob sua batuta. Entretanto, usando o melhor estilo “Chacrinha” de confundir e não explicar, ele tentou sair da defensiva atacando a Noruega e o ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o físico Ricardo Galvão.

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Segundo o que informou o site UOL em matéria assinada pelo jornalista Hanrrikson de Andrade, Salles tentou sair das cordas atacando a Noruega por sua suposta hipocrisia em torno de questões ambientais em função do país nórdico explorar petróleo no mar do Ártico e caçar baleias. Já para Ricardo Galvão sobrou a acusação de que ele teria sido exonerado por ter colocado “lenha no fogo”.

A crítica à Noruega é particularmente interessante, na medida em que o país é o principal financiador do Fundo Amazônia que até recentemente apoiava projetos de desenvolvimento sustentável e proteção ambiental na região amazônica do Brasil. Até parece que Ricardo Salles sabe que os noruegueses estão para suspender definitivamente o aporte bilionário que vinham realizando, já que a nova política do governo brasileiro é escancarar as portas do desmatamento e não o contrário.

Em relação ao físico Ricardo Galvão a acusação de que ele teria colocado lenha no fogo beira o risível, na medida em que o ex-diretor do Inpe apenas defendeu a instituição que dirigia dos ataques virulentos desferidos pelo presidente Jair Bolsonaro e pelo próprio Ricardo Salles.

A verdade é que a tática “Chacrinha” pode até ser suficiente para quebrar o galho no Senado Federal, mas dificilmente servirá para aplacar as pesadas críticas que estão sendo desferidas mundialmente contra o Brasil por causa do avanço desenfreado do desmatamento na Amazônia.  E tampouco esse tipo de atividade diversionista protegerá o Brasil de boicotes bem maiores do que aquele que já está ocorrendo na Suécia por meio da cadeia Paradiset. 

O fato inescapável é que se o governo brasileiro está repleto de negacionistas das mudanças climáticas, incluindo até o novo diretor do Inpe, o coronel aviador Darcton Policarpo Damião, boa parte dos governos mundiais pensa o contrário. E como a destruição da Amazônia certamente acelerará as mudanças climáticas que estão ocorrendo na Terra, a postura que será adotada não será de tolerância.  Gostem disso ou não, Jair Bolsonaro e Ricardo Salles.

 

Ameaças e diversionismo não irão ocultar o desmatamento explosivo na Amazônia

bolso sallesO presidente Jair Bolsonaro e o ministro do meio ambiente Ricardo Salles: enquanto um ameaça, o outro tenta tampar o sol com a peneira.

O governo Bolsonaro se divide em ameaçar de demissão o  diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Ricardo Galvão e questionar a validade dos dados de desmatamento que os pesquisadores da instituição produzem de forma meticulosa. Essa postura é típica de quem sabe que suas próprias políticas de desmantelamento da governança ambiental e destruição dos mecanismos de comando e controle estão sendo altamente eficientes.

A “novidade” é o anúncio de que o governo Bolsonaro, por meio do seu anti-ministro do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, vai contratar uma empresa particular para fazer aquilo que o resto do mundo já reconhece o Inpe faz com maestria. Essa é a parte do diversionismo, pois não se diz nem como e porque se vai adotar uma nova e misteriosa forma de medir o desmatamento que hoje corre solto pelas florestas da Amazônia.  Há ainda, porém, um elemento do interesse privado e dos potenciais interessados em se contratar a peso de ouro uma empresa particular para fazer aquilo que o Inpe já faz.

O erro do governo Bolsonaro é subestimar o impacto do que está acontecendo a partir do êxito de suas políticas, pois se até a revista “The Economist” já apontou o dedo acusador, não vai ser com uma empresa contratada para produzir dados sob medida que a coisa vai se resolver.

Outro detalhe que parece escapar ao discernimento dos “espertos” que compõe o governo Bolsonaro é que existem dezenas de grupos de pesquisa fazendo trabalho semelhante ao do Inpe em várias partes do mundo. E, mais, que esses grupos não terão como ser tutelados ou seus diretores demitidos. Aliás, o mais provável é que vários pesquisadores de renome internacional que estão hoje no Inpe sejam convidados a continuar o trabalho que está sendo atacado no conforto de laboratórios igualmente equipados em outras partes do planeta. 

Volto a frisar que toda essa chacrinha em torno dos dados de desmatamento serve apenas para ocultar que os problemas criados pelo governo Bolsonaro vão além, muito além, do desmatamento. A ação ampliada de garimpeiros e madeireiros estão criando condições ideais para mais desmatamento, mas isto ainda não está necessariamente sendo medido pelo tipo de sensor utilizado pelo Inpe.  A gritaria mundial vai certamente aumentar quando os dados de desmatamento forem somados aos da degradação florestal que está sendo também acelerada na Amazônia, muito em função do que foi desconstruído pelo governo Bolsonaro em pouco mais de 7 meses de governo.

Finalmente, pressinto que qualquer violência institucional que seja cometida contra o Inpe deverá acelerar as respostas que muitos governos estrangeiros já estão articulando por causa da devastação que o governo Bolsonaro está permitindo na Amazônia. E se isso acontecer, talvez (notem que eu disse talvez) o presidente Jair Bolsonaro e sua entourage de ministros que parecem ter saído de filmes do Século XVI se toquem de que a banda não toca necessariamente do jeito que eles querem, e que existem repercussões para quem quer brincar de  Donald Trump das Selvas às custas do equilíbrio climático da Terra.

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Improbo Ricardo Salles não consegue explicar alta do desmatamento

Nota do Observatório do Clima sobre entrevista coletiva do ministro do Meio Ambiente

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 O ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles em entrevista na GloboNews.

A montanha pariu um rato. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles (Novo-SP), convocou mais uma entrevista coletiva para apresentar os “dados reais” sobre o desmatamento na Amazônia prometidos por Jair Bolsonaro, mas terminou fazendo apenas ginástica retórica e botando a culpa na mídia pela interpretação dos dados.

Salles fracassou quatro vezes em sua performance: não conseguiu descredenciar o Inpe, instituição que Jair Bolsonaro havia chamado de mentirosa; não apresentou nenhum dado alternativo aos do sistema Deter, que divulga alertas de desmatamento; não explicou o aumento da devastação na Amazônia – o número de alertas em julho é o maior desde que o Deter foi criado, em 2004, e é quase quatro vezes maior do que o de julho do ano passado; e não disse o que vai fazer para conter a explosão da devastação, que é sua responsabilidade.

Pior ainda, reafirmou a intenção de usar dinheiro público para contratar mais um sistema de sensoriamento remoto, quando o que falta na Amazônia neste momento é fiscalização e investimento em atividades sustentáveis. Bolsonaro culpou o termômetro pela febre; seu ministro, agora, culpa a leitura do termômetro. A doença, porém, segue  sem tratamento – e o paciente sofre.

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].

O improbo Ricardo Salles e a insustentável leveza da ocultação do desmatamento na Amazônia

salles pontesRicardo Salles e Marcos Pontes agem para ocultar o sucesso das políticas de devastação da Amazônia do governo Bolsonaro quando atacam a validade dos dados de desmatamento do Inpe.

O ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, continua em sua insustentável procura por uma peneira permita tampar o sol com a peneira no caso das explosivas taxas de desmatamento que estão ocorrendo na porção brasileira da bacia Amazônica.

É que a insistência em atacar os dados gerados pelo sistema DETER do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais apenas explicita ainda mais o fato inescapável de que o desmatamento explodiu na Amazônia sob as asas das políticas anti-ambientais do governo Bolsonaro, dos quais Ricardo Salles é um dos artífices. Nesse sentido, recomendo o interessante artigo da jornalista Giovana Girardi que explica de forma bastante didática como funcionam os sistemas de acompanhamento do desmatamento que o Inpe utiliza. 

desmatamento 1Políticas anti-ambiente do governo Bolsonaro estão acelerando devastação da Amazônia: o curioso caso de um sucesso que precisa ser ocultado.

Como já escrevi, o bode que Ricardo Salles tenta esconder é o sucesso de sua eficiência no desmanche no sistema de governança ambiental (que já era insuficiente) e da paralisação objetiva dos mecanismos de comando e controle que existiam no Ministério do Meio Ambiente antes da sua chegada ao cargo de ministro.  

Mas que ninguém se engane, o que Ricardo Salles está tentando fazer é apenas repetir as táticas diversionistas que são empregadas pelo governo Bolsonaro toda vez que alguém é pego com a boca na botija. A verdade inescapável é que este é um governo que foi eleito para permitir a ampliação desenfreada da devastação na Amazônia e vem trabalhando duro para que isso ocorra. O problema que o governo Bolsonaro vem enfrentando é que parceiros comerciais importantes não estão dispostos a assistir sentados o comprometimento da integridade física da Amazônia, e é isso que efetivamente incomoda Ricardo Salles.  Um artigo bastante crítico publicado pela respeitada “The Economist” indica que a resistência não deverá ficar restrita aos “veganos” como já citou o presidente Jair Bolsonaro.

Por outro lado, quero enfatizar um aspecto  que é pouco abordado em todo esse debate sobre os números do desmatamento.  O fato é que ao centrar todo o debate no corte raso, o governo Bolsonaro omite o fato que sua inação na proteção dos ecossistemas amazônicos estão permitindo o avanço não apenas da franja de desmatamento, mas também de diferentes formas e níveis de degradação que, eventualmente, podem facilitar a remoção total das florestas.  Falo aqui da ação dos garimpeiros e madeireiros que estão pilhando ilegalmente áreas inteiras da Amazônia e, por sua vez, aumentando as áreas sob degradação.

Apesar dessa dinâmica entre diferentes formas de degradação e a eventual ocorrência do desmatamento já ser conhecida, ainda faltam mais estudos de alcance global dentro da Amazônia para que se possa estimar quanto de seu território já foi impactado e quanto está em condições “intocadas”.  Mas posso adiantar que não apenas existem estudos nesse sentido sendo feitos, como os mesmos mostrarão que os 20% de áreas desmatadas são apenas uma parcela de um problema bem maior.

De toda forma, é fundamental não cair na “trampa” armada pelo governo Bolsonaro para desacreditar os dados do Inpe que são excelentes para se estimar a dinâmica do desmatamento e indicar os pontos de “hot spots” desse porção do problema causado pelo avanço da franja de destruição dos ecossistemas amazônicos, os quais sabemos são fundamentais para a regulação climática em escalas regional e global. Nesse sentido, defender a autonomia científica do Inpe é um excelente passo para desmontar os muros de ocultação que Ricardo Salles tenta construir para ocultar o sucesso de suas próprias ações.

Finalmente, me parece cada vez mais claro que o governo Bolsonaro está fortemente disposto a ser o artífice da destruição do acordo comercial do Mercosul com a União Europeia. É que dadas as salvaguardas ambientais colocadas para impedir a destruição da Amazônia e proteger os povos indígenas, o atual curso de negação do óbvio impedirá a ratificação do mesmo.  Algo que Donald Trump e sua política de hegemonia pela submissão irrestrita agradece plenamente.

Ministério do Meio Ambiente tira da internet mapas de áreas de conservação

Imagens excluídas indicam áreas com ecossistema em extinção ou com espécies endêmicas e que precisam de proteção

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(foto: Registro de áreas de conservação estão indisponíveis no site do MMA. Foto: Reprodução MMA)

O Ministério do Meio Ambiente tirou da página na internet uma série de mapas de áreas prioritárias para conservação da biodiversidade brasileira. As imagens, que estavam disponíveis na página do Ministério, indicam áreas com ecossistema em extinção ou com espécies endêmicas, isto é, que só existem naqueles locais específicos, e precisam de proteção. Esse zoneamento orienta técnicos da pasta e de autarquias como o Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade (ICMBio) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) tanto em ações de fiscalização quanto de manejo e uso da terra.

Entre os ecossistemas das áreas prioritárias está a Mata Atlântica. O bioma, que sofreu diversas degradações, atualmente, ocupa menos de 10% do território inicial. A assessoria do Meio Ambiente informou que o hotsite foi retirado do ar,  “pois foi verificada a necessidade de ajustes no mapa das áreas prioritárias para conservação, uso sustentável e repartição de benefícios”. Consta no texto que “os ajustes se fizeram necessários, pois havia um sombreamento entre biomas. A decisão de retirar do ar ocorreu para evitar a disseminação de informação equivocada.”

“Área sombreada” equivaleria a uma marcação de um bioma no mapa que, na verdade, pertence a outro tipo de ecossistema. Uma mancha errada sobreposta no desenho final. Questionada se isso havia ocorrido em todos os mapas, porém, a pasta não respondeu. Além disso, as matérias produzidas pela equipe do ministério e postadas no site a respeito dessas áreas também foram excluídas. Sem as imagens, qualquer iniciativa errônea que prejudique uma área de conservação prioritária, será mais difícil de detectar. “Informamos que os ajustes já estão sendo realizados e encontram-se em fase final. Tão logo seja finalizado, as informações serão republicadas”, respondeu o Meio Ambiente.

rsMinistério do Meio Ambiente é comandado por Ricardo Salles(foto: ALOISIO MAURICIO/FOTOARENA/ESTADAO CONTEUDO )

O deputado Rodrigo Agostinho (PSB-SP), que preside a Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados, comparou a ação no ministério com o processo que o ministro Ricardo Salles sofreu quando atuava como secretário do Meio Ambiente em São Paulo, por irregularidades na elaboração e aprovação do plano de manejo da Área de Proteção Ambiental Várzea do Rio Tietê. “Ele tomou uma atitude grave, que se assemelha a que o levou a sofrer um processo em São Paulo. Ele decidiu apagar os arquivos, tirar do sistema os mapas de áreas prioritárias de conservação, que indicam as áreas mais sensíveis do país”, criticou. O ministro pode recorrer e, a uma emissora de TV, disse que a sentença do juiz reconheceu que não houve dano ambiental nem vantagem pessoal.

Presidente da Associação dos Servidores da Carreira Especialistas em Meio Ambiente do Distrito Federal, Alexandre Bahia Gontijo foi cuidadoso ao comentar o caso. “O cuidado com essas regiões é importante e caro até para organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas. Eu não sei o que o ministro quer ao retirar essas informações da rede. Mas, se as informações não são mais públicas, isso é um problema”, avaliou. Para Gontijo, será importante comparar os mapas anteriores com os que serão postados.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo jornal Correio Braziliense [Aqui!].

Ricardo Salles inventa conceito para tentar ocultar desmatamento explosivo da Amazônia

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Ricardo Salles “inventa” conceito para tentar encobrir o sol com a peneira na questão do aumento explosivo do desmatamento na Amazônia.
Mais um membro do governo Bolsonaro que parece obstinado a cobrir o sol com a peneira é o ainda ministro (ou seria antiministro?) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que está empenhado em criar a noção de “desmatamento relativo” para obscurecer a dramática situação que está se desenvolvendo sob o seu comando na parte brasileira da bacia Amazônica.
É que pego com uma conta errada onde errou o cálculo do percentual de desmatamento anual na Amazônia em duas ordens de grandeza (Salles disse que era de 0,002% quando era de 0,16%), o antiministro do Meio Ambiente agora partiu para menosprezar as tendências temporais do desmatamento, partindo para uma definição objetivamente enganadora do “desmatamento relativo”.

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A idéia do desmatamento relativo é claramente mais uma invencionice de Ricardo Salles, na medida em que ele propõe jogar isso contra o conceito de desmatamento zero, o que ele chama de “desmatamento absoluto”, em uma tentativa de desprezar a perseguição de uma meta que é acima de tudo coerente. O fato é que na Amazônia brasileira já sobram terras desmatadas para a prática da agricultura e da pecuária, e o avanço do arco de desmatamento atende a outros interesses, incluindo a pilhagem ilegal de minérios e madeira, e a incorporação de novas porções de terras ao processo de especulação financeira. Aqui há que se ressaltar a presença de fundos financeiros no mercado de terras amazônicas, o que hoje é um dos principais motores do desmatamento.

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Intensidade do desmatamento na região amazônica aumento, de acordo com dados do Inpe. Foto: /Divulgação
O interessante é que em 2005 fui o co-autor de um estudo publicado pela revista Environmental Conservation onde fizemos projeções de desaparecimento de unidades de conservação em Rondônia a partir de cálculos de desmatamento que a princípio Ricardo Salles certamente diria que o desmatamento existente era “relativo” e, consequentemente, desprezível. O problema é que calculamos naquele trabalho a curva do desmatamento e ela se apresentou numa forma exponencial. O resultado é que 14 anos depois daquela publicação, os nossos cálculos acabaram sendo ultrapassados pela velocidade com que a descaracterização das áreas avaliadas ocorreu, justamente pelas mãos de madeireiros e outros tipos de ocupantes ilegais das suas terras.
O mais grave da postura divercionista de Ricardo Salles é que ela estimula a ação criminosa contra os órgãos de proteção ambiental, colocando em risco a vida de servidores que estão subordinados diretamente a ele. Um caso típico da ação criminosa ocorreu no dia de ontem (04/07) em uma área indígena justamente no sul de Rondônia onde batedores a serviços de madeireiros atearam fogo em um caminhão de combustível pertencente ao IBAMA em uma tentativa de evitar a ação fiscalizatória do órgão.

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Mapa mostra localidade do distrito de Boa Vista do Pacarana, região onde caminhão-tanque foi incendiado. — Foto: Reprodução/Google Earth
Diante da postura oficial do governo Bolsonaro, evidenciada de forma explícita por essa postura divercionista do ministro do Meio Ambiente, não é difícil imaginar que não apenas estão em risco o Fundo Amazônia e o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, mas a próprio comercialização de commodities agrícolas brasileiras por causa do avanço explosivo do desmatamento na Amazônia.
A razão para um eventual banimento da agrícola brasileira é simples. É que se o atual governo brasileiro finge que não entende a importância central das florestas amazônicas para a regulação do clima da Terra, a maioria dos governos dos países desenvolvidos entende perfeitamente. E esses governos também sabem que suas populações se tiverem de opt entre comer um bife de um animal alimentado com soja produzida na Amazônia e não fazer isso para proteger o clima, a maioria irá preferir adotar outra dieta. O exemplo do boicote da rede sueca de supermercados Paradiset está aí para provar o que estou afirmando.

Medo de boicote à produção agrícola brasileira força ruralistas a pedirem controle do desmatamento “ilegal” a Ricardo Salles

amazon deforestationMedo de boicote faz bancada ruralista pressionar Ricardo Salles por controle do “desmatamento ilegal” na Amazônia.

O ClimaInfo traz hoje a informação de que membros da chamada Frente Parlamentar da Agropecuário (FPA) (leia-se os representantes do latifúndio agro-exportador) se encontraram ontem (25/06) com o ainda ministro (ou seria antiministro?) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, para pedir medidas para o combate ao chamado “desmatamento ilegal” nas florestas brasileiras.

clima info desmate ilegalRuralistas se encontram com Ricardo Salles para pedir controle do “desmatamento ilegal” na Amazônia. Medo de boicote é a razão mais provável para o gesto.

Há quem possa ver nessa visita da FPA a Ricardo Salles apenas uma manobra diversionista para enganar observadores internacionais menos atentos (ou quiçá os negociadores da União Europeia que estão negociando o acordo comercial com o Mercosul).

Mas eu tendo a concordar com os editores do ClimaInfo que apontam para um possível medo da bancada ruralista em relação às pressões pela realizações de boicotes à compra da produção agrícola brasileira seguindo os exemplos de Johannes Cullberg, da rede de supermercados sueca Paradiset) que já baniu produtos brasileiros da maior cadeia de venda de produtos orgânicos da Escandinávia e de Sônia Guajajara, importante liderança indígena e candidata a vice-presidente pelo PSOL nas eleições presidenciais de 2018, que recentemente defendeu em Bonn, Alemanha, o boicote à produtos agrícolas vindos de áreas de conflitos sociais no Brasil.

Johannes Cullberg e Sônia Guajajara são duas das faces mais visíveis de um crescente movimento de boicote à produção agrícola brasileira que está ocorrendo principalmente na Europa e ameaça se alastrar no resto do mundo.

O problema é que a não ser que o governo Bolsonaro faça um giro de 180 graus no processo de destruição da governança ambiental que vem sendo executado de forma diligente por Ricardo Salles, há a possibilidade concreta de que haja uma unificação dos diferentes movimentos de boicote aos produtos brasileiros.  É que, ao contrário do que alardeiam os membros da FPA, a situação brasileira está sendo acompanhado de perto por pesquisadores, lideranças políticas e ativistas sociais estrangeiros que, por isso mesmo, são praticamente imunes a qualquer jogo de cena que venha a ser feito apenas com finalidade de distração (vide a carta dos 602 pesquisadores e o manifesto das mais de 340 organizações sociais que pedirem que a EU condicione suas negociações com o Mercosul à contenção do desmatamento na Amazônia).

A verdade é que sem a combinação de uma intensa pressão externa e a ação política interna, o Brasil e suas florestas serão devastados por defensores de uma forma arcaica de avançar a fronteira agrícola.  Os números do desmatamento que está ocorrendo na Amazônia são a prova irrefutável de que sem o devido processo de pressão política e econômica, o ritmo da devastação será incontrolável.

Resta saber agora se Ricardo Salles terá disposição ou capacidade de reverter o seu curso atual que é o de um cético das mudanças climáticas globais que está literalmente deixando a motosserra cantar na Amazônia brasileira.

 

Enquanto Salles e Araújo negam as mudanças climáticas, o derretimento do Ártico supere os piores cenários

climate-change-sirens-and-solutionsDerretimento acelerado do gelo tem nos Ursos Polares as primeiras vítimas, mas eles não são as únicas.

Enquanto no Brasil se vive o resultado de termos negacionistas das mudanças climáticas em postos chaves de governo (vide os exemplos do ministros das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e Meio Ambiente, Ricardo Salles), os fatos constatados científicamente demonstram que as mudanças climáticas estão acelerando processos que apontam para a subestimação até dos piores cenários estimados pela comunidade científica.

O artigo abaixo produzido pelo site informativo Axios mostra que o derretimento do gelo no polo Norte está ocorrendo de forma muito mais rápida do que o estimado pelos cientistas do clima.  Como a matéria aponta, o derretimento do gelo do Ártico trará consequências drásticas para o clima do hemisfério Norte. 

O problema é que a mesma tendência das calotas de gelo em ritmo de “overdrive” também está sendo detectada na Antártida.  Se isso se confirmar não apenas teremos processos semelhantes ocorrendo no hemisfério Sul, como teremos a provável sinergia entre Norte e Sul, com resultados imprevisíveis para o clima de todo o planeta.

Enquanto isso no Brasil, graças à postura dos negacionistas do clima encrustrados no governo Bolsonaro, dos quais Araújo e Salles são apenas as faces mais visíveis, a destruição das florestas amazônicas e do Cerrado continua também em ritmo de “overdrive”, comprometendo o ciclo de chuvas de todo o Brasil.

 

O derretimento do Ártico entre em ritmo super acelerado

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Extensão do gelo combinado nos mares de Chukchie Beaufort, 1979 a 2019

Por Andrew Freedman

No início deste ano, vimos o desaparecimento sem precedentes do gelo marinho do Mar de Bering durante uma época do ano em que ele deveria estar ganhando gelo. Essa tendência de queda do gelo marinho no Ártico do Alasca e do Canadá continua, desta vez centrada nos mares de Chukchi e Beaufort.

Por que é importante: a perda de gelo do mar está prejudicando o equilíbrio do calor no Hemisfério Norte, e está repercutindo nos ecossistemas, causando desde florescências de plâncton perto da superfície do Oceano Ártico até  a presença de massas de morsas na Rússia e no Alasca. Também pode estar afetando os padrões climáticos em todo o Hemisfério Norte.

A grande figura: em todo o Ártico, a extensão do gelo marinho está em um recorde de baixa para este ponto no ano, e dependendo das condições climáticas durante o verão, é possível que 2019 possa estabelecer um novo recorde de baixa extensão de gelo.

  • A baixa recorde do gelo do mar de todos os tempos foi estabelecida em 2012, embora os anos subsequentes tenham quase superado essa marca.
  • Até agora, as condições climáticas também favoreceram o início precoce da estação de degelo do gelo da Groenlândia, e o gelo derretido ali, ao contrário do desaparecimento do gelo marinho, contribui para a elevação global do nível do mar.
  • A porção da Groenlândia que está experimentando o derretimento do gelo bateu um recorde para a data de 13 de junho, com a temperatura subindo para quase congelar na Summit Station, no centro do manto de gelo.
  • O Ártico está aquecendo em mais que o dobro da taxa do resto do mundo.

O que eles estão dizendo?

  • “No momento, você pode navegar ininterruptamente do Pacífico Norte para o Ártico Canadense”, diz Zack Labe, cientista do clima e Ph.D. candidato na Universidade da Califórnia, Irvine.
  • “O Ártico é um regulador do clima do Hemisfério Norte, e enquanto o gelo que está derretendo agora não vai afetar se você terá uma tempestade amanhã, no longo prazo, isso terá efeitos profundos no seu clima e no clima.” a estrada que você terá que agir, goste ou não “, diz Rick Thoman, da Universidade do Alasca em Fairbanks.

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Este artigo sobre o derretimento do Ártico foi originalmente publicado em inglês pelo site de notícias Axios [Aqui!].

Ricardo Salles brinca com fogo ao arriscar provocar a fúria da Alemanha e da Noruega por causa do Fundo Amazônia

Ricardo Salles em seu apartamento nos Jardins, em SP

Ricardo Salles pode estar metendo as mãos pelos pés ao tentar interferir no modelo de governança do Fundo Amazônia.

Pode ser até redundância dizer que o ainda ministro (ou seria antiministro?) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, está brincando com fogo ao arriscar provocar a fúria dos governos da Alemanha e da Noruega por causa da sua intenção de se introjetar no funcionamento do Fundo Amazônia, dos quais os dois países europeus são os principais financiadores.

Ao que parece, como tantos outros ministros do governo Bolsonaro,  Ricardo Salles acha que pode brincar de cabra cega com a Alemanha e a Noruega, mas  a verdade é que não pode. Por isso, a educadíssima carta conjunta que foi enviada pelos embaixadores Nils Gunneng (Noruega) e Georg Witschel (Alemanha) deveria ser vista pelo que ela realmente é, um aviso delicado, mas ainda assim um aviso (ver carta abaixo).

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Em um dos parágrafos mais diretos a Ricardo Salles, os embaixadores dizem que “a estrutura de governança do Comitê Executivo serviu bem ao Fundo Amazônia por mais de 10 anos. No mesmo período, os governos da Alemanha e da Noruega doaram mais de R $ 3,3 bilhões ao Fundo. A estabilidade e a transparência dos marcos regulatórios e dos processos de tomada de decisão é o que incute a confiança necessária que permite que doadores e investidores continuem fazendo esse tipo de investimentos e parcerias de longo prazo.” E eles acrescentam que “é dentro desses parâmetros que os governos da Alemanha e da Noruega avaliarão as mudanças propostas para a governança do Fundo Amazônia“.

Em palavras mais doces, os embaixadores Gunneg e Witschel estão dizendo algo como “não mexa em time que está ganhando ou arrisque a perder os generosos aportes que a Alemanha e a Noruega vem fazendo ao longo da existência do Fundo Amazônia”.

Para um ministro que mistura incompetência e arrogância em níveis raramente encontrados até para os padrões brasileiros, Ricardo Salles certamente tenderá a achar que R$ 3,3 bilhões são ninharia frente aos negócios que a sua política de desmantelamento da governança ambiental brasileira poderá gerar. Mas é aí que talvez resida o maior engano de Salles e seus mentores no governo Bolsonaro e fora dele. É que a suspensão dos aportes no Fundo Amazônia seria apenas o primeiro passo de um longo e penoso processo de represálias que deverão ser implementadas para punir a gestão irresponsável das florestas amazônicas.

Como convivi com dirigentes de instituições de pesquisa da Alemanha, sei que por detrás do alto preparo intelectual e da forma fina de se comportar existem indivíduos que não hesitam em se fazer ouvir acerca de assuntos estratégicos, especialmente quando envolvem bilhões de euros e o futuro do clima do planeta.  Por isso,  Ricardo Salles não deveria estar brincando com fogo, pois arrisca não apenas a sair pessoalmente chamuscado, como ainda causar danos incalculáveis à economia brasileira. Quem viver, verá.

 

Salles, o ‘mentinistro’ do meio ambiente

Conheça as mentiras frequentes do mentinistro Ricardo Salles e previna-se contra elas.

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Mentira: O agricultor brasileiro é quem mais preserva no mundo e o Brasil é o país que mais protege o meio ambiente.

Fato: O Brasil é o país que mais desmata no mundo em termos absolutos. Somente em 2018, o país perdeu 17 mil quilômetros quadrados de vegetação na Amazônia e no cerrado. Nos últimos 35 anos, a área de florestas em propriedades privadas declinou 20%, contra 0,5% em áreas protegidas. Há 20 países que protegem mais seus ecossistemas que o Brasil.

Mentira: Mudança climática é uma discussão acadêmica.

Fato: O mundo esquentou cerca de 1oC desde 1880. O Brasil esquentou 1oC em apenas 60 anos. Os últimos quatro anos foram os mais quentes já medidos e 18 dos 20 anos mais quentes da história aconteceram neste século. O aquecimento global já foi diretamente implicado em fenômenos extremos como os furacões Harvey e Maria e ondas de calor no hemisfério Norte.

Mentira: Ambientalistas são representantes de interesses comerciais contrários ao agro brasileiro.

Fato: Um documento norte-americano intitulado Farms here, forests there, brandido por ruralistas como prova do conluio, diz apenas que políticas de combate à mudança do clima, ao promoverem a redução do desmatamento tropical, acabariam por beneficiar o agro dos EUA. Não há menção a ONGs no texto.

Mentira: O juiz que me condenou é de esquerda, citou Marx na sentença.

Fato: A citação a que o ministro se refere é do dicionário Houaiss, não de Marx. O juiz rebate na peça a alegação de Salles de que a oposição à sua tentativa de mudar o plano de manejo da APA da Várzea do Tietê foi movida por “ideologia”. Para isso, vai buscar no dicionário a “definição marxista de ideologia”.

Mentira: Os sistemas atuais de monitoramento não conseguem distinguir desmatamento legal do ilegal.

Fato: Os sistemas de monitoramento dos biomas brasileiros são referência mundial em vigilância de florestas e desde 2004 embasam a fiscalização do Ibama. O desmatamento foi reduzido com sucesso no Brasil entre 2005 e 2012 graças ao uso dessas informações pela fiscalização.

Mentira: O Ibama age ideologicamente e aplica multas erradas que são anuladas depois.

Fato: O Ibama não pune infratores por “ideologia”, mas porque esta é a razão de sua existência. O número de multas anuladas por erro nesta década nunca ultrapassou 4% do total aplicado, segundo os relatórios de gestão do próprio órgão, disponíveis no site do Tribunal de Contas da União.

Mentira: O Acordo de Paris tem elementos que violam a soberania do Brasil.

Fato: O Acordo de Paris foi assinado por 196 países voluntariamente. E isso só aconteceu porque o acordo não viola a soberania de país nenhum. As metas de corte de emissão foram determinadas domesticamente por cada país – daí seu nome ser “contribuições nacionalmente determinadas”.

Mentira: O Ibama aplicou R$ 154 bilhões em multas e só arrecadou R$ 60 milhões nos últimos seis anos.

Fato: Desde 2013, o Ibama lavrou R$ 19,1 bilhões em multas e arrecadou R$ 821,3 milhões, segundo dados públicos do próprio órgão.

 

 

 

 

Falso: O principal problema ambiental do Brasil está nas cidades, não no campo.

Fato: A dicotomia é falsa. Mais de 70% das emissões de gases de efeito estufa do país são geradas pela atividade agropecuária. O mau uso da terra causa assoreamento de rios, que deixa as cidades sem água. A perda de florestas prejudica a qualidade de vida nas áreas urbanas. Ao mesmo tempo, a poluição do ar e dos rios geradas nas cidades prejudicam os ambientes naturais.

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Esta reportagem foi inicialmente publicada pelo ClimaInfo [Aqui!].