Com o “passa boiada” de Salles e Bolsonaro, Brasil é líder mundial de desmatamento

Em 2019, o mundo perdeu um campo de futebol da floresta tropical a cada 6 segundos.

desmatamento

As recentes repercussões negativas das declarações do ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, no sentido de que se aproveitasse a pandemia da COVID-19 para que “se passasse a boiada” na legislação ambiental brasileira certamente vão ganhar impulso com a divulgação dos dados anuais de desmatamento no mundo pelo “Global Forest Watch”.

Ricardo Salles aproveita pandemia e “passa boiada” no Projeto ...A política “passa a boiada” de Ricardo Salles colocou o Brasil no topo do desmatamento mundial em 2019. Em 2020 poderá ser ainda pior.

É que, dentre tantas comprovações científicas, há o fato de que o Brasil se tornou o líder mundial na perda de florestas tropicais, representando sozinho um terço de todo o desmatamento ocorrido no mundo em 2019, com o incrível total de 1 milhão e 361 mil hectares de remoção de vegetação nativa (ver gráfico abaixo).

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Os dados sobre desmatamento em reservas indígenas também deverão causar grande alarme mundial, na medida em que apenas no estado do Pará, as análises espaciais feitas pelo Global Forest Watch mostram que  novos pontos de perda preocupantes em terras indígenas (TIs), sendo que apenas na TI Trincheira / Bacajá,  houve um forte crescimento do desmatamento como resultado da apropriação ilegal de terras , enquanto que  a mineração ilegal ameaça florestas em  outras TIs como as de Munduruku e Kayapó (ver figura abaixo).GFW 2

Outro aspecto é que a evolução temporal do desmatamento em áreas consideradas como “estabilizadas” em termos de titulação da propriedade da terra aponta para a remoção total da vegetação primária, o que acabará forçando o avanço para áreas ainda intocadas de floresta, na medida em que os solos amazônicos são majoritariamente de baixa fertilidade e se tornam impróprias mesmo para o plantio de plantagens após algumas décadas (ver exemplo abaixo da evolução do desmatamento em Alto Paraíso, Rondônia).

O relatório do Global Forest Watch também aponta para algo que se tornará, inevitavelmente, um calcanhar de Aquiles para o agronegócio brasileiro que é justamente a postura “passa boiada” do governo Bolsonaro que foi tão enfaticamente defendida por Ricardo Salles na reunião ministerial de 22 de abril. É que está obviamente claro que o governo Bolsonaro não possui outra intenção que não seja avançar a franja de desmatamento para regiões ainda intocadas da Amazônia brasileira.

E certamente a pressão para boicotes contra as commodities brasileiras irá aumentar sensivelmente quando as primeiras grandes queimadas de 2020 começarem a levantar montanhas de fumaça. A essas alturas do campeonato, uma nova estação de queimadas intensas é mais do que uma certeza, e Ricardo Salles não terá como esconder tanto fogo e fumaça.

Empresas renegam apoio à “boiada” de Ricardo Salles

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O anúncio publicado na semana passada por associações empresariais em favor da política ambiental de Ricardo Salles acabou saindo pela culatra. Diversas empresas que fazem parte de associações signatárias reagiram duramente e desautorizaram seu endosso. Algumas chegaram a pedir desfiliação das associações.

De acordo com Joana Cunha, na Folha, o resort Beach Park e a rede de hotéis Bourbon comunicaram sua saída da Associação para Desenvolvimento Imobiliário e Turístico (ADIT), uma das signatárias do anúncio pró-Salles. A ABIHPEC, entidade representativa da indústria de cosméticos, retirou seu endosso após ser pressionada por gigantes do setor como o Grupo Boticário, a Natura e L’Occitane.

No agronegócio, a reação à campanha pró-Salles também não foi boa. Ouvido por Giovana Girardi no Estadão, o presidente da Associação Brasileira de Agronegócio (Abag), Marcello Brito, avaliou que tanto a peça publicitária quanto o discurso do ministro Salles sobre “passar a boiada” por cima das regulamentações ambientais são contraproducentes e comprometem o esforço do setor para desburocratizar processos na agricultura: “Não precisa passar coisas de baciada. Pegou mal. Pega mal pro agro. E veja bem.: não era a ministra da agricultura que estava falando, era o ministro do meio ambiente. Tem um processo meio maluco nisso aí”.

Outro porta-voz importante do setor, Pedro de Camargo Neto, que trabalhou no Ministério da Agricultura sob o governo FHC e servia como vice-presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), renunciou ao posto por conta do apoio da entidade ao ministro Salles. “Fui contra assinar o anúncio de apoio ao Ministério do Meio Ambiente que entendo ser equivocado e que fere meus princípios. Pretender usar o momento de dor e mesmo pânico na Saúde Pública para aprovar medidas contra a burocracia fere meus princípios”, disse Camargo Neto à Mônica Scaramuzzo no Estadão.

Enquanto empresas e sociedade civil discutem a “boiada” de Salles, a verdade cruel é que o ministro está avançado em seu esforço de enfraquecimento do regramento ambiental, algo evidente pela explosão no desmatamento nos principais biomas brasileiros. Como bem coloca Eudes Lima na IstoÉ, “a boiada já está no pasto”.

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Este texto foi originalmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].

Boiada-gate: MPF denuncia Ricardo Salles por possíveis crimes de responsabilidade no MMA

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O Ministério Público Federal, mais especificamente a 4ª Câmara de Coordenação e Revisão (Meio Ambiente e Patrimônio Cultural) (4ª  CCR) apresentou na última 3a. feira (26/05) uma representação junto à Procuradoria Geral da República contra o ministro  (ou seria anti-ministro?) por possíveis crimes de responsabilidade à frente do Ministério do Meio Ambiente.

Entre os itens arrolados pelos procuradores do MPF estão questões que chamaram muita atenção dentro e fora do Brasil:

  1. Desorganização administrativa que acarreta danos irreversíveis ao meio ambiente, aumento do desmatamento e desperdício de recursos públicos;
  2. Represamento das multas: aumento da sensação de impunidade e incentivo ao crime: a criação do Núcleo de Conciliação Ambiental no âmbito do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – Ibama e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio;
  3.  Omissões que acarretaram danos irreversíveis ao meio ambiente, aumento do desmatamento e desperdício de recursos públicos;
  4.  Desperdício de recursos públicos ao gerar, a partir da omissão e da desestruturação, a necessidade do emprego da operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) cujo gasto mensal é quase equivalente ao orçamento anual da fiscalização do Ibama,  e
  5. Despacho nº 4.410/2020 que aprova e torna vinculante a Nota nº 00039/2020/CONJUR-MMA/CGU/AGU para legalizar a exploração de áreas da Mata Atlântica que foram ocupadas irregularmente afrontando a lei especial que rege o bioma.

Em sua representação, os procuradores da (4ª  CCR) apontam que as condutas de Ricardo Salles à frente do MMA têm “como traço comum a desconsideração de normas, critérios científicos e técnicos em total desrespeito aos princípios ambientais da precaução, da prevenção e da vedação do retrocesso, redundando no quadro caótico que ora vivenciamos de substancial incremento de desmatamentos e queimadas, especialmente na Floresta Amazônica, no Cerrado e na Mata Atlântica“.

Interessante notar que na representação foi dado espaço para a inserção da fala de Ricardo Salles durante a famigerada reunião de 22 de abril onde o improbo ministro do Meio Ambiente sugeriu que era “precisa ter um esforço nosso aqui (i.e, do governo Bolsonaro) enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de COVID e ir passando a boiada e mudando  todo o regramento e simplificando normas.

É justamente esse “passando a boiada” de Ricardo Salles que agora está na base da representação feita pelo MPF à PGR, se consumando o que pode ser chamado de um “boiada-gate”.  E diante de todos itens listados na representação e dos vários desdobramentos que cada um traz, é possível dizer que Ricardo Salles vai precisar bastante do apoio jurídico que cobrou durante a reunião de 22 de abril.

Quem desejar ler a íntegra da representação do MPF, basta clicar [Aqui! ].

Propaganda pró-Salles não teve o aval de empresas

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Na 3ª feira (26/5), os principais jornais do Brasil estamparam um anúncio em defesa da gestão de Ricardo Salles no Ministério do Meio Ambiente assinado por diversas associações setoriais. Eram tantos nomes que não dava para ler direito e identificar quem eram os signatários da peça. Quem olhasse apenas a sopa de letras poderia imaginar que o apoio das organizações empresariais à política ambiental brasileira atual era generalizado e amplo. No entanto, como muita coisa vinda desta gestão, boa parte daquilo era fake news.

Algumas das principais empresas filiadas às associações signatárias do anúncio rejeitaram seu envolvimento e contestaram a participação das associações setoriais. Entre elas a Natura e a Avon, filiadas à Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC), uma das signatárias do anúncio. As duas empresas disseram não aprovar a peça e não terem sido consultadas sobre ela. “Os índices de desmatamento no Brasil são alarmantes e existe uma urgência real por mais fiscalização e cumprimento da legislação. A gente discorda dessa manifestação de apoio”, respondeu a Natura. O Boticário foi na mesma direção e adicionou pedido à ABIHPEC para que esta retire sua assinatura do anúncio.

Beach Park também contestou seu envolvimento no anúncio e acusou a Associação para o Desenvolvimento Imobiliário e Turístico do Brasil (ADIT), outra signatária da peça, de não ter feito nenhuma consulta aos seus associados: “O Beach Park não foi consultado sobre esse material e não tinha conhecimento da publicação”, informou a empresa no Twitter. “Já formalizamos nossa reclamação à ADIT e pedimos a desfiliação da associação. Estamos juntos com todos os que defendem o meio ambiente”.

Da mesma forma, o gigante da hotelaria francesa, Accor Group, acusou a ADIT de não ter consultado seus associados sobre o anúncio. “[A] Accor é fortemente comprometida em reduzir sua pegada de carbono. Esse anúncio não representa nem os valores do Grupo nem seu engajamento diário. Estamos em contato com a associação e pedimos por um esclarecimento oficial”.

Também responderam na mesma linha o grupo Bourbon de hotéis, os resorts Txai, a L’Occitane, a Mars (Whiskas, Pedigree e Royal Canin), a licenciadora da marca Turma da Mônica, a Batavo e a gigante do agro Marfrig.

O anúncio em favor de Salles pode ter aprofundado ainda mais o racha dentro do agronegócio brasileiro. No Valor, Daniela Chiaretti e Fernando Lopes falam de uma divisão entre empresas exportadoras, mais modernas e sensíveis aos humores do mercado externo, e entidades mais conservadoras, fortemente alinhadas com o governo Bolsonaro.

Já o De Olho nos Ruralistas fez uma análise detalhada sobre os signatários do anúncio e identificou que alguns deles também são os principais financiadores da bancada ruralista no Congresso Nacional.

Ainda que o agronegócio tenha sido o carro-chefe do anúncio pró-Salles, a articulação em torno dele saiu do setor de construção civil, informa Mauro Zalafon na Folha. Isso é nítido na lista de signatários: das 87 entidades que assinaram o anúncio, apenas 30 são relacionadas ao agronegócio; todas as demais estão ligadas às áreas de comércio, indústria, construção e administração de imóveis urbanos.

Em tempo 1: Atingido em cheio pelo “boiada-gate” de Ricardo Salles, o PL 2.633 tenta avançar na Câmara dos Deputados depois de ter sido retirado da pauta da Casa na semana passada em virtude de desavenças entre o texto do relator Marcelo Ramos (PL-AM) e o governo federal e a oposição da sociedade civil. Ramos informou ontem que insistirá na votação do PL, eventualmente ainda na semana que vem. O governo segue pressionando para que o PL incorpore os pontos mais problemáticos da falecida MP 910, como a ampliação da isenção de vistoria para imóveis de até 15 módulos fiscais e a mudança da linha de corte temporal para titulação das terras de 2008 para 2012.

Em tempo 2: O ministro Salles parece estar fazendo escola. A ministra de energia da província canadense de Alberta disse, em uma entrevista, que “agora é um ótimo momento para construir um oleoduto porque não pode haver protestos com mais de 15 pessoas. Vamos construí-lo.” Segundo a matéria do The Globe and Mail, o entrevistador achou graça e riu. A ministra, não.

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].

Proprietária da marca Batavo envia nota negando participação em publicidade de apoio às ações “passa boiada” de Ricardo Salles

O blog recebeu hoje contato telefônico da assessoria de imprensa da empresa “Lactalis do Brasil”, nova proprietária da “Batavo” que foi adquirida da BRF em 2015, para questionar a colocação da marca da empresa na propaganda produzida pela campanha “Dando nome aos bois” onde são informados os apoiadores corporativos da política “passa boiada” do ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

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Batavo é mais uma marca que nega envolvimento na defesa corporativa das políticas de retrocesso ambiental sendo executadas por Ricardo Salles à frente do Ministério do Meio Ambiente.

Informei que não teria como remover a marca da campanha “Dando nome aos bois”, já que o blog apenas repercutiu uma campanha de abrangência nacional e sobre a qual não detenho a propriedade intelectual.

Não obstante, me prontifiquei a publicar uma nota oficial da Lactalis onde a empresa pudesse oferecer a sua posição em relação à inclusão da “Batavo” nos materiais de divulgação da campanha “Dando nome aos bois”. Após algum tempo de espera, o blog acabou de receber a nota solicitada que é publicada abaixo.

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Como se vê na nota, a Lactalis do Brasil (i.e., Batavo) não subscreveu a nota que circulou na mídia corporativa nacional em apoio às ações de Ricardo Salles à frente do Ministério do Meio Ambiente, o que deve ser encarado como uma posição coerente com uma empresa que em seu “banner” corporativa expressa preocupação com a natureza.

Com essa nota, eu inclusive me sentirei mais à vontade para continuar consumindo os produtos ligados à Batavo, pois como tantos outros brasileiros me reservo o direito de apenas utilizar produtos de empresas que incorporam de forma prática o merchandize em prol da preservação do meio ambiente.

 

Campanha “Dando nome aos bois” revela marcas que apoiam a boiada de Ricardo Salles

Essas marcas fazem parte das associações que declararam apoio às ações de Ricardo Salles. São as empresas que assinaram o anúncio publicado no dia de hoje nos maiores jornais brasileiros. É preciso dar #NomeAosBois

Com: ClimaInfoObservatório do Clima342 Amazônia, Greenpeace Brasil, Instituto Socioambiental – ISAUma Gota no Oceano Fundação SOS Mata Atlântica

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As marcas AvonBeach ParkNatura e O Boticário se manifestaram informando não aprovarem o anúncio do qual suas marcas foram relacionadas. No caso da Turma da Mônica, quem se manifestou foi Maurício de Souza, o licenciador da marca e não as empresas que usam a marca para vender nuggets, salsichas, maçãs etc.

Essas marcas fazem parte das associações que declararam apoio às ações de Ricardo Salles. São as empresas que assinaram o anúncio publicado no dia 26/05/2020 nos maiores jornais brasileiros. 

Mais informações sobre a campanha “Dando nome aos Bois” podem ser obtidas no site do ClimaInfo [Aqui!].

Deputados do Parlamento Europeu condenam declarações de Salles em reunião ministerial

Para deputados ouvidos pela DW Brasil, ministro demonstra “cinismo misantropo” e confirma “política destruidora” promovida por Bolsonaro. Eurodeputada alemã defende ainda que acordo UE-Mercosul não seja ratificado.

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“As declarações de Salles deixam mais uma vez claro que para o governo brasileiro todos os meios são válidos para sacrificar a Floresta Amazônica”, diz deputado alemão

As declarações do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, durante uma reunião ministerial com o presidente Jair Bolsonaro no dia 22 de abril, repercutiram na Europa. Parlamentares europeus ouvidos pela DW Brasil criticaram nesta segunda-feira (25/05) a sugestão do ministro brasileiro para flexibilizar ainda mais as leis ambientais do Brasil.

Na reunião ministerial, cujo vídeo foi tornado público pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na semana passada, Salles destacou que o fato de a imprensa estar com as atenções voltadas para a pandemia apresentava uma oportunidade para o governo alterar leis, cujas mudanças em circunstâncias normais poderiam ser recebidas com fortes críticas pela mídia e pela opinião pública.

“A oportunidade que nós temos, que a imprensa está nos dando um pouco de alívio nos outros temas, é passar as reformas infralegais de desregulamentação, simplificação, todas as reformas que o mundo inteiro cobrou”, disse Salles, chegando a dizer que era o momento de “ir passando a boiada” e unir esforços para simplificar tudo.

Para a eurodeputada alemã Anna Cavazzini, do Partido Verde, as declarações de Salles  no vídeo são “a confirmação inconcebivelmente descarada de algo que o governo Bolsonaro está fazendo há semanas: desmantelando passo a passo os regulamentos de proteção da Amazônia, enquanto o mundo combate o coronavírus”.

Cavazzini, que é porta-voz de política comercial dos Verdes europeus, afirma que esse procedimento desrespeita princípios democráticos básicos num momento no qual a situação social no Brasil se deteriora e perante a ameaça de um colapso ecológico na iminente temporada de queimadas no país. Diante disso, a eurodeputada defende que o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia (UE) não seja ratificado.

“O acordo aumenta a pressão sobre a Amazônia e a política de Bolsonaro já viola todas as obrigações ambientais previstas no pacto”, acrescenta Cavazzini, que também é vice-presidente da Delegação Europeia para as relações com o Brasil.

A declaração de Salles, no entanto, não surpreendeu a deputada Yasmin Fahimi, presidente do Grupo Parlamentar Teuto-Brasileiro no Bundestag (Parlamento alemão).”A destruição da Amazônia e a expulsão dos povos indígenas tem sido promovida sistematicamente pelo governo desde o início do mandato de Bolsonaro”, argumenta.

A deputada do Partido Social-Democrata (SPD) afirma, porém, que a entristece muito ver como “aumentou a ameaça aos povos indígenas da Amazônia à sombra da pandemia do novo coronavírus”. “Com sua política, Bolsonaro arrisca conscientemente a extinção de povos indígenas inteiros”, acrescenta.

Fahimi também observa com preocupação o enfraquecimento de órgãos ambientais no Brasil, como o Ibama, o aumento constante do desmatamento, e iniciativas governamentais como a polêmica lei de regularização fundiária, conhecida como “MP da grilagem”, cujo decreto perdeu a validade na semana passada por não ter sido votado na Câmara dos Deputados.

“De fato, nosso projeto comum de proteção da Amazônia entrou em colapso. Bolsonaro é uma ameaça à democracia, ao Estado de Direito e à sobrevivência da Amazônia”, pontua a deputada da legenda que integra a coalizão que governa a Alemanha ao lado da União Democrata-Cristã (CDU), da chanceler federal Angela Merkel, e da União Social-Cristã (CSU).

Já o deputado alemão Peter Weiss, da CDU, destaca que não é aconselhado não comunicar abertamente decisões políticas controversas. “Os antigos romanos já sabiam disso”, diz e acrescenta que “quem deseja aceitação de suas opiniões e decisões precisa comunicar e discuti-las com os outros”.

Weiss, que também faz parte do grupo parlamentar alemão responsável por cultivar as relações com o Congresso brasileiro, lembra ainda que, no ano passado, a “Alemanha deixou claro que considera preocupante a política ambiental brasileira também em relação à proteção ambiental global”.

“O Brasil corre o risco de perder a reputação que construiu durante anos”, destacou o deputado que é presidente do grupo de trabalho América Latina da bancada da CDU/CSU no Bundestag.

Para o deputado alemão e porta-voz de política externa do Partido Verde, Omid Nouripour, as declarações mostram um “cinismo misantropo” quando um ministro acredita que uma doença que matou milhares no país “seria uma boa oportunidade” para enfraquecer a proteção ao meio ambiente.

“As declarações de Salles deixam mais uma vez claro que para o governo brasileiro todos os meios são válidos para sacrificar a Floresta Amazônica em prol dos interesses do lobby do agronegócio e da mineração”, afirma Nouripour.

O deputado alemão Gero Hocker, do Partido Liberal Democrático (FDP) e integrante do Grupo Parlamentar Teuto-Brasileiro, diz ser “desonesto sacar exigências políticas obsoletas sob o disfarce da covid-19 para aprová-las por debaixo do radar da atenção geral”. Hocker acrescenta que a “proteção ao meio ambiente não deve ser atropelada, pois supostamente talvez ninguém estaria prestando a atenção”.

O deputado Alexander Ulrich, da legenda A Esquerda, classifica a situação no Brasil como “um cenário tenebroso” com Bolsonaro ignorando as vítimas da covid-19 e Salles tentando usar a pandemia para minar leis de proteção ambiental.

“As declarações de Salles refletem uma política ambiental misantropa e racista, que é seguida por Bolsonaro desde o início do seu mandato. Resta esperar que grupos sociais democráticos e progressistas consigam em breve contrariar essas forças destruidoras e autoritárias com êxito”, diz Ulrich, que também faz parte do Grupo Parlamentar Teuto-Brasileiro.

Já o eurodeputado português Manuel Pizarro, do grupo da Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas no Parlamento Europeu, destacou que a pandemia reforça a importância de se proteger o meio ambiente e a biodiversidade. “Combater as alterações climáticas constitui, cada vez mais, uma prioridade para a humanidade. Quaisquer medidas em sentido contrário são erradas. Todos pagaremos muito caro, no futuro, esse eventual erro”, disse o parlamentar que também é vice-presidente da Delegação Europeia para as relações com o Brasil.

Questionado pela DW Brasil sobre as declarações de Salles, o Ministério alemão do Meio Ambiente afirmou que não iria comentar as falas, porém, lembrou que a liberação da verba da Alemanha destinada para a Amazônia, suspensa desde agosto, depende de um entendimento comum de ambos os governos sobre o que é necessário para a proteção do clima e da biodiversidade. “Infelizmente, ainda estamos muito longe disso”, disse um porta-voz da pasta.

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Este artigo foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

Ricardo Salles comete sincericídio e sugere uso da COVID-19 para enfraquecer as leis ambientais no Brasil

ricardosalles-abreNa reunião de 22 de abril, Ricardo Salles pediu que o governo Jair Bolsonaro aproveitasse a atenção da imprensa voltada à pandemia de COVID-19 para aprovar “reformas infralegais de desregulamentação e simplificação” na área do meio ambiente e “ir passando a boiada”.  

Um dos momentos mais interessantes e reveladores do que já foi mostrado na divulgação do vídeo da reunião ministerial de 22 de abril veio na fala do ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles (ver sequência de imagens abaixo).

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Dentre as pérolas oferecidas por Ricardo Salles está o pedido para que o governo Jair Bolsonaro aproveitasse a atenção da imprensa voltada à pandemia de COVID-19 para aprovar “reformas infralegais de desregulamentação e simplificação” na área do meio ambiente e “ir passando a boiada“.  

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Além disso, Salles afirmou que “então para isso precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de COVID e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas”.

Salles ainda sugeriu que o governo fizesse mudanças relacionadas ao meio ambiente sem o aval do Congresso Nacional.  Para que isso seja possível, Salles ressaltou que a  Advocacia Geral da União (AGU) precisaria ficar de prontidão para eventuais contestações do governo na Justiça.  Nesse sentido, Salles afirmou que “então pra isso nós temos que tá com a artilharia da AGU preparada para cada linha que a gente avança ter uma coi … mas tem uma lista enorme, em todos os ministérios que têm papel regulatório aqui, pra simplificar“.

Em suma: para Ricardo Salles, a pandemia da COVID-19 seria proveitosa no sentido de avançar o processo de desmanche da governança e da legislação ambiental, evitando que tais mudanças tivessem que passar pelo Congresso Nacional. Se isso não for o suprassumo do oportunismo político, sinceramente não sei o que seria.

Em minha modesta opinião, será essa fala de Ricardo Salles que criará mais embaraço para o Brasil nas relações econômicas e políticas, pois fica explícito o processo de desmanche que ele comanda à frente do Ministério do Meio Ambiente. É que, ao contrário do que parecem acreditar os membros do governo Bolsonaro, o período pós-pandemia não será tão tolerante com a destruição ambiental em curso no Brasil.

Mas mais do que nunca, Salles tem carimbado na testa o rótulo de “Exterminador do meio ambiente”.  Nada mais justo para quem se aproveita de uma pandemia mortal para destruir a governança ambiental duramente construída no Brasil.

No vídeo abaixo é possível ver o momento exato da fala “passa a boiada” de Ricardo Salles.

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Este vídeo não existe

Associação Nacional de Especialistas em Meio lança carta sobre momento dramático da gestão ambiental no Brasil

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A Associação Nacional da Carreira de Especialista em Meio Ambiente (ASCEMA) acaba de lançar um documento público onde procura expor o que considera ser “um momento dramático que passa a gestão ambiental federal sob o governo Bolsonaro.

Entre os aspectos levantados no documento, a ASCEMA enfatiza o enfraquecimento progressivo dos órgãos ambientais, sem que sejam garantidas as condições
mínimas de trabalho para o bom cumprimento dos programas federais de proteção ambiental.  Além disso, o documento denuncia o que seriam “seguidas interferências na condução dos trabalhos realizados pelos órgãos ambientais federais e seus servidores” que, entre outras coisas teria resultado no “aumento do desmatamento ilegal da
Amazônia, atingindo patamares superiores aos de 10 anos atrás e redução drástica dos processos de punição por essas infrações“.

O documento da ASCEMA denuncia que o Ministério do Meio Ambiente, sob a direção do improbo Ricardo Salles, tem  promovido “as exonerações de diversos gestores do IBAMA e do ICMBio, substituindo-os por pessoas externas, sem conhecimento e experiência em meio ambiente“, e que “quando esses gestores não conseguem implantar a linha de trabalho que conduza ao enfraquecimento da fiscalização ambiental, também são substituídos, como no caso do Diretor  e Proteção Ambiental do IBAMA, exonerado em 14 de abril, após o excelente resultado de combate ao garimpo e desmatamento ilegal nas Terras Indígenas do Pará realizado pelos servidores do Instituto“.

A ASCEMA também aponta que Ricardo Salles impôs uma mordaça sobre o IBAMA e ICMBio no sentido de impedir a para divulgação das ações em prol da proteção ambiental, e que com isso cria ” cria dificuldades no combate aos crimes ambientais e corrompe os princípios da  publicidade e transparência“.

Ainda que já se soubesse que a ação do improbo Ricardo Salles à frente do Ministério do Meio Ambiente estivesse criando uma série de embaraços para a condução das medidas de “comando e controle” pelos agentes ambientais, esse documento da ASCEMA revela elementos particularmente graves sobre como tem se dado o desmanche da governança ambiental pelo governo Bolsonaro.

Quem desejar ler o documento da ASCEMA na íntegra, basta clicar Aqui!

Ricardo Salles aproveita caos da pandemia e age para ampliar devastação na Mata Atlântica

sallesRicardo Salles aproveita o caos causado pela pandemia para descaracterizar a Lei da Mata Atlântica para permitir a ampliação da devastação

Graças a uma reportagem escrita pelo jornalista Maurício Tuffani e publicado pelo “Direto da Ciência”, o Brasil amanhece ciente de que o ministro (ou seria anti-ministro?) do meio ambiente, o improbo Ricardo Salles, depois de afrouxar as amarras na Amazônia, voltou sua mira para ampliar a devastação no que ainda resta da Mata Atlântica.

É que, segundo o que mostra Maurício Tuffani, entre uma demissão de servidor e outra, enviou uma minuta de decreto para ser avaliada pelo presidente Jair Bolsonaro que, se sancionada, permitirá a devastação legalizada de pelo menos 10% da área de remanescentes do bioma da Mata Atlântica.

Segundo o que  disse um técnico da área de análise  de impacto ambiental da Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do Estado de São Paulo, que  pediu anonimato , as modificações propostas por Ricardo Salles na chamada “Lei da Mata Atlântica”, servirão para  “facilitar o licenciamento ambiental de empreendimentos imobiliários em áreas  de transição entre ecossistemas de Mata Atlântica, principalmente em regiões urbanas”.

Dado que atualmente sobram apenas cerca de 8,0% de um bioma tão ou mais diverso do que a Amazônia, essa tentativa de Ricardo Salles de descaracterizar a Lei daMata Atlântica devem ser objeto de profundo repúdio e pronta ação de organizações da sociedade civil e da própria população.

Por outro lado, essa ação de Ricardo Salles confirma o que já observei em outros momentos acerca do comportamento do governo Bolsonaro em meio a uma pandemia mortal, qual seja, que a eficiência para desmontar (ou pelo menos tentar) as proteções ambientais existentes continua inabalada.