Que cidade será o RJ pós Olimpíadas? Certamente não mais democrática

Tive a oportunidade de visitar Londres pouco mais de 60 dias antes dos Jogos Olímpicos de 2012 e observei cenas de encerramento de trabalhos de modificação de ruas e praças e que ocorriam de forma urgente, mas com jeito de que iriam estar prontas antes do “D”, o da abertura do megaevento esportivo.

Passados quatro anos me vi caminhando no centro da cidade do Rio de Janeiro que também deverá abrir em breve mais uma edição deste megaevento após gastos bilionários que comprometerão a saúde financeira do município e do estado por várias décadas.  Uma primeira constatação é de que as mesmas cenas de urgência se repetem com trabalhadores fazendo um esforço dobrado para completar obras, que dificilmente estarão prontas até o dia de abertura dado que paira uma injustificada (ao menos dado os preços das obras) aparência de completa improvisação.

Mas mesmo naqueles pontos em que as obras avançaram deu para notar que uma mudança capital no tecido urbano da cidade do Rio de Janeiro está emergindo e não é bom. Falo aqui da destruição de diversas singularidades que marcam a história da cidade para torná-la uma espécie de imitação cara das capitais européias.  E isso começa pelas obras na área do chamado “Porto Maravilha” e alcançam até as áreas de trânsito do VLT.

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O que parece estar em curso no centro do Rio de Janeiro é um processo de fechamento aos circuitos lentos de interação pessoal para um rápido onde se materializa a supremacia do grande capital internacional.

Apesar de eu não ser o primeiro a falar nesse “legado” dos megaeventos esportivos especificamente sobre a cidade do Rio de Janeiro, visto que pesquisadores como Gilmar Mascarenhas, professor e pesquisador da UERJ, e Carlos Vainer, professor e pesquisador da UFRJ, já vem tratando a mais tempo das mudanças nem sempre positivas que os megaeventos causam.  Nesse sentido, sugiro que assistam a um depoimento do prof. Vainer no programa Juca Entrevista do jornalista Juca Kfouri  (Aqui!)

Entretanto, enquanto alguém que transitou a pé pelo centro do Rio de Janeiro por mais de uma década entre os anos 1980 e 1990, posso já dizer que todo o dinheiro gasto nas supostas melhorias urbanísticas não serviu para democratizar a circulação ou acesso e, provavelmente, o que resulta dessas intervenções não será melhor para a população carioca. Os grandes ganhadores serão, sem nenhuma dúvida, as empreiteiras e as corporações financeirase, por que não, o Comitê Olímpico Internacional (COI).

Os Jogos ainda nem começaram, mas não hesito em dizer:  que triste legado!

Transparência RJ faz mais um achado que mostra o caráter seletivo da crise

O blog “Transparência RJ” traz mais um achado que explicita que a crise do Rio de Janeiro não é financeira, mas de prioridade. É que numa postagem colocada no ar na última quarta-feira (28/06),  todos podem verificar que o fluxo de dinheiro para as chamadas Organizações Sociais (OSs) continua firme e forte, em que pese a falta do pagamento dos salários dos servidores públicos e terceirizados (Aqui!).

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Neste último caso levantado pelo Transparência RJ, se trata de um contrato de R$ 12 milhões com a Cruz Vermelha do Rio Grande do Sul (!?), publicado no Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro no dia 15/06, para  assegurar a prestação de serviços numa Unidade de Pronto Atendimento (UPA) em São Pedro do Aldeia, município localizado na região dos Lagos ( ver extrato acima).

Duas coisas me causam espécie em mais esse caso levantado pelo Transparência RJ: o valor que será pago e a empresa contratada.  É que entre o endereço da contratada e o local onde prestará serviço são percorridos quase 1.700 km, o que levanta a questão de porque sequer se cogitou exigir que o serviço fosse contratado no território fluminense, já que diante de tal distância são criados problemas óbvios de logística que podem afetar o controle da qualidade dos serviços.

O mais incrível nesse caso é que, enquanto se gastará R$ 12 milhões com uma OSs localizada em outro estado da federação para administrar apenas uma UPA, o (des) governo deixa à míngua completa os hospitais públicos do Rio de Janeiro, a começar pelo Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ que é um dos centros de excelência do nosso estado.

Como bem me disse ontem o deputado estadual Eliomar Coelho (PSOL) em um encontro que ocorreu em seu gabinete, a crise do Rio de Janeiro não é de ordem financeira, mas política. É que enquanto os entes públicos estão sendo completamente sucateados, a torneira jorra fácil para as empresas privadas.  E os servidores estaduais continuam sem saber quando receberão os seus salários!

Auditoria pública da dívida: uma necessidade urgente

Por um desses acasos interessantes ontem assisti num canal alternativo de TV fechada uma entrevista com Maria Lúcia Fatorelli que é auditora da Receita Federal e membro da coordenação da coordenação  da Auditoria Cidadã da Dívida (Aqui!) sobre a grave situação financeira que assola estados como Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.

Em um tom bem didática, Maria Lúcia Fatorelli começou a descrever parte dos mecanismos que estão sendo utilizados no Brasil por estados e municípios para realizar captações que implicam num aumento exponencial da dívida pública, a qual tem seus beneficiários bancos e fundos privados que, por sua vez, possuem relações diretas com os primeiros.

Para Fatorelli, que participou das auditorias das contas públicas feitas pelo Equador e pela Grécia, existem exemplos abundantes de como fundos privados e as chamadas “sociedades de propósito especifico” (SPE) tem atuado para que sejam realizadas operações de captação cujo resultado objetivo é aumentar a dívida pública.

Ouvindo as explanações de Maria Lúcia Fatorelli, eu fiquei me perguntando se ela já ouviu falar da operação realizada pelo (des) governo do Rio de Janeiro, sob autorização da Alerj, de captar US$ 3,1 bilhões no paraíso fiscal de Delaware usando as exatas estratégias que ela destacou como tendo causado o colapso da economia grega. É que eu tenho quase certeza que se ela ouvir falar da operação envolvendo o RioPrevidência e a criação do “Rio Oil Finance Trust” ela poderá acrescentar mais um exemplo lapidar de como a gigantesca dívida dos estados brasileiros está sendo montada.

Mas eu fiquei com um certeza após ouvir essa entrevista: demandar a realização de uma rigorosa dívida pública no Rio de Janeiro tem que se tornar uma bandeira não apenas dos sindicatos de servidores públicos, mas de toda a sociedade fluminense. E antes disso que se congele novos pagamentos da dívida pública, pois, do contrário, o colapso dos serviços públicos se tornará inevitável.

 

Em meio de crise profunda, Alerj com plenário vazio e gritos de assassino de policiais contra Beltrame

Estive hoje na Assembleia Legislativa como parte da preparação de uma reunião da Comissão de Educação que iria reunir deputados, dirigentes de instituições de ensino, representações sindicais e o (des) secretário estadual de Fazenda, Júlio Bueno.  Eu disse que iria porque Júlio Bueno resolveu cancelar a reunião pela terceira vez consecutiva sob a alegação de estar em Brasília tratando da dívida pública do Rio de Janeiro.

Pois bem, após ser notificado de mais este cancelamento de Júlio Bueno, resolvi dar uma passada no plenário da Alerj para medir a temperatura política entre os deputados estaduais, mas acabei encontrando um plenário completamente esvaziado (ver imagens abaixo).

Segundo apurei, a base parlamentar do (des) governo estadual está evitando o plenário para não ter que dar explicações sobre o uso dos R$ 2,9 bilhões que deverão enviados pelo governo federal para assegurar a realização “tranquila” dos Jogos Olímpicos.

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A monotonia causada pelo plenário esvaziado quando um grupo de ativistas(que estava na Alerj para apoiar a aprovação de um projeto de lei que prevê a blindagem de viaturas policiais, o PL 494-A/2015 ) reagiu de forma eloquente à defesa feita pela deputada Cidinha Campos do (des) secretário estadual de Segurança, José Maria Beltrame.  E assim por alguns minutos, o plenário foi abastecido com os gritos de “Beltrame, assassino de policiais“.

A partir dai quase que simpatizei com mais uma escapada de Júlio Bueno para não aparecer na Alerj para discutir a profunda crise em que o (des) governo comandado pelo PMDB e pelo PP colocaram o Rio de Janeiro. Mas deixando claro é que “quase” não passou disso, pois não há como não imputar culpa a quem a tem.

Isenções Tributárias no estado do Rio de Janeiro

Como se deixa de arrecadar mais do que se arrecada

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Por Thiago Marques

Em recente estudo da Organização das Nações Unidas – ONU o Brasil foi considerado um “paraíso tributário” para os mais ricos (1). De fato, pois apenas o nosso país (e a Estônia) beneficia os mais ricos – 0,05% da população brasileira – se beneficiam de isenções de impostos sobre lucros e dividendos. Tal complacência ajuda a entender a estimativa de que o décimo mais rico apropria-se da metade da renda das famílias brasileiras (52%). É por aí que se começa a explicação de nossa alta concentração de renda e brutal desigualdade social. E essa perversa lógica também é observada nas unidades subnacionais, como no estado do Rio de Janeiro, aonde existem outros benefícios de ordem tributária. No presente, será ressaltado o aspecto da gestão das receitas públicas e o grau de irresponsabilidade da política de concessão de benefícios tributários adotado pelo governo entre os exercícios de 2008-2013 (2).

O discurso liberal atribui as dificuldades nas finanças públicas somente ao volume e à qualidade das despesas públicas. E o receituário padrão é conhecido desde sempre: redução do custeio via contenção da despesa com pessoal (cancelamento de concursos públicos, congelamento ou corte de remuneração e benefícios dos servidores e até exoneração de servidores concursados) e/ou dos gastos com manutenção que compromete a qualidade dos serviços prestados. Os investimentos, por ser um dos caminhos de transferência do dinheiro público para o capital, não entram no rol de cortes, mas “justificativa conjuntural” é a de que ainda teremos no mês de agosto e setembro os jogos olímpicos e paraolímpicos.

Já as receitas, pela avaliação do mainstream, ganham relação direta somente pelo aspecto econômico. Se a economia vai bem há aumento das receitas públicas, se vai mal há diminuição. Não se questiona com profundidade sobre quem e em quanto os segmentos sociais devem arcar com o financiamento das ações governamentais, exceto pela velha ladainha de redução da carga tributária e blábláblá.

Relatório de Auditoria Governamental do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro – TCE, divulgado em março desse ano, constatou que no período enfocado o estado deixou de arrecadar, através de benefícios fiscais, mais de R$ 138 bilhões de recursos do ICMS. No mesmo período a arrecadação do ICMS foi de aproximadamente R$ 140 bilhões. Os números chamam mais atenção quando observamos os valores anuais. Em 2011, para cada R$ 1 arrecadado o governo deixou de arrecadar R$ 1,40, ou seja, os benefícios superaram a arrecadação do tributo. O mesmo ‘fenômeno’ ocorreu em 2012 e 2013, conforme ilustra o gráfico.

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Fonte: TCE-RJ, Relatórios de Gestão Fiscal do GERJ dos exercícios de 2008 a 2013.

Ora, a concessão de qualquer benefício tributário – seja anistia, remissão, subsídio, crédito presumido, isenção, alteração de alíquota ou modificação de base de cálculo – deveria ser condicionada aos interesses sociais, em primeiro lugar e, do desenvolvimento econômico. Ou seja, estimular atividades econômicas em troca de contrapartidas de ordem social. Os valores da renúncia supracitados não foram acompanhados de medidas de compensação conforme recomenda, estranhamente de forma opcional, a Lei de Responsabilidade Fiscal – LRF (art. 14). Em outras palavras, para que uma renúncia fiscal não agrave o desequilíbrio das contas públicas deveria ser compensada por meio do aumento da arrecadação – do setor beneficiado – pelo aumento da movimentação econômica ou, de forma abrangente, pela redução de uma despesa governamental através de um investimento social.

Cabe recordar que a escalada de incentivos fiscais, ocorreu a partir de 2007, no estado do Rio de Janeiro e ancorada pela capital, motivada por uma agenda de megaeventos – Jogos Pan-americanos; Jogos Mundiais Militares; Rio+20; Copa das Confederações; Jornada Mundial da Juventude, coma presença do Papa; Copa do Mundo de Futebol; e Jogos Olímpicos – um atrativo calendário para investimentos em diversos setores.

Dados do empresometro.cnc.org.br – portal com estatística no número de empresas ativas no Brasil, por estados e municípios – corroboram o cenário de estímulos. Houve incremento significativo do número de empresas de 2008 a 2013 no estado. O Rio de Janeiro apresentou uma variação de 127%, superior à variação nacional que foi de 92%. Espírito Santo, Minas Gerais e São Paulo apresentaram respectivamente 108%, 89% e 85%.

Entretanto quando observamos o comportamento do emprego formal, especificamente a variação do estoque – dados do Relatório Anual de Informações Sócias (RAIS), o estado apresenta uma variação de 23,5% para o período ocupando a vigésima posição entre os demais entes e atrás da variação nacional (24,1%).

O incentivo fiscal serviu pra criar empresa, mas não emprego.

Deve-se destacar também o impacto das renúncias estaduais nas finanças municipais. A Constituição estabelece o repasse aos municípios de 25% da arrecadação do ICMS – art. 158, portanto, R$ 34,6 bilhões deixaram de ser repassados. Assim, como destacado no relatório do TCE, a concessão de benefícios na ordem de R$ 1,27 bilhão para o Grupo P&G (Procter & Gamble), gerou uma renúncia para os municípios de R$ 317,8 milhões. A P&G instalou uma nova unidade em Seropédica e iniciou suas operações em 2015. Estima-se que o valor do investimento alcançou R$ 280 milhões, menor em R$ 37,8 milhões da “perda” municipal. Ademais tem entendimento no Supremo Tribunal Federal que o repasse da cota constitucionalmente devida aos municípios não pode sujeitar-se a condição prevista em programa de benefício fiscal de âmbito estadual.

Outro ponto sensível da renúncia tributária é o diploma legal que outorga o benefício. Para evitar a chamada guerra fiscal entre os estados, a Constituição determina que o benefício deva ser precedido pela aprovação do Conselho Nacional de Política Fazendária – CONFAZ, conselho que agrega todos os secretários estaduais de fazenda. A partir do CONFAZ o benefício é concedido através dos convênios. Estima-se que apenas 20% das renúncias descritas foram através dos convênios do CONFAZ. A discricionariedade da concessão via decretos e leis ordinárias acirra a guerra fiscal. Só o estado de São Paulo ajuizou sete ADI’s – Ação Direta de Inconstitucionalidade – contra leis fluminenses que concedem benefícios fiscais. Recentemente a Secretaria do Tesouro Nacional noticiou que provavelmente, no pacote de socorro aos estados, será necessário rever pelo menos 10% das isenções. Entretanto a revisão diz respeito aos acordos do CONFAZ – que no estado do Rio tem um peso pequeno.

Portanto, a atual crise financeira do estado do Rio está relacionada não apenas à conjuntura econômica e à crise do petróleo, como muitos atribuem, mas também à gestão das finanças públicas.

Urge, a revisão da política de estímulos fiscais, não para extingui-los, mas adequá-los à realidade orçamentária estadual, pois os valores demonstram que a política sem critério claro de interesse público de isenção fiscal comprometeu substancialmente tanto a arrecadação geral do estado como indiretamente as receitas municipais. A redução das receitas e dos gastos públicos diminui a qualidade dos serviços públicos prestados à população justamente no momento mais necessário pelas dificuldades impostas pela crise econômica mundial e nacional.

Referências:

(1) A edição Jornal dos Economistas, nº 322, trouxe entrevista com os economistas Rodrigo Orair e Sérgio Gobetti, responsáveis pelo estudo publicado pelo Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo (IPC-IG), instituição parceira do PNUD.
(2) Ainda não estão disponíveis os dados de isenção tributária dos exercícios de 2014 e 15.

FONTE: http://psolrj.org.br/2016/06/27/isencoes-tributarias-no-estado-do-rio-de-janeiro/

(Des) governo do Rio de Janeiro usa servidores para garantir verbas para as Olimpíadas

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A “Coluna do Servidor” do jornal  O DIA traz hoje uma notícia que, para mim, expressa bem o uso que o (des) governo do Rio de Janeiro faz  da aflição dos servidores estaduais para arrancar mais verbas federais para garantir os Jogos Olímpicos.

É que como mostra a matéria reproduzida parcialmente abaixo, com o dinheiro entregue para aliviar a “calamidade pública financeira” decretada pelo governador em exercício Francisco Dornelles,  o (des) governo estadual garantiu recursos para quitar o que falta do mês de Maio e para pagar integralmente os salários de junho e julho (Aqui!).

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Duas questões para mim são claras a partir dessa notícia. A primeira é que o (des) governo do Rio de Janeiro usou a situação salarial dos servidores para pressionar o governo interino de Michel Temer para que fizesse a liberação de verbas para o empreendimento privado conhecido como Jogos Olímpicos.   A segunda questão é que essa aparente normalização só ocorrerá até o período do evento, e depois certamente voltaremos à situação do salve-se-quem-puder que vivemos neste momento.

Também nunca é demais lembrar que a entrega das verbas federais está se dando a partir de compromissos draconianos com o avanço da privatização e a redução de direitos trabalhistas dos servidores e aposentados.  Desta forma, os únicos que têm direito a cafezinho grátis nesse imbróglio são os causadores da condição objetiva de falência financeira do estado do Rio de Janeiro. Já para a população e para os servidores sobram apenas o sucateamento dos serviços públicos e precarização das condições de trabalho.

Arrecadação aumentou, mas Dornelles decretou calamidade. Por que essa conta não fecha?

O jornal Extra publicou uma matéria na última terça-feira (21/06) que desnuda a mentira de que a causa da alegada crise financeira que levou o (des) governador Francisco Dornelles a decretar a condição de calamidade pública no Rio de Janeiro (Aqui!).  É que segundo o Extra, a arrecadação aumentou no ano de 2016 (ver imagens abaixo).

Essa falácia já havia sido abordada por mim, outros blogueiros e pela Associação dos Analistas da Fazenda Estadual do Rio de Janeiro (Aqui!) antes, mas agora com esta matéria do jornal EXTRA as falácias do secretário estadual de Fazenda Júlio Bueno, esse sim detentor de um super salário, estão definitivamente desmentidas.

Outro aspecto que é evidenciado pela capa desta quinta-feira (23/06) do jornal O DIA é que dado o aumento de arrecadação registrado no Rio de Janeiro, a causa do atraso dos salários dos servidores, a qual está causando uma situação inédita de se pagar o salário do mês anterior no final do mês seguinte, não pode ser um suposto aumento desmedido da folha de pagamento.

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O fato é que o funcionalismo não teve um aumento superior a 9,91% desde 2015, o que invalida a tese de que são os salários de servidores que estão causando a incapacidade (ou a falta de vontade) do (des) governo do Rio de Janeiro de pagá-los em dia.  A verdade é que essa dificuldade nasce do pagamento dos juros escorchantes da dívida pública, das obras super faturadas, e do esquisito negócio feito com os recursos do RioPrevidência no paraíso fiscal de Delaware. É por essas razões que a matemática financeira do Rio de Janeiro simplesmente não fecha.

E é por isso tudo que quando pressionado minimamente pela mídia corporativa não resta nada mais ao governador em exercício Francisco Dornelles emitir ao seu motorista o imortal comando “Vam´bora Ademário”.

Odebrecht arranha efeito de Teflon de Sérgio Cabral

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O jornal Folha de São Paulo publicou hoje uma matéria assinada pela jornalistas Marina Dias e Bela Megale dando conta que a empreiteira Odebrecht apontou o ex(des) governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, como beneficiário de uma propina milionária relacionada a um gigantesco pacote de obras, incluindo as da Copa do Mundo (Aqui!)

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O interessante neste caso é que apesar de Sérgio Cabral já ter sido citado em outras delações, o caso de agora envolve uma obra da Odebrecht que extrapola o limite da chamada Operação Lava Jato, e cristaliza a necessidade de que as apurações de corrupção e compra de políticos extrapole a Petrobras.

Sérgio Cabral que vinha operando nos bastidores depois que saiu do Palácio Guanabara deixando lá a sua dupla de herdeiros, Pezão e Francisco Dornelles, agora certamente será forçado a se expor mais para se livrar de problemas com a justiça. O problema para ele é que isto se tornará cada vez mais difícil, visto que as delações relacionadas a ele estão se avolumando.

Agora, incrível mesmo é como a mídia corporativa blindou Sérgio Cabral durante os seus oito anos de (des) governo. Apenas para se tomar a dimensão dos problemas que ocorreram durante as obras para a Copa do Mundo, a reforma do Maracanã que foi orçada inicialmente em R$ 720 milhões acabou custando aos cofres públicos a bagatela de R$ 1,2 bilhão. Se confirmada a propina de 5% só nessa obra, Sérgio Cabral teria embolsado R$ 60 milhões.

E depois quem paga a crise são os servidores, aposentados e a população……

RJ: Nem o “estado de calamidade” para a farra fiscal

A imagem abaixo é uma reprodução parcial de um artigo assinado pelos jornalistas Bruno Villas Boas e Ítalo Nogueira que foi publicado hoje pela Folha de São Paulo (Aqui!), e que mostra que em pleno “estado de calamidade”, o (des) governo Rio de Janeiro concedeu pelo menos R$ 8,7 bilhões em isenções fiscais em 2016.

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O valor de R$ 8,7 bilhões é emblemático porque representa 3 vezes o valor que o (des) governo do Rio de Janeiro espera receber em verbas federais por força da decretação da calamidade pública por caos financeiro na última 6a .feira (17/06).

O mais impressionante é que Villas Boas e Nogueira apuraram que o valor perdido em recolhimento de impostos pode ser ainda maior, visto que há descontrole até no processo de renúncia fiscal, o que estaria permitindo que outras empresas além das beneficiadas deixem de pagar os impostos devidos.

Essa verdadeira farra com o dinheiro público que foi promovida sob a capa de renúncia fiscal deveria ser objeto de uma cuidadosa apuração por parte do Ministério Público e da própria Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. É que diante desta avalanche descontrolada de benesses fica evidente que não há outro caminho a não ser anular boa parte das isenções concedidas e punir quem se beneficiou de forma privada desse descalabro.

Decreto da calamidade mostra os defeitos de um (des) governo falacioso

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O Decreto 45.692/2016 com o qual o (des) governador em exercício do Rio de Janeiro, Francisco Dornelles, enfiou goela abaixo da população fluminense uma inovação que é a calamidade pública causada por caos financeiro reúne uma série de pérolas que atentam ao senso comum.

Entretanto, eu considero que o segundo “considerando” do decreto da calamidade é o mais vexaminoso de todos, na medida em que se baseia numa falácia grosseira (ver imagem abaixo).

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Literalmente o que o texto do segundo “considerando” aponta é que houve uma queda na arrecadação no recolhimento do ICMS e nos royalties e participações especiais do petróleo.

Pois bem, o primeiro problema dessa falácia é que já mostrei aqui mesmo neste blog que a Associação dos Analistas de Fazenda do Rio de Janeiro que em 2016 estamos tendo um aumento real no recolhimento de impostos (Aqui!). E os valores recolhidos poderiam ser ainda maiores se desde o (des) governo de Sérgio Cabral, uma série de concessões bilionárias do ICMS não tivesse comprometido a receita associada a este imposto que, pasmem todos, é a principal fonte de renda do Rio de Janeiro.

O segundo problema é que a alegada diminuição no aporte de receita oriundas dos royalties do petróleo realmente ocorreu. Entretanto, o peso dos royalties já vem diminuindo paulatinamente sua importância na formação da receita estadual.  Isto ficou ainda mais claro entre 2014 e 2015 (Aqui!).

Em outras palavras, as razões alegadas no segundo “considerando” do Decreto 45.692/2016 não passa de uma falácia.  E o que é mesmo uma falácia? A definição que eu utilizo aqui é de que uma falácia é  um”pensamento ou discurso que, embora seja errado ou mentiroso, se apresenta como verdadeiro“.

Agora a grande questão que fica é a seguinte: um decreto que se baseia numa falácia não vai ter sua constitucionalidade questionada? Com a palavra a Assembleia Legislativa, o Ministério Público, sindicatos e movimentos sociais.