Estudo alerta que o mundo enfrenta uma ‘crise de plástico’ de US$ 1,5 trilhão que afeta a saúde desde a infância até a velhice

Produção de plástico aumentou mais de 200 vezes desde 1950 e afeta a saúde em todas as etapas, da extração ao descarte, diz revisão na Lancet 

Um homem caminha por um rio cheio de lixo

Um homem coleta lixo das margens repletas de lixo do Rio Mithi, em Mumbai, Índia. Fotografia: Indranil Aditya/NurPhoto/Shutterstock

Por Damian Carrington, Editor de Meio Ambiente, para o “The Guardian”

Os plásticos representam um “perigo grave, crescente e sub-reconhecido” para a saúde humana e planetária, alertou uma nova revisão especializada. O mundo está em uma “crise do plástico”, concluiu a pesquisa, que está causando doenças e mortes desde a infância até a velhice e é responsável por pelo menos US$ 1,5 trilhão (£ 1,1 trilhão) por ano em danos relacionados à saúde.

O impulsionador da crise é uma enorme aceleração da produção de plástico, que aumentou mais de 200 vezes desde 1950 e deve quase triplicar novamente para mais de um bilhão de toneladas por ano até 2060. Embora o plástico tenha muitos usos importantes, o aumento mais rápido ocorreu na produção de plásticos de uso único, como garrafas de bebidas e recipientes de fast-food .

Como resultado, a poluição plástica também aumentou, com 8 bilhões de toneladas poluindo o planeta inteiro, segundo a análise, do topo do Monte Everest até a fossa oceânica mais profunda . Menos de 10% do plástico é reciclado.

O plástico ameaça as pessoas e o planeta em todas as etapas, afirmou a análise, desde a extração dos combustíveis fósseis dos quais é feito, até a produção, uso e descarte. Isso resulta em poluição do ar, exposição a produtos químicos tóxicos e infiltração de microplásticos no corpo. A poluição plástica pode até mesmo aumentar a proliferação de mosquitos transmissores de doenças, já que a água capturada em plásticos descartados proporciona bons criadouros.

A revisão, publicada na revista médica de referência Lancet , foi divulgada antes da sexta e provavelmente última rodada de negociações entre os países para chegar a um acordo sobre um tratado global juridicamente vinculativo sobre plásticos para enfrentar a crise. As negociações têm sido marcadas por um profundo desacordo entre mais de 100 países que apoiam um teto para a produção de plástico e petroestados, como a Arábia Saudita, que se opõem à proposta. O jornal The Guardian revelou recentemente como petroestados e lobistas da indústria do plástico estão atrapalhando as negociações.

“Sabemos muito sobre a extensão e a gravidade dos impactos da poluição plástica na saúde e no meio ambiente”, afirmou o Prof. Philip Landrigan, pediatra e epidemiologista do Boston College, nos EUA, e principal autor do novo relatório. Ele afirmou ser fundamental que o tratado sobre plásticos inclua medidas para proteger a saúde humana e planetária.

“Os impactos recaem mais fortemente sobre as populações vulneráveis, especialmente bebês e crianças”, disse ele. “Eles resultam em enormes custos econômicos para a sociedade. Cabe a nós agir em resposta.”

Petroestados e a indústria do plástico argumentam que o foco deveria ser a reciclagem do plástico, e não a redução da produção. Mas, ao contrário do papel, vidro, aço e alumínio, plásticos quimicamente complexos não podem ser facilmente reciclados. O relatório afirma: “Agora está claro que o mundo não pode reciclar para sair da crise da poluição plástica.”

Mais de 98% dos plásticos são feitos de petróleo fóssil, gás e carvão. O processo de produção com alto consumo de energia impulsiona a crise climática, liberando o equivalente a 2 bilhões de toneladas de CO2 por ano – mais do que as emissões da Rússia, o quarto maior poluidor do mundo. A produção de plástico também polui o ar, enquanto mais da metade dos resíduos plásticos não gerenciados são queimados a céu aberto, aumentando ainda mais a poluição do ar, observou o relatório.

Mais de 16.000 produtos químicos são usados em plásticos, incluindo cargas, corantes, retardantes de chama e estabilizantes. Muitos produtos químicos plásticos foram associados a efeitos na saúde em todas as fases da vida humana, segundo o relatório, mas havia falta de transparência sobre quais produtos químicos estavam presentes nos plásticos.

A análise descobriu que fetos, bebês e crianças pequenas eram altamente suscetíveis aos danos associados aos plásticos, com exposição associada a maiores riscos de aborto espontâneo, parto prematuro e natimorto, defeitos congênitos, crescimento pulmonar prejudicado, câncer infantil e problemas de fertilidade mais tarde na vida.

Os resíduos plásticos frequentemente se decompõem em micro e nanoplásticos, que entram no corpo humano através da água, dos alimentos e da respiração. As partículas foram encontradas no sangue , no cérebro , no leite materno , na placenta , no sêmen e na medula óssea . Seu impacto na saúde humana ainda é amplamente desconhecido, mas elas têm sido associadas a derrames e ataques cardíacos , e os pesquisadores afirmam que uma abordagem preventiva é necessária.

O plástico é frequentemente visto como um material barato, mas os cientistas argumentam que ele é caro quando se inclui o custo dos danos à saúde. Uma estimativa dos danos à saúde causados por apenas três produtos químicos plásticos – PBDE, BPA e DEHP – em 38 países foi de US$ 1,5 trilhão por ano .

A nova análise é o início de uma série de relatórios que monitorarão regularmente o impacto dos plásticos. Margaret Spring, advogada sênior e uma das coautoras do relatório, afirmou: “Os relatórios oferecerão aos tomadores de decisão em todo o mundo uma fonte de dados robusta e independente para subsidiar o desenvolvimento de políticas eficazes para lidar com a poluição plástica em todos os níveis.”


Fonte: The Guardian

Agrotóxicos usados na cultura de fumo contaminam água e agricultores em SC, aponta estudo

Agricultor aplica agrotóxico sem uso adequado de equipamentos de proteção individual em lavoura de tabaco

Um estudo realizado em Chapadão do Lageado, no interior de Santa Catarina, revela que o cultivo do tabaco expõe agricultores e recursos hídricos à contaminação por pesticidas. O artigo, publicado na revista Desenvolvimento e Meio Ambiente, investigou a presença de resíduos de agroquímicos usados na fumicultura em rios e poços da região, além da ocorrência da doença da folha verde do tabaco (DFVT) e de sintomas de intoxicação por agrotóxicos entre os produtores.

Com a autoria de pesquisadoras da Universidade Regional de Blumenau (Furb), da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) e do Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas da Argentina (Conicet), o trabalho foi motivado após uma das autoras, Giane Carla Kopper Müller, doutora em engenharia ambiental pela Furb e proprietária de áreas rurais em Chapadão do Lageado, identificar a presença de agroquímicos em águas de suas terras. “Fiquei intrigada , pois as fontes são protegidas, rodeadas por vegetação e distantes, cerca de 500 metros, de lavouras. Quis entender qual seria a origem dessa contaminação.”

A metodologia combinou entrevistas com 107 pessoas, representando 42% dos fumicultores da região (258). Já a análise da água foi feita a partir de 36 amostras coletadas em seis pontos dos três principais rios do município — Rio do Meio, Rio Figueiredo e Rio Lageado — sendo três pontos a montante (antes das áreas de cultivo, no sentido contrário ao fluxo do rio) e três a jusante (depois das áreas de cultivo, acompanhando o fluxo da água). Também foram analisadas seis amostras de poços, localizados próximos aos pontos de coleta dos rios e utilizados para consumo humano, durante três fases da safra de 2019. As amostras passaram por filtragem e análise em laboratório com uso de cromatografia líquida e espectrometria de massa, e foram testadas para 14 dos pesticidas mais citados pelos fumicultores.

As entrevistas revelaram um cenário de intensa exposição ocupacional. A maioria dos fumicultores trabalha em pequenas propriedades, com o tabaco como principal fonte de renda (85%), e dedica mais de 75% do tempo familiar à atividade. Crianças e idosos também participam da colheita. Dos produtores entrevistados, 91,6% relataram sintomas relacionados à DFV e 19,6% relataram sintomas relacionados ao manuseio de pesticidas. 

Segundo o artigo, os riscos de exposição dos agricultores são potencializados por uso incorreto ou parcial dos equipamentos de proteção individual (EPI), falhas no descarte e descontaminação de vestuários, embalagens e equipamentos utilizados no preparo e aplicação dos agroquímicos. Apesar de 99% dos entrevistados reconhecerem a importância dos EPI, apenas metade afirma sempre usá-los ao manusear agrotóxicos o que aumenta os riscos de intoxicação. Apenas 13% afirmam ser necessário usar EPIs para evitar a intoxicação, DFVT ou popular “porre do fumo”, devido à exposição à nicotina.

“Não se pode restringir o risco de contaminação apenas ao momento da aplicação direta do agrotóxico na lavoura. É preciso considerar também as embalagens usadas, as roupas de proteção, os utensílios e os resíduos presentes no ambiente agrícola. Mesmo após o uso, esses materiais ainda retêm partículas tóxicas, que podem ser dispersas pela água da chuva ou pelo manuseio inadequado, ampliando a exposição de trabalhadores e o risco de contaminação ambiental”, explica Lorena Benathar Ballod Tavares, professora do programa de pós-graduação em engenharia ambiental da Furb e coautora do artigo. Além disso, a proximidade entre as plantações comerciais e os alimentos cultivados para o consumo da própria família, como aipim, feijão e frutas, aumenta a exposição.

A análise da água detectou resíduos de agrotóxicos em 18 das 36 amostras, sendo a maioria em rios próximos às lavouras. Princípios ativos como sulfentrazone, imidacloprid e thiamethoxam foram identificados em concentrações que superam o limite individual máximo de 100 nanogramas por litro, estabelecido pela União Europeia para água potável. No Brasil, não há parâmetros de potabilidade definidos para os ingredientes ativos testados. Quatro de seis poços analisados estavam contaminados; as fontes de água testadas são usadas para consumo humano, irrigação e piscicultura.

Para as autoras do estudo, os resultados reforçam a urgência de políticas públicas voltadas à educação sobre riscos ocupacionais e ambientais no cultivo de tabaco.  Para a pesquisadora Maria Pilar Serbent, do Conicet, são necessários  investimentos em soluções que reduzam essa exposição dos agricultores, como modelos de produção orgânica. “Eles plantam tabaco e usam agrotóxicos porque é a única forma de garantir a subsistência da família”, defende Müller. “São dependentes dessa forma de produção e não têm os recursos, subsídios, investimentos e nem acesso à expertise para buscar meios menos prejudiciais ao meio ambiente e à própria saúde.” O estudo também sugere que a fiscalização ambiental e o monitoramento da qualidade da água sejam intensificados em regiões de monocultura.


Fonte: Agência Bori

Soja lidera uso de agrotóxicos no Brasil, mas apesar disso a produtividade está caindo drasticamente, mostra relatório

De acordo com um estudo realizado pelo Instituto Escolhas, o latifúndio agro-exportafor brasileiro tem intensificado o uso de agrotóxicos e fertilizantes para aumentar a produção de soja, na qual o Brasil é líder mundial.  Além disso, esse aumento se dá em um ritmo mais acelerado do que a expansão da área plantada, o que pode acarretar riscos ambientais e reduzir a rentabilidade dos produtores. Por outro lado, ao se comparar com países líderes no uso de agrotóxicos, como Estados Unidos, Argentina, China e Índia, o Brasil se destaca, conforme mostram dados oficiais.

Por outro lado, o levantamento feito pelo Instituto Escolhas aponta que mesmo com um aumento da produtividade de 2% ao ano, esse crescimento é inferior à expansão da área plantada e ao aumento do uso de insumos, que foram de 5% e 11% respectivamente.  O estudo também mostra que, em 30 anos, a área de soja saltou de 11 para 44 milhões de hectares, mas a eficiência do uso dos agrotóxicos caiu drasticamente: em 1993, eram 23 sacas de soja produzidas para cada quilo de agrotóxico aplicado; hoje, são apenas 7.

Além disso, o estudo mostra que o custo dos agrotóxicos e fertilizantes saltou de 30% para 44% sobre o valor bruto da produção. 

Livre da soja, Pantanal sofre com veneno que chega pelos rios

Segundo Jaqueline Ferreira, do Instituto Escolhas, o aumento do uso de agrotóxicos e fertilizantes é frequentemente minimizado pelos alta na produção de soja, que é essencial para o abastecimento mundial e fonte de exportação de dólares para o país. Para a safra 2024/2025, o Brasil projeta uma produção recorde de 168 milhões de toneladas de soja, 13% a mais que o ano anterior. Mas esse resultado não pode esconder que isso está acontecendo graças ao aumento do desmatamento e do uso de agrotóxicos, muitos deles banidos na Europa e até na China.

Relatório do governo Trump relaciona produtos químicos, incluindo glifosato e atrazina, com prejuízos à saúde humana nos EUA

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Relatório da MAHA aponta o dedo para os agrotóxicos como causadores de riscos à saúde dos americanos

Por Sutainable Pulse 

O Relatório MAHA – Tornando Nossas Crianças Saudáveis ​​Novamente, foi publicado na quinta-feira (22/05), com foco específico em como produtos químicos tóxicos e alimentos ultraprocessados ​​estão prejudicando a saúde dos americanos. O foco do relatório nos impactos cumulativos das exposições ambientais recebeu amplos elogios de especialistas independentes, muitos dos quais trabalham para proteger a saúde das crianças há décadas.

O Relatório MAHA apoiou a ciência independente padrão-ouro e é o primeiro relatório desse tipo do governo dos EUA a vincular fortemente os produtos químicos tóxicos à “crise de doenças crônicas enfrentada pelas crianças americanas”.

Nenhum país do mundo levou em conta integralmente o fato de que crianças são frequentemente expostas a misturas complexas de substâncias químicas. O rápido avanço da tecnologia de Inteligência Artificial cria novas oportunidades para desenvolver ferramentas que permitam avaliar melhor as exposições ambientais a doenças crônicas em crianças.

O governo dos EUA está comprometido em promover transparência radical e ciência de padrão ouro para melhor compreender os potenciais impactos cumulativos das exposições ambientais. Precisamos compreender e amenizar quaisquer possíveis vínculos entre a exposição química cumulativa e doenças crônicas na infância.

Crianças não são “pequenos adultos” quando se trata de substâncias químicas ambientais. A exposição a essas substâncias pode começar na concepção e continuar ao longo da infância, adolescência e vida adulta, acumulando-se ao longo do tempo. A placenta e o cordão umbilical não funcionam como barreiras impenetráveis; eles podem permitir que centenas de produtos químicos industriais e poluentes cheguem ao feto em desenvolvimento. Uma vez expostas a essas substâncias, diversas características únicas tornam recém-nascidos, crianças e adolescentes particularmente vulneráveis.

Alguns estudos levantaram preocupações sobre possíveis ligações entre alguns desses produtos (agrotóxicos, por exemplo) e efeitos adversos à saúde, especialmente em crianças, mas os estudos em humanos são limitados. Por exemplo, uma seleção de estudos de pesquisa sobre um herbicida (glifosato) observou uma série de possíveis efeitos à saúde, desde distúrbios reprodutivos e de desenvolvimento até cânceres, inflamação hepática e distúrbios metabólicos. Em estudos experimentais com animais e animais selvagens, a exposição a outro herbicida (atrazina) pode causar desregulação endócrina e defeitos congênitos.

O relatório também aborda outros produtos químicos tóxicos, incluindo PFAS, ftalatos e bisfenóis, bem como metais pesados. “O cérebro passa por uma segunda fase de remodelação durante a adolescência, particularmente nas regiões responsáveis ​​pelo controle dos impulsos e pelas emoções. Substâncias neurotóxicas — como solventes e metais pesados ​​— podem ter efeitos duradouros que se estendem muito além da adolescência.”

O Dr. Philip Landrigan, Diretor do Programa de Saúde Pública Global e Bem Comum do Boston College, disse ao E&E News que a “seção do relatório sobre exposições químicas ambientais” apresenta um diagnóstico brilhante do problema.

“O atual arcabouço regulatório deve ser continuamente avaliado para garantir que produtos químicos e outras exposições não interajam e representem uma ameaça à saúde de nossas crianças”, afirma o Relatório da MAHA, ecoando um sentimento que o Dr. Landrigan e outros especialistas em saúde pública vêm repetindo há décadas. Os detalhes sobre como o governo dos EUA planeja atingir essas metas serão divulgados em um relatório posterior, previsto para agosto.

“Este é o primeiro relatório do governo dos EUA a lançar luz sobre os danos à nossa saúde causados ​​pelo herbicida mais utilizado no mundo, o glifosato. Herbicidas à base de glifosato, como o Roundup, já estavam sob os holofotes devido aos bilhões de dólares que a Bayer/Monsanto teve que pagar a vítimas de câncer, e este relatório é mais um prego no caixão dessas empresas que estão conscientemente envenenando nossas crianças”, declarou Henry Rowlands, diretor do The Detox Project e proprietário do programa de certificação Glyphosate Residue Free.

George Kimbrell, Diretor Jurídico do Centro de Segurança Alimentar, continuou: “A necessidade de reformar nosso falido sistema de agricultura industrial para construir um futuro melhor para nossos alimentos é primordial. A comissão MAHA reconhece que o uso excessivo de agrotóxicos no sistema alimentar industrial dos Estados Unidos é uma parte crítica da crise de saúde do país e reconhece as evidências científicas já consolidadas dos danos terríveis que essas toxinas estão causando às crianças, à saúde pública e ao meio ambiente. No entanto, o relatório lamentavelmente não fornece os próximos passos sobre como o governo irá impedir que essa epidemia de saúde continue.

“Muito mais é necessário – e urgentemente – para abordar de forma significativa as crises gêmeas de saúde pública e ambiental que enfrentamos. Proteger a saúde das crianças e construir um sistema alimentar saudável deve superar os lucros das empresas de pesticidas. As políticas e a governança devem ser baseadas em ciência sólida e rejeitar a influência alarmista e de lobby que alega que essas toxinas são necessárias para um sistema alimentar ou economia agrícola saudável. Nossa organização continuará a fiscalizar as agências federais para proteger o interesse público e garantir que os reguladores cumpram seus deveres de proteger a saúde pública e o meio ambiente dessas toxinas perigosas. Para serem significativas, as conclusões do relatório devem se traduzir em ações concretas que realmente promovam um sistema alimentar mais saudável e sustentável para os agricultores e consumidores dos Estados Unidos”, concluiu Kimbrell.

Para ler o Relatório MAHA completo, faça o download aqui .


Fonte: Sustainable Pulse

Brasil: Peixes introduzidos por transposição de água apresentam parasitas

peixes parasitas introduzidosPesca de tilápia, um peixe invasor altamente explorado comercialmente e consumido popularmente. Crédito da imagem: Prefectura del Guayas/Flickr , sob licença Creative Commons BY-NC-SA 2.0 Deed .

As espécies com maior número de parasitas foram a piaba Astyanax bimaculatus) também chamada (tetra-fortuna ou lambari), a tilápia do Nilo ( Oreochromis niloticus ), o tucunaré ( Cichla Monoculus ) e a traíra (pertencente ao gênero hoplia), segundo estudo publicado no Journal of Helminthology.

No total, 42% dos peixes analisados ​​apresentavam algum tipo de parasita.

Entre as espécies de parasitas encontradas, os pesquisadores identificaram três tipos associados à anisaquíase humana, uma parasitose gastrointestinal causada pela ingestão de peixe cru ou malpassado.

“Sempre ouvimos que a traíra tem parasitas. Houve um tempo em que era difícil vender esse peixe porque as pessoas diziam que tinha parasitas. Agora, as pessoas esqueceram. Estamos preocupados, mas não temos outra maneira de sobreviver”, disse Antonio Valdivino Muniz, 54 anos, um dos 300 pescadores que tiram seu sustento da barragem de Acauã, na Paraíba, nordeste do Brasil, ao SciDev.Net .

Esta barragem é um dos 27 reservatórios vinculados ao PISF, um projeto de megatransferência que leva água do caudaloso Rio São Francisco até o Catinga, bioma predominante no semiárido brasileiro.

O projeto de 477 quilômetros visa fornecer água para 12 milhões de pessoas.

“A transferência de água é uma ação humana que pode causar um desequilíbrio ecológico porque altera o ambiente natural”, explicou ao SciDev.Net a bióloga Vitória Maria Moreira de Lima, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e principal autora do estudo.

“Hoje, não temos essas zoonoses no Rio Paraíba, mas imagine o que aconteceria se, no futuro, tivéssemos doenças parasitárias associadas a peixes que não existiam aqui antes. Como eles as relacionariam com a transferência se ninguém soubesse delas? É por isso que o monitoramento é tão importante”, acrescentou.

A bióloga Ana Carolina Lacerda, do Departamento de Sistemática e Ecologia da UFPB e uma das coautoras do estudo, ressalta que o país ainda carece de dados sobre doenças parasitárias em peixes que tenham potencial de causar doenças em humanos.

“Se as espécies de parasitas que encontramos têm potencial zoonótico, então sim, elas podem causar doenças em humanos. Mas precisamos registrá-las no sistema público e garantir que o parasita se originou do peixe que foi ingerido”, observou.

“No Brasil, embora exista um sistema nacional de registro de zoonoses, é provável que haja subnotificação devido à falta de diagnóstico”, acrescentou.

Entre os grupos de parasitas mais abundantes encontrados, dois deles eram hospedados por espécies invasoras não nativas da região: a tilápia do Nilo e o tucunaré.

O Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional, responsável pelo PISF, afirma que não há certeza se o deslocamento de peixes hospedeiros é responsável pela introdução desses parasitas com potencial zoonótico, ou se [os parasitas] já estavam presentes na área e infectaram as populações de peixes quando chegaram aos reservatórios locais.

“Existem vários cenários possíveis para a introdução de peixes e seus parasitas, pois os peixes podem estar parasitados em seu ambiente original e podem ou não perder seus parasitas durante o processo de transferência, ou podem não ter sido originalmente parasitados e se tornarem colonizados por parasitas de peixes no novo ambiente”, explicou o ministério em uma resposta ao SciDev.Net .

O ministério afirma que o surgimento de espécies invasoras de peixes estava entre os impactos previstos e que, desde 2012 — fase de instalação do projeto —, monitora 73 pontos nos dois eixos (leste e norte) em 10 bacias hidrográficas do Nordeste.

Em relação aos parasitas, a agência afirma que “somente com estudos prévios sobre a presença das águas do PISF nesses ambientes é possível vincular qualquer impacto dessa natureza ao Projeto”.

A chave é entender o nível de estabelecimento dessas novas populações de parasitas e seu potencial para infectar espécies nativas. Isso pode levar a extinções locais, afetando muitas comunidades ribeirinhas associadas a reservatórios e dependentes desses peixes.

Vitória Maria Moreira de Lima, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas da Universidade Federal da Paraíba, Brasil

Ana Carolina Lacerda explica que essas organizações não são vilãs. “Eles fazem parte da preservação e do equilíbrio dos ecossistemas”, ressalta. Entretanto, quando chegam de outros ambientes, tornam-se uma ameaça a esse equilíbrio.

Das mais de 50 espécies de parasitas identificadas no estudo, realizado no eixo leste do projeto, 32 não haviam sido identificadas anteriormente na bacia do Rio Paraíba do Norte.

“A chave é entender o nível de estabelecimento dessas novas populações de parasitas e seu potencial para infectar espécies nativas. Isso pode causar extinções locais, afetando muitas comunidades ribeirinhas associadas a reservatórios e dependentes desses peixes”, enfatiza Moreira de Lima.

Isso afetaria o trabalho de pessoas como Antonio Valdivino Muniz, o pescador mencionado no início desta reportagem: pescar 150 quilos de peixe por semana lhe garante uma renda de R$ 450 (cerca de US$ 80). “Não temos nenhum incentivo da prefeitura, nem o pessoal da transferência de água vem aqui, se reúne e vai embora”, reclamou.

Preocupados com sua sobrevivência, os pescadores locais desconhecem a ameaça representada pela introdução de peixes invasores, como o tucunaré e a tilápia. O primeiro acaba dominando o ambiente por ser predador, e o segundo, pela facilidade de reprodução.

A tilápia do Nilo, apesar de ser um peixe invasor, é altamente explorada comercialmente no Brasil. Crédito da imagem: Bernard Dupont/Flickr , licenciado sob Creative Commons CC BY-SA 2.0 Deed .

“Quem vive da pesca prefere espécies nativas pela qualidade de muitas delas. Economicamente, é melhor. Mas elas estão desaparecendo”, enfatizou o biólogo Ricardo Takemoto, pesquisador da Universidade Estadual de Maringá, que não participou do estudo.

“O tucunaré é bom para a pesca esportiva, mas não tem importância comercial devido à sua baixa qualidade. A tilápia, em termos de produção, tem sido bastante explorada economicamente. Ela já está se adaptando à água do mar, como uma praga”, explicou ele ao SciDev.Net .

Introduzido no Brasil na década de 1960, esse peixe hoje domina o mercado: segundo o Anuário Peixe BR 2024 , o país produziu quase 900 mil toneladas de peixes, dos quais 65,3% eram tilápias, 29,7% peixes nativos e 5% outras espécies.

“Qualquer mudança ambiental causa desequilíbrio, então estudos desse tipo são importantes porque abordam o problema dessas introduções”, acrescentou Takemoto.


Fonte: SciDev.Net

Apertando o acelerador: Assembleia Legislativa diminui distâncias e potencializa exposição humana a agrotóxicos no Mato Grosso

Deputados aprovaram em regime de urgência o Projeto de Lei 1833/2023, uma proposta que elimina barreiras cruciais para a aplicação de agrotóxicos em pequenas propriedades rurais

Foto: Adriano Gambarini/ OPAN

Por Opan 

Em uma sessão marcada pela pressa, a Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) deu um passo que promete redefinir o cenário da produção agrícola e causar sérios danos à saúde pública no estado. Nesta quarta-feira (19), deputados aprovaram em regime de urgência o Projeto de Lei 1833/2023, uma proposta que elimina barreiras cruciais para a aplicação de agrotóxicos em pequenas propriedades rurais. A decisão levanta questões urgentes sobre os limites entre o desenvolvimento econômico e a proteção do meio ambiente.

A flexibilização representa uma mudança drástica em relação à legislação anterior, que estabelecia distâncias mínimas para a aplicação de agrotóxicos, e que eram consideradas insuficientes para um nível adequado de proteção à saúde da população e do meio ambiente. A proposta também estabelece novas distâncias mínimas para médias e grandes propriedades rurais. No caso de médias propriedades, a aplicação de agrotóxicos poderá ocorrer a uma distância mínima de 25 metros das áreas habitadas e fontes de água. Já para grandes propriedades a distância mínima estabelecida é de 90 metros.

Essas mudanças contrastam com o Decreto nº 2.283/2009, que estava em vigor em Mato Grosso e determinava que o uso de agrotóxicos na agricultura só poderia ocorrer a uma distância mínima de 300 metros de povoações, cidades, vilas, bairros e mananciais de captação de água para abastecimento da população.

Além disso, o decreto estabelecia distâncias mínimas de 150 metros de mananciais de água, moradias isoladas e agrupamentos de animais, e de 200 metros de nascentes, mesmo que intermitentes.

O deputado Gilberto Cattani (PL), autor do projeto de lei, justifica a proposta argumentando que a distância mínima de 300 metros estabelecida pelo decreto anterior traz prejuízos à produção agrícola, à população e à economia, devido ao alastramento descontrolado de pragas agrícolas.

No entanto, especialistas alertam para os graves riscos que a medida representa para a saúde da população, o meio ambiente, aos produtores e até para a própria produção.

“Um dos resultados que nós vimos é que existe uma necessidade de manter uma zona segura, sem a aplicação de agrotóxicos em volta das áreas de preservação permanente, as APPs. Porque os agrotóxicos por si só, eles não controlam todas as pragas da paisagem. Nós sabemos que paisagens que tiveram uma aplicação de altos índices suscetíveis, ano a ano, de agrotóxicos eles selecionaram pragas mais resistentes. Então, é fundamental que se alinhe o controle biológico natural e resguardar uma faixa segura de APPs porque nós vimos que tem animais que são fundamentais para ajudar a controlar essas pragas junto com os agrotóxicos. Então, manter essas zonas seguras é fundamental para preservar a agricultura”, explicou o pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Lucas Ferrante, durante audiência realizada nesta terça-feira (18), que debateu o tema.

Foto: Adriano Gambarini/ OPAN

O médico, pesquisador e professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Wanderlei Pignati, também ressaltou que a proposta é absurda, pois vai aumentar a exposição a venenos e ampliar a probabilidade da população ter doenças.

“Quanto mais perto, maior é a probabilidade de você ter intoxicação aguda, malformações, câncer. A população que mora do lado, crianças e adultos, os rios, tudo vai ser muito afetado e contaminado”, afirma.

Wanderlei Pignati é responsável por um estudo que analisou as condições de saúde de pessoas que moravam em distâncias inferiores a um quilômetro das áreas de lavouras em Mato Grosso. Por meio da pesquisa, realizada pelo Núcleo de Estudos em Ambiente, Saúde, Trabalho e Educação (Neast), do Instituto de Saúde Coletiva (ISC) da universidade, foi demonstrado que a proximidade de áreas agrícolas é um fator de risco significativo.

Pesquisas da UFMT e do Neast/ISC/UFMT, em parceria com a Operação Amazônia Nativa (OPAN), também demonstraram a relação entre o uso intensivo de agrotóxicos em lavouras próximas a territórios indígenas e a causa de graves problemas de saúde.

Além disso, foram encontrados agrotóxicos proibidos, como carbofurano, atrazina e carbendazim, nas lavouras. A exposição a esses produtos está associada a intoxicações agudas, doenças crônicas, como câncer e problemas neurológicos, e impactos ambientais severos.

O estudo ainda mostrou que as pessoas com residência próxima a lavouras agrícolas de milho e algodão tiveram quase duas vezes mais intoxicações agudas comparadas com as que residiam em outros locais.

Na sessão ordinária apenas três deputados, Wilson Santos (PSD), Lúdio Cabral (PT) e Valdir Barranco (PT), votaram contrários ao projeto de lei, que segue para sanção do governador Mauro Mendes (União Brasil).


Fonte: OPAN

Organizações internacionais voltam a pedir proibição do plantio e comercialização do trigo transgênico

Entidades ligadas à agricultura sustentável e o direito à alimentação alertam para os riscos à saúde. Pães, massas e todos os derivados do trigo HB4 terão resíduos de glufosinato de amônio, agrotóxico altamente tóxico

Crédito da Foto: Pixabay

Por Cida de Oliveira 

São Paulo — Organizações da sociedade civil que reúnem países da América Latina, África e Ásia voltaram a reivindicar a suspensão das autorizações do plantio e comercialização do trigo HB4 na Argentina, Brasil e Paraguai. E de importação na África do Sul, Colômbia, Nigéria, Nova Zelândia, Indonésia e China. Desenvolvida e negociada pela companhia argentina Bioceres, a semente promete resistir aos períodos secos do ano e às chamadas plantas invasoras, cada vez mais resistentes a agrotóxicos. Essa segunda característica se deve a uma modificação genética que permite ao trigo resistir a altas doses do herbicida glufosinato de amônio. Segundo as entidades, há estudos que mostram que essa substância chega a ser 15 vezes mais tóxica que o glifosato.

E aí é que está a grande preocupação. As plantas acumulam resíduos dos agrotóxicos nelas aplicados ao longo do cultivo. E em doses tão significativas que vão bem além das permitidas pela legislação, como mostraram diversas pesquisas de órgãos de saúde em amostras de hortaliças, frutas e outros alimentos. No caso do trigo transgênico, além de outros agroquímicos que serão utilizados, haverá concentração do glufosinato de amônio. Classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como potencialmente cancerígeno, o agrotóxico é associado ainda por diversos estudos científicos como causador de alterações genéticas, danos ao fígado e desregulação endócrina.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, um desregulador endócrino pode exercer vários efeitos nocivos, alterando os hormônios e suas funções. Isso é muito grave porque o funcionamento adequado do organismo, portanto, a saúde, depende de ação hormonal. E o mais perverso é que essa desregulação afeta principalmente fetos, crianças com até dois anos e adolescentes, por estarem em fase de desenvolvimento, com grande multiplicação celular. Não é por acaso que em 2009 o glufosinato foi banido na União Europeia.

Para piorar, o trigo transgênico se propõe a dominar a produção de um cereal que compõe a principal fonte de carboidratos, base da alimentação mundial. Ou seja, o pão de cada dia, seja do tipo que for. Além do café da manhã, está em muitas refeições diárias, como suporte para sanduíches e outros pratos. Tem ainda o macarrão, a pizza, bolos, biscoitos, doces e uma infinidade de subprodutos.

Apesar da importância do trigo na alimentação humana, não existe um método público validado para detectar, identificar e quantificar a presença de trigo HB4 em farinhas e outros produtos de trigo”, alertam as entidades em comunicado divulgado nesta quarta-feira (5), na qual reivindicam a suspensão das autorizações já concedidas.

No documento, elas destacam também as circunstâncias nada democráticas em que o cultivo e a venda foram liberados. No caso Brasil, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) encerrou o processo em março de 2023. Foram ignorados alertas de cientistas, órgãos de saúde, meio ambiente e defesa dos direitos humanos e do consumidor. A opinião pública tampouco foi levada em consideração. E como tornou-se praxe no órgão criado justamente para assessorar o governo federal quanto à biossegurança, houve dispensa de pesquisas. Foram considerados suficientes os dados incompletos apresentados pela empresa interessada na aprovação.

Pedimos que todas as licenças para o plantio e comercialização do trigo HB4 sejam suspensas e que um processo de reparo abrangente seja iniciado nos espaços já intervencionados”, destacam as organizações. Em junho de 2022 a Embrapa já havia anunciado a criação de campos de testes em Brasília.

O trigo HB4 já é vendido na Argentina desde maio de 2024, segundo anunciou na época a Bioceres. E os negócios avançam nos Estados Unidos. Nesta quinta-feira (6) a companhia anunciou ter obtido a primeira das quatro patentes solicitadas ao órgão oficial local. Já há também autorização do Departamento de Agricultura (USDA) e do Departamento de Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA). O país é o quarto maior produtor mundial do cereal.

No entanto, nem só de notícia boa vive a Bioceres. No início de fevereiro, a própria companhia divulgou queda de 24% na sua receita, o que levantou fortes suspeitas de que a nova tecnologia tenha tudo a ver com isso. Embora a empresa não tenha explicado as causas do tombo financeiro, há desconfiança de fracasso comercial do novo trigo. Ou seja, não estaria oferecendo a resistência ou tolerância à seca prometida na propaganda.

De acordo com dados oficiais, o trigo HB4 rende muito menos do que os trigos convencionais (não transgênicos), mesmo em anos de seca. Na média anual de dados de 2021, os trigos HB4 renderam 17% menos do que os trigos convencionais. Nos anos seguintes, nem o Estado nem a empresa publicaram dados de produção nas diferentes regiões. Talvez seja porque o fracasso produtivo da tecnologia foi confirmado, e a queda nas vendas e receitas da Bioceres fez com que a empresa saísse da venda de sementes”, acreditam as entidades.

Seja como for, ainda segundo essas organizações (veja lista no final da reportagem), o lançamento e posterior aprovação do trigo HB4 levantou expectativas entre os produtores. Apesar da falta de dados oficiais sobre o cultivo de trigo transgênico no Paraguai, circula por lá a informação sobre a adaptação de variedades em diversas regiões do país por corporações do agronegócio. Além disso, o uso de glufosinato de amônio aumentou substancialmente no país.

Acreditamos que, diante do grande fracasso da tecnologia HB4, para a qual a empresa Bioceres está arrastando agricultores, é hora de enterrá-la definitivamente”, pedem as organizações.

Para o engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, integrante do Movimento da Ciência Cidadã, que subscreve o comunicado, o trigo transgênico é “mais uma das promessas de uma tecnologia enganosa, patrocinada por interesses opostos às necessidades da população”. “Diante das promessas de redução no uso de agrotóxicos, de geração de plantas mais nutritivas, de benefícios aos pequenos agricultores e aos consumidores, nada mais coerente do que um trigo tolerante à seca, mas que não é tolerante a seca”, disse à reportagem.

Melgarejo foi além: “Penso que as evidências concretas de inconsistência entre os discursos dos técnicos interessados, as propagandas da mídia corporativa e a realidade observada nas lavouras expliquem os pedidos, e as aprovações, de dispensa de monitoramento pós liberação comercial destas tecnologias pela CTNBio”.

Em fevereiro de 2024, essas mesmas entidades enviaram petição aos Relatores Especiais sobre Direitos Humanos da ONU. O objetivo foi alertar para a gravidade do risco a que estão expostas as populações desses países e pedir providências. Isso porque o plantio e a comercialização violarão vários direitos humanos, como o direito à vida e aos estilos de vida, à saúde, à alimentação adequada e à soberania alimentar. E também a um meio ambiente equilibrado e livre de poluição, entre outros. Entretanto, ainda não houve resposta alguma das Nações Unidas.

Confira as solicitações aos Relatores Especiais da ONU:

  • Inste os governos da Argentina, Brasil e Paraguai a suspender/revogar todas as autorizações para o cultivo comercial do trigo transgênico HB4
  • Recomende ao governo do Paraguai que revogue a Resolução 556/2023 – por meio da qual o trigo transgênico HB4 foi aprovado – e que reforme a estrutura regulatória para organismos geneticamente modificados (OGMs), por meio de um processo aberto, transparente e participativo, com ênfase especial na necessidade de proteger os direitos dos povos indígenas e das comunidades camponesas
  • Recomende que o governo da Argentina revogue a Resolução 27/2022, que se baseia apenas em informações documentais da Bioceres, a empresa que desenvolveu a variedade de trigo transgênico, e institua uma proibição adequada do cultivo de trigo transgênico no país
  • Recomende que o Conselho Nacional de Biossegurança do Brasil proíba o cultivo comercial de trigo transgênico e suspenda a decisão da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), que permite a importação de grãos e farinha de trigo transgênico para o país, e promova uma revisão da legislação de biossegurança por meio de um processo participativo aberto, transparente e democrático
  • Recomende que os governos da Colômbia, África do Sul, Nigéria e Indonésia instruam suas autoridades de biossegurança a revisar as aprovações de importação de trigo GM e iniciar uma moratória em todas as aprovações (autorização de produto, importação e liberação ambiental) de culturas Geneticamente Modificadas.

Confira as entidades que assinam o documento:

Accion Ecologica

Associação Nacional para a Promoção da Agricultura Biológica

Base Investigaciones Sociales

Alianza Biodiversidad

Instituto de Salud Socioambiental (InSSA)

Amigos de La Tierra Uruguay

Rap Al Uruguay

Grain

Movimento Ciência Cidadã

Semillas

ETC Group

Cientistas soam o alarme sobre plásticos em nossos cérebros após estudo chocante

Comentário destaca os potenciais riscos à saúde dos microplásticos em nossos corpos e cérebros

Microplásticos estão sendo encontrados em todos os lugares onde os cientistas os procuram, inclusive em nossos cérebros. © Daily insights via Shutterstock

Por Ed Cara para o “Gizmodo”

Se a ideia de ter uma colherada de plástico na sua cabeça parece ruim para você, você não é o único. Cientistas estão soando o alarme sobre um estudo recente que mostra que microplásticos podem se acumular no cérebro.

Pesquisadores dos EUA e Canadá escreveram o comentário, publicado no periódico Brain Medicine. Além de discutir o estudo cerebral recente, eles detalham a ciência geral sugerindo que os microplásticos estão prejudicando o meio ambiente e nossa saúde. Embora mais pesquisas sejam necessárias para descobrir as melhores maneiras de limpar essas substâncias de nossos corpos, as pessoas já podem tomar medidas para minimizar sua exposição, afirmam os cientistas.

Microplásticos são quaisquer pedaços de plástico menores que 5 milímetros. Nos últimos anos, cientistas os encontraram em praticamente qualquer lugar que eles olharam — de nuvens no topo de montanhas a nossos testículos e fezes de bebês . Mas um estudo publicado no mês passado na Nature Medicine por pesquisadores da Universidade do Novo México desencadeou uma nova onda de preocupação.

Os pesquisadores da UNM não só encontraram microplásticos nos cérebros de pessoas falecidas, como também encontraram concentrações maiores de plástico nos fígados, rins ou outros órgãos das pessoas. Além disso, esse acúmulo pareceu ser muito maior em pessoas falecidas recentemente, sugerindo que a exposição ao plástico só piorou ultimamente. Eles também encontraram uma concentração maior de plástico nos cérebros de pessoas com demência — talvez sinalizando uma conexão com a condição neurológica fatal. Os pesquisadores da UNM estimaram que os cérebros das pessoas hoje podem estar carregando uma colher de plástico inteira desses pequenos fragmentos.

Nicholas Fabiano, autor principal do novo comentário, publicado hoje, adverte que ainda há muito que não sabemos sobre os impactos dos microplásticos na saúde. Mas o que aprendemos até agora não é exatamente encorajador.

“Ouvir que há uma colher de microplásticos no cérebro foi chocante. Como residente em psiquiatria, isso é particularmente relevante, já que atualmente não sabemos a extensão total que isso pode impactar a cognição ou a saúde mental de alguém”, Fabiano, pesquisador do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Ottawa, disse ao Gizmodo. “No estudo da Nature Medicine, os níveis de microplásticos eram 3-5 vezes maiores nos cérebros daqueles com demência, o que levanta alarmes, no entanto, essas descobertas não são causais por natureza.”

Não são apenas os plásticos em si que podem ser perigosos para nossos corpos, mas os produtos químicos que vazam dele. Os pesquisadores identificaram mais de cem produtos químicos no plástico que podem nos prejudicar ou prejudicar outros animais, particularmente produtos químicos que podem imitar e, então, possivelmente interromper a regulação de hormônios importantes. Esses produtos químicos desreguladores endócrinos têm sido associados a maiores taxas de infertilidade, certos tipos de câncer e distúrbios metabólicos como diabetes, para citar alguns. E provavelmente há outras maneiras pelas quais os plásticos ou seus produtos químicos podem estar afetando nossa saúde para pior.

“A base de evidências atual (amplamente baseada em estudos de cultura de células e animais) sugere que a exposição [ao microplástico] pode levar a impactos adversos à saúde por meio de estresse oxidativo, inflamação, disfunção imunológica, metabolismo bioquímico/energético alterado, proliferação celular prejudicada, desenvolvimento anormal de órgãos, vias metabólicas interrompidas e carcinogenicidade”, escreveram os autores do comentário do Brain Medicine.

Muitas perguntas sem resposta sobre microplásticos permanecem, observa Fabiano. Além dos riscos desconhecidos para a saúde a longo prazo, não temos certeza de como esses plásticos estão entrando no cérebro, por exemplo. Também ainda sabemos pouco sobre como nossos corpos podem eliminar microplásticos, embora algumas pesquisas tenham sugerido que podemos literalmente suar certos produtos químicos associados ao plástico.

Apesar dessas incógnitas, Fabiano (e muitos outros pesquisadores ) pediram que governos e formuladores de políticas tomem medidas e comecem a reduzir nossa exposição coletiva a microplásticos. Enquanto isso, as pessoas também podem fazer coisas em suas vidas pessoais para limitar sua ingestão de plásticos. Isso inclui: mudar de beber água engarrafada regularmente para água filtrada da torneira; comer menos alimentos comumente feitos com plástico, como certos saquinhos de chá (dito isso, alguns tipos de saquinhos de chá são melhores do que outros ), ou alimentos que são conhecidos por conter altos níveis de microplásticos, como frutos do mar, álcool e alimentos altamente processados ​​em geral; e armazenar nossas sobras em recipientes de vidro ou aço inoxidável em vez de plásticos.


Fonte: Gizmodo

Estudo aponta relação entre agrotóxicos e risco aumentado de câncer em agricultores

Pesquisa ressalta a importância de comunicar aos agricultores melhor os riscos do uso dos agrotóxicos e medidas de proteção 

Um estudo da Universidade de Caxias do Sul (UCS), publicado na revista “Saúde em Debate” na quinta (27), revela que agricultores expostos a agrotóxicos apresentam um risco maior de desenvolver câncer. Esse risco é ainda mais acentuado entre trabalhadores do sexo masculino, que costumam ter contato direto e frequente com os produtos, muitas vezes sem o uso adequado de equipamentos de proteção individual (EPIs), como máscaras e luvas.

A revisão analisou 29 estudos publicados entre 2012 e 2021 e, de acordo com os resultados apresentados por vários pesquisadores ao redor do mundo, identificou que a exposição prolongada a agrotóxicos pode causar danos celulares que contribuem para o desenvolvimento de qualquer tipo de câncer. No entanto, os cânceres de pulmão, mama, próstata e cânceres hematológicos (leucemias e linfomas) são mais incidentes. Casos de câncer de pele também apareceram nos estudos, mas não foram considerados conclusivos devido à forte relação da doença com a exposição solar, um fator de risco conhecido na profissão.

“Os fatores comuns são a forma como os agricultores estão expostos, se usam os EPIs ou não e como usam. E o tempo de exposição. Muitos iniciam cedo no trabalho agrícola e têm contato com essas substâncias desde jovens”, explica Fernanda Meire Cioato, enfermeira e autora principal do artigo. A autora também chama atenção para a exposição indireta, especialmente entre mulheres que manuseiam equipamentos contaminados ou armazenam os produtos. “São exposições diferentes. O homem é aquele que prepara a calda e aplica, que lida diretamente com a colheita, e a mulher faz todo o trabalho de organização”, ressalta Cioato.

Outro ponto destacado pelo estudo é que a toxicidade dos agrotóxicos não está necessariamente relacionada ao tipo de cultivo ou produto utilizado. Em muitos casos, os agricultores utilizam uma combinação de substâncias, aumentando a complexidade da exposição e dificultando a identificação precisa dos agentes mais nocivos. O uso inadequado de EPIs agrava esse cenário, já que muitos trabalhadores substituem as vestimentas de proteção por alternativas informais, como bonés e calças jeans, devido ao desconforto térmico das roupas especializadas. “Os equipamentos de proteção são desconfortáveis para quem trabalha o dia inteiro sob o sol. É fundamental a modernização de EPIs, com produção de equipamentos mais ergonômicos e eficientes para utilização no trabalho agrícola”, destaca Cioato.

Diante desses achados, os pesquisadores defendem a implementação de políticas públicas que garantam o controle e a segurança no uso de agrotóxicos. Além disso, enfatizam a necessidade de capacitação dos profissionais de saúde para diagnosticar e tratar precocemente os trabalhadores rurais expostos. “Os profissionais devem estar aptos a identificar, analisar e implementar medidas que minimizem riscos, além de monitorar e acompanhar a saúde desses trabalhadores”, afirma João Ignácio Pires, professor da UCS e coautor do estudo.

A pesquisa também ressalta a necessidade de adaptar a comunicação sobre os riscos dos agrotóxicos ao público que os utiliza. Com muitos agricultores de baixa escolaridade, a complexidade das bulas e rótulos dificulta a compreensão das instruções de segurança. “Os rótulos precisam ser mais acessíveis, com símbolos e informações simplificadas, para garantir que todos compreendam os riscos e saibam como se proteger”, conclui Cioato. Essas medidas, segundo os pesquisadores, são essenciais para reduzir os impactos negativos dos agrotóxicos na saúde da população rural.


Fonte: Agência Bori

Alerta Observatório dos Agrotóxicos: Brasil se consolida como o maior consumidor mundial de agrotóxicos

Com informações do portal especializado do agronegócio “Agrolink” fica evidente que o Brasil se consolidou como o maior mercado global de  agrotóxicos em 2024, com vendas estimadas em US$ 14,3 bilhões, superando os Estados Unidos (US$ 13,3 bilhões) e a China ((US$ 10,8 bilhões). A informação foi compartilhada por Anderson Nacaxe, CEO & Co-Founder da Oken.Finance, destacando o crescimento contínuo do setor.

Esse crescimento foi impulsionado pela produção de soja, milho, cana-de-açúcar e café.  Além disso, apesar de um crescimento anual moderado (CAGR de 1,7%), a demanda por agrotóxicos segue forte, refletindo a expansão da área controlada pelo latifúndio agro-exportador.  

Syngenta, UPL, Basf: as empresas que mais vendem no Brasil agrotóxicos  proibidos na Europa - Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida

A multinacional suiço-chinesa Syngenta é uma das maiores ganhadoras com o aumento do consumo de agrotóxicos no Brasil

Entre as empresas líderes, a Syngenta mantém sua posição no topo, com previsão de US$ 13,6 bilhões em vendas, seguida por Bayer (US$ 12 bilhões), BASF (US$ 9 bilhões) e Corteva Agriscience (US$ 7,3 bilhões). O mercado global, embora tenha sofrido uma queda em 2023 devido à menor demanda e flutuações cambiais, projeta um crescimento de 1,8% ao ano até 2030. Além do Brasil e dos EUA, a China aparece como terceiro maior mercado, com um ritmo de expansão mais acelerado (Taxa de Crescimento Anual Composta de 3%), impulsionado pela modernização agrícola.  

A América Latina se consolida como motor de crescimento do setor, com Brasil e Argentina liderando. Já nos EUA e na Europa, regulamentações ambientais rigorosas impactam a demanda por  agrotóxicos favorecendo soluções sustentáveis, como biotecnologia e bioagrotóxicos. Outro fator relevante é a concentração de mercado, com as cinco maiores empresas (Syngenta, Bayer, BASF, Corteva e UPL) dominando o setor. 

“O Brasil ultrapassa os EUA e se torna o maior mercado global de agrotóxicos, enquanto a China cresce rapidamente. O futuro do setor dependerá de inovação e adaptação regulatória, com destaque para soluções mais sustentáveis e eficientes”, comentou Nacaxe.

Tendência de crescimento dos agrotóxicos deverá repercutir no aumento de contaminação ambiental e adoecimento no Brasil

Um dado que é omitido nas análises dos analistas do agronegócio é que o crescimento continuo no uso de agrotóxicos, muitos deles banidos em outros mercados como o europeu e até o chinês deverá repercutir no aumento da contaminação ambiental no Brasil, trazendo ainda efeitos sobre a saúde humana, com o aumento potencial de casos de vários tipos de câncer, para começo de conversa.

Por isso é urgente que a questão dos agrotóxicos seja colocada como questão prioritária no debate político, pois só com muita mobilização é que poderemos influenciar diretamente em uma situação que se mostra cada vez mais negativa para o meio ambiente e a maioria da população brasileira


Fonte dos dados deste texto: Agrolink