Escassez de água ameaça a segurança alimentar global

escasez-agua-996x567A segurança alimentar enfrenta dez ameaças graves que comprometem a meta de acabar com a fome até 2030. Crédito da imagem: Juan Pablo Marin García / Alliance of Bioversity International e CIAT sob licença Creative Commons (CC BY-NC-SA 2.0)

Cerca de 828 milhões de pessoas passaram fome em 2021, em comparação com uma estimativa de 811 milhões em 2020, e cerca de 11,7% da população global sofria de grave insegurança alimentar , segundo os novos dados.

Não só as secas relacionadas às mudanças climáticas estão aumentando a competição entre os agricultores por água, o relatório também observa que a crescente demanda por água pelas populações está reduzindo o acesso à água potável, água subterrânea e irrigação.

Ao mesmo tempo, conflitos em andamento, como a guerra na Ucrânia e as consequências econômicas da pandemia de COVID-19 , estão revertendo décadas de progresso, ameaçando desfazer as metas de acabar com a fome, a insegurança alimentar e a desnutrição. em todas as suas formas até 2030 .

Outro estudo publicado na One Earth também identificou a seca e as ondas de calor na África subsaariana, danos aos ecossistemas e a interrupção das monções e do degelo na Ásia como as principais ameaças à segurança alimentar mundial. As ameaças foram identificadas por membros de um painel de especialistas e depois classificadas e priorizadas.

Zia Mehrabi, principal autora do estudo e professora assistente de estudos ambientais no Mortenson Center for Global Engineering da University of Colorado Boulder, disse que a segurança alimentar é um problema de pobreza, distribuição limitada e acesso a alimentos, e não sua produção.

De acordo com Mehrabi, os efeitos das mudanças climáticas estão se tornando mais graves eas políticasdevem se concentrar na construção de resiliência sistêmica, em vez de responder a instâncias individuais de clima extremo. “É aqui que a sociedade deve concentrar seus esforços para elevar o padrão de vida em geral. Só assim podemos esperar que eventos extremos não afetem os mais vulneráveis”, disse ele à SciDev.Net .

“Da mesma forma, temos que cuidar de nossos ecossistemas, porque eles fornecem a salvação para a agricultura : se os perdermos, nossa capacidade de lidar com eventos extremos diminui enormemente”, acrescentou.

A equipe de pesquisadores internacionais observou que, mesmo antes da guerra na Ucrânia e da guerra civil em curso na Etiópia, que interrompeu a produção de alimentos e as cadeias de suprimentos, conflitos como os da Síria e do Iêmen ameaçavam a segurança alimentar regional e global.

Esses distúrbios são exacerbados por eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, como ondas de calor marinhas, inundações e secas .

“Da mesma forma, temos que cuidar de nossos ecossistemas, porque eles fornecem a salvação para a agricultura: se os perdermos, nossa capacidade de lidar com eventos extremos diminui enormemente.”

Zia Mehrabi, Professora Associada da Universidade do Colorado Boulder

O cenário latino-americano

Apesar dos dados do estudo, as preocupações com as ameaças à segurança alimentar na América Latina ainda não estão diretamente relacionadas à escassez de água.

“Vivemos no paradigma da falsa abundância, em muitas áreas pensa-se que há água suficiente para a agricultura. As principais políticas estão mais focadas no abastecimento das grandes cidades do que nos possíveis impactos na produção agrícola”, disse Francisco Javier Lemus Yáñez, professor da Faculdade de Ciências Políticas e Sociais da Universidade Autônoma do México , à SciDev.Net .

Uma das características da região é que a maior parte dos terrenos agrícolas é irrigada sazonalmente, em função das chuvas, pelo que as alterações climáticas que afectam os padrões de precipitação são particularmente preocupantes, disse.

“Já estamos vendo o caos. O clima está mudando, mas por enquanto são situações temporárias, mas isso não significa que não será um problema nos próximos anos”, acrescentou Lemus Yáñez. “Especialmente em locais onde há má gestão da água, corrupção e má distribuição do recurso.”

O que está acontecendo é que em muitas partes da região há uma mudança no uso da terra para ganhar mais terra para a agricultura e produzir mais produtos exportáveis. Hoje, a região é o segundo ponto com maior índice de desmatamento (atrás apenas do Sudeste Asiático); Milhões de hectares de floresta foram perdidos devido à agricultura ilegal e ao cultivo de soja , carne bovinaóleo de palma , principalmente.

A mudança no uso da terra para a agricultura é uma séria ameaça para a América Latina, que tem a segunda maior taxa de desmatamento do mundo, atrás apenas do Sudeste Asiático. Crédito da imagem: Juan Pablo Marin García / Alliance of Bioversity International e CIAT sob uma licença Creative Commons (CC BY-NC-SA 2.0)

Jessica Hernández Orozco, ex-assessora da Comissão Nacional de Águas do México, disse à SciDev.Net a mesma coisa: “devido a secas e eventos extremos, como furacões, chuvas, nevascas, a produção é afetada periodicamente”, mas “ainda é não uma crise” que põe em risco a segurança alimentar.

Encontrar soluções

Os autores do artigo One Earth pedem maior colaboração e coordenação entre os pesquisadores que estudam ameaças específicas aos sistemas alimentares, para que os tomadores de decisão tenham informações abrangentes, modelos atualizados e ferramentas relevantes à medida que surgem.

Os países precisam passar de políticas protecionistas e nacionalistas para formas colaborativas de governança, e precisamos começar a nos fazer perguntas como “como é a governança para sistemas alimentares resilientes?”, disse Mehrabi.

São necessárias informações abrangentes, modelos atualizados e ferramentas relevantes para enfrentar as ameaças à segurança alimentar, como secas e outros eventos extremos. Crédito da imagem: Juan Pablo Marin García / Alliance of Bioversity International e CIAT sob uma licença CreativeCommons (CC BY-NC-SA 2.0)

Lemus Yáñez também está convencido de que a governança dos sistemas alimentares e a gestão da água devem ser colaborativas. “A única forma de conseguir isso é gerando acordos horizontais, nos quais todos os atores, especialmente os ‘abaixo’, realmente se comprometam. Podemos gerar muitas leis, mas se as pessoas não se sentirem parte delas, não as respeitarão”, disse.

Segundo Mehrabi, a governança colaborativa “é uma ideia impopular, mas a realidade é que, a longo prazo, todos serão beneficiados. Precisamos de políticas que se concentrem na construção da confiança entre os atores dentro e entre os países, uma confiança que nos permita enfrentar grandes problemas com seriedade.”

Este artigo foi produzido pela edição global do SciDev.Net, com reportagens adicionais da América Latina e Caribe.


compass black

Este texto escrito originalmente em espanhol foi publicado pela SciDev [Aqui!].

Segurança alimentar em risco: governo Bolsonaro quer dar ao agronegócio o direito de se autofiscalizar

comida adulterada

Tramita no Congresso Nacional, em ritmo super acelerado, o Projeto de Lei No. 1293/2021 que instala o processo de autofiscalização na produção de alimentos no Brasil, colocando nas mãos dos agentes do agronegócio a capacidade de definir quais produtos de origem vegetal e animal podem chegar à mesa dos brasileiros.  Esta proposta traz uma “pegadinha” que é o fato dessa autofiscalização ser apenas válida para os alimentos que chegarão na mesa dos brasileiros, pois o que for exportado continuará sendo fiscalizado por técnicos governamentais.

Não sei quantos leitores deste blog se lembram do escândalo ocorrido entre 2012 e 2013 quando diversas empresas produtoras de leite foram pegas em um esquema de adulteração de seus produtos em diferentes regiões brasileiras. Apesar de todos os riscos criados por aquele esquema, não se tem de notícia de alguém que esteja cumprindo pena neste momento por causa dos crimes cometidos contra a saúde pública. 

crise leite

Agora, pensem no que significará dar aos operadores do agronegócio o controle, por exemplo, da fiscalização sobre a saúde dos animais que serão abatidos para serem consumidos no Brasil. Além de animais doentes, o que poderemos começar a ter na mesa é carne com diferentes tipos de aditivos em concentrações acima do que seria seguro para consumo humano, incluindo antibióticos e hormônios (que passariam a ter registro automático!).

Mas o problema da adulteração de alimentos não se restringe à produtos de origem animal, pois o Brasil é um país onde se adultera todo tipo de alimento, inclusive muitos que são amplamente consumidos, incluindo o café.

O incrível é que até aqui o Projeto de Lei No. 1293/2021 estava tramitando sem ser incomodado, e sob o controle total dos membros da bancada ruralista. Felizmente, ainda que tardiamente, um grupo de senadores resolveu interferir na tramitação da proposta para que a mesma tenha que ser, pelo menos, debatida em plenário. 

O fato inescapável é que sempre foi sonho do latifúndio agro-exportador poder deixar no Brasil aquilo que não se pode exportar por não atender os critérios internacionais de sanidade. Agora, com a possibilidade da provação dessa lei, leite adulterado será a menor preocupação dos que ainda conseguem comprar comida no Brasil.

 

Hortas cariocas que foram saudadas pela Der Spiegel estão sob ataque de Eduardo Paes

hortas-cariocas-2-conexao-planeta

A gestão de Eduardo Paes vem realizando um forte ataque ao programa das “Hortas Cariocas” que é um exemplo efetivo de combate à fome na cidade do Rio de Janeiro

A repercussão da postagem que fiz de uma reportagem da revista alemã Der Spiegel sobre o programa “Hortas Cariocas” tenha sido compreensivelmente alta, pois a mesma traz elementos que estão bastante ausentes na realidade social de uma grande metrópole como a do Rio de Janeiro, a começar pela necessidade de fortalecer laços comunitários para gerar formas sustentáveis de combate à fome.

Mas o que a reportagem da Der Spiegel não mostrou é que o prefeito Eduardo Paes parece não compartilhar do mesmo entusiasmo que noto dos leitores do blog em relação a essa incrível experiência de agricultura urbana nas favelas cariocas. É que se Paes tivesse um mínimo de simpatia por essa experiência ele não teria reduzido drasticamente o orçamento destinado a garantir o funcionamento efetivo do “Hortas Cariocas”, nem teria afastado o agrônomo Júlio César Barros da coordenação do programa que ele mesmo criou em 2006.

Depois ainda há quem veja algum benefício em se associar política e eleitoralmente a Eduardo Paes, um governante que se notabilizou por um rumoroso processo de remoção forçada de milhares de famílias que viviam há várias gerações de locais que a Prefeitura do Rio de Janeiro escolheu para algum tipo de projeto com vias à valorização da terra urbana.

Por isso é importante que se aproveite a reportagem da Der Spiegel não apenas para se publicizar os incríveis ganhos trazidos pelo “Hortas Cariocas”, mas também para cobrar que ele seja devidamente financiado por Eduardo Paes.

Crescimento de 250% da agricultura orgânica incomodou a indústria do veneno agrícola

ag-brasil-rovena-rosa-

Por Carta Campinas

O grande crescimento da agricultura orgânica nos últimos anos está incomodando a cadeia produtiva dos venenos agrícolas, os chamados agrotóxicos.

Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), os registros de entidades produtoras de orgânicos no país, das quais cerca de 70% dos produtores são de agricultura familiar, passou de 6.700 em 2013 para 17.075 atualmente. Um crescimento de 250% somente nos registros.

Para combater a agricultura familiar e a alimentação mais saudável da população (e se aproveitando da confusão social promovida pelo golpe de 2016), a bancada ruralista apresentou dois projetos no Congresso Nacional, que são bastante nocivos à população.

O primeiro é o projeto de lei (PL) 4576/2015, que tenta proibir a comercialização de alimentos orgânicos em supermercados. A proposta aguarda parecer na Comissão de Defesa do Consumidor para seguir em tramitação na Câmara. A proposta é tão absurda que tem posição contrária do próprio Ministério da Agricultura.

Em outra frente, a bancada ruralista apresentou o PL 6299/02, que trata do registro, fiscalização e controle dos agrotóxicos no país. Chamada de PL do Veneno, o projeto tenta facilitar o registro de produtos tóxicos usados na agricultura e até mascará-los com eufemismo linguístico. Até o Instituto Nacional do Câncer já emitiu nota contra PL do Veneno, aprovada em comissão.

O texto do PL 4576/16 é uma aberração digna de estados totalitários. Ele prevê que a venda direta de produtos orgânicos do produtor ao consumidor poderá ser feita apenas por agricultor familiar integrante de organização de controle social cadastrada nos órgãos fiscalizadores.

Em nota técnica, o Mapa concluiu que “além de não contribuir com o que já está regulamentado, [o PL] restringe a comercialização a milhares de pequenos agricultores, ou mesmo feirantes, uma parcela importante da cadeia produtiva”.

O último censo do setor, de 2006, mostra ainda que a agricultura familiar participava com 30% do valor bruto da produção agrícola e agropecuária no Brasil, o que representava em torno de R$ 12 bilhões, segundo dados do ministério.

Existem dois tipos de certificação para produtores orgânicos. O ministério tem, atualmente, oito certificadoras credenciadas que fazem a fiscalização das propriedades e assumem a responsabilidade pelo uso do selo brasileiro.

Há também os Sistemas Participativos de Garantia (SPG), em que grupos formados por produtores, consumidores, técnicos e pesquisadores se certificam, ou seja, estabelecem procedimentos de verificação das normas de produção orgânica daqueles produtores que compõem o sistema. Tanto as certificadoras quanto os SPG precisam ser credenciados no Ministério da Agricultura.

Para a agricultora Maria Alves, a importância da produção orgânica está em preservar a terra, oferecer alimentação de qualidade à sociedade e cuidar da própria saúde ao não utilizar agrotóxicos e ainda produzir no modelo chamado agroecológico com respeito à biodiversidade e aos ciclos biológicos.

“Isso é segurança alimentar, mas ainda não temos soberania porque a pequena agricultura também precisa de incentivos, de ciência, de técnicas de apoio para podermos ampliar. É bom que todo mundo coma bem, por que não?”, reagiu.

Integrante de uma ação coletiva de produção regional com membros do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Maria Alves defende que o princípio econômico que rege a produção agrícola é o do “lucro ótimo” e, não do “lucro máximo”.

“A pequena agricultura [familiar] tem a diversidade, é normal você ter um pedacinho de terra e ali você ter um galinheiro, uma criação de pequenos animais, uma horta, um pomar, é diversidade. Você já ouviu falar que pequeno produtor ficou rico plantando? A ideia não é o lucro máximo, a gente tem que pensar no lucro ótimo: eu tiro meu sustento, eu consumo aquilo que eu planto com segurança e o excedente eu comercializo com segurança também porque você vem adquirindo consciência”, disse. (Carta Campinas e Agência Brasil)

FONTE: http://cartacampinas.com.br/2018/08/crescimento-de-250-da-agricultura-organica-incomodou-a-industria-do-veneno-agricola/

Lucro de empresas e bancos está à frente da segurança alimentar

Por João Pedro Stedile

agrotox

O Brasil consome mais de um bilhão de litros de venenos agrícolas por ano. Isso representa 20% de todos os venenos consumidos no mundo, embora sejamos responsáveis por apenas 3% da produção agrícola mundial.

Despejamos 15 litros de venenos por hectare cultivado. Essa realidade não tem paralelo com nenhuma agricultura do mundo, nem há nenhum manual de agronomia que faça tal recomendação.

Esses venenos de origem química são produzidos por poucas grandes empresas transnacionais. Segundo a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), somente as dez maiores empresas do setor foram responsáveis por 75% das vendas de agrotóxicos na última safra.

Isso lhes permite a maior taxa de lucro do mundo: US$ 8,5 bilhões de dólares na safra 2010/2011, e ainda desovam por aqui seus estoques de venenos proibidos em outros países.

Os venenos matam. Matam a biodiversidade existente na natureza, já que o agronegócio visa ao monocultivo absoluto, seja de soja, milho, algodão, cana ou pastagem extensiva. Mata os nutrientes, empobrece o solo e contamina o lençol freático fazendo com que muitas cidades com poço artesiano encontrem resíduos inaceitáveis para o consumo humano.

Os venenos também contaminam as chuvas. Quando o veneno secante não é absorvido, sobe para atmosfera e volta democraticamente para todos habitantes com a chuva. Mas, sobretudo, os venenos contaminam nossos alimentos. A Anvisa faz testes por amostragem apenas em algumas cidades a cada seis meses.

Mesmo com os níveis alarmantes, nenhum supermercado cumpre a lei do consumidor, que obriga que o rótulo ou a gôndola dos produtos avisem que aquele alimento é transgênico ou possui veneno.

Resultado: segundo os cientistas do Inca (Instituto Nacional do Câncer), a cada ano, 500 mil brasileiros são acometidos por câncer, grande parte originário dos venenos dos alimentos. Quase metade destes brasileiros irá a óbito.

Em todos os países da Europa a pulverização aérea de veneno é proibida. Aqui no Brasil, porém, é a mais usada, causando todo tipo de consequência à natureza, aos rios e às pessoas. No ano passado, uma escola rural de Goiás foi atingida, causando problemas a centenas de crianças.

Na Holanda, por exemplo, já está proibido o uso do Glifosato, o mais usado no Brasil. Cientistas conseguiram comprovar que os agrotóxicos causam alterações genéticas e aumentam as probabilidades de contrair câncer, sofrer abortos espontâneos e nascimentos com malformações.

O Brasil consome 20% de todos os venenos do mundo, embora sejamos responsáveis por apenas 3% da produção agrícola mundial. João Pedro Stedile, membro da coordenação nacional do MST, sobre o uso de agrotóxicos

O Brasil, no entanto, caminha no sentido contrário da modernidade e da proteção da vida. Porque aqui, o lucro das empresas transnacionais e dos bancos que as financiam vem em primeiro lugar. E, ainda mais, o agronegócio tem hegemonia completa na mídia brasileira, que todo dia faz sua propaganda ideológica.

O Ministério da Agricultura, em vez de ser rigoroso no controle dos venenos, os libera – como é o caso do chamado D-4, proibido na maioria dos países. No Congresso Nacional, o agronegócio também tem hegemonia, com os deputados ruralistas se orgulhando desse modelo. Havia um deputado, líder ruralista, que defendia com entusiasmo o uso de agrotóxicos, alegando progresso e modernidade para agricultura. Deixou de fazê-lo. Há dois anos, Homero Pereira morreu de câncer no estômago.

A Esplanada dos Ministérios, por sua vez, justifica o apoio ao agronegócio pelo valor das exportações agrícolas, como se sustentassem nossa economia. Ledo engano. Nenhum país do mundo se desenvolveu exportando commodities agrícolas e minerais. Enquanto o agronegócio brasileiro representa 3% do comércio mundial agrícola, na Holanda, com seu “enorme” território, essa cifra é o dobro, porque compra nossas matérias-primas, as industrializa e revende a outros países.

Por essa realidade, que organismos internacionais, entidades de saúde pública e os movimentos camponeses de todo mundo declararam o dia 3 de dezembro como o Dia Mundial de Combate ao Uso de Agrotóxico.

Ajude a salvar vidas (inclusive a sua), vegetais, animais. Exija que o supermercado coloque no rótulo se tem ou não agrotóxico. Exija que o governo não permita, ao menos, os venenos já proibidos em outros países. E potencialize a fiscalização da Anvisa.

Cuide de sua saúde, e não se iluda com a cantilena do agronegócio e das empresas fabricantes de venenos, que somente querem o lucro, mesmo que para isso tenham que lhe enviar a um hospital.

FONTE: http://noticias.uol.com.br/opiniao/coluna/2014/12/03/lucro-de-empresas-e-bancos-esta-a-frente-da-seguranca-alimentar.htm

Alguém sabe a quantidade de agrotóxico num simples pé de alface?

Alguém sabe a quantidade de agrotóxico num simples pé de alface?

Por Cândido Grzybowski*

O anúncio sobre a alta da inflação em março veio com a informação de que os preços dos alimentos novamente pesaram mais. Quem vai ao mercado atrás de alimentos sabe disto muito bem. Na verdade, se a gente considerasse a inflação específica dos preços dos alimentos ela seria muito maior que o tal índice médio.

Sem dúvida a inflação de alimentos é um pesadelo muito grande para todo mundo, mas especialmente para quem tem o salário mínimo como referência de sua renda doméstica. Um real a mais aqui, um e setenta centavos acolá, dois e trinta ali, e assim vai. Tudo isto vira uma conta que dá como resultado real a redução da quantidade e da qualidade de alimentos na sacola de compras.

Mas a fome em casa não é gerida pelo tal mercado. As necessidades e desejos de comer se inscrevem na própria qualidade de vida que a gente leva. O alimento é central, pois sem ele nem há vida. Mas não é só isto. Alimentar-se tem tanto uma incontornável determinação fisiológica natural – a necessidade de consumo diário de calorias, proteínas e tudo mais – como uma profunda dimensão cultural e civilizatória. Alimento é convivência em família, é celebração e festa, é identidade cultural.

Pensemos na feijoada aqui no Rio, no vatapá na Bahia, no pato ao tucupi no Pará, na polenta com frango dos italianos no Sul, no churrasco gaúcho – meio hegemônico na questão de carnes entre nós. São alguns dos exemplos mais claros de comidas associadas a verdadeiras culturas e identidades que resultam na vibrante diversidade de nosso povo.

O direito ao alimento envolve tudo isto e é parte dos direitos fundamentais de nossa Constituição Cidadã. Soberania e Segurança Alimentar são bandeiras cidadãs no Brasil e mundo afora que clamam por políticas públicas para assegurar o direito de todas e todos ao alimento adequado à vida e à própria cultura.

Só que o mercado não se organiza em torno dos direitos e nem se limita pelos direitos. O mercado e os preços são uma grande invenção humana para realizar as trocas de produtos e serviços. Afinal, na medida em que as sociedades se complexificam e aumenta-se a divisão do trabalho, não há como funcionar sem troca.

A moeda, como expressão e medida do valor, e as trocas são indispensáveis. Nunca é demais lembrar que foi nas praças públicas que surgiram os mercados, e ali também surgiu a própria democracia. O problema é que os mercados se autonomizaram da democracia, se tornaram livres e… escravizaram as pessoas e a própria democracia. Até a fome está subjugada pelo mercado. Isso é aceitável?

Pelos preceitos dos oráculos da economia, para enfrentar a alta de preços de alimentos o jeito é ajustar a fome aos preços e ao mercado. Buscar alimentos mais baratos, substituir alimentos, se necessário for, reduzir o consumo. Enfim, segundo a economia, não dá para controlar o mercado. É mesmo? E como ficam os direitos fundamentais de cidadania? Eles também dependem do mercado? Não é mercado demais e democracia de menos?

O problema é que o direito cidadão à Soberania e à Segurança Alimentar não se limita aos preços. Os preços no mercado não mostram as outras qualidades fundamentais que o produto (o alimento, no caso) carrega e não são evidentes. Alguém sabe que quantidade de agrotóxico – veneno que pode fazer mal e matar – está num simples pé de alface? No feijão? No tomate e no pimentão? No arroz de cada dia? Naquele franguinho gostoso? Na margarina e no óleo de soja?

O agronegócio, o modelo empresarial de produção de nossos alimentos, de quase todos eles, tem o uso intensivo de agrotóxicos com uma condição. Somos o país de maior consumo de agrotóxicos por hectare do mundo. Sem falar que alguns agrotóxicos usados aqui já são proibidos há muito tempo em lugares onde se leva a sério a questão de saúde associada ao alimento. Não procure nos rótulos das embalagens algum indício do veneno usado, pois não existe!

Além dos venenos, escondidos naquela beleza de folhas, grãos e carnes, temos ainda a questão dos alimentos transgênicos. Hoje os transgênicos já ocupam um lugar de destaque na composição de nosso prato, em casa e no restaurante. Você sabia?

Comecemos por reconhecer que, no mínimo, existem controvérsias científicas já provadas de que os transgênicos não são um alimento seguro. Um cientista francês, contestado pelas grandes multinacionais dos grãos, provou por “A mais B” que ratos comendo milho transgênico durante mais tempo do que os tais quatro meses de teste estipulados por órgãos reguladores, morrem de câncer simplesmente todos, enquanto os alimentados de outra forma continuam vivos. E aí?

Não somos ratos, evidentemente! Vamos ter que testar em humanos o risco e só então exigir mais precaução na liberação de produtos transgênicos? O princípio da precaução faz partes dos acordos da Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU de 1992, realizada no Rio, a Eco-92. Bem, acordos sim, mas negócios e livre mercado à parte.


No Brasil adotamos quase por completo a liberação dos transgênicos. O caso mais complicado é de milho e soja, de que somos grandes produtores e exportadores, e que são essenciais na teia alimentar de hoje em dia, no nosso prato. No Brasil se adota parcialmente o T, de transgênico, em alguns produtos. Escrito em letra bem pequenina no rótulo, mas está lá. Quem vê? Bem, está na maior parte das embalagens de óleo de soja e de milho.

Os que tem T são mais baratos – olha aí o tal mercado. Mas margarina é feita de soja, exatamente pelas mesmas grandes corporações de agronegócio do óleo de soja. Alguém viu o T no rótulo das margarinas? Mas o problema não acaba aí. Frango come ração com soja e milho, muito provavelmente transgênicos. A vaca, do leite, manteiga e queijo, também come ração.

O porco, hoje tão baratinho, é um transgênico completo pelo que come. Seus derivados deliciosos como a linguiça, o bacon, o salame e aqueles maravilhosos complementos da feijoada, todos têm alta dose de transgênicos. Onde está o tal T pequeninoo, difícil de ver? Pela via do mercado, não temos escolha: comemos transgênicos! Será que segurança alimentar é comer uma bomba assim?

Tem outro problema ligado a esse mercado de alimentos: a procedência. Pode ser, e muitas vezes é, que o preço de certas frutas importadas da Argentina ou do Chile sejam mais baratas que as nossas. Falo de uvas e maçãs, por exemplo. O Brasil é talvez o maior pomar do mundo, pela quantidade e pela diversidade tanto de frutas nativas como das chamadas exóticas.

Pois bem, o Brasil é o maior produtor e exportador de laranja e cítricos em geral. Precisa importar laranja e tangerina do exterior? Tornamo-nos um dos grandes produtores de maçã – um fruta essencial, segundo médicos e nutricionistas. Por que importar maçãs da Argentina? Somos um dos maiores produtores de uva de mesa, infelizmente não adequada para vinhos. Será que precisamos de uvas de mesa do Chile?

Ainda não é uma prática recorrente a indicação de procedência dos alimentos oferecidos nos mercados. Aliás, é coisa rara. Aqui estamos diante de uma grande questão de sustentabilidade associada ao alimento. As culturas alimentares se desenvolveram graças à biodiversidade e aos próprios sistemas ecológicos do Planeta Terra.

Como humanos, soubemos tirar partido do que a natureza nos propiciava. A migração de plantas, como dos próprios seres humanos, é um direito. Ao menos eu reconheço e pratico na minha pequena chácara, dada a minha origem e tradição de camponês.

Hoje temos uma riqueza de plantas e animais, base de alimentos, muito diversificada e espalhada pelo mundo, graças inclusive ao próprio engenho humano, que ajudou a descobrir ambientes e adaptar vidas de plantas e animais a eles. Mas uma coisa é produzir no Brasil o abacate, originário do México, que se dá muito bem aqui, e outra é importar.

Isto vale para muitos alimentos. Um princípio básico da sustentabilidade hoje são os circuitos curtos: produzir aqui para consumir aqui. Claro que isto não resolve todas as necessidades e desejos alimentares. Mas o essencial pode e deve ser resolvido por nós aqui, sim!

Que sentido tem exportar maçãs e importar maçãs? Onde está a lógica de exportar uvas do vale do São Francisco e importar uvas do Chile? Por que importar alhos e cebolas se podemos produzir tais hortaliças por aqui, até melhores? Como cidadão consumidor e preocupado com a sustentabilidade da vida – que nada tem a ver com negócios “sustentáveis” que alimentam as trocas internacionais – reivindico o direito de ser informado sobre a origem do alimento que estou comprando.

Enfim, como dá para ver, tratar de alimento é lidar com algo que condensa contradições de um direito humano básico. As questões são muitas. O preço dos alimentos é, na verdade, muito mais do que preço. Nele está encoberta toda uma história de soberania e segurança alimentar, essencial para pensarmos a sustentabilidade da vida e do planeta. Democracia para valer deve tratar disto com o cuidado e a radicalidade que merece.

Por Cândido Grzybowski, Sociólogo, diretor do Ibase

FONTE: http://jornadaagroecologia.com.br/node/353