Ao lado de gigantes do agronegócio, Harvard está em esquema ilegal de aquisição de terras no Piauí

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A SLC Agrícola e Radar S/A, que figuram como uma das maiores empresas do agronegócio no país, e o Fundo Patrimonial dos Professores Norte-americanos da Harvard Management Company (HMC) são um dos principais responsáveis pela crescente do desmatamento no cerrado piauiense nos últimos 20 anos.

É o que aponta o estudo “Na fronteira da (i) legalidade: Desmatamento e grilagem no Matopiba“, publicado na última quinta (11/11) pela Associação dos Advogados/as de Trabalhadores/as Rurais da Bahia (AATR) e a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, com a contribuição do IFBaiano (Campus Valença/BA). A pesquisa faz a análise de quatro casos da fronteira agrícola do Matopiba, composta pela região de Cerrado dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, que ilustram a relação entre desmatamento e grilagem (apropriação ilegal de terras) e violações contra povos e comunidades tradicionais.

Segundo as informações apresentadas, essas empresas passaram a vislumbrar na região, com terras outrora desvalorizadas, a oportunidade de ganhos com “abertura” e instalação de fazendas para produção de soja. Com a especulação imobiliária, uma intensa onda de grilagem foi fomentada próxima às nascentes do Rio Parnaíba, na divisa entre o Maranhão e o Piauí.

Nesta região, no limite entre os municípios de Bom Jesus, Santa Filomena, Gilbués, Baixa Grande do Ribeiro e Monte Alegre do Piauí, estão localizadas as comunidades do território de Melancias (22.583 hectares) que enfrentam graves conflitos na luta pela demarcação e titulação do seu território tradicionalmente ocupado, que formalmente consistem em terras devolutas estaduais. Em depoimento ao Ministério Público, em 2019, o morador Juraci Selestino afirma que esses empreendimentos estão encurralando as comunidades.

“Os fazendeiros pegaram os baixões e nós ficamos encurralados na beira do rio. E mesmo nessas áreas que a gente tá, hoje tem gente que diz que é dono. É muita fazenda. É muito dono! Tem as fazendas de Passaginha, Roda de Ferrovia, Riachão, Serra Alta, Santo Isidório, Alvorada, Galileia, Celeiro, São Pedro e Cosmo, que está arrendando para o Grupo Produzir. O Riachão, que é afluente do Rio Uruçuí Preto, foi cercado pela Alvorada. Outros afluentes, como Riacho dos Cavalos, que a Alvorada diz que é a dona, já cercaram também”, explica.

Encurraladas nos vales ou “baixões”, as famílias brejeiras e ribeirinhas sofrem com os danos causados pela apropriação ilegal das chapadas do entorno, com o desmatamento acelerado, contaminação das águas por agrotóxicos e a grilagem verde. Segundo moradores, houve a diminuição de 50% do fluxo do Rio Uruçuí-Preto, fato que atribuem ao desmatamento, que resultou em erosão e assoreamento do leito do rio e seus tributários – a exemplo do Riacho dos Cavalos e Riachão.

“As empresas instalam as lavouras no alto das chapadas e, com as chuvas ou demais processos antrópicos, as águas escorrem para os baixões, chegando aos rios. Nas épocas das chuvas, o uso do rio provoca alergia nas pessoas. O uso excessivo de agrotóxicos nas fazendas também trouxe pragas para a lavoura das comunidades, bem como a extinção de aves que ao comer a soja, morrem por envenenamento”, diz trecho do estudo.

Nas chapadas, no entorno do território atualmente reivindicado, foram concedidos títulos para empresas de forma irregular pelo órgão estadual de terras. Há sobreposição ao território reivindicado de 11 imóveis cadastrados no SNCI, entre 2009 e 2013, totalizando 9.978 ha; e 23 sobreposições de imóveis cadastrados no sistema Sigef entre 2014 e 2020, totalizando uma área de 9.945 ha. Considerando os dois cadastros, são 19.923 hectares sobrepostos, correspondendo a 87% do território reivindicado.

As áreas sobrepostas ao território reivindicado de Melancias são em sua maioria tentativas de grilagem verde, especialmente pelo grupo Bom Jardim (família Golin), Cosmos Agropecuária (Ricardo Tombini e Eduardo Dall’Magro) e conjunto Riachão (irmãos Fritzen). As áreas de Reserva legal sobrepostas (CAR) alcançam 17.989 hectares e correspondem a 80% do território reivindicado.

Contexto

Historicamente, o principal operador da apropriação ilegal das chapadas e vales da região do alto Uruçuí-Preto é o próprio Estado do Piauí, especialmente por meio do Poder Executivo e Judiciário. O processo de entrega do valioso patrimônio constituído pelas terras públicas tem início no começo dos anos 70, e visou a transferência massiva de terras devolutas tradicionalmente ocupadas por comunidades para indivíduos e empresas privadas, especialmente do Sul do país, a preços irrisórios e com critérios pouco transparentes. Outra forma comum foi a demarcação fraudulenta de “datas” (concessões) antigas de terras, que foram posteriormente apropriadas com uso de titulos inválidos de ações de inventário, seguidas de desmatamento ilegal.

Na fronteira da (i) legalidade: Desmatamento e grilagem no Matopiba” aponta recomendações de enfrentamento deste cenário , que serão enviadas para os órgãos do Sistema de Justiça, a exemplo do Conselho Nacional de Justiça, Corregedorias dos Tribunais de Justiça, Ministérios Públicos e Defensorias Públicas Estaduais.

A pesquisa está disponível na íntegra Aqui!

Floresta envenenada: latifundiários jogam agrotóxicos para acelerar desmatamento ilegal na Amazônia

Soja e pecuária foram responsáveis pelo despejo de agrotóxicos com uso de avião sobre floresta amazônica e outros biomas em área do tamanho de 30 mil campos de futebol

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Por Hélen Freitas – Repórter Brasil/Agência Pública 

Para acelerar o desmatamento de grandes áreas e abrir espaço para a soja e o gado, fazendeiros estão jogando grandes quantidades de agrotóxicos de avião sobre a floresta Amazônica e outros biomas. Levantamento inédito feito pela Repórter Brasil e Agência Pública revela que, nos últimos 10 anos, cerca de 30 mil hectares de vegetação nativa foram literalmente envenenados. A área corresponde a 30 mil campos de futebol. 

Esses foram os casos que caíram na fiscalização do Ibama, que aplicou mais de R$ 72 milhões em multas de 2010 a 2020 especificamente em casos de desmatamento com pulverização aérea de agrotóxicos. Com o desmonte da fiscalização ambiental promovida pelo governo Bolsonaro, o problema tende a ser maior do que os dados apontam.

Como todos esses casos ocorreram sem autorização dos órgãos ambientais, não é possível saber se os responsáveis tiveram o cuidado de tirar os animais e as pessoas que circulavam por essas áreas enquanto o avião jogava os químicos. 

O processo lembra aquele usado pelo exército norte-americano durante a guerra no Vietnã, quando aviões americanos despejaram o agente laranja, um agrotóxico que tinha a função de “ neutralizar” a floresta, usada como refúgio do exército local. Além de matar a vegetação vietnamita, que até hoje contém resíduos desses tóxicos, o agente laranja continua fazendo vítimas. Após quase 50 anos do fim da guerra, muitas crianças no país nascem com deficiências como síndrome de Down, paralisia cerebral e desfiguração facial extrema.

Um dos agrotóxicos que faziam parte da composição do agente laranja, o 2,4-D, foi encontrado pelos fiscais na fazenda que usou veneno para destruir a maior área de floresta. O caso ocorreu em Paranatinga, no Mato Grosso, estado que lidera o ranking de envenenamento da floresta.

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Caso milionário

Em janeiro de 2018 os fiscais do Ibama começaram a notar, via satélite, as primeiras clareiras na mata de Paranatinga. A fiscalização ocorreu oito meses depois, quando o estrago já estava feito. Na ocasião, encontraram três estradas recém abertas cortando a fazenda de 37 mil hectares, um grande estoque de sementes de pastagem, um avião que realizava a pulverização aérea e os agrotóxicos glifosato e 2,4-D – que estão entre os mais vendidos no Brasil.

Laudos realizados pelo Instituto também verificaram a presença do herbicida Alacloro, classificado moderadamente tóxico pela Anvisa e do inseticida Carbossulfano, classificado como altamente tóxico. Devido aos riscos, os dois são proibidos para uso em pulverização aérea.

(Foto: pixabay)

Pelo caso, o pecuarista Edio Nogueira, dono da Agropecuário Rio da Areia, foi multado em R$ 52 milhões por jogar agrotóxicos e assim destruir 23 mil hectares – 22 mil campos de futebol – de floresta. A sua fazenda, conhecida como Cristo Rei, fica em território tradicional indígena reivindicado na Justiça pela etnia Ikpeng. O grupo foi deslocado pelos irmãos Villas Boas na época da criação do Parque Nacional do Xingu, que fica a 18km do local. 

Edio Nogueira já é conhecido pelos fiscais do Ibama. Dono de sete fazendas espalhadas pelo Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, possui outras multas por desmatamento tanto por fogo quanto por uso de agrotóxicos – inclusive na própria fazenda Cristo Rei – somando mais de R$ 7 milhões em multas. 

Ouvida pela reportagem, Mariella Maccari, advogada que representa Nogueira na ação, confirmou que seu cliente provocou o desmatamento da área. “Por mais que ele tenha desmatado, ele tem a reserva legal dele conservada, inclusive a maioria [das suas propriedades] possui um superávit de reserva”.

No processo, porém, seus advogados negam o fato e tentam provar a inocência de Nogueira para retirar o embargo imposto à área. Um laudo apresentado por eles mostra que não foram encontrados resquícios de agrotóxicos e que a vegetação está preservada. Os advogados argumentam que o embargo está prejudicando o empreendimento, por isso deveria ser suspenso até a audiência de conciliação. Mas os negócios de Nogueira não estão parados. Com alguma frequência os gados da fazenda Cristo Rei são vendidos em leilões online.

Abertura de pastos e venda de madeira

Um ano após o ato criminoso em Paranatinga, uma área de cerca de 2 mil hectares da Floresta Amazônica também virou um campo aberto. O caso ocorreu em Juína (MT), a 745 km de Cuiabá.

Após fiscais do Ibama detectarem via satélite o desmatamento de uma grande área na cidade, fizeram uma vistoria no local e constataram a presença de resíduos de dois agrotóxicos: clorpirifós e tebuconazol, que podem ser utilizados em diversas culturas, inclusive, para a preservação de madeira. Ou seja, os venenos preservam a madeira para que seja vendida de modo ilegal. O clorpirifós foi banido nos EUA por estar associado a problemas de desenvolvimento neurológico, principalmente em crianças.

O Ibama embargou a área e aplicou uma multa de cerca de R$ 10 milhões a Edimilson Antonio Bravo, apontado pelo órgão como dono da área onde houve o desmatamento. Segundo fonte ouvida pela Repórter Brasil, Bravo é um grande empresário e fazendeiro da região, tendo como principais atividades a construção de pré-moldados e estruturas metálicas, a pecuária e a venda de madeira. A reportagem não encontrou informações oficiais sobre os seus negócios com a venda de madeira.

O advogado de Bravo é evasivo sobre as atividades de seu cliente. Por telefone, confirmou que ele é produtor agropecuário. “O tamanho, se ele é grande, médio, pequeno [produtor], se ele mexe com extração de madeira, esses detalhes eu não tenho”. Ele nega que seu cliente seja responsável pela área onde houve o envenenamento da floresta, afirmando que enviou as provas ao Ministério Público do Estado. Marcelo Linhares, promotor de justiça cível responsável pelo caso, porém, nega que as tenha recebido e diz que planeja entrar com uma ação civil pública contra o fazendeiro e enviar seu caso à promotoria criminal.

Segundo Linhares são poucas as autuações relacionadas a agrotóxicos em Juína, apesar de a pulverização aérea ser bastante comum na região.

Agrotóxico no arco do desmatamento

Essa é a primeira vez que se revela o número significativo de casos de agrotóxicos sendo usados para desmatar. Mas a relação entre o uso dessas substâncias e a destruição da floresta não é surpresa. O atlas Geografia da assimetria: o ciclo vicioso de pesticidas e colonialismo na relação comercial entre o Mercosul e a União Européia mostra o avanço das propriedades agrícolas que usam agrotóxicos na região da Amazônia Legal. As propriedades que mais usam pesticidas foram relacionadas com o avanço do desmatamento na região que é conhecida como “arco do desmatamento” na Amazônia.

A impunidade e a falta de fiscalização são motores desse avanço. Até hoje apenas 3 multas foram pagas das 14 aplicadas por desmatamento com uso de agrotóxicos. A expectativa é que a maioria nunca seja quitada. Via de regra no Ibama, quanto maior a multa, menor a chance de ser julgada e o pagamento acontecer. Um levantamento feito pela Universidade Federal do Paraná mostra que apenas 1 entre 28 multas do órgão com valor acima de R$ 1 milhão entre 2008 e 2017 foi paga.

“A expectativa é que o uso de agrotóxicos para desmatamento vai se intensificar no próximo período, porque está mais fácil, mais acessível e mais consolidado”, afirma Naiara Bittencourt, advogada do Terra de Direitos.

O estudo mostra ainda que há um vazio de fiscalização para agrotóxicos em regiões de grandes produtores, como Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais. As fiscalizações também não acontecem no mesmo ritmo do avanço das fronteiras agrícolas nas regiões Norte e Nordeste e dentro dos estados mais atuantes, Rio Grande do Sul e São Paulo, onde a fiscalização é altamente concentrada em municípios específicos. 

No Mato Grosso, primeiro do ranking denunciado pela reportagem e maior consumidor de agrotóxicos do Brasil, apenas 5 cidades têm bases do Instituto, além de 10 unidades de fiscalização da secretaria de meio ambiente estadual, muitas vezes comandada por suspeitos de infração ambiental.

Em 2005, a atual secretária do Meio Ambiente do Mato Grosso, Mauren Lazzaretti foi presa na Operação Curupira. Na época, ela trabalhava na antiga Fundação Estadual de Meio Ambiente. Sua prisão, revogada dias depois pela justiça, estava relacionada à investigação de crimes de corrupção envolvendo funcionários da pasta e foi considerada abusiva pela Ordem de Advogados do Brasil (OAB) no estado. Em 2016, Lazzaretti virou secretária adjunta de Licenciamento Ambiental no estado a convite do então secretário Carlos Fávaro, ex-presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Mato Grosso (Aprosoja). 

Para ela, as fiscalizações no estado são mais do que suficientes. “Eu não tenho que ter 500 pessoas, cada uma a um quilômetro para conseguir apurar uma infração. Além disso, todas as nossas autuações têm como insumo tecnológico as imagens [de satélite]”. 

Esta reportagem faz parte do projeto Por Trás do Alimento, uma parceria da Agência Pública e Repórter Brasil para investigar o uso de agrotóxicos. Clique para ler a cobertura completa no site do projeto.

compass

Este texto foi inicialmente publicado pela Repórter Brasil [Aqui! ].

Líderes da indústria do Reino Unido se unem para cortar das cadeias de abastecimento a soja ligada ao desmatamento e à conversão até 2025

  • Marcas líderes, incluindo Tesco, Nestlé Reino Unido e Irlanda, Sainsbury’s, Nando’s, KFC Reino Unido e Irlanda, Morrisons e McDonald’s Reino Unido e Irlanda, assinaram o Manifesto de Soja do Reino Unido
  • Compromisso significa que os signatários do Reino Unido se comprometem a comprar soja livre de desmatamento, protegendo florestas e valiosa vegetação nativa
  • Os signatários representam cerca de 60% de toda a soja comprada no Reino Unido a cada ano

Veterinarian giving granules to piglets

Hoje (9 de novembro de 2021), líderes da indústria do Reino Unido de 27 grandes empresas – todos os maiores varejistas de alimentos do Reino Unido (incluindo Tesco, Asda, Sainsbury’s, Waitrose, Marks & Spencer e Islândia), alguns dos maiores produtores de carne (incluindo Avara Foods, 2 Sisters Food Group, Cranswick, Pilgrim’s UK) e empresas e marcas de serviços alimentícios (como Danone UK e Irlanda, Nestlé UK e Irlanda, Nando’s, KFC UK e Irlanda e McDonald’s UK e Irlanda) uniram-se para assinar o Manifesto da Soja do Reino Unido. Isso os compromete a cortar o desmatamento e a destruição ambiental das cadeias de suprimento de soja do Reino Unido o mais rápido possível e até 2025, o mais tardar.

A fim de garantir um progresso rápido em direção a este objetivo, todos os signatários concordam em:
1. Estabelecer um compromisso robusto de desmatamento e livre de conversão – de modo que nenhuma soja que chegue ao Reino Unido seja responsável pelo desmatamento ambiental para a agricultura após janeiro de 2020

2. Pedir aos fornecedores diretos que adotem o mesmo compromisso – e exigir que os seus fornecedores também

3. Escrever os compromissos do Manifesto em contratos e apoiar os fornecedores para garantir que as metas sejam cumpridas

4. Compartilhar publicamente os detalhes de seu progresso

5. Apoiar relatórios aprimorados, a fim de verificar se a soja que chega ao Reino Unido não é responsável pelo desmatamento ou destruição de outros ecossistemas.

Os signatários incluem 27 marcas, varejistas, empresas de serviços de alimentação e produtores de gado que operam no Reino Unido, representando quase 2 milhões de toneladas de compras de soja a cada ano e mais da metade (quase 60%) do consumo total do Reino Unido.

A conversão de florestas e outros ecossistemas para a produção agrícola – incluindo a produção de soja, palma, carne bovina e madeira – é um dos principais contribuintes para as mudanças climáticas, além de impulsionar a perda de biodiversidade. Quase um quarto (23%) das emissões globais de gases de efeito estufa causadas pelo homem vêm da agricultura, silvicultura e outros usos da terra, e a maioria dessas emissões se deve ao desmatamento . Não precisa ser assim: commodities agrícolas e florestais podem ser cultivadas sem destruir ainda mais a vegetação nativa.

O consumo de soja do Reino Unido – 3,5 milhões de toneladas em 2020 – embora pequeno em termos globais, está contribuindo para a pressão sobre paisagens biodiversas como o Cerrado, a Mata Atlântica, o Gran Chaco e a Chiquitânia na América do Sul. O consumo de soja no Reino Unido em 2017 levou a um desmatamento estimado em 3.081 hectares, uma área duas vezes maior que a cidade de Londres. A soja é um dos principais contribuintes para o desmatamento e a pegada de conversão do Reino Unido hoje. A maior parte dessa soja é usada na forma de ração animal.

A indústria do Reino Unido já começou a tomar medidas para proteger as florestas e outros ecossistemas naturais, melhorando a transparência e o compartilhamento de informações em todas as cadeias de abastecimento de soja do Reino Unido e aumentando o uso de certificação para apoiar a produção de soja sustentável na América do Sul. Mas há um reconhecimento compartilhado da necessidade de tomar ações mais ambiciosas, mais rápidas e em grande escala. A transformação em escala não pode ser alcançada por empresas que trabalham apenas em suas cadeias de suprimentos individuais. As empresas em todas as cadeias de abastecimento, assim como os produtores de soja, devem assumir a responsabilidade e agir em conjunto.

Os mercados globais precisam fornecer incentivos financeiros e suporte técnico para impulsionar a produção sustentável. Os governos em países e regiões produtores e consumidores também têm um papel importante a desempenhar.

A indústria do Reino Unido dá as boas-vindas aos compromissos anunciados na COP 26 pelos governos produtores e consumidores de promover o desenvolvimento sustentável e o comércio, protegendo as florestas e outros ecossistemas críticos, por meio da Declaração dos Líderes de Glasgow sobre Florestas e Uso da Terra e a declaração conjunta e roteiro de ação do Diálogo sobre Florestas, Agricultura e Comércio de Commodities (FATO ).

O Manifesto da Soja do Reino Unido se alinha e se baseia em iniciativas semelhantes em outros mercados, como o Manifesto da Soja da França, para mostrar a crescente demanda e planos de ação da indústria para remover todo o desmatamento e destruição do ecossistema das cadeias de abastecimento da soja.

O CEO da Tesco, Ken Murphy, e a CEO do WWF-UK Tanya Steele, falarão no lançamento virtual formal do Manifesto de Soja do Reino Unido hoje, terça-feira, 9 de novembro, onde se juntarão a eles signatários, representantes da indústria e especialistas.

Ken Murphy, CEO da Tesco disse:

“A conversão de florestas e outros ecossistemas para a produção agrícola – incluindo a produção de soja – é um grande contribuinte para as mudanças climáticas, além de levar à perda de biodiversidade. A soja é a commodity de risco florestal de maior impacto da cadeia de suprimentos da Tesco. É por isso que já assumimos o compromisso de que até 2025 só compraremos soja de áreas inteiras verificadas como livres de desmatamento. Mas não podemos resolver esse problema por conta própria.

“O lançamento do Manifesto de Soja do Reino Unido é um marco crítico para a nossa indústria, reunindo marcas, varejistas, empresas de serviços alimentícios e produtores de gado que operam no Reino Unido e estabelecendo um compromisso claro para que todos os embarques físicos de soja para o Reino Unido sejam livres de desmatamento e conversão até 2025. “

Tanya Steele, Executiva Chefe do WWF, disse:

“Devemos acabar com o desmatamento e a destruição ambiental resultante da produção de soja com urgência se quisermos ter qualquer chance de limitar o aquecimento global a 1,5 ° C e reverter a perda da natureza. A indústria agora precisa intensificar sua ação e ambição para combater a devastação dos ecossistemas. O Manifesto da Soja do Reino Unido apresenta a chance de uma mudança real e todos os usuários de soja devem se comprometer com isso. Não esqueceremos aqueles que falharam em proteger nosso planeta. “

Marija Rompani, Diretora de Ética e Sustentabilidade, John Lewis Partnership disse:

“O lançamento do Manifesto de Soja do Reino Unido é uma conquista verdadeiramente histórica e uma clara declaração de intenções em toda a indústria do Reino Unido que a Waitrose tem o orgulho de apoiar. Proteger a natureza em regiões onde os produtos agrícolas são cultivados é fundamental se quisermos deter as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade. Mas a escala do desafio e da complexidade das cadeias globais de abastecimento da soja está além do que qualquer empresa sozinha pode resolver. Agindo em conjunto, as empresas no Reino Unido e mais amplamente podem atingir a massa crítica necessária para ajudar a transformar a maneira como a soja é cultivada e comercializada e permitir o fornecimento em escala de soja sem desmatamento.

Juntamente com outras iniciativas nacionais, legislação de due diligence e os compromissos sobre florestas anunciados por governos nacionais, o setor financeiro e traders de commodities agrícolas na COP26, temos esperança de que isso criará um verdadeiro ponto de virada para a natureza em ecossistemas preciosos como o Cerrado. Esperamos desempenhar um papel ativo na implementação do Manifesto da Soja do Reino Unido e cumprir sua meta de desmatamento e soja livre de conversão antes de 2025 “.

Paula MacKenzie, Diretora Administrativa, KFC UK&I disse:

“Temos que lidar com o desmatamento. É nossa responsabilidade gerenciar nossa cadeia de suprimentos, mas com a complexidade de distribuição e escala, será necessário mais do que apenas nossa influência para fazer a transição para a soja sustentável. É necessária a ação coletiva de toda a indústria alimentícia. É por isso que temos orgulho de ser signatários do Manifesto da Soja do Reino Unido e de colaborar para fazer um progresso real em conter e reverter o desmatamento. “

Paul Willgoss, Diretor de Tecnologia da Marks & Spencer Food, disse:

“A indústria global de alimentos se tornou excessivamente dependente da soja rica em proteínas e isso continua a impactar negativamente a natureza em lugares como a Amazônia brasileira. Na M&S, nossa prioridade é eliminar o desmatamento da produção de nossos produtos e nos comprometemos com 100% de nossa soja ser livre de conversão e proveniente de regiões verificadas livres de desmatamento até 2025.

“Queremos fazer nossa parte no apoio a uma ampla transição da indústria para um modelo mais sustentável de produção de soja que proteja a saúde de nosso planeta e esperamos trabalhar em estreita colaboração com outros signatários do Manifesto da Soja do Reino Unido para alcançar isso.”

Hannah Cornick, Chefe de Sustentabilidade e Inovação Social da Danone Reino Unido e Irlanda, disse:

“Acabar com o desmatamento impulsionado por commodities é vital para enfrentar a crise climática e preservar a biodiversidade, bem como proteger as comunidades em todo o mundo. Na Danone, temos o compromisso de garantir que toda a soja que compramos seja totalmente rastreável e não venha de zonas com risco de desmatamento. Nossos esforços para combater o desmatamento foram reconhecidos pelo CDP com uma classificação AAA.

A colaboração é essencial para impulsionar a ação necessária em todo o setor – e é por isso que compromissos coletivos como o anúncio de hoje são tão importantes. Relatórios abertos e transparentes também são essenciais à medida que continuamos a nos esforçar para ir mais longe e fazer mais pelas pessoas e pelo planeta. “

James McCulloch, chefe de alimentação da Agricultural Industries Confederation (AIC), disse:

“A Agricultural Industries Confederation (AIC), como representante da cadeia de fornecimento de ração animal do Reino Unido, apóia o Manifesto de Soja do Reino Unido em seu objetivo de promover uma transição para a produção e consumo sustentável de soja.

A cadeia de suprimentos de ração animal continuará desempenhando seu papel, ajudando a cumprir os objetivos do Manifesto. Continuamos convencidos de que a colaboração entre o mercado, o governo e outras partes interessadas pode garantir a proteção das florestas que são um recurso global vital. “

O governo do Reino Unido disse:

“O governo do Reino Unido dá as boas-vindas ao papel de liderança que as empresas britânicas estão assumindo para conduzir a transição para cadeias de abastecimento de soja sem desmatamento por meio do Manifesto de Soja do Reino Unido. Iniciativas como o manifesto podem complementar os esforços do governo para cumprir nossos objetivos climáticos e ambientais. “

Até o momento (9 de novembro de 2021), a lista completa de signatários do Manifesto do Reino Unido inclui:

• Sisters Food Group

• ABP UK

• Aldi GB

• Asda

• Avara Foods

• Co-op

• Cranswick Plc

• Danish Crown

• Danone UK and Ireland

• Dunbia

• Greencore Group Plc

• Hilton Food Group Plc

• Iceland Foods Ltd

• Kepak Group

• KFC UK & Ireland

• Lidl GB

• Marks and Spencer

• McDonald’s UK & Ireland

• Wm Morrison Supermarkets Plc

• Nando’s UK & Ireland

• Nestlé UK and Ireland

• Ocado

• Oscar Mayer

• Pilgrim’s UK

• Sainsburys

• Tesco Stores Ltd

• Waitrose & Partners

Para saber mais sobre a ação existente da indústria do Reino Unido sobre soja sustentável, visite:

     

Estudo mostra que soja embutida em produtos consumidos no Reino Unido pela abordagem florestal da Cargill

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Uma investigação realizada pelo Bureau of Investigative Journalism, Greenpeace Unearthed, ITV News e Daily Mirror encontrou ligações entre o desmatamento nos biomas Amazônia e Cerrado do Brasil e produtos lácteos britânicos. A trader de soja Cargill, a empresa europeia líder em nutrição animal ForFarmers e várias empresas de bens de consumo estão conectadas à cadeia de suprimentos do Grupo Scheffer, um agronegócio brasileiro com 224.000 hectares (ha) de terras aráveis. O Grupo Scheffer tem sido repetidamente vinculado a incidentes de danos ambientais em fazendas, incluindo a derrubada de faixas de vegetação do Cerrado e o uso de fogo para limpeza de terras.

A investigação revelou que fazendas do Reino Unido que fornecem leite e laticínios Saputo (proprietária da Dairy Crest com marcas de queijos bem conhecidas como Davidstow e Cathedral City Cheddar), Arla UK (parte de uma cooperativa multinacional dinamarquesa) e Cadbury UK (de propriedade da Mondelez International ) obtêm uma parte de sua ração para gado dos produtores de rações ForFarmers e Mole Valley Feeds. Esses produtores, por sua vez, compram soja brasileira exportada pela Cargill, que adquire soja do Grupo Scheffer.

A Cargill está ligada a eventos de desmatamento e incêndios em sua cadeia de suprimentos brasileira há algum tempo. Em março de 2021, a Chain Reaction Research informou que a Cargill tinha a segunda maior exposição ao risco de desmatamento no Cerrado em 2020 (depois da Bunge), totalizando 44.644 ha. Uma pesquisa anterior de CRR descobriu que a Cargill tinha um alto risco de sofrer incêndios dentro de suas zonas de compra potenciais. Como membro do Soft Commodities Forum (SCF), a Cargill e outros comerciantes se comprometeram com uma estrutura comum para relatar e monitorar o progresso na transparência e rastreabilidade de suas cadeias de suprimento de soja no Cerrado. No entanto, ainda não está claro como as promessas do SCF se relacionam com seus compromissos de excluir a conversão de toda a vegetação nativa do Cerrado e a implementação de mecanismos eficazes de não conformidade, inclusive em relação à conversão legal. Nenhum dos comerciantes incluídos na análise do CRR apoia o Manifesto do Cerrado, que prevê a suspensão do desmatamento e a perda da vegetação nativa no bioma. As políticas de desmatamento dos comerciantes podem ser insuficientes para mitigar o risco de desmatamento em suas cadeias de abastecimento.

A Arla e a Saputo apontam as suas compras de créditos de certificação para apoiar a produção de soja responsável. No entanto, os créditos adquiridos com a certificação da Mesa Redonda para a Soja Responsável (RTRS) ou do próprio esquema Triple S da Cargill não estão vinculados a suprimentos físicos. Também permitem a mistura de soja com produto de origem não certificada, o que pode estar vinculado ao desmatamento.

A Arla admitiu que “não monitora os fornecedores escolhidos por nossos proprietários agrícolas para seus negócios”. Portanto, não sabe de onde vem a soja em sua cadeia de abastecimento. Arla, Saputo e Mondelez International são empresas de bens de consumo (FMCGs) de rápido movimento. Este setor é um dos principais beneficiários dos lucros gerados na cadeia produtiva da soja. Esse padrão é muito semelhante à cadeia de lucro do óleo de palma . Na cadeia do óleo de palma, o FMCG e os setores de varejo (incluindo supermercados, serviços de alimentação e restaurantes fast-food) obtêm 66% dos lucros brutos e 52% dos lucros operacionais do óleo de palma incorporado. Essas empresas e seus financiadores enfrentam altos riscos financeiros pela não implementação e execução de políticas de desmatamento. Em particular, financiamento e risco de reputação pode custar-lhes até 30% do valor de sua empresa ou de mercado. Estabelecer a melhor política e execução de desmatamento zero da categoria, incluindo monitoramento / verificação, exigiria que essas empresas aumentassem os preços ao consumidor em menos de 2%.

A Cargill é uma empresa privada não listada, mas muitas instituições financeiras estão envolvidas no financiamento de dívidas e emissão de títulos para suas atividades de soja na América Latina. Os principais credores em seu financiamento à soja são BNP Paribas, Itaú Unibanco, JP Morgan Chase, Bank of America e Deutsche Bank. Entre os principais investidores em títulos da Cargill estão Prudential Financial (EUA), Metlife, AIG, Nationwide Mutual Insurance e Wellington Management. Vários deles adotaram políticas de desmatamento zero e têm amplos motivos para se envolver com a Cargill. Dos produtos de dívida identificados e ajustados, 27% vieram de instituições financeiras da União Europeia (UE). As instituições da UE estão cada vez mais expostas a regulamentações financeiras sustentáveis ​​(como o SFDR) e também terão que enfrentar a regulamentação da UE sobre a devida diligência na cadeia de abastecimento (2022).

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela Chain Reaction Research [Aqui!].

Sacrifício para o agronegócio: Caatinga, floresta rica em biodiversidade, está em chamas por causa da expansão da soja

soja bahiaMonocultivo de soja na Bahia deve enriquecer ainda mais as empresas

Por Norbert Suchanek, Rio de Janeiro, para Junge Welt

Quando se trata de destruição natural no Brasil, geralmente é a Amazônia. Outro desastre está ocorrendo atualmente no país, mas desta vez no Nordeste. Afetada é a Caatinga, a floresta seca rica em espécies do Brasil, que pode resistir a longas secas, mas não provocou incêndios intencionalmente. Está em chamas desde o início de 2021. O Instituto Brasileiro de Pesquisas Espaciais (INPE) contabilizou 3.040 focos de fogo em meados de agosto, mais de 160 por cento a mais do que no mesmo período do ano anterior.

Com uma área de cerca de 850 mil quilômetros quadrados, a Caatinga é o quarto maior bioma do Brasil, mas quase não é protegida. Como ecossistema de floresta natural no semi-árido nordestino, se estende por dez estados. Seu nome significa “floresta branca” como realmente aparece durante os meses de seca. Assim que chove, porém, a caatinga fica verde. Mais da metade desse ecossistema endêmico que só ocorre no Brasil já foi devastado ou convertido em monoculturas. Apenas 2% da caatinga está sob proteção da natureza.

Neste ano, as operações legais e ilegais de corte e queima se concentram no oeste do bioma – no Piauí e na Bahia, onde o cerrado, cada vez mais destruído para o cultivo da soja em grande escala, se transforma em caatinga. Os dois estados fazem parte da frente do agronegócio Matopiba, que também inclui os estados do Maranhão e Tocantins. Desde o início de 2000, com o apoio do Estado brasileiro e de investidores internacionais, as áreas de cultivo de monoculturas de soja vêm se expandindo às custas do cerrado.

De acordo com os últimos dados da Mapbiomas, rede de cientistas, instituições de pesquisa e organização de proteção ambiental que monitora os biomas brasileiros, um total de 61.373 hectares de floresta seca no Nordeste foram destruídos em 2020. A maior área, 32.956 hectares, foi perdida na Bahia.

Além do Matopiba, outra frente agrícola ameaça o Nordeste desde 2015. A Embrapa, agência estadual de desenvolvimento agrícola do Brasil, deu o nome de “Sealba” em homenagem aos estados afetados de Sergipe, Alagoas e Bahia. A região com área superior a cinco milhões de hectares possui condições edafoclimáticas favoráveis ​​e grande potencial para se tornar uma área de grande importância agrícola, principalmente para o cultivo industrial de soja e milho, segundo os engenheiros agrônomos da Embrapa . O agronegócio aqui está de olho sobretudo nos Tabuleiros Costeiros, planaltos litorâneos do Nordeste. Devido às monoculturas, os preços da terra na região aumentaram dramaticamente. Segundo o canal Canal Rural , eles aumentaram vinte vezes desde 2010.

Se você não consegue acompanhar, você tem que ceder. Criadores de gado deslocados e famílias de pequenos agricultores se deparam com a opção de abrir novas áreas na Caatinga ou ingressar no exército de desempregados das cidades.

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Este texto foi escrito inicialmente em alemão e publicado pelo jornal “Junge Welt” [Aqui!].

Plano de logística pressiona ainda mais a Amazônia, mostra apresentação do IEMA

Evento promovido pelo GT Infra aponta a falta de análises de alternativas no Brasil

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André Ferreira, do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), Bruno Martinello Lima, do Tribunal de Contas da União (TCU) e Edinho Bez, diretor de relações institucionais da Frente Parlamentar de Logística, mediados por Sérgio Guimarães, do GT Infraestrutura, e em evento promovido pelo grupo de trabalho da sociedade civil debateram o Plano Nacional de Logística – PNL 2035. O evento online aconteceu na quarta-feira (15) com o objetivo de discutir a proposta e refletir sobre como ela se encaixa numa estratégia mais adequada para que a logística nacional melhor atenda ao interesse da sociedade.

Veja o evento na íntegra: https://www.youtube.com/watch?v=I_Ko7kaDa6Q 

“O plano em discussão pública não identifica quais serão os problemas de logística do futuro”, André Ferreira, diretor-presidente do IEMA, alertou durante o evento. No início deste ano, a Empresa de Planejamento e Logística S.A. (EPL) e o Ministério da Infraestrutura (MInfra) realizaram a consulta pública do PNL 2035. Este seria o objeto central do planejamento de transporte de cargas e se configura como um dos instrumentos da Política Nacional de Transportes, ou seja, o documento é estratégico para definir o futuro da infraestrutura voltada à circulação de mercadorias no país. Porém, falta análise de alternativas para o transporte de cargas no Brasil no plano apresentado.

Antes de tudo, vale ressaltar que o transporte de cargas no país merece atenção especial com relação ao meio ambiente e às fragilidades sociais por diversos motivos. Alguns deles: as exportações dependem do transporte interno para serem enviadas para demais países e populações locais podem ser afetadas por ele, as economias locais podem ser incentivadas – ou não – de acordo com os planos apresentados, novas obras podem gerar mais desmatamentos ou conflitos por terras e nem sempre populações locais participam do processo decisório da instalação de novas obras para discutir os impactos em seus modos de vida.

Fragilidades do PNL 2035

Durante o encontro, André Ferreira apresentou diversas fragilidades do PNL 2035 e também oportunidades de melhorias que poderiam ser agregadas pelo governo federal, para que ele sirva à população em geral. O PNL 2035 considera, além dos projetos contratados “sem novos investimentos”, projetos que foram apresentados e ainda estão em fase de apreciação. O plano inclui até projetos sem licenciamento ambiental. Outro ponto é que não há uma identificação objetiva dos pontos críticos da infraestrutura de transportes – como rodovias, ferrovias e portos – que deverão estar saturados em função do crescimento projetado na circulação de mercadorias.

“Não conseguimos entender os critérios adotados para optar enfrentar um problema e não outro”, ressalta Ferreira. Por exemplo, o PNL 2035 prioriza granéis sólidos – como soja, milho e minério de ferro – em detrimento de outros produtos, mas não apresenta estudo do porquê dessa ação. “Parece que só se dá por pressão política e empresarial, se afastando de boas práticas. As demandas do mercado são legítimas, a dúvida é como isso passa por fundamentação técnica”, afirma Ferreira.

Soja, milho e companhia

Os estados de Mato Grosso e Goiás, de acordo com projeções, serão responsáveis por metade da ampliação da circulação de granel sólido no país. Desse modo, o escoamento da mercadoria do Centro-Oeste, sem dúvida, é algo a ser avaliado. Para isso, é necessário explicitar quais as alternativas para resolver o problema. “Se escoar os grãos do Centro-Oeste é um problema colocado no Plano, é preciso discutir as alternativas de escoamento da mercadoria para os portos de exportação do futuro”, diz Ferreira. Isto é, é necessário apresentar uma comparação das alternativas existentes para apontar qual alternativa e sob quais aspectos é mais adequada que outra. “Isso não é tratado no Plano de Logística. A rigor não é feita uma análise de alternativa”, completa.

O gráfico da esquerda mostra por onde, atualmente, os grãos são mais escoados: Santos (SP) e São Luís (MA). O cenário previsto pelo PNL 2035, à direita, reduz a carga exportada pelos portos de Santos e de São Luís, mesmo com a ampliação da rodovia e com o aumento da produção e da exportação de granéis sólidos. Há também uma redução da saída rodoviária que leva ao porto de Belém (PA) e via BR-364. O escoamento de soja passaria a se concentrar na Bacia do Rio Tocantins, via Ferrogrão, e através das ferrovias FICO e FIOL, saindo pelo porto de Ilhéus (BA). Dessa maneira, futuramente a carga estaria saindo dos três principais eixos existentes para ser transportada em outros em construção. 

“A pergunta que fica é: o PNL 2035 não precisaria ter cenários concorrentes, alternativos?”, questiona Ferreira. Isso porque novas obras e acréscimo na passagem de cargas aumentam a pressão por locais já socioambientalmente sensíveis. Deveria-se estudar novos cenários de acordo com diretrizes ambientais, sociais e custos econômicos. “Não existe cenário comparativo, na verdade, está em disputa a carga do Centro-Oeste por três ferrovias e Ilhéus”, afirma o diretor-presidente do IEMA. “Um local tão sensível, como a Amazônia, parece ser o suficiente importante para justificar o porquê não temos análises de outras saídas”, diz.

Recomendações ao PNL 2035

Ao final da fala, André Ferreira apresentou recomendações para o aperfeiçoamento da política e planejamento do PNL 2035: a EPE tem conhecimento técnico, dados e ferramentas para produzir e testar cenários de infraestrutura concorrentes previamente à definição de portfólios de projetos; elaborar avaliação ambiental estratégica; institucionalizar o processo decisório, garantindo a vinculação técnica entre todas as suas etapas e fases de forma a manter a aderência das ações às políticas públicas e adoção de boas práticas técnicas; garantir para cada etapa do processo decisório, ampla e adequada participação da sociedade. 

Consultas e discussões com a sociedade, principalmente com as comunidades afetadas, melhoraram os projetos e diminuem o tempo de implementação de novas propostas. É do processo civilizatório a evolução no debate com a sociedade. Enquanto a inclusão da sociedade na discussão é ignorada, a sociedade civil fica com o papel de tentar combater problemas já colocados. “Estamos falando de três dimensões: econômica, ambiental e ética”, completa Ferreira.

Impacto do transporte de cargas no Brasil

O Instituto de Energia e Meio Ambiente desenvolveu, em 2020, estudos para debater e fortalecer a capacidade de organizações da sociedade civil atuantes na Amazônia Legal com relação ao impacto do transporte de cargas na região. Entre eles, foi feito: o rastreamento dos projetos infraestrutura de transportes de carga previstos na Amazônia Legal e seus drivers político-econômicos; mapeamento do cenário tendencial do desenvolvimento do transporte de carga na Amazônia e possíveis riscos socioambientais decorrentes; mapeamento de fragilidades e oportunidades de aperfeiçoamento do arcabouço institucional, legal e normativo dos processos nacionais de tomada de decisão sobre transporte de carga.

Infelizmente, o resultado das análises mostrou que a maior parte dos projetos de infraestrutura de transporte de cargas propostos no âmbito do governo federal têm sido concebidos para estruturar corredores de transportes que reforcem a tendência recente de exportação de soja e milho pelos portos do chamado Arco Norte, ou seja, pela Amazônia Legal. O que deve impactar negativamente o meio ambiente e a qualidade de vida dos moradores da região, já que as obras tendem a intensificar a pressão por desmatamento e o valor agregado das mercadorias costuma não ficar para a população local.

Vaca louca em Minas e Mato Grosso, soja proibida na França: uma tempestade perfeita se arma no horizonte do agronegócio

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Dois fatos aparentemente desconectados sinalizam que problemas colossais estão se levantando no horizonte para o agronegócio brasileiro.  O primeiro fato foram os casos do chamado “Mal da Vaca Louca em frigoríficos de MG e MT que já tiveram como resultado a suspensão da exportação de carne bovina brasileira para a  China.  E essa suspensão traz impactos imediatos para o setor, visto que a China é o principal mercado consumidor da carne brasileira. O segundo fato foi o anúncio feito pelo presidente da França, Emmanuel Macron, O presidente da França, Emmanuel Macron, de que seu país não importa mais soja que seja fruto do desmatamento, “sobretudo na Amazônia”.  Essa declaração foi dada durante discurso no evento World Conservation Congress, em Marselha, deixando claro que a França segue sendo um forte entrave para a concretização do acordo comercial entre União Europeia e Mercosul.

Pode ser uma imagem de texto que diz "Macron: Macron: França não importa mais soja fruto do desmatamento, sobretudo da Amazônia Época NEGÓCIOS Da redação de Época Negócios Há 22 horas"

Quando colocados juntos esses dois fatos evidenciam algo que já deve estar claro para os líderes do latifúndio agro-exportador que as ações de desmantelamento das estruturas de comando e controle, que geraram a condição rotulada pelo ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, de “deixar a boiada passar” na área ambiental, estão finalmente sendo respondidas pelos principais parceiros comerciais do Brasil com barreiras comerciais, estejam elas na forma de impedimento sanitários ou simplesmente nos de natureza política.

Com isso, ainda que setores do chamado agronegócio estejam ainda firmes no barco presidencial tocado erraticamente pelo presidente Jair Bolsonaro, o mais provável é que os principais “players” do setor estejam já preparando para colocar seus tratores e colheitadeiras em outro barco, de modo a garantir que os problemas que estão aparecendo não sejam agravados.

Por isso, por mais ruidosos que sejam os atos convocados para o dia 7 de setembro, o presidente Jair Bolsonaro está sendo colocado diante de uma tempestade perfeita, pois ele não terá muita sobrevida se for abandonado pelo agronegócio, visto o peso da bancada ruralista no congresso nacional.  O problema é que para desarmar essa tempestade ele terá que adotar posturas que vão totalmente de encontro ao que Bolsonaro tem vocalizado ao longo de mais de 30 anos de atuação partidária.

Incêndios são detectados em fazenda operada pela maior produtora de soja do Brasil

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Fogos ativos foram detectados na Fazenda Perdizes no dia 24 de agosto de 2021 em Porto dos Gaúchos, Mato Grosso. A propriedade pertence e é operada pela SLC Agrícola , maior produtora de soja do Brasil. A Fazenda Perdizes consiste em áreas mantidas sob a propriedade da SLC Agrícola e por meio de joint ventures com outras empresas. Os incêndios detectados recentemente caem na parte da Fazenda Perdizes que a SLC Agrícola possui. Uma análise anterior realizada pela Aidenvironment, parceira do CRR, no início da temporada de incêndios de 2021, detectou outro incêndio na propriedade da SLC Agrícola na Fazenda Palmeira. O atual incêndio na Fazenda Perdizes mostra as conexões contínuas da empresa com o desmatamento para desenvolvimento e expansão de terras agrícolas.

A Fazenda Perdizes possui uma área total de 43.123 hectares (ha), dos quais 26.295 ha consistiam de área de cultivo durante a safra de 2019/20. A Figura 1 mostra a parte da Fazenda Perdizes operada e de propriedade integral da SLC Agrícola que contém aproximadamente 5.840 ha de reserva legal. Os incêndios ativos detectados em 24 de agosto estão dentro da área de reserva legal (Figura 2). De acordo com o Código Florestal Brasileiro, essa área deve permanecer intacta e coberta com vegetação nativa.

Figura 1. Parte da Fazenda Perdizes operada e de propriedade integral da SLC Agrícola em Porto dos Gaúchos, Mato Grosso, Brasil

Nota: A área verde é Reserva Legal

Figura 2:  Incêndios detectados em 24 de agosto na Reserva Legal de uma parcela da Fazenda Perdizes operada e de propriedade integral da SLC Agrícola em Porto dos Gaúchos, Mato Grosso, Brasil

Nota: A fumaça dos fogos ativos é visível na parte central e sul da fazenda. As molduras do lado direito mostram o zoom para os incêndios e fumaça.

Fogos ativos adicionais foram detectados no dia 29 de agosto ainda na reserva legal da Fazenda Perdizes (Figura 3). Alertas de desmatamento do GLAD na mesma área sinalizaram possível desmatamento.

Figura 3. Fogos detectados em 29 de agosto na Reserva Legal de uma parcela da Fazenda Perdizes operada e de propriedade integral da SLC Agrícola em Porto dos Gaúchos, Mato Grosso, Brasil

Fonte: CRR monitora o desmatamento pelos principais desmatadores, como SLC Agricola, por meio do conjunto de dados geoespaciais internos do parceiro CRR Aidenvironment. Os analistas de ambiente identificam pontos críticos de desmatamento e rastreiam alertas de incêndio para cadeias de suprimentos de commodities com base em dados da empresa, registros públicos e conjuntos de dados de parceiros locais. Nota: A fumaça dos fogos ativos move-se para as áreas próximas da parte central e sul da fazenda.

Em março de 2021, a SLC Agrícola informou que deixará de converter novas áreas em todas as suas propriedades após a safra deste ano. O compromisso anterior da SLC Agrícola de deter o desmatamento do Cerrado em setembro de 2020 também levou à continuação do desmatamento, apesar de sua promessa de desmatamento zero. Conforme relatado pela CRR , a empresa foi a maior desmatadora no Cerrado em 2020, e seus maiores compradores incluem Cargill, Bunge e Amaggi (uma joint venture entre Louis Dreyfus, Grupo Amaggi e Zen-Noh). Todos os três têm compromissos de desmatamento zero e estão expostos ao risco de desmatamento devido às relações comerciais contínuas com a SLC Agrícola. A Cargill em particular enfrentou pressão comercial sobre seu papel no desmatamento no Brasil. Em julho de 2020, a Cargill declarou publicamente   que “o início deliberado de incêndios na Amazônia é inaceitável”. Os incêndios contínuos e o desmatamento violam os compromissos de desmatamento zero dos clientes da SLC Agrícola e de grande parte das indústrias que consomem soja.

A SLC Agrícola é financiada principalmente por investidores brasileiros e bancos com baixa pontuação em políticas ESG, de acordo com a Forests & Finance . Os grandes investidores são Odey Asset Management (US $ 49 milhões), Bradesco, Vanguard, Grupo XP e BlackRock. Grandes credores incluem Itaú Unibanco (US $ 13 milhões) e BNDES. Em 18 de junho de 2021, a SLC anunciou a parceria com o Rabobank em empréstimo de R $ 200 milhões vinculado às metas de sustentabilidade da empresa. O CRR manteve discussões com o Rabobank sobre este empréstimo. As metas e KPIs deste empréstimo para redução das emissões de carbono “referem-se à própria meta comunicada publicamente da SLC Agrícola de reduzir as emissões de carbono escopo 1 e 2 em 25 por cento em 2030, mas com um horizonte de tempo mais curto. Isso inclui o uso da terra e a mudança no uso da terra, e seguirá o GHG Protocol ”, de acordo com o Rabobank. Os dados atuais de incêndio analisados ​​nesta Rede parecem estar em conflito com as políticas de desmatamento do Rabobank , o que pode gerar engajamento.

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela Chain Reaction Research [Aqui!].

Operação financeira com a agropecuária BrasilAgro coloca em xeque compromisso verde do banco suíço UBS

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  • Apesar de sua retórica de sustentabilidade, o banco suíço UBS financiou a polêmica incorporadora de terras BrasilAgro com uma emissão de títulos que arrecadou US $ 45,5 milhões. A operação faz parte de uma estratégia mais ampla para lucrar com o agronegócio brasileiro, que inclui a consolidação de uma joint venture com o banco brasileiro.
  • A BrasilAgro é supostamente responsável pelo desmatamento de quase 22.000 hectares (54.000 acres) de vegetação nativa em suas fazendas na região do Cerrado do Brasil e foi multada em US $ 1,1 milhão pela agência de proteção ambiental do Brasil por desmatamento ilegal.
  • O produto financeiro escolhido para arrecadar dinheiro para a BrasilAgro, um CRA ou “certificado de recebíveis do agronegócio”, é lastreado em safras futuras e tem sido uma ferramenta favorita usada para levantar quantias recorde de dinheiro no mercado de capitais para as empresas do agronegócio brasileiro nos últimos anos. .
  • Embora haja esperança de que os CRAs possam apoiar práticas sustentáveis ​​no Brasil, os dados financeiros analisados ​​pela Mongabay mostram que as maiores emissões nos últimos meses foram todas para empresas altamente polêmicas como BrasilAgro, JBS e Minerva.
Por Fernanda Wenzel e Olivier Christe para o Mongabay News

Um lucro de mais de 400%. Foi isso que a BrasilAgro obteve em um de seus primeiros empreendimentos. A empresa comprou a fazenda Cremaq em 2006, pagando 42 milhões de reais (US $ 8 milhões) por uma fazenda de 32.700 hectares (80.800 acres) no estado do Piauí, no nordeste do Brasil.

Em seguida, gastou outros 22,6 milhões de reais (US $ 4,3 milhões) para iniciar o cultivo da soja para incentivar os compradores em potencial. A fazenda foi dividida em duas e vendida entre 2013 e 2015 por um valor combinado de 307,4 milhões de reais ($ 58,4 milhões). Mas a consequência desse lucro foi o desmatamento, a perda de água subterrânea e a expulsão de comunidades locais no Cerrado, um dos hotspots de biodiversidade mais importantes do mundo.

“Eu a defino como uma empresa que transforma terras nativas ou subutilizadas em ativos financeiros”, diz Rodrigo Cavalcanti do Nascimento, doutor em geografia. que investigou a BrasilAgro para sua tese.

Em maio, o banco suíço UBS atuou como coordenador de uma operação financeira que arrecadou 240 milhões de reais (US $ 45,5 milhões) para a empresa . A BrasilAgro é apenas uma peça da estratégia maior do UBS para lucrar com o agronegócio brasileiro . Para atingir seu objetivo, firmou parceria com o Banco do Brasil, maior financiador do agronegócio do mundo , para a formação de uma joint venture: o Banco de Investimentos UBS BB.

ubs 1Terras agrícolas da BrasilAgro. As consequências dos lucros da BrasilAgro incluem desmatamento, perda de água subterrânea e a expulsão de comunidades locais no Cerrado de alta biodiversidade. Imagem da BrasilAgro via Facebook .

Desmatamento de florestas e despejo de comunidades

Em seu site , a BrasilAgro se descreve como “uma das maiores empresas brasileiras em [termos de] quantidade de terras agricultáveis”, com 22 fazendas no Brasil, Paraguai e Bolívia. O núcleo de seu negócio é a “identificação, aquisição, desenvolvimento e exploração de imóveis rurais com alto potencial de valorização”, que comercializa “ao julgarmos que o valor dos imóveis rurais oferece o retorno esperado”.

O braço de “desenvolvimento” do negócio, segundo Nascimento, está focado em derrubar e queimar a vegetação nativa, preparar a terra para plantações como soja, cana-de-açúcar, milho ou pasto para gado, e criar infraestrutura como galpões e estradas internas. Antes da revenda do terreno, esses bens são comercializados por meio de firmas de commodities como Bunge, Cargill, Amaggi, Glencore e a processadora de carnes JBS.

No mês passado, reportagem da Agência Pública revelou como investidores, incluindo fundos de pensão americanos e um gigante do agronegócio argentino, podem estar ligados a negócios ilegais de terras e ao desmatamento na região do Cerrado por meio de suas participações na BrasilAgro.

A maior parte das propriedades da BrasilAgro fica na região do Matopiba , fronteira agrícola aberta para exploração na década de 1980 e que se estende pela fronteira entre os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia no norte e nordeste do Brasil. Todos os 10 municípios com as maiores taxas de desmatamento no Cerrado estavam no Matopiba em 2021, de acordo com o INPE , o órgão federal que monitora o desmatamento no Brasil.

Quase metade da savana do Cerrado do Brasil, que abriga as nascentes de oito das 12 bacias hidrográficas do Brasil , incluindo a Amazônia, já foi perdida para plantações e pastagens.

A BrasilAgro é acusada por órgãos governamentais e organizações sem fins lucrativos de compartilhar a responsabilidade pela deterioração do Cerrado. Chain Reaction Research, um think tank com foco em commodities, diz que a empresa é responsável pelo desmatamento de quase 22.000 hectares (54.000 acres) de vegetação nativa de 2012-2017. A BrasilAgro também foi multada em 5,9 milhões de reais (US $ 1,1 milhão) pelo órgão de proteção ambiental, IBAMA, por desmatamento ilegal em uma área protegida no estado de Goiás.

Nascimento visitou três fazendas da BrasilAgro na Bahia em 2018. Próximo à fazenda Chaparral, no município de Correntina, ele encontrou a comunidade Capão do Modesto, que estava expulsa de sua casa original e vivia em condições precárias. “Essas empresas impactam indiretamente essas comunidades, estimulando outras empresas a comprar áreas e promovendo a concentração da terra nas mãos de poucas pessoas”, disse ele à Mongabay em uma vídeo chamada.

“Perto de uma propriedade da BrasilAgro havia algumas nascentes, e agora você vê a desertificação total. Você vê pivôs centrais gigantes, que são equipamentos para irrigar as plantações, sugando o lençol freático. ”

Terras como ativo financeiro

A BrasilAgro foi criada em 2005 e prosperou em meio à rápida financeirização das terras no Brasil após a crise econômica de 2008. “Embora os preços das commodities estivessem caindo no Brasil após a crise, o preço da terra não parava de subir. Aconteceu porque as empresas estão exigindo áreas para investir e não necessariamente para produzir ”, diz Fábio Pitta, professor da Universidade de São Paulo (USP) que há anos pesquisa o papel do investidor estrangeiro na destruição do Cerrado.

Apesar do nome, a BrasilAgro é controlada pelo grupo agroindustrial argentino Cresud, que detém cerca de 33% de suas ações. Este fato gerou outro problema judicial para a empresa, pois a legislação brasileira restringe a propriedade de terras por entidades estrangeiras.

Segundo Nascimento, o Cresud foi o pioneiro do modelo “terra como ativo financeiro” na América do Sul na década de 1990. No Brasil, fez parceria com Elie Horn, um dos mais influentes empresários imobiliários urbanos do país e dono da Cyrela, incorporadora e construtora de imóveis residenciais.

Quando a BrasilAgro foi listada na bolsa de valores B3 de São Paulo em 2006, deu uma ideia de como o futuro do negócio se tornaria promissor.

“Naquela época, a Brasilagro ainda não tinha ativos [terras]. Só tinha uma ideia, que era a comercialização e exploração de terras agrícolas. Mesmo assim, o IPO arrecadou mais de 550 milhões de reais ”, diz Nascimento, ou cerca de US $ 105 milhões na época. Seis anos depois de ter colocado suas ações no mercado, em 2012, a empresa seria listada na Bolsa de Valores de Nova York, tornando-se a primeira agropecuária brasileira em Wall Street .

Em declaração à Mongabay, a BrasilAgro disse que “todas as operações da empresa são realizadas dentro da lei” e que “qualquer declaração diferente desta é caluniosa e difamatória”. Segundo a empresa, o relatório da Chain Reaction Research não afirma que o desmatamento dentro de suas fazendas foi ilegal. Sobre a ação do IBAMA, a BrasilAgro disse “não se trata de atividade desenvolvida pela empresa” e que em primeira instância determinou o cancelamento da multa e do auto de infração. O IBAMA apelou da decisão.

ubs 2Desenvolvimento do portfólio de terras da BrasilAgro. Fonte: Pesquisa de reação em cadeia

Requisitos de sustentabilidade flexíveis

O negócio da BrasilAgro foi precedido por uma flexibilização dos critérios de exclusão ambiental do UBS. Até o final de abril, a regra era que todas as empresas financiadas no setor de soja deveriam ser certificadas pela  Mesa Redonda sobre Soja Responsável (RTRS) e “não estar sujeitas a críticas públicas não resolvidas pela RTRS”. Mas em 1º de maio, o UBS publicou novos critérios declarando que as empresas não precisavam mais ser certificadas, mas apenas “se comprometem de forma confiável com a RTRS ou um padrão semelhante”. Dois dias após a diluição total dos critérios de exclusão do UBS para o financiamento da soja, em 3 de maio, ocorreu o financiamento da BrasilAgro, que não faz parte da RTRS.

O negócio com a BrasilAgro também se destaca pela ferramenta financeira utilizada. O CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio) é o chamado produto financeiro estruturado: no caso, um título que aposta especulativamente no preço futuro da commodity. Normalmente, isso significaria que o investidor não sabe quanto receberá ao final do investimento. O CRA, no entanto, é estruturado de forma que os investidores recebam uma remuneração regular além de seu aporte inicial. Parece complicado, mas “nada mais é do que [um] papel que diz: ‘Estou emprestando dinheiro para uma empresa que vai produzir algo e depois me devolverá com juros’”, segundo Pitta da USP.

Tomemos, por exemplo, um agricultor ou uma cooperativa que vende sua colheita com antecedência, antes mesmo da semente ser semeada. Eles emitem uma promessa de entrega em sua safra futura e, com essa garantia, vão para uma securitizadora que cria – geralmente com a ajuda de um banco de investimento – um CRA. Esse título é vendido no mercado de capitais aos investidores, para que o agricultor não precise esperar a colheita para receber seu dinheiro.

Esse seria um caso “clássico” de CRA. As empresas brasileiras, porém, estão inovando.

A BrasilAgro, por exemplo, tem garantido seus CRAs com debêntures, que são dívidas próprias. “É muito louco se você pensar que está respaldando uma dívida com outra dívida. Mas isso é muito comum no setor do agronegócio. Ela troca uma dívida mais cara por uma dívida mais barata, porque o CRA é isento de impostos, a debênture não. O CRA atrairá mais investidores ”, diz Pitta.

Carlos Augusto Lopes, CEO da Uqbar, um think tank brasileiro de finanças estruturadas, diz que os CRAs podem ser uma boa opção de financiamento para um grupo de pequenos agricultores. A realidade, porém, é que tem sido utilizado principalmente por empresas multinacionais.

“Quem na verdade está aproveitando esse mecanismo hoje são as grandes empresas por meio de debêntures, mas esperamos que esse mercado cresça na pequena e média [agricultura]”, disse ao Mongabay em vídeo chamada.

No caso de empresas como a BrasilAgro, o objetivo da emissão de CRAs é liberar caixa para comprar mais terras e repetir o processo. “Eles ampliam suas propriedades com a promessa de vendê-lo no futuro”, diz Nascimento.

Acumular dívidas sobre dívidas é uma questão de sobrevivência para as empresas do agronegócio. Como seus contratos são baseados no preço da commodity no mercado futuro, quando o preço sobe, a dívida também sobe. Segundo Pitta, é uma “corrida pelo endividamento”, que resulta na necessidade constante de exploração de novas áreas para lavouras.

“A empresa acaba contratando uma dívida que, para pagar, precisa produzir uma quantidade maior de soja do que poderia no momento em que contratou a dívida. Mas só funciona enquanto os preços estão subindo. Depois que a bolha estourou, ele diz, “todo mundo está endividado e muitos estão falidos”.

Futuro brilhante para um instrumento obscuro

Os CRAs foram emitidos pela primeira vez em 2009, mas têm crescido em popularidade nos últimos anos. Um fator é a força do agronegócio brasileiro, que respondeu por mais de um quarto do PIB nacional em 2020 e foi uma das poucas áreas econômicas que cresceu durante a pandemia. Ao mesmo tempo, os bancos públicos – que sempre foram os principais financiadores do setor – não estão mais atendendo à demanda. “Temos que encontrar fontes alternativas de financiamento e o mercado de capitais é uma saída natural”, diz Augusto Lopes.

Houve um número recorde de CRAs emitidos no ano passado no Brasil, no valor de 15,81 bilhões (US $ 3 bilhões), e parece que esse recorde será quebrado novamente este ano, já tendo atingido dois terços do recorde de 2020 até julho. O futuro parece brilhante, ainda mais desde que o Congresso aprovou um projeto de lei em abril do ano passado que permitia a emissão de CRAs em dólares, tornando-os mais atraentes para os investidores estrangeiros. “Estamos muito otimistas com esse mercado, que deve continuar crescendo fortemente nos próximos anos”, diz Augusto Lopes.

De acordo com uma revisão dos dados financeiros da plataforma Refinitiv, os CRAs são coordenados principalmente por bancos brasileiros. Dos bancos não brasileiros, no entanto, o UBS é de longe o mais ativo. Desde o início de sua joint venture com o Banco do Brasil em outubro passado, coordenou a emissão de sete CRAs no valor total de quase 2 bilhões (US $ 380 milhões). Outros clientes foram a empresa de bioenergia Tereos Açucar e Energia e o gigante da soja Grupo Scheffer .

O Grupo UBS não respondeu às perguntas do Mongabay sobre o impacto ambiental da BrasilAgro ou sobre seu papel no apoio aos CRAs. Com relação aos seus padrões ESG, a organização disse que irá “revisar e adaptar continuamente nossas diretrizes e padrões onde acharmos necessário”.

Risco de lavagem verde

Tanto o WWF Brasil quanto o Climatebonds veem grandes oportunidades nos CRAs para apoiar o agronegócio sustentável no Brasil. Eles apontam para a capacidade dos CRAs de vincular o agronegócio brasileiro a investidores internacionais, o que por sua vez “criou uma enorme demanda por títulos verdes”.

A realidade, entretanto, parece diferente. Não só o negócio com a BrasilAgro foi altamente polêmico, mas um olhar mais atento aos CRAs emitidos nos últimos meses mostra que os maiores vieram principalmente do setor de carne bovina, com os frigoríficos JBS, Minerva e Marfrig no topo da lista. Juntos, os três maiores frigoríficos do Brasil, eles cuidam de mais de 40% do abate de todo o gado na Amazônia. Segundo o Imazon, um instituto de pesquisas, a JBS é a que mais corre o risco de desmatamento em sua cadeia de abastecimento, com a Marfrig em quinto lugar e o Minerva em décimo.

Enquanto o banco parceiro do UBS, Banco do Brasil, coordenou dois grandes CRAs para o JBS nos últimos meses, o UBS BB ajudou a coordenar um CRA para a Marfrig em 15 de julho, avaliado em cerca de US $ 200 milhões.

Gerard Rijk, analista de ações da Chain Reaction Research e Profundo, uma consultoria de sustentabilidade com sede na Holanda, diz que embora seja possível emitir CRAs como títulos verdes ou sustentáveis, a maioria dos CRAs não tem nada a ver com sustentabilidade. “O UBS é particularmente forte em conectar investidores internacionais privados e institucionais a novas oportunidades de investimento”, diz ele. “E ainda muitos desses financiadores estão principalmente interessados ​​em rendimentos elevados, não principalmente em um impacto positivo sobre questões ambientais, sociais ou de governança.

ubs 3A BrasilAgro é supostamente responsável pelo desmatamento de quase 22.000 hectares (54.000 acres) de vegetação nativa em suas fazendas na região do Cerrado brasileiro. Imagem da BrasilAgro via Facebook .

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Banner Image: Paisagem de Cerrado, caracterizada por árvores esparsas pontilhando uma cobertura contínua de gramado. Imagem de Alex Costa / Mighty Earth.

Nota do Editor: Uma versão anterior deste artigo afirmava que a BrasilAgro investiu o equivalente a US $ 43 milhões na fazenda Cremaq. O valor real era de US $ 4,3 milhões.

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Este texto foi inicialmente escrito em inglês e publicado pelo Mongabay News [Aqui!].

Os pulmões doentes da Amazônia

A região amazônica “tombou” devido ao desmatamento desenfreado. Agora ele emite mais dióxido de carbono do que absorve. Isso já está tendo efeitos devastadoresgado queimada

Desmatamento colossal, monoculturas, secas, incêndios. A floresta amazônica está gravemente ameaçada (rebanho de gado durante um incêndio florestal na região de Nova Fronteira, 3 de setembro de 2019). Por Leo Correa / AP / dpa

Por Norbert Suchanek, Rio de Janeiro, para o Junge Welt

Meados de julho de 2021. Durante o segundo ano da pandemia de COVID-19, o calor catastrófico e o inferno de fogo no oeste dos Estados Unidos e Canadá, bem como as inundações do século na Alemanha e na Bélgica, competem pela maior manchete com o voo espacial do o multibilionário Jeffrey Bezos na floresta de folhas da mídia de massa global. Enquanto isso, a notícia do século 21 que é mais importante para a humanidade está lentamente sendo registrada pela grande mídia e empurrada para o final da página: a Amazônia tombou. O sumidouro de carbono aparentemente infinito que absorve as emissões de gases do efeito estufa dos países industrializados e compensa o efeito estufa não existe mais.

Certamente não faltaram avisos. Há décadas, pesquisadores e ambientalistas brasileiros e internacionais vêm reivindicando o fim do desmatamento da floresta amazônica. A maior região de floresta tropical do planeta, importante para o clima global, pode perder sua função de armazenamento de carbono e frear o aquecimento global. Mas a mudança de governos do Brasil – responsável pela maior parte da Amazônia – deixou a questão da boca para fora e ignorou ecologistas e pesquisadores do clima, apesar de duas conferências ambientais da ONU no Rio de Janeiro em 1992 e 2012. Agora, seus piores medos parecem ter se tornado realidade.

Superexploração por apenas 50 anos

A bacia amazônica tem uma área de cerca de 7,25 milhões de km2 e é mais de vinte vezes o tamanho da Alemanha. A área original da floresta amazônica, que se desenvolve há 50 milhões de anos, é estimada em cerca de 5,3 a mais de seis milhões de km2. Cerca de 60% da Amazônia, 4,2 milhões de km2, está no Brasil.

Ao contrário da crença popular, o desmatamento da Amazônia não começou com a conquista europeia da América Latina no século XVI. Por quase 500 anos, a exploração econômica da maior região de floresta tropical do mundo foi essencialmente limitada aos abundantes recursos florestais naturais e renováveis, como cacau, borracha e castanha do Brasil, que leva o nome do estado brasileiro do Pará.

A destruição da floresta em grande escala só começou na década de 1970 com estradas como a lendária Transamazônica e programas de colonização e subsídios que atraíram milhões de colonos, principalmente do sul do Brasil, e investidores internacionais. O governo militar brasileiro da época e seus especialistas em economia viam o uso de produtos naturais da floresta, que eram costumeiros até então, como “atrasado”. Substituíram uma economia sustentável que alimentava a população amazônica e ao mesmo tempo trouxeram divisas com corte implacável, pastagens artificiais de gado e monoculturas: uma política econômica de destruição da floresta tropical com o sul e sudeste da Amazônia, o chamado desmatamento arco, formado pelos estados de Maranhão, Pará, Mato, que continua até hoje Grosso, Rondônia e Acre, como a primeira vítima.

Independentemente dos povos indígenas e grupos populacionais tradicionais, pelo menos 19 corporações multinacionais hackearam mais de sete milhões de hectares de terras para extração de madeira, pecuária, agricultura e especulação imobiliária em 1982, de acordo com os pesquisadores franceses Hervé Théry e Jean Eglin em seu relatório »O Saque da Amazônia «(Le Pillage de l’Amazonie). Até mesmo áreas altamente produtivas de castanheiras foram derrubadas e a população da floresta, que vivia dela de maneira sustentável por séculos, mergulhou na pobreza ou foi levada ao êxodo.

“As causas diretas do desmatamento na região são predominantemente a agricultura industrial em grande escala (principalmente soja) e a pecuária extensiva”, resume o relatório de 2015 “Desmatamento na Amazônia (1970-2013)” da Rede Amazônica para dados sócio georreferenciados -informações ecológicas (RAISG). O desmatamento está intimamente ligado à construção de estradas pelo governo, explica o pesquisador da Amazônia Philip M. Fearnside. “Com a construção e expansão de estradas rurais e uma rede de estradas de acesso, mais colonos estão invadindo a área e aumentando drasticamente o desmatamento.” Ao mesmo tempo, a presença de colonos na floresta aumenta a pressão política para a construção de estradas ainda mais pavimentadas e melhores. Especulação de terras, barragens,

De acordo com dados do estudo de 1997 “Desmatamento e meios de subsistência na Amazônia brasileira” da Universidade de São Paulo, havia apenas 292 empresas madeireiras em toda a região amazônica no início da década de 1970. Só no estado do Pará, já eram mais de 2.000 em 1995. De acordo com dados do Instituto de Pesquisas Espaciais do INPE, responsável pelo monitoramento florestal por satélite, entre 1978 e 1988, uma média de cerca de 20 mil quilômetros quadrados de floresta tropical foi desmatada a cada ano apenas na Amazônia brasileira. Os piores anos de desmatamento ainda estavam por vir. Em 1995, o Brasil perdeu 29.000 km2, em 2003 mais de 25.000 e em 2004 quase 28.000 km2 da floresta amazônica.

Em 2013, o INPE calculou o desmatamento total em 762.979 km2 desde 1973. Isso significa que, de acordo com o relatório de 2017 “O clima futuro da Amazônia” da Amazônia e do pesquisador de clima Antonio Donato Nobre, mais de 42 bilhões de árvores foram destruídas nos últimos 40 anos, milhões por dia. Convertido para o tamanho de um campo de futebol, isso equivale a 12.635 campos de futebol limpos por dia, 526 campos de futebol por hora.

Em 2019, a especialista em Amazônia Kirsten Thonicke do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático (PIK) alertou: “Ainda hoje, 20 por cento dos 5,3 milhões de km2 de floresta tropical foram desmatados.” Esta área é maior do que toda a União Europeia e foi resultou em um aquecimento de 0,8 a 0,9 graus na região e estendeu a estação seca. Outros cientistas presumem uma destruição de amônia ligeiramente menor de 17%.

Mas, independentemente de ser 17 ou 20%, é muito. Isso é especialmente verdadeiro para o Pará e Mato Grosso, com uma perda total de floresta tropical de 34,42% e 32,35%, respectivamente, de acordo com os últimos dados do INPE de maio de 2021.

Emissor líquido de CO2

Até agora, a ciência assumiu que a Amazônia, apesar do desmatamento das últimas décadas, continuaria a equilibrar o clima global e neutralizar o efeito estufa, removendo milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2) da atmosfera todos os anos e armazenando-o em a forma de carbono em sua massa vegetal em crescimento. Mas obviamente não tem sido assim há pelo menos dez anos. Pelo contrário: operações de corte e queima e cortes rasos transformaram a maior floresta tropical em produtora líquida de CO2. É o que mostra pela primeira vez o estudo “A Amazônia como fonte de carbono ligada ao desmatamento e às mudanças climáticas”, publicado em julho na revista Nature , por uma equipe internacional de cientistas liderada pelo Instituto Brasileiro de Pesquisas Espaciais INPE.

De 2010 a 2018, os pesquisadores sobrevoaram a região amazônica em quatro regiões representativas do nordeste ao sudoeste em pequenas aeronaves a cada quinze dias e mediram as concentrações de CO2 a uma altura de 300 a 4.400 metros acima do dossel. Isso foi seguido por uma avaliação de dados de dois anos. “A primeira notícia muito ruim é que as operações de corte e queima produzem cerca de três vezes mais CO2 do que a floresta absorve”, explica Luciana Gatti, pesquisadora do INPE e autora principal do estudo. “A segunda má notícia é que as emissões de CO2 em regiões onde o desmatamento é de 30% ou mais são dez vezes maiores do que em áreas com desmatamento inferior a 20%.”

Especificamente, a área de floresta tropical emitiu em média 1,51 bilhão de toneladas de CO2 na atmosfera, principalmente por corte e queima, enquanto absorve apenas 450 milhões de toneladas de CO2 e o armazena em sua biomassa. “É uma notícia terrível”, disse Luciana Gatti. Porque isso torna a Amazônia um produtor líquido de 1,06 milhão de toneladas de dióxido de carbono por ano, o que coloca tantas nações industrializadas na sombra. Em vez de desacelerar a mudança climática, a região da floresta tropical da América do Sul tem aquecido a atmosfera muito mais do que a Alemanha, por exemplo, que conseguiu reduzir laboriosamente suas emissões anuais de CO2 de 1,05 bilhão de toneladas em 1990 para 644 milhões de toneladas no ano passado.

O principal culpado por esta “catástrofe climática” é o Brasil. A parte brasileira da Amazônia emite a maioria das emissões líquidas de CO2 da Amazônia em 870.000 toneladas anuais. O pior é a situação na região sudeste da Amazônia, especialmente no Pará e Mato Grosso, onde mais de 30% da floresta já foi destruída. O desmatamento levou a uma mudança climática regional com uma estação seca mais longa, seca e quente. Os pesquisadores registraram um aumento de temperatura de mais de dois graus nos meses de agosto, setembro e outubro, com uma diminuição simultânea na precipitação de cerca de 25%. Esse estresse climático leva a um círculo vicioso de produção de CO2 que queima as florestas com mais facilidade e faz com que as árvores morram mais cedo.

Devido à seca, explica Gatti, as folhas das árvores geralmente perenes da floresta tropical ficaram marrons e começaram a cair. As árvores param a fotossíntese e não absorvem mais CO2, mas continuam respirando. Esse estresse climático não só leva à redução do armazenamento de carbono, mas, no pior dos casos, à morte das árvores, que posteriormente liberam mais CO2 devido ao processo de apodrecimento de sua biomassa.

Gatti afirma que “o que está acontecendo no sul do Pará e no norte do Mato Grosso é que as espécies de árvores mais sensíveis morrem e apenas as mais resistentes sobrevivem. Ainda hoje, mais árvores morrem no sudeste da Amazônia do que voltam a crescer ”. Isso significa que a floresta dessa região, mesmo que não esteja pegando fogo, emite mais carbono do que absorve a cada ano. Menos árvores levam a menos chuva e temperaturas mais altas, o que aumenta a estação seca e o estresse climático para a floresta remanescente: uma espiral contínua que pode causar grandes círculos”.

“Rios voadores” secam

O naturalista e pioneiro das pesquisas amazônicos Alexander von Humboldt já havia adivinhado a ligação entre floresta tropical, umidade e clima no século 19, que os cientistas de hoje finalmente confirmaram e descreveram com mais detalhes. Estudos mostram que uma grande árvore da floresta tropical pode bombear mais de mil litros de água do solo e permitir que evapore em um único dia. Essa evapotranspiração remove energia do ambiente e, portanto, resfria o clima local, enquanto a água evaporada sobe para as camadas mais altas do ar. Calculado para uma Amazônia intacta, seus mais de 400 bilhões de árvores emitem mais de 20 bilhões de toneladas de água na atmosfera todos os dias e, portanto, produzem um rio atmosférico ou “voador” que é maior do que o poderoso rio Amazonas,

Os ventos carregam essas enormes quantidades de água que produz chuvas de leste a oeste, não apenas por toda a bacia amazônica, mas também até as regiões mais altas dos Andes, onde formam as geleiras, cujo degelo, por sua vez, alimenta os rios do lado pacífico andino. O “rio voador Amazonas” também flui de norte a sul e traz chuvas para o centro e oeste do Brasil nos planaltos do Cerrado e Pantanal, assim como para o sul e sudeste do Brasil, para Bolívia, Paraguai, Uruguai e Argentina.

A cada novo corte da árvore amazônica, essas regiões são ameaçadas por um clima desértico. O estudo de Luciana Gatti sugere que esse ciclo vicioso já está em andamento. Mesmo na bacia amazônica ocidental praticamente intacta, com um desmatamento estimado em onze por cento, a equipe de pesquisa registrou queda nas chuvas e aumento nas temperaturas, em parte provocadas pelo desmatamento no leste. Embora essa mudança climática ainda seja menor do que nas partes mais desmatadas da Amazônia, ela também aumenta a mortalidade das árvores e reduz a capacidade de fotossíntese, ou seja, o armazenamento de carbono.

Um estudo publicado em 2019 pela Universidade da Califórnia usou dados de satélite dos 20 anos anteriores para determinar a evolução do conteúdo de umidade na atmosfera sobre a floresta amazônica. Ela também chegou à conclusão: “Nas últimas duas décadas, a atmosfera amazônica ficou cada vez mais seca.” Além disso, há eventos mais extremos. Após a forte seca, especialmente no Norte da Amazônia em 1998, a região amazônica voltou a registrar uma seca extrema em 2005, conhecida como a “seca do século”. Apenas cinco anos depois houve uma seca ainda maior, que foi substituída por outra seca do século na Amazônia em 2015, que agora atingiu o sudeste do Brasil. “O Brasil está secando: a pior seca das últimas décadas”, era a manchete da época.

A Amazônia também experimentou uma seca extrema em 2020. “Agosto, setembro e outubro em particular parecem ser os mais secos em mais de 20 anos”, relatou o Woodwell Climate Research Center. O sul da Amazônia foi particularmente afetado. Em 2020, o Pantanal também experimentou uma drástica escassez de água e incêndios florestais catastróficos como nunca antes. Secas e incêndios florestais também ocorreram na região florestal do Chaco, na Argentina e no Paraguai. Outra indicação de uma espiral girando em direção ao abismo.

O ciclo de secas de cinco anos sugere uma influência do efeito El Niño. Mas essa não é a única causa. O pesquisador do INPE Antonio Donato Nobre: ​​“Antes do intenso desmatamento na Amazônia, as chuvas eram tão abundantes que se dizia que havia apenas duas temporadas na bacia amazônica, uma úmida e outra ainda mais úmida. Hoje existe uma estação seca acentuada, e a duração da estação chuvosa está diminuindo cada vez mais. ”As sucessivas secas extremas neste século já em 2018 deixaram o pesquisador da NASA Sassan Saatchi com o até então válido“ paradigma de pesquisa que a Amazônia , independente de quanto dióxido de carbono nós (os países industrializados) emitimos, grande parte dele é absorvido, com dúvidas.

O documento de pesquisa “Rastreando os impactos da seca e do fogo do El Niño nas florestas amazônicas modificadas pelo homem”, também publicado em julho de 2021, confirmou os temores de Saatchi. A equipe de pesquisa do Brasil, Grã-Bretanha e Suécia examinou as consequências da seca na Amazônia de 2015, que matou cerca de 447 milhões de árvores maiores e 2,5 bilhões de menores na região afetada do baixo Tapajós. Como resultado da seca e dos incêndios florestais resultantes, dizem os pesquisadores, a região liberou mais carbono do que países industrializados como o Reino Unido por pelo menos três anos. Nos três anos após a seca, o crescimento da planta só foi capaz de absorver cerca de um terço das emissões.

Para Luciana Gatti, uma coisa é certa: a Amazônia agora é fonte de carbono. Uma descoberta científica que deveria realmente interessar e sacudir o mundo mais do que o voo de onze minutos para o espaço, prejudicial ao clima, por um empresário implacável chamado Jeffrey Preston Bezos, que nomeou sua empresa de comércio na Internet, que foi fundada em 1994, produzindo fluxos globais de mercadorias depois do rio mais rico em água da terra: a Amazônia ou na Amazônia alemã.

Em seu artigo sobre a pesquisa de Gatti, a jornalista climática Ciara Nugent, da Time Magazine, colocou desta forma: “É um barra alta, mas este é um dos fatos mais deprimentes que já li como jornalista climático: A floresta amazônica – uma região conhecida como ‘o pulmão do mundo’ – agora emite mais carbono do que absorve. “

Guerra contra a ignorância

Mas nem tudo está perdido ainda. Segundo Luciana Gatti, o processo ainda pode ser revertido. Gatti propõe uma moratória ao desmatamento e corte e queima por pelo menos cinco anos em toda a região amazônica, especialmente na região sudeste, que teria que ser reflorestada além da parada imediata do desmatamento. “Nesse cenário, acredito que haja possibilidade de reversão”, diz a pesquisadora.

Mas os sinais do governo Jair Bolsonaro prometem exatamente o contrário. Não há como parar o desmatamento e nem os incêndios florestais à vista. Em junho passado, 2.308 incêndios ocorreram na floresta amazônica brasileira e 4.181 no cerrado. Somente no estado da soja de Mato Grosso, os satélites contabilizaram 2.185 disparos. Esses números recordes de junho não falam a favor de uma reviravolta, mas de um desmatamento contínuo – até que a última árvore seja derrubada ou queimada.

Para Antonio Donato Nobre, que pesquisa na e sobre a Amazônia há mais de 30 anos e conhece as consequências ecológicas melhor do que quase qualquer outro cientista, uma política de desmatamento zero no Brasil era uma necessidade urgente já nos anos 1990. Embora o fim do desmatamento seja obrigatório, inevitável e há muito esperado hoje, não será suficiente para reverter as tendências climáticas ameaçadoras, alertou Nobre em 2017. “Temos que restaurar tudo o que foi alterado e destruído na medida do possível. O reflorestamento em tão grande escala requer a reversão do uso da terra em grandes áreas atualmente ocupadas. ”Dado o cenário atual, no entanto, isso é muito improvável.

“No entanto, apenas uma pequena parte da sociedade esteve e está diretamente envolvida na destruição das florestas”, diz o pesquisador da Amazônia. É uma minoria que empurra o Brasil e a América Latina para o abismo climático. Para combater isso, o primeiro passo é uma campanha semelhante a um esforço de guerra, uma “guerra” contra a ignorância. “Um esforço sem precedentes para educar a sociedade. E que visa principalmente aqueles que ainda se agarram ao equívoco de que a destruição de florestas é inofensiva. “

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Este artigo foi inicialmente escrito em alemão e publicado pelo “Junge Welt” [Aqui!].