Por que a indicação de Alexandre Moraes deveria ser considerada escandalosa e não está sendo?

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A indicação do ministro da justiça Alexandre Moraes (PSDB/SP) pelo presidente “de facto” Michel Temer para ocupar a vaga que a morte de Teori Zavascki criou no Supremo Tribunal Federal (STF) é um daqueles escândalos que deveria abalar a república brasileira, mas não irá.

E pelo que pude depreender das matérias quase adulatórias preparadas pela mídia corporativa sobre a indicação de Moraes para substituir Zavascki o escândalo não se dá por falta de credenciais acadêmicas ou de prática jurídica. É que nesses quesitos, Alexandre Moraes supera bem algumas das indicações medíocres que foram feitas pelos presidentes Lula e Dilma Rousseff, sendo que o caso do ministro José Antonio Dias Toffoli é o mais emblemático.

Parte do escândalo existente nessa indicação se dá pelo fato de que Alexandre Moraes ocupa neste momento um papel de destaque na sustentação jurídica de uma série de medidas que visam conter, nas palavras do senador Romero Jucá, a “sangria” criada pela operação Lava Jato.

Mas o verdadeiro escândalo é o silêncio que está sendo aplicado para que se esqueça que Alexandre Moraes será mais um ministro do STF que possui laços explícitos com o PSDB, partido este que, “coincidentemente, possui vários medalhões pendurados nas denúncias que estão para explodir a partir das 77 delações assinadas por ex-dirigentes da Odebrecht.

Tenho absoluta certeza que nas atuais circustâncias fosse ainda Dilma Rousseff presidente do Brasil e indicação seu ministro da Justiça para o STF, estaríamos todos a ouvir as panelas zunindo das áreas mais ricas e elitistas das grandes brasileiras. Mas como agora é um tucano que certamente irá para o STF cuidar dos interesses de tucanos já seriamente encrencados nas delações da Odebrecht, não há panela nem gritos contra supostas tentativas de emperras a operação Lava Jato e os paladinos curitibanos.  

E como sei disse? É que já me acostumei à moral altamente seletiva das elites brasileiras e daqueles setores que lhes oferecem massa para que as manobras contra a maioria dos brasileiros siga tendo negada uma sociedade mais justa e não tão segregada como que em que vivemos hoje.

Mas como essa maioria de pobres continua assistindo a tudo isso de maneira majoritariamente solitária, a impressão que muitos podem ter é que mais esta manobra de Michel Temer contra o senso comum vai passar batida. Eu me arriscaria a dizer que a possibilidade é de que esta seja apenas uma gota num imenso balde que está a ponto de transbordar. Os primeiros sinais disso estão vindo do Espírito Santo que hoje vive um cenário que beira a convulsão social, o qual poderá se espalhar pelo Brasil inteiro caso os planos de desmanche da legislação trabalhista e previdênciária se consumem.

Daí, se isto acontecer, não ter Alexandre Moraes e suas histrionices autoritárias (o caso da inverossímil política de erradicação da maconha na América do Sul é a primeira que me vem à cabeça) que salve o sistema político brasileiro. A ver!

Todos os caminhos levam à joalheria Antonio Bernardo

Uma das maiores revelações de todo os escândalos que cercam a crise (seletiva) financeira que se abateu sobre o Rio de Janeiro foi a revelação de que um dos caminhos preferenciais para a lavagem de dinheiro arrecadado por propinas era o das joalherias de alto luxo, algumas beneficiárias da farra fiscal comandado por Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão (Aqui!).

Dentre as joalherias identificadas como participante de um esquema sofisticado de lavagem de dinheiro foi a Joalheria Antonio Bernardo que teria criado até um esquema de contabilidade paralelo para dificultar a identificação de clientes como Sérgio Cabral e Adriana Ancelmo (Aqui!).

Mas não é que com a trágica morte do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Teori Zavascki, descobrimos que a Joalheria Antonio Bernardo também tinha uma conexão com o caminho do coração pela figura de Liliana Schneider que seria gerente da loja existente na Barra da Tijuca, mais precisamente no Barra Shopping (Aqui!).

Agora, me digam, não é mesmo muito estranho que tenhamos esta revelação apenas depois da morte da Zavascki? Para mim, no entanto, é interessante notar que o ministro Zavascki estivesse ligado pela amizade e pelo coração a pessoas com ligação direta com a operação Lava Jato qual ele era o relator no âmbito do STF, como já era o caso do empresário Carlos Alberto Fernandes Figueira (Aqui!).

Alguns poderão dizer que não se escolhe quem se ama a partir do local onde a pessoa trabalhas, mas como Liliana Schneider trabalha na Antonio Bernardo há 17 anos, não haveria como ela não saber do esquema implantado na empresa para fazer a lavagem de dinheiro pelo menos para Sérgio Cabral e Adriana Ancelmo, mas sabe-se-lá mais quem. Daí que em nome da insuspeição de suas decisões, Zavascki deveria ter aconselhado a namorada a procurar outro emprego após as conexões entre a empresa e o casal Cabral apareceram na imprensa.

E não me venham dizer que o que acontece na intimidade das pessoas não é importante para o que elas fazem profissionalmente. É que diante do quadro político e econômico criado pela operação Lava Jato, essa opção simplesmente não serve como escusa para garantir a isenção de Teori Zavascki. E, repito, o mais lamentável é que só saibamos das conexões pessoais dele após sua morte, pois ele não está mais aqui para oferecer as devidas explicações.

 

Um avião, uma tragédia, e suas revelações sobre as íntimas relações entre os ricos e a alta burocracia estatal

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A queda do  avião Hawker Beechcraft, modelo C90GT, que pertencia ao Grupo Emiliano , e que acabou resultando na morte de cinco pessoas, incluindo o seu proprietário, o empresário Carlos Alberto Fernandes Figueira, e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF),  Teori Zavascki, nas águas oceânicas de Paraty é mais reveladora do que se imagina.

Mas antes de explorar melhor as revelações que a queda da aeronave nos propicia, quero refletir sobre a surpresa que é termos pessoas ricas ou famosas envolvidas em acidentes com pequenas aeronaves. É que, convenhamos, esse tipo de veículo é para quem pode pagar ou desfrutar da amizade de pessoas mais afortunadas. Então, realmente, não sei qual é a surpresa com o fato de que, novamente, pessoas ricas e poderosas pereceram num acidente aéreo. 

Mas vamos às revelações trazidas por esse trágico acidente. A primeira é que veio à tona a forte amizade entre um empresário que possuía entre suas propriedades hotéis voltados para o consumo de alto luxo e um ministro do STF que, coincidentemente, estava à frente de homologar delações no âmbito da chamada Operação Lava Jato.  Esta não é ao meu ver uma revelação qualquer. É que, mais uma vez, fica explícito que a alta burocracia estatal brasileira vive muito próxima dos ricos e ultra ricos. Daí que esperar ou alimentar a ilusão de que podemos ter uma justiça equânime beira a completa ingenuidade. 

A segunda revelação é que o supostamente austero Teori Zavascki não  via nenhum problema em ter como amigo uma pessoa que não só está respondendo por crimes ambientais no STF  (Aqui!), como também era sócio do BTG Pactual, e tinha pelo menos um dos seus hotéis envolvidos como local de recebimento de propinas que fazem parte das apurações feitas pela mesma operação Lava Jato da qual ele era o relator  (Aqui! e Aqui!). Pode-se até dizer que para Zavascki valia o princípio do “amigos, amigos, sentenças à parte”, mas não há como não fica com a pulga atrás da orelha em relação à sua suposta austeridade e isenção técnica.

A terceira revelação que surge em minha opinião é de que na morte todos tendem a ser santificados, especialmente se for um ministro do STF que colaborou para o impedimento de uma presidente eleita para que um governo antipopular e antinacional pudesse tomar o poder sem ser eleito.  Daí que qualquer “teoria da conspiração” para explicar a queda do Hawker Beechcraft em Paraty vai estar apenas contribuindo para que o papel cumprido por Zavascki na concretização do golpe de estado “light” cometido contra Dilma Rousseff não seja corretamente analisado.  Não custar lembrar que Zavascki segurou por tempo suficiente o processo de remoção de Eduardo Cunha da presidência da Câmara de Deputados para que o processo de impeachment fosse votado.

Mas não se enganem, com ou sem a presença de Teori Zavascki o desfecho da operação Lava Jato não será mudado. É que toda essa operação já cumpriu o seu papel que foi retirar Dilma Rousseff do poder e facilitar o aumento do controle das corporações multinacionais sobre a economia brasileira, especialmente na área da exploração do petróleo. Em outras palavras, Zavascki já havia cumprido o papel que lhe cabia nessa trágica fase da nossa história. 

E nós que continuaremos por aqui é que teremos de conviver com as consequências deste modelo social onde para poucos alguns sobram todas as benesses geradas pelas riquezas nacionais, enquanto a maioria precisa se preocupar em saber se terá um teto sobre suas cabeças nos próximos dias. 

Finalmente, agora me respondam, qual é mesmo o padrão de ética que perdura no STF? É que primeiro tivemos Gilmar Mendes acompanhando o presidente “de facto” numa viagem a Portugal, usando dinheiro da viúva para ir a um enterro onde ele nem apareceu. Agora, temos um ministro do STF voando nas asas de um jatinho de propriedade de réu de uma operação policial da qual ele era relator. Como podem os mais pobres ter alguma confiança de que a justiça brasileira serve a todos os cidadãos de forma equânime? A resposta é simples: não podem.

Até quando Eduardo Cunha será tratado apenas como “suspeito” de possuir contas secretas na Suiça?

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A mídia corporativa e os setores que apoiam o impeachment da presidente Dilma Rousseff estão fazendo um esforço tremendo para continuar chamando o presidente da Câmara de Deputados, Eduardo Cunha (PMDB/RJ), como  “suspeito” de possuir contas secretas recheadas de dólares obtidos por vias não republicanas em esquemas ainda menos republicanos.

O irônico nessa situação é que a mesma cortesia não é dispensada à Dilma Rousseff contra quem não há qualquer acusação de estar envolvida nas mesmas estripulias em que Eduardo Cunha foi solenemente denunciado pelo Ministério Público da Suíça.

Mas a partir de hoje a mídia corporativa vai ter maiores dificuldades de continuar tratando Cunha como “suspeito”. É que hoje o Supremo Tribunal Federal na pessoa do ministro Teori  Zavascki deu dois golpes duros na armadura que a mídia e os áulicos do impeachment estavam tentando colocar sobre o ainda presidente da Câmara:  primeiro indeferiu o pedido escandaloso de Cunha para manter o processo movido contra ele por causa das contas sob sigilo de justiça, e em seguida determinou o bloqueio e sequestro de quase 10 milhões de reais que estão nas contas arrestadas pela justiça suíça.

Enfim, de suspeito Eduardo Cunha não tem mais nada.  Resta saber quando a mídia corporativa vai se dignar a escrever isso.