Reportagem do “The Intercept” mostra resultados da pesquisa sobre uso de drogas que governo Bolsonaro engavetou

GUERRA À PESQUISA

Aqui estão os números que o governo escondeu e que mostram que não há epidemia de drogas no Brasil

Por Inês Garçoni para o “The Intercept

EU NÃO SEI onde a Fiocruz faz suas pesquisas, mas eles insistem em dizer que não há uma epidemia de drogas no Brasil”, discursou o então ministro do Desenvolvimento Social e Agrário, Osmar Terra, durante audiência pública na Câmara dos Deputados. Era novembro de 2017, e o ministro, hoje titular da pasta da Cidadania, já havia declarado guerra à maior pesquisa sobre consumo de drogas da história do Brasil.

Concluído no final de 2016, o 3º Levantamento Nacional Domiciliar sobre o Uso de Drogas nunca foi divulgado pela Secretaria Nacional de Política de Drogas, a Senad, órgão do Ministério da Justiça responsável por encomendar a pesquisa. A hipótese mais provável, reforçada pela declaração de Osmar Terra, é que o governo federal censurou os números porque eles revelavam o oposto do que a gestão de Michel Temer queria mostrar – e que o governo Bolsonaro continua a sustentar.

 O Intercept e a Casa da Democracia tiveram acesso com exclusividade à íntegra do documento. Realizado pela Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz, instituição ligada ao Ministério da Saúde, o levantamento aponta, por exemplo, que 0,9% da população usou crack alguma vez na vida, 0,3% fez uso no último ano e apenas 0,1% nos últimos 30 dias. No mesmo período, maconha, a droga ilícita mais consumida, foi usada por 1,5%, e a cocaína, por 0,3% dos brasileiros. Pesquisadores ouvidos pela reportagem são unânimes em dizer que, embora preocupantes, os índices estão longe de representar o que o governo, sobretudo na figura de Osmar Terra, insiste em chamar de “epidemia”.

Para o levantamento, a Fiocruz usou a mesma metodologia da Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar, a Pnad, do IBGE, para ouvir 16.273 pessoas em 351 cidades. A amostra é o dobro do penúltimo levantamento nacional, realizado pelo Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas em 2005. O novo levantamento mostrou, pela primeira vez, os padrões de consumo dos municípios rurais e da faixa de fronteira do país. E investigou o uso de drogas lícitas – tabaco e cigarro – e ilícitas em dez tipos ou categorias: maconha, haxixe ou skank, cocaína em pó, crack e similares, solventes, ecstasy/MDMA, ayahuasca, LSD, ketamina e heroína, além de estimulantes e anabolizantes.

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Gráfico: João Brizzi/The Intercept Brasil

Contratada por meio de um edital de 2015, durante o governo Dilma Rousseff, e concluída no final de 2016, já na gestão Michel Temer, a pesquisa custou cerca de R$ 7 milhões aos cofres públicos. Desde então, seu conteúdo jamais foi revelado – nem mesmo em pedidos feitos via Lei de Acesso à Informação.

“A gente acredita que o embargo tem a ver com o fato de que a pesquisa não confirma a epidemia de crack propalada como bandeira política por certos setores conservadores da política, cujo expoente principal é Osmar Terra”, diz Cristiano Maronna, presidente da Plataforma Nacional de Política de Drogas, rede que articula organizações e pesquisadores da área. Maronna tentou duas vezes acessar o documento via Lei de Acesso à Informação, mas teve os pedidos negados. O deputado federal petista Paulo Teixeira também tentou acessar os dados no ano passado, sem sucesso.

Oficialmente, o governo diz que decidiu embargar o estudo por conta de sua metodologia. Questionado pela reportagem, o Ministério da Justiça e da Segurança Pública diz que a pesquisa “não atendeu aos requisitos do edital” porque não permite “a comparação dos resultados com o primeiro e o segundo levantamentos”. Por isso, a Senad não “detém propriedade intelectual sobre os dados, não os utiliza e não os divulga”, diz o governo, em um e-mail enviado pela assessoria de imprensa.

O governo vem pressionando a Fiocruz a engavetar o estudo e chegou a acionar o Ministério Público Federal, alegando que a fundação não cumpriu os requisitos do edital. Há a expectativa, de acordo com uma fonte que conhece o processo e que pediu para não ser identificada por medo de represálias, que a Senad tente anular o edital, alegando o seu não cumprimento, e peça o reembolso dos R$ 7 milhões. A Fiocruz informou apenas, por e-mail, que o edital tem uma “cláusula que condiciona a utilização do material produzido à anuência da Senad” e que o termo de cooperação se encerrou em 2018. “Neste momento, a Fundação aguarda a anuência da Senad”, disse sua assessoria, por e-mail.

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Joga pedra na pesquisa

O levantamento foi encomendado para ajudar o governo a criar políticas brasileiras em relação ao tema. A Fiocruz contratou quase 300 pesquisadores e técnicos, liderados pelo epidemiologista Francisco Inácio Bastos, pós-doutor em saúde pública e autor de mais de 290 artigos. Os resultados foram compilados em um relatório de 520 páginas – inédito até a publicação desta reportagem.

Consultei quatro especialistas em política de drogas para entender os achados do estudo. Chama a atenção, por exemplo, a porcentagem de uso de drogas, muito menor do que alardeia o governo. Usando como exemplo o caso de um hospital no Rio Grande do Sul, Osmar Terra disse que, em 2002, 80% das internações de urgência eram devidas ao uso de álcool; já em 2007, 80% eram causadas pelo crack. “Houve uma subida muito rápida da questão do crack”, ele sentenciou. Mas não é o que diz a pesquisa.“O estudo epidemiológico da Fiocruz é robusto e não mostra epidemia”, diz Luiz Fernando Tófoli, professor da Unicamp que há 20 anos trabalha com saúde mental e uso de drogas.

Mais do que o crack, o problema que salta aos olhos é o uso de álcool. Segundo a pesquisa, 66,4% já fizeram uso de álcool na vida, 43,1% no último ano e 30,1% nos últimos 30 dias – número que vem caindo. Há outros dados preocupantes, como a facilidade para encontrar bebidas alcoólicas e a baixa percepção dos seus riscos. Ao relacionar os tipos de violência consequentes do abuso do álcool, o estudo lista ocorrências variadas, como tentativa de estrangulamento e ameaça com arma de fogo. “Nossa política deveria ser estruturada a partir disso”, diz Maronna.

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Gráfico: João Brizzi/The Intercept Brasil

O governo afirma que não é possível comparar a pesquisa com a anterior, de 2005, que abrangeu as 108 maiores cidades do país. A atual pesquisa se estendeu a 351 municípios, mas manteve o recorte das 108 em várias tabelas comparativas ao longo do relatório. Neste estrato, é possível identificar, por exemplo, queda no consumo recente de tabaco — de 18,4%, em 2005, para 14,2%, em 2015 — e de álcool — de 38,3% para 33%.

Também é possível comparar os achados com outras duas pesquisas nacionais independentes, a Lenad 1 e 2, feitas pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Políticas Públicas do Álcool e outras Drogas, e com a pesquisa nacional sobre crack, feita em 2014 pela Fiocruz. Os números são coerentes: a Lenad de 2012 mostra que 6,8% dos brasileiros consumiram maconha uma vez na vida; no levantamento atual, são 7,7%. Os que usaram crack uma vez na vida eram 1,3% e hoje são 0,9%.

“Não vejo nada surpreendente. Exceto no caso do álcool e do solvente, que tiveram queda, os outros são números esperados e revelam que o consumo, em geral, se manteve estável”, diz Maurício Fiore, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, o Cebrap, outro pesquisador que analisou a pesquisa a pedido da reportagem. Maronna também não vê revelações “assustadoras”. Segundo ele, “quase 10% ter usado droga ilícita uma vez na vida é um número razoável. Comparado a outros países, não revelam uma situação excepcional ou alarmante”, diz.

Os pesquisadores argumentam que, embora os achados da pesquisa possam ser questionados – e é comum que a comunidade científica faça isso – nada justifica o engavetamento. A Senad poderia ter tornado as informações públicas, mas com ressalvas. “Fica a impressão de que há algum interesse por trás. Se houve erro, a melhor maneira de identificar é debater. É assim que se faz ciência: publica-se e submete-se ao escrutínio dos especialistas”, diz Tófoli.

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Uma justificativa para os R$ 153 milhões

Com a troca de governo em janeiro, o embargo da pesquisa, que se arrasta desde 2016, ganhou novos contornos. No dia 19 de março, Osmar Terra e a ministra Damares Alves anunciaram a assinatura de contratos com 216 novas comunidades terapêuticas para tratamento de dependentes químicos, ao custo de R$ 153,7 milhões por ano para 10.883 vagas.

“Elas são decisivas para enfrentar a epidemia das drogas que destrói a nossa juventude, que causa a violência que o país vive e que está se propagando em uma escala gigantesca”, disse Terra na cerimônia. Damares Alves completou: “neste ato, o estado laico reconhece a importância das comunidades religiosas. É o retrato de um novo Brasil”.

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Veja outros Tweets de Osmar Terra

Em 2013, Osmar Terra já falava em ‘epidemia’.

O Brasil possui quase 2 mil comunidades terapêuticas, em sua maioria ligadas a igrejas evangélicas e católicas, segundo um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada. Nelas, em geral, o tratamento se baseia em isolamento, trabalho braçal e atividades religiosas. Muitas já foram denunciadas por maus tratos, cárcere privado e outros crimes – caso da Centradeq-Credeq, em Minas Gerais, que o Intercept visitou no final do ano passado. “Essas instituições são a trincheira de resistência à reforma psiquiátrica, violando direitos e ignorando a redução de danos, que, em combinação com a abstinência, apresenta bons resultados”, diz Maronna.

Osmar Terra é contra qualquer política de redução de danos. Ele acredita que a melhor abordagem é a abstinência e a internação compulsória – foi autor, inclusive, de um projeto de lei para obrigar os dependentes a serem internados. Defensor do modelo de clínicas religiosas, o ministro vê nas comunidades uma tábua de salvação para resolver, de uma vez por todas, “a epidemia de drogas no país”.

Seu esforço tem resultados. Aos poucos, o modelo de comunidade terapêutica tem se tornado preferência no governo, em detrimento dos Centros de Atendimento Psicossocial, os Caps, do SUS. Até 2017, o país custeava cerca de 2 mil vagas em comunidades. No ano seguinte, com Terra no comando, o número subiu para 6,6 mil. Em 2019, chegam a 10,8 mil leitos, um aumento de quase 50% em um ano.

A pergunta do milhão, ou melhor, dos R$ 153 milhões, suscitada por especialistas em políticas de drogas, é: por que, afinal, tal política pública foi implementada sem levar em conta o que dizem os números da pesquisa da Fiocruz, capaz de balizar decisões sobre quando, quanto, onde e de que forma investir para tratar dependentes? Mais uma vez, a resposta talvez seja: porque os números não dizem o que o governo queria ouvir.

Este texto foi produzido em parceria com o Instituto Casa da Democracia, organização dedicada ao estudo, à elaboração intelectual e à produção cultural em defesa da democracia e de sua promoção.

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Esta reportagem foi publicada pelo “The Intercept Brasil” no dia 01 de Abril de 2019 [Aqui!]

Agrônomos do Paraná estão sendo investigados por receitar agrotóxicos num ritmo sobrehumano

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Por Taís Seibt para o “The Intercept”

NO BRASIL, para comprar um agrotóxico, você precisa de uma receita assinada por um engenheiro agrônomo ou um técnico agrícola. Esses profissionais visitam as fazendas e indicam as melhores práticas para o controle de pragas e o manejo sustentável das lavouras. Funciona exatamente como um médico receitando um antibiótico: ele precisa primeiro examinar o paciente para depois fazer a prescrição. Mas o Ministério Público no Paraná descobriu que muitos agrônomos estão abusando da caneta e emitindo receitas às cegas, sem visitar as propriedades.

Em dezembro, três engenheiros agrônomos foram denunciados pelo Ministério Público em Campo Mourão, no interior do Paraná, por prescrever receitas para a compra de agrotóxicos sem sequer visitar os campos. Um levantamento da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná, obtido com exclusividade pelo Intercept, sugere que estes não são casos isolados.

Em um exemplo extremo, no ano de 2017, um único profissional emitiu entre 15 mil e 20 mil receitas – uma média superior a 50 receitas por dia, considerando 280 dias trabalhados no ano, sem descontar férias. Para uma jornada de oito horas, é aproximadamente uma receita a cada 10 minutos. Além de tecnicamente inviável devido à distância entre uma propriedade e outra, esse desempenho indica, segundo os especialistas que ouvimos, uma prescrição de veneno bem acima do razoável.

Não que esse agrônomo seja o único a ter um ‘superdesempenho’. Entre os cerca de 2 mil profissionais que prescrevem receitas de agrotóxicos no Paraná, incluindo agrônomos e técnicos de nível médio, 613 prescreveram entre sete e 17 receitas por dia em 2017. O número é o equivalente a ao menos uma receita a cada hora de trabalho.

Faltam parâmetros oficiais sobre a quantidade de agrotóxicos ou o número de receitas que cada agrônomo deve emitir. O Crea justifica que cada propriedade, planta e região demandam um acompanhamento específico. E é justamente o critério técnico que está em jogo quando profissionais cedem a interesses comerciais de seus empregadores e passam a emitir receitas apenas para formalizar a venda de agrotóxicos. É a chamada receita “de balcão”, que a Adapar e o MP buscam combater.

pulv 0Entre os cerca de 2 mil profissionais que prescrevem receitas de agrotóxicos no Paraná, incluindo agrônomos e técnicos de nível médio, 613 prescreveram entre sete e 17 receitas por dia em 2017.

Calendário vem pronto de fábrica

O tamanho das propriedades e a distância entre elas são centrais para entender se os agrônomos estão de fato se deslocando até as fazendas e receitando a quantidade correta de agrotóxicos. Um mesmo profissional teria condições de atender até 150 propriedades ao longo de um ano, segundo informações prestadas pelo Crea ao Ministério Público em Campo Mourão.

“Comparativamente a uma receita médica, a receita agronômica deveria partir de uma visita ao agricultor. Com base no que o agrônomo viu, ele faz a recomendação dos insumos”, explica Nelson Harger, diretor técnico da Emater Paraná. Ele considera que, apesar de uma mesma propriedade poder demandar várias receitas, já que as aplicações de agrotóxicos nem sempre são feitas ao mesmo tempo em toda a área plantada, a média de prescrições desses 613 agrônomos e técnicos é bem mais alta do que a esperada. “O doente vai ao consultório, mas não dá para levar a lavoura até o consultório”, compara Harger.

Técnicos da Adapar e da Emater também questionam o dado. “O Crea tem trabalhado com esse número, mas não há parâmetro de acompanhamento. Como é que você pode falar que 150 propriedades é acessível? Vai depender da distância, é relativo”, afirma o engenheiro agrônomo Marcílio Martins Araújo, fiscal de Defesa Agropecuária da Adapar.

‘O agrônomo é funcionário de cooperativas e revendas, ele precisa vender insumos para garantir o emprego.’

Em culturas de grãos, normalmente se utiliza de dez a 12 receitas por ano, explica Harger, o que ele já considera uma quantidade exagerada. Trata-se exatamente do modelo de assistência técnica pré-definido pela indústria, que condiciona o trabalho do agrônomo ao calendário do fabricante sem levar em conta as especificidades de cada lavoura ou região.

O problema, diz Harger, começa com quem paga os salários dos profissionais. “O agrônomo é funcionário de cooperativas e revendas, ele precisa vender insumos para garantir o emprego. A receita virou um documento de finalização do processo de compra, um papel burocrático a ser preenchido.”

Parte dos profissionais, por exemplo, dão expediente integral nas lojas de produtos agropecuários apenas para assinar receitas, uma mera formalidade para atender à exigência legal de venda de agrotóxicos. Um caso identificado pela Adapar em 2014 ilustra a prática: somente entre os dias 8 e 9 de abril, um único profissional prescreveu 892 receitas. Considerando uma carga horária de 8 horas, foram quase 56 receitas por hora ou uma por minuto.

pulv 1Pulverização aérea de agrotóxicos em plantação de milho em Campo Mourão, no Paraná. O MP investiga o excesso de prescrição de pesticidas para lavouras da região. Foto: Dirceu Portugal/Folhapress

‘O engenheiro deixa de ser agrônomo para ser vendedor de agrotóxico’

A partir de denúncias de moradores, a 1ª Promotoria de Justiça de Campo Mourão investigou a atuação de três profissionais no oeste paranaense. Dois deles são ligados à Cooperativa Agropecuária Mourãoense, a Coamo, de Campo Mourão, a maior cooperativa da América Latina: Erick Adriano Reis e Alessandro Vitor Zancanella. O terceiro, Maickon Ramalheira Afonso, é sócio-proprietário de uma loja de insumos agrícolas em Luiziana. Também foram denunciados três produtores rurais: Osmael Pressinato, João Batista Ventura de Oliveira e Márcio Fin, vereador pelo PR em Luiziana e atual presidente da Câmara Municipal, o que seria mero detalhe se a investigação não tivesse como base uma lei municipal descumprida pelo próprio legislador.

Tentamos contato com todos os denunciados, mas nenhum dos agrônomos nos respondeu. A Coamo também não se pronunciou. O advogado do vereador Fin informou que o cliente não o autorizou a falar sobre o processo e o escritório de advocacia responsável pela defesa de Oliveira não retornou os questionamentos. O advogado de Pressinato, por sua vez, nega que o produtor tenha passado veneno em área indevida.

Desde 2017, vigora uma lei em Luiziana que estabelece margem de segurança entre a zona de aplicação de agrotóxicos e áreas residenciais, escolas e hospitais. Esse era o mote original da investigação do MP, que acabou revelando os excessos nas receitas de agrotóxicos. Os processos seguem em andamento.

“Em muitas situações, receituários para uma área ‘X’ são aplicados em uma área ‘Y’, que não é a área devida”, explica a promotora Rosana Araújo de Sá Ribeiro, do Grupo de Atuação Especial do Meio Ambiente. Para completar, ao fazer buscas nas propriedades, foram encontrados produtos de 2012 em estoque, o que é proibido pela Lei dos Agrotóxicos. “Uma demonstração inquestionável de que é vendido muito além do necessário”, destaca a promotora.

Embora os agrônomos denunciados pelo MP tenham agido individualmente, as condutas são semelhantes, o que, para Ribeiro, mostra o modus operandi do setor. “Começa na faculdade, o engenheiro que está se formando já vem com esta visão. Ele deixa de ser engenheiro agrônomo para ser vendedor de agrotóxico”, afirma.

‘A cultura do veneno ignora soluções que dispensam os químicos.’

Há 15 anos na profissão, o engenheiro agrônomo Arthur Barbist Junior reforça o argumento da promotora e admite ter recebido prêmios por desempenho comercial quando ligado a cooperativas da região. “A maioria dos agrônomos são meros vendedores de agroquímicos. Quando o profissional trabalha ligado a uma empresa, ele é treinado e doutrinado a sempre ter que vender, não se pode voltar de alguma visita ao produtor sem trazer algum pedido assinado”, conta Junior, que atua de forma independente há quatro anos.

O relato de Junior evidencia que o compromisso técnico do agrônomo perde para interesses comerciais. “Você tem sempre que recomendar produtos de sua linha de trabalho, mesmo que algum produto de outro fabricante seja mais eficiente e de melhor custo-benefício, você tem que vender produtos que dão maiores margens à empresa”, conta.

Ao MP de Campo Mourão, todos os denunciados negaram receber qualquer benefício pela venda de agrotóxicos. Ainda assim, a investigação do MP dá indícios fortes de que as receitas eram emitidas “no balcão”, segundo a promotora Rosana Ribeiro, “sem diagnósticos, sem visitas às propriedades, sem responsabilidade técnica”. Tudo para beneficiar a indústria: “Se coloca para os agricultores que quanto mais veneno, melhor. Melhor para a indústria, não é melhor para o agricultor, esta é a questão. Nós estamos na defesa da sociedade, e este agricultor faz parte desta sociedade”, conclui a promotora.

A cultura do veneno ignora soluções que dispensam os químicos. A Emater Paraná, por exemplo, vem conseguindo reduzir o uso de pesticidas em até 50% nas lavouras da região com um trabalho técnico que resgata práticas antigas, como o Manejo Integrado de Pragas e o Manejo Integrado de Doenças.

O principal diferencial dessas práticas é o monitoramento constante das lavouras para entrar com mecanismos de controle de pragas e doenças quando elas de fato aparecem. “O critério de aplicação (de agrotóxicos) é a presença ou não da doença, assim que deveria funcionar, mas isso exige tempo, recursos, acompanhamento técnico”, diz o diretor técnico da Emater Paraná Nelson Harger. “Muitas das aplicações são feitas com critério preventivo, de antecipação a pragas e doenças, e por isso se usa muito acima das necessidades”.

pulv 2Um mesmo profissional teria condições de atender até 150 propriedades ao longo de um ano, de acordo com o Crea. Foto: Mauro Zafalon/Folhapress

Técnicos ou vendedores?

Nos anos 1970, o engenheiro agrônomo José Lutzenberger, que trabalhou para a multinacional alemã Basf e se tornou um dos ambientalistas pioneiros do Brasil, iniciou uma campanha para criar o receituário agronômico, no intuito de impedir que alguém comprasse veneno sem que um técnico assinasse como responsável. E queria mais: o agrônomo que o receitasse não pudesse ser vinculado à indústria agroquímica.

O Rio Grande do Sul foi o primeiro estado a regular a venda de agrotóxicos, exigindo acompanhamento técnico, por meio de uma lei aprovada em 1982. A Associação Nacional de Defensivos Agrícolas moveu uma ação de inconstitucionalidade contra a lei gaúcha, mas outros estados também criaram legislações próprias. Enquanto o processo corria, a indústria passou a defender a necessidade de uma nova lei federal.

Em 1985, o Supremo Tribunal Federal decidiu sobre a inconstitucionalidade das leis estaduais. Pedro Simon, do MDB gaúcho, então ministro da Agricultura, formou uma comissão para criar um anteprojeto de lei federal, que foi apresentado à Presidência em janeiro de 1986. Em fevereiro do mesmo ano, Iris Rezende, do MDB de Goiás, assumiu a pasta e não levou o projeto adiante.

A exigência da assinatura de um técnico não tem sido suficiente para frear as investidas da indústria.

Somente em 1989 a receita se tornou obrigatória por lei, porém não há restrição legal para que os agrônomos sejam funcionários de revendas, como desejava Lutzenberger e a Agapan. A exigência da assinatura de um técnico, portanto, não tem sido suficiente para frear as investidas da indústria do veneno nas lavouras brasileiras. Em julho do ano passado, o Intercept revelou detalhes de um tour de fiscais de agrotóxicos brasileiros para os Estados Unidos patrocinado pelo governo americano e pelas gigantes do mercado de pesticidas.

Os dados apresentados pela Adapar foram extraídos do Siagro, criado em 2010 pela agência, em colaboração com o Crea-PR, para monitorar o receituário de agrotóxicos no Paraná, segundo maior produtor de grãos do Brasil. O relatório mostra que, pelo menos desde 2015, há um padrão no volume anual de receitas emitidas por profissional.

A partir da implementação do sistema, a Adapar identificou até mesmo casos de profissionais de fora do Paraná que estavam emitindo receitas no estado. Segundo o engenheiro agrônomo Marcílio Martins Araújo, fiscal de Defesa Agropecuária da Adapar, esses profissionais ficavam na sede das empresas emitindo receitas conforme as recomendações dos técnicos que atuavam no campo. “Hoje é possível fazer a receita no campo, para tirar cada vez mais a receita de balcão”, afirma.

Uma portaria recém-publicada pela agência agora obriga o georreferenciamento da propriedade na emissão da receita. “Isso vai permitir identificar riscos a bacias hidrográficas e outros pontos sensíveis, como a relação dos princípios ativos usados e possíveis consequências em outras culturas”, observa Araújo. A norma deve entrar em vigor até o fim de junho.

A Adapar fiscaliza o uso indevido do agrotóxico conforme denúncias ou por fiscalizações de rotina, muitas delas a partir de buscas pelo Siagro, mas Araújo destaca que o órgão não tem interferência na remuneração do profissional. As questões éticas envolvidas no exercício da profissão, diz o fiscal, ficam a cargo do Crea. Por e-mail, o agrônomo Jhony Möller, que coordena a Comissão Especial Temporária Agrotóxicos no Crea-PR, afirmou que “ao Crea, preocupa qualquer desvio de conduta” e que o conselho incentiva “várias formas de acesso à formação continuada” para o aprimoramento dos profissionais. Möller ressaltou ainda que no Paraná há um máximo de dois agrotóxicos por receita, o que poderia aumentar o número de receitas emitidas. Segundo ele, “utilizar agroquímicos além do necessário significa aumento de risco ao produtor, ao meio pela exposição desnecessária, e aumento do custo de produção”.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo site “The Intercept” [Aqui!]

Um aborto a cada quatro grávidas

A cidade em que o agrotóxico glifosato contamina o leite materno e mata até quem ainda nem nasceu

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Por Nayara Felizardo para o “The Intercept”

O FILHO DE MARIA Félix, de 21 anos, resistiu pouco mais de seis meses de gestação. Morreu ainda no ventre, com apenas 322 gramas. A causa do aborto, que aconteceu com 25 semanas de gravidez, foi má formação: o bebê tinha o intestino para fora do abdômen e também problemas no coração. Não é incomum que as mães da região percam seus filhos precocemente. O bebê de Maria, ao que tudo indica, foi mais uma vítima precoce do agrotóxico glifosato, usado em grandes plantações de soja e de milho em Uruçuí, a 459 km de Teresina, no Piauí.

O mesmo veneno que garante a riqueza dos fazendeiros da cidade, no sul do estado, está provocando uma epidemia de intoxicação com reflexo severo em mães e bebês. Estima-se que uma em cada quatro grávidas da cidade tenha sofrido aborto, que 14% dos bebês nasçam com baixo peso (quase do dobro da média nacional) e que 83% das mães tenham o leite materno contaminado. Os dados são de um levantamento do sanitarista Inácio Pereira Lima, que investigou as intoxicações em Uruçuí na sua tese de mestrado em saúde da mulher pela Universidade Federal do Piauí.

Conheci a história de Maria Félix Costa Guimarães na maternidade do hospital regional Tibério Nunes, na cidade de Floriano. É para lá que as mulheres de Uruçuí são encaminhadas quando têm problemas na gravidez. Nos primeiros exames, feitos em julho, já havia sido identificada a má-formação no feto. Em setembro, no leito do hospital, encontrei a jovem, que lia a Bíblia e se recusava a comer. Carregava um olhar entristecido, meio envergonhado. Ela tinha sofrido o aborto no dia anterior e aguardava o médico para fazer uma ultrassom e se certificar de que não seria necessária a curetagem (cirurgia para retirada de restos da placenta).

Maria não tinha condições emocionais para conversar, por isso falei com a sua tia, a intercept 2funcionária pública Graça Barros Guimarães. Ela não sabia sobre a pesquisa realizada em Uruçuí, mas acredita nos resultados apontados por Lima. “Se a gente for avaliar, o agrotóxico causa problema respiratório e de alergia. Então é claro que se a mulher tiver grávida, o bebê pode se contaminar também”.

Graça me contou que a sobrinha sempre esteve rodeada de fazendas de soja. A casa onde vive, em Uruçuí, fica a cerca de 15 km de uma plantação. Antes, ela morava na zona rural do município de Mirador, no Maranhão, onde também há plantio de soja. “Os fazendeiros tomaram conta de tudo.”

 

Laudo do ultrassom que constatou a morte do bebê. ‘A principal consequência é a atrofia de alguns órgãos’, diz o médico.Imagem: Reprodução

 Em meados de agosto estive em Uruçuí para conversar com profissionais da saúde e com os trabalhadores agrícolas. Eu queria entender como viviam as pessoas no município contaminado pelo glifosato, e se elas tinham noção de que o problema existe. Também liguei para o pesquisador Inácio Pereira Lima, que culpa o agronegócio pelo adoecimento das pessoas. “Tudo isso é consequência do modelo de desenvolvimentoeconômico em que só o lucro está em foco, independente das consequências negativas para a população”, ele me disse.

Epidemia de glifosato

O glifosato é o agrotóxico mais usado no Brasil. É vendido principalmente pela Monsanto, da Bayer, com o nome comercial de Roundup. Seus impactos na saúde humana são tão conhecidos que o Ministério Público pediu que sua comercialização fosse suspensa no Brasil até que a Anvisa fizesse sua reavaliação toxicológica. Em agosto, a justiça aceitou e o glifosfato foi proibido. A suspensão foi classificada como um “desastre” pelo ministro da Agricultura, Blairo Maggi, e foi duramente combatida por ruralistas e pela indústria.

A decisão, no entanto, foi derrubada pela justiça em segunda instância poucas semanas depois. Maggi – que também é conhecido como “rei da soja” – não escondeu o seu entusiasmo com a liberação do agrotóxico:

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A Monsanto diz que o produto é seguro, mas e-mails da empresa divulgados no ano passado mostram que ela pressionou cientistas e órgãos de controle nos EUA para afirmarem que o glifosato não causa câncer. Isso não impediu a Monsanto de ser condenada a pagar mais de R$ 1 bilhão a um homem que está morrendo de câncer nos Estados Unidos. Cerca de 4 mil ações parecidas estão em curso naquele país.

O produto representa quase a metade de todos os agrotóxicos comercializados no Piauí. O pesquisador Lima explicou que a presença da substância no leite materno indica a contaminação direta ou que as quantidades utilizadas na atividade agrícola da região são tão elevadas, que o excesso não foi degradado pelo metabolismo da planta. As mulheres estudadas por ele sequer trabalham nas lavouras: elas estão intoxicadas porque fazem limpeza, cozinham nas fazendas ou porque comeram o herbicida nos alimentos. Lima, em sua tese, explica que o organismo é contaminado pela pele e vias respiratória e oral.

Mulheres, as maiores vítimas

Pelos registros do hospital regional de Uruçuí, os abortos ocorrem geralmente em mulheres entre 20 e 30 anos, que chegam até a 10ª semana de gestação. O número elevado de casos é citado por Iraídes Maria Saraiva, enfermeira plantonista. “São muitas as mulheres que chegam com sangramento ou já com o ultrassom mostrando que o feto não tem batimentos cardíacos. A maioria desses abortos são espontâneos”, me disse.

Muitas mulheres têm a gravidez interrompida logo nas primeiras semanas. Sem saber que estão grávidas, elas seguem trabalhando cercadas pelo glifosato. Quando descobrem, já não há mais o que fazer. “Dificilmente é a primeira gravidez e elas não têm doenças pré-existentes. Quer dizer, são mulheres jovens que aparentam ser saudáveis”, observou a enfermeira.

Há ainda as que sabem que estão esperando um filho mas não podem deixar o trabalho, simplesmente porque dependem do salário. As que passam da fase mais crítica e levam a gravidez até o fim correm alto risco de ter má formação do feto.

Na maternidade de Floriano, o coordenador do setor de obstetrícia Luiz Rosendo Alves da Silva já viu muitos casos de aborto e de má-formação. Ele acredita na culpa dos agrotóxicos. “É uma contaminação lenta, gradual e diária. A principal consequência é a atrofia de alguns órgãos, principalmente coração e pulmão”.

Alanne Pinheiro, enfermeira do Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest), observa que as mulheres estão expostas aos agrotóxicos de forma mais perigosa do que os homens que trabalham diretamente na aplicação do veneno. “Elas ficam na cozinha ou fazem a limpeza das fazendas e acabam inalando o agrotóxico de forma indireta. Como não usam roupas especiais, sofrem mais o efeito da intoxicação passiva.”

PIB alto, salário baixo

A cidade de 21 mil habitantes tem as características comuns do interior, onde a vida acontece sossegada e todo mundo se conhece. Quase um terço da população vive na zona rural. No percurso de 40 km do centro até o Assentamento Flores – onde moram muitos dos trabalhadores com quem eu pretendia conversar – quase não há árvores, exceto em pontos isolados ao redor da casa grande, a sede da fazenda. A sensação é de um enorme deserto e uma riqueza distribuída entre poucos.

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Na pacata Uruçuí, mesmo quem não trabalha diretamente na agricultura está sendo contaminado. Foto: Divulgação/Prefeitura Municipal de Uruçuí

Uruçuí não é um município pobre. O PIB per capita, de R$ 49 mil, era o 2º maior do Piauí em 2015, último ano da pesquisa do IBGE. Perdia apenas para a cidade vizinha, a também agrícola Baixa Grande do Ribeiro. Mas na prática, o salário dos trabalhadores é de R$ 1.900 por mês, em média.

Quem enriquece de verdade são os fazendeiros. A maioria deles saiu do sul do Brasil para o cerrado piauiense em busca de terras e do clima ideal para o plantio de suas lavouras. Outros ocupam ou já ocuparam cargos na política como deputados ou vereadores. É o caso do ex-deputado estadual Leal Júnior, eleito três vezes para o mesmo cargo, e da vereadora de Uruçuí Tânia Fianco.

Joana* trabalhou como cozinheira na Fazenda Serra Branca há sete anos. Ela conta que o cheiro do agrotóxico chega até as trabalhadoras, mesmo quando elas não estão nos locais onde o veneno é aplicado. “Dependendo da posição do vento, a gente sentia. E se tivesse aplicando com o avião, era mais forte. Às vezes eu chegava em casa com dor de cabeça e sabia que era do veneno”, lembra ela, que prefere não se identificar. “Sabe como é, né? A gente depende das fazendas”, conforma-se. O marido ainda trabalha no agronegócio.

Se os males causados pelos agrotóxicos se limitassem às mães e aos seus bebês, o problema já seria grave o bastante, mas o sanitarista Inácio Pereira Lima faz um alerta. “Como minha pesquisa foi voltada para a mulher, coletei amostras biológicas exclusivas; por isso foi o leite. Mas, se a pesquisa fosse da população em geral, poderia optar por outro tipo de amostra como sangue ou urina. E talvez chegasse a esses mesmos resultados. Ou seja, toda a população está sob risco, e não só as mães que amamentam”, me explicou o pesquisador.

Ouvi de muitas pessoas da cidade que alguns fazendeiros não são simpáticos com quem os contraria. O conselho que todo mundo me deu foi: “Não fale com eles”. As fazendas têm seguranças armados.

Decidi ir ao escritório da Fazenda Canel, administrada pelas famílias Bortolozzo e Segnini, originárias de Araraquara, no interior de São Paulo. Eles se instalaram no Piauí há 30 anos e são os pioneiros no plantio de soja no estado. Eu queria entender a posição deles. Todos se negaram a conversar comigo. Funcionários justificaram que os responsáveis estavam “viajando para o exterior”.

Mais medo de demissão do que de doença

Na cidade onde quase todo mundo se conhece, o mesmo segredo é compartilhado. Ninguém fala para os profissionais de saúde quando sente os efeitos do agrotóxico no organismo, e dificilmente o hospital é procurado. Se a intoxicação for mais grave, os trabalhadores escondem dos médicos sua possível causa. É muito difícil detectar laboratorialmente doenças causadas por agrotóxico. Se o paciente não fala, muitas internações provocadas pelos químicos não caem na conta deles.

A enfermeira Alanne Pinheiro me disse que as pessoas têm medo de perder o emprego. “Se eles disserem que estão doentes por causa dos agrotóxicos, aquilo pode repercutir na cidade e ficar mal pro fazendeiro. Os trabalhadores têm mais medo de demissão do que de uma doença.”

Há ainda a falta de conhecimento sobre os riscos dos agrotóxicos. “Eles nem acreditam que possa acontecer algum problema grave porque os danos só aparecem a longo prazo. Não existe a percepção de que os males se acumulam e podem trazer doenças irreversíveis, como um câncer que já se descobre em metástase”, diz Alanne.

Um possível exemplo é João*, marido de Helena*. Conversei com ela porque João sai cedo para a Fazenda Nova Aliança e só chega à noite. Este ano, o trabalhador teve uma alergia nos braços, mas decidiu tratar em casa. Sem avaliação médica e sem exames, João se auto-medicou. “Acho que não foi agrotóxico, porque ele é pedreiro e não mexe com veneno. Deve ter sido por causa do cimento”, opina a mulher.

É comum que os moradores atribuam os sintomas da intoxicação a outras causas. “Os pacientes chegam com queixas vagas, como ardência nos olhos. Mas, quando a gente começa a investigar, eles não falam tudo”, comenta a enfermeira Iraídes. Nas raras vezes em que vão ao hospital, são levados por algum funcionário da fazenda. Com essa vigília, o medo de perder o emprego é maior e a saúde fica em segundo plano.

O Centro de Referência em Saúde do Trabalhador está tentando evitar o alto índice de subnotificação: eles treinam os enfermeiros e médicos para que notifiquem os casos de intoxicação quando perceberem os sintomas, independente do que afirmam os pacientes.

Tecnologia para o lucro

Geivan Borges da Silva é técnico em agropecuária e presta assessoria para muitos fazendeiros de Uruçuí. Ele defende que o uso de sementes transgênicas reduz a necessidade de agrotóxicos. “Quase 100% das áreas plantadas aqui são de variedades transgênicas, resistentes a muitos tipos de praga e ervas daninhas”, ameniza.

Na verdade, as provas científicas dizem o contrário. O dossiê sobre agrotóxicos da Abrasco, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva, mostra que o uso de transgênicos aumentou a necessidade de defensivos agrícolas. É só olhar para a soja, campeã no uso de agrotóxicos: 93% da safra é transgênica, e a quantidade de litros de produtos químicos aumentou mesmo assim.

Na região sul do Piauí, as sementes de milho, soja e algodão também são vendidas pela Monsanto, a mesma que fornece o glifosato, de acordo com o cadastro de junho de 2018 da Agência de Defesa Agropecuária do Piauí, a Adapi.

Outra tecnologia defendida por Silva é a que minimiza a disseminação do agrotóxico no ar: usa-se um produto que aumenta o peso da gota, fazendo com que ela desça diretamente na planta e não disperse com o vento. “Tudo é agricultura de precisão para reduzir os custos”, argumenta.

É certo que essas tecnologias otimizam a produção agrícola, mas elas foram incapazes de evitar a intoxicação de Emanuel*, que trabalha como operador de máquina de aplicação de agrotóxico na Fazenda Condomínio União 2000.

Após um ano trabalhando, Emanuel sentiu tontura, fraqueza, ardência nos olhos e chegou a vomitar. Quem conta essa história é a esposa dele, Rosa*. “Nós fomos pro hospital e quando saiu o resultado do exame, deu que tinha agrotóxico no sangue. A médica passou remédio, mandou ele se afastar do trabalho por um tempo e tomar muito leite”.

Emanuel melhorou, mas há três anos voltou para o mesmo ofício. “Ele já me disse que só fica até o final desse ano. Não vale a pena perder a saúde por causa de dois mil por mês”, diz Rosa. Eram 18h quando me despedi. O marido dela ainda não tinha chegado. Ele trabalha para a vereadora Tânia Fianco, do PSDB.

No Brasil, o Projeto de Lei conhecido como PL do Veneno pretende liberar mais rapidamente vários produtos, entre eles muitos que são à base de glifosato. O lobby da indústria é pesado, e ataca sobretudo a Anvisa, agência reguladora suscetível a todo tipo de pressão e que já mostrou que está disposta a fazer o jogo das grandes corporações.

*Os nomes dos trabalhadores foram alterados para preservar suas identidades.

Foto em destaque: ultrassom que constatou a má-formação no filho de Maria Félix. Ele morreu ainda no útero, com 25 semanas, por causa de má-formação no abdômen e no coração.


Esta reportagem foi inicialmente publicada pelo site jornalístico “The Intercept” [ Aqui!]

Pego com “diploma fake”, Ricardo Salles dá uma de Chacrinha

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Pego no escândalo do seu “fake” diploma de mestre pela Universidade de  Yale pelo site “The Intercept”, Ricardo Salles, o ainda ministro do Meio Ambiente do governo Bolsonaro, está lançando mão de duas conhecidas táticas de diversionismo para dar vida ao famoso lema de Abelardo Barbosa, o Chacrinha: eu não estou aqui para explicar, mas para complicar.  A primeira é lançar mão do descrédito ao jornalista que fez a matéria, imputando a ele o adjetivo que cabe ao seu inexistente título de mestre (ver reprodução de uma manifestação de Ricardo Salles em sua página oficial no Twitter).

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A segunda tática é jogar a culpa sobre a informação agora sabidamente falsa nas costas de sua assessoria que teria se equivocado ao fornecer o dado à Folha de São Paulo no longínquo ano de 2012.

Mesmo que se admita que em 2012, a assessoria de Ricardo Salles tenha se equivocado em fornecer um dado falso, o problema é que só agora ele veio a público desmentir a informação. Em suma, ficou 7 anos sendo validado por uma informação que agora diz ser “equivocada” e que só está esclarecendo porque foi fisgado pela capacidade investigativa do jornalista Leandro Demori.

Mais interessante é o fato de que o primeiro cargo público que Ricardo Salles atesta em seu “franciscano” currículo profissional na área pública que está depositado na página oficial do Ministério do Meio Ambiente é o de “secretário particular”  (seja lá isso  o que for) do governador Geraldo Alckmin, o que teria se dado apenas em 2013.  Então qual teria sido a “assessoria” de Ricardo Salles que produziu a informação sobre o diploma inexistente na Universidade de Yale?

A verdade é que se estivesse no ministério de qualquer outro presidente brasileiro, Ricardo Salles já estaria tomando o rumo de caso depois dessa revelação que lhe cobre de vergonha. Mas como estamos sob o governo Bolsonaro é possível que ele ainda resiste algum tempo no cargo.

 

Ciência fajuta e propaganda enganosa: entenda tudo o que está errado no Pacote do Veneno

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Por João Filho, para o “The Intercept”

SEMANA PASSADA, um projeto de lei que flexibiliza o uso de agrotóxicos no país foi aprovado em uma comissão especial da Câmara criada para tratar do tema. Após debates intensos, o Projeto de Lei (PL) nº 6.299/2002, conhecido como PL do Veneno, foi aprovado com uma votação avassaladora: 18 a 9. O projeto ainda passará pela apreciação do Plenário da Câmara e, em seguida, voltará para o Senado. Com a bancada ruralista aliada às bancadas da Bíblia e da bala, a expectativa é de que o projeto seja aprovado com tranquilidade.

O projeto é de 2002 e foi proposto pelo então senador Blairo Maggi, que hoje é o ministro da Agricultura. Não é difícil desconfiar de um projeto cujo autor ostenta o título de Barão da Soja e é considerado um dos maiores desmatadores da Amazônia. Maggi e sua turma querem facilitar  a aprovação e venda de agrotóxicos, além de afrouxar a fiscalização.

Usando eufemismos como  “desburocratizar” e “modernizar” processos, o projeto de lei impedirá a continuação do trabalho de entidades fiscalizadoras e excluirá os ministérios da Saúde e do Meio Ambiente da análise e registro dos agrotóxicos, deixando essa tarefa exclusivamente para o ministério comandado por Maggi. Licenças para o uso de novos venenos poderão ser aprovadas sem passar pelos testes que analisam o impacto no meio ambiente e na saúde da população.

De fato, o registro de agrotóxicos no Brasil é bem mais lento que em outros países. Enquanto aqui leva-se de 3 a 10 anos em média, os EUA e alguns países europeus conseguem aprovar em até 4 anos. Segundo a Anvisa e o Ibama, a demora se deve à falta de estrutura e escassez de recursos para a qualificação dos profissionais. Em vez de cobrar maior investimento do governo nesses órgãos para agilizar os processos de registro, a bancada ruralista se mobiliza para alterar a lei. Segue-se a mesma lógica da privatização de estatais: primeiro sucateia, depois se livra delas usando a justificativa da ineficiência.

Na prática, o PL afrouxa as regras em um país que já é considerado o paraíso desses venenos. A legislação brasileira já é altamente permissiva sobre o limite aceitável de resíduos na água e nos alimentos. Um estudo do Laboratório de Geografia Agrária da USP revela um abismo entre os níveis de resíduos permitidos na Europa e no Brasil. Aqui, a contaminação da água pelo herbicida glifosato, por exemplo, tem um limite 5 mil vezes superior ao que é permitido no continente europeu. O país ostenta o título de maior importador e consumidor de agrotóxicos do planeta. Um levantamento da Reuters revelou que grandes fabricantes internacionais vendem para o Brasil agrotóxicos que são proibidos em seus países por oferecer riscos à saúde e ao meio ambiente. Substâncias rotuladas como “altamente tóxicas” por órgãos reguladores dos EUA, por exemplo, já são vendidas normalmente no mercado brasileiro. Das 50 principais fórmulas de agrotóxicos usadas no Brasil, 22 são proibidas na União Europeia.

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência divulgou um manifesto, assinado por mais de 20 sociedades científicas, alertando para os “efeitos potencialmente catastróficos” da aprovação da nova lei para a saúde pública. No mês passado, a ONU enviou uma carta ao governo brasileiro mostrando preocupação com o PL e afirmando que ele coloca em risco uma série de direitos humanos.

De um lado do debate estão, além da comunidade científica, os partidos de oposição, ambientalistas, o Ministério Público Federal, a Fiocruz, órgãos do governo como o Inca, o Ibama e a Anvisa e centenas de entidades ligadas à saúde e ao meio ambiente. Do outro, a base aliada do governo, a bancada ruralista, o lobby dos produtores de agrotóxicos e o MBL. Enquanto o primeiro grupo se baseia no consenso da comunidade científica de que o uso indiscriminado de agrotóxicos é prejudicial à sociedade, o segundo, movido por interesses políticos e financeiros, trabalha com a desinformação.

Na comissão especial da Câmara, onde a bancada ruralista domina com ampla maioria, todos os dados científicos apresentados pelos opositores do PL e notas técnicas de órgãos de controle estão sendo ignorados.

O lobby dos agrotóxicos

O documentário “O mercado da dúvida”, baseado em livro de mesmo nome, mostra através de entrevistas com pesquisadores e historiadores científicos como se fabricam as narrativas que colocam em xeque consensos científicos. Elas costumam ser estimuladas e financiadas por quem têm a perder com algumas conclusões da ciência.

Disseminar a dúvida na sociedade em relação às pesquisas que associavam o cigarro ao câncer, por exemplo, fazia parte da estratégia adotada pela indústria do tabaco nos EUA que, durante décadas, confundiu a população por meio de intensas campanhas na mídia. Lobistas contratados por essa indústria se aproveitavam da polarização ideológica na sociedade americana para fabricar teorias conspiratórias, culpando não a ciência pela demonização do cigarro, mas as ideologias de esquerda que pretendiam sabotar o capitalismo. O modus operandi foi bem sucedido e se repetiu em outros temas importantes como o aquecimento global. A indústria do petróleo financia diversas associações de fachada e cientistas mercenários para colocar em dúvida o aquecimento da Terra, um dado que é consenso absoluto entre cientistas da área. O mesmo aconteceu com os agrotóxicos nos EUA e, agora com mais força, no Brasil.

Em depoimento para a série “Viva Sem Veneno”, a advogada da ONG Terra de Direitos, Naiara Bittencourt, afirma que não é à toa que o Brasil se tornou campeão no consumo de agrotóxicos. “Isso deriva de uma ofensiva estruturada do agronegócio, com muito poder e dinheiro envolvidos. O lobby do agronegócio se espraia nos 4 poderes. No Legislativo, através da Frente Parlamentar da Agropecuária, que ocupa 40% do congresso nacional e que, aliada a outras bancadas, consegue aprovar suas propostas com facilidade. No Executivo, através da ocupação de ministérios emblemáticos como Agricultura, Casa Civil e Justiça. No Judiciário, através da captura de juízes por meio de patrocínio de eventos, festas e encontros de magistrados brasileiros. A Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA) é um interlocutor prioritário para os magistrados na temática agrária, com forte poder de influência nas decisões. Muitos juízes são proprietários de terra e ruralistas. Há também o lobby na grande mídia.”

O publicitário Nizan Guanaes sempre foi um defensor dos alimentos orgânicos e chegou a escrever para a Folha de S. Paulo frases como “a comida do futuro é orgânica. (…) As pessoas estão cada vez mais preocupadas em comer e em dormir livres de substâncias químicas. (…) A Califórnia não é apenas o centro de tecnologia do mundo. Se você for a San Francisco, verá como a alimentação orgânica está tomando a cidade.”

Mas as coisas mudaram, e o publicitário se converteu ao agronegócio. Recentemente ele foi contratado pela CNA para criar uma nova estratégia de comunicação e dar uma repaginada na imagem dos agrotóxicos. “Só chamar agrotóxico já mostra que o setor se comunica mal. Meu papel é fazer o setor se comunicar melhor, nem canonização nem satanização”, afirmou o publicitário. Uma das propostas da lei é justamente alterar a nomenclatura para “defensivos fitossanitários” e, assim, escamotear a toxicidade dos venenos agrícolas.

Um relatório publicado pela ONU no ano passado trouxe dados confirmando o efeito devastador dos pesticidas na saúde do homem e no meio ambiente. O documento afirma também que as corporações produtoras de agrotóxicos trabalham com a desinformação, já que “negam sistematicamente” os danos causados e suas “estratégias de marketing antiéticas continuam iguais”. O relatório conclui também que é possível alimentar as 9,6 bilhões de pessoas que vão habitar a terra em 2050 sem o uso dos agrotóxicos, derrubando assim um dos principais argumentos do lobby da indústria.

Em colunas em defesa do PL do Veneno, o jornalista Leandro Narloch e o tucano representante do agronegócio Xico Graziano citaram como fonte dois pesquisadores que vão na contramão do que aponta a comunidade científica: Edivaldo Velini e Caio Carbonari, da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Ambos defendem o PL e afirmam que a presença de agrotóxicos nos alimentos têm diminuído ao longo do tempo. Grande parte das pesquisas de Velini sobre agrotóxicos foram financiadas por grandes indústrias de agrotóxicos e de sementes transgênicas, como a Arysta Lifescience, a Basf e a Syngenta. Mesmo com tantas conexões com a indústria, o pesquisador não vê conflito de interesses em ser integrante da CTNBio, órgão que regulamenta a política de biossegurança no país e do qual já foi presidente.

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Algumas das pesquisas de Edvaldo Velini que foram financiadas por fabricantes e distribuidoras de agrotóxicos.  (Imagem/Reprodução: CNPq)

 

O outro pesquisador citado, Caio Carbonari, foi orientando de Velini e também participou com ele de algumas pesquisas patrocinadas pela indústria dos agrotóxicos. Os dois são figurinhas carimbadas em congressos e eventos organizados pelo agronegócio.

Professor Edivaldo Velini dando entrevista para uma newsletter da Monsanto em 2011.  (Imagem/Reprodução)

Já o MBL vem cumprindo com louvor o papel de assessoria de comunicação da bancada ruralista. Nas redes sociais, o grupo tem ignorado a posição da comunidade científica e disseminado a ideia de que os agrotóxicos existem para salvar nossas vidas. Eles têm atuado com afinco na criação de vídeos defendendo o PL e memes ridicularizando quem se opõe, sempre tratando a questão fundamentalmente como uma disputa entre a esquerda (representada por eles como hippies e artistas idiotas) e a direita (representada por quem quer trabalhar, produzir e movimentar o PIB do país).

Em vídeo publicado em janeiro, o grupo que nutre ojeriza às agências de checagem de dados apresentou seus próprios dados para defender o uso dos venenos agrícolas. Kim Kataguiri sustentou sua argumentação com uma única fonte: o livro “Agradeça aos agrotóxicos por estar vivo”, de Nicholas Vital, um jornalista que presta serviços para empresas ligadas ao agronegócio.

O lobby dos venenos agrícolas cresce no país à medida em que o mercado internacional passa a ser cada vez mais regulado e restritivo. Enquanto a tendência mundial é trabalhar para reduzir e proibir uso de alguns agrotóxicos, como na Europa, EUA e até na China, o Brasil acelera fundo na direção do obscurantismo. A nova lei irá impulsionar ainda mais a farra no uso dessas substâncias e reforçará a fama brasileira de paraíso dos agrotóxicos.

FONTE: https://theintercept.com/2018/07/08/ciencia-fajuta-e-propaganda-enganosa-entenda-tudo-o-que-esta-errado-no-pl-do-veneno/

The Intercept publica matéria prevendo possível “crash” das bolsas mundiais

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Em outra excelente matéria, o site “The Intercept” analisa a atual situação das bolsas mundiais e do grave risco que ocorra um novo crash nos moldes daquele que ocorreu em 1929.

Esse tipo de análise é fundamental para que entendamos, entre outras coisas, porque a burguesia brasileira está neste momento realizando uma série de ataques virulentos contra os direitos dos trabalhadores, a começar pelo tal “Manifesto Brasil 200 anos” impulsionado pelo proprietário das Lojas Riachuelo, Flávio Rocha [1].

Entender o que está acontecendo nas bolsas mundiais e ligar esse processo às tentativas de obter uma completa regressão nos direitos dos trabalhadores brasileiros é uma tarefa fundamental neste momento.

Por fim, quero ressaltar o papel da mídia corporativa no processo de desinformação que grassa em relação às bolsas mundiais. Assistindo à programação da Globo News que tratava desse assunto, uma “analista” global tentou gerar algum otimismo ao afirmar que “as bolsas são uma coisa e a economia real é outra” e que não haveria assim motivos para pânico. Nâo é à toa que prefiro assistir canais internacionais como a Rede CNN para tentar entender o que está realmente acontecendo na economia mundial. É que por aqui na mídia corporativa brasileira a miséria intelectual é profunda demais para se levar a sério o que é dito pelos “analistas” de plantão.

O MUNDO JÁ ESQUECEU AS LIÇÕES DE 2008: UM GRANDE CRASH NAS BOLSAS VEM AÍ E VAI SER MUITO PIOR

NEW YORK, NY - FEBRUARY 2: Traders and financial professionals work on the floor of the New York Stock Exchange (NYSE) at the closing bell, February 2, 2018 in New York City. The Dow dropped 250 points at the open on Friday morning. The Dow plunged over 660 points on Friday, marking its biggest one day plunge since June 2016 following the Brexit vote. (Photo by Drew Angerer/Getty Images)

Por Alexandre Rodrigues

QUATRO TRILHÕES DE DÓLARES sumiram das bolsas de valores no mundo todo na última segunda. A queda do Dow Jones foi a pior em seis anos. O índice que reúne as 100 principais empresas da bolsa de Londres não via números tão ruins em dez meses. Mesmo a resiliente Bovespa, que sobe até depois da nota de crédito do Brasil ser rebaixada, caiu 2,5%. Nesta quinta-feira, nova porrada, com quedas expressivas – chamadas de mini-crash – nas principais bolsas do mundo. Em apenas dois pregões, a prática se mostrou muito diferente do que foi dito no frio de Davos, duas semanas atrás, quando a elite financeira mundial proclamou 2018 o ano do otimismo. Os mercados deram um sinal de que não é bem assim.

Como definir o que virá quando tudo virar de pernas pro ar? “Vai ser agonizante”, aposta Forester.

A queda é um indicativo do que parece cada vez mais inevitável, estamos próximos de um crash nas bolsas mundiais, de proporções ainda não mensuráveis. Na terça-feira, analistas passaram o dia tentando entender o derretimento dos mercados com seus humores confusos e não parecem ter chegado a conclusão nenhuma.

Há pelo menos dois anos, não só os pessimistas de sempre, mas também os menos alarmistas como o gestor suíço Marc Faber e o americano Tom Forester, alertam que uma nova crise vem aí. Michael Burry, que adivinhou o estouro da bolha imobiliária americana em 2008 e é interpretado por Christian Bale no filme “A Grande Aposta”, é outro.

Como definir o que virá quando tudo virar de pernas pro ar? “Vai ser agonizante”, aposta Forester.

Questionado sobre o que acontecerá, o mega investidor Jim Rogers disse: “quando as coisas começam a ficar realmente ruins, as pessoas vão ligar e dizer: ‘Você deve me salvar. É civilização ocidental. Ele vai entrar em colapso’. E o banco central americano, formado por burocratas e políticos, dirá: ‘Bem, é melhor fazer alguma coisa’. E eles vão tentar, mas não vai funcionar dessa vez”.

Os profetas de bolhas

Há dois tipos de profetas das bolhas, os que, como um relógio quebrado, apostam o tempo todo que as coisas vão piorar e acertam de vez em quando e aqueles com menos previsões, mas um índice maior de acertos. Todos os nomes citados acima estão no segundo grupo, mas, para alegria de quem ganha dinheiro, os mercados evitam até agora armadilhas como a crise das bolsas chinesas de 2015-2016, mantendo a alta. O problema está em como isso vem se sustentando.

É como dopar um camundongo. É lógico que ele vai correr mais rápido, mas uma hora o coração explode.

Desde a quebra do banco americano Lehman Brothers, em 2008, com todo o sistema em perigo, os governos de George W. Bush e Barack Obama e também de outros países injetaram 9 trilhões de dólares de dinheiro público na economia mundial, assumindo os riscos do sistema bancário enquanto os bancos centrais em toda parte jogavam as taxas de juros no chão. Deu certo – dinheiro barato e sem risco, como não? Os Estados Unidos saíram do coma em 2009. A recuperação foi lenta, mas chegou.

O mercado? O índice Dow Jones mais que dobrou. Nasdaq subiu 50% só nos últimos três anos. Quando a bolha imobiliária estourou, Netflix, Spotify, AirBnb e Uber (pode botar nesse grupo o Facebook) sequer existiam ou eram empresas das quais quase ninguém tinha ouvido falar, mas contaram com o dinheiro fácil e juros baixos para crescer. Alphabet (dona do Google), Apple, Microsoft e Amazon se tornaram as empresas mais valiosas da história.

Enquanto isso, os juros continuam baixos e notícias como o corte de impostos, aprovado em dezembro por Donald Trump, além de beneficiar os mais ricos, dobram a aposta do estímulo para as empresas. Nessa turma não tem ninguém defendendo disciplina. Em Davos, o FMI elogiou a renúncia fiscal, assim como o organizador do Fórum, Klaus Schwab, alegando que ela vai impulsionar a economia mundial. E não importa quanta bobagem Trump faça na Casa Branca ou diga no Twitter: as bolsas sobem forte desde sua posse.

Brasileiros conhecem bem essa situação.

As economias crescem e a alta das bolsas do mundo todo – a exemplo dos últimos PIBs da ex-presidente Dilma Rousseff – são sustentadas no dinheiro farto e numa taxa de juros ultra baixa, e não numa boa gestão. É como dopar um camundongo. É lógico que ele vai correr mais rápido, mas uma hora o coração explode. Mesmo assim, tudo o que políticos e investidores não querem é parar com o doping.

Sobe, desce, sobe, despenca

Então começam as instabilidades. Em 2006, eu era um dos milhares de pequenos investidores que surfavam com as poucas economias que tinham na bolha das commodities. A Bovespa não parava de subir. Lá pela metade do ano, começaram do nada uns pregões muito tensos e isso esmigalhava os nervos de todo mundo. Os fóruns de discussões enlouqueciam. Abundavam as teses, mas ninguém tinha respostas pra nada. Aí o frisson passava e parecia que tudo voltava ao normal, como foi o caso do começo dessa semana. A Bovespa recuperou na terça quase tudo o que perdeu na segunda.

Olhando para trás, foram os primeiros sinais de que algo que todo mundo tentava ignorar – uma bolha imobiliária nos Estados Unidos – não era brincadeira. Vinha nova alta, tudo era mais ou menos esquecido, então a próxima queda era mais forte. Quando ficou claro que a bolha estourou, o mundo inteiro estava em ponto de pânico.

É assim que funciona

Robert Schiller, professor da Universidade de Yale e ganhador do prêmio Nobel de Economia, estudou a “segunda-feira negra” de outubro de 1987, quando a bolsa americana caiu 20% em um dia. Milhares de questionários foram enviados a investidores dias depois do pânico perguntando a eles o que aconteceu.

Basicamente, como agora, a economia não passava confiança e se espalhou a certeza de que uma hora a bolsa ia cair. Na hora certa, todo mundo saiu correndo. Schiller acha que por enquanto a bolha é pequena, mas tem alertado sem parar que o risco se compara ao de 1929, quando a bolsa quebrou.

O problema de adivinhar quando uma bolha estoura é que – como a bolha de sabão – as financeiras nem sempre se comportam como deveriam. Mas nada nos impede de especular (é o que se faz nas bolsas, afinal). Os cálculos vão de uma queda de 18%, considerada normal, à previsão de que as ações vão perder metade ou mesmo 80% do valor. E há as catástrofes limítrofes do caos, como um crash igual ao da segunda-feira negra de Schiller até a quebra da bolsa como em 1929.

Não deve chegar a tanto, hoje o mercado é muito mais regulado. Mas, olhando o tamanho das quedas dessa semana, um recuo de 50% basta para evaporar mais de 40 trilhões de dólares e jogar o mundo inteiro no caos.

Por enquanto, apenas confetes

Em Davos, com uma ou outra voz discordante, não teve discurso para alertar que as economias estão indefesas. Enquanto se joga confete, as taxas de juros estão no chão e numa nova crise não haverá onde cortar. No caso do Brasil, em 2008, quando o efeito do estouro da bolha imobiliária chegou aqui, a dívida pública era de 53% do PIB. Lula entrou gastando e a crise recuou. Esse ano, chegará a quase 75% e subindo…

Aqui e lá fora os mercados sabem de tudo, mas jogam com o medo alheio. A explicação oficial é que os países ainda estão frágeis para se cortar os estímulos, e há certa razão nisso. Com os bancos centrais enfronhados nas economias, a hora de sair é uma aposta incerta. E, se algo der errado, a economia americana hoje tem no comando pessoas que ninguém sabe se são capazes para enfrentar crises.

Um recuo de 50% basta para evaporar mais de 40 trilhões de dólares e jogar o mundo inteiro no caos.

Mas agora, pelo menos nos Estados Unidos, o mercado vê o Fed, o BC local, obrigado a agir. Pela primeira vez em dez anos os salários aumentaram. Boa notícia. Até pouco tempo a recuperação não tinha tocado na desigualdade americana. O país já vive o pleno emprego, fazendo as empresas precisarem pagar mais para contratar e permitindo que as pessoas possam ir para vagas melhores.

Com salários mais altos, mais dinheiro circula, o consumo aumenta e vem a inflação. O processo natural é aumentar a taxa de juros e conter o crescimento agora, mas evitar a crise pior depois, o que Dilma não fez e olha onde viemos parar. Desde 2015, o Fed aumenta os juros americanos, mas devagar, para não atrapalhar a economia. O previsto é que os EUA vão crescer 1,5% ao ano nos próximos dez anos. A metade do que é hoje.

Os últimos dados indicam que, com salários maiores, o processo deve se acelerar, o que aumentará o rendimento dos títulos do governo americano, cotado pela taxa de juros, roubando dinheiro do mercado de ações.

Em geral, é o fim da festa nas bolsas e a razão por que vamos ver muitos dias de ânimos sensíveis. Segurem-se nas poltronas.

Imagem em destaque: Corretores na bolsa de Nova York em 2 de feve

FONTE: https://theintercept.com/2018/02/09/crash-queda-bolsas-pior-2008/


[1] http://felipevieira.com.br/site/tag/manifesto-brasil-200-anos/

The Intercept Brasil lança o “Malta Files” e joga mais luz sobre os processos de evasão fiscal e lavagem de dinheiro por políticos e empresas brasileiros

O site The Intercept lançou hoje uma série composta por 3 artigos assinados pelos jornalistas Ruben Berta, Lúcio de Castro e Andrew Fishman sobre um  levantamento realizado pelo consórcio European Investigative Collaborations (EIC), que reúne 14 veículos de comunicação e 48 jornalistas de 16 países.  Os artigos mostram os meandros que envolvem as dezenas de milhares de firmas criadas em Malta nos últimos 20 anos, incluindo várias corporações brasileiras, e que estão envolvidas na evasão de recursos e lavagem de dinheiro.  O material também joga luz sobre a atuação de algumas figurinhas carimbadas da Lava Jato como José Dirceu e o onipresente ex (des) governador do Rio de Janeiro, o hoje presidiário Sérgio Cabral.

Para quem quiser ler este interessante material, basta clicar  (Aqui!)