Os caminhos tortuosos da “trash science”: o apelo ao ego como estratégia para fisgar pesquisadores incautos

Não é novidade que a adesão de muitos pesquisadores à revistas “trash” está ligada à necessidade de mostrar números que os possibilite a galgar posições, obter financiamentos e adquirir algum tipo de notoriedade.  Mas isso não quer dizer que não existem estratégias adicionais que as editoras responsáveis pela disseminação do lixo científico usam para atrair incautos para suas conferências caça-niqueis e, posteriormente, para suas revistas. Uma das estratégias favoritas que eu venho sendo agraciado é o de apelar para o ego dos pesquisadores, e a tática favorita para fisgar os interessados é o súbito aparecimento para cumprir o papel normalmente nobre de ser um “keynote speaker“, o que equivale a ser um orador principal em uma dada conferência. Nem é preciso dizer que essa é uma função normalmente ambicionada, pois dá destaque e notoriedade a quem a cumpre.

Para deixar mais claro, posto um convite que me chegou no dia de hoje para ser um “keynote speaker” na “4th International Conference on Biodiversity” que ocorrerá entre os dias 15 e 17 de Junho na aprazível cidade de Las Vegas, que o site da conferência identifica como sendo a capital internacional do entretenimento.

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Como nunca ouvi falar dessa conferência, fiz o que qualquer pesquisador responsável faria: identifiquei o grupo OMICS International como organizador da conferência, e depois disso fui consultar a lista preparada pelo Professor Jeffrey Beall da University of Colorado Denver para identificar publicadores predatórios (Aqui!). E não deu outra:  o OMICS International aparece listado como responsável por publicações predatórias. E ao verificar o site da própria OMICS International pude ver a clara conexão entre as múltiplas conferências que o grupo organiza e quase 500 periódicos “trash”!

Em face de um exemplo recente que foi identificado pelo jornalista Maurício Tuffani que descobriu a conexão entre uma conferência caça-niqueis na UNICAMP como o turbinamento de CV Lattes dos participantes a partir da publicação de artigos apresentados no evento em uma determinada revista ligada ao organizador do evento (Aqui!), acho pertinente perguntar quantos outros pesquisadores na área dos estudos da conservação receberam este mesmo convite e tiveram o cuidado que eu tive. É que baseado nas evidências sendo levantadas pelo jornalista Maurício Tuffani, não é improvável que pedidos de auxílio de viagem internacional para participar dessa conferência já não estejam sendo preparados neste momento para enviar à CAPES e ao CNPq.

Do “Salami Science” ao “Trash Science”: como pudemos afundar tanto e tão rápido no precipício da ciência predatória?

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Em 14 de Dezembro de 2013 usei o espaço deste blog para tratar do problema do “Salami science” que é uma prática bastante conhecida de partir uma mesma pesquisa em diversas publicações com fins de aumento de pontos na comunidade científica (Aqui! e Aqui!). Naquele momento, o número de acessos foi relativamente baixo e a repercussão entre os meus pares na Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) foi marcada por uma indiferença quase total. Apenas uns poucos colegas se dispuseram a comentar sobre o que eu estava apontando, e esses eram normalmente os que não tinham a prática de fatiar para multiplicar suas pesquisas. Em suma, quem não devia é que se dispôs a refletir sobre um problema que se espraia pela comunidade científica mundial.

Mas eis que menos de dois anos depois das minhas postagens, nos vemos defrontados com algo muito pior do que o “Salami science” que é a prática ainda mais nefasta (como se o “Salami science” já não fosse extremamente danoso e antiético) que é da publicação de pseudo-artigos em editoras especializadas em publicar lixo científico. Mais uma vez o que eu tenho visto é um silêncio quase ensurdecedor que normalmente ocorre quando ninguém quer falar sobre um crime praticado por uma facção criminosa dentro de uma das centenas de milhares de comunidades carentes que existem no Brasil.

Mas o problema aqui é que não estamos falando de gente pobre e esquecida pelo Estado brasileiro. Aliás, muito pelo contrário, pois ainda são raros os pesquisadores que saíram das camadas mais pobres da população para ocuparem postos em universidades públicas e centros de pesquisa de excelência. E, apesar dos pesares e eles são muitos, ainda há bastante dinheiro público circulando para incentivar a produção da ciência no Brasil.

Então por que este fenômeno de mutismo frente à disseminação de lixo científico que serve para turbinar currículos na Base Lattes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e que serve para determinar progressões funcionais, concessão de bolsas de mérito por produtividade científica, e financiamentos de projetos de pesquisa como corretamente apontou em artigo recente (Aqui!) o jornalista Maurício Tuffani? Ao menos para mim, esse silêncio é explicado pela inaptidão da universidade brasileira de exercer o elemento básico da autocrítica que, pasmemos todos, é um dos bastiões da construção de sistemas universitários sólidos. E, além disso, esse silêncio revela que poucos estão dispostos a nadar contra a corrente, pois sabem que esse exercício traz mais riscos do que prêmios.

Agora, um fato que não pode ser escondido é de que ou os dirigentes da CAPES e do CNPq tomam medidas drásticas para banir as publicações predatórias do Qualis Capes para restabelecer critérios de credibilidade nesse ranking ou estaremos diante de um precipício bem fundo, de onde poucos conseguirão se levantar. E o problema é que mesmo na atual fase do Capitalismo, marcado pelo domínio das operações financeiros, a produção de ciência de excelente qualidade é a única forma das universidades contribuíram para o desenvolvimento nacional. Se abdicarmos de cobrar que não premie o lixo científico que bate nas nossas portas com a volúpia em que o lixo urbano invade nossos rios e baías, é melhor logo fechar as portas e partir para outra atividade que seja menos exigente em termos de critérios de validação.

Sob o eco do “trash science”, CAPES incentiva participação em conferência mundial sobre integridade na pesquisa

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Tem horas que eu fico em dúvida sobre se estou diante de coincidências ou não, mas acabo de receber (e já até fiz minha inscrição preliminar) numa conferência que ocorrerá na cidade do Rio de Janeiro entre os dias 31 de Maio e 03 de Junho com um tema que é mais atual do que nunca “integridade na pesquisa”.

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Espremida pelas críticas que estão surgindo na comunidade científica (Aqui!) e de investigações jornalísticas sérias (Aqui!) de que a coisa não anda bem na qualidade da produção científica gerada no Brasil, a CAPES agora divulga e incentiva a participação numa conferência sobre integridade científica. 

O inglês, essa língua tão fascinante por sua capacidade de síntese, tem uma expressão que cabe bem para essa situação, que é o “very timely” que quer dizer “muito oportuno”, ou como dizem os mais jovens “da hora”. 

Agora, você esperar que além de incentivar a participação nesta conferência, a CAPES também faça uma revisão profunda no sistema de qualificação dos periódicos no sistema “Qualis”. É que não adianta convidar para que saibamos algo que já deveria ser sabido, e não se comece imediatamente a tomar as medidas profiláticas que a realidade já demonstrou serem necessárias para evitar a disseminação do lixo cientifico na ciência brasileira. É que depois não vai adiantar tentar colocar tramela em porta arrombada.

Para quem não conhece, um dos conferencistas que deverá estar presente na conferência é o professor da University of Colorado-Denver, Jeffrey Beall, que é um dos maiores especialistas internacionais na identificação de pseudo artigos científicos, mas que não passam de trash science”. Talvez com a presença do Prof. Beall, comecemos a aprender mais sobre quão atolados estamos no pântano do lixo científico e das publicações predatórias. Aliás, para aqueles que ainda não conhecem a “lista de Beall” de editoras e revistas envolvidas na disseminação de “trash science”, basta clicar (Aqui!).

 

 

Avaliação de revistas científicas no Brasil é ‘quântica’

Por MAURÍCIO TUFFANI

 Publication

O grupo editorial alemão Springer, um dos maiores do mundo na área acadêmica, abriu na recente sexta-feira 13 uma investigação sobre uma de suas revistas, a Cell Biochemistry and Biophysics”. Em um comunicado em seu site, o publisher sediado em Berlim afirmou que “a integridade científica do periódico não pode ser garantida”, na medida em que uma apuração interna revelou “um padrão inadequado e comprometido” de seu processo de revisão de artigos científicos.

Um porta-voz do Springer afirmou que o grupo editorial não dará mais informações a respeito do assunto enquanto não for concluída a investigação sobre a revista, informou o blog norte-americano “Retraction Watch”, que monitora correções e retratações de artigos de revistas científicas.

O grupo Springer não pode ser comparado as editoras de reputação duvidosa que têm sido assunto deste blog. O post mais recente sobre isso foi “Pós-graduação brasileira aceita 201 revistas “predatórias’” (9.mar). Mas constatei que com a “Cell Biochemistry and Biophysics” acontece também um fenômeno interessante que observei em algumas das publicações desses “publishers predatórios” em sua classificação no Qualis Periódicos, da Capes (Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).

Ao mesmo tempo que recebeu A2, a segunda maior classificação no Qualis, a “Cell Biochemistry and Biophysics” obteve também o grau C, o mais baixo de todos, que se aplica a publicações que nem sequer atenderem a requisitos meramente formais de edição.

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É importante observar também a pontuação 2,380 dessa revista no chamado fator de impacto, que é um indicador de qualidade referente à média de citações de artigos de um periódico. Comparado ao das publicações científicas brasileiras, esse número é superado apenas pelo da primeira colocada no ranking nacional, a “Diabetology & Metabolic Syndrome” (2,500), e com boa vantagem sobre a segunda colocada, que é a “Revista Brasileira de Psiquiatria” (1,638).

UPara ter uma ideia do que significa da tabela acima, vale a pena ler o artigoO Qualis e a rotina editorial dos periódicos científicos, publicado na terça-feira (10.mar) pela revista “ComCiência”, da Unicamp, por Mônica Frigeri, professora na Puccamp, e por Marko Monteiro, do Instituto de Geociências da Unicamp. Copio aqui um trecho que explica isso.

“As classificações do Qualis são publicadas trienalmente, a partir de critérios definidos pelos comitês de áreas da Capes3, constituídos por membros da comunidade científica. Cada área possui os seus critérios na definição dos estratos dos periódicos que podem ser A1 (nível mais alto), A2, B1, B2, B3, B4, B5 e C (com peso zero).”

Isso significa que para alguns comitês assessores da Capes —entre eles dois de biologia— a “Cell Biochemistry and Biophysics” é muito boa, enquanto para outros —um deles também de biologia— a revista é muito ruim.

Incerteza

Em conversas minhas com alguns pesquisadores sobre casos de classificações esdrúxulas como essa, referentes a “periódicos predatórios”, e não à revista do Springer, houve uma piada recorrente, inspirada grosso modo na mecânica quântica. Grosso modo, essa teoria explica que a observação de um fenômeno é influenciada pelo próprio observador. (Uma boa abordagem sobre essa teoria está em Partículas telepáticas”).

A piada é que, assim como na interferência na observação pelo próprio observador a que se refere a mecânica quântica, a avaliação de um periódico no Qualis parece também ser influenciada do olhar dos integrantes dos comitês assessores da Capes. Foram em média 20 consultores para cada um dos 48 comitês dessa agência do MEC na avaliação trienal do período 2010-2012, concluída em 2013.

Pode ser que a Capes, seus comitês assessores e muitos pesquisadores não vejam nada de engraçado nessa piada. O problema é que parece crescer cada vez a indignação dos que não vêm nada de sério nessa e em outras esquisitices do Qualis.

FONTE: http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/03/16/avaliacao-de-revistas-cientificas-no-brasil-e-quantica/

Trash science no Qualis CAPES: o problema é grave!

Pós-graduação brasileira aceita 201 revistas ‘predatórias’

POR MAURÍCIO TUFFANI
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Acusados no exterior de publicarem artigos científicos sem o rigor e o cuidado dos publishers tradicionais, 11 editores acadêmicos estrangeiros têm juntos pelo menos 201 periódicos cadastrados na mais  recente avaliação trienal(2010-2012) da pós-graduação brasileira, realizada em 2013 pela Capes (Coodenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), órgão do MEC (Ministério da Educação).

Essas 201 revistas estão na base de dados online Qualis Periódicos, da Capes, que reúne cerca de 30 mil títulos e serve para orientar pesquisadores, professores e pós-graduandos a escolher publicações científicas para seus trabalhos.

Já havia na internet alertas de instituições e cientistas e também reportagens sobre esses 11 editores antes de suas revistas serem avaliadas por 48 comitês assessores, cada um deles com um coordenador e dois coordenadores adjuntos —eleitos por comissões de pós-graduação de todo o país—, com o apoio de, em média, 20 consultores. O trabalho envolveu cerca de 2 mil especialistas.

Falha grave

A inclusão de revistas desses 11 publishers predatórios no Qualis foi considerada como “falha grave” da Capes por 15 cientistas de renome do Brasil ouvidos por este blog nas duas últimas semanas. Quase todos eles, no entanto, preferiram não serem identificados para não se indisporem com a agência do MEC e, sobretudo, com os próprios colegas e suas respectivas equipes que publicam nessas revistas.

As avaliações trienais se baseiam em informações sobre periódicos em que foram publicados artigos no período de apuração, conforme informações prestadas por todas as comissões de pós-graduação. A não inclusão deles no Qualis significaria que artigos publicados neles não contariam pontos para a ascensão na carreira acadêmica nem para solicitar bolsas e apoios a pesquisas, viagens e participações em conferências.

Para 11 desses 15 entrevistados, a responsabilidade pela inclusão dessas revistas no Qualis se deve muito mais a grande parte das lideranças científicas do país, que deveriam impedir, em seus grupos de pesquisa, a publicação de artigos em revistas desses editores “predatórios”. Todos eles consideraram prejudicial para a pós-graduação e para a pesquisa do Brasil a publicação nesses periódicos que são desprestigiados e praticamente desconsiderados pela comunidade científica internacional.

Baixa qualidade

Uma das exceções a esse anonimato foi o biólogo Sidarta Ribeiro, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e um dos mais respeitados pesquisadores brasileiros em neurociências. Em junho do ano passado, ele já havia criticado a Capes por “valorizar a quantidade em detrimento da qualidade”, em uma nota na revista “Nature, uma das mais bem conceituadas do mundo, que o escolhera para comentar a ciência brasileira.

Destacando que pesquisas exigem tempo e investimentos em equipamentos, materiais e salários —quase totalmente custeados por recursos públicos no Brasil—, Ribeiro afirmou que trabalhos científicos importantes correm alto risco de serem desperdiçados quando são publicados em periódicos de baixa qualidade. “Essas revistas nunca poderiam ter entrado no Qualis”, disse o neurocientista.

Na sexta-feira (6.mar), como mostrou este blog com o post Falso professor edita revista selecionada pela Capes, três dessas revistas são editadas pela IACSIT (International Association of Computer Science and Information Technology ), sediada em Singapura. Questionado por este blog, Ron Wu, diretor-executivo desse publisher, afirmou o seguinte.

“Por sermos uma editora nova, temos de admitir que não temos comparação nenhuma com as editoras de renome, que têm melhores apresentações, artigos publicados e processo de revisão mais maduro em todos os aspectos dos periódicos. A IACSIT ainda está crescendo, e acho que vamos fazer melhor no futuro.”

Corrupção

Os “publishers predatórios” são caracterizados em sites de instituições de pesquisa e em blogs de cientistas de diversos países como empresários que exploram sem rigor científico o modelo editorial de publicação de artigos em acesso aberto na internet, baseado na cobrança de taxas de autores.

Tanto no acesso livre online, com taxas pagas por autores, como no tradicional modelo mantido por assinaturas anuais ou pela cobrança por artigo baixado pela internet, os periódicos bem conceituados demoram meses e até mais de um ano para analisar e aceitar artigos, ou rejeitá-los.

Acusados de priorizarem a minimização dos custos e a maximização dos lucros, os “publishers predatórios” não só reduzem a poucas semanas o intervalo entre a apresentação e a aceitação de artigos, mas também são menos seletivos e rigorosos nesse processo, como explicou a repórter Fernanda Perrin em sua reportagem Pagou, publicou, na Folha em 25 de janeiro.

Esses editores se concentram em atender às expectativas dos autores de publicação rápida e fácil, mas ignorar a necessidade da sociedade de somente serem publicadas pesquisas de boa qualidade, segundo o biblioteconomista Jeffrey Beall, professor da Universidade do Colorado em Denver, que mantém desde 2011 uma lista de “potenciais, possíveis ou prováveis publishers predatórios” em seu blog “Scholarly Open Access”.

“Quanto mais artigos eles aceitam e publicam, mais dinheiro eles fazem”, disse Beall. “A prática de autores que fazem pagamentos aos periódicos criou muita corrupção na publicação acadêmica”.

‘Caça-níqueis’

Além de suas revistas, alguns “publishers predatórios” também descobriram uma nova forma de ganhar dinheiro com eventos. No Brasil, 116 conferências científicas no Rio de Janeiro, agendadas para o mesmo mesmo hotel nos dias 1 e 2 de fevereiro de 2016, foram organizadas pela Waset (World Academy of Science, Engineering and Technology), como mostrou a reportagem Eventos científicos ‘caça-níqueis’ preocupam cientistas” (3.mar).

Apesar da palavra “academia” em seu nome, a Waset é uma editora. Embora divulgue ter sede em Riverside, nos EUA, seu telefone para contato, e somente por SMS, é um celular dos Emirados Árabes Unidos. E, além de inválidos, os quatro registros de suas revistas no Qualis são da Turquia, segundo o cadastro internacional numérico de periódicos ISSN, sediado em Paris.

Sites como o do Laboratório de Tecnologia Quântica, da Universidade de Tecnologia de Queensland, na Austrália, da ENNS (Sociedade Europeia de Redes Neurais) e blogs de cientistas reúnem depoimentos negativos contra a Waset.

Os relatos explicam que as conferências em série se tornam uma só, juntando especialistas de áreas diferentes e servindo apenas para a editora lucrar com taxas de inscrição. A Waset não respondeu às perguntas enviadas terça-feira (2.mar) por este blog sobre esses depoimentos.

Rejeição

Os posicionamentos de instituições contra “publishers predatórios” não acontecem somente em países com forte tradição científica e de publicação acadêmica, mas também nos chamados emergentes.

Como mostrou este blog no sábado (7.mar) com o post “Na ciência, o ruim para a Malásia é bom para o Brasil”, desde 2010 Ministério da Educação Superior daquele país não reconhece artigos de seus pesquisadores em revistas da editora acadêmica nigeriana Academic Journals —que usa nome semelhante ao da norte-americana Academic Journals Inc.— e também não dá apoio para a publicação de estudos nelas.

Mas no Brasil 13 revistas da Academic Journals estão no Qualis, apesar de alertas na internet sobre a má qualidade de publishers acadêmicos da Nigéria em veículos sobre a comunicação científica, como o “SciDev.Net” (21.jan.2013), e pela própria “Nature” (27.mar.2013). Também desde 2010 vários informativos acadêmicos da Malásia já incluíam essa editora em seus lembretes sobre os periódicos não reconhecidos pelo sistema de educação superior do país devido a práticas antiéticas e outras razões.

A Academic Journals não respondeu às perguntas deste blog enviadas na terça-feira (3.mar) por meio de seu formulário “fale conosco”, típico de muitos dos publishers acadêmicos mal-conceituados, que não fornecem e-mail para contato.

Confusão

Outra exceção ao anonimato entre os cientistas que se manifestaram contra a aceitação de “periódicos predatórios” no Qualis foi o físico Roland Köberle, professor aposentado da USP de São Carlos e membro da Academia Brasileira de Ciências. “É muito estranho esse fato”, disse o pesquisador referindo-se à inclusão da editora Waset, de Singapura, pela Capes. Segundo ele, o Qualis tem obrigação de alertar seus usuários sobre revistas fraudulentas.

Além de revistas “predatórias” serem aceitas no Qualis, elas muitas vezes também recebem diferentes classificações de seus 48 comitês de áreas. Um dos exemplos esdrúxulos dessa multiplicidade de avaliações, que não são raros, é o do JMPR” (“Journal of Medicinal Plants Research”), da nigeriana Academic Journals.

Esse periódico recebeu do comitê de Ciências Biológicas I a classificação máxima A1. Não teve A2, mas recebeu o nível imediatamente seguinte, B1, das áreas Interdisciplinar, Ciências Ambientais e Ciências Agrárias I, além de B2 de Nutrição, Biodiversidade, Biotecnologia, Medicina I, Medicina II e Engenharias I.

Mas a classificação da “JMPR” começa a ficar estranha com o baixo nível B3 em Ciência de Alimentos, Farmácia e Educação Física. E piora com o baixíssimo B5 não só do comitê de Química, mas também justamente de Ciências Biológicas II. E, para completar a disparidade de conceito com uma área muito próxima à que lhe deu conceito máximo, a revista recebeu C em Ciências Biológicas III,

Outros lados

Com 120 títulos de periódicos, 11 deles listados no Qualis, o publisher MDPI (Multidisciplinary Digital Publishing Institute), registrado na Suíça, mas com suas operações concentradas na China, ressalta cumprir corretamente o peer review e, destacando que Beall não tem Ph.D., afirma que sua lista negra é “desnecessária e não confiável”. Ao recomendar uma página de seu site com explicações sobre as acusações contra sua empresa, Shu Kum-Lin, presidente do MDPI, afirma:

“Críticas sérias a qualquer artigo publicado em nossas revistas são muito bem-vindas e devem ser endereçadas aos editores delas. Discussões, críticas e propostas para ajudar a melhorar outros aspectos do serviço de publicação em acesso aberto também serão apreciados.”

Sediado na China e com cerca de 200 periódicos, o Scirp (Scientific Research Publishing) tem 38 revistas no Qualis. Seu presidente Barry Zhou recomenda a leitura da página de perguntas e respostas de seu blog e também seus posts de janeiro e de dezembro de 2014, no qual ele afirma:

“A experiência de Beall não é suficiente para fazer uma avaliação científica do conteúdo dos papers em tantos campos diversos. Suas declarações podem ser descartadas.”

Com cerca de 500 revistas, 30 delas no Qualis, o grupo editorial Omics, sediado em Hyderabad, na Índia, que anuncia em seu site “rápido processo de revisão em 21 dias”, respondeu por meio de nota que:

“As revistas de acesso aberto publicadas pelo OMICS Internacional se submetem a um procedimento de verificação obrigatória de qualidade e seguem uma política de padrão de revisão por pares, onde cada artigo submetido sofre um processo de profunda revisão pelos peritos nos domínios relevantes.
(…)
A Omics Internacional tem o orgulho de declarar que somos associados a mais de 1.000 sociedades acadêmicas de reputações bem estabelecidas e a personalidades eminentes que coroam os conselhos editoriais de revistas”

Wenwu Zhao, do CCSE (Canadian Center of Science and Education), com 12 revistas no Qualis, afirmou que o blog “Scholarly Open Access” de Jeffrey Beall, é pessoal e cheio de suposições pessoais e preconceitos, e que ele tenta construir seu próprio nome com a difamação dos outros. Afirmando que o CCSE desenvolveu um sistema sério para a seleção de artigos e que a taxa global de aceitação de trabalhos propostos por autores é de cerca de 55%, segundo ele “mais seletiva do que outros periódicos” nesse ramo. E acrescentou:

“Muitas revistas do CCSE foram indexadas pela Scopus, PubMed e outros bancos de dados de renome, que são mais responsáveis, sérios e rigorosos do que lista de Beall.”

O grupo editorial Benthan Science Publishers, proprietário do “predatório” Bentham Open, que tem 140 títulos em acesso aberto, dos quais com 43 no Qualis, se manifestou em mensagem enviada por seu diretor de publicações Mahmood Alam após o fechamento desta reportagem, na qual afirmou:

“Um processo rigoroso e padronizado de revisão é seguido por todas as nossas publicações. Os editores de nossas revistas desfrutam de total liberdade editorial sujeita aos procedimentos de controle de nosso padrão de qualidade.”

Sem comentar as afirmações do “Scholarly Open Access”, o diretor disse que seu grupo editorial tem 25 anos de atuação “séria” e 39 revistas com fatores de impacto, sendo “algumas delas as principais em seus respectivos campos”. No entanto, os exemplos de periódicos de alto impacto apontados por ele não são, na verdade, publicados pelo Bentham Open, mas pelo Benthan Science, que não adota o acesso aberto.*

Nada a declarar

Além do nigeriano Academic Journals, outros publishers considerados “predatórios” que também não responderam às perguntas deste blog foram David Publishing, com 12 revistas no Qualis, Ijens (International Journals of Engineering and Sciences), com 3, Science Publications, com 14, e WSEAS (World Science and Engineering Academic Society), com 17.

E, praticamente como copia-e-cola do que já disse este blog nos posts de sábado (7.mar) e de sexta-feira (6.mar), vale lembrar que a agência do MEC afirmou na quinta-feira (2.mar) que não se pronunciará mais, alegando que tudo o que poderia dizer já está em uma nota enviada na semana retrasada.

A nota da Capes, que pode ser lida na íntegra na reportagem  “Eventos científicos ‘caça-níqueis’ preocupam cientistas brasileiros”, desconsiderou as perguntas sobre irregularidades na inclusão de outras revistas. Segundo a resposta evasiva, a inclusão de periódicos no Qualis é feita com base na produção acadêmica brasileira no período correspondente ao da avaliação da qualidade dos programas de pós-graduação.

A agência alegou também que

“nos casos em que existam evidências e referências de práticas editoriais incorretas ou inadequadas frente à comunidade, as revistas são retiradas da base do Qualis”.

Em outras palavras, pelo menos 201 revistas desses 11 publishers entraram no Qualis porque professores e pesquisadores brasileiros publicaram milhares de artigos nelas no período de 2010 a 2012. Mas a nota não explica por que os cerca de 2 mil especialistas de 48 comitês assessores da agência do MEC não viram objeções para essas publicações.

Para conhecer os 201 periódicos desses 11 publishers, clique aqui.


*Acréscimo feito às 7h40 em 11.mar.2015. A mensagem foi enviada às 12h46 no dia anterior.

Maurício Tuffani é jornalista especializado em ciência, educação e meio ambiente

FONTE: http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/03/09/pos-graduacao-brasileira-aceita-201-revistas-predatorias/

 

Trash science com selo de qualidade do Qualis Capes!

Falso professor edita revista selecionada pela Capes

POR MAURÍCIO TUFFANI
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A revista acadêmica bimestral de engenharia “Ijet” (“International Journal of Engineering and Technology”) está desde 2013 na seleção Qualis Periódicos, da Capes (Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), que serve para orientar pesquisadores, professores e pós-graduandos brasileiros a escolher revistas científicas para publicar seus artigos. Mas ontem (quinta-feira, 5.mar) a publicação teve seu nome temporariamente removido do site do seu próprio grupo editorial, que hoje reconheceu que seu trabalho ainda não pode ser comparado com o das editoras acadêmicas de renome.

A exclusão temporária aconteceu após o o publisher IACSIT (Associação Internacional de Ciência da Computação e Tecnologia da Informação), sediado em Singapura, saber que o editor-chefe da revista, o paquistanês Abdul Razaque, é aluno de doutorado da Escola de Engenharia da Universidade de Bridgeport, dos Estados Unidos, e não professor dessa instituição, como ele se identifica pelo menos desde 2013 no site da publicação que ele dirige.

“Estamos realmente chocados por saber da verdade”, disse Yoyo Zhou, diretora-executiva do IACSIT, ao responder à mensagem deste blog, que lhe informou a divergência entre a forma de Razaque se identificar no site da “Ijet” e sua verdadeira qualificação acadêmica na página de pós-graduandos da Escola de Engenharia daquela universidade.*

Detalhe da página da Escola de Engenharia da Universidade de Bridgeport, que mostra sua relação de alunos de doutorado. Imagem: Reprodução

Razaque também se identificou como professor dessa universidade ao preencher o formulário que encaminhou à IACSIT para se candidatar ao cargo de editor-chefe. “Pedimos desculpas por não verificar a informação com cuidado”, disse Zhou ontem na mensagem em que encaminhou cópia do documento para este blog. “Se tudo o que está no formulário não for verdade, nós os desqualificaremos de nosso comitê e interromperemos nossa parceria com ele”, acrescentou.

‘Editora nova’

Mas não foi bem isso o que o publisher acabou fazendo, conforme mensagem enviada nesta manhã por Ron Wu, outro diretor-executivo da IACSIT.

“Com base nas informações que você forneceu sobre o editor-chefe da “Ijet”, Abdul Razaque, na pesquisa que fizemos sobre ele e em sua atitude evasiva, decidimos retirar a informação sobre ele do site da revista para eliminar qualquer influência negativa que possa causar à “Ijet” e ao público. E vamos reforçar nossa avaliação e nossa verificação para garantir que no futuro coisas como isso nunca venham a acontecer novamente.

Obrigado por fornecer essa informação importante para nós. Por sermos uma editora nova, temos de admitir que não temos comparação nenhuma com as editoras de renome, que têm melhores apresentações, artigos publicados e processo de revisão mais maduro em todos os aspectos dos periódicos. A IACSIT ainda está crescendo, e acho que vamos fazer melhor no futuro.”

“Predatórios”

A IACSIT publica em acesso aberto na internet 18 revistas acadêmicas que cobram a taxa de US$ 350 (R$ 1.050) dos autores para cada artigo aceito. A editora está incluída desde janeiro de 2012 anterior na lista de “publishers predatórios” do blog “Scholarly Open Access”, editado pelo biblioteconomia Jeffrey Beall, professor da Universidade do Colorado em Denver, nos Estados Unidos.

A lista relaciona editoras que exploram sem rigor científico revistas que cobram taxas de pesquisadores para publicar seus artigos em acesso aberto na internet. Tanto no acesso livre como no pago, periódicos bem conceituados demoram até mais de um ano para analisar e aceitar artigos, ou rejeitá-los. Os editores predatórios reduzem esse intervalo a poucos meses ou semanas, e raramente rejeitam papers.

“Quanto mais artigos eles aceitam e publicam, mais dinheiro eles fazem” disse Beall em entrevista para minha reportagem Eventos científicos ‘caça-níqueis” preocupam cientistas brasileiros”, publicada pela Folha na terça-feira (3.mar).

Seleção

Apesar de a IACSIT estar na lista de Beall desde 2012 e de ter as dificuldades editoriais que seu próprio diretor-executivo reconhece, a “Ijet” e duas outras revistas desse publisher —“International Journal of Modeling and Optimization” e “International Journal of Computer Theory and Engineering”— foram selecionadas em 2013 por quatro comitês da Capes, cada um deles com im coordenador, dois coordenadores-adjuntos e cerca de 20 consultores.

Dois desses comitês são de engenharia, um é de arquitetura e urbanismo e outro é de ciência da computação.

Nada a declarar

Procurada desde terça-feira (3.mar) para explicar por que selecionou para o Qualis periódicos da IACSIT e de outros publishers que constam nessa relação de predatórios, a Capes informou ontem (quinta-feira, 2.mar) que não se pronunciará mais sobre o assunto. Segundo a agência, tudo o que poderia dizer já está na nota que encaminhou na semana passada em resposta às perguntas que enviei para fazer a reportagem que citei acima.

A nota da Capes foi evasiva. Ela explica que a inclusão de periódicos no Qualis é feita com base na produção acadêmica brasileira no período correspondente ao da avaliação da qualidade dos programas de pós-graduação. Em outras palavras, as três revistas da IACSIT entraram no Qualis porque professores e pesquisadores brasileiros publicaram artigos nelas no período de 2010 a 2012 e os cerca de 200 coordenadores e consultores dos quatro setores envolvidos não viram objeções para selecioná-las.

A íntegra dessa resposta, que se omitiu sobre irregularidades na inclusão de outras revistas, está na versão online da citada reportagem.

Assim como a IACSIT, não consegui entrar em contato com Razaque. As mensagens que enviei a Razaque foram rejeitadas pelo servidor de e-mails da Universidade de Bridgeport. O número de telefone dos Estados Unidos fornecido por ele no formulário que enviou à editora está fora de serviço.

* Em seu perfil aberto no LinkedIn, Abdul Razaque se apresenta como “Research Associate” da Universidade de Bridgeport e mostra como endereço relacionado a essa função o mesmo que consta no formulário que ele submeteu à IACSIT.  A mesma informação foi registrada dessa forma por ele no portal acadêmico ResearchGate. Notei agora (6.mar, 14h39) pelo Google Maps que esse endereço não é da administração nem de unidade acadêmica da universidade, mas de um prédio de dormitórios de estudantes.

FONTE: http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/03/06/falso-professor-edita-revista-selecionada-pela-capes/

Trash science a todo vapor em eventos “caça-níqueis” no Rio de Janeiro

Eventos científicos “caça-níqueis” preocupam cientistas brasileiros

MAURÍCIO TUFFANI, COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

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Estão abertas inscrições, com taxas de até € 450 (R$ 1.453), para 116 reuniões científicas simultâneas em fevereiro de 2016 no Rio de Janeiro. O problema é que eventos como esses já são conhecidos como “scam conferences” (conferências-golpe, literalmente em inglês) no exterior. Organizados sem cuidados acadêmicos, eles são apontados como fraudulentos por instituições de pesquisa de outros países.

A organizadora desses 116 eventos é a Waset (Academia Mundial de Ciência, Engenharia e Tecnologia, na sigla em inglês). Apesar do nome, é uma editora. Embora divulgue ter sede em Riverside, nos EUA, seu telefone para contato é dos Emirados Árabes Unidos. E, além de inválidos, os registros de suas revistas são da Turquia, segundo o cadastro internacional numérico de periódicos ISSN.

Enquanto no exterior é apontada em alertas para pesquisadores não participarem de suas conferências nem publicarem em suas revistas, no Brasil a Waset aparece na seleção baseada em critérios de qualidade de periódicos nacionais e estrangeiros, feita pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), órgão do MEC (Ministério da Educação).

Disponível na plataforma on-line Qualis Periódicos, essa seleção da Capes orienta pesquisadores, professores e pós-graduandos a escolher revistas para publicar seus estudos. As informações são importantes para as carreiras acadêmicas, nas quais contam a quantidade de artigos publicados e a participação em conferências, que muitas vezes são organizadas por editoras de periódicos.

Sites como o da Universidade de Tecnologia de Queensland, na Austrália, da Sociedade Europeia de Redes Neurais e blogs de cientistas reúnem depoimentos negativos contra a Waset. Os relatos explicam que as conferências em série se tornam uma só, juntando especialistas de áreas diferentes e servindo apenas para a editora lucrar com taxas de inscrição.

O ecólogo Alexandre Marco da Silva, professor da Unesp de Sorocaba, soube pela reportagem que seu nome está no comitê científico da 14ª Conferência Internacional de Geofísica e Engenharia Ambiental, um dos 116 eventos. “Eu nem sei que conferência é essa”, disse ele surpreso ao telefone, acrescentando que exigirá a retirada de seu nome do comitê.

Indicado em todos os 116 sites das conferências da Waset “marcadas” para 2016, o Hotel Windsor Guanabara também afirmou por meio de sua coordenação de eventos desconhecer esse agendamento, assim como mais 110 reuniões em 2017 e outras 110 em 2018.

“FALHA GRAVE”

A inclusão da Waset no Qualis foi considerada como “falha grave” da Capes por cientistas ouvidos pela Folha, que preferiram não ser identificados para não se indisporem com a agência do MEC.

Exceção a esse anonimato foi o físico Roland Köberle, professor aposentado da USP de São Carlos e membro da Academia Brasileira de Ciências. “É muito estranho esse fato”, disse o pesquisador referindo-se à seleção da editora pela Capes. Segundo ele, o Qualis tem obrigação de alertar seus usuários sobre revistas fraudulentas.

A Waset também está na lista dos chamados “publishers predatórios” do blog “Scholarly Open Access”, do biblioteconomista Jeffrey Beall, professor da Universidade do Colorado em Denver, nos EUA. A lista relaciona editoras que exploram sem rigor científico revistas que cobram taxas de pesquisadores para publicar seus artigos em acesso aberto na internet.

Tanto no acesso livre como no pago, periódicos bem conceituados demoram até mais de um ano para analisar e aceitar artigos, ou rejeitá-los. Os editores predatórios reduzem esse intervalo a poucos meses ou semanas, e raramente rejeitam papers. “Quanto mais artigos eles aceitam e publicam, mais dinheiro eles fazem” disse Beall.

Em 2013, um ano após a Waset ter sido detectada pelo trabalho solitário de Beall, a Capes concluiu sua avaliação trienal da pós-graduação brasileira por 48 comitês de áreas da Capes, cada um deles com a média de 20 consultores. Mesmo sem seguir o padrão acadêmico de indicar datas de recebimento e de aceitação de artigos, a editora não foi rejeitada por 20 desses comitês.

Dez das classificações obtidas pela Waset no Qualis exigem registro em pelo menos duas bases de dados científicos. Apesar dessa regra, as publicações dessa editora constam apenas no desconhecido International Science Index, cujas iniciais são as mesmas do prestigiado ISI (Institute of Science Information), da Web of Science, que é a maior base mundial desse gênero.

Outra irregularidade da Waset no Qualis é constar erroneamente como título de periódico. Para complicar, a editora tem dez revistas, mas o registro da Capes faz com elas um imbróglio com quatro códigos numéricos ISSN. Dois desses registros são da Turquia, mas inválidos, e os outros dois, de Singapura, foram cancelados, segundo o Centro Internacional do ISSN, em Paris, na França.

RESPOSTA

A Waset não respondeu às perguntas enviadas pela reportagem. Em nota, a Capes foi evasiva sobre irregularidades na inclusão da Waset e de seus registros ISSN no Qualis e sobre a permanência da editora nessa seleção. Apesar dessa omissão, a agência federal alegou que “nos casos em que existam evidências e referências de práticas editoriais incorretas ou inadequadas frente à comunidade, as revistas são retiradas da base do Qualis”.

Veja a íntegra da nota:

A classificação na Capes de periódicos, livros e demais formas de produção intelectual não é feita a priori levando em considerações todas as editoras/publishers que existem ou aqueles que a cada momento, no mundo todo, estão lançando novos títulos.

No início do ano cada programa de pós-graduação (atualmente da ordem de mais de 5.700 cursos) que são devidamente avaliados e recomendados, constituindo assim o Sistema Nacional de Pós-Graduação (SNPG), deve informar à Capes a produção intelectual realizada no ano anterior pelos seus professores, pesquisadores e alunos.

Esta informação declarada pelos cursos de pós mostra que, atualmente (dados de 2013), a produção intelectual da pós-graduação brasileira é publicada em periódicos da ordem de mais de 30 (trinta) mil títulos, editados em dezenas de países.

Quando da classificação (Qualis) destas revistas para fins de avaliação (notas) do SNPG, que é feita pela comunidade acadêmico-científica através de comissões das 48 áreas de conhecimento, são considerados vários aspectos sobre as mesmas. Nos casos em que existam evidências e referências de práticas editoriais incorretas ou inadequadas frente à comunidade, as revistas são retiradas da base do Qualis e os artigos publicados nas mesmas são desconsiderados na avaliação. Isto ocorreu na última avaliação trienal, quando mais de 60 (sessenta) revistas foram retiradas do Qualis, mesmo tendo tido classificação (contabilização) em trienais anteriores.

É importante destacar que, com exceção da área de ensino (uma área nova na Capes e ainda sem a tradição das demais áreas), todos as revistas citadas foram mal classificadas no Qualis e no seu conjunto total representam apenas 0,1% do total de títulos constantes no Qualis. Desta forma, as mesmas não contribuem para a qualificação dos cursos de pós-graduação stricto sensu do Brasil, nem mesmo na área de ensino.

A Capes requer ao sr. Maurício Tuffani que faça constar na íntegra a resposta desta agência na matéria publicada. Caso contrário, a Capes publicará o seu ponto de vista na página da Capes.

FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2015/03/1597163-eventos-cientificos-caca-niqueis-preocupam-cientistas-brasileiros.shtml