Façam suas apostas: onde e quando ocorrerá o próximo Tsulama em Minas Gerais?

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Há quem se incomode com a presença de correspondentes de jornais estrangeiros no Brasil, pois eles tendem a dar uma cobertura que foge do lugar comum que marca a maioria dos veículos da mídia corporativa brasileira que hoje possuem pouquíssimos jornalistas de campo, se resumindo a serem replicadores de materiais que são produzidos por agências de notícias.

Eu já considero a presença dos correspondentes de veículos internacionais uma das poucas garantias de que possamos acessar abordagens mais qualificadas sobre uma série de assuntos, especialmente aqueles que incomodam as autoridades brasileiras, incluindo principalmente aquelas de natureza ambiental.

Um caso mais do que atual é o caso do Tsulama da mineradora Vale no município de Brumadinho onde a mídia estrangeira está dando um show de cobertura, indo além do lugar comum que serve apenas para criar um ambiente seguro para os causadores de mais este grotesco incidente ambiental.  

Como exemplo dessa cobertura cito a matéria assinada pela jornalista Joana Oliveira para o jornal espanhol “El País”.  Esta matéria revela que o estado de Minas Gerais possui o estratosférico número de 450 barragens,  e que pelo menos 22 delas não têm garantia de estabilidade

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Por si só, este número já seria preocupante, mas várias das pessoas entrevistas por Joana Oliveira adicionam um claro grau de preocupação ao revelar o caminho livre que as mineradoras operando em Minas Gerais possuem para atuar e guardar seus rejeitos utilizando tipos de barragens ultrapassadas e que após serem construídas são precariamente acompanhadas pelos órgãos de fiscalização.

Assim, não apenas Minas Gerais possui uma série de “Tsulamas” esperando para acontecer, mas como há pouca ou nenhuma preparação para socorrer as regiões que serão afetadas por derrames de rejeitos que poderão ter gravidade idêntica ao que já se viu em Brumadinho e Mariana. 

Após ler esta reportagem, fica reforçada em mim a impressão de que não se trata de se perguntar se outros Tsulamas ocorrerão em Minas Gerais, mas de quando e onde eles ocorrerão.  De quebra, vários leitores do blog têm me enviado casos de barragens que estariam em condição crítica em várias cidades em Minas Gerais, e que são as  candidatas mais fortes a serem palco do próximo Tsulama.  E entre as candidatas temos várias cidades importantes e com grande valor histórico.

E imaginar que no meio deste cenário caótico, ainda temos o governo Bolsonaro disposto a fragilizar de forma aguda o processo de licenciamento ambiental em todo o território nacional.

Incidente da Vale em Brumadinho pode ter outro capítulo catastrófico

Como todo órgão de mídia (imprensa ou virtual), blogs dependem de fontes para ampliar o grau de informação que se oferece aos seus eventuais leitores. Pois bem, um leitor deste blog que é engenheiro civil, me enviou a sequência de imagens abaixo para alertar para o risco de que aquilo que ser um grande reservatório de água logo acima dos reservatórios que romperam na Mina do Feijão em Brumadinho (MG) pode estar com sua estrutura seriamente comprometida, e com grande potencial para também romper se nada emergencial for feito para impedir isso.

Vejamos então a sequência de imagens que me foram enviadas por este leitor.

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Nesta imagem tomada durante o sobrevoo do presidente Jair Bolsonaro na região do Tsulama de Brumadinho, aparece apenas um pequeno pedação da barragem.  Já na segunda imagem (ver abaixo) dá para se ver que a mesma está posicionada exatamente acima dos reservatórios que já romperam. Note ainda que há claramente infiltração de água aparecendo na base da mesma.

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Mas a dimensão do problema aparece realmente na terceira imagem, pois é nela que se pode ver o tamanho exato e sua localização em relação à área que já foi atingida pelo Tsulama da Vale em Brumadinho.

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Dado o volume de água que está contido, que não parece ser desprezível, uma eventual ruputura desta barragem não apenas ampliaria a região espacial por onde o Tsulama da Vale poderá avançar, mas poderia atingir diretamente todos os que estão enfiados na lama tentando resgatar vítimas ainda vivas e os corpos daqueles que já estão mortos.

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Pelo tamanho da barragem que ainda resiste em Brumadinho é possível verificar que a estimativa inicial da Vale de que algo em torno de 1 milhão de metros cúbicos de rejeitos havia escapado não tinha como ser verdadeira. Resta saber o que mais a empresa não está informando de forma correta, inclusive o número atualizado de 12,7 milhões de metros cúbicos.

 

Tsulama da Vale em Brumadinho: para não deixar cair na impunidade

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O vídeo abaixo mostra o momento em que a onda de rejeitos que escapavam os reservatórios da Vale em Brumadinho (MG) atingiu as instalações da empresa e de uma comunidade próxima.  As cenas que aparecem no vídeo mostram a corrida desesperada de trabalhadores da empresa,  e o reconhecimento deles de que aqueles não conseguiram alcançar um lugar seguro em tempo de se salvarem simplesmente morreram.  

Estou postando este vídeo para que fique marcada a responsabilidade da Vale e de seus controladores na tragédia ambiental e especialmente humana que ocorreu hoje em Brumadinho.

Tivesse a Vale adotado novas posturas e protocolos de segurança para impedir a  repetição do Tsulama da Samarco (Vale + BHP)  que destruiu Bento Rodrigues em 2015, hoje o Brasil e o mundo não estariam presenciando as cenas de destruição do Tsulama da Vale em Brumadinho. 

Agora o que deve se cobrar é a apuração das responsabilidades e a punição exemplar dos responsáveis. E essa punição envolverá o estabelecimeto de ritos jurídicos que impeçam a repetição das mesmas estratégias de procrastinação que foram adotadas no caso de Bento Rodrigues.

O Tsulama de Brumadinho expõe o ministro do Meio Ambiente condenado por favorecer mineradoras

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O  presidente Jair Bolsonaro manteve Ricardo Salles no cargo de ministro do Meio Ambiente, apesar de sua condenação por favorecer mineradoras. O Tsulama da Vale em Brumadinho poderá mudar a situação.

Tanto o presidente da república Jair Bolsonaro e seu vice, o general Hamilton Mourão, estão tentando se desvencilhar das responsabilidades do Tsulama da Vale que irrompeu hoje no município de Brumadinho levando algo em torno de 13 milhões de metros cúbicos de rejeitos da mineração de ferro no sentido do Rio Paraopeba, um afluente do Rio São Francisco.

Em declaração à imprensa, o general Hamilton Mourão teria dito que o governo não pode ser culpado pelo rompimento da barragem em Brumadinho (MG). Segundo, a Folha de São Filho, o vice-presidente teria dito que “Essa conta não pode vir para a gente, porque nós assumimos há 30 dias“.  De quebra, Mourão teria dito que a Vale é uma empresa privada.

Mas voltando a Jair Bolsonaro, segundo informa o site UOL, ele teria criado dois gabinetes de crise para responder às consequências do Tsulama da Vale em Brumadinho, e ter ainda determinado que os ministros do Desenvolvimento Regional, Gustavo Canuto, e Minas e Energia, almirante Bento Albuquerque, e o secretário Nacional de Proteção e Defesa Civil, Alexandre Alves, se deslocassem para a região.

Ainda segundo o UOL, Jair Bolsonaro teria informado que  ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, também está a caminho de Minas Gerais para acompanhar “in loco” os desdobramentos do Tsulama da Vale em Brumadinho. E é justamente no ministro de Meio Ambiente que a porca torce o rabo.  É que Ricardo Salles foi condenado na justiça por improbidade administrativa, por ter sido considerado culpado de favorecer empresas de mineração ao alterar ilegalmente mapas de zoneamento do plano de manejo da Área de Proteção Ambiental (APA) do Rio Tietê, que envolve 12 municípios da região metropolitana de São Paulo, inclusive a capital.

Assim, além de ser irônico de ter um condenado por improbidade administrativa na condição de ministro do Meio Ambiente,  Jair Bolsonaro agora é obrigado a mandá-lo para, digamos, o “battle front” criado por um grave incidente ambiental causado pela maior mineradora brasileira.

Eu não me surpreenderia se Ricardo Salles acabar sendo sacrificado para tentar melhorar uma imagem que já apresenta sérios arranhões com menos de 30 dias de governo.

Manifestação contra a Samarco interdita linha férrea em Baixo Guandu/ES

O prefeito Neto Barros juntou-se ao protesto e fez um pronunciamento contundente contra a Samarco e a Fundação Renova

 

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Foto Portal Guandu

 

Cerca de 500 pessoas estão protestando desde a manhã de hoje (14/01) contra a Samarco, em Baixo Guandu, manifestação que culminou, por volta das 11 horas, na interdição da linha férrea da Vale.

Os manifestantes vieram de várias cidades ao longo do rio Doce e iniciaram o protesto em frente ao escritório da Fundação Renova, localizado no centro de Baixo Guandu próximo à Praça São Pedro, por volta das 9 horas.

Ali o prefeito Neto Barros juntou-se ao protesto e fez um pronunciamento contundente contra a Samarco e a Fundação Renova, denunciando mais uma vez o descaso com a reparação social e ambiental desde 2015, quando milhões de toneladas de lama tóxica foram despejados no rio Doce, no rompimento da barragem de Mariana.

“A manifestação é legítima. A Samarco e suas controladoras Vale e BHP estão tratando toda esta tragédia com descaso, postergando soluções que deveriam ter sido colocadas em prática há muito tempo. A união de todos é importante para termos respostas ao maior desastre ambiental da história do país”, disse o prefeito.

O protesto realizado hoje em Baixo Guandu diz respeito a uma decisão judicial tomada recentemente, pela Justiça Federal no mês de dezembro de 2018, alterando acordos feitos entre a Fundação Renova e envolvendo cerca de 9 mil pescadores.

Esta decisão judicial permite que a Samarco desconte, no pagamento das indenizações – por danos morais e lucros cessantes – o valor já pago em auxílios emergenciais mensais. Para o presidente da colônia de pescadores de Baixo Guandu e da Federação das Colônias de Pescadores do ES, Claudio Marcio Alvarenga, houve má fé da empresa na indução para composição do acordo.

Os manifestantes paralisaram a circulação de trens da Vale por volta das 11 horas, nas proximidades da Ponte de Ferro, localizada próxima ao centro de Baixo Guandu. Uma composição chegou buzinando ao local e teve que parar porque a linha estava repleta de galhos de árvores e pessoas.

Mesmo com o sol forte e o calor escaldante que fazia ao meio dia de hoje, os manifestantes garantem que não vão deixar a linha férrea enquanto não obtiverem uma reposta da Fundação Renova às suas reivindicações.


Foto PMBG – prefeito de Baixo Guandu Neto Barros

Ameaça

Ontem o prefeito Neto Barros divulgou uma carta endereçada a ele pela Fundação Renova, datada de 4 de janeiro de 2019, que ameaça processa-lo por declarações feitas na 33º Reunião Ordinária do Comitê Interfederativo. O prefeito é o representante dos municípios capixabas no CIF e deixou claro que não recua de suas posições.

“ Estão me ameaçando por dizer o óbvio. São R$ 4,4 bilhões investidos e nenhuma casa construída no distrito de Bento Rodrigues. A Samarco (Vale e BHP Billiton) deu calote nos municípios e até hoje não restituiu o que a população foi obrigada a custear para garantir água tratada às comunidades. A Fundação Renova desrespeita as decisões do Comitê Interfederativo e não aceita ser questionada”, disse Neto Barros.

“Mandaram uma carta tentando me intimidar. Agora querem usar a Justiça para me perseguir? Esse pessoal se acha protegido de pessoas muito poderosas. Quantos morreram nesta tragédia? Quantos estão sem teto? Quantos perderam sua renda e tem que se humilhar? Quantos animais foram mortos? E a flora, a fauna aquática, o desequilíbrio ecológico? Quantos foram punidos?“, pergunta o prefeito de Baixo Guandu.

A manifestação em Baixo Guandu hoje conta com apoio de pescadores e representantes de demais cidades atingidas, como Linhares, Colatina, Aimorés, Itueta, Resplendor e Governador Valadares, as quatro ultimas de Minas Gerais.

Até as 13 horas a disposição dos manifestantes era manter a interrupção da linha férrea da Vale. Um representante da Vale esteve no local, mas não conseguiu a liberação da composição carregada de que está retida.

A Polícia Militar acompanhou todo o protesto, se limitando a interditar as ruas para o tráfego de veículos. O comandante da 2ª Cia do 8º BPM, capitão Wagner Batista, disse que vai continuar acompanhando o protesto com “toda a cautela” e entregou um documento aos líderes do movimento, que prevê multa, por decisão judicial, em caso de interrupção da estrada de ferro.

Vídeo

Renova

Por meio de nota, a Fundação Renova disse que a decisão do juiz não altera o pagamento do Auxílio Financeiro Emergencial (AFE).

Segundo o órgão, a decisão “apenas reconhece que o AFE possui a mesma natureza jurídica dos lucros cessantes, na medida em que também se destina a reparar a perda de renda dos atingidos. Nesse sentido, a decisão prevê o abatimento de valores pagos a título de AFE da parcela anual de lucros cessantes a ser desembolsada no âmbito do Programa de Indenização Mediada (PIM).”

Em relação ao AFE, a decisão liminar registra que o seu pagamento se deu “em razão da interrupção comprovada das atividades produtivas ou econômicas”, correspondendo a “uma indenização imediata, até que fosse possível quantificar a situação particular de cada um”.

Ainda de acordo com a decisão, a Renova disse que “tanto o AFE, quanto a parcela de lucros cessantes, possuem caráter indenizatório, decorrentes do mesmo fato gerador (ou seja, perda ou comprometimento da renda dos atingidos)”.

Sobre o questionamento dos pescadores de que a Fundação Renova pode receber de volta o dinheiro já pago em indenizações, a instituição disse que “não haverá a devolução para a Fundação Renova de qualquer valor já pago a título de AFE.”

Valores

Segundo a Renova, desde 2015, R$ 1,3 bilhão já foram pagos em indenizações e auxílio financeiro emergencial a mais de 26 mil pessoas afetadas pelo desastre ambiental.

Vale

Um grupo de manifestantes ocupou a Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM) por volta das 11 horas desta segunda-feira (14), na região de Baixo Guandu (ES). As reivindicações dos manifestantes não têm relação com as operações da Vale.

A ação pode interferir no horário de chegada do trem de passageiros que saiu de Belo Horizonte, Minas Gerais, com destino à Estação Pedro Nolasco, em Cariacica.

A Vale repudia quaisquer manifestações violentas que coloquem em risco cerca de 2 mil pessoas que usam o trem de passageiros diariamente, seus empregados e suas operações e ratifica que obstruir ferrovia é crime.

O diálogo com as comunidades está sendo conduzido pela Fundação Renova, criada para gerir e executar os programas e ações de reparação e indenização às pessoas afetadas pelo rompimento da barragem de Fundão da Samarco.

FONTE: Portal Guandu [Aqui!]

Pescadores realizarão protesto para repudiar mineradoras que causaram Tsulama

Pescadores protestam contra Samarco/Vale-BHP nesta segunda (14) em Baixo Guandu

Ato repudia a permissão da Justiça para empresa descontar o auxílio emergencial do valor das indenizações

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Pescadores artesanais do Espírito Santo e Minas Gerais realizam, na próxima segunda-feira (14), às 9h, em Baixo Guandu, mais um protesto pacífico contra a Samarco/Vale-BHP, responsável pelo maior crime ambiental do país e o maior da mineração mundial, ocorrido há mais de três anos e ainda impune.

O motivo agora é a decisão proferida pelo juiz da 12ª Vara Federal de Belo Horizonte/MG, Mário de Paula Franco Júnior, durante o recesso do Judiciário de dezembro de 2018. Em seu despacho, o magistrado altera cerca de 1500 acordos feitos entre a Fundação Renova e aproximadamente nove mil pescadores, com o intuito de permitir que a empresa desconte, do pagamento das indenizações – por danos morais e lucro cessante – o valor já pago em auxílios emergenciais mensais.

Esse desconto já foi proibido pela Comitê Interfederativo (CIF) – Deliberações mº 111 e 119, de 2017 –  e por recomendações das Defensorias Públicas e Ministérios Públicos, que já anunciaram que irão recorrer da decisão.

“Queremos mostrar que foi um ato de má fé, que a empresa nos induziu de assinar um acordo”, declara o presidente da Colônia de Pescadores de Baixo Guandu (Z-12) e da Federação das Colônias e Associações de Pescadores Artesanais no ES (FECPAES), Claudio Marcio Alvarenga.

Claudio explica que os pescadores que já conseguiram se cadastrar para o auxílio emergencial, estão recebendo mensalmente cerca de R$ 1.300,00, o que é bem menos do que a renda anterior que obtinha com a pesca antes da chegada da lama de rejeitos da mineradora.

Por isso, os acordos só foram assinados porque a empresa prometeu que iria complementar esse valor com um pagamento anual referente ao lucro-cessante, ou seja, o valor que os pescadores estavam deixando de ganhar em função da proibição da pesca.

Com a decisão do juiz Mario de Paula, o lucro cessante não será mais pago, deixando as famílias dos pescadores em situação ainda mais difícil. A pescadora Vanderlúcia Gonçalvez de Souza, de Barra do Riacho, em Aracruz, é uma das que vai participar do ato.

Morando atualmente na Grande Vitória, Vanderlúcia conta que vai lutar com seus companheiros para garantir seus direitos como atingida. “Tive que tirar meus filhos de lá [Barra do Riacho], porque não quero meus filhos morrendo com câncer. Tem muita gente adoecendo e morrendo por causa daquela água podre,”, relata.

E ainda tem um problema, informa Claudio. O prazo de boa parte dos acordos vence no próximo dia cinco de fevereiro. “Já estamos no dia 11 de janeiro e ninguém foi chamado pra nada. A gente procura a Renova e ela fala que está analisando. A gente acha que ela não vai cumprir nem a liminar. Como ela conseguiu o corte do lucro cessante, o próximo passo é cortar o cartão emergencial”, prevê a liderança, que também critica a Justiça Federal. “Infelizmente nós perdemos a confiança no Judiciário”, lamenta.

Atalho

As Defensorias Públicas da União e do Estado do Espírito Santo emitiram nota conjunta sobre decisão da 12ª Vara Federal. No documento, alegam que a decisão desconsiderou “os acordos individuais já firmados, causando impacto potencial a milhares de famílias da bacia do rio Doce” e “eximiu, liminarmente, as empresas Samarco Mineração, Vale e BHP Billiton Brasil do compromisso, expressamente assumido, de promover a proteção social dos atingidos pelo desastre socioambiental por elas causado”.

O defensor público estadual Rafael de Mello Portella Campos diz que, com a decisão do juiz Mario de Paul, “fica a percepção de que a Fundação Renova, diante do desastre que é a execução dos programas socioeconômicos na Bacia do Rio Doce, buscou judicialmente um ‘atalho’ para encerrar a qualquer custo os programas sociais e coloca em cheque a governança do sistema CIF”.

Em nota de esclarecimento conjunta, a DPU e a DPES afirmam que a citada decisão judicial em Belo Horizonte “agrava a insegurança jurídica nos territórios, que convivem com o caos da má execução dos programas socioeconômicos e sucessivas violações aos direitos humanos dos atingidos” e, “no momento em que autoriza a suspensão do pagamento dos lucros cessantes previstos, desconsidera os acordos individuais já firmados, causando impacto potencial a milhares de famílias da bacia do rio Doce”.

Nesse contexto, prosseguem os defensores, “de maneira contrária ao expressamente acordado, foram transferidos ao Erário Público – e a toda a sociedade – os custos de promover a proteção social das famílias desamparadas por conta de um desastre causado por empresas privadas, o que acaba por causar sério risco de lesão ao Estado Brasileiro, em um momento de grave crise financeira e fiscal”.

FONTE: Século Diário [1]

Estudo realizado por parceria UENF e UFRJ mostra impactos ampliados do Tsulama da Samarco

Enquanto a mídia corporativa brasileira já esqueceu o maior desastre da mineração mundial em mais de 300 anos, a comunidade científica continua produzindo estudos que revelam um alcance ainda maior dos impactos associados ao Tsulama da Mineradora Samarco (Vale+ BHP Billiton).

A matéria abaixo, produzida pela Assessoria de Imprensa da COPPE/UFRJ, mostra que mais de 3 anos após a ocorrência do Tsulama,  ainda existem impactos sobre o ambiente e à saúde humana, afetando a vida de dos 340 mil habitantes da região impactada pelo incidente causado pela ganância por lucros de duas das maiores mineradores do planeta, sobretudo na estação chuvosa.

O interessante é que a produção das evidências científicas do impacto continuado do Tsulama da Samarco (Vale+BHP Billiton) ocorre de forma simultânea à vitória das mineradoras na justiça mineira que concordou em recalcular os valores que deverão ser pagos a mais de 1.500 atingidos. Como se vê pelos resultados das pesquisas conjuntas da UFRJ e da UENF, estes valores deveriam ser é majorados.

Pesquisa desenvolvida na Coppe revela novos impactos do desastre ambiental de Mariana

Um projeto interdisciplinar de pesquisa derivado da dissertação de mestrado da aluna da Coppe/UFRJ Marcelle Cândido Cordeiro revelou que os rejeitos de mineração, levados ao rio Doce após o desastre de 2015, ainda causam impacto ambiental e risco à saúde dos 340 mil habitantes da região, sobretudo na estação chuvosa.  Sob a coordenação do professor Fabiano Thompson, do Programa de Engenharia de Produção (PEP) da Coppe, o estudo ganhou visibilidade internacional, com a publicação do artigo Insights on the fresh water microbiomes metabolic changes associated with the world’s largest mining disaster, no periódico Science of the Total Environment, no último mês de novembro [1].

A pesquisa aponta que a maior parte dos 45 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração que se depositou no leito e nas margens do rio Doce e afluentes da sua bacia hídrica, como os rios Carmo e Gualaxo do Norte, não é inerte. O rejeito é rico em nitrogênio e ferro. Este elemento favorece a multiplicação de bactérias nocivas à saúde, sobretudo no verão, quando as chuvas mais frequentes revolvem os sedimentos do leito dos rios.

O estudo é um dos produtos da dissertação de mestrado da aluna do PEP, Marcelle Cândido Cordeiro, intitulada “Qualidade das águas e diversidade microbiana do Rio Doce após o rompimento da barragem do Fundão”, sob a orientação dos professores Fabiano Thompson, da Coppe, e Gizele Duarte Garcia, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais e Conservação (PPG-CiAC) da UFRJ, sediado no polo de Macaé.

O estudo reuniu pesquisadores da Coppe, do Instituto de Biologia e do Instituto de Microbiologia da UFRJ, e também do Laboratório de Ciências Ambientais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf). Para chegar a este resultado, os pesquisadores realizaram três expedições, recolhendo amostras em 16 pontos ao longo do rio Doce: Bento Rodrigues; Camargo Ponte Caída; rio Gualaxo; rio Carmo; rio Piranga; São José do Goiabal; Bom Jesus do Galho; Ipatinga; Governador Valadares; Tumiritinga; Resplendor; Aimorés; Baixo Guandu; Mascarenhas; Colatina; e Linhares. Estudos anteriores abordaram os impactos ambientais do desastre, mas este é o primeiro a avaliar os efeitos na diversidade microbiana ao longo do rio Doce.
 

Técnica inovadora para análise de amostras genéticas

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As coletas foram realizadas em novembro de 2015, logo após o desastre, em maio e em setembro de 2016. No Núcleo Professor Rogerio Valle de Produção Sustentável (Sage) da Coppe, o material recolhido passou pela análise físico-química e microbiológica, em especial por uma técnica inovadora denominada metagenômica, que permite estudar todos microrganismos presentes em uma amostra, utilizando fragmentos de DNA, sem a necessidade de cultivá-los.

“Por meio dessa análise de metagenômica conseguimos detectar a influência do rejeito na microbiota da água do Rio Doce. A lama não foi inerte, ao contrário do que se dizia, ela favoreceu alguns grupos microbianos. A técnica permite identificar os grupos taxonômicos e o potencial metabólico e funcional da amostra. Recuperamos onze genomas completos de micróbios, e verificamos os metabolismos que se encontravam em maior concentração. Conseguimos encontrar muitos genes relacionados ao metabolismo de ferro e ao de nitrogênio nestes genomas. Mais uma evidência da influência da lama na microbiota da região”, explica Marcelle Cordeiro, doutoranda do Programa de Engenharia de Produção.

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Marcelle Cândido Carneiro, aluna de doutorado da Coppe.

De acordo com Marcelle, também foram usados dados próprios das coletas feitas pelos pesquisadores envolvidos no projeto e também dados públicos do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), que monitoram o rio Doce desde 1997, no âmbito do projeto Águas de Minas. “Em dezembro de 2016, pelos dados secundários do Igam, houve um aumento de turbidez muito maior que a média histórica da região e também 67 vezes maior do que o determinado pelo Conselho Nacional do Meio-Ambiente (Conama). Embora haja leve melhora nos níveis de turbidez, em dezembro de 2017 os valores de turbidez ainda eram 15 vezes maiores do que o limite (100 NTU) preconizado pelo Conama. Usamos como referencial a resolução 357 do Conama que estabelece o padrão mínimo de qualidade da água de acordo com o uso preponderante da mesma”, esclarece.

Em 2018, não há dados disponíveis. “Mas o nível continua sendo muito acima do tolerável, e não há previsão de quando será atingido um patamar seguro para o consumo. Além disso, as chuvas revolvem o solo e o material que suspende aumenta a turbidez da água e há aumento significativo na concentração de cianobactérias, anterobactérias, nutrientes orgânicos, inorgânicos, metais. É uma ameaça à saúde humana”, avalia o professor Fabiano Thompson.

Segundo a aluna da Coppe, o rio Doce é considerado Classe 2 pelo Conama, o que permite o uso de suas águas para consumo após tratamento, fins recreativos, pesca, irrigação de hortaliças. “Mas encontramos concentrações muito acima do nível de turbidez, o que acarreta prejuízo de todas essas atividades. Outra coisa foi o aumento no número de genes relacionados à virulência, isso é indicativo do risco à saúde humana, causado pelo derramamento de lama após o rompimento da barragem em Mariana”, explica a pesquisadora.

A microbiota avaliada pelos pesquisadores indicou a forte presença de metabólitos de ferro e nitrogênio, o que, segundo Marcelle, sugere a presença de nitrogênio no rejeito. Os pesquisadores utilizaram como parâmetro para comparação o rio Paraguaçu, cujo bioma é similar ao rio Doce. “A concentração deste grupo microbiano no rio Paraguaçu é muito inferior, o que reforça a conclusão de que a proliferação destes microrganismos decorre da deposição de ferro e nitrogênio no leito e nas margens do rio, na enxurrada que seguiu ao rompimento da barragem”.

Ameaça à saúde humana

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Professor Fabiano Thompson, do Programa de Engenharia de Produção (PEP) da Coppe

Na opinião do professor da Coppe (foto acima, o monitoramento das águas é um passo fundamental para avaliar as medidas subsequentes, dentre as quais as alternativas para o tratamento avançado das águas do rio Doce. “O monitoramento permite também que se faça a análise comparativa com os cenários passados e a projeção do futuro, a partir deste ambiente doente para o ambiente saudável, biodiverso, que permita filtrar o material causador da turbidez”, explica.

O professor destaca ainda a importância do uso da metagenômica no estudo. “Se não tivéssemos feito a análise de metagenômica, não teríamos constatado a importância do nitrogênio, e a proliferação de genes ligados ao seu metabolismo. Ou seja, mesmo que haja escamoteamento do que foi, de fato, liberado na enxurrada de rejeitos de mineração, a metagenômica age como uma análise forense. Essa nova técnica faz com que o próprio Conama precise atualizar os seus parâmetros, que embora úteis, certamente não capturam a totalidade de interferências antropogênicas e industrais no ambientes. É preciso dar respostas ágeis, confiáveis e independentes para a recuperação do rio Doce”, avalia Thompson.

Segundo o professor, os relatos da população local sobre problemas de saúde variados, tanto agudos quanto crônicos, reforçam a percepção acerca dos problemas ambientais existentes.

Fonte: COPPE/UFRJ

Praias da foz do Rio Doce estão cronicamente contaminadas pelo Tsulama

Enquanto se assiste ao desmanche de órgãos e legislações ambientais por parte do governo recém empossado de Jair Bolsonaro, a memória acumulada da degradação ambiental acumulada continua contaminando vários ecossistemas brasileiros, num prenúncio do que não há que esteja tão ruim que não possa piorar.

Um exemplo grave da herança ambiental que o governo Bolsonaro quer jogar para debaixo do tapete é a contaminação crônica da região da foz do Rio Doce que depois de 3 anos continua sendo continuamente abastecida por rejeitos tóxicos liberados pelo rompimento da represa do Fundão em Bento Rodrigues, onde a busca irresponsável por mais lucros por parte dos dirigente da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) resultou no maior incidente ambiental da história da mineração em escala mundial.

Felizmente, há uma vasta documentação do que está se passando atualmente nas praias de municípios banhados pelas águas oceânicas contaminadas pelos rejeitos da Samarco (Vale+ BHP Billiton), havendo inclusive uma página na rede social Facebook que está disponibilizando vídeos e fotografias dos impactos continuados que estão ocorrendo sobre as praias mais próximas da foz do Rio Doce que se intitula “Mar de Rejeitos: diário de um pescador interditado” [1]. 

Um desses vídeos mostra como a espuma das praias da foz do Rio Doce se transformam em lama de rejeitos, enquanto outro mostra o grande desse volume de espuma de rejeitos chegando na Praia de , localizada no município de São Mateus (ES). Apesar de existirem outras possibilidades para o fenômeno, não se pode negar a hipótese de que pelo menos parte deste materia seja efetivamente originário do Tsulama.

No contexto que está se desenhando no plano federal será essencial a disseminação de informações que mostrem este e outros casos de degradação ambiental ocorrendo no Brasil, de forma a que as corporações sejam colocadas sob pressão em seus países-sede. Este tipo de esforço será essencial para vencer as tentativas de regredir a proteção aos ecossistemas e às populações que deles dependem à condição vigente no Século XIX que é o que parece desejar o novo presidente da república.


[1] https://www.facebook.com/MardeRejeitos/

 

 

Tsulama da Samarco: uma catástrofe que continua acontecendo, apesar da propaganda em contrário

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Após mais de 3 anos desde que o reservatório de Fundão da Mineradora Samarco (Vale+ BHP Billiton) rompeu e destruiu o Distrito de Bento Rodrigues (Mariana/MG), o que se vê é a pior das procrastinações para se combater efetivamente os danos sociais, econômicos e ambientais que a busca desmedida do lucro causou ao ecossistema do Rio Doce e de vários de seus afluentes.

Mas pior do que procrastinar as soluções, o que tem se visto é a lenta e efetiva ocultação dos , processos persistentes de contaminação que continuarão ainda por vária décadas, já que boa parte dos sedimentos sequer ultrapassou a primeira barreira de contenção que é a Usina Hidrelétrica Risoleta Neves (também conhecida como Candonga) que fica localizada no limite entre os municípios de Rio Doce e Santa Cruz do Escalvado (MG).

Felizmente, em tempos de redes sociais e rápida circulação de informações e imagens, é possível encontrar evidências de que a catástrofe causada pelo Tsulama da Samarco (Vale+ BHP Billiton) continua longe de terminar, ao contrário do que nos querem fazer crer.  O vídeo abaixo é um exemplo perfeito disso, pois mostra a situação vigente na UHE Risoleta Neves no último domingo (02/12) quando sob fortes chuvas, uma quantidade impressionante de rejeitos continuou sua viagem até a região da foz do Rio Doce.

Assim, que ninguém se deixe enganar pela propaganda enganosa de que o Rio Doce começou a sua recuperação, pois, de fato, o que está em curso é a piora paulatina e crônica de sua degradação. E com a culpa evidente clara da Samarco (Vale+ BHP Billiton). 

 

 

Barragens sem manutenção podem repetir tragédia de Mariana

Segundo relatório, entre 2016 e 2017 aumentou de 25 para 45 o número de barragens vulneráveis e sob risco de rompimento no Brasil

Resultado de imagem para TSULAMA

Por Redação RBA

São Paulo – De acordo com o Relatório de Segurança de Barragens (RSB) de 2017, divulgado pela Agência Nacional de Águas (ANA), 45 barragens foram consideradas vulneráveis e sob risco de rompimento em 2017. Trata-se de um aumento de 80% em relação a 2016, quando 25 delas foram listadas nessa condição. As barragens avaliadas atendem a diferentes finalidades como armazenamento de água e geração de energia ou rejeitos e podem repetir a tragédia que aconteceu na cidade de Mariana, em Minas Gerais, há três anos.

Em entrevista à jornalista Marilu Cabañas, na Rádio Brasil Atual, o professor do Departamento de Geografia e do Programa de Pós-graduação em Ciência Ambiental da Universidade de São Paulo (USP), Wagner Ribeiro, atribuiu a situação à falta de manutenção e ao descaso do poder público. De acordo com o relatório, das 45 barragens vulneráveis, em sua maioria no Nordeste do país, 25 pertencem a órgãos e entidades públicas.

“É preciso falar muito nesse assunto, divulgar essa questão e fazer um apelo ao presidente eleito (Jair Bolsonaro) para que indique um técnico capacitado e que este tipo de atividade seja mantida, porque a gente sabe que essas barragens estão também em sua maioria vinculadas ao agronegócio, utilizadas como instrumento agrícola”, afirma o professor. O documento lista ainda que entre as pouco mais de 24 mil barragens identificadas, 723 (3%) delas foram classificadas simultaneamente na Categoria de Risco (CRI) e Dano Potencial Associado (DPA).

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FONTE: https://www.redebrasilatual.com.br/ambiente/2018/11/sem-manutencao-cresce-o-numero-de-barragens-sob-risco-de-rompimento?fbclid=IwAR1hQqCqJRBYp_syqeKVOQ6kjyW7pkAibR8Oin56XKD7CmUOPLnEtsFtKvY