Agrotóxicos produzidos na China são maioria no pacote de venenos aprovado pelo governo Bolsonaro

mourãoO vice-presidente Hamilton Mourão em visita oficial à China

Acabei de completar a base que venho construindo com os agrotóxicos que tiveram sua liberação publicada na vigência do governo Bolsonaro e que incluem os 63 agrotóxicos que foram autorizados pelo Ato No. 62 publicado no dia 13 de Setembro de 2019.  Um primeiro detalhe a se ratificar é que  “grande total” dos agrotóxicos liberados é 353 e não 325 como algumas fontes têm insistentemente publicado.

Analisei algumas facetas peculiares desse pacote de venenos agrícolas cuja velocidade de aprovação quebra recordes históricos.  O curioso, como já mostrado por um estudo feito pela parceria Pública/Repórter Brasil é que muitos desses venenos já estão no mercado brasileiro, e o que parece estar ocorrendo é um rodízio sobre as regiões produtores dos mesmos, com uma clara ênfase na China. É que 69,4% dos produtos técnicos dos agrotóxicos aprovados pelo governo Bolsonaro têm seu fabricante primário (ou único) na China que parece estar se tornando a grande produtora de agrotóxicos que já foram banidos ou proibidos em outras partes do mundo.

A proeminência chinesa na produção dos agrotóxicos banidos é tanta que dos 104 que se encontram proibidos de comercialização nos países que formam a União Européia (93, ou seja 89%) se originam de plantas industriais localizadas na China.

Outra faceta interessante é que cinco dos produtos aprovados são compostos por mais de um princípio ativo e servem a mais de uma função como, por exemplo, para eliminar plantas daninhas e insetos.  Apesar dessa ser uma tendência que já vem se firmando na produção de venenos agrícolas, não deixa de ser interessante que produtos que podem ser apenas parcialmente proibidos na União Europeia.  Esse é um detalhe importante porque cedo ou tarde a legislação comunitária vai ser mais estrita em relação a produtos que já tenham sido banidos pela União Europeia.

Por último, é importante notar que no pacote de 353 agrotóxicos aprovados até agora pelo governo Bolsonaro, os produtos voltados para o controle biológico e não químico de pragas representam apenas 4,2% do total. Mas com um detalhe bastante significativo: todos são produzidos no Brasil, refletindo uma contribuição significativa das universidades públicas que são responsáveis pelo desenvolvimento das pesquisas que originam esse tipo de agrotóxico. Assim, ao praticamente acabar com o financiamento de pesquisas científicas nas universidades brasileiras com seus drásticos cortes orçamentários, o governo Bolsonaro dificulta o desenvolvimento de produtos de base nacional, favorecendo principalmente a indústria chinesa de agrotóxicos.

O problema associado à dependência crescente do latifúndio agro-exportador em relação aos agrotóxicos vindos da China pode ser ainda maior, pois há um mercado crescente de agrotóxicos chineses que entram no Brasil ilegalmente via contrabando.

Como já tenho feito desde o início do ano, disponibilizo a base de dados construída para quem está interessado no estudo dos agrotóxicos que estão sendo liberados para comercialização no Brasil. Os interessados em baixar a base de dados, basta clicar [Aqui!].

 

Relatório revela: 70% dos agrotóxicos usados no Brasil são considerados “altamente perigosos”; país responde por 1/5 do consumo mundial

ONG Suíça Public Eye em parceria com a Campanha Permanente Contra os agrotóxicos e pela Vida será lançada nesta quinta (29) na 18ª Jornada de Agroecologia em Curitiba

syngenta

A pesquisa reúne dados detalhados sobre como a Syngenta ganha bilhões vendendo agrotóxicos altamente perigosos em países pobres. Dos 120 ingredientes ativos de agrotóxicos produzidos pela empresa, 51 não estão autorizados em seu país de origem, a Suíça; 16 deles foram banidos devido ao impacto à saúde humana e ao meio ambiente. Mas a Syngenta continua a vendê-los em países onde as normas costumam ser mais fracas ou menos rigorosamente aplicadas, como é o caso do Brasil.

No Brasil, o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, milhões de pessoas estão expostas a um coquetel de agrotóxicos altamente tóxicos. Este é um dos destaques do relatório “Lucros altamente perigosos”, elaborado pela ONG Suíça Public Eye. A versão em português do estudo será lançada pela FASE e a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida nesta quinta-feira (29), às 15h, na aula pública “O envenenamento do povo brasileiro – impactos dos agrotóxicos à saúde”. A atividade integra a 18ª Jornada de Agroecologia, que acontece em Curitiba de 29 de agosto a 1º de setembro. O lema deste ano é “Terra Livre de Transgênicos e Sem Agrotóxicos, Cuidando da Terra, Cultivando Biodiversidade e Colhendo Soberania Alimentar, e Construindo o Projeto Popular para a Agricultura! ”.

Em 2017, cerca de 540 mil toneladas de venenos foram aplicadas no Brasil, por um valor de mercado de US$ 8,9 bilhões. Cerca de 370 mil toneladas de “agrotóxicos altamente perigosos foram pulverizadas nas plantações, o que representa aproximadamente 20% do uso mundial. Desde o início de 2019, foram liberados 290 registros agrotóxicos no país. Destes 44% são proibidos na União Europeia por apresentarem riscos à saúde e ao ambiente”, destaca Francileia Paula de Castro, agrônoma e educadora da FASE, que também integra a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida.

A Organização das Nações Unidas para Alimentação (FAO) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) estão entre as instituições que recomendam que os agrotóxicos altamente tóxicos sejam eliminados gradualmente e substituídos por alternativas mais seguras.

O que: Lançamento do relatório “Lucros altamente perigosos: Como a Syngenta ganha bilhões vendendo agrotóxicos altamente perigosos”

Onde: Praça Santos Andrade, Curitiba – PR

Quando: 29 de agosto de 2019, às 15h.

Amazônia em chamas cria tempestade perfeita para o Brasil

fogo-amazonia

Convenhamos que até aqui o presidente Jair Bolsonaro e seu conjunto de ministros generais saídos de algum freezer criogênico vinham nadando de braçadas no seu projeto de instalar um governo ultraneoliberal com extrema facilidade, muito em parte graças à fragilidade absurda dos partidos ditos de esquerda.

A coisa começou a azedar quando começaram os primeiros ruídos em torno dos dados de desmatamento na porção brasileira da bacia Amazônica, muito em graças ao eficientíssimo processo de desmanche da precária governança ambiental e dos insuficientes mecanismos de comando e controle que protegiam com dificuldades unidades de conservação e terras indígenas na Amazônia.

A primeira reação foi demitir o físico Ricardo Galvão da direção do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) pela divulgação de dados de desmatamento na Amazônia que o presidente Jair Bolsonaro e seu ministro (ou seria antiministro?) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, diziam ser mentirosos ou, quando muito, exagerados.

Havia até este ponto uma disputa retórica acerca da capacidade do Inpe de gerar números precisos sobre o desmatamento (sobre isso ver vídeo abaixo com o Dr. Douglas Morton, do Biospheric Sciences Laboratory do Goddard Space Flight Center da NASA).

Mas bastou que os restos secos da floresta começassem a arder e levantar colunas gigantescas de fumaça na Amazônia para que uma tempestade perfeita começasse a se formar em escala global, a qual ameaça engolir o Brasil e os projetos de governo Bolsonaro em nos transformar em uma espécie de uma plataforma exportadora de produtos primários.

As imagens dos incêndios, animais mortos e indígenas denunciando a ação de criminosos no interior de suas terras são demais para serem ignorados, na medida em que governos nacionais, principalmente na Europa, estão implementando ajustes para evitar o agravamento das mudanças climáticas dentro de seus próprios limites nacionais. E com isso vieram as manifestações de Emmanuel Macron, Angela Merkel e até do presidente da Comissão Europeia, o finlândes Jyrki Katainen, no sentido de cobrar do governo Bolsonaro mais responsabilidade com a Amazônia.

O governo Bolsonaro até ontem parecia obstinado em aplicar sua receita devastadora para a Amazônia, em que pesem os alarmes que começaram a ser soados por líderes do latifúndio agro-exportador como Blairo Maggi, Kátia Abreu e Marcello Brito (diretor da Associação Brasileira do Agronegócio).  Isso mudou com a manifestação dura de Emnanuel Macron na sua página na rede social Twitter, o presidente francês demandou ação urgente para obrigar o governo Bolsonaro a mudar seu curso de ação.

macron

É que apesar do estilo de dar caneladas antes de pensar, o presidente Jair Bolsonaro e alguns de seus ministros parecem agora dotados de uma condição de urgência para realizar uma operação de controle de danos.  A anunciada posição da Finlândia de exigir um boicote à carne produzida no Brasil deverá agravar ainda mais a sensação de que medidas urgentes terão que ser tomadas para aliviar um pouco a situação catastrófica em que a diplomacia brasileira foi enfiada pelas manifestações “sinceronas” do presidente Bolsonaro.

O problema agora é ver como sair do enrosco em que Jair Bolsonaro meteu o Brasil. Mas as dezenas de manifestações que estão ocorrendo na Europa para exigir atitudes contra a destruição da Amazônia tornarão qualquer tentativa de reduzir dano quase impossível de ser realizada. É o que dá criar uma tempestade perfeita quando as imagens viajam quase tão rapidamente quanto a fumaça das queimadas.

Agronegócio sente pressão internacional e já se afasta de Bolsonaro

Diretor da Associação Brasileira do Agronegócio, Marcello Brito, acredita que é questão de tempo para o Brasil sofrer boicotes internacionais e que vai custar caro ao país reconquistar a confiança de alguns mercados. “Não podemos transformar o presidente da República”

bolso chapeuFoto: José Cruz/Agência Brasil

Os discursos do presidente Jair Bolsonaro (PSL) com relação à política ambiental do país tem preocupado autoridades e empresários do agronegócio, em especial os exportadores. A percepção é de que o setor corre sério risco de sofrer boicotes internacionais, como já tem acontecido na área de proteção ambiental, e que será necessário agir sem o apoio do presidente. O chefe da Associação Brasileira do Agronegócio, Marcello Brito, disse em entrevista ao Valor que acredita ser “questão de tempo” tais boicotes e que “vai custar caro ao país reconquistar a confiança de alguns mercados”.

“Precisamos parar com essa mania de achar que o Brasil é o único produtor mundial de alimentos e que, se a gente não fornecer, ninguém o fará. A lei de mercado é clara: deixe um espaço vazio e alguém irá ocupar”, afirmou Brito. Para ele, o setor precisará trabalhar “de forma uníssona” para tentar reverter os danos causados pela percepção sobre a política ambiental do governo. “Não podemos transformar o presidente da República”, disse.

A exigência de um agronegócio que seja pautado na proteção ambiental é algo trivial fora do Brasil. No entanto, sustentabilidade é um tema que apresenta prioridades diferentes no governo Bolsonaro com relação aos países europeus. Esse choque de interesses poderá trazer consequências graves, como o cancelamento do acordo de livre-comércio entre Mercosul e União Europeia.

O ex-ministro da Agricultura no governo de Michel Temer, Blairo Maggi (PP), chama atenção para a cláusula do acordo entre os blocos permite que a Europa barre importações do Brasil, o que poderia ter complicações por conta das falas do presidente. “Essas confusões ambientais poderiam criar uma situação para a UE dizer que o Brasil não estaria cumprindo as regras. E não duvido nada que a gritaria geral que a Europa está fazendo seja para não fazer o acordo. A França não quer o acordo”, disse.

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Este artigo foi originalmente publicado pela Revista Fórum [Aqui!] .

Dados do INPE mostram desmatamento em ritmo explosivo na Amazônia

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Enquanto o Brasil é distraído por situações e “causos” envolvendo as idas e vindas do governo Bolsonaro, a realidade imposta no chão das florestas continuam tomando um ritmo explosivo em termos de remoção de vegetação nativa. Isso é o que mostra a série de dados produzida pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que apontam para a remoção de cerca 1.000 km2 de florestas apenas na primeira metade de julho (ver figura abaixo).

desmatamento

Esse avanço explosivo da franja de desmatamento resulta de uma política deliberada de desmantelamento dos mecanismos (limitados) de comando e controle que existiam no governo federal até a chegada de Jair Bolsonaro à presidência da república, o que foi acompanhado pela colocação de um ministro anti-ambiente para dirigir a pasta estratégica do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles.

A continuarmos no atual ritmo, a possibilidade é de que não apenas haja uma alteração imediata no funcionamento dos ecossistemas em escala regional, mas também no plano nacional e global.  A coisa aqui é simples: a transferência da umidade que está diretamente associada à existência das florestas amazônicas cessará e poderá acarretar uma diminuição acentuada das precipitações em outras partes do Brasil, bem como contribuirá para uma elevação do aquecimento do planeta. 

Essa associação entre as florestas amazônicas e a regulação climática está estabelecida em estudos científicos rigorosos, e está sendo propositalmente negligenciada pelo governo Bolsonaro para atender alianças políticas com os setores mais retrógrados da política nacional, os quais, em muitos casos, estão diretamente envolvidos na pilhagem e destruição das florestas nacionais.

Esses dados de desmatamento explosivo certamente vão inquietar os governos europeus com quem o governo Bolsonaro recentemente celebrou um acordo de livre comércio. É que apesar dos interesses e ganhos econômicos imediatos que o acordo entre o Merco Sul e a União Europeia irão privilegiar, há na Europa uma pressão pública para o controle e mitigação dos efeitos das mudanças climáticas. Essa pressão tenderá a aumentar quando os dados produzidos pelo Inpe se tornarem amplamente públicos.

Uma coisa que posso adiantar é que os mecanismos de espalhamento, as áreas preferenciais de pilhagem, e os agentes envolvidos no processo estão mapeados. Entender isso será fundamental para desmascarar quaisquer alegações feitas por agentes do governo Bolsonaro no sentido de menosprezar e denegrir os estudos feitos pela comunidade científica acerca da remoção das florestas amazônicas.

Não obstante a situação que está colocada na Amazônia e no Cerrado é extremamente grave e precisa ser devidamente respondida. Do contrário. todos os piores cenários estimados em centenas de artigos científicos publicados ao longo das últimas décadas serão empalidecidos pela realidade criada pelo governo Bolsonaro.

Finalmente, em função dos dados potencialmente danosos aos interesses políticos e econômicos dos aliados do governo Bolsonaro é bem provável que ocorra um ataque frontal à capacidade do Inpe de continuar monitorando o desmatamento na Amazônia e no Cerrado brasileiro. Apoiar politicamente os pesquisadores do Inpe que conduzem o processo de monitoramento do desmatamento é essencial neste momento. Do contrário, não me surpreenderia com o início de uma perseguição explícita a eles e a todos que utilizam os dados de alta qualidade que eles produzem.

 

Sem saber, brasileiros estão comendo frangos que foram recusados na Europa por causa de contaminação por Salmonela

salmonela

Frangos brasileiros contaminados por bactéria salmonela devolvidos por países da União Europeia estão sendo vendidos em supermercados brasileiros

Em meio aos imensos problemas que vivemos no Brasil, uma notícia passou basicamente sem ter a devida repercussão, apesar das graves consequências que a mesma traz para a vida dos brasileiros.  Falo da informação de que pelo menos 1,4 mil toneladas de frango que foram recusadas pelo Reino Unido por estarem contaminadas pela bacteria Salmonela poderão ser vendidas no Brasil.

frango salmonela

Precisamos lembrar que uma das primeiras propostas apresentadas publicamente pela ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM/MS) foi entregar o processo de fiscalização aos próprios frigorificos, tornando a fiscalização federal apenas uma espécie de apêndice da autofiscalização que as corporações que controlam a produção de carne animal e de laticínios no Brasil realizariam. 

É como se não bastasse que os brasileiros hoje estejam ingerindo resíduos agrotóxicos via o consumo de alimentos e água de torneira. Há que se acrescentar aí o fornecimento de carne animal que outros países estão recusando por estarem com níveis excessivos de contaminação biológica.

Note-se ainda que o fornecimento de alimentos contaminados que podem servir para a ocorrência de doenças que se manifestam de forma aguda ou crônica ocorre em um momento em que ocorre um desmonte do Estado, o que começa a deixar parcelas inteiras da população sem acesso a serviços públicos de saúde.

Este cenário dantesco só será evitado se houver um esforço para conscientizar e organizar as parcelas da população brasileira que terão mais problemas com o desmanche das estruturas de fiscalização sanitária.  Em outras palavras, ou nos organizamos ou estaremos destinados a consumir a comida que outros povos não aceitarão.

Deputados do partido de Macron se rebelam contra acordo entre Mercosul e União Europeia

O acordo comercial concluído entre o Mercosul e a União Europeia enfrenta forte resistência na França. O assunto é manchete nesta quinta-feira (4) nos jornais Le Figaro e Les Echos.

rfi lemondeA imprensa francesa continua apontando resistências na França ao acordo concluído entre o Mercosul e a União Europeia.Fotomontagem RFI

As duas publicações citam o mal-estar gerado no governo pela declaração do deputado Jean-Baptiste Moreau, agricultor e parlamentar do partido do presidente Emmanuel Macron. Ele considera o tratado ruim e diz que pretende convencer Macron da necessidade de rejeitá-lo. Para o parlamentar, é inaceitável importar produtos agrícolas de um país que liberou recentemente, no governo de Jair Bolsonaro, 250 agrotóxicos proibidos na Europa.

Moreau não é o único a se rebelar contra o tratado concluído na sexta-feira passada. Da extrema esquerda à extrema direita, passando pelo centro, sem falar nos agricultores, o acerto com o Mercosul enfrenta duras críticas e deixa o governo francês em situação desconfortável.

Le Figaro afirma em seu editorial que o acordo não deve ser aprovado no Parlamento francês tão cedo, apesar das declarações da Comissão Europeia de que se trata de um texto “equilibrado” e “estratégico” para os europeus.

“Como explicar a um francês que ele não pode tirar o carro da garagem no dia do rodízio em nome do combate ao aquecimento global e justificar a importação de carne da América do Sul, ainda por cima embalada em escândalos sanitários? Como explicar que é preciso desenvolver uma agricultura sustentável e comprar produtos de quem não respeita nenhuma regra?”, interroga Le Figaro.

Falta de transparência

O jornal conservador reconhece que a globalização tirou uma parte do planeta da miséria nas últimas décadas, mas hoje essa prática enfrenta limites. Não é questão de ceder ao protecionismo, mas sim de inventar um novo sistema de trocas para o comércio internacional, mais sustentável e com riscos controlados, defende o texto.

Vários deputados macronistas, tanto da Assembleia Francesa quanto do Parlamento Europeu, criticam abertamente a falta de transparência nas negociações realizadas pela Comissão Europeia, a ausência de debate e de interação dos parlamentares nos termos do tratado. O ponto central de oposição é a questão ambiental, que se tornou uma preocupação maior e uma exigência da opinião pública, explica Les Echos.

Política ambiental de Bolsonaro afunda o tratado

O ex-deputado da base macronista Matthieu Orphelin explica, nas páginas do Les Echos, que o Mercosul não oferece nenhuma garantia aos europeus de combate ao aquecimento global. Orphelin argumenta que o acordo não prevê nenhum mecanismo de suspensão do tratado caso um país decida abandonar o Acordo de Paris ou simplesmente não cumpra as metas prometidas de controle de emissões e desmatamento.

O deputado cita o exemplo do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, que, segundo ele, não merece a menor confiança. “Desde que assumiu o poder, Bolsonaro adota uma política contra o clima, o desmatamento na Amazônia duplicou, inclusive em zonas de reserva”, alega o parlamentar.

O Ceta, acordo assinado entre os europeus e o Canadá, enfrenta a mesma desconfiança e passará pelo crivo dos deputados em uma votação que se anuncia complicada para o governo no dia 17 de julho.

Orphelin pensa como o ex-ministro francês do Meio Ambiente, Nicolas Hulot, que não será possível vencer a guerra contra as mudanças climáticas com as regras atuais do comércio internacional. O deputado defende uma refundação das regras do livre-comércio, que não se baseiem exclusivamente no aumento das exportações para garantir a sustentabilidade do comércio. Ele defende um tratamento à parte dos produtos agrícolas, que leve em conta o modelo de exploração e questões relacionadas com alimentação, saúde e meio ambiente.

Diante da oposição aos dois tratados, especialmente ao do Mercosul, Macron tomou a palavra na terça-feira em Bruxelas para criticar o que chamou de onda “neoprotecionista”, reafirmando que é possível abrir os mercados de maneira exigente em relação ao clima e ao respeito dos diferentes modelos agrícolas. O ministro da Agricultura, Didier Guillaume, e o ministro das Relações Exteriores, Jean-Yves Le Drian, também deram declarações em favor dos dois acordos. Mas a votação na Assembleia Francesa será um teste para a credibilidade do governo.

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Este artigo foi originalmente publicado pela Rede França Internacional [Aqui!].

Lançado na Europa mapa do envenenamento de alimentos no Brasil

Em exposição crônica aos agrotóxicos, brasileiro corre mais risco de morte e desenvolvimento de doenças

Por Ivanir Ferreira

 

larissa 1O atlas de envenenamento foi lançado em Berlim, Alemanha, país que sedia as maiores empresas agroquímicas do mundo: a Bayer/Monsanto (incorporada pelo grupo Bayer) e a Basf, que dominam a produção de toda a cadeia alimentar – sementes, fertilizantes e agrotóxicos – Fotomontagem: Moisés Dorado

Um ousado trabalho de geografia que mapeou o nível de envenenamento dos alimentos produzidos no Brasil foi lançado em maio, em Berlim, na Alemanha, país que contraditoriamente sedia as maiores empresas agroquímicas do mundo. Quem estava presente no lançamento do atlas Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Europeia ficou perplexo com a informação sobre o elevado índice de resíduos agrotóxicos permitidos em alimentos, na água potável, e que, potencialmente, contamina o solo, provoca doenças e mata pessoas. A obra, que já foi publicada no Brasil, é de autoria da geógrafa Larissa Mies Bombardi, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

O Brasil é campeão mundial no uso de pesticidas na agricultura, alternando a posição dependendo da ocasião apenas com os Estados Unidos. O feijão, a base da alimentação brasileira, tem um nível permitido de resíduo de malationa (inseticida) que é 400 vezes maior do que aquele permitido pela União Europeia; na água potável brasileira permite-se 5 mil vezes mais resíduo de glifosato (herbicida); na soja, 200 vezes mais resíduos de glifosato, de acordo com o estudo, que é rico em imagens, gráficos e infográficos. “E como se não bastasse o Brasil liderar este perverso ranking, tramita no Congresso nacional leis que flexibilizam as atuais regras para registro, produção, comercialização e utilização de agrotóxicos”, relata Larissa.

A pesquisadora explica que o lançamento do atlas na Europa se deu pelo fato de a Alemanha sediar a Bayer/Monsanto e a Basf, indústrias agroquímicas que respondem por cerca de 34% do mercado mundial de agrotóxicos. A Monsanto, recentemente incorporada ao grupo Bayer, é a líder mundial de vendas do glifosato, cujos subprodutos têm sido associados a inúmeras doenças, incluindo o câncer e o Alzheimer. “Queríamos promover discussão sobre a contradição de sediarem indústrias que controlam toda a cadeia alimentar agrícola – das sementes, agrotóxicos e fertilizantes – e serem rigorosos quanto ao uso de mais de um terço dos pesticidas que são permitidos no Brasil. Eles são corresponsáveis pelos problemas gerados à população porque vendem e exportam substâncias sabidamente perigosas, porém, proibidas em seu território”, diz.

larissa bombardiGeógrafa Larissa Bombardi, autora da pesquisa que deu origem ao atlas da Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

Intoxicação e suicídios

Segundo a geógrafa, as perdas não se limitam à contaminação de alimentos e dos cursos d’água. O atlas traz informações de que, depois de extensa exposição aos agrotóxicos, ocorrem também casos de mortes e suicídios associados ao contato ou à ingestão dessas substâncias.

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Atlas: Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia, de Larissa Mies Bombardi – Laboratório de Geografia Agrária da FFLCH – USP, São Paulo, 2017

Entre 2007 e 2014, o Ministério da Saúde teve cerca de 25 mil ocorrências de intoxicações por agrotóxicos. O atlas mapeia as regiões mais afetadas: dos Estados brasileiros, durante o período da pesquisa, o Paraná ficou em primeiro lugar, com mais de 3.700 casos de intoxicação. São Paulo e Minas Gerais ficaram na segunda colocação, com 2 mil. Das 3.723 intoxicações registradas no Paraná, 1.631 casos eram de tentativas de suicídio, ou seja, 40% do total. Em São Paulo e Minas gerais o porcentual foi o mesmo. No Ceará, houve 1.086 casos notificados, dos quais 861 correspondiam a tentativas de suicídio, cerca de 79,2%. Os mapas de faixa etária mostram que 20% da população afetada era composta de crianças e jovens com idade até 19 anos. Segundo Larissa, no Brasil, há relação direta entre o uso de agrotóxicos e o agronegócio. Em 2015, soja, milho e cana de açúcar consumiram 72% dos pesticidas comercializados no País.

O atlas Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Europeia, em português, foi lançado no Brasil em 2017 e traz um conjunto de mais de 150 imagens entre mapas, gráficos e infográficos que abordam a realidade do uso de agrotóxicos no Brasil e os impactos diretos deste uso no País. A pesquisa que deu origem à publicação teve o financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Em Berlim, o lançamento aconteceu na sede do ENSSER (European Network of Scientists for Social and Environmental Responsability), rede europeia sem fins lucrativos que reúne cientistas ativistas responsáveis ambiental e socialmente, em Glasgow, Escócia. O suporte financeiro para o lançamento do atlas na Europa foi da FFLCH e da Pró-Reitoria de Pesquisa da USP.

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Entre 2000 e 2010, o Brasil aumentou em 200% o consumo de agrotóxicos. A soja foi a cultura que mais consumiu pesticidas

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Mapa de intoxicação por agrotóxicos de uso agrícola (2007-2014)

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Uso de malationa (inseticida) na cultura do feijão – Limite máximo de resíduos permitido no Brasil e nos países da comunidade europeia

Mais informações: Larissa Mies Bombardi, larissab@usp.br ou pelo telefone (11) 3091-3769. Atlas versão em português – Atlas versão inglês

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Este artigo foi iniciado publicado pelo Jornal da USP [Aqui!].

Larissa Bombardi e a comparação do uso de agrotóxicos entre Brasil e a União Europeia

larissa bombardi

Série de entrevistas com a professora Larissa Mies Bombardi esclarece a grave situação dos agrotóxicos no Brasil.

A professora da Universidade de São Paulo (USP) Larissa Mies Bombardi é hoje uma das principais experts na questão do uso de agrotóxicos, muitos deles banidos em outras partes do planeta, na agricultura brasileira. É dela a obra “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia” que compara a situação comparada entre o uso de agrotóxicos do Brasil e na União Europeia.

Abaixo posto o primeiro vídeo de uma série produzida pelo jornalista Bob Fernandes com a professora Larissa Bombardi sobre a crítica situação que está ocorrendo no Brasil em função do vício da agricultura brasileira, principalmente naquelas propriedades destinadas às monoculturas de exportação, por compostos altamente tóxicos.

Não nos enganemos, como bem diz a professora Larissa Miers Bombardi a situação causada pelos agrotóxicos no Brasil é gravíssima. E é preciso tratar a situação pelo que ela é em função dos graves danos ambientais e sociais que a dependência da agricultura brasileira em relação a essas substâncias altamente perigosas que hoje contaminam águas, solos e os alimentos que os brasileiros e as populações dos parceiros comerciais do Brasil consomem.

Acordo comercial entre União Europeia e Mercosul: benção ou perdição?

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Em seu blog no site UOL, o jornalista Jamil Chade nos dá conta de que um acordo iminente entre a União Europeia (EU) e o Mercosul. Esse acordo certamente será apresentado como uma grande vitória do governo Bolsonaro, ainda que as tratativas estejam sendo encaminhadas há mais de duas décadas. 

Como em tantos outros casos, o demônio aqui mora nos detalhes.  É que em contrapartida para uma abertura do setor industrial do agronegócio (leia-se latifúndio agro-exportador), os brasileiros aparentemente esperam que o bloco europeu abra suas fronteiras para produtos derivados do leite, açúcar e carne.  Esse desejo de trocas tão desiguais revela a verdade que querem esconder: o Mercosul sairá perdendo desse acordo, na medida em que está sobre a mesa elementos cujo peso econômico é definitivamente desigual. Equivale a algo como entregar grãos de sal para receber quilos de ouro (isto se você for a União Europeia).

Há ainda que se ressaltar o fato que para que o Mercosul possa ser atendido em seu desejo de ampliar exportações para a EU duas coisas teriam que ocorrer: a primeira seria o necessário relaxamento de barreiras sanitárias que impedem, por exemplo, a chegada de carne bovina de animais vacinados contra a febre aftosa, e 2) a resistência dos agricultores europeus à entrada da concorrência certamente mais barata de produtos vindos da América do Sul.

vacina-febre-aftosa-1024x685Vacinação contra febre aftosa, uma necessidade em boa parte do Brasil, tem sido usada para impedir exportação de carne para a EU. Como ficará se o acordo for assinado?

Noto ainda desdobramentos interessantes no tocante a vários dinâmicas em curso no Brasil. A primeira tem a ver com a produção de soja que tem na EU um dos principais compradores. Se as vendas de carne bovina aumentarem, isto certamente impactará a quantidade de soja importada, pois com mais carne no mercado virá a diminuição dos rebanhos europeus.  Entretanto, com maiores vendas de carne na EU, fica a dúvida de qual será o impacto final na área a ser desmatada na Amazônia brasileira que tem exatamente na soja e na pecuária dois dos grandes “drivers”  de desmatamento.

pesticideA EU tem uma política mais restritiva no uso de agrotóxicos. Vai aceitar ampliar compras de alimentos que extrapolam seus próprios limites de resíduos?

Fico ainda em dúvida em relação ao que os representantes da EU vão dizer aos representantes do Mercosul acerca da quantidade tolerável de resíduos de agrotóxicos nos produtos que se quer vender para a Europa. A verdade é que hoje o Brasil permite quantidades substancialmente mais altas de resíduos de agrotóxicos nos alimentos que exporta em relação ao que é tolerado na EU. Adicione-se a isso, o fato de que o Brasil e a Argentina estão hoje utilizando um número significativo de agrotóxicos que foram banidos na EU.  O que dirão os representantes da EU e, principalmente, os potenciais consumidores de uma produção que traz dentro de si quantidades significativas altas de diversos agrotóxicos? Os europeus vão, por exemplo, consumir queijo, carne e a açúcar contaminados por agrotóxicos que eles mesmo baniram ou preferir comprar produtos próprios que são produzidos com uma legislação mais restritiva no tocante à contaminação por esses agentes químicos?

Antes que se festeje esse acordo, há que se ir além do que os governos e grandes corporações querem que enxerguemos.  É que como em muitas outras questões, o que mais interessa a esses agentes é o aumento do lucro e da concentração da riqueza. Se para isso tiverem que desmatar e envenenar mais, que seja.   Por isso, aqueles que desejam formas social, econômica e ambientalmente sustentáveis de funcionamento da economia vão ter que ficar atentos aos termos desse acordo comercial que está me parecendo mais um termo de rendição.