Socialismo que nada, o verdadeiro alvo do governo Bolsonaro é o Iluminismo

Por isso, os ataques ao direito à educação pública e ao ingresso em universidades

cosmologia-idade-media

A imagem acima mostra a Xilogravura de Flammarion, onde um homem medieval com seu bastão, vestido como um peregrino, que olha para o céu como se estivesse encoberto por uma cortina, ele olha como se quisesse conhecer o outro lado da Terra, o que está oculto, o que há além do próprio planeta Terra.

Em uma entrevista que concedi ao jornal português Diário de Notícias no dia 11 de janeiro de 2019, expressei minha preocupação com que eu considero um ataque ideológico contra a ciência no Brasil por parte do governo Bolsonaro.

Pois bem, um amontoado de declarações vindo de diversos dos ministros instalados em cargos chaves para o desenvolvimento social, econômico e cultural do Brasil me fazem agora pensar que o ataque a que me referi vai além da ciência.  É que estão sob ataque também as escolas e universidades, bem como os mecanismos que foram criados para a defesa do meio ambiente.

Um exemplo disso é a proposta da ministra Damares Alves que propõe a adoção de um modelo ainda pouco claro do chamado “home schooling” (ou seja, educação dentro de casa).  Essa proposta atenta contra quase um século (se levarmos o “Movimento da Escola Nova” que foi liderado por Anísio Teixeira na década de 1930) de luta para que seja garantido o direito de que cada brasileiro ter acesso a uma educação pública, laica e a co-educação (i.e., a mesma educação para ambos os sexos). Como um liberal da época, em um pais marcado por profundas desigualdades educacionais, Anísio Teixeira, inspirado no modelo norte-americano, acreditava que todo brasileiro e brasileira deveria ter acesso à escola, pois esta instituição seria capaz de desenvolver as habilidades individuais.

damares

Ministra Damares Alves, vestindo rosa, com o presidente Jair Bolsonaro.

Com sua proposta de “home schooling”, o que Damares Alves parece avançar é a sua visão de que “meninos vestem e meninas vestem rosa” e de que “as mulheres nasceram para serem mães e que o modelo ideal de sociedade as deixaria apenas em casa, sustentadas pelos homens.”.  Portanto, do alto da sua posição de ministra, Damares Alves avança sua visão de sociedade patriarcal onde cabe à mulher apenas os papéis de reprodutora e cuidadora da prole. Além disso, a proposta desconsidera os múltiplos papéis que a escola desempenha em um país como o Brasil, de possibilitar que os trabalhadores e seus filhos possam se apropriar do conhecimento produzido pela Humanidade e, também, de ser um local de extrema importância no qual muitas mulheres (dados de 2015 apontam que 28,5 milhões de famílias brasileiras eram monoparentais e comandas por mulheres) possam trabalhar e deixar seus filhos em casa.

Não bastasse as ideias retrogradas de Damares Alves, temos ainda as manifestações do ministro da Educação, Ricardo Vélez-Rodriguez, de que “as universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual, que não é a mesma elite econômica [do país]”. Apesar de tentar de desvencilhar do real significado desta posição ao dizer que elite intelectual não é sinônimo de elite econômica, a pergunta que Vélez-Rodriguez é de como ele consegue separar uma coisa da outra em um país onde prevalece uma das concentrações mais abjetas de riqueza no planeta (estando no grupo de 10 países com extrema concentração de riqueza no mundo). Uma única certeza desse projeto de “universidade para as elites” é que se essa ideia vencer, teremos um “branqueamento” das salas de aula a partir do impedimento de que jovens negros e pobres possam almejar educação universitária no Brasil.  Isto se trata de impor um profundo retrocesso, e vai na contramão das políticas educacionais que vem sendo executadas a partir da década de 1990, no qual uma parcela expressiva das classes subalternas teve a oportunidade de ter acesso ao ensino superior.

velez

Ministro Ricardo Vélez-Rodriguez, ao lado do presidente Jair Bolsonaro, defende que universidades sejam para a “elite intelectual”.

Como professor de uma universidade pública desde 1998, sou testemunha viva do esforço realizado por centenas de jovens que chegaram ao nível universitário com graves deficiências de formação, as quais foram superadas com grande esforço pessoal e dedicação. E muitos desses jovens são hoje exemplos concretos de alta capacidade intelectual, condição que só puderam alcançar por causa da existência de uma universidade criada por demanda popular no interior do estado do Rio de Janeiro. Essa universidade, a Uenf, é, inclusive, um dos últimos tributos de outro grande líder na luta pela educação pública no Brasil, o antropólogo Darcy Ribeiro, e um dos testemunhos materiais da importância da escola pública no processo de desenvolvimento econômico nacional.

Mas o que a junção das ideias de Damares Alves e Ricardo Vélez-Rodriguez evidencia é que o alvo real dos planos de desmanche do governo Bolsonaro não é uma suposta, mas inexistente, herança socialista deixada pelos parcos anos em que o PT comandou o governo federal. O alvo real são as ideias do Iluminismo do Século do Século XVIII acerca do papel da ciência e da educação no desenvolvimento de uma sociedade que pudesse almejar condições mais dignas de existência de Humanidade.

É essa aversão ao pensamento iluminista que está explicita nas manifestações e projetos que estão sendo gestados pelo governo Bolsonaro. Entender isso e a gravidade do retrocesso que está se montando em diversas áreas essenciais é fundamental para que possamos sair da posição expectante para outra de natureza pró-ativa em defesa da ciência e da educação pública.

Finalmente, imaginemos quão trágico é, em pleno Século XXI, estarmos em uma batalha de vida ou morte para a nação brasileira por ideias que já deveriam ter sido abraçadas desde o Século XVIII. Mas é por é isso mesmo que não há espaço para a dúvida, hesitação ou, menos ainda, resignação. 

O que o editorial de “O Globo” esqueceu de mencionar: as universidades chilenas serão completamente gratuitas até 2020!

Comentei ontem o grotesco editorial do jornal O Globo que defendeu o inicio da cobrança nas universidades públicas brasileiras (Aqui!). A reação da maioria dos leitores foi de repudiar o editorial, mas houve gente que se alinhou à proposta sob o argumento de que isto encerraria uma espécie de “socialismo para os ricos”, já que a maioria que frequenta as universidades públicas seriam capazes de pagar por isso.

Afora o fato de que o editorial citou como exemplo de base empírica para o argumento a Universidade de São Paulo (USP), o que limita o alcance da efetividade do argumento, lembrei que países como a Alemanha possuem universidades públicas totalmente gratuitas, e não são nem de perto socialistas.

Mas eu não precisaria sair da América do Sul para ver um exemplo totalmente oposto ao que propõe a família Marinho para a educação superior brasileira. É que no final de 2015 o Chile, usina principal do Neoliberalismo no nosso continente, iniciou um processo de implantar a gratuidade total nas universidades públicas, o que deverá ser completado até 2020 (ver abaixo reprodução de matéria publicada pela Revista Exame em Dezembro de 2015) (Aqui!).

chile

Obviamente essa postura do Chile não ocorrreu no vácuo, já que nas últimas décadas a juventude chilena foi constantemente às ruas para exigir a gratuidade do ensino superior. Mas a adoção da gratuidade reflete uma mudança substancial da postura que imperou após a chegada da ditadura militar liderada por Augusto Pinochet e que prevaleu durante vários governos civis, inclusive sob Michelle Bachelet.

Assim, ao contrário do que propõe as Organizações Globo, a injustiça social no ensino público gratuito não será corrigida com o seu fim, mas com a sua ampliação. E a ampliação das vagas gratuitas no ensino superior são a principal garantia de que não permaneceremos eternamente presos a uma dependência científica e tecnológica que apenas eterniza nossa dependência econômica.  Simples assim!

Enquanto sobram as benesses dadas pela farra das isenções, universidades estaduais continuam sua agonia

No Rio de Janeiro sobram isenções fiscais controversas para todo tipo de empresa graças a uma verdadeira panaceia em prol de um suposto desenvolvimento econômico. Enquanto isso as três universidades estaduais (Uenf, Uerj e Uezo) continuam sendo empurradas para um processo de asfixia financeira sem precedentes.

Como mostrei em minha postagem anterior, o mecenato do (des) governo do Rio de Janeiro liberou mais R$ 8 milhões em isenções fiscais para projetos supostamente da área cultural, como o Rock in Rio 2015 e o Rio Open 2016 (mais de R$ 1.5 milhão apenas nesses dois casos). Entretanto, quase ao final do mês de maio, as universidades estaduais ainda não viram a cor do dinheiro para pagar as contas acumuladas de serviços essenciais como água e eletricidade.

Uma alma ingênua poderia perguntar como é que as universidades ainda não fecharam completamente. A resposta é simples: o funcionamento está sendo garantido de forma muito precária, muitas vezes com o sacrifício pessoal de professores, servidores e estudantes.  

Mas por quanto tempo será possível manter as universidades numa espécie de condição comatosa, sem que grandes danos sejam causados ao funcionamento de estruturas essenciais? Eu me arrisco a dizer que já estamos alcançando o limiar do colapso. Apenas na Uenf, várias pesquisas estão sob grave ameaça de serem descontinuadas, com prejuízos incalculáveis do ponto científico, mas também econômico. É que muitas dessas pesquisas possuem aplicação na melhoria de sistemas produtivos e sua interrupção comprometerá de forma inevitável a contribuição que as mesmas poderiam ter na economia.

Mas qual seria a lógica deste tipo de massacre financeiro que o (des) governo do Rio de Janeiro está impondo às nossas universidades? A explicação mais básica é que estamos na antevéspera de um processo de privatização cuja desculpa será que o estado perdeu sua capacidade de financiar as universidades. Esta mensagem tem sido ecoada por diferentes secretários do (des) governo comandado por Pezão e Dornelles.

Entretanto, basta examinar as isenções fiscais bilionárias que estão sendo concedidas por diversas secretarias que veremos que esse argumento é falacioso. O que está em jogo mesmo é a completa privatização do estado no Rio de Janeiro. E por ocuparem um papel tão relevante no imaginário social, as universidades, escolas e hospitais públicos são o meio pela qual a privatização do estado está sendo materializada. 

Marketing acadêmico: texto aborda os problemas vividos dentro da universidade brasileira sob o império do produtivismo

produtivismo

Recebi de uma colega professora da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), e sugiro a leitura do texto “Dos Valores de Medida aos Valores como Medida: Uma avaliação axiológica da avaliação acadêmica” do professor adjunto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), André Luís de Oliveira Mendonça, publicado na Revista “Ensaios Filosóficos”, e que pode ser acessado (Aqui!). Em um texto que mostra com perfeição os problemas enfrentados dentro das universidades brasileiras por professores e estudantes no tocante aos  efeitos do produtivismo acadêmico, os quais estão atualmente umbilicalmente ligados ao processo de avaliação de programas de pós-graduação, o prof. Mendonça não se limita a falar da “doença”, mas aponta para os remédios que permitiriam buscar a cura do mal que nos aflige.

O interessante é que dependendo da forma com que este texto for lido e devidamente apreciado, o leitor poderá se enquadrar nas diversas categorias que foram estabelecidas para diagnosticar a situação em que nos encontramos atualmente, onde a pressão produtivista compromete o estabelecimento de reflexões críticas da realidade e fere mortalmente o poder criativo dos cientistas brasileiros.

Entretanto, ainda que eu discorde em relação à efetiva eficácia da “medicação” sugerida pelo Prof. Mendonça, a simples menção de que estamos imersos num sistema enfermo já me anima a recomendar a leitura deste interessante texto. É que no meio do deserto das produções comuns e corriqueiras, é sempre salutar ver que existem esforços reflexivos acerca dos problemas e saídas a serem adotadas para superá-los. Pode não parecer, mas isso já é muita coisa. Afinal de contas, sem reflexão crítica não há ciência verdadeira, apenas arremedo.

Universidades, cérebros e a “Pátria Educadora”

Por Jean-Paul Veiga da Rocha

BRAIN

Com a posse do novo Ministro da Educação, a universidade voltou ao centro do debate nacional. Em seu discurso, Renato Janine Ribeiro afirmou que “as elevadas capacidades” dessa instituição precisam estar a serviço também do ensino fundamental. Tamanha responsabilidade leva-nos a perguntar: mas como está, então, a nossa universidade? A resposta pode não ser muito animadora.
Houve um tempo em que a principal preocupação da ciência brasileira era a evasão de cérebros. Entretanto, a julgar pelo contundente artigo do físico Rogério Cezar Cerqueira Leite (‘Produção científica e lixo acadêmico no Brasil’, 6/1/15 ), é outro agora o problema a ser enfrentado: segundo o professor emérito da Unicamp, os concursos de seleção de docentes nas nossas universidades são “frequentemente falsificados”. Sob o manto sagrado do concurso público, a marmelada tem triunfado sobre a meritocracia.
As soluções estruturais para esse problema são complexas, mas algo poderia ser imediatamente feito para deixar a luz do sol desinfetar o ambiente, intimidando a política pequena das seitas acadêmicas.
São medidas simples: transmitir ao vivo e filmar os concursos; jamais realizá-los durante as férias (quando a comunidade acadêmica está desmobilizada); mudar a forma de escolha dos membros da banca (para garantir sua independência); exigir que os examinadores fundamentem seus votos publicamente (em vez de darem, em sessões secretas, simples notas genéricas, que disfarçam o arbítrio e o conluio).
Em síntese, a contratação de cada novo professor, que ocupará uma preciosa vaga por décadas, tem que se explicar claramente: por que se escolheu aquele candidato, e não o outro? A decisão deve valorizar a trajetória intelectual dos talentosos, desmascarando o aventureiro que não é do ramo e busca apenas o prestígio que a instituição agregaria a seu currículo.
Deve distinguir quantidade de qualidade: por exemplo, na área jurídica –em que, via de regra, é elevado o grau de promiscuidade entre interesses privados, arrivismo e academia–, trabalhos mais sofisticados e inseridos numa rede acadêmica internacional de alto nível deveriam valer mais que dezenas de livros provincianos sem a menor criatividade (manuais que, de tão carentes de rigor metodológico, mais parecem, às vezes, ter sido elaborados por estagiários).
Infelizmente, é chocante constatar o baixo nível intelectual de alguns processos seletivos: em recente concurso para professor titular (topo da carreira) na Faculdade de Direito da USP, um membro da banca examinadora ocupou boa parte de seu tempo, que deveria ser dedicado à rigorosa sabatina de um candidato, contando causos que variavam desde o passeio com seu neto na Disneylândia até –pasme, leitor– uma analogia escatológica entre um laxante e o conceito jurídico de eficácia.
A universidade não pode sobreviver, muito menos servir à causa mais ampla da educação, sem que o princípio meritocrático seja blindado contra pressões menos nobres. Entretanto, toda e qualquer mudança nas práticas das universidades brasileiras só acontecerá se for rompido um antigo pacto de silêncio. Como tudo na vida, essa ruptura não virá de graça. Em alguns ambientes mais autoritários, ela exigirá luta e coragem.
Se o oportunismo, o medo de retaliações ou o corporativismo sufocarem as vozes dos professores, alunos e funcionários, estaremos diante de mais uma calamidade: a aliança entre a conveniência e a mediocridade, condenando-nos ao eterno atraso científico, cultural e tecnológico. Será esse o destino da “Pátria Educadora”?
JEAN-PAUL VEIGA DA ROCHA, 42, é professor doutor da Faculdade de Direito da USP
FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2015/06/1641538-jean-paul-veiga-da-rocha–universidades-cerebros-e-a-patria-educadora.shtml#_=_

Comodificação da ciência como causa primária do “trash science”

space1103rat_A

O artigo abaixo da autoria de Thomaz Wood Jr. foi publicado pela Revista Caros Amigos e relata a posição de dois pesquisadores holandeses sobre a transformação da produção científica em mais uma commodity. A relação que Willem Haffman e Hans Radder estabelecem entre o processo de transformação da ciência em mais uma commodity e a disseminação do que eu chamo de trash science é direta. É que espremidos por princípios de performance produtivista, os pesquisadores enveredam por caminhos onde abraçar o trash science é um passo mais do que natural.

Além da leitura do artigo abaixo, eu recomendo a leitura do livro editado por Hans Radder (lamentavelmente disponível apenas em inglês) que possui o sugestivo título de “The commodification of academic research: sicence and the modern university” (Aqui!).

A questão que emerge diante dessas reflexões se refere ao fato de que casos de fraude e produção de lixo científico que tanto assombram a ciência neste momento precisam ser colocados num contexto mais amplo. Se não, vai ficar parecendo que se tratam apenas de casos isolados de desvio de caráter, quando a coisa parece ter tomado características sistêmicas

Universidades ou fábricas?

Pesquisadores da Holanda criticam a introdução de práticas empresariais no ensino superior

Por Thomaz Wood Jr.
BIBLIO
A biblioteca da universidade de Radboud, em Nijmegen, na Holanda. O mundo corporativo chegou lá
Na edição de abril da revista científica Minerva, os pesquisadores Willem Halffman e Hans Radder publicaram texto contundente e provocativo. Sob o título “O Manifesto Acadêmico – Da universidade ocupada para a universidade pública”, os autores analisam criticamente a modernização do ensino superior holandês, frequentemente citado como exemplo de superação do anacrônico modelo torre de marfim. O tom é desinibido e panfletário, e conclama acadêmicos para uma ação transformadora.

Segundo Halffman e Radder, as universidades holandesas foram invadidas e ocupadas. O ocupante, no caso, não é uma força fardada ou milícia religiosa. Afinal, trata-se dos Países Baixos. Os autores referem-se a um verdadeiro lobo mau, o Lobo do Management. Segundo eles, o management é um regime obcecado com medições, controles, competição, eficiência e a ideia tortuosa de salvação econômica. Para expulsar a invasora e devolver as universidades aos cidadãos, os autores propõem que os próprios acadêmicos assumam o controle de seu destino e construam uma nova universidade pública, alinhada com o bem comum e com uma proposta de geração de conhecimento socialmente engajado.

Halffman e Radder advogam que o Lobo do Management invadiu a academia com um “exército mercenário de administradores profissionais, armados com planilhas, indicadores de desempenho e procedimentos de auditoria”. Seu inimigo são os acadêmicos, esses seres egocêntricos e autocentrados, pouco confiáveis, que precisam ser monitorados e controlados. As universidades foram conquistadas e colonizadas. Projetos de alta visibilidade e indicadores manipulados mostram para o público externo o sucesso do novo modelo. Entretanto, há uma sensação de revolta no ar: no “chão de fábrica”, o clima é tóxico e o moral é baixo.

O Lobo do Management cultua índices e rankings. Faz inventários de artigos publicados e comemora com champanhe cada posição galgada nas listas internacionais. A posição nas planilhas determina a sorte de pesquisadores e de departamentos. Vence a quantidade, pouco importa o conteúdo. Na batalha dos números, acadêmicos criam fábricas de artigos, assinam trabalhos uns dos outros, citam-se mutuamente e correm o mundo para promover seus textos. O que vale é a performance.

Enquanto isso, no mercado acadêmico, multiplicam-se os eventos e as revistas científicas. Sobram escritores e faltam leitores. Halffman e Radder argumentam que o fetiche dos indicadores está transformando a ciência, destruindo tudo que não é mensurável. Sob o ocupador, a massa de acadêmicos comporta-se como um rebanho de ovelhas, mantido sob vigilância e controle.

O novo mantra é a busca da eficiência. Em lugar de recursos, as universidades ganham gestores. Resultado: nos orçamentos, recursos migram de laboratórios para serviços de relações públicas, da pesquisa para a contratação de consultores de marketing. A nova universidade aparece em anúncios de página inteira nos jornais, mantém websites atraentes e garante uma presença constante nas mídias sociais. Seus professores e pesquisadores devem tornar-se celebridades nos jornais, na tevê e, claro, nas palestras TED.

Com as práticas empresariais, o Lobo do Management impõe uma nova cultura. A busca da excelência, que flagelou empresas nos anos 80 e 90, chega décadas depois à universidade. É preciso ser “de topo”, publicar artigos em um seleto grupo de periódicos, ter os coautores certos, conseguir proeminência nos círculos mais prestigiosos, ser um hábil captador de recursos e gerenciar uma dócil equipe de pesquisadores juniores. Para se manter na ribalta, os tais pesquisadores “de topo” terceirizam o ensino para doutorandos e coagem orientandos a lhes conceder coautorias.

A história holandesa repete-se em diferentes latitudes e longitudes. Muitas universidades públicas tropicais são antediluvianas. Elas continuam a seguir o anacrônico modelo da torre de marfim e lutam para preservar pequenos privilégios. São perdulárias, ineficientes e ineficazes. São autocentradas e ignoram o mundo ao redor. Porém, começam a sentir os efeitos do “choque de gestão” descrito por Halffman e Radder. E, assim, somam às suas antigas patologias, o autismo e o imobilismo, as mais novas: produtivismo, exibicionismo e comportamentos para inglês ver. Algumas ovelhas exauridas e irritadas balem aqui e acolá. Porém, faltam-lhes direção e união.

Crise das universidades paulistas: ADUSP diz que governo Alckmin não repassou R$ 2 bilhões em 6 anos

Ao contrário do que diz o Reitor Zago, as causas da Crise Financeira da USP são muitas. Nenhuma delas, responsabilidade dos que estudam e trabalham para garantir as atividades vitais de produção de conhecimento na USP.

Como denunciou a ADUSP (Associação dos Docentes da USP), as Universidades Estaduais Paulistas tiveram quase 2 BILHÕES DE REAIS sonegados pelo governo do estado de São Paulo nos últimos 6 anos. Trata-se de uma verba destinada às universidades por uma Lei Estadual.

Nos indigna o fato do Reitor Zago, mesmo tendo mandado uma carta à toda Universidade de São Paulo, culpabilizando os salários dos funcionários e professores, mesmo recebendo um supersalário ilegal, de valor superior ao do Governador do Estado, ter omitido essas informações. Onde está a transparência, Zago?

Fonte: http://www.adusp.org.br/index.php/campanha-salarial-2014cs/1921-mais-um-capitulo-na-sonegacao

Ciência brasileira adere ao ‘padrão salame’ de produção e avaliação científica

FOTO: Brian Harkin/NYT – Copyright

Faz tempo que quero escrever algo sobre essa cultura da “ciência salame” e sobre o debate da “quantidade x qualidade” na avaliação da produção científica e da qualidade científica de pesquisadores no Brasil. Não preciso mais … o biólogo Fernando Reinach (colunista do Estadão e um dos pioneiros da biotecnologia no Brasil) já fez isso por mim na edição de sábado (com muito competência do que eu seria capaz de fazer).

Copio abaixo o artigo publicado por ele na edição de sábado do jornal, que já tem mais de 10 mil compartilhamentos no Facebook, mas que merece ter muito mais ainda.

Abaixo do artigo do Reinach, copio também um artigo publicado em junho do ano passado na revista Trends in Ecology and Evolution, em que os autores discutem a “obsessão da academia com quantidade”. Ele faz parte de um fórum de discussão lançada pela revista em março deste ano para debater o tema “Que tipo de ciência queremos?“, que inclui um comentário de biólogos brasileiros da Universidade Federal de Goiás.

Publicar muita porcaria ou publicar pouca coisa boa? Eis a questão.   (não só na ciência, mas no jornalismo também)

Darwin e a prática da ‘Salami Science’

Fernando Reinach / O Estado de S.Paulo

Em 1985, ouvi pela primeira vez no Laboratório de Biologia Molecular a expressão “Salami Science”. Um de nós estava com uma pilha de trabalhos científicos quando Max Perutz se aproximou. Um jovem disse que estava lendo trabalhos de um famoso cientista dos EUA. Perutz olhou a pilha e murmurou: “Salami Science, espero que não chegue aqui”. Mas a praga se espalhou pelo mundo e agora assola a comunidade científica brasileira.

“Salami Science” é a prática de fatiar uma única descoberta, como um salame, para publicá-la no maior número possível de artigos científicos. O cientista aumenta seu currículo e cria a impressão de que é muito produtivo. O leitor é forçado a juntar as fatias para entender o todo. As revistas ficam abarrotadas. E avaliar um cientista fica mais difícil. Apesar disso, a “Salami Science” se espalhou, induzido pela busca obsessiva de um método quantitativo capaz de avaliar a produção acadêmica.

No Laboratório de Biologia Molecular, nossos ídolos eram os cinco prêmios Nobel do prédio. Publicar muitos artigos indicava falta de rigor intelectual. Eles valorizavam a capacidade de criar uma maneira engenhosa para destrinchar um problema importante. Aprendíamos que o objetivo era desvendar os mistérios da natureza. Publicar um artigo era consequência de um trabalho financiado com dinheiro público, servia para comunicar a nova descoberta. O trabalho deveria ser simples, claro e didático. O exemplo a ser seguido eram as duas páginas em que Watson e Crick descreveram a estrutura do DNA. Você se tornaria um cientista de respeito se o esforço de uma vida pudesse ser resumido em uma frase: Ele descobriu… Os três pontinhos teriam de ser uma ou duas palavras: a estrutura do DNA (Watson e Crick), a estrutura das proteínas (Max Perutz), a teoria da Relatividade (Einstein). Sabíamos que poucos chegariam lá, mas o importante era ter certeza de que havíamos gasto a vida atrás de algo importante.

Hoje, nas melhores universidade do Brasil, a conversa entre pós-graduandos e cientistas é outra. A maioria está preocupada com quantos trabalhos publicou no último ano – e onde. Querem saber como serão classificados. “Fulano agora é pesquisador 1B no CNPq. Com 8 trabalhos em revistas de alto impacto no ano passado, não poderia ser diferente.” “O departamento de beltrano foi rebaixado para 4 pela Capes. Também, com poucas teses no ano passado e só duas publicações em revistas de baixo impacto…” Não que os olhos dessas pessoas não brilhem quando discutem suas pesquisas, mas o relato de como alguém emplacou um trabalho na Nature causa mais alvoroço que o de uma nova maneira de abordar um problema dito insolúvel.

Essa mudança de cultura ocorreu porque agora os cientistas e suas instituições são avaliados a partir de fórmulas matemáticas que levam em conta três ingredientes, combinados ao gosto do freguês: número de trabalhos publicados, quantas vezes esses trabalhos foram citados na literatura e qualidade das revistas (medida pela quantidade de citações a trabalhos publicados na revista). Você estranhou a ausência de palavras como qualidade, criatividade e originalidade? Se conversar com um burocrata da ciência, ele tentará te explicar como esses índices englobam de maneira objetiva conceitos tão subjetivos. E não adianta argumentar que Einstein, Crick e Perutz teriam sido excluídos por esses critérios. No fundo, essas pessoas acreditam que cientistas desse calibre não podem surgir no Brasil. O resultado é que em algumas pós-graduações da USP o credenciamento de orientadores depende unicamente do total de trabalhos publicados, em outras o pré-requisito para uma tese ser defendida é que um ou mais trabalhos tenham sido aceitos para publicação.

Não há dúvida de que métodos quantitativos são úteis para avaliar um cientista, mas usá-los de modo exclusivo, abdicando da capacidade subjetiva de identificar pessoas talentosas, criativas ou simplesmente geniais, é caminho seguro para excluir da carreira científica as poucas pessoas que realmente podem fazer descobertas importantes. Essa atitude isenta os responsáveis de tomar e defender decisões. É a covardia intelectual escondida por trás de algoritmos matemáticos.

Mas o que Darwin tem a ver com isso? Foi ele que mostrou que uma das características que facilitam a sobrevivência é a capacidade de se adaptar aos ambientes. E os cientistas são animais como qualquer outro ser humano. Se a regra exige aumentar o número de trabalhos publicados, vou praticar “Salami Science”. É necessário ser muito citado? Sem problema, minhas fatias de salame vão citar umas às outras e vou pedir a amigos que me citem. Em troca, garanto que vou citá-los. As revistas precisam de muitas citações? Basta pedir aos autores que citem artigos da própria revista. E, aos poucos, o objetivo da ciência deixa de ser entender a natureza e passa a ser publicar e ser citado. Se o trabalho é medíocre ou genial, pouco importa. Mas a ciência brasileira vai bem, o número de mestres aumenta, o de trabalhos cresce, assim como as citações. E a cada dia ficamos mais longe de ter cientistas que possam ser descritos em uma única frase: Ele descobriu…

Adademia’s obsession with quantity

Joern Fischer1, Euan G. Ritchie2 and Jan Hanspach1

1 Faculty of Sustainability, Leuphana University Lueneburg, Scharnhorststrasse 1, 21335 Lueneburg, Germany

2 Deakin University, School of Life and Environmental Sciences, 221 Burwood Hwy, Burwood, VIC 3125, Australia

We live in the era of rankings. Universities are being ranked, journals are being ranked, and researchers are being ranked. In this era of rankings, the value of researchers is measured in the number of their papers published, the citations they received, and the volume of grant income earned. Academia today is governed by one simple rule: more is better.

The idea to reward those who are productive seems fine at face value, but that idea has become ideology. Metrics of quantity once were the means to assess the performance of researchers, but now they have become an end in their own right. Ironically, once individuals actively pursue certain indicators of performance, those indicators are no longer useful as independent yardsticks of what they were once meant to measure.

Only a few years ago, a researcher publishing ten papers a year was considered highly productive. Now, leading researchers in ecology and evolution publish 20, 30, or, in some cases, over 40 papers a year, with a tendency for further increases. This volume of papers is attained via large laboratory groups and research consortia, which in turn require massive amounts of funding. Given that successful fundraising is a trusted performance indicator in its own right, funding keeps going to some of the biggest groups, keeping them big or growing them even further. However, a bigger group of researchers does not necessarily produce better science, just more of it. Thus, some research themes of solid (but not necessarily exceptional) quality can dominate the literature, just because they produce many papers. The type of work that ecologists produce is also different compared with just a decade or two ago: papers are shorter; reviews are increasingly quantitative not qualitative; the scope of papers has shifted from local to global; modeling papers are replacing field-based papers; and more papers focus on black-versus-white analyses because there is no journal (or mental) space for nuanced discussions. A recent high-profile example is the polarized debate on whether policy should encourage land sparing or land sharing.

The picture we paint is, of course, stylized. We acknowledge that there are exceptions among the most productive academics, the largest research groups, and the highest impact journals. However, despite exceptions, the overall trend is deeply concerning. Academics are increasingly busy with more papers, more grants, and more emails to keep the machinery going. The modern mantra of quantity is taking a heavy toll on two prerequisites for generating wisdom: creativity and reflection.

Creativity greatly benefits from an environment that is supportive, collaborative, and facilitates trialing new approaches, but suffers from working under excessive pressure. Similarly, reflection is vital for questioning assumptions and learning from experience. The gradual loss of creativity and reflection necessarily will affect our science. Many past landmark papers were full of good ideas, but were speculative and discursive. Would such papers be published today and, if they were, who would read them in depth? Is it possible to obtain and communicate deep insights via ‘twitteresque’ research sound bites?

Beyond the science itself, the quantity mantra is taking a toll on the quality of human interactions and relationships. Supervisors are increasingly too busy to discuss ideas at length with their research students. Academics work long hours, a supposed requirement for success, as if insight, motivation, and wisdom could not also arise from more balanced and family-friendly lives. The stressful environment of academia leads to many talented young people opting out of academia, and can lead to burnout in those who stay.

Along with political and spiritual leaders, academic leaders have a responsibility to help society move towards a better future, where we understand the world better, and use that understanding to live a ‘good life’. However, how can we do this if our professional rat race just mirrors the ills of society at large? Starting with our own university departments (but not stopping there), it is time to take stock of what we are doing. We must recreate spaces for reflection, personal relationships, and depth. More does not equal better.

FONTE: http://blogs.estadao.com.br/herton-escobar/ciencia-brasileira-adere-ao-padrao-salame-de-producao-e-avaliacao-cientifica/