RJ: felizmente ainda existem vozes se levantando contra a segregação imposta pelo (des) governo Pezão

“Não temos o direito de ir à praia, enquanto uma guerra se instaura na cidade” – afirma Pesquisadora

carioca

Na semana passada, a redação do Justificando recebeu a mestranda na Universidade Federal Fluminense (UFF) e membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ Priscila Pedrosa Prisco. A ativista do círculo de cidadania criticou a política de violência do Estado carioca, a comoção seletiva da classe média, entre outros temas ligados ao momento.

Priscila chamou atenção, em primeiro lugar, ao alarde que se tem feito sobre os arrastões. Explicou que os atos infracionais já acontecem há anos, sempre no verão, e para combatê-los são colocadas as polícias nas praias. As novidades, no entanto, são duas: a primeira se refere à antecipação da operação verão nesse ano pelo prefeito Eduardo Paes, enquanto a segunda surgiu da decisão do juiz em acolher o Habeas Corpus impetrado pela Defensoria Pública. A lei, o básico, tem sido interpretada, pelo senso comum, pela imprensa, como um fator impeditivo da polícia trabalhar. Como se a polícia só pudesse trabalhar dessa forma, criticou.

Para a pesquisadora, a adoção da violência policial como política pública acaba por estigmatizar e criminalizar determinados grupos – negros, periféricos, e pobres -, gerando ainda mais violência no cotidiano. Desde que nascem, as crianças das favelas são submetidas à violência. Passam a vida inteira sendo humilhadas, tomando tapas na cara, vendo suas mães apanharem, os amigos morrerem, são torturadas. E você acha que isso não vai ter nenhum reflexo em sua formação como pessoa?, perguntou Priscila.

Espiral de violência

Prisco afirma que todas essas violências, somadas à política policial de barrar e levar para inquérito jovens a caminho dos bairros da zona sul, são nada mais que segregações, políticas de prevenção puramente genéticas, muito próximas das políticas nazistas, absolutamente desconectadas dos efeitos que podem causar no cotidiano. É uma espiral de violência, explica.

“É muito comum você ver os cariocas da zona sul, a classe média se queixando – ah, mas aí nós não temos direito de ir à praia, nós não temos liberdade de ir. Eu creio que não, não temos liberdade de ir e vir, não temos liberdade de ir à praia ali feliz e contente, enquanto uma guerra se instaura na nossa cidade sem que nós, que vivemos na bolha, na zona sul, no cercadinho, não tomemos consciência da situação que acontece nas áreas mais pobres da cidade” – afirmou.

Para ela, essa ausência do “direito de ir à praia” decorre diretamente da falta de importância e relevância que é dada à cotidiana violência sofrida moradores das favelas e outras comunidades menos favorecidas economicamente. Não é possível que uma política pública imponha um nível de violência desse tipo, como impõe nas favelas, nas UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), um nível de violência policial altíssimo, sem que isso vá repercutir nos grupos privilegiados.

“Então quanto mais se pedir o Estado, a violência de Estado, quanto mais se pedir a morte das pessoas na zona norte, nas favelas, mais a gente vai ficar preso. Não é possível você viver numa cidade segregada dessa forma e achar que você não tem nenhuma responsabilidade e que isso nunca vai repercutir na sua vida de rei, né, de príncipe” – finalizou.

FONTE: http://justificando.com/2015/09/28/nao-temos-o-direito-de-ir-a-praia-enquanto-uma-guerra-se-instaura-na-cidade-afirma-pesquisadora/

A culpa não é dos deuses

Por João Batista Damasceno*

alemão

Milan Kundera, em ‘A insustentável leveza do ser’, analisa o mito de Édipo e lhe dá uma interpretação muito valiosa neste momento no qual autoridades fingem-se de vítimas das próprias opções políticas. Os pais de Édipo, Laio e Jocasta, reis de Tebas, quando do seu nascimento, consultaram o oráculo, e este pronunciou que o recém-nascido haveria de matar o pai e se casar com a mãe. O rei mandou que levassem o filho à floresta e que o matassem. Mas o emissário apenas o abandonou por lá. Achado por um camponês, Édipo foi criado como um filho. Na idade adulta, Édipo consultou o oráculo e, horrorizado, fugiu.

Ao tentar entrar em Tebas, um homem tentou impedi-lo, e Édipo o matou, casando-se em seguida com a viúva — a rainha. A desgraça se abateu sobre Tebas. E Édipo, ao descobrir que a maldição decorria do fato de ter matado o pai e ter se casado com a própria mãe, furou os olhos e partiu da cidade.

Kundera diz que Édipo não se desculpou dizendo não saber que a mulher com quem casara era a mãe, não responsabilizou os deuses que lhe reservaram tal destino nem pôs a culpa em terceiros. Assumiu eticamente sua responsabilidade. Para não mais ser enganado pelas aparências, furou os próprios olhos e buscou conhecer a realidade a partir de sua essência.

Quando, em 2007, artistas e intelectuais lançaram manifesto contra a política de extermínio que se instalava, o secretário Beltrame, por trás da lente de seus óculos, disse que o manifesto era míope. A miopia era institucional e só enxergava o Ibope que a matança fazia elevar. A partir da promoção da chacina do Alemão naquele ano, iniciaram-se as ocupações militares e instalações de UPPs. Daí desguarneceu-se o resto do Estado, e foram colocadas em risco a vida dos moradores e a de policiais nas comunidades ‘pacificadas’.

Incapaz de tratar a segurança com seriedade, o Estado responsabiliza os fabricantes de facas pelos ataques com arma branca e tenta imputar responsabilidade ao Judiciário pelas solturas quando das prisões ilegais. O Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo, proporcionalmente à população, e todos os encarcerados o são por determinação judicial. Portanto, quem prende é o Judiciário, que tem contribuído com o ineficaz encarceramento. Se os crimes não tivessem sendo praticados com facas, poderiam estar sendo com tesouras, chaves de fenda ou garrafas. Ou será que a próxima inovação da política de segurança no Rio será a vedação de garrafas de vidro e a obrigatoriedade de envasamento de bebidas, exclusivamente, em garrafas PET? O problema da segurança no Rio está em sua formulação.

João Batista é juiz de direito e doutor em Ciência Política pela UFF. Também é membro da Associação de Juízes pela Democracia.

O fracasso da política de esculacho das UPPs nas comunidades pobres

 

 

 

 

 

 

Por Pedro Porfirio

Deixaram as ruas ao léu e jogaram 10 mil policiais numa guerra cega contra populações criminalizadas

Essa violência sem fim em morros festejados como “pacificados” pela presença assustadora de policiais despreparados é o retrato mais exuberante de um grande fracasso – o da odiosa política de ocupação e humilhação das comunidades proletárias do Rio de Janeiro.

Você deve estar lembrando da propaganda enganosa patrocinada pelo Sérgio Cabral: os bandidos tinham fugido dos morros à simples presença de aparatos policiais. Tendo à frente da Segurança Pública um delegado forasteiro, que quase nada conhecia do Estado do Rio de Janeiro e contando com o patrocínio “generoso” do então bajulado Eike Batista, as tais UNIDADES DE POLÍCIA PACIFICADORA – UPPs vendiam à classe média do asfalto a ideia de que a criminalidade seria vencida esculachando as comunidades onde os bandidos se homiziavam.

Desde a primeira UPP, em dezembro de 2008, no Morro Dona Marta (e não Santa Marta como falam os altos funcionários do governo e uma mídia que não sabe de nada) o governo do Estado do Rio tem insistido nessa estratégia, com o que abandonou as ruas da cidade e transformou cada comunidade numa “faixa de Gaza” sob ocupação: COM ISSO, OS BANDIDOS PASSARAM A VENDER DROGAS NO SAPATINHO E NO DELIVERY, DISPENSANDO OS PRÓPRIOS APARATOS CONTRA INVASÕES DE RIVAIS, JÁ QUE A PM ESTAVA LÁ COM ESSE ESCOPO INIBIDOR. (Escrevi várias colunas a respeito dessa “segurança de fachada”, como você achará pelo Google).

Agora, já não há como esconder o tremendo fracasso dessa política que tentou desmerecer todo um esforço no sentido de levar cidadania às comunidades que abrigam milhares de trabalhadores, as quais tiveram um grande crescimento a partir das décadas de 60/70, quando da implantação do sistema financeiro de habitação pela ditadura, que tornou insuportável o custo dos aluguéis nas áreas urbanas.

Na década de 80, com os CIEPs, centros de educação pública integral, um novo horizonte se descortinou nessas áreas pobres. OFERECIA-SE INSTRUÇÃO COMO MELHOR ALTERNATIVA AO CRIME EM UM PROGRAMA OUSADO, NO QUAL A CRIANÇA PASSAVA O DIA NA ESCOLA (projeto que, a bem da verdade, foi boicotado não apenas pela Rede Globo, mas pelo PT, que travava uma queda de braço com o brizolismo pela hegemonia do campo popular).

Abraçando a visão das elites, que criminalizavam as comunidades pobres como santuários do crime, Sérgio Cabral mandou descer o cacete e espalhou “caveirões”, sobretudo nas áreas de auto-suficiência econômica, com comércio próprio pujante, como na Rocinha, no Complexo do Alemão, no Jacarezinho e na Cidade de Deus.

Por muito tempo, essa política de UPPs encheu os olhos da classe média do asfalto e a especulação imobiliária aproveitou para valorizar imóveis do entorno das comunidades “pacificadas”. Estatísticas não faltaram para dourar a pílula: não é difícil manipular os números diante de pessoas superficiais e acríticas.

Agora taí: a conta que vai sobrar pra gente. As comunidades “pacificadas” estão explodindo e tornando traumática a vida no entorno. Usado por mais de 60 mil carros diariamente, o túnel Zuzu Angel, sob a Rocinha, é o maior emblema da insegurança epidérmica: quem passa por lá, a qualquer hora do dia ou da noite, tem a pressão elevada.

Enquanto isso, as vítimas inocentes da militarização dos morros se sucedem numa cadeia cada vez mais crescente. A última delas, o menino Eduardo Jesus Ferreira, mostra a certeza de impunidade de policiais sem treinamento, que também estão lá jogados na fogueira, numa espécie de “guerra santa” contra quem levantar qualquer suspeita. O garoto de 10 anos estava na porta de casa jogando no celular, que foi confundido por uma arma, segundo seu pai.

Diante dessa tragédia que compromete definitivamente esse modelo de “segurança”, o governador Pezão disse que o Estado vai pagar o sepultamento do menino no Piauí, para onde a família quer retornar.

O mais é pura lorota, porque esse mesmo governador anunciou que vai mandar mais tropas para o Alemão, e policiais nervosos são o único pessoal de que dispõe o governador para lidar com as comunidades pobres.

http://www.blogdoporfirio.com/2015/04/o-fracasso-da-politica-de-esculacho-nas_4.html

Sonho das UPPs cariocas virou pesadelo

Astrid Prange, da redação brasileira da Deustche Welle (Voz da Alemanha)

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Era bom demais para ser verdade. Quando em dezembro de 2008, policiais e soldados ocuparam a primeira favela do Rio de Janeiro, sequer um único tiro foi disparado. De lá para cá, cerca de 40 das 300 favelas cariocas foram “pacificadas”. Traficantes de drogas tiveram que se mudar e procurar novos pontos de venda.

Mas, a menos de 50 dias da Copa do Mundo, o milagre parece estar se esfacelando perante a realidade. A aproximação do torneio de futebol parece atiçar os conflitos que estavam há tempos latentes dentro da sociedade brasileira. As recentes batalhas de rua em Copacabana mostram claramente que ficou para trás o tempo em que no Brasil as questões sociais eram simplesmente “resolvidas” com violência policial.

Ironia do destino, exatamente o governo do PT é que começa a sentir a revolta popular. Seus programas sociais tiraram nos últimos anos milhões de pessoas da pobreza. No entanto, o avanço social foi acompanhado por uma grande desilusão, pois muitos brasileiros logo se deram conta que o crescimento da renda não vem automaticamente acompanhado por mais direitos civis. A revolução da justiça social proclamada pelo PT se volta, paradoxalmente, contra seus próprios criadores.

A diferença entre sonho e realidade é enorme. Mesmo se hotéis de luxo são inaugurados em favelas com vista para o mar, o contraste há séculos existente entre as comunidades negligenciadas e as partes privilegiadas da cidade não foi superado. Moradores das favelas continuam tendo que se contentar com escolas deficitárias, empregos mal remunerados e um sistema de saúde sucateado. Os progressos muitas vezes permanecem longe das expectativas.

E mais: quem mora na favela ainda é considerado como um potencial traficante ou assaltante. A última vítima desse preconceito implacável foi o ajudante de pedreiro Amarildo de Souza, desaparecido desde o ano passado, após ser detido “por engano”, confundido com um traficante por policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha. Testemunhas afirmam que ele foi torturado até a morte. Dez policiais militares envolvidos no incidente estão presos.

O caso Amarildo enterrou para sempre a esperança de uma polícia nova e realmente pacífica. O desejo inicial de moradores de favelas de, finalmente, serem tratados com respeito pela polícia se transformou numa rejeição generalizada ao novo conceito de polícia pacificadora, deixando patente a certeza de que a tortura ainda é um método usado pela polícia brasileira quase 30 anos após o fim da ditadura militar.

Ainda não foi esclarecido se o dançarino Douglas Rafael da Silva Pereira, encontrado morto na terça-feira na favela Pavão-Pavãozinho, foi mais uma vítima dessa violência policial arbitrária. A guerra diária entre polícia e traficantes de drogas pode custar a vida de mais outros inocentes, como Amarildo. A história de sucesso da polícia pacificadora precisa de um milagre para virar realidade.

FONTE: http://www.dw.de/opini%C3%A3o-sonho-das-upps-cariocas-virou-pesadelo/a-17592359

Palácio Guanabara: tempos sombrios aguardam Pezão após a saída de Sérgio Cabral

liceu 2 bCara de poucos amigos de Luiz Fernando Pezão na entrega da obra do Liceu de Humanidades de Campos revela tensão de quem sabe que a situação ainda vai piorar mais até as eleições de outubro.

Quem viu imagens da entrega da reforma inconclusa do prédio do Liceu de Humanidade de Campos viu que o vice (des) governador Luiz Fernando, o Pezão, estava menos sorridente do que o (des) governador Sérgio Cabral. Ainda que aquela “cerimônia” fosse efetivamente para promover a sua candidatura para as eleições de outubro, Pezão manteve na maior parte do tempo uma face sombria.  Os motivos que podem ter causado aquele estado de ânimo são múltiplos, mas a verdade é que Cabral está saindo do seu (des) governo deixando uma herança tão maldita, que nem a máquina que o PMDB tem nas mãos está sendo suficiente para alavancar a imagem de Pezão que, pasmem, está no posto que ocupa há 7 anos. Se sua candidatura não deslancha não é por causa da sua personalidade flácida ou da sua falta de oratória. O Brasil já elegeu personagens que reconhecidamente eram piores do que Pezão, alguns até em primeiro turno.

Em relação à Pezão, eu diria que no caso das universidades estaduais, ele já andou perdendo chances de ser um contraponto à Sèrgio Cabral em vários momentos. No caso específico da UENF, Pezão chegou a se reunir com a diretoria da ADUENF, prometeu resolver o problema em uma semana, e depois sumiu na poeira.  Esse episódio certamente vai pesar na hora em que Pezão vier procurar apoio dos docentes não apenas da UENF, mas também da UERJ e da UEZO. E o problema é que ao longo do tempo em que Sérgio Cabral e Pezão comandam o (des) governo no Rio de Janeiro, as universidades estaduais foram sendo paulatinamente massacradas a partir de uma política de asfixia financeira que deixa (des) governantes ainda menos queridos parecendo, por comparação, exemplos de tempos que já foram melhores.

Mas esqueçamos as universidades estaduais por um minuto. Se olharmos a situação dos serviços públicos de transporte, a situação é incrivelmente ainda mais trágica. A coisa anda tão ruim sob a batuta de Cabral e Pezão que especialistas da área estimam que o Rio de Janeiro está à beira de um colapso. Sinais disso não faltam nas barcas, metrô e trens urbanos, o que é complementado pela política “arrasa quarteirão” que o (des) prefeito Eduardo Paes adotou na cidade do Rio de Janeiro. Ir ao Rio de Janeiro hoje é quase como padecer no paraíso, caso o destino seja a zona sul. Se for do centro para outras regiões da cidade, a coisa está mesmo para inferno.

Para aprofundar os problemas de Pezão até a decantada políticas das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) está visivelmente fazendo água e parecendo o que realmente é: uma intervenção policial militar em regiões pobres com o objetivo de promover e/ou facilitar a remoção de milhares de famílias para regiões mais distantes, normalmente para o interior de unidades habitacionais de tão exíguo e qualidade duvidosa. Aliás, os cubículos para onde estão sendo empurrados no Rio de Janeiro só servem mesmo para enriquecer ainda mais os donos das grandes construtoras que, surpresa das surpresas, têm sido as principais financiadoras das campanhas do PMDB fluminense.

Diante desse quadro, posso até entender porquê Pezão parecia tão abatido na visita ao Liceu de Humanidades de Campos. O problema para ele é que a partir de 04 de Abril, a herança maldita de Sérgio Cabral será toda dele, e ai quero ver sobrar tempo para fazer campanha eleitoral.

FSP: Novos ‘Amarildos’ surgem após violência policial no Rio

LUIZ FERNANDO VIANNA, ESPECIAL PARA A FOLHA, DO RIO

A revolta provocada pela morte do pedreiro Amarildo de Souza, torturado na sede da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) da Rocinha em julho, criou ou renovou forças em mulheres que buscam justiça para seus parentes, alvos de agentes do Estado.

Amiga de uma irmã de Amarildo e moradora há 50 anos da favela, a diarista Maria de Fátima dos Santos Silva, 54, nunca procurou advogados ou promotores para falar sobre o caso do seu filho.

Hugo Leonardo dos Santos Silva, 33, foi assassinado em 17 de abril de 2012, quando a ocupação policial preparava a instalação da UPP na favela. Mirelle Araújo, sua irmã, conta que viu cinco policiais, dois civis e três militares, indo atrás dele num beco.

Quando ela chegou ao lugar, o primeiro tiro já tinha atingido a barriga de Hugo. O disparo provocou uma discussão entre os policiais. Mas outros dois tiros foram dados. O último acertou a cabeça.

  Marcio Isensee e Sá/Folhapress
Viviane (à esq.) e Daiana, respectivamente, irmã e mulher de presos, dizem que eles são inocentes
Viviane (à esq.) e Daiana, respectivamente, irmã e mulher de presos, dizem que eles são inocentes

O caso foi registrado na 15ª DP (Gávea) como auto de resistência, que é quando há troca de tiros. Nunca foi apresentada, porém, a arma com que Hugo estaria.

Ele, que deixou dois filhos, trabalhava como entregador e fazia “fretes” na Rocinha – levava cargas nos ombros a partes altas da favela.

“Ele era usuário de drogas, mas não era traficante. Os policiais perseguiam, ficavam querendo que ele apontasse o pessoal do tráfico”, afirma Maria de Fátima.

Ela diz não ter feito nada antes porque sua família foi ameaçada. Depois do caso Amarildo, tem participado de manifestações e se informado sobre como reivindicar seus direitos.

“No dia em que o Hugo morreu, passou na TV: ‘mais um traficante morto em troca de tiros’. Isso não sai da minha cabeça. Preciso limpar o nome dele”, diz ela, para quem a violência policial aumentou com a UPP. “Têm muitos Amarildos e Hugos Leonardos por aí.”

‘VEM COMIGO’

Em 13 de julho, a Operação Paz Armada subiu a Rocinha com 20 mandados de prisão temporária e desceu com 58 detidos. Um dos excedentes era Ricardo Santos Rodrigues da Silva, 34, que nos três meses anteriores vinha denunciando abusos de PMs da UPP.

Já tinha sido detido por desacato ao brigar com um policial que o mandou interromper uma festa que organizava. Na madrugada do dia 13, segundo conta em carta escrita àFolha, estava desmontando os brinquedos infantis de outra festa quando um policial lhe disse: “Vem comigo, Ricardinho”.

Conhecido na favela como Ricardo PSV, alusão ao nome do time em que jogava futebol às quintas-feiras, ele disse que era engano, reagiu, foi agredido e levado para a sede da UPP.

“A sorte é que ele disse: ‘Conheço o pessoal dos direitos humanos. Se fizerem algo comigo, vocês vão se ferrar’. Podia ter sido outro Amarildo”, conta sua mulher, Daiana Azevedo, 28.

Ela está cuidando da lan house do casal. Perdeu o emprego num restaurante por causa das visitas a Bangu 4, todas as quartas e sábados.

Nos dias 6 e 7 de novembro, duas reportagens da imprensa do Rio, baseadas em informações da polícia, afirmaram que Ricardo Santos Rodrigues da Silva, conhecido como Ricardinho 157, estava participando de uma guerra entre facções rivais.

Além da confusão de nomes -pois existe um Ricardinho e um Rogério 157, mas nenhum deles é Ricardo PSV- o homem que a polícia dizia estar dando tiros na rua estava, na verdade, preso havia quatro meses.

“Não queria que ele se envolvesse com direitos humanos, porque sei que todos acabam perseguidos pela polícia. Mas agora eu mostro a cara. Ele não tem mulher, tem uma aliada”, afirma Daiana.

Amigo de Ricardo, Victor Hugo da Silva, 26, estava desempregado em 13 de julho, quando foi levado com outros homens para uma casa em que policiais perguntaram sobre armas e drogas e fizeram ameaças.

Embora sem antecedentes criminais, está até hoje em Bangu 4, onde outros presos o chamam de “chorão”, por causa de seu desespero permanente. Ele e Ricardo ainda não prestaram depoimento, seja à polícia ou à Justiça. Victor diz, também em carta à Folha, que só em agosto, no presídio, descobriu que era acusado de ser um dos gerentes do tráfico na Rocinha.

“Você acha que, se ele fosse gerente do Valão (área da favela), moraria aqui e eu não teria dinheiro nem para visitá-lo na prisão?”, pergunta Viviane da Silva, 27, no apertado quarto do irmão.

Ela perdeu um emprego para se dedicar à libertação de Victor, que tem três filhas. Ajudante de pedreiro, Bruno Fernandes Pinheiro, 23, está em Bangu 4, embora sem ligação comprovada com o tráfico. Escreveu carta contando que tem carteira assinada. Em 2007, o governador do Rio, Sérgio Cabral, chamou a Rocinha de “fábrica de produzir marginal”.

FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/12/1382407-novos-amarildos-surgem-apos-violencia-policial-no-rio.shtml