Recentemente postei aqui uma nota sobre a evolução de produtos orgânicos na França, e acabei notando uma repercussão mais alta do que esperava. Uma das pessoas que respondeu ao que escrevi frisou o fato de que a questão da comida orgânica está muito longe do “povão”. Esse é um aspecto verdadeiro do debate, apesar dos esforços sendo feitos em diferentes partes do mundo, no Brasil inclusive, para que evitemos cair na falácia de que impediremos a fome no mundo apenas com a agricultura da “Revolução Verde” (Aqui!).
Em uma conversa informal com uma colega que trabalha na área de questões ambientais na agricultura para a “Organization for Economic Co-operation and Development” (OCDE) durante minha recente viagem ao exterior, debatemos exatamente o problema do tipo de agricultura que deveremos apoiar para garantir comida saudável e com alta diversidade nos itens que compõe a dieta humana.
A primeira questão que apontei para a minha colega foi de que o modelo da “Revolução Verde” nos empurra cada vez mais para uma agricultura de baixa diversidade e fortemente ancorada no binômio “sementes geneticamente modificadas + agrotóxicos” cujos únicos interessados são as corporações que hoje controlam a produção, circulação e comércio de alimentos.
Nesse sentido, iniciativas que apoiem a agricultura familiar e a agroecologia não podem ser mais ignoradas ou rotuladas como coisas excêntricas e démodé ou, pior, frutos apenas do extremismo anti-tecnológico. Um exemplo do esforço de contribuir positivamente para o debate em torno da produção saudável de alimentos é a Articulação Nacional de Agroecologia (Aqui!), a qual representa um esforço articulado de contrapor um modelo alternativo ao da “Revolução Verde”.
Apesar de ser verdade de que o consumo de produtos orgânicos é concentrado em nichos da população mais abastada, este fato não deveria ser justificativa para que não busquemos ampliar as camadas da população com acesso à comida saudável. Aliás, o esforço deve ser todo para que haja a devida superação do paradigma da Revolução Verde, e que especialmente os menos abastados possam ingerir comida livre de transgênicos e agrotóxicos. Nesse sentido, a superação do paradigma dominante se torna uma questão de saúde coletiva e de aumento da equidade social.
Entretanto, há que se reconhecer que, no caso brasileiro, a oposição e desqualificação da agroecologia como alternativa viável ao modelo dominante de concentração da propriedade e de uso da terra começa dentro das próprias universidades. Ai urge fazermos o debate sobre o “conjunto da obra” que vai da esdrúxula concentração da propriedade ao tipo de sementes e sistemas agrícolas que estão sendo aquinhoados como a maior parte do fomento público. Caso contrário, continuaremos presos a uma lógica em que comida saudável só mesmo para as classes altas e intelectuais de coleira.
Finalmente, quero enfatizar que nos países centrais, os ditos desenvolvidos, o combate pelo direito à comida saudável está em alta, inclusive com grandes cadeias de supermercados aderindo ao modelo “orgânico” como mostra a imagem abaixo. A questão é se aqui na periferia, vamos aceitar sermos os consumidores do rebotalho do que a população dos países ricos não aceita mais em suas mesas.
O banner postado numa loja da rede estadunidense “Shop and Save” diz “Orgânico: alimentos saudáveis para uma vida saudável”.
