Por que o desrespeito aos terceirizados é tão facilmente acatado socialmente?

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Uma coisa que tem me intrigado é do porquê de tantos colegas meus agirem com extrema naturalidade frente à informação de que os servidores terceirizados que atuam na segurança  na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) estão sem ter seus salários pagos há CINCO meses! Além disso, outro grupo se encontra desprovido de direitos garantidos pela legislação, incluindo o auxílio transporte e o vale refeição.

Algo que deveria deixar qualquer um chocado chegou a merecer um elogio por um professor na última assembleia dos professores da Uenf que apontou para o “altruísmo” dos servidores que estavam trabalhando sem receber, enquanto nós estaríamos de braços cruzados enquanto os salários estão sendo, mesmo que atrasadamente, pagos. Mesmo o sorriso amarelo após eu me posicionar sobre este posição absurda não apagou o fato de que para alguns os direitos só valem para os segmentos mais abastados da população brasileira.

Mas mas não é só na Uenf que essa situação de completo desrespeito aos que tiveram suas funções terceirizadas ocorre, visto que quase todos (senão a totalidade) dos órgãos estaduais do Rio de Janeiro abrigam hoje trabalhadores que trabalham, mas não recebem. 

A situação é tão esdrúxula, já que trabalho sem salário equivale à uma particular de escravidão, que temos visto mobilizações ocorrendo nos órgãos estaduais (principalmente na área de educação) centradas na demanda de pagamento dos terceirizados. As ocupações de unidades educacionais da rede Faetec são um exemplo disso. E mesmo na Uenf, temos tido ações de solidariedade para coletar doações voltadas para adquirir alimentos para estes trabalhadores que trabalham sem receber.

Entretanto, não vejo muita mobilização fora dos locais de trabalho para que os direitos dos trabalhadores terceirizados sejam respeitados. Pode-se dizer que não há ninguém batendo panela por esses trabalhadores ou, tampouco, manifestações exigindo o impeachment de Luiz Fernando Pezão e Franciso Dornelles por permitirem tamanho abuso contra milhares de trabalhadores que não possuem nenhuma outra fonte de sobrevivência que não seja seus próprios salários.

Para mim, essa falta de solidariedade demonstra a natureza intrínseca das regressões cotidianas que estão sendo submetidos pelo governo interino de Michel Temer. Há sempre que se lembrar que o impeachment de Dilma Rousseff foi turbinado por milhares de brasileiros que queriam mudar o Brasil. Agora, fica evidente que a mudança que aquelas multidões demandavam não alcança o direito básico de todo trabalhador que é receber após trabalhar. Se for terceirizado então, aí é que o bicho pega.

Há ainda que se lembrar que aprofundar a terceirização para todos os cargos é uma das promessas que Michel Temer tentará cumprir após sacramentar . Deste modo, se a situação que os terceirizados do serviço público fluminense enfrentam hoje pode ser apenas um aviso do futuro obscuro que aguarda os trabalhadores brasileiros.

Finalmente, para quem acha que minha posição acerca da terceirização como uma forma pós-moderna de escravidão, sugiro a leitura de uma entrevista feita com o professor Ricardo Antunes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) ao Portal Fórum onde ele coloca essa situação de forma bastante clara (Aqui!).

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