Duas décadas de doutorado e a longa estrada à frente

doutor

Hoje completam-se duas décadas desde que eu defendi a minha tese de Doutoramento na Virginia Polytechnic Institute and State University, e claro tenho muito o que celebrar. Vindo de uma família de camponeses e trabalhadores fui o primeiro do lado paterno a ter um diploma de graduação, depois um de mestrado, e finalmente um de doutorado. Essa marcha entre as serras escarpadas do Paraná e as montanhas dos Apalaches na Virgínia poderia ser usada pelos defensores da meritocracia que o Capitalismo funciona para os que querem. Mas sei que não é bem assim. O fato é que para cada um que têm exito em ultrapassar as limitações impostas pela divisão de classes existente no sistema capitalista, existem milhares para  quem é negado sequer o direito a viver, como foi o caso recente do menino João Victor Souza de Carvalho, assassinado por funcionário da rede Habib´s apenas por estar pedindo comida. É que no Brasil nada meritocrático ser pobre e negro é quase como nascer com uma sentença de morte.

Assim, eu sei bem que o meu desenvolvimento acadêmico não tem só a ver com o meu esforço pessoal, e que a minha jornada só foi possível pela solidariedade e generosidade das muitas pessoas que cuidaram para que eu pudesse ter a melhor educação possível, fosse aqui no Brasil ou nos EUA. Nesse quesito tenho que citar meus orientadores Irving Foster (Iniciação Científica), Luis Drude de Lacerda (Mestrado), Virginia H. Dale (Pós-Mestrado), e John O. Browder (Doutrado). A seu modo, cada um deles me preparou para continuar a labuta de formar novos quadros para a ciência brasileira.

Além disso,  eu só posso me considerar uma pessoa de muita sorte, pois nunca me faltaram as pessoas a me apoiar e me apontar o caminho a ser seguido. A essas pessoas serei sempre imensamente grato.

Vinte anos depois do dia em que realizei o último ato acadêmico da minha formação, penso que é mais necessário do que nunca enfatizar o papel do ensino público e gratuito, e do financiamento estatal da ciência. É que sem a escola pública e as verbas investidas na minha formação pelo governo federal, não haveria como me sustentar dentro de uma universidade como a UFRJ, onde passei anos formativos que me prepararam para o desafio de um doutoramento numa sólida universidade estadunidense.

Por entender essa importância do ensino público para nossos jovens é que não me deixo abalar sequer pela falta de pagamento dos meus salários pelo (des) governo Pezão. Vindo de onde eu vim, sei bem o que é viver com orçamento curto e sem muitas regalias. Além disso, tenho consciência de que a falta do pagamento devido pelo trabalho que exerço é parte de uma estratégia de desmoralização dos que cotidianamente labutam para que a juventude fluminense possa frequentar universidades públicas que lhes oferecem a possibilidade de um horizonte mais amplo na vida. Por isso, não serei desmoralizado por um governo que aposta nas trevas e se mostra um opositor cabal dos melhores valores que a Ciência pode incutir em nossos jovens. 

Uma última palavra nesse dia vai para os pesquisadores, camponeses, seringueiros e povos indígenas de Rondônia com quem pude interagir durante o período em que coletei os dados que deram sustentação empírica à minha tese de Doutorado. Eu os carregarei sempre no coração, pois foi com eles que aprendi as minhas maiores lições como ser humano. Na foto abaixo, estou com meu companheiro de pesquisa, o hoje doutor Raimundo Cajueiro Lenadro em algum momento do ano de 1996, um dos que me ensinou como andar pelas terras rondonienses de olhos e coração abertos.

cajueiro

3 pensamentos sobre “Duas décadas de doutorado e a longa estrada à frente

  1. Otávio Januário da Silva disse:

    Parabéns! É sempre bom ver e ouvir gente que com muita luta e ajuda de familiares e amigos, conquistou vitórias

  2. Abilio Maiworm-Weiand disse:

    Nobre Pedlowski.
    Parabéns pela caminhada, as lutas e conquistas, pela clareza de sua própria trajetória inserida na luta maior do nosso Povo pela sobrevivência, por seu emocionante texto e pelo exemplo tanto à juventude quanto a muitos acadêmicos cuja maior preocupação é com a conta bancária.

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