O Estado é o comitê executivo da burguesia, por que tanta surpresa com as “doações” da Odebrecht?

A ideia de que “o Estado é o comitê executivo da burguesia” foi incluída por Karl Marx em 1848 na obra Manifesto do Partido Comunista.  De lá para cá, o que se viu foi uma progressiva erosão de quaisquer possibilidades de demonstrar que Marx havia exagerado em seu vaticínio.

As razões para que o Estado seja uma espécie de clube privado da burguesia já foram arroladas por diferentes autores desde a publicação do Manifesto. Mas uma análise das razões pelas quais o sistema capitalista tornou-se cada vez mais um antítese das aspirações democráticas que foram lançadas pelos pensadores contratualistas é apresentada no livro “Democracia contra Capitalismo” da falecida pensadora marxista canadense Ellen Meskins Wood (Aqui!).

Faço essa preâmbulo apenas para estranhar que ainda haja tanta surpresa com as revelações feitas pelos donos e diretores da empreiteira Odebrecht sobre o financiamento de campanhas eleitorais e eventuais compras de favores do congresso nacional.  É que essa é uma velha novidade, e que já estava estampada nas prestações de contas que vieram a público após a adoção de mecanismos minimalistas de prestações de contas de campanhas eleitorais pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Além disso, há que se lembrar que todos esses mecanismos de aquisição da boa vontade e serviços de partidos eleitorais por parte das corporações privadas não são algo restrito ao parlamento nacional. Se olharmos a atual condição da democracia estadunidense veremos que a eleição de Donald Trump é uma excelente síntese do tipo de controle que o dinheiro acabou tendo nas eleições presidenciais da principal potência militar e econômica mundial. Afinal, ele supostamente financiou e venceu as eleições das quais participou. E rapidamente encheu os ministérios com indivíduos com forte relação com as corporações privadas, a começar pelo secretário de Estado, Rex Tillerson, que foi o Chief Executive Officer (CEO) da ExxonMobil entre 2006 e 2016.

No caso do Brasil há ainda que se ressaltar que o regime militar de 1964 instalou mecanismos bastante precisos de compra de votos no parlamento fantoche que os generais instalaram após a derrubada do governo constitucional de João Goulart. Como no processo de transição conservadora que foi operado em 1985 esses mecanismos não foram dissolvidos é quase natural que ainda vivamos sob a influência de um parlamento que olha mais para os interesses das corporações privados do que para as necessidades da maioria da população brasileira.  

Assim, não há nada de surpreendente no que vem sendo revelado pela mídia corporativa que, aliás, exacerba os defeitos e desvios dos partidos políticos também para desviar a atenção de seus próprios malfeitos. Afinal de contas, quem é inocente a ponto de achar que todo o falso moralismo que está aparecendo nos telejornais tem algum tipo de relação de práticas ilibadas por parte dos proprietários dos canais que os transmitem?

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