Cem anos depois, Michel Temer está entregando as chaves do Palácio de Inverno. Onde estão os bolcheviques para recebê-las?

100 anos

A atual conjuntura brasileira, marcada por uma disputa fraticida entre setores das classes dominantes, reflete uma daquelas raras oportunidades históricas para as classes “de baixo” inverterem as regras do jogo político burguês, e reclamarem o poder para si.   Essa janela de oportunidade já se abriu há quase 100 anos na Rússia, e permitiu que o partido Bolchevique saísse de uma plataforma basicamente reformista e partisse diretamente para a tomada do poder. Basta para isso que os dirigentes do partido, a começar por Lênin, aceitassem a tarefa histórica que se vislumbrava e avançassem o seu programa, o que permitiu a realização da primeira revolução proletária no planeta.

Tomando por comparação, a situação em que se encontra o Estado burguês brasileiro neste momento, engolfado por uma recessão econômica abissal e uma crise política igualmente profunda, mostra que resta pouco espaço de manobra para as elites, o que se reflete numa incrível sucessão de patacadas entre segmentos da mídia corporativa que, até bem pouco tempo, pareciam irmãos siameses de tão próximas que eram suas matérias e manchetes.

Agora que as revelações dos irmãos Joesley e Wesley Batista trataram de triturar essa aparente unidade, vê-se que o plano de retornar o Brasil para o Século XIX faz água a céu aberto, e a confusão instalada é monumental, pois não há qualquer pista para qual seria a saída unificada para as elites burguesas.

Entretanto, por que então não vivemos nada parecido com a efervescência que marcou o período entre Fevereiro e Outubro de 1917? Primeiro, porque objetivamente os partidos que se reclamam de esquerda no Brasil possuem quadros intelectuais do porte de Vladimir Lênin, Leon Trotsky, Alexandra Kollontai, Lev Kamenev ou Grigori Zinoviev, apenas para nomear alguns dos principais dirigentes bolcheviques.  Aliás, nem nada próximo a Josef Stalin que poderia não ser um primor teórico, mas sabia manusear muito bem a máquina clandestina do Partido Bolchevique.

A verdade é que a esquerda brasileira não se ressente apenas de quadros de porte. O problema é igualmente profundo na questão do programa.  Agora que o governo “de facto” de Michel Temer tem convulsões terminais, o que demandam os partidos da esquerda institucional? Eleições diretas! O que é objetivamente insuficiente para as tarefas históricas que se apresentam num momento de uma profunda crise sistêmica do Capitalismo.  A hora agora seria de avançar bandeiras democráticas como a Assembleia Constituinte e a da reforma agrária no campo e na cidade.  Além disso, teríamos que estar ouvindo o chamados para a constituição de conselhos populares que pudessem unificar os trabalhadores do campo e da cidade com a juventude.  Entretanto, além dos atos-show, nada parecido com essa agenda mais avançada é oferecida à classe trabalhadora, o que explica a dificuldade de potencializar a revolta que já está claramente disseminada na população contra a regressão que estava sendo executada por Michel Temer e seus aliados no congresso nacional.

O fato é que há que se cobrar dos setores que se reclamam para além da esquerda institucional que saiam da inércia e coloquem essas bandeiras nas ruas, de forma a armar a classe trabalhadora com uma agenda de efetiva transformação da realidade que está posta por Michel Temer e seus aliados. Do contrário, o que virá certamente será um misto de repressão policial com tomada ainda mais profunda dos direitos sociais e trabalhistas por meio de um governo biônico que será gestado pelos setores hegemônicos das elites nacionais.

E se isso acontecer, que não se culpe a classe trabalhadora e a juventude.  É que Michel Temer está praticamente entregando de graça as chaves do Palácio de Inverno (que na sua versão tupiniquim atende pela alcunha de Palácio do Jaburu).

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