New York Times: revistas predatórias como exemplo da lei da oferta e da procura

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O jornal estadunidense “The New York Times” publicou no dia 30 de Outubro uma matéria assinada pela jornalista especializada na área de ciências Gina Kolata, a qual ganhou uma versão em português que foi publicada pela Folha de São Paulo no dia seguinte [1 e 2

Antes de me deter no conteúdo do artigo de Gina Kolata em si, tenho que notar que o título em inglês é bem mais expressivo do que a tradução feita dele por Paulo Miggliaccio. É que trocado em miúdos, o título original diz que “muitos acadêmicos estão ansiosos para publicar em revistas sem valor”.  Do ponto de vista acadêmico, essa é uma acusação grave e direta a muitos pesquisadores que, para inflar seus currículos, não tem nenhum pudor em publicar artigos em revistas reprodutoras de lixo científico. Ou nas palavras do professor Jeffrey Beall, em “predatory journals”.

O problema central do artigo de Gina Kolata é que tal disposição de engordar currículos sem ligar para o que ou quem publica está contribuindo para um processo de descrédito mundial da ciência que possui riscos maiores do que a caída em desgraça de algum pesquisador que conscientemente optou por colocar artigos numa dessas revistas “caça-niqueis”.  O principal deles é que se perca de uma vez os devidos balizamentos do que realmente é ciência e o que é lixo científico . 

Outro aspecto que fica claro nos fatos elencados na matéria é de que apesar de alguns publicarem nas revistas predatórias por terem sido levados ao erro, há um número crescente de acadêmicos que o fazem de forma deliberada, visando alcançar ganhos que só são disponibilizados para aqueles que demonstrem alto nível de produção de artigos, independentes de sua qualidade ou valor científico.

Aqui mesmo no Brasil vivemos as consequências do uso sem xeques de publicações em revistas predatórias, visto que o problema continua sendo propositalmente ignorada pelas agências de fomento e permanece submetido a um silêncio sepulcral dentro da comunidade científica. A atual escassez de recursos para pesquisa certamente está servindo como incentivo adicional para o uso de revistas predatórias. É que, apesar do brutal encurtamento de financiamentos para a ciência e tecnologia, não houve qualquer discussão séria sobre mudar critérios de avaliação dos programas de pós-graduação ou de concessão de verbas de pesquisa por parte dos órgãos de fomento.

De todo modo, me parece um alento que cada vez mais a questão das revistas predatórias esteja sendo objeto de investigação por parte da mídia. É que claramente o assunto ainda não foi tratado da forma que deveria ter sido pela comunidade científico e pelos órgãos de financiamento.  Com esse interesse crescente quem sabe a comunidade científica brasileira comece a sair das sombras para discutir esse e outros temas que ameaçam a sobrevivência do sistema nacional de ciência e tecnologia.


[1] https://www.nytimes.com/2017/10/30/science/predatory-journals-academics.html

[2] http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2017/10/1931826-para-inflar-curriculos-pesquisadores-publicam-em-revistas-caca-niqueis.shtml

 

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